Uma aulinha de gramática cinematográfica

Uma aulinha de gramática cinematográfica

Este post é do roteirista Sylvio Gonçalves via Hsu Chien.

Dogville

Trata-se de um belo vídeo do Cinefix com 10 filmes que romperam regras. Que evolução teria o cinema sem a subversão de produções como DOGVILLE, que aboliu os cenários, e O ANO PASSADO EM MARIENBAD, que abriu mão da lógica narrativa? Ou a ousadia de ERA UMA VEZ EM TÓQUIO, que infringiu completamente a regra dos 180 graus, ACOSSADO, que estabeleceu o uso narrativo dos jump cuts, ou até do (aparentemente tradicional) PSICOSE, cujo roteiro ousou mudar de protagonista? Vale muito a pena assistir ao vídeo, que apresenta várias sugestões de filmes anti-convencionais.

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O Marabá está morto

O Marabá está morto

Não há quase mais cinemas de rua em Porto Alegre. Todos os cinemas se internaram em shoppings. À noite, não se vê mais placas luminosas com letras quase sempre tortas ou faltantes anunciando filmes. Além, disto, os cinemas reduziram seu tamanho. Já faz tempo que desapareceram aquelas imensas salas em que funcionários com lanterninhas nos indicavam os lugares livres depois de iniciar a sessão. O VHS, a televisão, o DVD, o Now, o Netflix, a pandemia e o streaming, aliados à falta de espaço, de tempo e de charme transformaram nossas salas em coisas diminutas.

Mas a época do Marabá era diferente. O Marabá era um cinema que ficava em um bairro contíguo ao centro da cidade. Ou no bairro mais próximo a ele, se considerarmos que nosso centro é, na verdade, uma ponta enfiada no rio-lagoa-estuário Guaíba. O Marabá não tinha nenhum charme, não era frequentado por mulheres elegantes que deixavam rastros não de ódio, mas de perfume, atrás de si. Essas iam a outros lugares. Nenhuma surpresa nisto, pois o Marabá, fora construído para passar reprises e porcarias. Os filmes mais artísticos que lá vi foram as obras-primas kitsch de Jack Arnold: O Monstro da Lagoa Negra, O incrível homem que encolheu e — como esquecer dos gritos da mocinha? — A Revanche do Monstro. O enorme cinema ficava na rua Cel. Genuíno, 210, próximo à Av. José do Patrocínio. Só que, um dia, cansado de tanto passar filmes ruins, alguém de lá enlouqueceu e começou a passar somente grandes filmes em programas duplos. Eram apenas duas sessões — uma iniciava às 14h e outra às 20h — mas, meus amigos, que sessões! Um belo dia, estando eu na casa dos quinze anos, abri o jornal e li que o Marabá passava A Noite, de Antonioni, e Viridiana, de Buñuel, em seu programa duplo. Talvez a nova geração desconheça a expressão “programa duplo”. É o seguinte: semanalmente, eram apresentados dois filmes com um pequeno intervalo no meio para irmos ao banheiro e ao bar comprar balas, fumar, conversar, beber, namorar ou simplesmente esticar as pernas. Só que os programas duplos apresentavam normalmente filmes pornográficos ou de pancadaria. Nunca coisas daquele calibre.

Eu e um bando de loucos por cinema começamos a acorrer ao lúgubre Marabá. Aposentados e desocupados também pagavam o ingresso baratíssimo do cinema não muito limpo. Grupos de estudantes vinham ver e rever filmes enquanto matavam aulas. Minha sessão habitual era a das 14h. Formávamos uma peculiar fauna de jovens secundaristas, universitários, velhos e desempregados. Lembro de ter saído muitas vezes rapidamente de casa, batido a porta, lembro de pegar e pagar o ônibus, de parar nas imediações do centro e de correr como Catherine, Jules e Jim (ou Lola, para os mais jovens) em direção ao cinema. Comigo, chegavam outros esbaforidos. Trocávamos um cumprimento rápido e entrávamos. Comigo, muitas vezes veio Maria Cristina, minha primeira namorada. Quando víamos os filmes pela primeira vez, não protagonizávamos grandes cenas de amor nas poltronas desconfortáveis de encosto de madeira, deixávamos para fazer isto no corredor do edifício onde ela morava, na rua Santana. No máximo, trocávamos alguns beijos apaixonados no intervalo — afinal, estávamos ali pelo cinema. Porém, quando conseguíamos ir duas vezes na mesma semana, a segunda tarde era dedicada quase que inteiramente ao amor. Foi numa cadeira do Marabá — ou em duas, mais precisamente — que minhas mãos e boca tiveram seu primeiro contato com o seio feminino. Inesquecível. Não entrarei em detalhes sobre tudo o que fiz pela primeira vez no Marabá, mas não exagerem na imaginação, pois nossa primeira relação sexual, a minha e a dela, ocorreu numa noite, atrás do sofá da sala de sua casa… Voltemos ao cinema.

Depois vieram outros programas duplos. Houve Gritos e Sussurros (Bergman) e Amarcord (Fellini), Jules e Jim (Truffaut) e Ascensor para o Cadafalso (Malle), O Mensageiro (Losey) e Petúlia, um Demônio de Mulher (Lester), Janela Indiscreta e Um corpo que cai (ambos de Hitchcock), Cidadão Kane e A Marca da Maldade (ambos de Welles), Paixões que alucinam (Fuller) e O Sétimo Selo (Bergman), O Magnífico (de Broca) e A Malvada (All About Eve, de Mankewicz), West Side Story (Wise-Robbins) e O Criado (Losey), e, comprovando que a loucura tomara conta do programador, houve Andrei Rublev (Tarkovski) e Acossado (Godard), evento que deixou nossas bundas quadradas por longo tempo. Em 1975, após um programa duplo que apresentava Contos da Lua Vaga (Mizoguchi) e Morangos Silvestres (Bergman), comecei a ter aulas à tarde e a estudar para o exame vestibular. Planejava voltar ao Marabá quando entrasse na universidade, em 1976. Só que, neste ínterim, o Marabá morreu para virar garagem. Sim, após Dillinger está morto (Ferreri) fazer dupla com Um Caso de Amor ou O Drama da Funcionária dos Correios (Makavejev) começou a demolição. Ou seja, a glória do Marabá, um cinema de 1800 lugares fundado em 1947, foi sua agonia, a agonia de um querido dinossauro.

Não há mais cinemas de rua em Porto Alegre e também não há nenhuma cinemateca alucinada e radical como o Marabá. Quando as salas menores pareciam ter o poder de reabilitar para nós a gloriosa história do cinema, algo as trouxe para a isonômica mediocridade dos blockbusters. Resta-nos ver os filmes em nossa casa, às vezes na cama, podendo a sessão ser interrompida pelo telefone ou pela campainha da porta. Apesar das imagens perfeitas, não há o ritual de ir ao cinema, nem a sala escura onde somos ininterrompíveis, nem — perversão minha — o divino cheiro de mofo do Marabá, hoje substituído pela fuligem dos automóveis e pelos gritos dos manobristas.

A Cel. Genuíno hoje. Ela é a da direita.

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Bom dia, Argélico (com os melhores lances da coisa de domingo)

Bom dia, Argélico (com os melhores lances da coisa de domingo)
Tô com um problemão desta tamanho"
Tô com um problemão desta tamanho”

Eu estava mais a fim de escrever sobre a corrupção em nosso Brasil-sil-sil, mas vou escrever, com um dia de atraso, minha tradicional — para mim e meus sete leitores — crônica esportiva de segunda-feira. Vi boa parte da parte da partida contra o Vitória e vou te inocentar, Argélico. O plano era perfeito até o Ernando cometer aquele imperdoável erro individual. Sabemos, eu e tu, que somos um time apenas mais ou menos. Um time assim não é tolerante à falhas, ainda mais quando resultam em gol do adversário num início da partida. Como sempre, entramos fechadinhos, prontos para segurar o Vitória e especular em contra-ataques. Porém, quando o Vitória marcou, todo o plano foi por água abaixo e times ruins não têm Plano B.

O Sasha poderia ter colocado tudo novamente no lugar quando o goleiro do Vitória errou em bola deixando-o livre com o gol aberto, de costas para o mesmo. Só que Sasha não se deu conta de sua liberdade e apressou-se tentando uma puxeta que foi para fora. Se ele tivesse mas calma para analisar a situação…

Culpa tua, Argélico, são os erros de passes. Um time erra 30 passes por jogo, em média. No primeiro tempo contra o Vitória, erramos 26. Há que treinar e treinar. Treinar a direção do passe e facilitar o recebimento do mesmo. Com jogadores parados e marcados, mais passes saem errados. E a prova de que não nos movimentamos para receber as bolas é a lentidão na saída de trás. Êta, coisa arrastada!

Esperamos pelos reforços. Anselmo está com o terceiro amarelo e não joga sábado contra o América-MG. Tu podias pedir para a CBF deixá-lo assim para sempre, não? Talvez Dourado volte, o que seria maravilhoso. Sasha também não joga e é outra maravilha porque ele não tem feito muito na posição de centroavante. Acho até que o Aylon poderá ser um acréscimo. Quem fará falta mesmo é Paulão, pois Réver e Alan Costa são lamentáveis.

Agora, é tentar vencer o América e ver os resultados paralelos. O importante é ficar próximo dos líderes até a chegada dos reforços e de Valdívia. Nossos dois próximos jogos são no Beira-Rio contra times mineiros: sábado (11) contra o já citado América e quinta-feira (16) contra o Atlético. A propósito, tens notícias de Nico López? Ele virá?

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Banksy surpreende escola primária em Bristol com mural

Banksy surpreende escola primária em Bristol com mural

O artista pintou uma parede da Bridge Farm Primary School para agradecer à escola por ter dado o seu nome a um dos pavilhões.

Do Publico.pt

Banksy

Poderia ser apenas mais um regresso às aulas na Bridge Farm Primary School, em Bristol, Inglaterra, não fosse a parede frontal com uma imagem de uma menina a correr atrás de um pneu em chamas com um pau na mão. O mural, da autoria de Banksy, tem 4 metros e foi descoberto, esta segunda-feira, por um funcionário da escola.

A obra, que surpreendeu alunos, professores e funcionários, é uma forma de agradecimento do artista à escola por ter dado o seu nome a um dos pavilhões. Durante o período de férias, a escola tinha escrito uma carta à equipe de Banksy para informá-lo do concurso feito para nomear os edifícios da escola em homenagem a personalidades de Bristol.

Junto do mural foi encontrado, também, um bilhete deixado por Banksy com a seguinte mensagem: “Obrigado pela carta e por darem o meu nome a um dos edifícios. Por favor, aceitem esta imagem. Se não gostarem, sintam-se à vontade para acrescentar coisas – tenho a certeza que os professores não se vão importar.” O artista deixou, ainda, uma mensagem às crianças: “Lembrem-se, é sempre mais fácil conseguir o perdão do que a autorização.”

assinatura Banksy

O diretor da escola, Geoff Mason, disse ao Bristol Post que o trabalho deve ter sido realizado “durante o fim-de-semana e completado esta segunda-feira à noite, mas não há certezas.” Bansky aproveitou a interrupção letiva da escola para ir pintar na sua cidade natal.

A equipe de Banksy ligou à escola a confirmar a veracidade do trabalho do artista na Bridge Farm Primary School. A escola primária pensou, desde o primeiro momento, na segurança da obra. “Fizemos várias pedidos para garantir que ninguém a limparia da parede”, disse o diretor.

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Um obituário para Muhammad Ali

Um obituário para Muhammad Ali

Quem não viveu aquela época, dificilmente poderá imaginá-la. Era totalmente diferente. As lutas de boxe, principalmente a dos pesos pesados, eram acompanhadas mundialmente com extremo interesse. Todos as comentavam e davam palpites. Também o campeonato e o ranking mundial de xadrez interessava muito. Por exemplo, se o boxe tinha Muhammad Ali, George Foreman e Joe Frazier, o xadrez recebia manchetes e páginas inteiras comentando Bobby Fischer, Boris Spassky e Anatoly Karpov. Eram outros tempos, repito. Além disso, eram tempos em que havia desportistas brilhantes, cujas declarações mereciam ser ouvidas. E Ali era especialmente inteligente, desafiador e falador. Amava um microfone. Suas declarações estão até hoje sendo vistas e ouvidas no YouTube.

Ali e Malcolm X
Ali e Malcolm X

Dias antes do grande embate Ali x Foreman, o único professor negro que tive na vida — o excelente Serjão, de Física, que dava aulas no meu querido Colégio Estadual Júlio de Castilhos — estava nervoso. Sabia da importância daquela luta em âmbito mundial. E dizia para aquele grupo de brancos:

— Gente, vocês não imaginam o quanto é importante que Muhammad Ali / Cassius Clay vença. Foreman é negro, mas é um conformista meio burro. Ali é um de nossos principais representantes. Ele precisa ganhar a luta para readquirir o respeito perdido. Se derrubar Foreman, vai falar muito e isso é bom.

Em 30 de outubro de 1974, às 4h da madrugada em Kinshasa, Zaire (atual República Democrática do Congo) lutaram Muhammad Ali e George Foreman. O motivo do horário maluco era a transmissão de TV para o mundo inteiro. Foreman era o campeão após ter vencido Joe Frazier, mas Ali era o ex-campeão cujo título fora retirado por motivos políticos. Explico: em 1967, Ali foi proibido de lutar por três anos e meio, após se recusar a se alistar no Exército dos Estados Unidos, negando-se a participar da Guerra do Vietnã. Disse que nenhum vietnamita jamais o chamara de crioulo e perguntava: “Tenho algum inimigo no Vietnã? Não, meus inimigos estão aqui”.

Para deixar a coisa ainda mais quente, três anos antes Ali tinha sido derrotado injustamente por Frazier. A derrota fora por pontos, numa decisão muito contestada dos juízes. O próprio Ali apareceu no dia seguinte todo feliz e da cara boa, mostrando uma foto de Frazier cheio de hematomas, tirada horas antes. “Como eu posso ter perdido a luta se ele está indo para o hospital?”, perguntava. Frazier defendera o título mundial da categoria peso-pesado e o manteve. Ali caíra no 15º assalto. Ergueu-se rapidamente, meio atordoado aos olhos de milhões de pessoas pela televisão e de milhares no ginásio. A luta fora equilibradíssima, mas sua queda deve ter influenciado decisivamente em sua derrota, claro.

Já a luta de Kinshasa era uma disputa contra o novo campeão George Foreman — que pulverizara Frazier meses antes — contra Ali. O evento foi um dos primeiros realizados por Don King, que fez a luta no Zaire, pois o presidente ofereceu um generoso patrocínio para receber a luta.

Resumindo, Ali recuperara sua licença no mundo do boxe em 1970, tinha vencido duas lutas, mas, ao tentar recuperar o cinturão de peso pesado, perdera para o campeão Joe Frazier. Foreman tinha sido campeão nas Olimpiadas de 68 e rapidamente foi ganhando prestigio no mundo do boxe, pela sua enorme envergadura e poderosos socos. Mesmo assim, o campeão Frazier e seus empresários acharam que Foreman não seria páreo, pois ele seria muito lento. Isso se mostrou um grande erro: em apenas dois assaltos Frazier sofreu seis quedas até que a luta foi interrompida pelo juiz. Depois, Foreman também nocauteou Ken Norton, o único homem, além de Frazier, a fazer Ali cair.

Na famosa luta entre Ali e Foreman, Foreman entrou como franco favorito, por ser muito mais novo — na época tinha 25 anos, enquanto Ali tinha 32 –, por ser muito mais forte, pela sua até então invencibilidade e pela ferocidade com que vencera todos os seus adversários.

Ali criou uma estratégia incomum para vencê-lo. Como sabia que Foreman seria imbatível num combate aberto, Ali optou por cansá-lo ao máximo, pois seu adversário não estava acostumado a lutas longas, sempre nocauteando seus adversários nos primeiros assaltos.

Durante sete rounds, ou seja, por 21 minutos de luta, Ali ficou nas cordas, apenas recebendo os violentos socos de Foreman, assimilando-os e se esquivando como podia. Apanhava muito enquanto gritava: “É só isso?”, “Me disseram que você batia forte!” ou “Minha mãe me batia mais forte que você”.

Ali para Foreman: "Minha mãe me batia mais forte que você!".
Ali para Foreman: “Minha mãe me batia mais forte que você!”.

No oitavo round, houve uma súbita alteração. Ali tomou a iniciativa e seu oponente pareceu muito surpreso por ter ficado entre seu adversário e as cordas pela primeira vez naquela noite e talvez na vida. Já estava exausto e demonstrava no rosto certa estupefação, pois notara que só naquele momento começava a luta para Ali. O nocaute veio logo no primeiro contra-ataque. Foi algo fulminante. Foreman caiu e não levantou mais.

No dia seguinte, Serjão comemorou em aula. Aquilo fora muito mais do que uma simples luta, fora a vitória de um curioso lutador bonito e humanista, comprometido e brilhante em tudo o que fazia. Este homem faleceu no último sábado.

R.I.P., Muhammad Ali.

Foreman em direção ao chão.
Foreman em direção ao chão.

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Atenção Marcel van Hattem!

Atenção Marcel van Hattem!

Queremos as Creches Sem Partido…

Marcel Van Hattem (2)

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Bom dia, Argélico (com vídeo do resumo do jogo de ontem)

Bom dia, Argélico (com vídeo do resumo do jogo de ontem)

Apesar da boa partida realizada pelo Atlético-PR, teu time voltou a aplicar uma goleada de de 1 x 0, Argélico. O início do jogo foi todo do adversário e provocou calafrios na arquibancada: um chute de Walter Cheeseburger beijou a trave e, logo depois, Giovany perdeu gol feito após driblar William.

A coisa não estava muito fácil pro nosso lado, mas a sorte foi fiel. E o time começou a se ajeitar. Vitinho fez grande jogada e chutou para fora, Paulão não alcançou uma bola quase dentro do gol e então aconteceu o de sempre — ou quase sempre: na sequencia do lance, Vitinho fez o gol numa confusão dentro da área que teve origem em um escanteio bem batido por Andrigo.

Vitinho: nosso melhor jogador está na lista dos sete com dois cartões
Vitinho: nosso melhor jogador está na lista dos sete com dois cartões | Foto: Ricardo Duarte

Também como quase sempre, melhoramos no segundo tempo. Alex entrou muito bem no lugar do confuso Andrigo e o Atlético-PR foi obrigado a admitir que seria mais um time a não fazer gol em nós.

É a regra de 2016: somos chatos, dificilmente levamos gol e, se deixarem, fazemos. Mas cada jogo requer um esforço notável de marcação, tanto que já temos sete jogadores pendurados com dois cartões amarelos. E, bem, estamos recém na quinta rodada. Não sei onde vamos parar desse jeito, porém, hoje, somos líderes do campeonato com 5 gols marcados em 5 jogos e 1 contra. O aproveitamento são inacreditáveis 87% (4 vitórias e 1 empate).

Gostei de tua entrevista de ontem. Afora as frases feitas que repetes infinitamente, houve a admissão de que o time correu sério perigo, chegando a jogar pessimamente naquele início de jogo. Sim, porque a história poderia ter sido inversa, com nossa primeira derrota no Beira-Rio. Digo isto porque dificilmente marcaríamos dois gols num time que estaria fechado lá atrás. (É tranquilo admitir que só fizemos um bom segundo tempo porque o Atl-PR perdia e ia à frente, não?).

Ainda vamos praticamente completos para o próximo jogo em Salvador, contra o Vitória, domingo, às 16h. Creio que apenas Fabinho, com torção no tornozelo, te obrigará a uma substituição. Devemos começar a partida com o fraco Anselmo em seu lugar e sabe-se lá quantos cartões receberemos lá. Será um compromisso duríssimo e provavelmente começarão a aparecer os desfalques.

Nossa vida no Brasileiro vai depender, é claro, de como se saírem essas peças de reposição, de como forem os retornos de Valdívia, Dourado e Anderson, e de como ingressarem os novos contratados Seijas, Ariel e o esperadíssimo Nico López. Se suas atuações forem deficientes, melhor acender uma vela desejando que a gordura acumulada neste início não acabe em uma semana de spa das lesões e cartões. Se derem boa resposta, seremos candidatos a alguma coisa boa. Mas sempre no estilo Leicester: sem brilho, mas cumpridores.

Boa sorte!

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Instituto Liberal denuncia a física quântica como instrumento marxista

Instituto Liberal denuncia a física quântica como instrumento marxista

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A introdução ao artigo é do Jornal GGN:

No artigo “A complicação como método ideológico”, reproduzido integralmente abaixo (http://migre.me/tZaOm) o autor diz que “a Verdade está sempre associada à luz, ao desatar de nós e à contemplação imparcial”.

No entanto, “a marca histórica da esquerda é a falta de clareza. Claro, pois para justificar um sistema de crenças que não funciona, é esperado que as assertivas não pudessem ser facilmente analisadas ou refutadas, esperando-se do discípulo apenas a fé no que o mestre diz”.

O autor lista como “disciplinas típicas da esquerda” a Sociologia e a História. Para ele, a filosofia, como ciência, visou “implantar o socialista, associado à ideia marxista (…) (dizimando) os sistemas de crenças concorrentes”, como o Cristianismo e a ideia de Verdade.

Da Filosofia, o autor apontou seu dedo acusador para a Física.

Sobram bordoadas na física newtoniana, que “é, para quem quer confundir, excessivamente exata, matemática e previsível. São objetos em movimento no universo, seguindo leis já mapeadas”.

Mas a borduna se volta, mesmo é para a física quântica que, “através de extrapolações indevidas de descobertas de cientistas como Einstein, Heisenberg, Schrödinger, Planck e outros, ganhou a fama de ser o ramo científico onde “tudo pode”. Estar em dois lugares ao mesmo tempo, ser e não ser, teletransporte, telepatia, o mundo como um sonho, o nada que é tudo, enfim, uma espécie de “liberou geral” da ciência, contrário à física newtoniana, e que certamente não seria autorizado pelos físicos quânticos, os quais eram sérios”.

E aí, a grande constatação: Por que o interesse da esquerda na física quântica?

E explica: “Porque “harmoniza” com o uso de drogas, com a ideia de que o indivíduo é uma ilusão, criando uma justificativa racional para a irresponsabilidade e o ateísmo. Ambos os resultados bem úteis e “capitalizados” pelo movimento revolucionário”.

A Complicação como Método Ideológico

Por Lucas de Moura Lima

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Na Inglaterra, fracassa suicídio coletivo homeopático

Na Inglaterra, fracassa suicídio coletivo homeopático

Notícia antiga, mas plenamente válida em função do que ouvi anteontem no Tuim.

homeopatia

Precisamente às 10:23 da manhã do último dia 30 de janeiro, mais de 400 céticos britânicos ingeriram quantidades maciças de remédios homeopáticos buscando uma “overdose” que, se a homeopatia funcionasse, deveria ter causado sérias consequências. Felizmente, como se queria demonstrar, todos saíram ilesos deste protesto público contra a venda de “remédios” homeopáticos que não possuem qualquer efeito comprovado além do placebo. Uma overdose de pílulas de açúcar não tem efeito maior do que uma bala. De doce, claro.

“Pensamos que não se deveria vender pílulas de açúcar a pessoas que estão doentes. A homeopatia nunca funciona melhor que um placebo. Os remédios são tão diluídos que não há nada neles”, declarou Michael Marshall, da Sociedade de Céticos de Merseyside. E nestas declarações, Marshall estava incrivelmente apenas repetindo as declarações de quem vende tais produtos e mesmo daqueles que os receitam. Explica-se.

Um dos principais alvos da campanha 10:23 foi a cadeia de farmácias “Boots”, que oferece produtos homeopáticos em suas prateleiras lado a lado com remédios que realmente possuem algum efeito. O mais impressionante é que há meses o principal responsável pela rede de farmácias, Paul Bennett, já havia admitido que os produtos são vendidos porque são populares, e não porque sejam efetivos no tratamento de qualquer doença.

“Não tenho nenhuma prova de que esses produtos funcionam. Trata-se da livre escolha do consumidor, e um grande número de nossos clientes crêem que são eficazes”, declarou ao Comitê de Ciência e Tecnologia à Câmara dos Comuns em Londres. A rede de farmácias parece feliz em respeitar a livre escolha de seus clientes quando isto significa lucrar vendendo produtos que não funcionam.

Em resposta ao protesto cético contra a venda de produtos inócuos a consumidores incautos, mesmo o Conselho de Homeopatas da Nova Zelândia já foi forçado a reconhecer que seus produtos não contêm “substâncias materiais”. A porta-voz do conselho, Mary Glaisyer, admitiu publicamente que “não resta nenhuma molécula da substância original”. É reconhecidamente apenas água ou açúcar. Vale repetir, como Bennett reconheceu, sem nenhum efeito comprovado.

Mesmo antes da demonstração cética, um episódio no início de dezembro de 2009 que poderia ser trágico terminou cômico quando a filha do músico Billy Joel, Alexa Ray Joel, tentou se suicidar tomando uma overdose de remédios. O detalhe é que as pílulas eram de “Traumeel”, um produto homeopático para tratar dor nas articulações. Alexa Ray Joel ligou para a emergência e foi rapidamente tratada, mas ainda que não o fosse “nada iria acontecer porque não há nada [no produto]”, disse o Dr. Lewis Nelson, toxicologista do Centro Médico da Universidade de Nova Iorque. Mal sabia ela que estava comprovando a ineficácia dos produtos homeopáticos.

A ausência de qualquer efeito, mesmo em “overdoses” como as ingeridas pelos céticos britânicos, pode soar mesmo benéfica para alguns, já que pelo efeito placebo muitos dizem sentir-se melhores. Tentativas de suicídio que terminam cômicas… que mal haveria na homeopatia? Isto é, além de sustentar uma indústria multimilionária feliz em cobrar altos valores por produtos sem qualquer eficácia real?

Resulta que há prejuízo social muito concreto, incluindo sofrimento e mortes desnecessárias nada engraçadas.

Como relata o jornalista Simon Singh, homeopatas podem oferecer aconselhamento de saúde claramente nocivo. Questionados sobre se pais deveriam imunizar seus filhos com a vacina tríplice, de 168 homeopatas consultados, 77 responderam mas apenas dois indicaram a vacinação. “É evidente que a enorme maioria dos homeopatas não encoraja a imunização”. Aconselhamentos infelizes como estes contribuíram para o ressurgimento de surtos de sarampo em vários países, incluindo o próprio Reino Unido, onde recentemente os casos passaram de dezenas para milhares.

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Vale notar que o surgimento destas milhares de crianças afligidas pela doença muito real e facilmente prevenível está relacionado também com um estudo de 1998 extremamente deficiente supostamente associando a vacina tríplice ao autismo. Andrew Wakefield, autor do trabalho original que espalhou medo e contribuiu para reduzir o número de crianças vacinadas, foi recentemente julgado pelo Conselho Geral de Medicina britânico como tendo agido de forma “desonesta e irresponsável”, com “notório desprezo” às crianças que foram sujeitos de sua pesquisa.

Seria cômico se não fosse trágico: não só seus resultados não puderam ser reproduzidos por ninguém, havendo indicações de que Wakefield os fraudou. Também se descobriu que o médico estava em verdade tentando patentear sua própria vacina tríplice alternativa, além de ser pago para depor em um julgamento defendendo a ligação da vacina tradicional ao autismo, com algumas das crianças em seu estudo sendo filhas dos mesmos pais envolvidos na ação judicial.

Tudo indica que o suposto médico contra as vacinas queria apenas vender suas próprias vacinas. A saúde pública, o bem-estar de milhões de crianças não foi sua principal preocupação, e como consequência, a taxa de imunização caiu e mais de mil doentes ao ano surgiram onde antes surgia apenas um punhado.

A vacina tríplice é segura e múltiplos estudos independentes da Polônia, Dinamarca, Finlândia, o próprio Reino Unidoe Japão provam que e não possui qualquer relação com o autismo – no Japão, a tríplice foi interrompida após 1993, sem qualquer feito sobre os índices de autismo.

Não muito diferentes de Wakefield, as farmácias que produzem e vendem produtos homeopáticos não são iniciativas corajosas contra as grandes indústrias farmacêuticas. Ao invés, a indústria homeopática está mais do que feliz em lucrar com aquilo que não possui efeito comprovado, e reconhecidamente não possui qualquer substância ativa. A medicina alternativa é em grande parte apenas uma forma alternativa de lucrar com doentes sem esperança.

O que só se torna mais revoltante nos casos em que tais doentes podem encontrar esperanças concretas de prevenção e cura na medicina “convencional”. Indo desde a vacinação, um dos mais poderosos recursos médicos a controlar e erradicar moléstias da paralisia infantil à varíola, até casos como o de Daniel Hauser, felizmente curado do câncer pela medicina, ou o de Gloria Sam, infelizmente morta através da homeopatia.

Nada cômico.

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Beleza e tristeza, de Yasunari Kawabata

Beleza e tristeza, de Yasunari Kawabata

Beleza e tristezaBeleza e tristeza (1964) conta a história de Oki Toshio, um escritor japonês que busca uma amante do passado, Otoko Ueno, agora uma artista plástica. O romance tem um plot absolutamente comum e um desenvolvimento surpreendente. Logo nas primeiras páginas, ficamos sabendo que, no passado, Oki tinha 31 anos e sua amante era uma adolescente de 16 anos. Ela engravidou, porém a criança não sobreviveu ao parto prematuro e ao sórdido hospital escolhido por Oki para esconder o caso. Depois disso, ele se mantivera fiel à esposa e agora, aos 55 anos, desejava rever a ex-amante, sobre a qual escrevera um livro bastante culpado, franco, apaixonado e constrangedor para todos, seu maior sucesso. O interessante do livro é que a reconciliação parece ser impossível e, desta forma, os protagonistas permanecem inertes em suas vidas. Ambos parecem ter desejo na reconciliação, mas Oki vai ficando com a esposa e Otoko com a amante, a bela Keiko. Mais ativos são os coadjuvantes, que criam grande tensão dramática. A ameaçadora personagem de Keiko é uma grande criação de Kawabata (1899-1972), Nobel de 1968. Ela tem por vezes comportamentos amorais e seus planos de vingança contra Oki são perturbadores. Kawabata narra tudo com absoluta serenidade. Não é seu melhor livro, mas é um excelente romance.

(Livro comprado na Ladeira Livros).

Yasunari Kawabata
Yasunari Kawabata

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Mario Benedetti, o Grande Despretensioso

Mario Benedetti, o Grande Despretensioso

Cuando éramos Niños

Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.

luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque era un océano
la muerte solamente
una palabra

ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en los cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros.

ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.

Mario Benedetti

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De como acabou boa parte da literatura soviética

De como acabou boa parte da literatura soviética

Não é tão comum eu e a Elena conversarmos sobre literatura, mas às vezes o assunto surge. Creio que a coisa deverá se acentuar quando ela ler Machado de Assis… Porém, ontem, o assunto era de como a literatura russa caiu de qualidade no período pós-revolucionário. A explicação é bem simples e terrível, como vocês poderão conferir após a montagem fotográfica abaixo. Conheço apenas Babel. Fiquei muito curioso para conhecer a obras de Kharms, muito elogiado por Elena. Ainda bem que pouparam Bulgákov.

Babel
Meyerhold, Babel, Mandelstam, Mikhoels e Kharms

Em 1940, depois de torturar Vsevolod Emilevitch Meyerhold, quebraram-lhe todos os dedos e o afogaram na privada coletiva — do tipo daquelas antigas “casinhas”. Foi anunciada uma morte por fuzilamento em razão de atividades contra-revolucionárias. Na verdade, Meyerhold foi heróico. Ele se negara a assinar um documento que onde garantia a participação dele mesmo, mais Erenburg, Leonov, Pasternak, Katayev, Eisenstein e Shostakovich, numa conspiração trotskista. Nenhum dos citados foi preso. Meyerhold só assinou que ele mesmo tinha participado da tal conspiração, o que contrariou a NKDV (Comissariado do povo para assuntos internos, Ministério do Interior da URSS).

Isaac Babel não foi fuzilado por atividades contra-revolucionárias, como diz a história. Durante uma transferência de presos, feita durante o inverno e a pé de uma cidade para outra, ele caiu de fraqueza. Foi deixado para morrer na estrada. Parece que foi enterrado em vala comum por um amigo. O grande escritor morreu na neve, na floresta, também em 1940.

Osip Mandelstam morreu em 1938 no Gulag. Após escrever um poema anti-stalinista chamado Epigrama de Stálin, ele foi preso em 1934. Seu corpo passou boa parte do inverno empilhado com outros mortos e na primavera foi enterrado em um desses inomináveis túmulos coletivos.

Solomon Mikhoels foi morto em 1948 sob ordens pessoais de Stálin. A polícia foi até sua datcha e o matou. Seu corpo foi jogado na rua para dar forma à versão de que  fora “atropelado por um carro”.

Daniil Kharms morreu de fome na ala psiquiátrica do hospital prisão em fevereiro de 1942. Não tinha nada de louco.

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Bom dia, Argélico (com os principais lances de Santos 0 x 1 Inter)

Bom dia, Argélico (com os principais lances de Santos 0 x 1 Inter)

Como disse meu amigo Bruno Zortea: “G-4 com Grêmio, Santa Cruz e Corinthians me cheira à Série B”. Pois é, o Brasileiro está estranho pacas. Acho que jamais tivemos a dupla Gre-Nal na ponta, mesmo considerando que só se passaram quatro rodadas, o que é pouco, mas é mais de 10% das 38 rodadas. A forma correta de se disputar um campeonato de pontos corridos é a de não se afastar jamais dos líderes. Campeonato de recuperação é raríssimo de ser obtido, é mais conversa para times que estão lá atrás. Então estamos ambos, Inter e Grêmio, muito bem.

(Se não fosse tu teres pedido pro Paulão bater aquele pênalti, seríamos líderes isolados com aproveitamento de 100%, Argélico).

Fabinho, o melhor em campo ontem
Fabinho, o melhor em campo ontem

Ontem, o Inter fez sua melhor atuação de 2016. A outra foi o Gre-Nal do queixo caído. Não chega a ser surpreendente o fato de terem sido dois jogos fora de casa: o Inter defende-se muito bem e, jogando fora do Beira-Rio tem fartos espaços para contra-ataques. O problema é jogar contra times fechados. Mas não pensem que desenvolvemos ontem um futebol maravilhoso. Como tem sido, atuamos dentro de nossa pobreza ofensiva e de nosso errático toque de bola. A partida teve momentos horrorosos, varzeanos mesmo. Porém, o Santos levava pouco perigo e começamos a ficar animados. Na verdade, teu grande mérito, Argélico, é o de jamais deixar o time perder a compostura emocional. Fora de casa, o Inter joga tão mal quanto joga no Beira-Rio, mas sem nunca perder-se.

Ontem, finalmente entraste com dois volantes. Finalmente! E viste como o mundo não caiu.  Comemorei a ausência de Anselmo para a entrada de Ferrareis. Não que este seja alguma Brastemp, é que o time fica com mais opções ofensivas com ele em campo. Destaques mesmo foram as atuações de Fabinho e Danilo Fernandes. O volante foi o maior “ladrão de bolas” do jogo e ainda armou bons contra-ataques. Já Danilo não sente o peso da responsabilidade de substituir Alisson. É um cara frio e competente. Nos momentos mais oportunos, lá estava ele para salvar nossa meta e garantir a vitória.

Não creio que a dupla Gre-Nal mantenha algum favoritismo para o resto do Brasileiro. São times chatos, com bom sistemas defensivos e só. O Grêmio tem mais ataque. Só que o bom ambiente e a tranquilidade da liderança gera monstros. De repente, alguém acerta a peça ofensiva e teremos um osso duríssimo pela frente.

As próximas partidas do Inter são contra times fracos. Isto é, são contra times que jogam fechados e teremos que rebolar para marcar gols. Então são jogos terríveis, falsas barbadas (remember Chapecoense). Vejam o levantamento realizado por meu colega Luís Eduardo Gomes de nossos próximos 7 compromissos: Atlético-PR (c), Vitória (f), América-MG (c), Atlético -MG (c), Figueirense (f), Coritiba (f) e Botafogo (c).

Argélico, este jogos decidirão quem será o Inter deste Brasileiro de 2016. Ou permanecemos no topo ou nos despedimos de quaisquer pretensões. Há que ser implacável contra os fracotes.

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Anotações sobre censura. Ou autocensura

Anotações sobre censura. Ou autocensura

Isto é mera anotação, então, para efeito de organização, vou dividir o texto em três partes: a dos grandes jornais, presentes na mídia impressa e na eletrônica; a das mídias nanicas ou alternativas, muito mais presentes na mídia eletrônica do que na impressa; e a liberdade de expressão artística. Só pitacos.

censuraA censura no Brasil acabou oficialmente no dia 3 de agosto de 1988, quando foi votada a Constituição Brasileira ainda em vigor, porém, dificilmente alguém poderá falar em plena liberdade de expressão, seja ela impressa ou eletrônica.

Falemos um pouco sobre a liberdade de expressão dentro da mídia tradicional. Boa parte do trabalho da grande imprensa é o de acomodar interesses, próprios e de anunciantes. As famílias Marinho, Civita, Mesquita, Frias, Abravanel, Sirotsky, Sarney e outras têm suas visões particulares estampadas em suas publicações. O jornalista que trabalha nestes órgãos necessita ter cuidado para não elogiar políticos ou políticas de esquerda, nem atacar anunciantes.

Os anunciantes. Dificilmente um grande anunciante do jornal será criticado. Ele sustenta o jornal e quem paga a festa escolhe a música. Então, a loja ou o fabricante que tem anúncios de página inteira dificilmente será criticado por alguma ação, postura ou fato que o envolva. Mas há mais. Às vezes, os próprios grupos de comunicação têm outras empresas associadas, tais como construtoras, vinícolas e outras. E o jornal protegerá os produtos de seus afilhados, obviamente.

E há algumas coisas que acho duvidosas, apesar de permitidas.

Um grande jornal de Porto Alegre começou a veicular “gratuitamente” uma série de anúncios de uma determinada loja sob a condição de que tivesse participação nos lucros. É claro que os concorrentes desta loja reagiram, pagando anúncios… no mesmo jornal. E o jornal passou a ganhar dos dois lados. Eles chamam isto de “abrir mercado”. Não é proibido fazê-lo, mas talvez não seja uma interferência lá muito ética.

Para deixar a vida da grande imprensa mais confortável, o grosso das verbas publicitárias federais – mesmo durante os governos do PT – continuaram em seu caminho para os grandes grupos, que apenas não cresceram durante este período em razão do surgimento da internet.

E estes oligopólios existem incrivelmente à margem de uma Constituição que não regulamenta a atuação da mídia. A Constituição diz, vagamente, que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio” (parágrafo 5º do artigo 220), porém apenas uns poucos grupos privados controlam os meios de comunicação através de “redes” de afiliadas cuja “formação” não obedece a qualquer regulação. Só a RBS tem doze emissoras de tevê no RS. Tinha mais nove em SC. E apresenta boa parte da programação da Globo.

Evidentemente, a concentração dos meios de comunicação resulta em pouca pluralidade de informação. Para piorar, assim concentrada, a informação vem de uma elite econômica que não costuma ter horizontes muito longínquos de si.

Já a mídia alternativa caracteriza-se principalmente por sua pobreza. Ela não tem TVs ou rádios e poucas são impressas. Usam a internet, onde também os grandes grupos trabalham. Os anunciantes não lhe dão muita importância. As próprias agências de propaganda dizem que a diferença do discurso dela em relação à grande mídia é assustadora para seus clientes. O jornal onde trabalho tem 100 mil seguidores no facebook e 1,5 milhão de acessos mensais. Não é pouca coisa e não houve mês em que não tenhamos crescido. Mesmo assim, poucos anunciantes se arriscam.

Como são empresas sem muito capital, tudo o que não desejam são processos na Justiça. Mesmo que os ganhem, o custo dos advogados podem ser fatais para seus modestos fluxos de caixa. Esta é a forma de intimidação que sofrem.

Imaginem que já vi processos movidos por brigadianos cujos rostos apareceram em matérias de jornal. Eles estavam fardados, trabalhando, mas disseram que suas imagens foram utilizadas e prejudicadas. Já ouvi alguns autores de ações deste tipo serem questionados por juízes. E fica claro que quem sugeriu o processo a eles foram seus superiores.

O próprio ministro do STF, Gilmar Mendes, processou por danos morais Guilherme Boulos, coordenador do MTST, por um artigo que este escreveu criticando a atuação do magistrado. Gilmar pedia R$ 100 mil. Perdeu a ação, mas poderia ter ganho. E Boulos deve ter gastado o que não tem com advogados.

Já eu fui processado pela atual vereadora Mônica Leal. Não vou entrar em detalhes, mas perdi. Paguei 11 mil. Adivinhem se sigo criticando e rindo de Mônica. É óbvio que não.

Depois disso me senti como ela queria: intimidado. Não tenho 11 mil para distribuir a cada texto que publico. Muita gente sentiu peninha e até pensei em pagar por vaquinha virtual (crowdfunding ou financiamento coletivo). Mas não tive cara de pau suficiente. Paguei do meu mesmo. Ou seja, aqui a falta de liberdade de expressão é estabelecida pela intimidação.

E creio que outro gênero de pressão é feita sobre os artistas. Se um escritor combativo escrever contra um prefeito ou governador, poderá perder rendimentos. É que hoje uma das principais fontes de renda de escritores e músicos são os festivais e feiras. Os autores passaram a viver de suas participações em eventos. Não há mal nenhum nisso. Porém, quando um deles se posiciona, acaba por decepcionar 50% e fecha mercado para si mesmo.

Se você, por exemplo, for convidado por uma Secretaria de Cultura do PSDB e se declarar eleitor do PSOL, deixará de ser convidado. Então, atualmente, boa parte dos autores brasileiros são chapa branca, isto é, agradam a quem estiver no poder. A maioria demitiu-se da nobre posição histórica de serem uma espécie de consciência de suas sociedades. Eles não opinam e, obviamente, não influenciam suas sociedades. Vários deles são especialistas em aderir ao novo Secretário de Cultura. Claro que, se conseguem uma boa relação com PT, PMDB e PP, significa que nunca fizeram comentários políticos públicos, ou seja, sempre praticaram a autocensura.

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Bom dia, Argélico (com os melhores lances do marasmo de ontem)

Bom dia, Argélico (com os melhores lances do marasmo de ontem)
Colorados entediados com Argel
Colorados entediados com Argel

Argélico, se alguém faz tudo errado e ganha, então faz tudo certo? Não, né? Pois tu entraste com três volantes para enfrentar o terrível Sport em casa. Sem ataque, viste o Sport levando o cachorrinho para passear em pleno Beira-Rio. Quando o cãozinho preparava-se para cagar em nossa grama, ainda no primeiro tempo, tiraste Anselmo — esta terrível invenção catarinense — e colocaste o menino Ferrareis, que não é grande coisa, mas que fez o time respirar e crescer, evitando o frevo em nossa terra de músicas simples de dois compassos.

Nosso ataque já não é uma Ferrari e, quando tu enfias um monte de volantes aí mesmo que nada funciona. Jamais pensei que sentiria tanta saudade do Anderson. Espero que Seijas dispute posição com o ex-garoto de ouro gremista para que tu possas esquecer teus delírios de jogar com três volantes em casa. Contra o São Paulo no Morumbi ou o Santos na Vila, esta postura é aceitável pelo fato de que eles nos atacam e temos a possibilidade do contra-ataque. Mas aqui em Porto Alegre, para enfrentar um time fraquinho como este do Sport? Vai te catar, Argélico.

O que eu gosto da torcida do Inter é seu ar filosófico e distante. Onde eu estava, muita gente ria da tua escalação, esperando a inevitável mudança. Enquanto isso, conversavam com os amigos no WhatsApp.

Então, fizemos o suado gol e qual foi a tua reação? Retiraste um atacante e repuseste o trio de volantes, desta vez com Nilton, muito superior ao incompreensível Anselmo. Isso demonstra tua convicção. És racidal em teu teu desejo de sofrimento! E o que aconteceu? O Sport veio pra cima de nós e quase empatou. Ganhamos, mas…

Argélico, se alguém faz tudo errado e ganha, então faz tudo certo? Não, né?

 

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Bolsonaro, Frota e o estupro

Bolsonaro, Frota e o estupro

A notícia do estupro de uma menina de 17 anos no RJ por mais de 30 homens, do vídeo da moça desacordada com os genitais à mostra, do orgulho dos criminosos que teriam vingado uma traição amorosa, todo este absoluto horror combina demais com as declarações imbecis, machistas e bravateiras de um Bolsonaro — “Você não merece ser estuprada”, disse ele — e com a confissão de Alexandre Frota na televisão de já ter estuprado — sob risos da plateia. Fico até com vergonha das mulheres.

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Nossa, como Porto Alegre embagulhou (*)

Nossa, como Porto Alegre embagulhou (*)

(*) Obrigado Felipe Prestes.

Fotos colorizadas de Porto Alegre nas décadas de 20 e 30 encontradas aqui.

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Bom dia, Argélico (com os melhores lances de São Paulo 1 x 2 Inter)

Bom dia, Argélico (com os melhores lances de São Paulo 1 x 2 Inter)
O futebol não impressionou ninguém, mas o resultado foi uma montanha de alegria | Foto: SC Internacional
O futebol não impressionou ninguém, mas o resultado foi uma montanha de alegria | Foto: SC Internacional

A primeira boa notícia do domingo foi a vitória obtida fora de casa com dois gols de Sasha, que nem jogou muito bem, mas quem sou eu para reclamar de um jogador que marcou dois gols num time com tantas dificuldades para atacar? Sasha foi genial! O que interessa é que ele estava no lugar para receber os belos passes de Vitinho e William — aliás, que jogada do William no segundo gol, hein?

Curiosamente, este jogo pareceu muito com a primeira partida das finais da Libertadores de 2006. Então e agora, São Paulo 1 x 2 Inter. Atacantes loiros fizeram dois gols lá e cá — Sóbis e Sasha –, dois zagueiros descontaram — Edcarlos e Lugano –, dois atletas do Inter foram expulsos — Fabinho e Alex — e só faltou uma expulsão do SP hoje, pois em 2006 Josué foi expulso.

A outra boa notícia foi a excelente estreia do goleiro Danilo Fernandes. Tranquilo, atuou como se estivesse há anos na posição. Outra bela atuação foi a de Fernando Bob. Não erra passes. Já o outro estreante, Anselmo, foi bem retirado por ti, Argélico. OK, é o primeiro jogo do ex-jogador do Joinville, mas ele poderia ter sido menos péssimo, não? Nilton entrou muito melhor.

Estamos passando por uma fase Simeone. sabemos nos defender, mas, se for necessário atacar, será uma cesariana para fazer um gol, principalmente em times que venham ao Beira-Rio fechados. Ontem, no Morumbi, fizemos dois em contra-ataques. Dou o braço a torcer, Argélico, tu ajeitaste a defesa, mas será que não tem ninguém na tua comissão técnica para dar jeito no ataque? É tudo muito previsível e lento. Nosso time joga feio que dá nojo de ver, mas defende-se bem, já disse isso.

A falta de técnica e beleza começa lá atrás. Nosso goleiro bateu tiros de meta quase sempre com o tradicional chutão para a frente. Apenas uma vez saímos jogando calmamente, com argumentos futebolísticos e não com gritaria. Mas vamos lá. Espero dificuldades contra um Sport retrancado na quinta-feira, às 16h. O jogo será no Beira-Rio. Mas acredito na vitória.

(Ah, o acordo entre o Inter e o Esporte Interativo está gerando efeitos na RBS. Mais do que nunca, é tudo contra o Inter. Imaginem que ontem “a arbitragem nos auxiliou”. Já para o Première, a Fox e a ESPN — emissoras paulistas — tudo foi normal).

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#ocupatudo

#ocupatudo

Criação (gráfica) da Joana Gutterres Berwanger e criada por sugestão deste que vos escreve… A autoria do poema é das ruas.

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Um rascunho de Svetlana Alexievich, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015

escritora Svetlana Alexievich, Prêmio Nobel de 2015

O Nobel de Literatura, concedido à bielorrussa Svetlana Alexievich, 67 anos, na última quinta-feira (7), foi a senha para que se iniciassem duas barulhentas discussões em três países: a Bielorrússia (ou Belarus), a Rússia e a Ucrânia.

A primeira delas envolve a nacionalidade da literatura e da própria Alexievich. Os russos dizem que ela escreve em russo e nasceu na União Soviética. Colocando inadvertidamente lenha na fogueira, a própria autora disse, logo que recebeu o prêmio: “É muito perturbador. O Nobel evoca imediatamente os grandes nomes de Búnin, Pasternak e Brodsky”. Todos russos.

Ivan Búnin (Nobel de Literatura de 1933) e Boris Pasternak (recebeu em 1960) nasceram na Rússia czarista, produziram na União Soviética e foram opositores ao regime. Búnin, inclusive, emigrou e morreu na França. Joseph Brodsky (Nobel de 1987) nasceu durante a Segunda Guerra e morreu em Nova Iorque, exilado. Todos escreviam em russo. E Svetlana Alexievich também. Então, como ela não escreve em bielorrusso… Para os russos, ela é russa.

E a Ucrânia entre no jogo pelo simples fato da escritora ter nascido em seu solo e de ter mãe ucraniana, mesmo que tenha ido para Minsk ainda quando criança. Então é ucraniana.

Porém, para os bielorussos, ela cresceu, estudou e se formou como jornalista no país. O pai era um militar bielorrusso que fora transferido temporariamente para a Ucrânia. Além disso — e eles estão corretos –, ela sofreu enorme influência de grandes escritores do país, como Alés Adamóvich, o fundador do gênero de romance-documentário que a escritora pratica. Então é bielorrussa.

Lukashenko vê sua inimiga premiada

A outra discussão

A outra discussão gira em torno dos temas dos livros de Svetlana Alexievich. A partir de entrevistas — ela é uma extraordinária entrevistadora — a autora se dedica a criar painéis de vozes reais. Seus livros são “romances coletivos”, também conhecidos como “romances corais”, ou “romances de evidências”. São pessoas que falam de si mesmas numa espécie de coral.

Tais corais são formados por vozes de sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, do acidente nuclear de Chernobyl, da campanha no Afeganistão, etc. Também há um livro sobre como o povo sentiu a passagem do comunismo para o capitalismo. São relatos pessoais, onde, apesar de a política permanecer subjacente, têm um tom de forte crítica a várias gerações de governantes da União Soviética, Bielorrússia e Rússia.

(A Bielorrússia tem o mesmo presidente desde a implosão da União Soviética. Aleksandr Lukashenko, conhecido como O Último Tirano da Europa, está no cargo desde 1994 em sucessivas e mui discutidas reeleições).

Deste modo, o Nobel teria sido concedido a uma pessoa que dedica-se a tecer críticas à sociedade russa e bielorrussa, isto é, a uma pessoa de posições claras, non grata para muitos.

Então, na quinta-feira à noite, enquanto os amigos de Svetlana Alexievich faziam uma enorme festa numa vinoteca de Minsk, parte dos jornais e redes sociais locais referiam-se a um Nobel dado a uma autora que “odeia nosso país”.

A escritora em Portugal, na ocasião do lançamento de seu único livro traduzido para nossa língua

Europeia

A escritora fala com grande tranquilidade sobre a primeira questão levantada, a de sua nacionalidade. “Eu sou europeia. Nasci na Ucrânia, de uma família que era metade do local e metade bielorrussa. Quase imediatamente após meu nascimento, fomos para a Bielorrússia. Durante mais de 12 anos eu vivi na Itália, Alemanha, França e Suécia. E há dois anos, voltei para Minsk”.

A Academia Sueca, anunciando sua vitória, elogiou os “escritos polifônicos” de Alexievich, descrevendo-os como “um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo”. Muito influenciada pelo escritor Alés Adamóvich, que considera como seu mestre, Alexievich tem a particularidade de deixar fluir diferentes vozes em torno de um tema. Ela esclarece diversos destinos individuais, descrevendo mosaicos que criam a certeza de tragédias reais. Alexievich trabalha decididamente na faixa do drama e da morte.

A edição portuguesa da Porto

Os livros

Em 1989, ela publicou Tsinkovye Málchiki (Meninos de Zinco), sobre a experiência da guerra do Afeganistão. Para escrevê-lo, percorreu o país entrevistando mães de soldados mortos no confronto. Em 1993, publicou Zacharov-annye Smertiu (Encantados pela morte), sobre os suicídios cometidos por aqueles que não haviam conseguido sobreviver ao fim do socialismo. Em 1997, foi a vez de Vozes de Chernobyl, um aterrador retrato da tragédia cuja devastação radioativa atingiu principalmente a Bielorrússia. O livro vendeu 2 milhões de exemplares em língua russa.

No ano passado, foi lançado O Tempo de Segunda Mão (ou O Fim do Homem Soviético, em Portugal). Nesse novo trabalho, Alexievich se propõe a “ouvir os participantes do drama socialista”. Para a escritora, o “homo sovieticus” ainda continua vivo, e não é apenas russo, mas também bielorrusso, turcomano, ucraniano, casaquistanês, etc. “Hoje vivemos em Estados distintos, falamos línguas distintas, mas somos inconfundíveis, rapidamente reconhecidos. Todos nós somos filhos do socialismo”, afirma, referindo-se a seus “vizinhos de memória”. “O mundo mudou completamente e não estávamos realmente preparados para isso”

Falando à emissora sueca SVT, Svetlana Alexijevich disse que o prêmio a deixou com um sentimento “complicado”. A academia telefonou para ela enquanto estava em casa “deixando passar o momento da divulgação do vencedor”, disse ela, acrescentando que os mais de 3 milhões de reais do prêmio “comprariam sua liberdade”. “Demoro muito para escrever meus livros, de cinco a 10 anos cada um. Eu tenho duas ideias para novos livros, por isso estou muito satisfeita: agora vou ter dinheiro e tranquilidade para trabalhar neles.”

Os romances corais

Alexievich nasceu no dia 31 de maio de 1948 na cidade ucraniana de Ivano-Frankovsk. Após a desmobilização do pai do exército, a família retornou à Bielorrússia e se estabeleceu em uma aldeia onde ambos os pais trabalhavam como professores. Ela deixou a escola para trabalhar como repórter no jornal local na cidade de Narovl.

Alexievich escreve contos, ensaios e reportagens, mas diz que só encontrou sua voz sob a influência de Alés Adamóvich. Na cerimônia de divulgação do prêmio, a crítica literária Sara Danius disse que “não se trata de uma escritora de eventos nem de análise política, é uma historiadora de emoções. O que ela nos oferece é realmente um mundo emocional. O desastre nuclear de Chernobyl e a guerra soviética no Afeganistão são pretextos para explorar a indivíduo soviético e pós-soviético”.

Chernobyl, o horror

Em Vozes de Chernobyl, Alexievich entrevista centenas de pessoas afetadas pelo desastre nuclear, indo desde uma mulher que, agarrada a seu marido morto, ouve os enfermeiros lhe dizerem que “isso não é mais uma pessoa, é um reator nuclear”, até os soldados enviados ao local. Fala de suas raivas por terem sido “arremessados lá, como areia no reator”. Em Meninos de Zinco, ela reúne vozes da guerra do Afeganistão: soldados, médicos, viúvas e mães.

“Eu não pergunto às pessoas sobre a política, eu pergunto sobre suas vidas: o amor, o ciúme, a infância, a velhice”, escreveu Alexievich na introdução ao O Tempo de Segunda Mão (O Fim do Homem Soviético). “Me interessam não apenas as tragédias vividas, mas a música, as danças, as roupas, os penteados, os alimentos. Os detalhes diversos de uma maneira desaparecida de viver. Esta é a única maneira de perseguir a catástrofe”.

“A história está interessada apenas em fatos; as emoções são excluídas do seu âmbito de interesse. É considerado impróprio admiti-los na história. Eu olho para o mundo como uma escritora, não como uma historiadora. Eu sou fascinada por pessoas “.

Seu primeiro livro, A guerra não tem rosto de mulher, tem como base entrevistas com mulheres que participaram da Segunda Guerra Mundial. “É uma exploração da Segunda Guerra Mundial a partir de uma perspectiva que era, antes do livro, quase completamente desconhecido “, disse Danius . “Ela conta a história de mulheres que estavam na frente de batalha na segunda guerra mundial. Quase um milhão de mulheres soviéticas participaram na guerra, e esta era uma história desconhecida. A obra foi um enorme sucesso na União Soviética, vendendo mais de 3 milhões de cópias. É um documento comovente e íntimo, trazendo para muito perto de nós cada indivíduo.” 

Tradutores, editores e leitores

A edição alemã de “A guerra não tem rosto de mulher”

Embora Alexievich tenha sido traduzida para o alemão, francês e sueco, ganhando uma série de importantes prêmios por seu trabalho, as edições em inglês do seu trabalho são escassas. Em Portugal, O Fim do Homem Soviético saiu este ano pela Porto Editora.

Seu editor francês diz que este livro é uma pesquisa micro-histórica da Rússia da segunda metade do século XX, indo até os anos Putin. Aliás, Alexievich é uma das vozes de oposição, costumando criticar duramente Putin e Lukashenko em palestras para leitores.

Bela Shayevich, que atualmente está traduzindo Alexievich para o inglês disse que “esta vitória significa que mais leitores serão expostos às dimensões metafísicas de sobrevivência e desespero das tragédias da história soviética. Espero que mais pessoas entendam o sofrimento provocado por circunstâncias geopolíticas estranhas a elas”.

A opinião geral de seus admiradores é a de que seus livros são muito incomuns e difíceis de categorizar. São tecnicamente não-ficção, mas recebem um belíssimo tratamento literário e de trabalho de linguagem. Sua tradutora inglesa faz uma reclamação: “Os editores ingleses e americanos são relutantes em assumir riscos e não gostam de livros muito trágicos. Não investem em um livro só porque ele é bom. Agora, com Nobel, talvez a coisa mude”.

Nas entrevistas após o prêmio, perguntaram a Alexievich sobre os refugiados na Europa. “A Europa agora passa por mais um teste sobre sua própria humanidade. Estive recentemente em Mântua, na Itália, e alguns amigos me convidaram para “marchar de pés descalços”. Este tipo de marcha foi organizada pela primeira vez em Veneza e agora está indo para todas as cidades. As pessoas tiram os sapatos e caminham descalças pelas cidades em solidariedade aos refugiados. Lá estavam refugiados, imigrantes e italianos solidários a eles. E isto na Itália, onde o nacionalismo é muito forte. Espero que, desta vez, a Europa seja aprovada no teste”.

Svetlana Alexievich é apenas a 14ª mulher a receber o Nobel de Literatura. Ao todo, 111 autores já foram premiados.

(*) Com Elena Romanov

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Comentário de Charlles Campos sobre Alexievich:

Estou apaixonado por essa autora. Estou lendo avidamente o Vozes de Tchernóbil (mania esse revisionismo de acentos nas palavras russas: antes era Chernobíl, Checóv, Karenina, Karamázov, agora são outras sonoridades completamente diferentes). Que livro, senhores! Não esperem história acadêmica ali, nem erudição filosófica cartorizada. A profundidade inigualável desse livro está no sentimento humano, na pureza do olhar, o olhar que extravasa a tragédia, a omissão, a política assassina. Neste livro se diz coisas tão espantosas que assustamos por enxergá-las inseridas na trivialidade, como essa: os radioisótopos espalhados pelo acidente permanecerão pelo planeta 200 mil anos, são imortais comparados a nós. Esse livro, para mim, é o alívio gratificante de encontrar uma resposta ao documentário da BBC sobre Tchernóbil que eu assisti há 2 anos, que mostra os generais soviéticos computando todas as vidas perdidas na indiferença acintosa dos monumentos aos heróis: Svetlana restitui a riqueza humana desses assassinados e desses suicidas, nega-lhes a frieza das estatísticas. Um livro que todo mundo deveria ler, imediatamente. O sarcófago, a estrutura de aço construída em torno do reator 4 de Tchernóbil, expiou seu prazo de validade nesse ano, 30 anos depois. Se as chamas tivessem alcançado os outros três reatores, teria sido, literalmente, o fim da humanidade, a nossa extinção. 4 dias depois do acidente, nuvens de Césio-137 e Urânio-235 expelidas em Tchernóbil já estavam na China, na África, e pelos céus de vários países europeus. As narrativas desse livro_ impressiona saber serem colhidas em entrevistas, devido suas altas qualidades literárias_, mostram o quanto devemos nossas vidas ao sofrimento e morte dessas pessoas. É simplesmente um livro sublime e vasto. A Companhia das Letras prometeu publicar toda a bibliografia da autora.

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