Daniel Deronda 1

Daniel Deronda 1

Quando a Elena esteve no hospital, adquirimos o hábito de eu ler livros em voz alta para ela. Claro, agora ela pode lê-los sozinha — aliás, mesmo no hospital ela podia ler, tanto que lia Nabôkov no original “para não perder a inteligência” –, mas ela diz que é fácil se acostumar com o que é bom. Chega a dizer que gosta da minha voz, o que julgo ser totalmente impossível.

Mas o que interessa é que estou lendo o maior de nossos calhamaços até hoje: trata-se de “Daniel Deronda”, de George Eliot e 700 páginas. DD não é um “Middlemarch”, mas é ótimo e cheio de detalhes inusitados para um romance vitoriano.

Quando do primeiro encontro de um casal, ela coloca as falas de cada um e, entre parênteses, o que um está pensando e observando no outro. É um trecho onde brilha o enorme virtuosismo da autora. Disse Marcelo Coelho que George Eliot não é uma artista que nos faça ver o mundo segundo uma perspectiva original, como Kafka fazia, mas, como Tolstói, é uma artista que nos faz ver o mundo de acordo com nossos próprios olhos. Só que “nossos próprios olhos” parecem ganhar lentes de aumento; e em toda a literatura ocidental poucas lentes são tão claras, tão penetrantes, como as que George Eliot nos oferece.

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Julie Christie, aos 85 anos

Por Gustavo Fuks-Schneider

Julie Christie, a lenda do cinema britânico que Al Pacino chamou de “a mais poética de todas as atrizes”, nasceu em Chabua, Assam, Índia, em 14 de abril de 1940, filha de uma artista plástica e um plantador de chá. A jovem Christie cresce em meio a plantação de seu pai antes de ser enviada para a Inglaterra para estudar. Terminando seus estudos em Paris, onde se muda para aprimorar o francês, com o objetivo de se tornar lingüista (Christie é fluente em francês e italiano), a adolescente Julie fica apaixonada pela liberdade do continente.

Também era apaixonada pela vida boêmia dos artistas e tinha planos de se tornar uma também. Christie faria sua estréia como atriz profissional em 1957 como membro do Repertório Frinton de Essex. Christie não gostava do palco, mesmo que lhe permitisse viajar, incluindo uma turnê com a companhia aos Estados Unidos. Seu verdadeiro métier como atriz seria o cinema, estreando 1961 na série de televisão do gênero ficção científica “A For Andrômeda”. A estreia no cinema se dá em 1962 numa participação especial na comédia “The Ealing-like comedy Crooks Anonymous” que foi seguido por um papel maior em outra comédia, “The Fast Lady”. Os produtores da série James Bond ficaram suficientemente intrigados com a jovem atriz para considerá-la pelo papel que posteriormente foi para Ursula Andress em Dr. No (1962), mas abandonaram a ideia porque Christie não era suficientemente peituda.

Em 1963 Christie trabalhou pela primeira vez com o homem que lançaria sua carreira no topo, o diretor John Schlesinger, quando a escolheu como substituta da atriz originalmente escalada para “Billy Liar”. A performance de Christie como Liz impressionou a ponto de se tornar um símbolo, se não um ícone, do novo cinema britânico. Sua presença na tela era tal que o grande John Ford a escalou como a jovem prostituta em “Young Cassidy”. Charlton Heston a queria para seu filme “The War Lord” mas o estúdio recusou suas exigências salariais.

Embora as revistas Amercan tenham retratado Christie como uma “recém-chegada” quando ela chegou ao super estrelato em 1965 no filme “Darling”, produção dirigido por Schlesinger, que adorava Christie, para desempenhar o papel da modelo Diana Scott, quando Shirley MacLaine saiu do elenco. (MacLaine era a irmã do homem que se tornaria amante de Christie no final dos anos 1960 e início dos anos 70, Warren Beatty, para quem alguns, como o ator Rod Steiger, acreditam que ela desistiria de sua carreira. Por sua complexa atuação, Christie ganhou elogios, incluindo os prêmios de melhor atriz da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e da Academia Britânica de Cinema.

Christie alcança o topo principalmente porque pareou “Darling” com o papel de Lara na adaptação de David Lean, vencedor do Oscar, de Doctor Zhivago (1965), de Boris Pasternak (1965), um dos campeões de bilheteria de todos os tempos. Christie era agora uma estrela que exigia um cachê de US $ 400.000 por filme, fato constatado com tristeza no diário de Charlton Heston. Mais interessada em cinema como forma de arte do que em consolidar seu estrelato, Christie combinou “Zhivago” com um papel duplo em “Fahrenheit 45” para o diretor François Truffaut, diretor que ela admirava. O filme foi prejudicado pela falta de inglês do diretor e pelo atrito entre Truffaut e o ator Oskar Werner, que substituiu Terence Stamp, mais apropriado para o papel. Stamp e Christie eram amantes antes que ela se tornasse famosa, e ele não tinha certeza de que poderia atuar com ela, devido a seus próprios problemas de ego. Por sua parte, Werner se ressentiu com a atenção que Truffaut deu a Christie. O filme é um fracasso.

Stamp superou esses problemas do ego para assinar como sua co-estrela na adaptação de John Schlesinger de “Far from the Madding Crowd” (1967), de Thomas Hardy, que também contou com dois grandes atores ingleses, Peter Finch e Alan Bates. É um filme que é muito mais lembrado agora do que quando foi recebido em 1967. O filme e sua performance como heroína Hardy Bathsheba Everdene não teve boa recepção por parte da crítica. Muitos dos quais criticaram Christie por ser muito “mod” e, portanto, falsa. um dos contos clássicos de Hardy sobre o destino. Alguns disseram que sua contemporânea Vanessa Redgrave teria sido uma escolha melhor como Bathsheba, mas embora seja verdade que Redgrave é uma atriz de excepcional talento, não tinha o apelo sexual e a qualidade de estrela de Christie, o que faz a história de três homens apaixonados por uma mulher mais plausível, como um filme.

Embora ninguém o soubesse, o período de 1967 a 1968 representou o ponto alto da carreira de Christie. Por sorte, como a heroína Hardy que ela retratou, ela conheceu o homem que transformou sua vida, minando suas pretensões de carreira como estrela de cinema em seu romance de sete anos, o ator americano Warren Beatty. Viver sua vida sempre foi muito mais importante do que ser uma estrela. Beatty, que via a profissão de estrela de cinema como uma “esteira que leva a mais esteiras” e que era rico o suficiente depois de Bonnie e Clyde (1967) para não precisar mais trabalhar novamente. Christie e Beatty visitaram uma fazenda durante a produção de “Madding Crowd” e ficaram horrorizados com a exploração industrial dos animais.

Depois disso, os direitos dos animais se tornaram um assunto muito importante para Christie. Mesmo após a separação, Christie e Beatty que permanecem como amigos íntimos por quatro décadas. O último sucesso de bilheteria de Christie em que ela atuou como protagonista foi “Petulia” em 1968 para Richard Lester, um filme que apresentou uma das maiores atuações de George C. Scott, perfeitamente contrabalançada pela imagem de beleza da atriz. “Petulia” é um dos principais filmes da década, uma obra-prima subestimada. Apesar da presença do grande George C. Scott e da excelente Shirley Knight, o filme não funcionaria sem Julie Christie. Francamente, não há outra atriz que poderia ter desempenhado o papel. Nesse estagio da sua carreira, Christie realmente chegou no ápice do estrelato como atriz.

Depois de conhecer Beatty, Julie Christie renunciou essencialmente a qualquer desejo de atuar em qualquer filme, ou de se manter como atriz de primeira linha (o sucesso nas bilheterias é uma garantia dos melhores papéis, mesmo nos filmes de arte). em “They Shoot Horses Don’t They? (1969) e “Anne of the Thousand Days” (1969), dois personagens que receberam indicações ao Oscar pelas segundas escolhas, Jane Fonda e Geneviève Bujold. Depois de filmar In “Search of Gregory” (1969), um fracasso crítico e de bilheteria, para cumprir suas obrigações contratuais, Christie passou um tempo com Beatty na Calfiornia, alugando uma casa de praia em Malibu. Voltaria atuar em “The Go-Between” (1971), de Joseph Losey, um belo filme com um roteiro do grande Harold Pinter, e ganhou outra indicação ao Oscar como proprietária de um prostíbulo no clássico menor de Robert Altman, “McCabe & Mrs. Miller” (1971) onde atua com Beatty. No entanto, como o próprio Beatty, ela não procurou trabalho estável, o que pode ser um suicídio profissional para um ator que deseja manter uma posição no primeiro escalão de estrelas de cinema.

Ao mesmo tempo, Julie Christie recusou o papel da imperatriz russa em “Nicholas and Alexandra” (1971), outro filme que ganhou a segunda escolha (Janet Suzman) de indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Dois anos depois, ela apareceu no famoso filme de terror psicológico “Don’t Look Now” (1973), mas isso provavelmente foi um favor para o diretor Nicolas Roeg, que havia sido seu diretor de fotografia em “Fahrenheit 451”, “Far From the Madding Crowd” e “Petulia”. Em meados dos anos 70, seu caso com Beatty chegou ao fim, mas os dois continuaram amigos íntimos e trabalharam juntos em “Shampoo” (1975) (do qual ela se arrependeu em aceitar) e “Heaven Can Wait” (1978).

Christie ainda era estrela suficiente, devido ao seu magnetismo, e não à sua própria atração nas bilheterias, para receber US $ 1 milhão para interpretar a personagem Jacqueline Kennedy Onassis em “The Greek Tycoon” (1978) (um papel eventualmente interpretada por Jacqueline Bisset sem grandes elogios). Christie assinou o contrato, mas foi forçada a desistir de ser protagonista em “Agatha” (1979) (que foi preenchida por Vanessa Redgrave) depois que ela quebrou o pulso. Então aceita o papel da protagonista feminina em American Gigolo (1980), quando Richard Gere foi originalmente acrescentado ao elenco mas desistiu quando John Travolta entrou no elenco depois imenso sucesso nas bilheterias como o rei da discoteca Tony Manera em “Saturday Night’ (1977) e como Danny Zuko em Grease (1978). Christie nunca aceitaria ser co-estrela ao lado uma figura de talento duvidoso. Quando o próprio Travolta desistiu e Gere retornou ao projeto, era tarde demais para Christe reconsiderar, já que a parte já havia sido preenchida pela atriz e modelo Lauren Hutton. Levaria 15 anos para Christie e Gere trabalharem juntos.

O fim de sua carreira de Julie Christie em Hollywood acontece após recusar o papel de Louise Bryant em Reds (1981), um papel escrito por Warren Beatty com ela em mente, Christie entendia que uma atriz americana deveria desempenhar o papel. (A mais recente namorada de Beatty, Diane Keaton, desempenhou o papel e ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.) De qualquer forma Christie permaneceu no filme, Beatty dedicaria a produção a ex namorada, o filme foi gestado enquanto o casal namorava.

Julie Christie retorna ao Reino Unido e tornou-se a resposta do Reino Unido para Jane Fonda, fazendo campanha por várias causas sociais e políticas, incluindo direitos dos animais e desarmamento nuclear. As partes que ela tirou foram dirigidas principalmente por sua consciência social, como aparecer no primeiro longa-metragem de Sally Potter, “The Gold Diggers” (1983), que não foi um remake do antigo “The Return of the Soldier” de Avery Hopwood, mas uma parábola feminista feita inteiramente por mulheres que todos compartilhavam a mesma escala salarial. Os papéis em “The Return of the Soldier” (1982), com Alan Bates e Glenda Jackson e “Heat and Dust” (1983), da Merchant-Ivory, pareciam anunciar um retorno à forma, mas Christie – como convém a esse símbolo da liberdade e falta de conformidade dos anos 60 – decidiu fazer do seu jeito. Decide dar um tempo na carreira, embora seu talento e beleza únicos ainda fossem muito procurados pelos cineastas.

Nesse ponto, a carreira cinematográfica de Christie entra em eclipse. Mais uma vez, seria particularmente exigente com seu trabalho, tanto que muitos vieram vê-la, essencialmente, como aposentada. Em 1986 se sente atraída por um projeto da diretora argentina María Luisa Bemberg, “Miss Mary”, a produção passou um tanto quanto desapercebida na época. No entanto um renascimento da carreira ocorreria anos depois, com a sua vez como Gertrude, no ambicioso, senão totalmente bem-sucedido “Hamlet” (1996) de Kenneth Branagh. Como Christie disse na época, ela não achava que poderia recusar Branagh, pois ele era um tesouro nacional. Mas o melhor ainda estava por vir: sua vez de estrela de cinema desbotada, casada com Nick Nolte e paquerada por um homem mais jovem em “Afterglow’ (1997), lhe trouxe elogios. Ela recebeu sua terceira indicação ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação e apareceu nos prêmios tão radiante e excepcionalmente bonita como sempre. Sempre iconoclasta, ficou visivelmente aliviada, após o anúncio do prêmio, ao saber que havia perdido!

Christie vive com o jornalista investigativo de esquerda Duncan Campbell (colunista do Manchester Guardian) desde 1979, primeiro no País de Gales, depois em Ojai, Califórnia e agora no East End de Londres, antes de se casar em janeiro de 2008. Além de seu trabalho no cinema, ela narrou muitos livros em fita. Em 1995, ela fez um retorno triunfante ao palco em um renascimento em Londres do “Old Times” de Harold Pinter, que recebeu suas excelentes críticas. Em 2004 participa da bem sucedida franquia Harry Potter em “Harry Potter and the Prisoner of Azkaban”, no mesmo ano está em “Finding Neverland” ao lado de Kate Winslet e Johnny Depp. Sendo indicada ao Bafta, na categoria melhor atriz coadjuvante. Em todos seus projetos recentes Julie Christie trabalhou em papéis coadjuvantes. Christie – uma atriz que sempre evitou o estrelato vulgar – provou ser uma inspiração para sua co-estrela Sarah Polley, a extraordinária talentosa atriz canadense com uma inclinação política de esquerda que também abomina Hollywood.

De sua co-estrela em “No Such Thing” (2001) e “The Secret Life of Words” (2005), Polley diz que Christie está ciente de sua mercantilização pela indústria cinematográfica e pela mídia de massa nos anos 60. Não querendo ser reduzida a um produto, ela se rebelou e assumiu o controle de sua vida e carreira. Sua atitude faz dela uma das heroínas de Polley, que a chama de uma de suas mães substitutas. (Polley perdeu a própria mãe quando tinha 11 anos.) Christie e Polley são rebeldes. Sarah Polley havia saído do set do filme de grande orçamento previsto como sua passagem para o estrelato de Hollywood, Almost Famous (2000), para ter um tipo diferente de vida e carreira. Ela retornou ao seu país natal, Canadá, para aparecer no filme independente de baixo orçamento “The Law of Enclosures” (2000), um filme de arte presciente do diretor John Greyson que compensou o drama com o cenário de uma guerra perpétua no Golfo, três anos antes da invasão de George W. Bush. Iraque, iniciando a segunda guerra mais longa da história dos EUA. Tirando um hiato de atuação, Polley foi ao Canadian Film Centre de Norman Jewison para aprender a dirigir e dirigir, fazendo curtas conceituadas antes de lançar sua estréia no cinema em “Away from Her” (2006), que foi filmada e concluída em 2006 mas mantido para lançamento até 2007 por seu distribuidor. Sua uma magnífica performance de uma mulher com Alzheimer foi vencedora do Globo de ouro, do National Board of Review, Critics’ Choice, Screen Actors Guild, entre inúmeros outros prêmios e para arrematar, mais uma indicação ao Oscar de melhor atriz, embora fosse a franca favorita ao prêmio, acabou perdendo para a francesa Marion Cotillard.

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Uma lista sensacional de melhores romances ingleses

Uma lista sensacional de melhores romances ingleses

Eu sempre tive um caso de amor com os ingleses. Não pensem que eu ignoro o que fez o Império Britânico ou as posições recentes sistematicamente ao lado dos EUA. Não pensem que eu gostava de Thatcher, por exemplo. Na verdade, eu amo três coisas: a literatura inglesa, a cidade de Londres e seus habitantes.

Não sei se um dia voltarei à cidade da qual gosto tanto, mas vou tentar.

Agora, quando cheguei em casa após o Concerto da Ospa, soube que a BBC fizera uma pesquisa com scholars e críticos ingleses para votar nos melhores romances ingleses. Eu disse ingleses, então Joyce, Beckett e outros estão de fora. Também só tem romances na lista. Li os critérios e achei que, opa, esta lista será das boas.

Eram 100 romances e eu fiquei moralmente muito feliz com a lista. Disse aqui em casa que os três primeiros seriam x, y e z, e errei só o terceiro lugar, que apareceu em quarto. Disse que a lista estaria cheia de mulheres e está. Elas têm o “trio vencedor”. Me perguntaram: quantas estarão dentre os dez melhores livros? Respondi que cinco: George Eliot, Virginia Woolf, Charlotte e Emily Brontë e mais Jane Austen. Acertei o número, mas errei uma: Austen ficou fora do top 10, mas em seu lugar entrou Mary Shelley.

E, para meu pasmo, eu li TODOS os 25 primeiros colocados. Ou seja, minha anglofilia literária tem melhor foco do que meus óculos, atualmente.

É meio bobo ficar feliz com isso, mas eu fiquei, sabe?

100. The Code of the Woosters (PG Wodehouse, 1938)
99. There but for the (Ali Smith, 2011)
98. Under the Volcano (Malcolm Lowry,1947)
97. The Chronicles of Narnia (CS Lewis, 1949-1954)
96. Memoirs of a Survivor (Doris Lessing, 1974)
95. The Buddha of Suburbia (Hanif Kureishi, 1990)
94. The Private Memoirs and Confessions of a Justified Sinner (James Hogg, 1824)
93. Lord of the Flies (William Golding, 1954)
92. Cold Comfort Farm (Stella Gibbons, 1932)
91. The Forsyte Saga (John Galsworthy, 1922)
90. The Woman in White (Wilkie Collins, 1859)
89. The Horse’s Mouth (Joyce Cary, 1944)
88. The Death of the Heart (Elizabeth Bowen, 1938)
87. The Old Wives’ Tale (Arnold Bennett,1908)
86. A Legacy (Sybille Bedford, 1956)
85. Regeneration Trilogy (Pat Barker, 1991-1995)
84. Scoop (Evelyn Waugh, 1938)
83. Barchester Towers (Anthony Trollope, 1857)
82. The Patrick Melrose Novels (Edward St Aubyn, 1992-2012)
81. The Jewel in the Crown (Paul Scott, 1966)
80. Excellent Women (Barbara Pym, 1952)
79. His Dark Materials (Philip Pullman, 1995-2000)
78. A House for Mr Biswas (VS Naipaul, 1961)
77. Of Human Bondage (W Somerset Maugham, 1915)
76. Small Island (Andrea Levy, 2004)
75. Women in Love (DH Lawrence, 1920)
74. The Mayor of Casterbridge (Thomas Hardy, 1886)
73. The Blue Flower (Penelope Fitzgerald, 1995)
72. The Heart of the Matter (Graham Greene, 1948)
71. Old Filth (Jane Gardam, 2004)
70. Daniel Deronda (George Eliot, 1876)
69. Nostromo (Joseph Conrad, 1904)
68. A Clockwork Orange (Anthony Burgess, 1962)
67. Crash (JG Ballard 1973)
66. Sense and Sensibility (Jane Austen, 1811)
65. Orlando (Virginia Woolf, 1928)
64. The Way We Live Now (Anthony Trollope, 1875)
63. The Prime of Miss Jean Brodie (Muriel Spark, 1961)
62. Animal Farm (George Orwell, 1945)
61. The Sea, The Sea (Iris Murdoch, 1978)
60. Sons and Lovers (DH Lawrence, 1913)
59. The Line of Beauty (Alan Hollinghurst, 2004)
58. Loving (Henry Green, 1945)
57. Parade’s End (Ford Madox Ford, 1924-1928)
56. Oranges Are Not the Only Fruit (Jeanette Winterson, 1985)
55. Gulliver’s Travels (Jonathan Swift, 1726)
54. NW (Zadie Smith, 2012)
53. Wide Sargasso Sea (Jean Rhys, 1966)
52. New Grub Street (George Gissing, 1891)
51. Tess of the d’Urbervilles (Thomas Hardy, 1891)
50. A Passage to India (EM Forster, 1924)
49. Possession (AS Byatt, 1990)
48. Lucky Jim (Kingsley Amis, 1954)
47. The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman (Laurence Sterne, 1759)
46. Midnight’s Children (Salman Rushdie, 1981)
45. The Little Stranger (Sarah Waters, 2009)
44. Wolf Hall (Hilary Mantel, 2009)
43. The Swimming Pool Library (Alan Hollinghurst, 1988)
42. Brighton Rock (Graham Greene, 1938)
41. Dombey and Son (Charles Dickens, 1848)
40. Alice’s Adventures in Wonderland (Lewis Carroll, 1865)
39. The Sense of an Ending (Julian Barnes, 2011)
38. The Passion (Jeanette Winterson, 1987)
37. Decline and Fall (Evelyn Waugh, 1928)
36. A Dance to the Music of Time (Anthony Powell, 1951-1975)
35. Remainder (Tom McCarthy, 2005)
34. Never Let Me Go (Kazuo Ishiguro, 2005)
33. The Wind in the Willows (Kenneth Grahame, 1908)
32. A Room with a View (EM Forster, 1908)
31. The End of the Affair (Graham Greene, 1951)
30. Moll Flanders (Daniel Defoe, 1722)
29. Brick Lane (Monica Ali, 2003)
28. Villette (Charlotte Brontë, 1853)
27. Robinson Crusoe (Daniel Defoe, 1719)
26. The Lord of the Rings (JRR Tolkien, 1954)
25. White Teeth (Zadie Smith, 2000)
24. The Golden Notebook (Doris Lessing, 1962)
23. Jude the Obscure (Thomas Hardy, 1895)
22. The History of Tom Jones, a Foundling (Henry Fielding, 1749)
21. Heart of Darkness (Joseph Conrad, 1899)
20. Persuasion (Jane Austen, 1817)
19. Emma (Jane Austen, 1815)
18. Remains of the Day (Kazuo Ishiguro, 1989)
17. Howards End (EM Forster, 1910)
16. The Waves (Virginia Woolf, 1931)
15. Atonement (Ian McEwan, 2001)
14. Clarissa (Samuel Richardson,1748)
13. The Good Soldier (Ford Madox Ford, 1915)
12. Nineteen Eighty-Four (George Orwell, 1949)
11. Pride and Prejudice (Jane Austen, 1813)
10. Vanity Fair (William Makepeace Thackeray, 1848)
9. Frankenstein (Mary Shelley, 1818)
8. David Copperfield (Charles Dickens, 1850)
7. Wuthering Heights (Emily Brontë, 1847)
6. Bleak House (Charles Dickens, 1853)
5. Jane Eyre (Charlotte Brontë, 1847)
4. Great Expectations (Charles Dickens, 1861)
3. Mrs. Dalloway (Virginia Woolf, 1925)
2. To the Lighthouse (Virginia Woolf, 1927)
1. Middlemarch (George Eliot, 1874)

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Morreu Vargas Llosa (1936-2025)

Morreu Vargas Llosa (1936-2025)

Morreu Vargas Llosa, um grande autor que alterou seu posicionamento político até o ponto de ser detestado por muitos, inclusive eu. Mas seu “Conversa no Catedral” (*) foi um marco para este humilde leitor. Foi a primeira e arrebatadora demonstração de virtuosismo literário que amei. Gostei muito de outros livros também, como “A Guerra do Fim do Mundo”, “Travessuras da Menina Má” e “A Orgia Perpétua”, sobre Flaubert.

(*) Catedral é um bar.

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Mauvício

Ninguém esperava que o Imortal perdesse para o Flamengo. Pelo contrário, todos previam uma vitória fácil do Tricolor. Seria a confirmação de um ano sobremaneira frutífero. A equipe de Quinteros há de se recuperar na próxima rodada. O Mirassol não tem culpa de nada, mas vai pagar o pato! É da vida.

Mauvício Saravia

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A chegada de Max

A chegada de Max

Aconteceu algo hoje. A veterinária do falecido gato da Elena — Vassily morreu faz 3 meses — ligou dizendo que tinha o gato perfeito pra ela. Disse que, se o luto passou, era a hora de pegar outro. Fui conhecer o cara e simpatizei com ele imediatamente. Peguei o vira-latinha cheio de vermes que trataremos. Não deve ter 1 Kg.

Tem prováveis 45 dias, é ultra carinhoso e ronronante, apesar de agitado e enérgico. Nestas primeiras horas, a maior das surpresas: parece que ele me escolheu. Logo eu, que não dou bola pra gatos. Maximiliano, cujo apelido é Max, ronrona em cima de mim e só quer saber de deitar nas minhas roupas. Espero que não fuja e que seja da Elena.

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Mauvício

Mauvício

Amanhã, o Grêmio começa a pavimentar seu caminho para o título brasileiro de 2025. Se o Inter empatou com o Flamengo no Rio e o Central Córdoba venceu, estamos a menos de 24h de vermos o time carioca sobremaneira esquartejado na Arena OAS.

Mauvício Saravia

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Notas de Concerto da Ospa (11 de abril de 2025)

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84,5 Kg

Ontem, uma querida cliente da Bamboletras — que só pode ser uma personal muito competente; se precisarem de indicação, ela está aqui no Face –, reagiu com estranheza quando lhe disse que eu pesava 84,5 Kg. Isso nu, de manhã cedo e após mijar pra ver se melhorava o resultado. “Mas onde?”, foi o que ela respondeu, antes de me medir com os olhos. E completou dizendo: “Não pode, tem certeza que a balança está certa? Tu nem tem uma circunferência abdominal (pança) tão considerável (imensa)”.

Sim, tenho certeza da balança. É meu peso máximo em vida e certamente em morte também. Toda vez que coloco uma calça, penso que sou um bacon e deveria me jogar numa frigideira sob fogo alto.

Classe média problems.

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Não é opinião: Inter e Grêmio contra os grandes

Não é opinião.

Internacional contra os 11 Grandes :
✅ Internacional 165v X 141v Grêmio
✅ Internacional 41v X 35v Palmeiras
❌ Internacional 25v X 32v Corinthians
❌ Internacional 30v X 31v São Paulo
✅ Internacional 30v X 28v Santos
✅ Internacional 39v X 38v Flamengo
✅ Internacional 33v X 27v Vasco
✅ Internacional 35v X 31v Fluminense
✅ Internacional 30v X 25v Botafogo
✅ Internacional 35v X 29v Cruzeiro
✅ Internacional 40v X 34v Atlético-MG
9 x 2

Grêmio contra os 11 Grandes :
❌ Grêmio 141v X 165v Internacional
❌ Grêmio 22v X 47v Palmeiras
✅ Grêmio 36v X 35v Corinthians
❌ Grêmio 36v X 41v São Paulo
❌ Grêmio 30v X 40v Santos
❌ Grêmio 42v X 43v Flamengo
✅ Grêmio 42v X 29v Vasco
✅ Grêmio 43v X 28v Fluminense
✅ Grêmio 30v X 24v Botafogo
❌ Grêmio 27v X 36v Cruzeiro
✅ Grêmio 36v X 27v Atlético-MG
5 x 6

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Mauvício

O Grêmio demonstrou hoje à noite estar indo em linha reta ao caminho das vitórias. O técnico Quinteros, como seu profundo conhecimento do futebol boliviano, é o nosso grande comandante. A Arena OAS, lotada, rugiu na noite desta terça-feira. Ganha o Tricolor, ganha sobremaneira o futebol gaúcho.

Mauvício Saravia

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South Summit, a cimeira do Sul

Teremos mais um South Summit em Porto Alegre, a cidade-inovação. Vou tentar assistir algum speaker e fazer meu networking. Acho que teremos vários startups, receberei muitos feedbacks até chegarmos a cada close of play. Dentro dos brainstorms, espero criar briefings a fim de montar meu business plan. Será que preciso de um coach para me passar know-how? Ou de um mentoring? Pois estou sem target. E afinal, qual é a trend?

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O futebol neste 31 de março / 1º de abril

Nove clubes brasileiros se manifestaram contra a Ditadura na passagem do 31/03 – 01/04: Vasco, Bahia, Botafogo, Corinthians, Sport e Inter, além de Remo, Náutico e Souza.

É melhor ser torcedor de um dos nove, né? Me disseram que a diretoria dos nocivos está cheia de bolsomínions. Triste.

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Atrás do balcão da Bamboletras (LXVI)

Atrás do balcão da Bamboletras (LXVI)

A Livraria Bamboletras está dentro de uma igreja com vitrais e estou ouvindo música sacra de Heinrich Schütz. Apesar das opiniões deste que vos escreve, o ambiente é pra lá de religioso.

Chega um menino meio tímido que se identifica como filho do poeta Marco de Menezes.

Ele estranha um pouco o ambiente, me olha meio desconfiado, creio eu. Então me diz que veio trazer exemplares do último livro de seu pai, “Como estou dirigindo”. Olho a camiseta dele e vejo um dos brasões da torcida Inter Antifascista:

— Nossa que camiseta linda! — eu digo com admiração.

Ele parece desanuviar, incrédulo pelo fato daquele pastor, ou do “Pai Milton da Bambô” ter gostado de uma camiseta com a imagem da foice e do martelo.

— Acha mesmo? — ele pergunta sorridente.

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Virginia

Hoje acordei com a memória insuportavelmente presente, fazer o quê?

Há exatos 84 anos, num 28 de março, Virginia Woolf, com 59 anos, tirou a própria vida ao entrar no Rio Ouse com pedras nos bolsos porque, tendo sofrido de crises recorrentes de doença mental ao longo da vida, a depressão que a atormentava intermitentemente estava retornando e ela não conseguia mais escrever.

É uma figura fundamental da literatura de seu e de nosso tempo. Seu trabalho sobrevive como uma contribuição significativa para nossa compreensão do início do século XX e como uma grande influência sobre escritores, especialmente mulheres, até hoje.

No primeiro comentário, deixo um link de um vídeo sobre sua vida e obra. Ele ajuda a entender a importância de Woolf e dá uma visão simples, mas informativa, do mundo literário de seu tempo.

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E Schütz fará 440 anos de nascimento

E Schütz fará 440 anos de nascimento

Bach, Handel e D. Scarlatti completam 340 anos de nascimento em 2025. Mas não esqueçam de mais um gênio: o extraordinário Heinrich Schütz completa 440 anos. Ele nasceu em 1585.

Uma curiosidade pessoal: ouço habitualmente algum compositor ainda mais antigo? Acho que há três ainda mais velhinhos e dentre eles uma mulher. São eles Hildegard von Bingen (1098-1179), Claudio Monteverdi (1567-1643) e Jan Pieterszoon Sweelinck (1562-1621).

Não gosto muito de Gabrieli nem de Palestrina.

Abaixo, Schütz retratado por Rembrandt.

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Atrás do balcão da Bamboletras (LXV)

O sujeito pede o livro “Uma Vida Pequena” e já sai perguntando se é muito deprimente. Eu respondo que não li o livro, mas que ele vende bem e nunca soube de algo especial a respeito. Ele diz que é o presente que sua filha pediu. Ela está fazendo 18 anos, o sr. sabe, né?

Na verdade, não sei nada. Pergunto se ela sofre de depressão. Ele responde que não, é que ela está naquela idade. Ih, rapaz, um controlador.

— Ela tem saído muito? — eu pergunto.

— Não, ela é correta, mas eu tenho medo de tudo, dos perigos reais e das influências, dos namorados também.

— Tu era correto? Ela vai fazer o que tu fazia.

— É disso que eu tenho medo.

Eu tomo a palavra:

— Eu tenho uma filha de 30 que sempre foi de uma franqueza estúpida. Hoje está casada, parece feliz.

— E como foi com o primeiro namorado?

— A primeira vez? Não sei. Eu a levava e buscava sempre nas festas. Um dia, ela me disse muito séria que eu estava livre de buscá-la de madrugada, que podia buscá-la de manhã, perto do meio-dia. Pensei: futebol é bola na rede. No outro dia, fui lá, busquei ela e conversamos um monte de abobrinhas. Só isso. Seguimos nossas vidas.

— Tu é muito calmo.

— Não, ela não era de enrolar. Então, eu provavelmente sabia onde ela estava e, se é para acontecer, não há vigilância que funcione. Digo mais: se é para transar, que transe em casa.

— Pra psicólogo tu não serve. Vou pensar nisso uma semana, sou capaz de bater o carro agora.

Achei graça.

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Pequenas coisas como estas, de Claire Keegan

Pequenas coisas como estas, de Claire Keegan

Este é um livro curioso. Parece leve, parece que não chegará a lugar nenhum, mas é poderoso, muito poderoso. Pequenas coisas como estas foi finalista do Booker em 2022 e figurou na célebre lista dos 100 melhores livros do século XX publicada pelo New York Times. A autora Claire Keegan é irlandesa e, como tantos de seu país, tem uma escrita cheia de beleza e suavidade.

O romance é centrado no personagem Bill Furlong. O ano é 1985. Furlong é um pequeno empresário que vende carvão e madeira, mas que não gosta de ficar no escritório, prefere trabalhar num caminhão caindo aos pedaços, fazendo as entregas. É pai de 5 filhas e casado com Eileen. Todos vão à igreja aos domingos. Na superfície de tudo isso, Bill parece estar contente com sua vida e destino. No entanto, conforme Keegan vai desenvolvendo a história, aprendemos que as coisas não são bem assim.

Na cidade há uma Lavanderia de Madalena — também chamadas de Asilos de Madalena –, instituições comuns na Irlanda no século XX. O que eram? Eram essencialmente casas de trabalho para mulheres, especialmente para mulheres jovens e adolescentes que engravidavam fora do casamento. As Lavanderias eram administradas pela Igreja Católica e as famílias lá deixavam suas mulheres para que pudessem esconder suas gestações da sociedade. Uma vez que a criança nascia, ela era frequentemente retirada à força da mãe e posta para adoção. (Após investigações realizadas antes da desativação dessas casas, houve a certeza de que muitas das crianças nascidas nessas lavanderias eram simplesmente mortas). Embora as Lavanderias de Magdalena fossem particularmente severas na Irlanda, estabelecimentos semelhantes existiam em todo o mundo. Como revela o nome, essas casas prestavam serviços de lavanderia para os locais onde estavam implantadas.

Certo dia, quando Bill deixa lenha e carvão na igreja local, ao lado da lavanderia, ele encontra uma adolescente trancada no galpão de carvão. Ela está coberta de sujeira, passa frio e está aterrorizada. Ele a leva para dentro e as freiras recebem a garota e abafam tudo, agindo estranhamente. Tudo o que Bill consegue arrancar da garota é que seu nome é Sarah — o mesmo de sua mãe.

A mãe de Bill, Sarah, era adolescente quando engravidou de Bill. A família Wilson a acolheu e a deixou trabalhar como empregada da casa pagando-lhe uma pequena quantia, além de quarto e alimentação. Todos dizem a Bill que ele deveria ser grato pela gentileza da família Wilson — especialmente quando a alternativa poderia ter sido uma Lavanderia Madalena para sua mãe. No entanto, Bill parece meio cansado de ser grato. Sua frustração parece palpável ​​ao longo do romance.

Enquanto ele constrói uma vida respeitável para si com sua esposa e filhos, a mãe adolescente de Bill é algo de que ele não consegue escapar. De muitas maneiras, ela parece seguir Bill por toda a sua vida e todos, incluindo sua esposa, usam a gravidez adolescente de sua mãe como uma resposta para qualquer momento em que Bill diga algo fora da linha da calma e da paz.

Quando ele vê Sarah no galpão de carvão, aquilo torna-se um fato importante para ele. Não havia serenidade naquele homem tão cordato, mas há paz no romance de Keegan até o final. Aliás, o final é uma joia de tão bem realizado.

Claire Keegan é uma mestra. Ela equilibra tristeza, delicadeza e perplexidade de uma forma extremamente bela. Os ressentimentos de Bill saem das páginas e parecem vivos, pulsantes. Porém, embora o assunto tenso e doloroso, ele alguma forma não é pesado.

Uma frase ecoa em nossa cabeça após a leitura. Ela aparece quando Furlong, meio perdido após suas entregas, pergunta a um homem na beira da estrada onde vai dar aquela estrada:

— Esta estrada vai dar onde você quiser, filho.

Um tremendo pequeno romance.

.oOo.

Obs.: há um filme homônimo baseado no livro. Bill Furlong é vivido por Cillian Murphy, porém o filme é bem ruinzinho.

Claire Keegan (1968-)

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Roteiro de uma palestra sobre os 340 anos de Bach, Handel e Scarlatti

Roteiro de uma palestra sobre os 340 anos de Bach, Handel e Scarlatti

Bach, Handel e Scarlatti nasceram em 1685. Handel em 23 de fevereiro, Bach em 21 de março, Scarlatti em 26 de outubro.

São três gigantes e o fato de terem nascido no mesmo ano já é coincidência suficiente. Bem que Rameau (1683) e Vivaldi (1678) poderiam ter esperado. Bem, mas isso talvez mudasse bastante a história da música, pois Bach foi muito influenciado pelo Prete Rosso (Padre Ruivo).

Vamos procurar mais coisas em comum entre nosso grande trio de compositores? O trio de 1685 foram figuras centrais do período barroco, contribuindo significativamente para a história e o repertório da arte musical e de meu período musical preferido, o barroco. Cada um à sua maneira e segundo o ambiente em que viveu, os três moldaram a estética e as técnicas musicais da época. Bach ficou conhecido tanto por suas obras sacras, quanto por sua música instrumental, incluindo aí obras que poderíamos chamar de conceituais. Handel tem sua música instrumental, mas destacou-se muito mais nas óperas e nos oratórios, enquanto Scarlatti foi um pioneiro da sonata para teclado, especialmente no cravo. Por obrigações empregatícias escreveu mais de 500 sonatas para cravo.

Outro ponto em comum entre eles é a influência italiana. O napolitano Scarlatti naturalmente não ficaria livre dela e incorporou o estilo italiano em suas obras, claro. O super estudioso Bach estudou e adaptou técnicas italianas, especialmente de Vivaldi, em suas composições. E Handel, alemão como Bach, passou boa parte de sua carreira na Itália e na Inglaterra, absorvendo e transformando o estilo italiano em suas óperas e oratórios. Aliás, as Cantatas Italianas de Handel, escritas em sua juventude na Itália, são esplêndidas!

Mas há mais. Bach, Handel e Scarlatti eram todos exímios tecladistas. Bach era respeitadíssimo como organista e cravista, Handel destacou-se como cravista, e Scarlatti foi um dos maiores virtuoses do instrumento em sua época. Suas obras para teclado continuam sendo pilares do repertório até hoje.

Aparentemente, os três nunca se encontraram pessoalmente, mas há várias lendas e talvez uma tentativa real de encontro. A principal lenda: Handel e Scarlatti supostamente competiram em um “duelo” de cravo em Roma, onde a turma do deixa disso declarou Scarlatti superior ao cravo e Handel no órgão. Um empate real ou arranjado? Enquanto eles duelavam, Bach devia estar bebendo cerveja ou brigando com seus empregadores, mas era um admirador de Handel e diz-se que tentaram entrar em contato, sem sucesso.

Como já disse, os três compositores trabalharam tanto com música sacra quanto profana. Bach é conhecido por suas obras sacras e também pela secular. Handel equilibrou óperas e oratórios, ficando mais na área da música vocal. Já Scarlatti foi muito mais focado na música instrumental, mas também compôs obras vocais sacras.

Outra coincidência é que os três morreram em um intervalo relativamente curto de tempo: Scarlatti em 1757, Handel em 1759 e Bach em 1750. Dá pra dizer que a período barroco é finalizado com suas mortes.

A última coincidência é triste e exclui Scarlatti. Bach e Handel, quando velhos, passaram a sofrer de catarata e foram operados por John Taylor (1703–1770). Pois bem, este médico charlatão britânico — doutor em autopromoção — cegou Bach e Handel, entre muitos outros. Taylor era um notório farsante. Ambos os compositores estavam com dificuldades de visão, mas depois das “cirurgias” de Taylor, ficaram irremediavelmente cegos. Taylor é famoso. Pesquisem.

Mas hoje é dia do nascimento de Bach. E pergunto: afinal, Bach nasceu em 21 ou 31 de março de 1685? No dia 21. Vamos falar de 1582? Naquele ano, o calendário gregoriano foi introduzido em alguns países da Europa, não em todos. A Itália, a Espanha, Portugal e a Polônia, os mais católicos, aceitaram a mudança ditada pela igreja, o resto não. Só depois é que todos os outros países aderiram. O 21 de março de 1685 da Alemanha não era o mesmo 21 de março de 1685 na Itália, Espanha etc. Havia 10 dias de diferença. O dia em que Bach nasceu foi “chamado” de 21 de março na Alemanha, onde eles ainda estavam usando o calendário juliano. Mas Bach nasceu num 31 de março, considerando o calendário que todos usam hoje, o gregoriano. O que vale? Ora, segundo os historiadores, vale o que está escrito lá na igreja onde Johann Sebastian Bach foi registrado. Vale o 21 de março. Perguntem ao Francisco Marshall que ele confirmará.

Da mesma forma, é muitas vezes dito que Shakespeare e Cervantes morreram exatamente no mesmo dia, 23 de abril de 1616. A rigor, não é verdade. As mortes foram separadas por 10 dias. A de Shakespeare ocorreu em 23 de abril de 1616 (juliano), que equivalente hoje a 3 de maio (gregoriano). A de Cervantes aconteceu no dia 23 gregoriano. Mas os historiadores dizem que o que vale é o que está escrito, então ambos morreram em 23 de abril, mas com uma diferença de dez dias. Então, eles morreram no mesmo dia, mas não ao mesmo tempo… Vá entender!

O que é certo é que podemos comemorar o(s) aniversário(s) de Bach, nosso maior ídolo, com (muita) cerveja. Bach a amava e era também uma questão de segurança, de saúde. Dizem que ele a produzia em quantidades industriais em sua própria casa. Mas esta é uma história pra a gente resolver aqui entre nós, né?

Mas antes, falemos rapidamente sobre o repertório de sábado (22/03), às 20h, na Casa da Ospa.

A função começa com duas Sonatas de Scarlatti, a K. 141 e a 87. A Sonata K. 141 tem uma curiosa escrita percussiva e passagens em “repiques” que sugerem a guitarra espanhola, instrumento onipresente na corte de Madri, onde o compositor passou grande parte de sua vida. Já a Sonata K. 87, em Si menor, tem um caráter introspectivo e lírico, contrastando com a técnica brilhante que caracteriza muitas das outras sonatas do compositor.

O Fernando Cordella vai tocar no cravo. Mas aqui vai uma provinha da K. 141 de Scarlatti.

Depois, teremos a Cantata BWV 4 de Bach, “Christ lag in Todes Banden” (“Cristo jazia nos laços da morte”), é uma das obras mais importantes e reverenciadas de Johann Sebastian Bach. Ela é baseada em um coral luterano escrito por Lutero, que por sua vez se inspirou no hino medieval Victimae paschali laudes. Acredita-se que Bach tenha composto essa cantata por volta de 1707, durante seu período em Mühlhausen, embora possa ter sido revisada posteriormente. É uma de suas primeiras cantatas sobreviventes. A Cantata foi escrita para a Páscoa, refletindo o tema central da ressurreição de Cristo e a vitória sobre a morte. O texto é uma paráfrase do coral de Lutero, que por sua vez está enraizado na tradição litúrgica da Páscoa. Ele explora temas como o pecado, a morte e a redenção através de Cristo.

Aqui vai uma versão da BWV 4 com o regente e pugilista John Eliot Gardiner:

O oratório La Resurrezione (A Ressurreição), de George Frideric Handel, é uma obra-prima do período barroco e um dos primeiros grandes trabalhos do compositor. Composto em 1708, durante a estada de Handel em Roma, o oratório narra a história da Ressurreição de Cristo, baseando-se em textos bíblicos e tradições litúrgicas. Handel compôs La Resurrezione quando tinha apenas 23 anos. Ele estava em Roma, onde as óperas haviam sido proibidas pelo Papa, mas oratórios e outras formas de música sacra eram permitidas. A obra foi encomendada pelo Marquês Francesco Ruspoli, um nobre italiano e patrono das artes. A primeira apresentação ocorreu no domingo de Páscoa, 8 de abril de 1708, no Palazzo Bonelli, em Roma.

Claro que no concerto de sábado serão apresentados trechos da obra. Abaixo, colocamos o oratório completo.

Então, resumindo, o repertório será o que segue:

PROGRAMA
Domenico Scarlatti (1685 – 1757)
– Sonata em Ré menor K. 141
– Sonata em Si menor K. 87

Johann Sebastian Bach (1685 – 1750)
Cantata “Christ lag in Todes Banden” BWV 4

Georg Friedrich Händel (1685 – 1759)
Trechos do Oratório “La Resurrezione” HWV 47

SOLISTAS
Fernando Cordella, cravo e direção
Cintia de Los Santos, soprano
Diana Danieli, mezzo-soprano
Lucas Alves, tenor
Alexandre Kreismann, tenor
Daniel Germano, baixo
Gustavo Gargiulo (Argentina/França), corneto
Vinicius Chiaroni (SP), flauta doce
Diego Biasibetti, viola da gamba

ENSEMBLE BACH BRASIL (com instrumentos de época)
Fernando Cordella, cravo e direção musical

ENSEMBLE VOCAL
Andiara Mumbach, soprano
Rodrigo Bloch, contratenor
Alexandre Kreismann, tenor
Mauro Pontes, baixo

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Homo Faber, de Max Frisch

Homo Faber, de Max Frisch

Homo Faber é um romance do suíço Max Frisch (1911-1991) publicado pela primeira vez na Alemanha em agosto de 1957 — o melhor mês do melhor ano. É narrado em primeiríssima pessoa pelo protagonista Walter Faber, um engenheiro brilhante que viaja a trabalho pela Europa e pelas Américas. Mais ou menos como o Ricardo Branco era e fazia. Sua visão de mundo — lógica, probabilística e científica — é desafiada por uma série de coincidências incríveis, fazendo com que o passado ressurja. (Você, que está na minha TL e portanto é inteligente, já sentiu a jogadinha entre Homo Faber e Homo Sapiens, né? Se não se deu conta, fora daqui!)

O livro foi editado pela Guanabara em 1986 e relido por mim agora em voz alta para a Elena. É ótimo. Minha cara-metade também aprovou e queria que eu lesse mais a cada noite. Gostei muito das duas vezes que o li, apesar de algumas reflexões antiquadas.

É uma obra importante e curiosa, pois se fala de um tema bem comum — o de nossa fragilidade — também fala de outro mais incomum — da ilusão do controle que temos sobre nossas vidas. É um livro de uma introspecção também pouco usual: a de um engenheiro. Faber é um homem de meia-idade, especializado em engenharia mecânica, que acredita piamente na lógica, na ciência e no controle técnico sobre a vida. Ele viaja constantemente a trabalho, vivendo uma existência organizada e aparentemente imune ao caos emocional. No entanto, durante uma viagem de negócios tudo começa a se descontrolar, como não aconteceu com o Ricardo Branco.

A narrativa se desenrola em duas partes: na primeira, Faber viaja para a América Central e se envolve em um acidente de avião. Na segunda parte, numa viagem de navio, Faber encontra Sabeth, embarcando numa relação cujo caráter é melhor deixarmos de lado.

Faber representaria o homem moderno, que confia na tecnologia e na razão. No entanto, o acaso o força a se desequilibrar de sua posição. Pode-se dizer que Sabeth é filha de uma ex-namorada sua e acaba por expor sua fragilidade emocional e incapacidade de lidar com complexidades “das humanas”. Frisch critica a crença de que a ciência e a técnica podem resolver todos os problemas humanos, mostrando que a vida é cheia de ambiguidades e incertezas.

Max Frisch foi um arquiteto e escritor influenciado pelo existencialismo e por Brecht. O final do livro é de grande categoria, Frisch sabia mesmo como deixar a gente pensando.

Tradução de Herbert Caro.

Max Frisch

 

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