Um rascunho de Svetlana Alexievich, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015

escritora Svetlana Alexievich, Prêmio Nobel de 2015

O Nobel de Literatura, concedido à bielorrussa Svetlana Alexievich, 67 anos, na última quinta-feira (7), foi a senha para que se iniciassem duas barulhentas discussões em três países: a Bielorrússia (ou Belarus), a Rússia e a Ucrânia.

A primeira delas envolve a nacionalidade da literatura e da própria Alexievich. Os russos dizem que ela escreve em russo e nasceu na União Soviética. Colocando inadvertidamente lenha na fogueira, a própria autora disse, logo que recebeu o prêmio: “É muito perturbador. O Nobel evoca imediatamente os grandes nomes de Búnin, Pasternak e Brodsky”. Todos russos.

Ivan Búnin (Nobel de Literatura de 1933) e Boris Pasternak (recebeu em 1960) nasceram na Rússia czarista, produziram na União Soviética e foram opositores ao regime. Búnin, inclusive, emigrou e morreu na França. Joseph Brodsky (Nobel de 1987) nasceu durante a Segunda Guerra e morreu em Nova Iorque, exilado. Todos escreviam em russo. E Svetlana Alexievich também. Então, como ela não escreve em bielorrusso… Para os russos, ela é russa.

E a Ucrânia entre no jogo pelo simples fato da escritora ter nascido em seu solo e de ter mãe ucraniana, mesmo que tenha ido para Minsk ainda quando criança. Então é ucraniana.

Porém, para os bielorussos, ela cresceu, estudou e se formou como jornalista no país. O pai era um militar bielorrusso que fora transferido temporariamente para a Ucrânia. Além disso — e eles estão corretos –, ela sofreu enorme influência de grandes escritores do país, como Alés Adamóvich, o fundador do gênero de romance-documentário que a escritora pratica. Então é bielorrussa.

Lukashenko vê sua inimiga premiada

A outra discussão

A outra discussão gira em torno dos temas dos livros de Svetlana Alexievich. A partir de entrevistas — ela é uma extraordinária entrevistadora — a autora se dedica a criar painéis de vozes reais. Seus livros são “romances coletivos”, também conhecidos como “romances corais”, ou “romances de evidências”. São pessoas que falam de si mesmas numa espécie de coral.

Tais corais são formados por vozes de sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, do acidente nuclear de Chernobyl, da campanha no Afeganistão, etc. Também há um livro sobre como o povo sentiu a passagem do comunismo para o capitalismo. São relatos pessoais, onde, apesar de a política permanecer subjacente, têm um tom de forte crítica a várias gerações de governantes da União Soviética, Bielorrússia e Rússia.

(A Bielorrússia tem o mesmo presidente desde a implosão da União Soviética. Aleksandr Lukashenko, conhecido como O Último Tirano da Europa, está no cargo desde 1994 em sucessivas e mui discutidas reeleições).

Deste modo, o Nobel teria sido concedido a uma pessoa que dedica-se a tecer críticas à sociedade russa e bielorrussa, isto é, a uma pessoa de posições claras, non grata para muitos.

Então, na quinta-feira à noite, enquanto os amigos de Svetlana Alexievich faziam uma enorme festa numa vinoteca de Minsk, parte dos jornais e redes sociais locais referiam-se a um Nobel dado a uma autora que “odeia nosso país”.

A escritora em Portugal, na ocasião do lançamento de seu único livro traduzido para nossa língua

Europeia

A escritora fala com grande tranquilidade sobre a primeira questão levantada, a de sua nacionalidade. “Eu sou europeia. Nasci na Ucrânia, de uma família que era metade do local e metade bielorrussa. Quase imediatamente após meu nascimento, fomos para a Bielorrússia. Durante mais de 12 anos eu vivi na Itália, Alemanha, França e Suécia. E há dois anos, voltei para Minsk”.

A Academia Sueca, anunciando sua vitória, elogiou os “escritos polifônicos” de Alexievich, descrevendo-os como “um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo”. Muito influenciada pelo escritor Alés Adamóvich, que considera como seu mestre, Alexievich tem a particularidade de deixar fluir diferentes vozes em torno de um tema. Ela esclarece diversos destinos individuais, descrevendo mosaicos que criam a certeza de tragédias reais. Alexievich trabalha decididamente na faixa do drama e da morte.

A edição portuguesa da Porto

Os livros

Em 1989, ela publicou Tsinkovye Málchiki (Meninos de Zinco), sobre a experiência da guerra do Afeganistão. Para escrevê-lo, percorreu o país entrevistando mães de soldados mortos no confronto. Em 1993, publicou Zacharov-annye Smertiu (Encantados pela morte), sobre os suicídios cometidos por aqueles que não haviam conseguido sobreviver ao fim do socialismo. Em 1997, foi a vez de Vozes de Chernobyl, um aterrador retrato da tragédia cuja devastação radioativa atingiu principalmente a Bielorrússia. O livro vendeu 2 milhões de exemplares em língua russa.

No ano passado, foi lançado O Tempo de Segunda Mão (ou O Fim do Homem Soviético, em Portugal). Nesse novo trabalho, Alexievich se propõe a “ouvir os participantes do drama socialista”. Para a escritora, o “homo sovieticus” ainda continua vivo, e não é apenas russo, mas também bielorrusso, turcomano, ucraniano, casaquistanês, etc. “Hoje vivemos em Estados distintos, falamos línguas distintas, mas somos inconfundíveis, rapidamente reconhecidos. Todos nós somos filhos do socialismo”, afirma, referindo-se a seus “vizinhos de memória”. “O mundo mudou completamente e não estávamos realmente preparados para isso”

Falando à emissora sueca SVT, Svetlana Alexijevich disse que o prêmio a deixou com um sentimento “complicado”. A academia telefonou para ela enquanto estava em casa “deixando passar o momento da divulgação do vencedor”, disse ela, acrescentando que os mais de 3 milhões de reais do prêmio “comprariam sua liberdade”. “Demoro muito para escrever meus livros, de cinco a 10 anos cada um. Eu tenho duas ideias para novos livros, por isso estou muito satisfeita: agora vou ter dinheiro e tranquilidade para trabalhar neles.”

Os romances corais

Alexievich nasceu no dia 31 de maio de 1948 na cidade ucraniana de Ivano-Frankovsk. Após a desmobilização do pai do exército, a família retornou à Bielorrússia e se estabeleceu em uma aldeia onde ambos os pais trabalhavam como professores. Ela deixou a escola para trabalhar como repórter no jornal local na cidade de Narovl.

Alexievich escreve contos, ensaios e reportagens, mas diz que só encontrou sua voz sob a influência de Alés Adamóvich. Na cerimônia de divulgação do prêmio, a crítica literária Sara Danius disse que “não se trata de uma escritora de eventos nem de análise política, é uma historiadora de emoções. O que ela nos oferece é realmente um mundo emocional. O desastre nuclear de Chernobyl e a guerra soviética no Afeganistão são pretextos para explorar a indivíduo soviético e pós-soviético”.

Chernobyl, o horror

Em Vozes de Chernobyl, Alexievich entrevista centenas de pessoas afetadas pelo desastre nuclear, indo desde uma mulher que, agarrada a seu marido morto, ouve os enfermeiros lhe dizerem que “isso não é mais uma pessoa, é um reator nuclear”, até os soldados enviados ao local. Fala de suas raivas por terem sido “arremessados lá, como areia no reator”. Em Meninos de Zinco, ela reúne vozes da guerra do Afeganistão: soldados, médicos, viúvas e mães.

“Eu não pergunto às pessoas sobre a política, eu pergunto sobre suas vidas: o amor, o ciúme, a infância, a velhice”, escreveu Alexievich na introdução ao O Tempo de Segunda Mão (O Fim do Homem Soviético). “Me interessam não apenas as tragédias vividas, mas a música, as danças, as roupas, os penteados, os alimentos. Os detalhes diversos de uma maneira desaparecida de viver. Esta é a única maneira de perseguir a catástrofe”.

“A história está interessada apenas em fatos; as emoções são excluídas do seu âmbito de interesse. É considerado impróprio admiti-los na história. Eu olho para o mundo como uma escritora, não como uma historiadora. Eu sou fascinada por pessoas “.

Seu primeiro livro, A guerra não tem rosto de mulher, tem como base entrevistas com mulheres que participaram da Segunda Guerra Mundial. “É uma exploração da Segunda Guerra Mundial a partir de uma perspectiva que era, antes do livro, quase completamente desconhecido “, disse Danius . “Ela conta a história de mulheres que estavam na frente de batalha na segunda guerra mundial. Quase um milhão de mulheres soviéticas participaram na guerra, e esta era uma história desconhecida. A obra foi um enorme sucesso na União Soviética, vendendo mais de 3 milhões de cópias. É um documento comovente e íntimo, trazendo para muito perto de nós cada indivíduo.” 

Tradutores, editores e leitores

A edição alemã de “A guerra não tem rosto de mulher”

Embora Alexievich tenha sido traduzida para o alemão, francês e sueco, ganhando uma série de importantes prêmios por seu trabalho, as edições em inglês do seu trabalho são escassas. Em Portugal, O Fim do Homem Soviético saiu este ano pela Porto Editora.

Seu editor francês diz que este livro é uma pesquisa micro-histórica da Rússia da segunda metade do século XX, indo até os anos Putin. Aliás, Alexievich é uma das vozes de oposição, costumando criticar duramente Putin e Lukashenko em palestras para leitores.

Bela Shayevich, que atualmente está traduzindo Alexievich para o inglês disse que “esta vitória significa que mais leitores serão expostos às dimensões metafísicas de sobrevivência e desespero das tragédias da história soviética. Espero que mais pessoas entendam o sofrimento provocado por circunstâncias geopolíticas estranhas a elas”.

A opinião geral de seus admiradores é a de que seus livros são muito incomuns e difíceis de categorizar. São tecnicamente não-ficção, mas recebem um belíssimo tratamento literário e de trabalho de linguagem. Sua tradutora inglesa faz uma reclamação: “Os editores ingleses e americanos são relutantes em assumir riscos e não gostam de livros muito trágicos. Não investem em um livro só porque ele é bom. Agora, com Nobel, talvez a coisa mude”.

Nas entrevistas após o prêmio, perguntaram a Alexievich sobre os refugiados na Europa. “A Europa agora passa por mais um teste sobre sua própria humanidade. Estive recentemente em Mântua, na Itália, e alguns amigos me convidaram para “marchar de pés descalços”. Este tipo de marcha foi organizada pela primeira vez em Veneza e agora está indo para todas as cidades. As pessoas tiram os sapatos e caminham descalças pelas cidades em solidariedade aos refugiados. Lá estavam refugiados, imigrantes e italianos solidários a eles. E isto na Itália, onde o nacionalismo é muito forte. Espero que, desta vez, a Europa seja aprovada no teste”.

Svetlana Alexievich é apenas a 14ª mulher a receber o Nobel de Literatura. Ao todo, 111 autores já foram premiados.

(*) Com Elena Romanov

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Comentário de Charlles Campos sobre Alexievich:

Estou apaixonado por essa autora. Estou lendo avidamente o Vozes de Tchernóbil (mania esse revisionismo de acentos nas palavras russas: antes era Chernobíl, Checóv, Karenina, Karamázov, agora são outras sonoridades completamente diferentes). Que livro, senhores! Não esperem história acadêmica ali, nem erudição filosófica cartorizada. A profundidade inigualável desse livro está no sentimento humano, na pureza do olhar, o olhar que extravasa a tragédia, a omissão, a política assassina. Neste livro se diz coisas tão espantosas que assustamos por enxergá-las inseridas na trivialidade, como essa: os radioisótopos espalhados pelo acidente permanecerão pelo planeta 200 mil anos, são imortais comparados a nós. Esse livro, para mim, é o alívio gratificante de encontrar uma resposta ao documentário da BBC sobre Tchernóbil que eu assisti há 2 anos, que mostra os generais soviéticos computando todas as vidas perdidas na indiferença acintosa dos monumentos aos heróis: Svetlana restitui a riqueza humana desses assassinados e desses suicidas, nega-lhes a frieza das estatísticas. Um livro que todo mundo deveria ler, imediatamente. O sarcófago, a estrutura de aço construída em torno do reator 4 de Tchernóbil, expiou seu prazo de validade nesse ano, 30 anos depois. Se as chamas tivessem alcançado os outros três reatores, teria sido, literalmente, o fim da humanidade, a nossa extinção. 4 dias depois do acidente, nuvens de Césio-137 e Urânio-235 expelidas em Tchernóbil já estavam na China, na África, e pelos céus de vários países europeus. As narrativas desse livro_ impressiona saber serem colhidas em entrevistas, devido suas altas qualidades literárias_, mostram o quanto devemos nossas vidas ao sofrimento e morte dessas pessoas. É simplesmente um livro sublime e vasto. A Companhia das Letras prometeu publicar toda a bibliografia da autora.

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19 de maio é o dia dela

DSC01583Hoje a Elena está de aniversário. Ela nasceu muito longe, na pequena Moguilev. Quando aconteceu, eu já estava por aí há algum tempo — em outro continente e hemisfério — e a possibilidade de um encontro entre nós era menor do que a de eu ganhar na Megasena. Afinal, somos sete bilhões e ela nem era um milhão, o que já seria complicado.

Mas aconteceu. Conhecia-a na Ospa, depois tivemos uma discussão no Facebook sobre um andamento de Beethoven (esperavam um bate-boca, mas ficamos amigos), nos conhecemos e hoje temos uma vida tão tranquila e amorosa que ela costuma dizer que sente cada uma de nossas caminhadas como se fossem férias, mesmo que eu a esteja levando para o trabalho e vice-versa. E são férias mesmo, tal a leveza que alcançamos — ao menos na área de convivência, porque quando subo na balança… Bem, deixa pra lá. E falamos pouco ou nada de Beethoven. E não damos um ao outro mera atenção residual. Mas nada disso adiantaria, repito, nada disso adiantaria se não considerássemos doces os lábios um do outro.

Dizer que espero que eu possa ajudá-la a suportar a vida para que ela não nos marque para o resto do dia, da semana ou da existência é pouco, pois, na verdade, espero que ela tenha uma bela vida, cheia de sorrisos, saúde e felicidade — sempre a meu lado, claro.

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25 imagens fundamentais de nosso tempo (uma antologia pessoal)

25 imagens fundamentais de nosso tempo (uma antologia pessoal)

Muito pessoal. A ideia e algumas fotos — e discordâncias — vieram do site mundo.com. Retirei algumas imagens sugeridas pelo site, coloquei outras, e ampliei a seleção de 20 para 25 fotos. Acho que ficou aceitável.

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1. Os soviéticos hasteando a bandeira no Reichtag. A foto foi tirada com uma Leica pelo fotógrafo Yevgeni Khaldei, da Agência Tass.

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2. O avião 14 Bis levantando voo. No começo do século 20, Alberto Santos Dumont concluiu a construção de seu avião 14 Bis e com ele alçou voo, fazendo deste o primeiro objeto mais pesado que o ar a voar sem a ajuda de impulsos externos.

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3. Erguendo a bandeira em Iwo Jima. A intenção norte-americana ao invadir a ilha era obter uma localização estratégica para o reabastecimento das tropas norte-americanas no avanço até o Japão. Após a vitória, os EUA ficaram com o local para si, claro.

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4. Dia da Vitória em Times Square. O final da Segunda Guerra. O fotógrafo Alfred Eisenstaedt tirou a famosa fotografia de um marinheiro norte-americano beijando uma jovem enfermeira na Times Square em Nova York. A mulher foi identificada mais tarde, na década de 1970, como Edith Shain, porém a identidade do marinheiro continua desconhecida.

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5. Che Guevara, é claro. O famoso retrato de Che Guevara, intitulado Guerrilheiro Heroico, foi tirado em 5 de março de 1960 em Havana, Cuba. Guevara comparecia à inauguração de um memorial.

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6. A capa de Abbey Road. Os Beatles se juntaram nos estúdios da Abbey Road, em Londres, na quente manhã de 8 de agosto de 1969 para tirar a foto da capa do disco que estavam gravando.

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7. O protesto do Monge. Em 11 de junho de 1963, Thich Quang Duc, um monge budista vietnamita, ateou fogo ao próprio corpo e queimou até a morte em uma rua movimentada no centro de Ho Chi Minh.

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8. O desastre do Hindenburg. O desastre do Hindenburg ocorreu em 6 de maio de 1937, quando o gigantesco dirigível alemão pegou fogo e foi destruído durante uma tentativa de pouso na base naval de Lakehurst, em Nova Jersey, nos Estados Unidos.

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9. Na Praça da Paz Celestial. Este misterioso homem tornou-se famoso em todo o mundo após o fotografo Jeff Widener registrá-lo em pé, frente a uma coluna de tanques chineses durante os protestos na Praça da Paz Celestial em Pequim, no dia 5 de junho de 1989.

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10. A imagem do corpo do jornalista Vladimir Herzog enforcado em cela do II Exército é uma das mais emblemáticas do período ditatorial.

vladimir herzog

11. Menina afegã. Sharbat Gula tinha 12 anos quando foi fotografada pelo jornalista Steve McCurry durante uma reportagem para a revista National Geographic, publicada em junho de 1985. Quando foi fotografada, a menina afegã vivia como refugiada no Paquistão durante a ocupação soviética no Afeganistão.

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12. O monstro do Lago Ness. Foto de 1934. As histórias sobre o monstro do Lago Ness têm sido contadas desde aproximadamente 565 d.C. Os defensores de sua existência acreditam que a criatura venha de uma linhagem de Plesiossauros… Tudo negado pela comunidade científica, obviamente.

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13. Guerra Fria. Explosão da bomba atômica nas Ilhas Marshall. Era um teste nuclear comum em meados do século XX. A foto é de 25 de julho de 1946, quando da primeira detonação de uma bomba atômica embaixo d’água. Foi liberada uma nuvem de vapor com quilômetros de altura, coroada por jatos de água.

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14. Nascer da Terra. Na noite de Natal de 1968, nenhum dos astronautas a bordo da Apollo 8 estava preparado para o momento em que veriam seu planeta surgir atrás no horizonte lunar. O Nascer da Terra é o nome dado à imagem da NASA tirada pelo astronauta William Anders durante a primeira viagem tripulada a orbitar a Lua.

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15. Einstein mostrando a língua. É uma das imagens mais conhecidas de Einstein. O cientista aprovou a foto e pediu nove cópias dela. Após autografar uma das imagens, ele a presenteou a um repórter. Em 19 de junho de 2009, a imagem assinada foi leiloada por mais de US$ 70 mil.

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16. Almoço no topo de um arranha-céu. 20 de setembro de 1932. Almoço no topo de um arranha-céu é uma famosa fotografia em preto e branco tirada durante a construção de um edifício na cidade de Nova York.

15

17. Maio de 1968, Paris. Em 13 de Maio de 1968, em Paris, o fotógrafo Jean-Pierre Rey imortalizou uma jovem de 23 anos. A foto foi publicada pela revista Life. A protagonista da dessa célebre imagem foi posteriormente identificada como sendo a jovem aristocrata e modelo inglesa, Caroline de Bendern, que vivia em Paris depois de ser expulsa de vários colégios na Inglaterra. Ela estava sobre os ombros de um amigo, porque seus pés estavam doloridos. O avô viu a foto e ficou escandalizado. Por conseqüência desta fotografia, Caroline perdeu a mesada milionária e acabou sendo deserdada pelo avô. Caroline passou o resto de sua vida processando Jean-Pierre Rey pelos direitos da fotografia.

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18. Fotografia icônica mostra as cabeças de Lampião (última de baixo), Maria Bonita (logo acima de Lampião) e outros cangaceiros do bando.

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19. No dia 29 de junho de 1973, durante os confrontos que culminaram com a deposição do presidente do Chile, Salvador Allende, o cinegrafista sueco-argentino Leonardo Henricksen, do canal 13 de Buenos Aires, deixou seu hotel, no Centro de Santiago, ao ouvir rajadas de metralhadoras. Era o Regimento de Blindados, que se sublevara e atacava o Palácio de Governo. Henricksen conseguiu se posicionar a apenas duas casas do palácio. Militares determinaram que a rua fosse desimpedida, mas ele não saiu do lugar. Um oficial apontou uma arma para o cinegrafista. E atirou. A imagem treme, mas ele continua filmando. Um soldado, então, deu um tiro de misericórdia, de fuzil. A câmera continua registrando a cena até que tudo fica branco na tela.

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20. O impacto. A fotografia foi considerada pela National Geographic uma das 25 mais importantes imagens dos ataques de 11 de setembro. Às 9 horas da manhã do dia 11 de setembro de 2001, o voo 175 da United Airlines colidiu contra a torre sul do World Trade Center.

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21. Execução em Saigon. Esta foto foi tirada por Eddie Adams durante a guerra do Vietnã. O major General Nguyen Ngoc Loan, à esquerda mata o vietcongue Nguyen Van Lem à direita.

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22. Dali atomicus. O fotógrafo Philippe Halsman informou que tentou obter a imagem 28 vezes até ficar satisfeito com o resultado. Antes das técnicas modernas e computadorizadas de manipulação de imagens, ele conseguiu tirar esta fotografia do artista surrealista Salvador Dali suspenso no ar.

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23. Menina de 9 anos fugindo após ataque em uma aldeia no Vietnã. Ela sobreviveu, apesar de suas roupas terem queimado sobre seu corpo.

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24. Um homem judeu, ajoelhado diante de um poço cheio de corpos, está prestes a ser morto por um soldado alemão. Esta fotografia foi encontrada no álbum de fotos de um soldado alemão, e na parte de trás estava escrito o título de “O Último Judeu de Vinnitsa”.

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25. Foto de Mike Bem, esta imagem mostra-nos a mão de um menino ugandense na mão de um médico da Cruz Vermelha.

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Eu vou ter uma convulsão com este Ministro da Saúde

Eu vou ter uma convulsão com este Ministro da Saúde

Antes de tudo, um detalhe: o maior doador individual da campanha do atual Ministro da Saúde para deputado, em 2014, Elon Gomes de Almeida, é sócio do grupo Aliança, uma administradora de planos de saúde.

Ricardo Barros

Pois bem, em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo, o atual Ministro da Saúde, o famigerado Ricardo Barros (PP-PR) revelou com toda a clareza o projeto político do governo de Michel Temer com relação à Saúde, explicitando que “o país precisa rever o direito universal à saúde”, e que “quanto mais gente puder ter plano, melhor”.

Barros afirmou que pretende criar uma equipe para rever protocolos da área e descobrir se há fraudes na aplicação dos recursos. Ele defendeu, no entanto, que “quanto mais gente puder ter planos de saúde, melhor porque vai ter atendimento patrocinado por eles mesmos, o que alivia o custo do Governo em sustentar essa questão“. Ora, então para que pagamos o SUS? Para usá-lo somente para receber uma merreca de aposentadoria? Qual é a razão deste duplo pagamento? É a mesma questão na educação. Pagamos impostos, mas, se queremos uma educação melhor para nossos filhos, pagamos também colégios particulares. E o que é o estado mínimo? Não é aquele que garante, saúde, educação e segurança? Pois não chegamos ainda lá.

(O país tem 2 milhões de profissionais e trabalhadores do SUS, parte dos quais constituem as 40 mil equipes de Saúde da Família, com cerca de 265 mil Agentes Comunitários de Saúde, milhares de estudantes de cursos de graduação e pós-graduação na área de saúde, milhares de gestores que atuam em mais de cinco mil municípios desse imenso país, lutando para garantir o acesso universal a serviços de saúde. A Constituição Federal de 1988 consagrou “Saúde como Direito de Todos e Dever do Estado” e instituiu o SUS como Sistema de Saúde Pública universal e equitativo, tentando inscrever o Brasil no rol dos países civilizados).

Arthur Chioro, que dirigia o Ministério da Saúde até antes da última reforma ministerial de Dilma, afirmava constantemente que faltavam recursos e que era necessário que houvesse outras fontes para suprir o sistema, com a provável volta da CPMF. Cortes, entretanto, nunca fizeram parte dos planos. O país gasta aproximadamente 7% de suas Receitas Correntes Brutas com o sistema. Para o Movimento Saúde Mais Dez, que reúne mais de cem entidades do setor, seria necessário elevar esse valor para 10%.

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1971, o melhor ano do Rock

1971, o melhor ano do Rock

Who`s NextHoje, minha praia são os eruditos, mas em 1971 tinha de 13 para 14 anos e estava atento a tudo o que acontecia na música que ouvia — a MPB e o rock. Dando uma olhada nos lançamentos daquele ano, vejo muito daquilo que é ouvido e reverenciado até hoje, mesmo que tenham passado 45 anos. A lista reduzida que deixo para vocês logo após a imagem da capa do Led Zeppelin IV é impressionante. É complicado vencer 1971, um ano acachapante em que — reduzindo ainda mais a lista — foram produzidas coisas como Led Zeppelin IV, Who`s Next?, Aqualung, Tapestry, L. A. Woman, American Pie e Fragile. Talvez Baba O’Reilly tenha sido a melhor gravação do melhor ano da história das gravações, não? Este post foi suscitado pelo lançamento de Never a Dull Moment: Rock’s Golden Year (Nenhum Momento Chato: o Ano de Ouro do Rock) do crítico inglês David Hepworth.

Abaixo, a lista reduzida, repito.

Led Zeppelin IVParanoid — Black Sabbath
Pearl — Janis Joplin
Tapestry — Carole King
Aqualung — Jethro Tull
Sticky Fingers — Rolling Stones
L.A. Woman — The Doors
Blue — Joni Mitchell
American Pie — Don McLean
Ram — Paul McCartney
Who’s Next — The Who
Tarkus — Emerson, Lake & Palmer
Meddle — Pink Floyd
At Fillmore East — The Allman Brothers
Nursery Crime, Genesis
Electric Warrior — T. Rex
Fireball — Deep Purple
Imagine — John Lennon
Led Zeppelin IV — Led Zeppelin
The Concert for Bangladesh — George Harrison, Eric Clapton e outros
Killer — Alice Cooper
Fragile — Yes
Hunky Dory — David Bowie

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Hoje pela manhã, entrou um vírus no meu computador…

Hoje pela manhã, entrou um vírus no meu computador…

A coisa estava lenta pacas. Aí, o Latuff chegou e…

Latuff Milton

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A mesa ao lado pergunta: por que os pais dos alunos não reformam os colégios públicos do RS?

A mesa ao lado pergunta: por que os pais dos alunos não reformam os colégios públicos do RS?

Hoje, ao meio-dia, a mesa de direitistas do Tuim estava impossível. Primeiro. o quarteto afirmou que Temer estaria sendo boicotado pela mídia (?). Depois, decidiram que os pais dos alunos deveriam reformar as salas destroçadas dos colégios públicos gaúchos. Não chega a ser um absurdo, mas ninguém considerou que tais pais — da parcela mais pobre da população — têm enooooooorme tempo livre e, cada um deles, complicadas lutas de subsistência pela frente. Ah, ninguém explicou se o estado daria o material para as reformas… Possivelmente não, pois um deles, absolutamente encantado com a ideia, falou em colocar uma placa na entrada com o nome de todos os pais que reconstruíram o colégio. Também não falaram na segurança e na garantia de um serviço que não seria o mais profissional do planeta.

E depois querem que a gente volte do almoço tranquilo e bem humorado. Pergunto, pode-se dizer que isso seja um descanso? Melhor mergulhar numa leitura qualquer e esquecer do mundo ao redor. Ele pode ser horrível.

Abaixo, fotos de Carlos Latuff tiradas hoje pela manhã no Colégio Paula Soares, em pleno centro de Porto Alegre. Imagina como estão as da periferia.

Paula Soares 1

Paula Soares 2

Paula Soares 4

Paula Soares 3

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Só porque eu gosto: fotos de crianças rindo

Só porque eu gosto: fotos de crianças rindo

Criancas rindo 4

Criancas rindo 1

Criancas rindo 3

Criancas rindo 2

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Boa tarde, Argel Fucks

Boa tarde, Argel Fucks
Paulão é pra isso, não pra bater pênaltis.
Paulão é pra isso, não pra bater pênaltis.

Como bem assinalou o Corneta Colorada, nenhuma previsão é demasiadamente pessimista quando o assunto é o Internacional. Sabemos que o Campeonato Gaúcho caiu em nossas mãos em razão da incapacidade do Grêmio de chegar a outro lugar que não seja a Arena e sabemos que tu, Argel, és é ainda nosso técnico em razão… Bem, aí eu já desconheço o motivo.

Ontem, tu bateste todos os recordes. Com Anderson fora, recuaste Sasha para colocar Aylon. Ora, isso é mudar a característica do time, é mudar o esquema. Por pior que esteja, o substituto de Anderson é Alex, sempre Alex. E ele não estava nem no banco… Mais: em vez de colocar 12 reservas, como o regulamento do Brasileiro permite, colocaste só 7… E ainda cometeste mais duas piadas dignas de um verdadeiro pateta.

(1) Escalaste Paulão para bater o pênalti. Ora, Paulão é um de nossos melhores jogadores de 2016, mas convidá-lo para bater pênaltis é uma absoluta demasia. Ele não é bom do ponto de vista técnico e ontem estava especialmente atrapalhado, com saudades dos atacantes mansinhos do Gauchão.

(2) Retirar o centro-avante Aylon para colocar William na lateral esquerda e Gustavo Ferrareis no ataque (com a saída de Artur) foi digno da imensa gargalhada que dei na hora.

O Inter fez 30 cruzamentos para a grande área. Este talvez seja outro recorde, mas é antes outro absurdo, considerado-se que visavam Aylon e um grupo de jogadores não muito altos. O goleiro da Chapecoense consagrou-se, é claro.

E houve aquele momento-vexame dos times sem comando: em uma falta a favor do Inter, ninguém foi fazer a cobrança. O árbitro mandou que o mais próximo desse continuidade ao jogo. Ou seja, assim como qualquer um bate pênalti — e erra –, qualquer um serve para bater faltas no meio-de-campo.

Nosso time é uma pândega e só estou aguardando que tu caias, Argel. Já são 10 meses que nosso clube — altamente profissional em algumas áreas — deixa o futebol nas tuas mãos, um amador que faz marketing de suas qualidades nas entrevistas coletivas pós-fiascos.

Na boa, #ForaArgel.

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Momento Bolsonaro: Este é um país que vai pra frente / Eu te amo, meu Brasil

Momento Bolsonaro: Este é um país que vai pra frente / Eu te amo, meu Brasil

os-incriveis-compacto-eu-te-amo-meu-brasil-14328-MLB4006299838_032013-FO primeiro vídeo é uma propaganda cívica da época da ditadura militar, desencavada pelo meu amigo Fernando Guimarães. Passava na TV a cada intervalo comercial e todos a conheciam de cor. Coloquei-a ontem no Facebook e um bando de gente veio dizer que lembrava da letra… “Este é um país que vai pra frente, Ô Ô Ô… De uma gente amiga e tão contente Ô Ô Ô… Este é um país que vai pra frente / De um povo unido de grande valor / É um país que canta, trabalha e se agigante / É o Brasil de nosso amor”. É inesquecível para quem tinha via televisão na época. Que morte horrível.

O segundo vídeo é mais longo e entrava só pelo rádio, acho. Ouvíamos a toda hora “Eu te amo, meu Brasil” com Dom e Ravel (primeira versão) e depois com Os Incríveis que, aparentemente, quiseram gravá-la. Como a primeira, é uma marchinha. Fez enorme sucesso, embora jamais tocasse em minha casa, é claro. Era uma “arte” paralela incentivada pelo governo numa época de ouro de nossa MPB. Enquanto algumas rádios tocavam Chico, Tom, Caetano, Milton, etc., outras, mais populares batiam no civismo, e na promoção do amor ao país. Enquanto isso, havia o bipartidarismo que deu origem ao atual PMDB e a tortura grassava..

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Antecipamos a foto oficial do presidente Temer

Antecipamos a foto oficial do presidente Temer

Lasciate ogni speranza voi che entrate.

“Deixai qualquer esperança, vós que entrais”. Este famoso verso se encontra na porta de entrada para o Inferno, a primeira parte de A Divina Comédia, de Dante.

temer não

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Maquiavel já sabia

Maquiavel já sabia

Maquiavel ensina que o pior tipo de principado é o herdado porque o príncipe não teve qualidades pessoais para conquistar o poder. Ele lhe caiu nas mãos e seu reinado será marcado pela instabilidade, já que diante da crise o príncipe não saberá como agir, pois não foi preparado para isso.

Retrato de Niccolo Machiavelli (1469-1527), historiador, escritor, dramaturgo, político e filósofo italiano. Óleo de Santi di Tito (1536-1606), Florença, Palazzo Vecchio Or Palazzo Della Signoria
Retrato de Niccolo Machiavelli (1469-1527), historiador, escritor, dramaturgo, político e filósofo italiano. Óleo de Santi di Tito (1536-1606), Florença, Palazzo Vecchio Or Palazzo Della Signoria

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E Carla Bley faz 80 anos…

E Carla Bley faz 80 anos…

Se há uma artista que amo e com quem gostaria de passar horas conversando, esta é Carla Bley, que hoje completa injustos 80 anos. Nunca vou esquecer do dia em que ouvi pela primeira vez o som de uma das suas Big Bands. Cheguei tarde. Eu a conheci apenas em 1996, quando comprei o CD The Carla Bley Big Band Goes to Church. E eu tinha comprado aquele disco da ECM só para experimentar, nem sabia direito quem era ela e aquele nem era o melhor de seus discos. Depois, comecei a ouvir todo o resto. Desconheço artista capaz de maior variedade. Ela vai do tradicional ao nunca dantes, do tango ao hip hop, do camerístico ao sinfônico, do clássico ao popular com absoluta naturalidade, classe e humor. A amplitude do que escrevo não é exagerada, é bem calculada, ouça e comprove.

Um dos fatos que garante minha profunda admiração por esta extraordinária artista criativa — e quem a conhece sabe porque faço questão de chamá-la de criativa — ocorreu ontem. Fiquei na rua durante um concerto da Ospa porque Paulo Moreira estava apresentando algumas de suas obras na FM Cultura. Querem mais? Quando eu estava ali, o trombonista Julio Rizzo passou por mim e perguntou o que eu estava fazendo. Depois de informado, ele pôs a mão na boca, contraiu o rosto e disse:

— A Carla é muito foda, cara! Mas 80 anos??? Já?

Pois é, quem ouve a música e as entrevistas de Carla Bley sabe de sua juventude. Hoje é um dia triste para democracia brasileira. Imaginem que acabo de ouvir um discurso 100% filha-da-puta e mentiroso da senadora Ana Amélia, mas vou tentar abrir um espaço para Carla Bley. Pois, como  escreveu hoje o Sérgio Karam em seu Facebook:

É provável que hoje seja o dia da institucionalização definitiva (?) do golpe, com uma votação no Senado que tem toda cara de tragédia anunciada. Lamentável, portanto, que esse dia coincida com o aniversário de 80 anos de uma das mentes mais criativas, generosas e libertárias do mundo musical, a querida Carla Bley, compositora inimitável e ser humano especialíssimo. Um brinde carinhoso a ela, apesar de tudo, desejando que possa ainda escrever muitas outras obras-primas, para alegria de seus ouvintes. (A foto, recente, é de Lauren Lancaster neste artigo do NYT.) Cheers!!!

Carla Bley

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O golpe está dado, resta-nos a reação

O golpe está dado, resta-nos a reação

O golpe está dado. Vivemos numa republiqueta latino-americana onde um gangster, Eduardo Cunha, aglutina interesses da Fiesp, bancos privados, empreiteiras, EUA, multinacionais do petróleo, fundamentalistas evangélicos, etc. — todos auxiliados por uma imprensa que os governos petistas só fizeram adubar — e faz cair um governo. E não pensem que morro de amores por Dilma.

As forças econômicas atuam à revelia da democracia e da sociedade. Alguns ridicularizaram Paraguai e Honduras. Hoje, somos iguais. O desfecho da história está decidido há meses. O que nos resta agora é a luta diária em todos os espaços.

Espero que o governo Temer não tenha paz, pois se tiver, meu amigo, prepare-se. A insegurança jurídica já está aí, tendo em vista a posição facciosa das instituições que deveriam zelar pela ordem democrática. Haverá forte tentativa de retrocesso social.

Mais: o governo Temer procurará reduzir em muito os direitos sociais e trabalhistas conquistados em lutas de várias décadas. Infelizmente, prevejo greves, perdas, instabilidade e violência.

E, mesmo com a notória exceção dos EUA, o mundo já nos trata como merecemos: como um paisinho instável  de segunda classe. Com nosso Congresso BBB (Bala, Boi, e Bíblia), votado por uma maioria inteiramente apolítica, é o que somos mesmo.

As especulações sobre os futuros Ministérios são de arrepiar. Vai dar até para esquecer Katia Abreu na Agricultura, que será substituída por Blairo Maggi, o Rei da Soja… O nível é rasante, cheio de velhos conhecidos nossos.

Hoje não é dia do enterro do PT, é o dia do enterro de 24 anos de estabilidade de um discutido presidencialismo de coalizão. Por ironia, esse período teve um impeachment em seu início e terá outro em seu final.

Os próximos dois anos podres, violentos e, fundamentalmente, necessários apenas para que permaneçamos como nação periférica e desigual.

Uma pena.

michel-temer

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Ao comentar o golpe no Paraguai, em 2012, Galeano descreveu o golpe no Brasil

Ao comentar o golpe no Paraguai, em 2012, Galeano descreveu o golpe no Brasil

Faltando poucas horas para a deposição de Dilma pelo Senado, vale recordar as palavras do já falecido Eduardo Galeano registradas em 2012. Ao tratar do golpe realizado no Paraguai, o intelectual fez ponderações dignas de um exímio observador político e que se aplicam perfeitamente ao atual quadro brasileiro. Os processos são idênticos, assim como as forças que os regem. Seria o Brasil capaz de trilhar outro destino, ou se trata de uma luta perdida contra poderes inabaláveis?

Eduardo Galeano, teria muito a ensinar sobre o golpe em curso no Brasil
Eduardo Galeano, teria muito a ensinar sobre o golpe em curso no Brasil

Do Pragmatismo Político

Neste momento é bom recordar uma entrevista de Eduardo Galeano, do ano de 2012, para a revista La Garganta.

Ao tratar dos golpes realizados no Paraguai e em Honduras, quando os presidentes Fernando Lugo e Manuel Zelaya foram depostos, o falecido escritor fez ponderações dignas de um exímio observador político e que se aplicam perfeitamente ao atual panorama brasileiro. Os processos são muito semelhantes, assim com as forças que os regem.

Neste contexto, considerando que Dilma ainda terá 180 dias para se defender e tentar voltar à Presidência, cabe a reflexão: seria uma Brasil capaz de trilhar outro destino, ou se trata de uma luta perdida contra poderes inabaláveis?

Relembre as palavras de Eduardo Galeano:

Historicamente, o Paraguai foi arrasado por crimes de independência por ser o único país de fato livre, de fato independente, que não nasceu da dívida externa como nasceram outros países da América Latina.

Paraguai tinha uma organização interna do trabalho e dos direitos dos trabalhadores, que era inviável para o resto dos latino-americanos.

No Paraguai, não havia fome, nem analfabetismo e o que havia era um sentido de dignidade nacional. Depois da derrota, quando a Tríplice Aliança arrasou o país, perderam isso. Os poucos sobreviventes do extermínio do Paraguai receberam o país mais heroico de todos. E os invasores desenvolveram uma enorme dívida com os banqueiros que financiaram o extermínio.

O golpe que acontece agora [2012] no Paraguai ocorre porque houve um governo que quis recuperar essa tradição de dignidade, que como dissemos, não estava morta.

Então Fernando Lugo [presidente deposto] tentou, muito timidamente, iniciar algumas tímidas mudanças para que o Paraguai voltasse a ser o país mais independente, mais justo, e isso foi um pecado imperdoável, do ponto de vista dos donos do poder.

Simplesmente ocorre algo similar cada vez que há tentativas de mudar as coisas, porque isso se vive como uma ameaça sob o enfoque dos donos da ordem estabelecida, que não querem que nada mude.

Eles vêem como um perigo, uma ameaça, ainda que na realidade não fosse um perigo grave, porque nem em Honduras, nem no Paraguai havia presidentes envolvidos em revoluções muito profundas.

Apenas anunciaram que começavam a fazer, ou que tinham a intenção de fazer alguma reforma. Se isso bastou para derrubá-los, o que quer dizer é que é um veto, que suponho que vem de cima, que está para além dos governos, ou que há quem governe esses governos, governados do exterior e de cima.

Os golpes vão se incubando aos poucos e com o apoio dos meios dominantes de comunicação.

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Mendelssohn — A Sinfonia Nº 5, "A Reforma"

Mendelssohn — A Sinfonia Nº 5, "A Reforma"
Mendelssohn
Mendelssohn

Se há uma obra que me emocione ao ponto de eu ficar me controlando é esta “A Reforma” de Felix Mendelssohn-Bartholdy. Isso por várias razões: a primeira é sem dúvida a forma como o compositor faz a releitura do Bach sacro. A obra é um elo entre o barroco perdido e o classicismo, tendo sido composta para comemorar os 300 anos da Reforma Religiosa, em 1830. É a sinfonia mais austera de Mendelssohn, que tratou de olhar para o passado da música alemã e nele viu a imensa e protetora sombra de Bach. Não apenas o movimento final é baseado no hino luterano Ein’ feste Burg ist unser Gott — também utilizado por Bach na célebre Cantata BWV 80 e aqui anunciado por uma flauta — , como o primeiro movimento leva o chamado “Amém de Dresden”, depois utilizado por Wagner no Parsifal. “A Reforma” foi publicada em 1868, depois da morte do autor, e sua estreia foi somente em 15 de novembro de 1832. A intenção de estreá-la em 1830, nas comemorações do tricentenário da Confissão de Augsburgo (1530), fracassou por motivos políticos. Ficou uma belíssima sinfonia, séria e cheia de elementos retirados da liturgia protestante. Curiosamente, Mendelssohn dizia-se insatisfeito com a obra, mas ainda bem que não sofria da Síndrome de Bruckner, deixando-a chegar até nós sem revisões. Nos movimentos rápidos, há claros ecos de beethovenianos. Compreensível. Afinal, o mestre tinha falecido 3 anos antes.

É incrível a sensação que tenho no final do primeiro minuto do terceiro vídeo. Parece que vai surgir um coral de Bach. Confiram.

Mesmo para um incondicional ateu como eu, a música, além de bela, tem tamanho referencial histórico que é irresistível ouvi-la e reouvi-la como se estivessem me ditando uma História de Música com a mais alta temperatura emocional. O grande Ton Koopman, experiente regente de Cantatas de Bach e da música barroca, está inteiramente à vontade. E muito feliz.

Bom concerto!

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Inter é hexa e Sasha dança a valsa dos 15 anos com a bandeira de escanteio

Inter é hexa e Sasha dança a valsa dos 15 anos com a bandeira de escanteio
Alisson, uma doce despedida. Volte sempre.
Alisson, uma doce despedida. Volte sempre.

A Elena disse que eu vibrei mais com os gols do Rosario Central do que com os do Inter ontem. Deve ter razão. O gol de Sasha foi um alívio, foi a obrigação cumprida, a certeza de que não passaríamos por um fiasco. Já os do RC foram puro divertimento.

Ainda considero o Gauchão uma espécie de antepasto. Só que o jantar, meus amigos, não vem há décadas. Então gostaria de projetar o Brasileiro e a Copa do Brasil.

O Inter não joga bonito. É um time realista, pragmático. Marca bem,  tem uma defesa que foi se consolidando durante o campeonato e que hoje é complicada de suplantar. Paulão e Ernando acertaram-se, apesar de não terem bons reservas. Fernando Bob e Fabinho são excelentes (e temos Dourado voltando). E, quando a coisa aperta, temos-tínhamos Alisson, um goleiraço. Os laterais William e Artur passaram a jogar e, se fossem todos acompanhados por atacantes de bom nível, teríamos um time bem perigoso.

E a tendência é esta: a de termos um time difícil de ser vencido e que explora o contra-ataque e a bola aérea para chegar aos gols. (Detesto hexas equipes duras de matar, principalmente quando estão do outro lado…) Neste sentido, a contratação de Ariel não é uma esquisitice, mas uma declaração de princípios. Não vamos jogar bonito. Ponto.

Acho que a contratação de Danilo Fernandes para o lugar de Alisson foi perfeita. Era a melhor opção dentro do Brasil. Nilton deve retornar e espero que não tome mais remédios para emagrecer. Mike talvez se una a um grupo de atacantes que deve ter seus destaques em Vitinho, Valdívia e Andrigo. A contratação de Anselmo preocupa, pois talvez signifique a venda de Dourado. Seijas é um excelente armador para alternar com Anderson.

Há que ter grupo para levantar as taças do segundo semestre. Grupo bom e grande. O Brasileiro não é nosso há 37 anos, a Copa do Brasil há 24. Já entramos como favoritos diversas vezes e quase sempre ficamos em nossa posição natural e desconfortável de oitavo clube do país. Talvez seja bom entrar como coadjuvante esforçado este ano.

A gozação de Sasha ao dançar uma valsa pelos 15 anos sem títulos do Grêmio foi muito engraçada, mas lembremos que o Gaúcho não faz parte da contabilidade gremista sem títulos. Então não pode fazer da nossa e estamos há 5 anos sem nenhum título…

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Larry Pinto de Faria (1932-2016)

Larry Pinto de Faria (1932-2016)

Hoje, o Inter anunciou a morte do grande centroavante Larry (Pinto de Faria). Ele fez 176 gols pelo Inter e participou do surpreendente Gre-Nal de inauguração do Estádio Olímpico. O Grêmio esperava ganhar e tomou 6 x 2, em um fiasco que os antigos não esquecem. Naquela partida, Larry marcou quatro vezes. Meu pai ria muito descrevendo o jogo. De estilo clássico e cerebral, Larry marcou época no clube. Lembrei desta excelente reportagem que o Impedimento fez com o ex-atacante em 2012, quando ele estava prestes a completar 80 anos e enquanto seu palco, o Estádios dos Eucaliptos, era derrubado.

O cerebral Larry no Estádio dos Eucaliptos – um documento

Larry

De repente, não mais que de repente, sem cerimônia nem anúncio no jornal, as máquinas adentraram o campo santo dos Eucaliptos e começaram seu trabalho. Deve ter sido numa sexta-feira, quando as preocupações de todos estão mais voltadas ao que fazer do fim de semana. De forma mecânica, rápida e compassada, as máquinas arrancaram gomos espessos de tijolo e concreto do mítico estádio do Internacional, processo que não durou mais que cinco dias. Desaparecia, fisicamente, a memória do Rolo Compressor, do Rolinho, do gol em plano inclinado de Carlitos, da Copa do Mundo de 1950, das arrancadas de Tesourinha, das pestanas tiradas por Charuto durante as partidas, da entrada triunfal da cabrita Chica no meio da torcida, da zaga intransponível de Alfeu e Nena, das tabelas fatais entre Bodinho e Larry, que ficou para contar a história.

Fazia muito calor e não havia nuvens naquele começo de tarde de terça-feira, 14 de fevereiro, quando Larry Pinto de Faria desceu do automóvel, que dirigia de próprio punho, reclamando em tom de brincadeira do horário da entrevista, que lhe obrigara a encurtar a sesta sagrada. Aos 79 anos, Larry merece que lhe respeitem o horário de descanso. Mas fora o contratempo, encontrou uma sombra no meio do canteiro de obras, sentou e conversou por quase uma hora com o Impedimento.

O gol que considera o mais bonito, a estreia nos Eucaliptos, a ovação da torcida, a convivência com os colegas no alojamento do estádio, a vida construída em Porto Alegre, o amor por apenas um clube e por que no futebol há coisas mais importantes que o dinheiro. Tudo isso foi dito por Larry neste documento de 30 minutos, gravado com o microfone “vazando” na imagem por conta do barulho das máquinas, que durante a entrevista destruíam o que restava da casa e do palco principal do cerebral Larry.

Natural de Nova Friburgo e oriundo do Fluminense, Larry chegou ao Inter em 1954 para pegar experiência. Acabou ficando no clube até 1961, marcando 176 gols e se tornando um dos maiores artilheiros da história colorada. É também o último remanescente do Rolinho, como ficou conhecido o time que foi a sequência do grande Rolo Compressor. Depois de encerrada a carreira de jogador, ainda foi vereador por quatro mandatos e secretário municipal de Porto Alegre. Nos dias atuais, desempenha com cortesia e generosidade o papel de memória viva do Internacional dos anos 50 e do Estádio dos Eucaliptos, o grande estádio do futebol gaúcho naquela época.

Assistam o vídeo, dividido em três partes:

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Cunha caiu no dia do aniversário de Marx

Cunha caiu no dia do aniversário de Marx

Nada a ver, mas é um fato gracioso. Daqui dois anos, Marx completa 200 de nascimento e seus frutos vermelhos… Bem, complete a frase como quiser.

(Ainda é cedo e já temos Cunha e Corinthians fora! E o dia vai terminar com a eliminação do Grêmio!)

Karl Marx

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Em nova humilhação aos cientistas brasileiros, Ciência e Tecnologia irá para um Bispo da Universal

Em nova humilhação aos cientistas brasileiros, Ciência e Tecnologia irá para um Bispo da Universal

Marcos Pereira PRB

O homem que está com o microfone na mão na foto acima chama-se Marcos Pereira. É presidente nacional do PRB, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e será o ministro de Ciência e Tecnologia do governo Michel Temer / Eduardo Cunha. A pasta parece ser uma permanente humilhação aos cientistas brasileiros. Há sete meses, Dilma entregou o Ministério da Ciência e Tecnologia a Celso Pansera, do PMDB fluminense. O deputado entendia pouco da área, mas tinha um restaurante chamado Barganha.

Agora, Temer ofereceu a pasta da ciência a um bispo da Igreja Universal, que prega o ensino do criacionismo e nega a teoria da evolução. O objetivo do vice é garantir o apoio da igreja e de seu partido, que tem 22 deputados e um senador. O PRB era aliado de Dilma, mas mudou de lado às vésperas do impeachment. É novíssima República Teocrática do Brasil, gente!

Ao ser perguntado sobre o que ele achava da Teoria do Evolucionismo, o futuro Ministro respondeu:

— Eu respeito.

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