330 anos do gênio de Johann Sebastian Bach

330 anos do gênio de Johann Sebastian Bach
A assinatura de Bach

Publicado no Sul21 em 28 de março de 2015

Talvez, para nosso tempo, seja difícil entender o homem que foi Johann Sebastian Bach. Ele nasceu há 330 anos, em 21 de março de 1685 (*), no que hoje é a Alemanha, numa família de músicos. Era um tempo em que era comum os filhos adotarem a profissão dos pais. Na região da Saxônia, o nome Bach era de tal forma relacionado à música que alguém com tal sobrenome só poderia ser músico e provavelmente trabalhava em alguma igreja. Seguindo a árvore genealógica da família Bach, dos 33 Bach homens, 27 foram músicos. Só que o talento explodiu espetacularmente no menino Johann Sebastian. É claro que ele, além de exercer outras funções, também trabalhou como Kapellmeister — termo que designa o diretor musical de uma igreja.

Durante um longo período de sua vida, escreveu uma Cantata por semana. Em média, cada uma tem 20 minutos de música. Tal cota, estabelecida por contrato, tornava impossível qualquer “bloqueio criativo”. Pensem que ele tinha que escrever a música e ainda ensaiar. Isso fez com que ele nos deixasse uma imensa obra vocal. Também escreveu muito para um instrumento fora de moda, o órgão. E, se em Weimar as obrigações de Bach estavam prioritariamente vinculadas ao serviço religioso e como organista na corte cristã, na corte calvinista de Köthen, Bach pode dedicar-se à música secular, criando um dos mais imponentes e impressionantes conjuntos de obras solo para teclado, violoncelo, flauta e violino da história da música ocidental. Deixou-nos mais de 1000 obras de todos os gêneros, à exceção da ópera.

Obs. sobre o vídeo acima: na época, era proibido que as mulheres cantassem em igrejas.

Como dissemos, ele era um homem de outra época. Bach, por exemplo, não se preocupava em construir uma obra. Aliás, em seu tempo não existia a noção de “obra” de compositores. A música era consumida e esquecida. Como seus contemporâneos, Bach compunha sem a preocupação de colecionar-se, tanto assim que uma parte de sua produção foi perdida. O que se sabe de forma consistente a respeito de Bach é uma série de curiosidades: suas brigas com os empregadores, sua prisão, seus muitos alunos, os dois casamentos, os 20 filhos, a produção própria de cerveja e algumas poucas anotações pessoais.

Uma única anotação é muito célebre e pessoal. Johann Sebastian havia feito uma longa viagem de trabalho e ficara dois meses fora. Ao retornar, soube que sua mulher Maria Barbara e dois de seus filhos haviam falecido. Dias depois, profundamente triste, Bach, em seu luto, escreveu no alto de uma partitura um pedido: Deus meu, faz com que eu não perca a alegria que há em mim. Se a criatividade fazia parte da “alegria” que tinha receio de perder, isso nunca aconteceu.

Emil Cioran escreveu que A música de Bach é o único argumento que prova que a criação do universo não pode ser vista como um grande erro e que Sem Bach, Deus seria apenas um mero coadjuvante. Os ateus gostam de contestar a religiosidade de Bach tendo por base as muitíssimo pragmáticas trocas de documentos entre Bach e os religiosos, mas nada sustenta tal tese. Talvez o que os perturbe sejam as constantes afirmações de melômanos ateus de que, durante a execução de algumas obras sacras de Bach, principalmente a Missa em Si menor, dizem acreditar em Deus por duas horas.

Pois Bach tem disso: pode-se passar horas analisando uma passagem simples, a duas vozes, procurando entender a razão pela qual o compositor obteve aquela sonoridade fantástica. É incompreensível e passamos a pensar que Cioran não exagerou. Simplesmente não se entende porque algo tão simples é tão profundo. Parecem notas normais, que qualquer um poderia ter escrito, mas elas não soam assim. Porém, muitas vezes é algo complicadíssimo, mas também funciona da mesmo forma. Com Mahler, sabe-se que algo vai soar grande, enxerga-se tudo, mesmo na passagem mais complexa. Enquanto que em Bach… O primeiro compasso da Paixão Segundo São Mateus já é capaz de arrebatar. Ali já se encontra toda a profundidade que esta obra vai carregar durante três horas. Ouve-se o baixo, e pronto, lá está uma inversão da melodia principal. Ouve-se a linha do coral, e também é uma consequência desta. Toda a obra é erguida sobre pilares limpos, claros, simples. E, no entanto, ninguém conseguiu ombrear-se a tal domínio artístico.

Em vez de adjetivar exageradamente uma série de obras bachianas, vamos tomar por base o texto 10 (petites) choses que vous ne savez (peut-être) pas sur Jean-Sébastien Bach para caracterizar fatos da vida do compositor. Ampliamos em muito a matéria original, retiramos e acrescentamos outros itens.

 16 (pequenas) coisas que (talvez) você não saiba sobre Bach

1. A prisão

Johann Sebastian Bach esteve quase um mês na prisão — entre 6 de novembro a 2 de dezembro de 1717 — durante seu período em Weimar. O crime era o de traição a seu patrão. Fora-lhe recusado o cargo de Kapellmeister na cidade, e ele solicitou permissão para partir e tentar a sorte em outro lugar. Queria o posto de maestro em Köthen. Bach insistiu e insistiu para ser demitido. Acabou preso. De acordo com o relatório do tribunal, o motivo da prisão foi o de “forçar a sua demissão”. Era, decididamente, outra época.

2. A infeliz operação de catarata

O grande doutor John Taylor (1703-1772) operou duas vezes a catarata de Bach em 1750. Fez o mesmo com Handel em 1753. Fracassou com ambos. Pior, matou Bach, enfraquecido após as cirurgias, e deixou Handel inteiramente cego.

3. O medo na concorrência

Durante uma viagem a Dresden em 1717, houve uma brincadeira entre aristocratas. Foi organizada uma competição para decidir quem tinha mais habilidades para a improvisação: se Johann Sebastian Bach ou Louis Marchand, famoso cravista e organista francês. Na véspera da grande “luta”, ao entrar num salão, Marchand deu de cara com Bach ensaiando. Foi o suficiente. Marchand deixou um recado onde alegava uma doença súbita e fugiu de madrugada.

4. O trabalho não era fácil

Ser Kappellmeister não era simples. Regente do coro da igreja, da orquestra, compositor, ensaios e mais ensaios, além de professor de música e catecismo. Em relatório de 1706, quando tinha 21 anos, Bach dizia mais: que as crianças “já não temem seus professores, elas até mesmo lutam em suas presenças, carregam espadas e pedras não somente pela rua, mas também na sala de aula.”

5. Bach teve 20 filhos

Aos 22 anos de idade, casou-se com uma prima, Maria Barbara Bach. Deste casamento, ele teve 7 filhos, dos quais sobreviveram quatro:  Catharina Dorotheia, Johann Gottfried Bernhard e os compositores Wilhelm Friedmann e Carl Philipp Emanuel. Maria Barbara morreu em maio de 1720. Depois de algum tempo, ele conheceu a soprano Ana Magdalena Wilcken e casou-se pela segunda vez em 1721. Teve 13 filhos com ela, dos quais 7 faleceram ainda bebês. Sua casa, ainda acrescida de diversos alunos residentes, era lotada. Como ele arranjava tempo para compor?

6. O desamor de Leipzig

Se Bach é apelidado hoje de O Kantor de Leipzig, não podemos dizer que a cidade lhe desse uma contrapartida afetuosa. Seus chefes eram rápidos para lembrá-lo de sua “incompetência”. Em 1727, um assessor escreveu que Bach não compusera nada durante todo o ano. Hoje, sabemos que ele, como sempre, trabalhou louca e produtivamente naquele ano. Em 1730, ele foi repreendido e advertido pelo mesmo motivo. Quando de sua morte, um jornal da cidade publicou uma notinha onde dizia que “um homem de 67 anos (ele tinha 65), o Sr. Johann Sebastian Bach, maestro e Kantor na Escola St. Thomas”, morrera. Nada mais.

Um dos poucos retratos de Johann Sebastian bach
Um dos poucos retratos de Johann Sebastian Bach

7. Ausente das aulas

O maestro John Eliot Gardiner enfatiza a violência do ambiente em que o compositor passou a infância. Eram comuns as rivalidades entre gangues, as brigas entre estudantes e as maldades sádicas. O menino Johann Sebastian esteve ausente por 258 dias em seus três primeiros anos de escola. O motivo mais comum para tais ausências era a violência. Isso em um sistema escolar que ensinava preceitos religiosos por 70% do tempo.

8. O amor pelo café

O gosto de Johann Sebastian Bach pelo café vem de sua participação na instituição de Gottlieb Zimmermann, o Café Zimmermann, onde o compositor apresentava-se regularmente durante a década de 1730. O café era uma novidade recente e sucesso absoluto naquele início de século XVIII. Na época, era encarado como uma moda passageira e um luxo. O compositor dedicou uma Cantata profana ao produto (o BWV 211, a Cantata do Café) que conta a história de uma moça casadoura que diz preferir a bebida a mais de mil beijos e afirma que só aceitará casar com um marido que lhe dê café. No inventário de Bach, há menção a coisas raras como dois potes de café (um grande e um pequeno) e um açucareiro.

https://youtu.be/YC5KpmK6oOs

9. Ele bebia. E como

Se o conselho da cidade de Leipzig tratava-o com dureza, deve-se notar que Bach gozou de relativa liberdade na cidade luterana. Ele produzia sua própria cerveja e pagava mais imposto sobre a produção desta do que gastava com habitação. As notas examinadas por seus biógrafos indicam que a família Bach consumia toneladas de cerveja. Um relatório de gastos com impostos do compositor em 1725 (tinha 40 anos) dá conta de um consumo espetacular, mesmo considerando a enorme família e alunos.

10. Escreveu música para curar a insônia

Uma de suas obras mais importantes, as Variações Goldberg, foi composta para um ex-embaixador russo na corte eleitoral da Saxônia, o conde Hermann Karl von Keyserling. O conde passava noites e noites sem dormir. Quando o desespero batia mais forte, ele chamava um de seus empregados, o jovem cravista Johann Gottlieb Goldberg, para lhe dar um recital particular. Certa vez, o conde mencionou, na presença de Bach, que gostaria de ter algumas obras de caráter suave para Goldberg executar. Elas deveriam ou consolá-lo em suas noites sem dormir ou encaminhá-lo para a cama. Bach imaginou que a melhor maneira de atender a esse desejo seria por meio de variações. Assim nasceram as Goldberg.

11. Tudo sobrava, sobretudo talento

A perfeição daquilo que criava — e que era rápida e desatentamente fruída pelos habitantes das cidades onde viveu — era pura necessidade individual de fazer as coisas bem feitas. Como era pouco compreendido, brincava sozinho criando dificuldades adicionais em seus trabalhos. Muitas vezes o número de compassos de uma Cantata corresponde ao capítulo e versículo da Bíblia daquilo que está sendo cantado. Em seus temas aparecem palavras — pois a notação alemã é feita através de letras — e suas fugas envolvem complexidades que só podiam ser apreendidas por especialistas. O próprio nome B-A-C-H (Si Bemol, Lá, Dó, Si) é utilizado muitas vezes, sempre com significado. Então Bach era não apenas um fantástico melodista capaz amolecer as pernas do ouvinte, como um sólido teórico capaz de brincar com seu conhecimento. Em poucas palavras, pode-se dizer que ele sobrava… Sua obra, mesmo com a perda de mais de 100 Cantatas e de outras obras por seu filho mais velho, o preferido de Bach, Wilhelm Friedemann, corresponde a 153 CDs da mais perfeita música. Grosso modo, 153 CDs são 153 horas ou mais de 6 dias ininterruptos de música.

12. O entendido em acústica

Bach era constantemente chamado a outras cidades para analisar a qualidade de órgãos e dar conselhos sobre a acústica de igrejas e salas. Arranjou alguns inimigos em suas viagens ao considerar alguns locais verdadeiras tragédias sem solução. Mas também tinha a fama de fazer acertos milagrosos.

13. A gênese de A Oferenda Musical

Frederico II da Prússia (Frederico, o Grande) quis conhecer Bach e convidou-o para um sarau em seu palácio. Durante a reunião, Bach foi desafiado a improvisar sobre um tema escrito por Frederico — mas que provavelmente era de autoria de um dos muitos compositores da corte. O tema era dificílimo, um evidente desafio, porém Bach improvisou uma fuga a três vozes sobre o mesmo. Diante da admiração dos ouvintes, Frederico, um notório sádico, propôs uma fuga a seis vozes. Agastado, Bach respondeu-lhe que era impossível fazê-lo assim de improviso. Ficou furioso com a derrota, porém, duas semanas depois, enviou a Frederico uma partitura com a fuga a três vozes, outra a seis, acompanhadas de diversos cânones e de uma sonata-trio, totalizando treze movimentos cuja ordem correta, se há, é até hoje um desafio para os musicólogos. Ou seja, enviou-lhe a chamada A Oferenda Musical (Das Musikalische Opfer), uma das mais importantes composições de todos os tempos. Frederico não deu a menor importância, o jogo já tinha sido jogado. E não mandou nenhuma nota de agradecimento ao “Velho Bach”.

https://youtu.be/Uyu-btfnOhc

14. Os Concertos de Brandemburgo quase viraram papel de embrulho

Na verdade não precisariam das outras quase 1100 composições para colocar Bach como um dos maiores compositores de todos os tempos. Bastariam os Concertos de Brandenburgo. São seis esplêndidos concertos para diversos instrumentos que… Bem, conta a lenda que suas partituras estavam sendo guardadas para serem utilizadas em uma casa comercial como papel de embrulho. Esta história é tão inacreditável que nos damos o direito de duvidar dela…

15. O cinema gosta muito

Bach flutua em ondas na modas cinematográficas. Já houve o tempo em que se ouvia a Tocata e Fuga em Ré Menor, ou a Chaconne para violino solo ou a ária Erbarme dich em vários filmes. No ano passado, Lars von Trier fez uma enorme homenagem ao BVW 639 Ich ruf zu dir, Herr Jesu Christ em Ninfomaníaca — a música é explicada em detalhes pelo personegam Seligman. Pawlikowski fez o mesmo em Ida, vencedor do Oscar de 2015 de melhor filme estrangeiro. Andreï Tarkovski já tinha feito o mesmo no clássico Solaris.

16. Bach está no seu celular… E nos aviões

Ele estava tão a frente do seu tempo que grande parte dos toques dos celulares foram compostos por ele…

Bem, e quando dois músicos resolvem brincar em um voo, qual é o ponto em comum que eles encontram?

Tinha um celista no meu voo. Francisco Vila, um violoncelista, e Maximilian, um comissário de bordo beatboxer, brincam com a Bourrée do Prelúdio Nº 3 para Violoncelo Solo de Bach.

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(*) Afinal, Bach nasceu em 21 ou 31 de março de 1685? Vamos falar de 1582? Naquele ano, o calendário gregoriano foi introduzido em alguns lugares da Europa, não em todos. A Itália, a Espanha, Portugal e a Polônia, os mais católicos, aceitaram a mudança ditada pela igreja, o resto não. Só depois é que todos os outros países aderiram. O 21 de março de 1685 da Alemanha não era o mesmo 21 de março de 1685 na Itália, Espanha etc. Havia 10 dias de diferença. O dia em que Bach nasceu foi “chamado” de 21 de março na Alemanha, onde eles ainda estavam usando o calendário juliano. É o que vale! Mas Bach nasceu num 31 de março, considerando o calendário que todos usam hoje, o gregoriano. Da mesma forma, é muitas vezes dito que Shakespeare e Cervantes morreram exatamente no mesmo dia, 23 de abril de 1616. Não é verdade. As mortes foram separadas por 10 dias. A de Shakespeare ocorreu em 23 de abril de 1616 (juliano) e equivalente a 3 de maio de 1616 (gregoriano). O que é certo é que podemos comemorar dois aniversários de nosso maior ídolo. E sempre com a cerveja que Bach tanto gostava e produzia em quantidades industriais em sua própria casa.

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Prelúdio Nº 1 do Cravo Bem Temperado de Bach com tubos de PVC

Prelúdio Nº 1 do Cravo Bem Temperado de Bach com tubos de PVC

Não esqueça de colocá-los em sua obra.

Bach Street Boys

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14 belas mulheres que tiveram influência na música dos Rolling Stones

14 belas mulheres que tiveram influência na música dos Rolling Stones

Os Rolling Stones são famosos por seus casos amorosos. Embora muitas de suas mulheres tenham convivido pouco tempo com a banda ou com integrantes dela, várias tiveram influência a produção de canções. Seja como inspiração, seja como co-autoras. Retirada daqui, a matéria foi alterada e ampliada.

1. Chrissie Shrimpton: Com Mick Jagger entre 1963 e 1966. Para ela, foram compostas Under My Thumb e Yesterday’s Papers.

01. Chrissie Shrimpton

2. Christa Paffgen: Também conhecida como Nico, do Velvet Underground. Foi namorada de Brian Jones em 1967.

02. Christa Paffgen

3. Anita Pallenberg: De férias em Marrocos, Anita Pallenberg troucou Brian Jones por Keith Richards. Permaneceu com Richards entre 1967 e 1979, mas Keith afirma que ela também passou algumas noites com Jagger. Pallenberg tinha enorme influência sobre os Stones — faixas foram remixadas a seu pedido e ela foi a inspiração para as canções You Got The Silver e Happy. Ela também fez backing vocal em Sympathy for the Devil.

03. Anita Pallenberg

4. Marianne Faithfull: O lindíssimo vendaval Faithfull permaneceu quatro anos com Jagger. Ela o apresentou às drogas. Durante uma batida policial na fazenda de Richard, Faithfull foi encontrada pelos homens da lei vestindo apenas um tapete. Eles ficaram perturbados. Confessadamente, várias faixas, incluindo Sympathy for the Devil e You Can’t Always Get What You Want foram compostas a respeito dela, que também co-escreveu Sister Morphine.

04. Marianne Faithfull

5. Anna Wohlin: Anna Wohlin era namorada de Brian Jones, no momento de sua morte. Foi ela quem arrastou seu corpo da piscina naquele trágico dia em 1969. Recentemente, Anna contestou o veredicto de que Jones morreu afogado devido a uma overdose. Ela agora afirma que ele foi morto em uma briga com Frank Thorogood, um empregado que Jones despediu alguns dias antes.

05. Anna Wohlin

6. Marsha Hunt: A cantora norte-americana Marsha Hunt deu à luz a filha de Mick Jagger em 1970, mas Jagger se recusou a admitir que era o pai da criança até uma década mais tarde. Boatos dão conta que, quando Mick conheceu Marsha, ficou obcecado com ela, usando-a como inspiração para Brown Sugar.

06. Marsha Hunt

7. Bianca Jagger: Junto com Faithfull, a mais bela. Bianca Pérez-Mora Macias casou com Jagger em 1971, quando estava grávida de quatro meses. Abaixo, ela cavalga no Studio 54 durante seu aniversário em 1977. Um ano mais tarde, Bianca pediu o divórcio devido ao adultério de Jagger com Jerry Hall. Mais tarde, ela disse: “Meu casamento acabou no dia do meu casamento”. Foi inspiração para Luxury e Respectable.

07. Bianca Jagger

8. Jerry Hall: Jerry Hall começou a sair com Mick Jagger em 1977 e casou-se com ele em uma cerimônia hindu em 1990. Eles tiveram quatro filhos antes de ela descobrir que Luciana Gimenez estava grávida de Jagger. O casamento foi anulado em 1999. Miss You foi escrita para Hall.

08. Jerry Hall

9. Patti Hansen: Modelo e atriz norte-americana, Patti Hansen casou-se com Keith Richards no quadragésimo aniversário deste. Eles se conheceram em Studio 54 e Keith escreveu logo depois, “Ela é o mais belo espécime humano no mundo. Mas não é só isso! Ela tem enorme alegria e acha que esse viciado aqui é o cara que ela ama”.

09. Patti Hansen

10. Bebe Buell: Buell foi playmate do mês em novembro de 1974. Foi uma famosa groupie, namorada de Mick Jagger e Steven Tyler.

10. Bebe Buell

11. Uschi Obermaier: Obermaier foi uma modelo alemã que tinha conhecida ligação com o grupo Baader-Meinhof. Em 1975, ela viajou para os Stones numa turnê, tendo casos com Jagger e Richards .

11. Uschi Obermaier

12. Mandy Smith: Em 1989, aos 18 anos, Mandy Smith casou-se com o baixista Bill Wyman. Ele tinha 47. Eles estavam namorando desde que Mandy tinha apenas 13 anos Deste modo, sem surpresa nenhuma, a relação entre ambos atraía considerável atenção da mídia. Em 1993, o filho Stephen Wyman se envolveu com a mãe de Mandy.

12. Mandy Smith

13. Angela Bowie: Reza a lenda que Mick Jagger escreveu Angie a fim de acalmá-la depois que ela o pegou com David Bowie na cama.

14. Angela Bowie

14. Luciana Gimenez: Ela conheceu Mick Jagger em uma festa organizada por um empresário brasileiro. Durante uma noite eles ficaram hospedados no Hotel Copacabana Palace. O curto caso resultou em Lucas, filho brasileiro de Jagger. Na época, Jagger era casado com a modelo Jerry Hall (desde 1990), que em 1999 anulou o casamento após contestar a validade da cerimônia hindu.

13. Luciana Gimenez

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Beethoven: Sonatas Primavera e Kreutzer com Anne Sophie Mutter e Lambert Orkis

Beethoven: Sonatas Primavera e Kreutzer com Anne Sophie Mutter e Lambert Orkis

Sonata para Violino e Piano Nº 5, Op. 24, “Primavera”:

Sonata para Violino e Piano Nº 9, Op. 47, “Kreutzer”:

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Palestra de Gustavo Dudamel quando recebeu a Medalha Nacional de Artes 2015 e Medalha Nacional de Humanidades

Palestra de Gustavo Dudamel quando recebeu a Medalha Nacional de Artes 2015 e Medalha Nacional de Humanidades

Em Washington, no dia 22 de setembro de 2015.

“A música é minha língua. Neste língua posso conduzir uma ópera ou uma sinfonia de cor … ou pelo menos é o que eles dizem. Mas hoje eu não sou antes da minha orquestra, por isso espero que este distinto público vai me perdoar por leitura.

Eu acredito que a primeira palavra deve-se aprender em qualquer língua é a palavra “obrigado”. Então, eu gostaria de começar por agradecer por esta grande honra. Sinto-me muito humilde e grato por estar rodeado esta noite por um grupo tão especial de criadores, artistas, humanistas, e convidados de honra.

Mas eu sinto que eu não deveria dar graças apenas em meu nome. Eu gostaria de dizer obrigado pela oportunidade de dirigir-lhe esta noite em nome dos milhões de latinos que fizeram os Estados Unidos da América sua casa.

Eu gostaria de começar por compartilhar com vocês uma anedota – simples, embora imensamente simbólico para mim.

Mesmo antes de começar a conduzir a Orquestra Filarmônica de Los Angeles, eu promoveu a criação de uma orquestra de jovens chamado YOLA, Orquestra Juvenil de Los Angeles. Um dos primeiros grupos Yola foi formada em South Central Los Angeles, um dos bairros mais problemáticos da cidade.

Foi lá que eu conheci um rapaz de 12 anos chamado Adam. Adam morava com a mãe Tracey, em uma área altamente perigoso. Quando Adão soube que eles estavam fazendo audições para orquestra infantil, ele apareceu com sua mãe, que nos disse que o sonho de vida de Adão era para se tornar o percussionista da Los Angeles Philharmonic.

Adam e eu vim de lugares muito diferentes, mas tínhamos algo em comum: nós compartilhamos o mesmo sonho.

Adão – e YOLA de – primeiro concerto teve lugar alguns meses mais tarde, um concerto gratuito para a comunidade em um local alguns de vocês podem estar familiarizados com – é chamado de Hollywood Bowl. John Williams, Quincy Jones e 18.000 espectadores estavam presentes.

Esse foi, também, o meu primeiro concerto como Diretor Musical da Filarmônica de Los Angeles, então eu estava tão aterrorizada como Adão … Por favor, entenda, não é fácil estar no mesmo palco onde existiu Leonard Bernstein, Van Cliburn, Jimi Hendrix, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Louis Armstrong … mesmo que Adam tinha nenhum indício que essas lendas foram.

Para a maioria na platéia, atingindo a bacia tinha sido mais uma caminhada dentro da sua rotina diária. As 11 milhas Adam tinham viajado de casa deve ter sido o mais importante viagem da sua vida. Simplificando: o menino que deixou South Central naquela tarde não era a mesma pessoa em seu retorno.

Nossa Ulysses, o nosso herói pint-sized, tinha tomado suas baquetas e tinha partiu em uma viagem só de ida para a esperança.

Hoje à noite, nesta sala maravilhosa está cheio de almas compassivas empáticas, que sabem muito bem o que quero dizer quando digo que o menino tímido que eu conhecera meses antes não era o mesmo rapaz que estava diante de mim naquela noite, jogando com intensidade, moldando o seu vida própria a cada batida, tocando os corações de 18.000 seres humanos – incluindo a minha.

Meu mentor, Maestro José Antonio Abreu, disse uma vez que o pior crime cometido no mundo moderno tem sido a de tirar as crianças do acesso a beleza e inspiração.

Obviamente, vivemos em tempos difíceis. Depois de qualquer crise financeira que abala o mundo inteiro, as escolas têm orçamentos menores. Os primeiros programas para obter corte são arte e música, porque eles não são considerados “essenciais”.

Eu acredito que é errado.

Algumas pessoas pensam que a arte é um luxo e devem ser reduzidos em tempos de crise. Essas pessoas devem entender que precisamente durante tempos de crise o pecado imperdoável é cortar o acesso à arte.

Na minha casa amada da Venezuela tal crise está acontecendo agora. As pessoas estão gastando seus dias à procura de comida, remédios e as necessidades da vida.

Existem os mesmos argumentos – como podemos financiar música – as artes – quando as necessidades básicas não estão sendo atendidas? Um artigo recente colocou a questão: “Pode El Sistema salvar Venezuela?” Para mim, a pergunta mais apropriada é: “Pode Venezuela salvar El Sistema?” – Que é agora mais importante do que nunca para o povo da Venezuela e à sua esperança. Eu trabalho todos os dias para garantir que uma vez que a Venezuela se move para além desta crise atual, El Sistema vai continuar a subir e capacitar aqueles que de outra forma não teria sonhos.

Arte é o alimento da alma. Nossos filhos vão aprender arquitetura para projetar as pontes que nos ligam com o nosso futuro, eles vão se destacar em matemática para calcular as suas fundações. Muitos dos nossos filhos vão melhorar a humanidade por meio da ciência, e todos devem fortalecer-se, aprendendo os limites de seus corpos através do esporte. As artes são igualmente vital. Aqueles que cortar programas de arte deve entender que sem arte, o espírito humano embota.

Das cavernas de Altamira para Jackson Pollock, e da sumeriana Hino à letra orientado a batida, valentes e assombrando de Lin-Manuel Miranda em Hamilton (que por sinal eu ainda não ter sido capaz de encontrar bilhetes para), a arte tem sido o principal parceiro de viagem do espírito humano.

Eu acredito que a saúde espiritual deve ter o mesmo peso que a saúde física. Se todos nós reconhecemos que é tão importante manter uma psique saudável e alma, pois é para manter um corpo saudável, em seguida, até mesmo as companhias de seguros iria dar bilhetes gratuitos para concertos, museus e galerias. Talvez isso poderia até ser uma nova disposição de Obamacare!

A minha vocação é música, mas a minha missão é crianças, especialmente, como podemos ensiná-los. E para ter certeza que as maiores expressões da nossa humanidade são repassados para a nossa próxima geração.

Queremos preparar os nossos filhos para o futuro, mas aqui está o problema – neste mundo acelerado em que vivemos, não sabemos exatamente o que o futuro trará. Nós assumimos que irá envolver matemática – há sempre a matemática! E sim, devemos educar a mente. Mas uma criança não é apenas uma mente – ela é uma alma. E também devemos nutrir a alma também.

Nós, todos nesta sala, deve encontrar uma maneira de criar e apoiar a arte no nosso futuro, por isso convido-vos a investir nos sonhos e espíritos de crianças como Adam em Los Angeles, e os milhões de crianças que gostam dele estão procurando um vislumbre de esperança e beleza. Convido-vos a ouvir as palavras de Schiller, que disse que a beleza é a única forma de comunicação que pode unir a sociedade “, pois diz respeito ao que é comum a todos.”

Desde que se tornou humano e começou a pintar nas paredes das cavernas, nós somos hard-wired para a expressão. Eu não sei o que as tecnologias que ainda estará usando no futuro, que mudanças nos confrontam. Eu não sei o Facebook, Pokémon Go ou o Twitter vai ser assim. Eu não sei se os computadores vão desaparecer ou se eles vão se tornar algo completamente diferente. Qualquer coisa e tudo é possível.

Mas não importa o que o futuro traz – teremos de expressar o que sentimos: e que é arte.

A arte é futuro.

Vamos ter certeza de que criar um ambiente que cultiva, abraça e capacita as artes.

Cabe a nós para garantir que nossos filhos estão prontos.

Muchas gracias “.

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“Music is my language. In this language I can conduct an opera or symphony by heart…or at least that’s what they say. But tonight I am not before my orchestra, so I hope this distinguished audience will forgive me for reading.

I believe that the first word one must learn in any language is the word “thanks.” So I would like to start by thanking you for this great honor. I feel quite humbled and grateful to be surrounded this evening by such a special group of creators, artists, humanists, and honored guests.

But I feel that I shouldn’t give thanks only in my name. I would like to say thank you for the opportunity of addressing you tonight in the name of the millions of Latinos who have made the United States of America their home.

I wish to start by sharing with you an anecdote – simple, though immensely symbolic for me.

Even before I started conducting the Los Angeles Philharmonic Orchestra, I promoted the creation of a youth orchestra called YOLA, Youth Orchestra of Los Angeles. One of the first YOLA groups was formed in South Central Los Angeles, one of the most troubled neighborhoods in the city.

It was there that I met a 12-year-old boy called Adam. Adam lived with his mother Tracey, in a highly dangerous area. When Adam learned they were holding auditions for a children’s orchestra, he showed up with his mom, who told us that Adam’s life dream was to become the percussionist of the Los Angeles Philharmonic.

Adam and I came from very different places, but we had something in common: we shared the same dream.

Adam’s – and YOLA’s – first concert took place a few months later, a free concert for the community at a venue some of you might be familiar with – it’s called the Hollywood Bowl. John Williams, Quincy Jones and 18,000 spectators were in attendance.

That was, also, my first concert as the Los Angeles Philharmonic’s Music Director, so I was as terrified as Adam…Please, understand, it’s not easy to stand on the same stage where once stood Leonard Bernstein, Van Cliburn, Jimi Hendrix, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald and Louis Armstrong…even if Adam had no clue who those legends were.

For most in the audience, reaching the Bowl had been one more trek within their daily routine. The 11 miles Adam had traveled from home must have been the most important trip of his life. Simply put: the boy who left South Central that afternoon was not the same person upon his return.

Our Ulysses, our pint-sized hero, had taken his drumsticks and had set out on a one-way trip toward hope.

Tonight, this wonderful hall is full of empathetic, compassionate souls, who know full well what I mean when I say that the shy boy I had met months before was not the same boy that stood before me that evening, playing with intensity, shaping his own life with each beat, touching the hearts of 18,000 human beings – including MINE.

My mentor, Maestro José Antonio Abreu, said once that the worst crime committed in the modern world has been to take away from children the access to beauty and inspiration.

Obviously, we live in difficult times. After any financial crisis that shakes the whole world, schools have smaller budgets. The first programs to get cut are Art and Music, because they are not considered “essential.”

I believe that is wrong.

Some people think that art is a luxury and must be cut back in times of crisis. These people must understand that precisely during times of crisis the unforgivable sin is to cut access to art.

In my beloved home of Venezuela such a crisis is happening right now. People are spending their days looking for food, medicine and the necessities of life.

The same arguments exist — how can we fund music — the arts — when basic needs are not being met? A recent article posed the question: “Can El Sistema save Venezuela?” To me, the more appropriate question is, “Can Venezuela save El Sistema?” – which is now more important than ever to the people of Venezuela and to their hope. I work every day to ensure that once Venezuela moves beyond this current crisis, El Sistema will continue to rise and empower those who otherwise would have no dreams.

Art is the nourishment of the soul. Our children will learn architecture to design the bridges that will connect us with our future, they will excel in math to calculate their foundations. Many of our children will better humanity through science, and ALL must strengthen themselves, learning the limits of their bodies through sports. The ARTS are equally vital. Those who cut back art programs must understand that without art, the human spirit dulls.

From the Altamira caves to Jackson Pollock, and from the Sumerian Hymn to the rap-driven, brave and haunting lyrics of Lin-Manuel Miranda in Hamilton (which by the way I still haven’t been able to find tickets to), art has been the main travel partner of the human spirit.

I believe spiritual health should have the same weight as physical health. If we all recognized that it’s just as important to keep a healthy psyche and soul as it is to keep a healthy body, then even insurance companies would give out free tickets to concerts, museums and galleries. Maybe this could even be a new provision of Obamacare!

My vocation is music, but my mission is children, especially, how we teach them. And to make sure that the greatest expressions of our humanity are passed along to our next generation.

We want to prepare our children for the future, but here’s the problem – in this fast-paced world we live in, we don’t know exactly what the future will bring. We assume it will involve math – there is always math! And yes, we must educate the mind. But a child is not just a mind – she is a soul. And we must also nourish the soul as well.

We, everybody in this room, must find a way to create and support art in our future, so I invite you to invest in the dreams and spirits of kids like Adam in Los Angeles, and the millions of kids that like him are searching for a glimpse of hope and beauty. I invite you to listen to the words of Schiller, who said that beauty is the only form of communication that can unite society “since it relates to that which is common to all.”

Since we became human and started painting on cave walls, we are hard-wired for expression. I don’t know what technologies we still will be using in the future, what changes will confront us. I don’t know what Facebook, Pokémon Go or Twitter will be like. I don’t know if computers will disappear or if they will become something completely different. Anything and everything is possible.

But no matter what the future brings – we will have to express what we feel: and that is art.

Art is future.

Let’s make sure we create an environment that cultivates, embraces and empowers the arts.

It’s up to us to make sure our children are ready.

Muchas gracias.”

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Três comentários despretensiosos de ± 15 linhas

Três comentários despretensiosos de ± 15 linhas

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Então você liga a TV e fica procurando um filme nestes cardápios que as emissoras à cabo oferecem atualmente. Quer um filme leve e divertido, mas fica meio perdido entre tantas comédias românticas. Acho que há várias muito boas, algumas excelentes. Hoje, vou dar a vocês duas dicas que penso serem irresistíveis. A primeira é O amor não tira férias. Duas mulheres, Cameron Diaz e Kate Winslet, vêm de grandes desilusões amorosas e acertam pela internet uma troca temporária de residências. Cameron vai para a fria Inglaterra e Kate para a ensolarada Califórnia. Tiram férias dizendo uma a outra que querem apenas calma e solidão para superarem suas crises. Mas dá tudo errado e quem aparece é o amor, claro. Afinal, trata-se de uma comédia romântica. A segunda é Hitch — Conselheiro Amoroso. No filme, Will Smith é um lendário, tecnicamente perfeito e anônimo cupido. Em troca de determinada taxa financeira, ele faz com que seus contratantes homens conquistem as mulheres de seus sonhos. Enquanto trabalha para o hilário Kevin James, um contador que se apaixonou pela socialite vivida por Amber Valetta, Hitch conhece a mulher que acredita ser a de sua vida, Sara (Eva Mendes). Apaixonado, Hitch decide conquistá-la, mas ele é muito melhor dando conselhos do que agindo em causa própria. Recomendamos.

amor não tira férias

2

Então seu filho vai fazer vestibular na UFRGS e aquele livro aparece na sua frente. O nome é esquisito: Dançar Tango em Porto Alegre. Provavelmente isto aconteceu porque este livro de Sérgio Faraco é uma das leituras obrigatórias para o Vestibular da UFRGS de 2016. Quando seu filho ou filha deixar ele de lado, pegue porque é muito bom. São dezoito contos escritos por um autor que preza, antes de tudo, a palavra exata, a melhor expressão. A exigência artística de Faraco é muito alta, imaginem que ele produz uma média de apenas dois contos por ano, trabalhando e retrabalhando seus textos. Mas a leitura desses contos é fluente e o resultado é bom demais. São três os temas principais dos contos de Dançar Tango em Porto Alegre. Primeiro, o das histórias que acontecem na paisagem rural fronteiriça do Rio Grande do Sul, onde os protagonistas ficam no dilema entre manter os valores de um passado que se esvai e a aceitação da modernização. O segundo é o grupo de histórias sobre o final da infância, através das fortes experiências emocionais da adolescência e da iniciação sexual. Por último, há os contos sobre o indivíduo que, melancólico e solitário, não se adapta ao espaço urbano. Tudo isso contado por um escritor de primeiríssima linha que, ouso dizer, ocupa o posto informal de melhor escritor do sul do país. A edição da L&PM sai por R$ 21,90.

sergio faraco

3

Com cabelos brancos e alguma dificuldade com os agudos, Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram um tremendo show no Araújo Vianna. Para os dois artistas é simples, basta pinçar as canções mais representativas de seus vastíssimos repertórios. Somados, os dois artistas gravaram mais de 50 discos e CDs só de músicas inéditas. Com a dupla, o público pode recordar grandes sucessos que datam desde os anos 60. Mas houve um importante porém. Antes do show, muitos protestaram contra o valor das entradas. E com razão, pois os valores dos ingressos variaram entre R$ 150 — para quem aceitasse ficar em pé — e R$ 750. São preços talvez condizentes com a Europa, não com o Brasil. Para efeito de comparação, o concerto da dupla em Madri, no dia 21 de julho, tinha opções entre 130 e 215 euros, equivalentes a R$ 449 e R$ 742. Agora, depois do show, ninguém reclamou porque o que viu foi magnífico. Foram 26 canções de primeiríssima linha, quase todas de autoria dos dois amigos. Gil e Caetano mostraram-se imbatíveis nas artes do bem compor, bem cantar e melhor ainda em seduzir, mesmo que mal tenham dado boa noite ao público. E também mostraram-se, sem dúvida, imbatíveis na arte de bem envelhecer (*). A qualidade técnica do espetáculo acompanhou soberbamente os dois baianos. Quem viu, viu. Quem não viu, fica pra próxima. Se der pra ir.

caetano-veloso-e-gilberto-gil

(*) Frase mais ou menos roubada do publico.pt

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Johann Sebastian Bach, os Caranguejos e o Anel de Moebius (veja o vídeo)

Johann Sebastian Bach, os Caranguejos e o Anel de Moebius (veja o vídeo)
Uma vez por cima, outra vez por baixo: o Anel de Moebius do holandês Mauritus Cornelis Escher (1898-1972) | CLIQUE PARA AMPLIAR E SEGUIR COM O DEDO OU A IMAGINAÇÃO
Uma vez por cima, outra vez por baixo: o Anel de Moebius do holandês Mauritus Cornelis Escher (1898-1972) | CLIQUE PARA AMPLIAR E SEGUIR COM O DEDO OU A IMAGINAÇÃO

A Oferenda Musical é uma coleção de cânones, fugas e de uma sonata de Johann Sebastian Bach, baseada num tema musical escrito por Frederico II da Prússia (Frederico, o Grande) e a ele dedicada. A obra tem sua origem num encontro entre Bach e Frederico no dia 7 de maio de 1747. O encontro, que se deu na residência do rei em Potsdam, foi consequência do fato do filho de Bach, Carl Philipp Emanuem Bach, estar ali trabalhando como músico da corte. Frederico queria mostrar a J.S. Bach uma novidade: o pianoforte (piano), talvez o primeiro que Bach tenha visto. Bach, que era bem conhecido por seu talento na arte da improvisação, recebeu um tema, o Thema Regium, para improvisar uma fuga. Era uma sacanagem, o tema era complicadíssimo, quase inviável. Mas Bach não somente improvisou como mandou uma obra inteira para o Rei, toda ela de variações sobre o Thema Regium: A Oferenda Musical.

Bach não era de recuar diante de dificuldades. Ao contrário, costumava propor a si mesmo problemas e mais problemas. Abaixo, uma demonstração gráfica da complexidade da coisa. O exemplo abaixo é dos enigmáticos “Cânones Caranguejos“. O manuscrito retrata uma única sequência musical que é para ser tocada de frente para trás e de trás para frente. Um cânon caranguejo, também conhecido pela forma latina do nome: “Canon Cancrizans“, é um arranjo de duas linhas musicais que são complementares de frente para trás, semelhante a um palíndromo.

Também é conhecido como um cânone “Quaerendo Invenietis“, combinando retrocesso com inversão, ou seja, a música é virada de cabeça para baixo para ser tocada.

Ah, vocês pensam que toda aquela obra saiu de uma cabeça comum?

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10 gifs sensacionais de Leonard Bernstein regendo

10 gifs sensacionais de Leonard Bernstein regendo

O genial regente, pianista e compositor Leonard Bernstein (1918-1990) era uma figuraça. O que interessa é que, agindo assim, ele registrou o melhor Mahler que existe, dentre outros milagres:

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Ospa é coadjuvante em bom show dedicado a Geraldo Flach

Ospa é coadjuvante em bom show dedicado a Geraldo Flach
Toca-discos da Philips: o meu era azul e branco
Toca-discos da Philips: o meu era azul e branco

Quando começou o show do último domingo no Araújo Vianna, lembrei de um toca-discos portátil azul e branco da Philips que ganhei de meus pais nos anos 70. Funcionava com 4 pilhas grandes e também ligado na luz. A tampa tinha um alto falante acoplado. Não dava para afastar muito a tampa do prato — o fio que os ligava era curto (ver foto ao lado) e ficava pelo lado de dentro quando se fechava a malinha. Era muito bonito, moderno e eu o carregava orgulhosamente para a casa de amigos, acompanhado de meus poucos discos. Bastaram 5 segundos para que o querido aparelho me viesse à memória. Onde andará hoje? Ele tinha um som de… vitrola, parecido com o que ouvi no início do concerto. Depois, o som amplificado da orquestra oscilou para melhor, mas nunca foi tudo aquilo.

Era natural, pois, que a Ospa não brilhasse muito no último domingo. Esta série do Araújo Vianna poderia ser chamada de “A Ospa convida”, porque a orquestra sempre será auxiliar para o brilho de solistas populares armados de instrumentos mais adequados ao espaço. Prova disso disso é o Cultura RS, espaço da Secretaria da Cultura do RS no Facebook. Um amigo me chamou atenção: das muitas fotos do show, apenas uma é da orquestra. Bem, o concerto aconteceu e foi excelente, mas apenas em razão da extraordinária banda formada por Cristian Sperandir (piano), Ricardo Arenhaldt (bateria), Ricardo Baumgarten (baixo) e Fernando do Ó (percussão). Ainda tivemos as participações dos cantores Luciah Helena e Marcelo Delacroix, músicos de raro brilho.

Foi um evento curioso. Olhei para os lados, o publico básico era o da Ospa, mas tinha muito mais gente. Muitos alunos de música estavam lá, além de frequentadores do Parque da Redenção e turistas com máquinas fotográficas. Movimentou muita gente mas não acredito que aquele formato crie público para a orquestra. Cria para a banda, a real estrela do show. Por isso, os músicos populares gostam tanto dos crossovers. É uma ótima divulgação. Claro, essa coisa de tocar Beatles in Concert promove… os Beatles. O Música de Filmes provoca lembranças de imagens de prazer cinematográfico na plateia. Os caras saem de lá com cenas na cabeça, loucos para rever os filmes, basta ouvir os comentários na saída. O fato gerador é o filme e o ponto de chegada também.

Como diz a música de Gil, eu tiro os outros por mim. Comecei a amar a música pelo Concerto de Brandemburgo Nº 3 e pela Sinfonia Nº 10 de Shostakovich. O primeiro me mostrou como um tema pode ser apresentado de muitas maneiras diferentes — pareceu uma interessante metáfora ao adolescente que eu era –, o segundo me assustou pelo poder de evocar o sofrimento de um povo. E ambos sugeriram um sistema linguístico como o da literatura, foco principal de minha modesta vida de sempre. Não creio que no Araújo Vianna, com som deficiente e protagonismo alheio, alguém vá se apaixonar pela orquestra como acontecia nos saudosos Concertos para a Juventude da época de meu toca-discos. Só a música erudita promove a música erudita, diz minha militância.

Porém, não obstante o caráter secundário da orquestra, gostei do show. Pelo que pude ouvir, os arranjos eram interessantes, assim como a música de Geraldo Flach. Mas olha, valeu pelo quarteto, que é sensacional, e por Marcelo Delacroix, que é mesmo estupendo.

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Anotações sobre uma bela noite com a Ospa

Anotações sobre uma bela noite com a Ospa
Foto: Augusto Maurer
Slagter e Roth num dos ensaios: combinando a melhor abordagem a Sibelius | Foto: Augusto Maurer (clique para ampliar)

Foi bonito o concerto da Ospa, ontem à noite, no Theatro São Pedro. É incrível a diferença que faz um maestro. Num dia tocam como crianças; no outro, entram em campo com novo técnico, fazem algumas trocas de jogadores e surge um time. O holandês Jacob Slagter parece ser um artista natural. Como disse alguém logo após o concerto, ele não é um sujeito que precisa lutar consigo para fazer arte. Ele faz. É claro que seus 28 anos como primeiro trompista do Concertgebouw de Amsterdam pesam muito. Afinal, por décadas ele foi chefiado por um gênio, pelo meu regente preferido dentre os vivos: o semideus Bernard Haitink. (OK, dentre os mortos, meu melhor amor vai para Ferenc Fricsay).

O programa era o seguinte:

Jean Sibelius: Andante Festivo
Jean Sibelius: Concerto para violino, op. 47, ré menor | Solista: Linus Roth
Antonín Dvorák: Sinfonia nº 9 em mi menor (Sinfonia do Novo Mundo)

Regente: Jacob Slagter (Holanda)
Solista: Linus Roth (Alemanha | violinista)

Na semana passada, tinha sido retirada do programa a Sinfonia Nº 4, de Carl Nielsen, chamada de Inextinguível. Foi uma pena, ainda mais se considerarmos a luminosa e rara presença de Slagter. O fato é que a orquestra perdeu um dia de ensaios e a decisão — apesar de eu não gostar muito da Novo Mundo — talvez tenha sido acertada. Ora, interpretar descuidadamente a Inextinguível seria deixar Nielsen fazer 5 x 0 na orquestra. Seria a segunda vez, na mesma semana, que alguém seria goleado por mortos.

Não conhecia o tal Andante Festivo. É uma composição de movimento único, originalmente escrita para quarteto de cordas em 1922. Em 1938, o compositor reescreveu a obra para orquestra de cordas. É música muito bela, suave e fluída. O único registro de Sibelius interpretando uma de suas próprias obras como regente é nesta peça. A gravação é de 1° de janeiro de 1939. Confiram abaixo.

https://youtu.be/wlqcUBbmJEc

Depois, tivemos o Concerto para violino, Op. 47, também de Sibelius. É uma obra prima e vocês podem pesquisar: toda relação de maiores obras para violino de todos os tempos incluem este concerto. Fazia muito tempo que ela não era ouvida nestes pagos abandonados pelas artes. Desde a gestão Karabtchevsky como titular da orquestra, para ser mais exato. O violinista alemão Linus Roth — jamais confundi-lo com o outro Roth –, veio com roupa e corpinho de bailarino espanhol. E, nossa, foi maravilhoso! Ele e seu violino Antonio Stradivari de 1703 mereceram cada aplauso recebido. Foi uma convincente exibição de musicalidade e técnica. A orquestra se perdeu algumas vezes, mas não chegou perto daquilo mostrado pela defesa do Inter no domingo passado. O resultado artístico foi absolutamente satisfatório.

Como hoje estou a fim de ouvir música no Youtube, fiquem com um baita registro do Concerto para Violino de Sibelius. A gravação escolhida é uma das de Jascha Heifetz. Boa parte da popularidade deste concerto se deve a ele. É irresistível.

O bis foi a esplêndida Balada, de Eugène Ysaÿe, o Rei do Violino.

Por falar em Sibelius como instrumentista… Sabem que ele era violinista e não conseguia tocar esta peça devido às exigências da mesma? (Bem, sabe-se que Schubert também não conseguia tocar suas Sonatas no piano). A estreia do único e brilhante Concerto de Sibelius veio com Richard Strauss, que dizia uma outra coisa curiosa sobre o finlandês: “Eu sei muito mais sobre música do que Sibelius, só que ele é muito mais compositor do que eu”. Eu sempre cito esta verdade dita por Strauss porque ela é aplicável a muitas outras áreas.

Após o intervalo, tivemos a entrada do Homem Eslavo de Marlboro. A nona sinfonia estreou em 1893, interpretada pela Filarmônica de Nova Iorque. O concerto fazia parte das comemorações do quarto centenário do Descobrimento da América. Por isso, recebeu o título Do Novo Mundo. Era para ser bem bonita com o negro “spiritual” Swing low sweet chariot, temas indígenas, etc. Mas daí veio a música folclórica europeia e matou índios e negros. Na Ferguson de Dvorák, a orquestra esteve muito bem, mas não adianta, a confusão de temas eslavos e norte-americanos soa-ME como se estivesse empurrando um hamburguer enjoativo do MacDonald`s com absinto.

Euphoria numa vitrine de Praga | Foto: Milton Ribeiro
Euphoria numa vitrine de Praga | Foto: Milton Ribeiro

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Bartók e Martinů por Sara e Rauss em Montevidéu

Bartók e Martinů por Sara e Rauss em Montevidéu
Orquestra Filarmônica de Montevidéu com Nicolas Rauss e Sara
Orquestra Filarmônica de Montevidéu com Nicolas Rauss e Sara Davis Buechner

Há uma semana, logo após Martha Argerich e Daniel Barenboim reunirem-se no Colón em Buenos Aires, ocorria um concerto de primeira linha em Montevidéu, onde me encontrava. O programa era espetacular, totalmente fora do habitual:

Bélá Bartok: Concerto para Piano N°2
Bohuslav Martinů: Sinfonia N° 4

Nicolas Rauss
Sara Davis Buechner, piano

Além da presença do excelente maestro Nicolas Rauss, havia a solista Sara Davis Buechner. O convite a ela era um ato de justiça artística, pois trata-se de uma pianista de espetacular técnica e grande sensibilidade. Acontece que ela passou por uma cirurgia de mudança de sexo em 2002. Ela era David Buechner. Sara não gosta do termo “transexual”, e diz ficar “levemente irritada” quando referida como tal, afirmando que viver como mulher era a única maneira honesta de viver sua vida. Talvez em função do preconceito, tenha se dedicado mais ao ensino e às gravações do que aos palcos. Ela dá aulas na University of British Columbia, no Manhattan School of Music e na New York University e tem 16 CDs em sua discografia.. Sara escreveu sobre suas experiências em um artigo de 2013 no New York Times.

Sua presença no Concerto de Bartók foi luminosa e talvez seja importante dizer que eu nem sabia ainda da questão trans. Como o concerto é muito — muitíssimo — percussivo, Sara mandou bala fazendo os gestos largos e algo teatrais dos percussionistas (ver foto). Seus braços subiam e desciam em amplos movimentos, trovejando os acordes do sensacional concerto. Para interpretá-lo, Rauss mudou todas as posições da orquestra. No lugar dos primeiros violinos estavam as flautas com os clarinetes logo atrás. Do outro lado, no lugar onde estão normalmente os violoncelos, estavam os dois trompetistas com os trombones logo atrás.

Perguntei ao maestro — que regeu as duas obras de cor — sobre este posicionamento. Ele me disse que Ádám Fischer montou a Budapest Festival Orchestra desta forma para executar este concerto de Bartók, no que foi imitado por Simon Rattle em um concerto em Rotterdam. O motivo é simples, explicou Rauss: neste concerto os sopros dialogam com o piano e as cordas têm participação muito pequena. O resultado artístico foi grandioso. O acústico também foi interessante, com as cordas surgindo de forma fantasmagórica no movimento central.

Como bis, Sara Buechner interpretou de forma belíssima uma obra para piano do uruguaio Eduardo Fabini, que arrancou, literalmente, suspiros da plateia.

Divulgar Bohuslav Martinů é um apostolado de Nicolas Rauss. Antes de atacar a sinfonia Nº 4, o regente contou uma pequena história. Uma vez, perguntaram a um de seus professores na Suíça do que alguém precisaria ser dotado para ser músico. Precisaria ser dotado de ouvido? De ritmo? De grande habilidade? Não, segundo o professor, precisaria apenas ser dotado de prazer. E Rauss voltou-se para a orquestra e tratou de mostrar o que era esse tal de prazer. E mostrou! Sinfonista nato, o checo Martinů é realmente um compositor subestimado.

A sinfonia é muito interessante, prazerosa e bonita. Com os quatro movimentos clássicos, foi composta em Nova Iorque em abril de 1945, quase ao final da Segunda Guerra. É feliz e cresce a partir de um único motivo. O primeiro movimento flui natural e liricamente, apresentando variações. O segundo movimento é um Scherzo, marcado pelo perfume da Boêmia presente em algumas obras de Dvořák. O terceiro movimento, lento, é dominado pelas cordas e o finale é uma enérgica reformulação do material anterior. Dito assim, não dá a ideia da fluência e da beleza da sinfonia, né?

Assistir este concerto foi um dos melhores momentos de nossas férias de dez dias. Infelizmente, não conseguimos falar com Rauss antes do concerto devido a uma dor lombar que o maestro sentiu após o ensaio de sexta-feira e que o manteve no hotel durante o fim de semana. Não deve ter sido prazeroso, mas Bartók e Martinů deixaram-no rapidamente curado.

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Voltando das férias… A propósito, cadê meu inverno?

Voltando das férias… A propósito, cadê meu inverno?

Com vocês, The Bad Plus e Joshua Redman em Beauty Has It Hard
(lançamento da Nonesuch de 2015, vai direto para a lista de clássicos)

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O que o conforto pragmático me disse ontem sobre a Ospa

O que o conforto pragmático me disse ontem sobre a Ospa

Um violoncelista, virtuose internacional que me honra com sua amizade, contou-me que nos Estados Unidos e em parte da Europa, as orquestras e os intérpretes agradecem por escrito as críticas que recebem — mesmo as mais ácidas e debochadas. Sabem que qualquer menção é melhor que o silêncio. Há pragmatismo e boa noção de divulgação no hemisfério norte. Aqui na Ospa é justamente o contrário. O narcisismo, a infantilidade e a insegurança – palavras de Francisco Marshall — tornam o terreno pantanoso. Paradoxalmente, não há serenidade no recebimento de críticas por parte de pessoas que se expõem em público.

Então decidi que, a partir de agora, apenas vou escrever sobre os concertos mais marcantes, sobre aqueles que me tocarem de alguma forma — por serem muito bons ou demasiado ruins. Aviso a meus sete leitores: não esperem mais relatos de cada concerto. Os insignificantes e opacos — a maioria — me obrigam a um esforço que realmente não preciso fazer. Vou ficar com os que me satisfazem ou irritam, pois os primeiros merecem saudação e os últimos resultam em textos cômicos. Na verdade, o fundo de minha decisão é o fato de que estou ficando enfastiado dos trajes escuros do vilão que repete quão desafinados ou dispersos são alguns naipes. Sei que não vou corrigi-los e também mereço uma zona de conforto semelhante.

Também quero andar por aí sorridente, vestindo um terno branco com um elegante lenço colorido no bolso. E achando graça do que vejo e ouço. Vou me dedicar mais a outros assuntos. Tenho que me liberar de coisas que dão pouco prazer e retorno. Os concertos deste ano foram de qualidade tão duvidosa — com raras exceções, casos de Valentina e Petri, por exemplo — que muitas vezes sinto-me desconfortável e sem adjetivos para descrevê-los. Ou seja, o que era divertido tornou-se esforço.

(A coisa está tão preta que muitas vezes nem os músicos da orquestra divulgam os concertos em seus perfis do Facebook. É um termômetro infalível, conforme um membro da orquestra me ensinou. Cada vez que isso acontece, já sei o que vou escrever no dia seguinte e fico previamente deprimido).

Mais um item para meu Projeto Gambardella. Afinal, não sou tão jovem, “para perder tempo fazendo coisas que não quero fazer”.

Cena de "A Grande Beleza"
Cena de “A Grande Beleza” com Jep Gambardella (Toni Servillo)

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Breve registro de um recital inesquecível de André Carrara

Breve registro de um recital inesquecível de André Carrara
Eu e Elena no recital de André Carrara | Foto: Augusto Maurer
Eu e Elena no recital de André Carrara | Foto: Augusto Maurer

Não há exagero no título. Na última quinta-feira (9), no inacreditável horário das 17h30, assistimos o recital do pianista André Carrara no Auditório Tasso Correa, do Instituto de Artes da Ufrgs. Para os padrões do local e apesar do horário, tinha muita gente na plateia. Foi uma noite que poderia ser chamada de europeia. Um recital impecável, seguido de um esplêndido jantar. Mas esqueçamos do jantar por ora. Quem conhece Carrara e suas interpretações de Chopin, largou o que estava fazendo e foi até o centro de Porto Alegre para ver de perto.

Em seu recital, ele interpretou, nesta ordem, os quatro Improvisos, os quatro Scherzi e as quatro Baladas do compositor polonês Frédéric Chopin (1810-1849), ícone do piano romântico. São três coleções bem distintas e que compuseram um concerto de crescente densidade emocional.

Chopin era um romântico inovador. Trabalhou novas formas musicais como a Balada, a Polonaise, o Noturno, o Improviso, o Estudo, etc. Carrara deu personalidade clara e própria a cada quarteto de peças. Em um recital que nunca abandonou o mais alto nível, o grande destaque foram as Baladas. A poetisa Orides Fontela devia estar presente ali, pois me vieram à mente suas palavras:

Nunca amar
o que não
vibra

nunca crer
no que não
canta

Teve gente bem próxima a mim que chorou. Depois do recital, enquanto jantava, eu refletia sobre a heterogeneidade dos músicos da Ospa, pois, ao lado de Carrara e outros grandes instrumentistas, há outros que têm relações infantis com seus instrumentos. Imaginem que Carrara tocou tudo de cor, sem recorrer a partituras!

Não sou um grande adepto do romantismo, mas há casos em que somos convencidos de nossos erros de forma tão cabal que só nos resta a vergonha. Na última quinta-feira, Carrara fez nossa noite, nosso dia e nossa semana e seria injusto que eu, que publico tanta besteira, não escrevesse estas linhas sobre aqueles sublimes 90 minutos que ecoam até agora.

Como disse Carrara nesta entrevista: “O repertório erudito é música para ‘gente grande’. Para ser apreciado, exige um estado reflexivo que está sendo cada vez mais esquecido. Estamos muito reativos e pouco reflexivos. Tem um sentido expressivo na música que estamos perdendo”. Recuperamos algo deste sentido na última quinta-feira.

Carrara mandando bala no IA | Foto: Augusto Maurer
Carrara mandando bala no IA | Foto: Augusto Maurer

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Kapusta e algumas anotações sobre música que ficam por aí

Kapusta e algumas anotações sobre música que ficam por aí

Zupa kapusta é uma sopa polonesa de carne de porco, salsicha, chucrute e repolho. Há variações, claro. Quem vem de tão longe cria histórias pelo caminho. É deliciosa e salvou a noite de ontem de tal maneira e com pessoas tão agradáveis que quase não vim trabalhar hoje.

(Bocejo).

Ontem, fiz algumas anotações muito iniciais sobre algumas peças do repertório sinfônico. Ficariam perdidas por aí. Sei lá, podem ser úteis a alguém que queira ou tenha que escrever sobre as peças.

Ludwig van Beethoven, Concerto para piano nº 5, Op.73 (Imperador): O Concerto Nº 5 de Beethoven é de tal modo grandioso que acabou sendo chamado de Imperador. Imperador dos concertos foi o “nome comercial” arranjado pelo editor da obra. Beethoven não gostava do apelido. Foi composto em 1809 e é uma verdadeira sinfonia para piano. O primeiro movimento alterna belos momentos com um heroísmo de relativa vulgaridade. Lembro do clássico A Fazenda Africana, de Isak Dinesen (Karen Christence, baronesa de Blixen-Finecke), quando Karen e seu amante Denis discutem acerca de possíveis vulgaridades nos Concertos para Piano de Beethoven. Dou-lhes razão. O legal deste primeiro movimento é que foi algo revolucionário para a época: não há a introdução de temas pela orquestra e a repetição e desenvolvimento dos mesmos pelo piano. Orquestra e piano saem batendo de frente. A orquestra larga um acorde decidido e o piano lhe responde na lata com um poderoso arpejo. O adágio e o rondó são impecáveis. No adágio, o piano é simples e tocante, transando com violas e flauta. O rondó é luminoso e autenticamente triunfante, esquecido do encantamento jubilosamente bobo do primeiro movimento.

Beethoven, do pintor surrealista Alois Kolb (1900)
Beethoven, do pintor surrealista Alois Kolb (1900) | British Museum

Jean Sibelius, Sinfonia Nº 7, Op. 105: Pouco mais de um ano separa duas das maiores obras sinfônicas de Sibelius: a Sétima Sinfonia e o poema sinfônico Tapiola. Ambas estão muito próximas em construção, contenção e estilo. A Sinfonia foi planejada inicialmente como uma “Fantasia Sinfônica” e, ao que se sabe, ocupou Sibelius no início de 1924. Quando a composição foi terminada, em março daquele ano, o que Sibelius viu — tal como o Pestana de Machado de Assis e suas polcas — foi uma nova sinfonia. O clima sonoro dela é quase sempre de sombria contemplação, resultante da célula trágica com que o compositor inicia a obra. Mas antes de chegar a seu clímax, a sinfonia vai exprimir até mesmo certa descontração, através de alguns esforços e alongamentos para alcançar a felicidade. O débil sorriso esboçado, porém, não encontra amparo no soturno ambiente que tenta mudar. É uma música comovente que possui dois solos dilacerantes e nostálgicos de trombone, verdadeiras janelas que se abrem. Na opinião deste pequeno comentarista, é a melhor das sinfonias de Sibelius.

Jean Sibelius
Jean Sibelius: feliz com seu charuto

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Em noite de protesto contra a opressão russa, a Ospa fez uma bela visita à Escandinávia

Em noite de protesto contra a opressão russa, a Ospa fez uma bela visita à Escandinávia
Escondemos a jovem careca do grande Alexandre Dossin
Respeito: escondemos a jovem careca do grande Alexandre Dossin

Seria um exagero chamar a noite de ontem, no Salão de Atos da UFRGS, de escandinava. Estava até quente. Logo na entrada, fui chamado para uma conversa com o Diretor Artístico da Ospa, Evandro Matté. Acho que faremos entrevista com esclarecimentos e notícias mais amplas até o fim de semana de 11 e 12 de julho. Foi um bom diálogo do qual participou o superintendente Araquém Idiart Gomes.

O programa do concerto era formado apenas por obras lá do norte: afinal, Alfvén foi sueco; Grieg, norueguês e Sibelius, finlandês. O maestro Henrik Schaefer é alemão e já foi o mais jovem membro da Orquestra Filarmônica de Berlim, tendo assumido uma das violas aos 22 anos. Já o pianista Alexandre Dossin é brasileiro, gaúcho de Porto Alegre. Sejamos mais específicos:

Programa

Hugo Alfvén: Midsommarvaka
Edvard Grieg: Concerto para piano, op. 16
Jean Sibelius: Sinfonia nº 2, op. 43

Regente: Henrik Schaefer
Solista: Alexandre Dossin (piano)

Vivem muito esses escandinavos e Hugo Alfvén morreu aos 88 anos. Tendo por base a bagunça aprontada ontem, devia ser um sujeito alegre, amante da bebida e de outros prazeres. Tocava violino na Royal Opera de Estocolmo e — calma — sua Midsommarvaka não representa nenhuma ofensa, é apenas uma encantadora Vigília da meia-noite (Rapsódia sueca n° 1, op. 19). Certamente inédita em nossa cidade, foi a melhor abertura de concerto de 2015. Uma música feliz, mesmo com alguns episódios lentos. Alfvén foi também pintor e escritor (dos bons).

Ai, o Concerto para piano, Op. 16, de Grieg. De novo! Em 22 de agosto de 2014, a Osesp apresentou este Concerto no Theatro São Pedro com o pianista Dmitry Mayboroda sob a regência de Marin Alsop. No dia 11 de novembro do ano passado, a Ospa voltou a apresentar o mesmo concerto com a pianista Hyejin Kim e o maestro Shinik Hahm.

Grieg foi tio de Glenn Gould e viveu menos do que Alfvén e Sibelius. Ficou 64 anos entre nós, deixando-nos uma obra romântica de excelente qualidade. Seu Concerto para Piano está entre os mais populares do gênero. Acho-o muito parecido com o de Schumann. O de Grieg era um grande sucesso na casa de meus pais, ambos dentistas e pianistas amadores. Conheço cada notinha dele. A interpretação de Dossin-Schaefer talvez tenha sido a melhor das três que tivemos em Griegópolis no último ano. O primeiro movimento, tocado em andamento mais rápido e menos derramado, tornou-se digno e adequado a meu desamor pelo ciclamato. Mas, meus caros, de vez em quando o piano desaparecia sob a orquestra e creio que não adianta culpar a acústica por isso. Ninguém mais cai nessa. É mesma coisa que os violinos não tocarem juntos e culparem o teatro. Nada a ver. Mas curti muito a interpretação da trilha sonora de Intermezzo, mesmo sem a presença de Ingrid Bergman.

O bis de Dossin foi o Noturno Nº 1 de Chopin. Foi uma interpretação perfeita — contida, sem exaltações nem demasiados tremeliques líricos. Dossin é um desses santos de casa que fazem milagres, a exemplo de Lavard Skou-Larsen e Tobias Volkmann.

Creio que a segunda é a mais popular das sinfonias de Sibelius, apesar de que a melhor, disparada, seja a sétima, que será apresentada pela Ospa na próxima terça-feira. A segunda é uma bela e difícil sinfonia. Houve desencontros e erros muito claros em vários solos. Aqui, tivemos efetivamente algum prejuízo pela má acústica da Ufrgs. O som dos baixos, por exemplo, caía como pedras aos nossos pés. Escrita na Itália logo após a composição do poema sinfônico Finlândia e estreada em Helsinque em 1902, esta sinfonia foi um acontecimento nacional. Numa época de invasão e opressão russas, ela foi ouvida como representação sonora do nacionalismo finlandês. Quando de sua estreia, foi tocada quatro vezes em oito dias. Mas não se precisa saber de tudo isso para gostar dela, a música sobrevive tranquilamente sem o contexto de sua origem..

Seu formato é aparentemente tradicional — são quatro movimentos com os dois últimos tocados sem interrupção, como a Quinta de Beethoven. Nela, Sibelius abusa das repetições e de fragmentar melodias. É estranho como ela lembra Bruckner ao mesmo tempo que trai o carolão austríaco. Se Bruckner busca e alcança a divindade, Sibelius é muito mais realista, mostrando-nos quão vasto é o frio de seu pais. Aliás, esqueci de dizer que Sibelius viveu 92 anos, foi alcoolista e deprimido por boa parte de sua vida, desistiu de compor ali pelos 50 anos e isto foi lamentável, pois era um sujeito original e de grande talento. Fazer o quê?

Em um conjunto com alguns destaques negativos facilmente identificáveis — de uma forma geral, havia muitos solos neste concerto — o clarinetista Samuel de Oliveira e o trombonista José Milton Vieira deram um banho de bola. Aliás, espero que o Miltinho esmerilhe na Sinfonia Nº 7 de Sibelius na semana que vem. Há belíssimos solos de trombone na sétima. E que o deixem se sobrepor à orquestra, tocando em altíssimo volume, como fez o trombonista da Filarmônica de Leningrado sob as ordens de Mravinsky. Cumpra-se!

Impossível esconder a careca de Sibelius
Impossível esconder a careca de Sibelius

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Ospa em noite de zumbis, trompetes e porvires

Ospa em noite de zumbis, trompetes e porvires
A maestrina Valentina Peleggi durante os ensaios para o concerto de ontem. Clique para ampliar.
A maestrina Valentina Peleggi durante os ensaios para o concerto de ontem | Foto de Augusto Maurer | Clique para ampliar.

Foram tantas emoções… Entrei num camarote lateral do Theatro São Pedro, olhei para baixo, observando a plateia presente, e lá estava minha ex-ex toda sorridente. Ergui os olhos e, bem na minha frente, no camarote oposto, estava minha ex com má cara. Estava começando a ficar desconfiado de uma armação cósmica quando olhei ainda mais para cima e vi que ali se encontrava a PMDB. Então, notei que minha companhia no camarote era, nada mais nada menos, do que a atual cônjuge do ex-marido de minha futura mulher, Elena, que estava no palco.

Eu pensava que era o James Stewart de A Janela Indiscreta, assistindo não a um desfile de paixões amorosas, mas a uma fusão de passado, presente e futuro… Quando já sentia um gesso em minha perna, a qual já começava a coçar à espera de Grace Kelly… Quando conjeturava sobre o mito de que, na hora da morte, a gente revê toda nossa vida… Bem, então, no final do concerto, vieram três trompetistas da orquestra para trombetear junto ao meu ouvido, pois Sibelius quisera colocá-los fora do palco. Adivinhem onde eles escolheram ir? Do meu ladinho, ora! Ainda bem que sou um sujeito brando, ameno e pacífico, nada paranoico e sempre disposto a achar graça de tudo. Ou seja, se não fosse o bobo alegre que sou, sucumbiria aos fatos.

Bem, o programa da noite:

Pietro Mascagni: Preludio e Intermezzo “Cavalleria Rusticana”
Erich Wolfgang Korngold: Concerto para violino
Maurice Ravel: Ma Mère l’Oye
Jean Sibelius: Karelia Suite

Regente: Valentina Peleggi
Solista: Cármelo de los Santos (violino)

O concerto iniciou por uma abertura, o que é uma redundância apenas aparente. Nas garrafas, a diversão começa para abertura da tampa; já nos concertos, a diversão não precisa começar por uma abertura, como a Ospa infelizmente convencionou para 2015. O Preludio e Intermezzo de “Cavalleria Rusticana” foi a mais feliz das aberturas de concerto deste ano, o que não é grande mérito, é mais ou menos como ganhar por 2 a 1 da União Frederiquense. Mas pudemos ver uma novidade no palco, o trabalho claro da maestrina Valentina Peleggi.

Intermezzo: minha opinião sobre maestrinas foi dada quando fiz a tradução deste belíssimo texto de Barbara Hannigan. Concordo inteiramente com ela e vou tratar Peleggi sem citar mais o fato de ela ser uma mulher no pódio. Deveria ser normal.

O Concerto para violino de Erich Wolfgang Korngold é mal disfarçada música para cinema. Nos anos 30 e 40 do século passado, o austríaco Korngold trabalhou em Hollywood fazendo música para filmes. Suas trilhas sonoras impulsionavam adequadamente as cenas e eram bem recebidas por diretores e público, o que o tornou famoso nos EUA. É óbvio que conheceu Bernard Herrmann, autor da banda sonora de A Janela Indiscreta. Mas não conheceu John Williams, autor do bis, a canção-tema de A Lista de Schindler. Nestas duas intervenções, o violinista Cármelo de los Santos foi impecável, mostrando-se um cantor muito superior àquilo que cantava, obras dispensáveis.

O livro de Perrault é de 1695
O livro de Perrault é de 1695

Conforme o esperado, a melhor peça da noite foi Ma Mère l’Oye (Mamãe Gansa), de Ravel, um sujeito que, assim como Brahms, era infalível. A peça foi escrita originalmente em 1910 para piano a quatro mãos, como um presente a duas crianças próximas do compositor, Mimie e Jean Godebsky. Foi inspirada em contos de fada de Charles Perrault e da condessa d’Aulnoy. A Mamãe Gansa não é um personagem ficcional específico, ela representa as mulheres contadoras de histórias, normalmente mães, na época. É uma atividade gloriosa. Um ano depois, em 1911, a peça foi orquestrada e ampliada pelo próprio Ravel, que a transformou num balé. Aqui, a segurança e os gestos claros de Valentina Peleggi — às vezes apenas um olhar mais significativo — fizeram a diferença, ao lado do flautista Artur Elias e do corne inglês de Paulo Calloni.

Esta igreja existe na Carélia e e foi feita de madeira, OK? Clique para amplar.
Esta igreja existe na Carélia e e foi feita de madeira, OK? Clique para ampliar.

A função foi finalizada pela alegria nórdica da Suíte Karelia. Não, não cairei no mau gosto de fazer um trocadalho do carilho com o título da peça do finlandês que completa 150 anos de nascimento este ano.

Esta suíte é um dos primeiros trabalhos de Sibelius e é muito popular. Ele tinha especial afeto pela região da Karelia (ou Carélia), que é pouco habitada e fica bem na fronteira com a Rússia, banhada em parte pelo Báltico. Em anos anteriores, ele havia encontrado inspiração na música local e, depois, até passou sua lua de mel lá. O caráter simples da música é deliberado: a intenção estética é a de capturar a pureza da base folclórica. É claro, sabemos que Sibelius foi um mega-nacionalista.

É curioso, no Sibelius, quando os três trompetes, los tres amigos, subiram até o meu camarote para me mostrar que aquela não era uma noite qualquer, pude ouvir e separar perfeitamente o som de cada um deles. E é notável a leveza, delicadeza e profundidade do som de Elieser Ribeiro.

À saída, na porta do teatro, a Sofia Cortese nos proporcionou enorme alegria ao chegar para a Elena e dizer de forma espontânea algo mais ou menos assim: como é bom te ver tocar, a tua figura, a tua postura, são muito bonitas de se ver. De minha parte, eu concordo integralmente e acrescento que ela é bonita de se ouvir, também.

Para vocês verem como falo a verdade: os três trompetistas e eu, à direita
Para vocês verem como falo a verdade: os três trompetistas e eu, à direita | Foto: Ana Eidam / Ospa

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Kirill Petrenko é o novo maestro titular da Filarmônica de Berlim

Kirill Petrenko é o novo maestro titular da Filarmônica de Berlim

Kirill Petrenko foi eleito ontem, por uma larga maioria de votos, o novo maestro titular e diretor artístico da Orquestra Filarmônica de Berlim. Ele sucederá a Simon Rattle em 2018. Ele confirmou a sua aceitação na noite passada.

Petrenko, de 43 anos e nascido em Omsk na Rússia. terá que se demitir de seu cargo como diretor musical da Ópera da Baviera  — embora alguns meios de comunicação alemães sugiram que ele possa manter os dois postos por algum tempo.

Ele é o primeiro regente de origem russa e o primeiro judeu a dirigir, no posto de maestro titular, a orquestra de Berlim.

As especulações em torno do nome do sucessor de Rattle se tornaram o principal assunto do meio musical mundial há meses. Seis semanas atrás, uma reunião de 11 horas dos 124 membros da orquestra resultou sem a fumaça branca.

Nesta segunda, a Filarmônica de Berlim fez o anúncio em uma coletiva de imprensa convocada às pressas, logo após a escolha de Petrenko ter sido vazada para a estação de rádio estatal “Berlin RBB”.

Fundada em 1882, a Filarmônica atraiu alguns dos mais famosos regentes do mundo. Wilhelm Furtwaengler a liderou entre 1922 e 1934 e, posteriormente, de 1952 até sua morte, em 1954. Ele foi substituído por Herbert von Karajan, que seguiu no comando até 1989. Desde então, a orquestra alemã teve apenas mais dois titulares: Claudio Abbado e Simon Rattle.a

Rattle, que está no comando da Filarmônica de Berlim desde 2002, deve assumir a Orquestra Sinfônica de Londres a partir de 2017. Seu contrato em Berlim vai até 2018, logo, é possível que Rattle acumule as duas funções por alguns meses.

Kirill Petrenko
Kirill Petrenko

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Ospa: lamentável início de concerto, convalescença e fofoca

Ospa: lamentável início de concerto, convalescença e fofoca
Oboés?
Oboés? | Foto: Facebook da Ospa

Num dia em que a Rádio Corredor esteve em pleno funcionamento, transmitindo fofocas em alto e bom som, tivemos um concerto de extremos ontem à noite na Ospa. Era previsível, bastaria ler o programa.

(Paradoxalmente, a noite fria trouxe um bom público ao Salão de Atos. Gosto de sair para caminhar nestas noites, o tal frio cortante me faz bem, mas ontem era dia de respeitar os saltos altos de minha companheira e ir de carro. O táxi fez questão de nos deixar em cima da calçada da Paulo Gama, em atenção a nós e à revelia de quaisquer pedestres. Fiquei meio envergonhado por sair do táxi como se fôssemos um Casal Real.)

O programa era:

Sergei Rachmaninoff: Vocalise, Op. 34, No. 14
Nino Rota: Concerto para violoncelo e orquestra nº1
~ Intervalo ~
Francisco Mignone: Maracatu de Chico Rei

Regente: Manfredo Schmiedt
Solista: Antonio Del Claro (violoncelo)
Participação: Coro Sinfônico da Ospa

O Vocalise de Rachmaninov foi, é claro, escrito para voz sem palavras (soprano ou tenor) e piano, recebendo (ou merecendo) depois todo o tipo de abuso. Uma história triste. O abuso praticado ontem foi de uma cantoria sem eira nem beira por parte dos primeiros violinos. E a culpa nem é totalmente deles, pois a transcrição para orquestra — do próprio Rach, vejam só — é um horror. Ao menos essas aberturas a que a Ospa sistematicamente nos submete têm o mérito de serem curtas.

O Concerto para Violoncelo de Nino Rota é irrelevante. É ideal para se pensar na vida e organizar mentalmente a agenda dos próximos dias. Quando chegamos ao intervalo, virei-me para o lado esquerdo e meu vizinho disse até agora foi um lixo, aguardemos o Maracatu. Virei-me para o lado direito e o outro vizinho disse que o Rota até que tinha sido “legalzinho”, ainda mais depois daquele Rach. E os dois estavam putos com os celulares que tocavam em meio ao concerto do Rota e com os aplausos deseducados e intermináveis ao final de cada movimento. É, não tá fácil pra ninguém. A Pátria Educadora fica, dia a dia, mais apedeuta.

Tínhamos duas chances públicas de salvar a noite. O Mignone e o jantar. Durante o intervalo, li no programa a nominata dos membros do Coro Sinfônico da Ospa. Eles estavam divididos em Sopranos, Tenores, Baixos e Oboé. Fiquei confuso e comecei a examinar as mulheres do coro. Estavam bem bonitas, com lenços coloridos nos pescoços. Não pareciam oboés, os quais são muito mais magros. Não que fossem gordas, é que não eram mesmo oboés.

E o Maracatu de Chico Rei entrou no palco trazendo toda a stravinskiana magnificência do Rei do Congo, primeiro no navio negreiro Madalena, depois na lida em Vila Rica e, já tendo comprado sua alforria, tornando-se um micro-empreendedor que comprava a liberdade de outros negros. Grande Galanga, grande Chico Rei! Tudo foi muito bem cantado. O Coro Sinfônico da Ospa é a mais gloriosa definição de amadorismo. O que eles fazem está na raiz da palavra e é simplesmente impossível não elogiá-los. Oboés ou não, cantam com tesão e talento, seja na delicadeza do Réquiem de Fauré, seja em missas, sinfonias corais ou na agitação de um maracatu. Os caras simplesmente vão lá e dão conta.

E a fofoca? A Rádio Corredor informou-nos a respeito de uma proposta do governo — ou de algum aventureiro — que extinguiria a Orquestra de Câmara Theatro São Pedro. Em seu lugar ficaria um subconjunto da Ospa, administrado por esta. Minha opinião? Acho que o fim do conjunto orquestral do teatro seria mais um capítulo de nosso empobrecimento cultural, além de mais centralização, perda de postos de trabalho, centralização e centralização. A OCTSP é uma boa ideia, que movimenta e dá experiência a estudantes de música. Infelizmente, tal suposição é bem crível e típica em quem quer agradar o chefe, que gosta tanto de cortes de gastos. A conjetura do governo, se verdadeira, já demonstra como pensam os gestores sartorianos. Uma economia de palitos numa Secretaria já pobre… Quanto custa a orquestra mensalmente? Com os patrocínios, talvez não mais que um juiz. Aliás, a OCTSP não é, em parte, de uma associação de amigos?

O pior é que a infeliz hipótese talvez consolidasse a ideia de que a orquestra do estado deva ficar numa casa que já é do estado, apesar da inadequação. E a construção da Sala Sinfônica ficaria adiada por mais um século. Acho que a comunidade musical tem de ser alertada para (mais) este absurdo.

Desmentidos e bombons podem ser enviados para este comentarista.

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Músicas inéditas e o melhor concerto da Ospa em 2015

Músicas inéditas e o melhor concerto da Ospa em 2015
O maestro Petri: esse eu respeitei
O maestro Petri: esse eu respeitei

Ontem, tivemos o melhor concerto da Ospa deste ano. Como faz diferença um bom regente e um bom programa! A presença de muitos músicos na plateia confirmava o óbvio: o repertório a ser apresentado era de primeira linha. Ah, e também um grupo orquestral mais arredondado, com menos rebarbas que o habitual, principalmente nos violinos. As cordas, tão criticadas por este ignaro e severo comentarista, estiveram muito melhores na noite de ontem. E não era um programa simples, pelo contrário. Tínhamos duas composições complexas e inéditas entre nós — uma de compositor contemporâneo e outra de um cara que nasceu há 150 anos, mas que tem obra pouco divulgada, apesar da alta qualidade.

Programa:

Wolfgang Amadeus Mozart: Abertura de “As Bodas de Fígaro”
Christopher Theofanidis: Concerto para fagote e orquestra
Carl Nielsen: Sinfonia nº2

Regente: Luís Gustavo Petri
Solista: Martin Kuuskmann (fagote)

Tudo começou com a chatíssima Abertura de “As Bodas de Fígaro”, música que só faz sentido dentro da ópera. Mesmo com a grife Mozart, os aplausos foram merecidamente modestos. O mérito da coisa foi a brevidade. Esqueçamos.

Martin Kuuskmann
Martin Kuuskmann, que fagote!

Tudo mudou no Concerto para fagote do norte-americano Theofanidis, escrito entre os anos de 1997 e 2002. A obra foi dedicada justamente ao solista da noite, o estoniano Martin Kuuskmann, o qual não apenas mostrou ser um excepcional solista, mas que arrancou suspiros de quem se interessa por homens. Havia real duplo sentido na frase de algumas mulheres no intervalo. Elas diziam algo como “nunca vi um fagote desses”. E riam, felizes. Todos os movimentos da peça são interessantes (I. alone, inward / II. beautiful / III. threatening, fast), com destaque para o movimento central, beautiful, baseado em melodias que se poderiam ouvir em igrejas ortodoxas gregas — espécie de inflexões rápidas de notas longas que lembram o som de gaitas de foles. Um espanto! E que solista! (Falo do som).

A noite foi finalizada com a esplêndida Sinfonia Nº 2, Os Quatro Temperamentos, de Carl Nielsen. Nela, cada movimento é curiosamente dedicado a um temperamento — colérico, melancólico, fleumático e sanguíneo. Para completar, era o dia dos 150 anos de nascimento deste compositor pouco conhecido entre nós. O silêncio em torno de seu nome é dos mais imerecidos. Suas seis sinfonias, o quinteto do sopros, assim como os concertos para clarinete e flauta deveriam estar no repertório de qualquer orquestra digna deste nome.

E a Ospa respondeu muito bem ao desafio que interpretar esta sinfonia difícil, mesmo com um dia a menos de ensaios — o feriado da última quinta-feira. A sinfonia exige muito de toda a orquestra, mas tudo ia adiante de forma lisa e fluente. Os muitos episódios sucediam-se sem traumas, passando de um grupo de instrumentos a outro. Com a exceção de um novo e pequeno erro claro das trompas, tudo esteve bem melhor articulado que o habitual, prova do bom trabalho do excelente maestro Petri, que também é pianista e compositor. Petri deve conhecer profundamente o obra, pois regeu sem partitura. Espero que volte outras vezes à Porto Alegre.

Resta saber por quê, justo ontem, as cordas da Ospa — normalmente tão rebeldes e fugidias — tocaram tão bem, estiveram mais coesas e com muito menor desafinação. E como o violinista Nielsen escrevia bem para sopros! O Allegro comodo e flemmatico é a maior prova disso, dentro da Sinfonia Nº 2.

Saímos do concerto eufóricos e, bom sinal, com dificuldades para dormir. Afinal, tudo o que é bom a gente não quer tirar da cabeça, né?

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