Revi dia desses, permanece ótimo

A Pietà de Ingmar Bergman, em Gritos e Sussurros (1972)

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Anotando filmes para um ciclo sobre a Comissão da Verdade, ditadura, etc.

Com no mínimo seis filmes e debates, o escambau. Meus sete leitores gostariam de sugerir outros além destes? Coloquei asteriscos ao lado de meus preferidos.

Brasil:

— Pra frente Brasil, de Roberto Farias; (*)
— Cabra-cega, de Toni Venturi;
— O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger;
— Ação entre amigos, de Beto Brant; (*)
— Zuzu Angel, de Sérgio Rezende;
— Hércules 56, de Sílvio Da-Rin; (*)
— Nunca fomos tão felizes, de Murilo Salles;
— Dois córregos, de Carlos Reichenbach;
— Lamarca, de Sérgio Rezende.

Argentina:

— Kamchatka, de Marcelo Piñeyro; (*)
— A história oficial, de Luis Puenzo;
— O dia em que eu não nasci (Das lied in mir), de Florian Micoud Cossen; (*)
(Examinar melhor o site La dictadura en el cine)

Chile:

— Dawson ilha 10, de Miguel Littín;
— O cavaleiro negro, de Ulf Hultberg.

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Ospa: nem poção mágica salva repertório

Asterix regeu a Ospa nesta terça-feira

(É claro que o maestro uruguaio García Vigil merece todo meu respeito, mas que ele é a cara do Asterix, isso é. Baixinho, magro, narigudo e com longos cabelos, falta-lhe pouco para ser o esperto gaulês. Algumas mulheres na plateia disseram que ele remetia ao gaulês, mas também ao Gepeto do Pinóquio. Não chegamos a uma conclusão final).

O repertório do concerto de ontem à noite foi fraco e tal fato é tudo menos novidade, como sabem meus sete leitores. A função começou animada com a Abertura da ópera A Flauta Mágica de Mozart, o qual parece ter morrido de uremia, nunca por envenenamento. O pequeno guerreiro gaulês imprimiu grande entusiasmo à execução e a Ospa — a plena e furiosa DR atual parece não atingi-la artisticamente — respondeu de forma magnífica.

Porém, a aldeia gaulesa sempre tem seu momento Chatotorix: Antonio Salieri apontava perigosamente na curva. Defendido galharda e inutilmente por Max Uriarte, o Concerto para Piano e Orquestra em si bemol maior revelou-se por inteiro em sua mediania. Um bonito Larghetto antecedido de um primeiro movimento desinteressante e sucedido de um Andantino em forma de variações.  Um concerto de estrutura original, não fosse o problema da música. Não sou daqueles que combatem o Salieri em razão das calúnias póstumas proferidas por Pushkin, repercutidas por Rimsky-Korsakov, e amplficadas por Peter Shaffer em Amadeus — é que o concerto era dureza mesmo. Salieri, que morreu de velho, surfava bem melhor em águas operísticas.

Depois veio a 5ª Sinfonia de Schubert, que morreu de mal francês (vá ao dicionário). Pura grife. Schubert foi um tremendo compositor e o número cinco é muito bem cotado nas rodas eruditas. A Quinta de Beethoven, a Quinta de Mahler, a Quinta de Shostakovich, a Quinta de Prokofiev — que recebeu bela gravação da OSESP, lançada em CD no mês passado, Marin Alsop, já compraram?, eu comprei, é muito bom — , fora os concertos que carregam o número dos melhores volantes do mercado. Pois bem, pura grife, dizia eu: a 5ª de Schubert é das obras mais fracas de um sinfonista que parece apenas ter se encontrado nos números 8, “Inacabada”, e 9, “A Grande”. Perda de tempo ouvir novamente a 5ª. Despilfarro, diria o gaulês platino.

Ideiafix. Sim, ontem meu Facebook foi invadido por argumentos de que era impossível melhorar o repertório da Ospa. Eram músicos da Comissão Artística que davam uma colher a este pobre escriba de sete leitores. Referiam-se a isto, certamente. A comoção artística deles fê-los afirmar que a  programação “foi pensada e realizada tendo em vista a estrutura física disponível para a Ospa”.

Seria muito fácil, apesar de longo, responder ao argumento. Nem vou fazê-lo. A Ospa sofre demais, como coloquei no link que repito aqui, mas não deve alegar que seu sofrimento seja a causa das péssimas escolhas que faz. Isso é como o jogador de futebol que rola aos berros no gramado ao menor toque em sua figura. A Ospa insiste em não envolver seu público nas decisões. Os metros e metros que separam a Reitoria do novo teatro poderiam ser pavimentados com, por exemplo, partituras de Haydn superiores a tal 5ª de Schubert. Schubert é superior a sua Quinta Sinfonia. Aliás, recentemente tivemos a 8ª e 9ª do mesmo compositor. O que a Ospa não imagina é a criatividade dos programas que fazemos por pura brincadeira no grupo de discussões daquele blog fantasmal de música erudita, resultados das saudades que temos da coluna Who`s Next da revista Gramophone. O público sabe mais do que alguns imaginam. No intervalo, em vez da 5ª, fantasiava com a Sinfonia “O Filósofo” de Haydn, uma livre associação muito mais adequada.

Fico pensando em onde colocar o Obelix no meu texto…

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Andrei Rublióv (Rublev), de Andrei Tarkovski

Eu não procurei este livro para comprar, eu cruzei com ele. Estava caminhando por uma livraria e dei de cara com o volume da Martins Fontes. Estranho, não era um DVD do filme, mas um livro de mais de 300 páginas escrito pelo próprio diretor e roteirista Andrei Tarkovski. Comprei imediatamente e não é que o tenha lido, eu o engoli imediatamente com os olhos.

Trata-se de um roteiro literário, que na verdade é um romance escrito por Tarkovski para servir de base para as filmagens. O  roteiro final foi escrito em parceria com Andrei Konchalovsky e parece  consistir apenas no acabamento dos diálogos e no corte de descrições e cenas, pois o livro (ou roteiro literário) possui 14 capítulos, 5 capítulos a mais do que o filme.

OK, mas porque tanta expectativa? Ora, pelo imenso filme de Tarkovski, um dos melhores de toda a história do cinema, pelo profundo humanismo que se desprende da história e pela grande carga emocional de um filme que parece não terminar nunca, tal a impressão deixada nas mentes de quem o vê. Com a publicação deste roteiro — falemos sério, deste romance — ficam inequívocas as intenções do cineasta soviético. Tarkovski pretendia mesmo discutir o papel do artista e da fé na sociedade. Se o palco é a Rússia (Rus) da invasão tártara do século XV, a alegoria serve a qualquer outro tempo e sociedade.  No livro, Rublióv está muito mais completo e complexo do que no filme, o que, se não significa uma obra de arte melhor — e certamente não significa — , significa explicações para vários trechos apenas intuídos.

Na leitura, capta-se melhor a personalidade do trio de pintores de ícones, perdidos ou indo de igreja em igreja na paupérrima e faminta Rússia medieval. Andrei é um jovem quieto e misterioso. Daniil é resignado, propondo sacrifícios a si mesmo. Kiril é esperto, lógico mas ciumento. O trio representa a Trindade do ícone mais famoso de Rublióv. As cenas — todas passadas por volta do ano de 1400 — nem sempre são contadas do mesmo ponto de vista, podem variar, assim como a ordem de apresentação delas é diferente no filme.

Andrei Rublióv é um surpreendente painel sociológico sobre a Rússia medieval. Os estranhos rituais, a fé, a necessidade da igreja para não passar fome, a busca da própria identidade, a busca da verdade. Há violência extrema na cena em que a igreja é invadida e saqueada, com o sacerdote sendo marcado por uma cruz incandescente. Ali, Rublióv perde a fé para reencontrá-la no filho de um fabricante de um sineiro, um menino que, sem saber muito bem o que faz e ameaçado de morte se não for capaz de forjar um sino, vai adiante movido por não se sabe o bem o quê– pela mera intuição, pela fé ou pela observação e desespero. Ali, Rublióv vai reencontrar deus e o espírito para voltar a criar beleza religiosa para um mundo absolutamente bárbaro.

O filme, de 1966, foi somente liberado em 1969, assim mesmo com cortes impostos pela censura soviética, que não aprovava a alegoria de Tarkovski contra a intervenção das instituições no trabalho do artista. Isto é algo quase não lê no “roteiro literário” do diretor.

Andrei Rublev: Trindade. Galeria Tretyakov

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O Gênio Português?

A artista contemporânea portuguesa Joana Vasconcelos terminou a nova escultura para o  hall da Assembleia da República intitulada: O GÉNIO PORTUGUÊS. Retirado daqui.

Alguém me explica, por favor?

P.S. — Alguém explicou nos comentários: não é da Joana Vasconcelos e é um disparate total ser atribuído à artista. Alguém anda a fazer pesquisa muito preguiçosa e desleixada.

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Ladrão de livros é absolvido! A evolução do Judiciário é fato indiscutível!

O excelente e atento advogado Bruno Zortea — falo muito sério ao elogiá-lo — escreve para este blogueiro a fim de de informá-lo sobre uma decisão inteligente e altamente cultural tomada por nosso brioso Poder Judiciário no dia de ontem. Porém, antes de proceder à transcrição da nota, gostaria de deixar claro que o ladrão de livros ora absolvido FERE DE MORTE a ética do ladrão politicamente correto de livros, cujo conteúdo apresentamos aqui com riqueza de detalhes. O ladrão em questão roubou livros com a intenção de revendê-los, fato que pode ser comovente se a situação econômica do ladrão for deveras lamentável, mas que não aceitamos em razão da intrusão do capitalismo em seu movimento seguinte. Ele que vá roubar carros ou joalherias, então! O roubo de livros deve ser uma atividade pura que apenas lesa as grandes livrarias. O ladrão de livros perpetra seus ilícitos por paixão e prazer literários, nunca para entrar num vulgar sistema de oferta e procura.

Abaixo a notícia publicada no site do STJ.

Antes ainda, um detalhe: esse negócio de aplicar o tal princípio da “insignificância” na absolvição é outra coisa que tem de ser alterada. Insignificante é a mãe de quem invocou este princípio para o caso!

Homem que furtou livros é absolvido pela aplicação do princípio da insignificância

A Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu habeas corpus a um homem que furtou e revendeu três livros avaliados em R$ 119, em São Paulo. Para o ministro relator do caso, Og Fernandes, a ação teve ofensividade mínima e cabe a aplicação do princípio da insignificância. O réu, que estava sob liberdade condicional por outras condenações de furto, confessou que pegou três obras de uma livraria localizada numa estação da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Os livros foram revendidos na praça da Sé por R$ 8 cada. Entre os títulos dos livros constava uma edição da série Harry Potter. Em primeira instância, o homem foi absolvido, mas o Ministério Público se mostrou inconformado e apelou. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) reformou a decisão para que a ação penal pudesse continuar.

Insatisfeita, a defesa recorreu ao STJ. Pedia, por meio de habeas corpus, que a denúncia oferecida pelo MP fosse rejeitada ou o homem absolvido. Alegava atipicidade no caso e constrangimento ilegal, por não ter sido aplicado o princípio da insignificância.

Sem ofensividade

“Não há como deixar de reconhecer a mínima ofensividade do comportamento do paciente”, afirmou o ministro Og Fernandes, reconhecendo a atipicidade da conduta. Para ele, pela aplicação do princípio da insignificância justifica-se a concessão do habeas corpus.

Para enfatizar a decisão, o relator mencionou precedente de 2004 do Supremo Tribunal Federal (STF). Na decisão, foi reconhecida a aplicação do princípio da insignificância quando quem comete a ação não oferece ofensividade ou perigo social. Ou, ainda, quando o comportamento indica “o reduzidíssimo grau de reprovabilidade” e apresenta “inexpressividade da lesão jurídica provocada” (HC 84.412/STF).

De forma unânime, a Sexta Turma do STJ concedeu habeas corpus ao homem, restabelecendo assim a decisão de primeiro grau que o absolveu.

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Sonho com abóboras

Era noite fechada quando fui ao cemitério visitar o túmulo do meu pai. Estava desconfiado de que ele tivesse sido enterrado vivo. Com aquela facilidade só encontrada nos sonhos, tirei o mármore, puxei o caixão e levei-o para o carro. Lá chegando, baixei os bancos de trás, pus o caixão no porta-malas e fui embora — afinal de contas, queria conferir o conteúdo sozinho, com toda a calma.

Saí de Porto Alegre e fui até Guaíba, entrei à direita na estrada para Pantano Grande e parei depois de alguns quilômetros. Desci um barranco bastante íngreme ao lado da estrada e ali, escondido, tirei o caixão do porta-malas, coloquei-o na frente do carro, liguei as lanternas do carro e abri o ataúde. Estava tudo direitinho. Meu pai estava conservado, frio e morto, tal como o vira pela última vez. Quando estava fechando o caixão, vi milhares de abóboras de todas as cores e formatos pelo chão inclinado. Era lindo de ver o contraste das cores e das sombras projetadas. Decidi levar algumas, digamos, centenas.

(clique para ampliar)

Comecei a encher o porta-malas de abóboras. Quando lotou, reabri o ataúde para utilizar  seus vãos. Meu pai ficou adornado por abóboras. Ela ficaram entre suas pernas, ao lado de seu corpo, de sua cabeça. Passei tanto tempo trabalhando naquilo que amanheceu. Tomado de susto e com a lógica própria dos sonhos, resolvi livrar-me de tudo, pois não haveria como recolocar o féretro em seu lugar sob a luz do dia. Não sei como consegui enfiar o caixão no porta-malas cheio, mas deu certo e fui adiante. Dobrei à direita em Pantano e cheguei a Rio Pardo. A cidade é banhada pelo Rio Jacuí, onde há uns barrancos que proporcionam belas paisagens aos habitantes da cidade, além de servirem para várias outras coisas. Fui até o rio, estacionei embaixo de uma ponte e tchum com o caixão. Coisa inaceitável: ele ficou boiando. Entrei no rio e voltei a abri-lo. Joguei água dentro a fim de que afundasse. Deu certo.

Quando fui embora havia centenas de abóboras flutuantes descendo o rio. Era bonito de ver.

Acordei com absoluta certeza de que meu pai não estava mais no cemitério e de que tinha perdido centenas de lindas abóboras.

(clique para ampliar)

Obs. 1: Dia desses, alguém falou neste sonho para mim. Não lembro quem foi, só lembro que me disseram: li há anos no teu blog. Só que hoje, certamente em função da lembrança do amigo, voltei a abrir o caixão de meu pai enquanto dormia. Desta vez dei apenas uma olhada.
Obs. 2: Meu pai faleceu em 11 de dezembro de 1993.

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Vinte e duas canções de Edu Lobo

E poderia cantar outras 22 de sua obra que o show seria também perfeito.

Ontem, Edu Lobo fez um show memorável em Porto Alegre. Com uma banda sensacional e muito bem ensaiada, capitaneada por Cristóvão Bastos e tendo Carlos Malta como grande estrela, Edu Lobo mostrou parte de seu monumental repertório para um Theatro São Pedro merecidamente lotado. Aos 68 anos, Edu, que como cantor nunca foi lá essas coisas, permanece como sempre foi. O cantautor é cada vez mais autor que cantor, mas a gente passa por cima dos pequenos erros e da falta dos agudos. Há agravantes — já tinha visto um show seu há uns dez anos e ontem ele repetiu a coisa: Edu custa a aquecer, a se sentir à vontade. Demora três músicas e se acostumar com a plateia. É, na verdade, um tímido que vai melhorando à medida que vai apresentando suas canções até cantar Beatriz, onde, num momento de bom humor, diz:

— Eu sei que não devia cantar essa música depois de Milton Nascimento e Mônica Salmaso. Eu canto por um motivo muito simples: fui eu que fiz.

Sim, sem dúvida é justo. Então, cantando Beatriz, ele erra bastante sobre a perfeição de acompanhamento de Cristóvão Bastos ao piano. E a gente não dá mínima importância, pois… Seria desejável que houvesse um ou uma crooner competente no palco? Olha, certamente não. A não ser que ele trouxesse consigo uma Salmaso. Mas, sabem?, tenho certo amor pelos cantautores e suas dificuldades. O que importa é a música e esta pode vir dos tecnicamente perfeitos e dos que não o são. E há banda. O quarteto que acompanha Edu — completado por Jorge Helder e Jurim Moreira — é um espanto.

Dentre as músicas tivemos desde as clássicas No cordão da saideira, Upa neguinho, Ponteio, Pra dizer adeus e Canto triste, passando pelo repertório de O Grande Circo Místico, mais Corrupião, Choro bandido, Lily Braun, etc. para chegar às músicas de seu último CD (Tantas marés, 2010). É óbvio que ficaram inúmeros clássicos de fora e que no bis houve os mais variados pedidos. Aliás, o bis foi um belo momento de sensibilidade de Edu. Ele falou com os músicos um a um e disse para a plateia: “Mudança de planos”. E atacou Upa neguinho, a canção mais óbvia para ser cantada na terra de Elis Regina.

A plateia era formada por muitos, muitos antigo(a)s fãs e por uma verdadeira multidão de músicos. Era previsível. Há os que vão adorar e os que vão aprender mais uma coisinha. E certamente aquele compositor que estava sentado bem na minha minha frente aprendeu alguma coisa com uma súbita mudança de tom no meio de Ponteio. Ele deu um salto e depois, durante os aplausos, criou uma breve tese para seu amigo ao lado, outro músico. Também sou assim. Quando vejo uma banda tocando muito bem, fico paradinho na cadeira torcendo para não atrapalhar. Se erram ou me surpreendem, tomo um susto. Só que o quarteto de Edu Lobo acerta sempre.

(Parece que hoje há um show extra para convidados no StudioClio. Não confirmei, mas sempre é uma segunda chance para quem não pode ver ontem).

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Pelo telefone

O que há de ficção neste texto de Fernando Monteiro? Olha, acho que bem pouco… Retirado daqui. Ah, Monteiro está publicando Mattinata.

– Alô (com indisfarçável má vontade)… Te disse pra não telefonar. Nunca.
– Sei disso. Só que…
– “Só que” nada, pô. Vou desligar.
– Ouve, primeiro. É sobre a loura.
– Pior ainda. Esse assunto é outro Vietnam, aqui dentro.
– Vietnam que vai piorar. Nas próximas horas.
– Cara, cê tá onde?
– Que pergunta é essa? Brentwood. Em frente da casa da vagabunda, onde montamos a…
– Não sei de nada. Não sei com quem tô falando, nem conheço loura nenhuma.
– Frescura. Ouve, que é melhor. Ela pirou.
– Novidade nenhuma. Frank me disse.
– O quê?
– Que ela pirou. Aliás, sempre foi pirada…
– Aquele cantorzinho sabe de merda nenhuma.
– Você não diz que ela “pirou”? Então, ele sabe.
– Pirou m-e-s-m-o, eu quis dizer. Não é só uma frase.
– Que fase?
– Frase. Não é só conversa fiada, isso dela pirar. Tô falando de loucura mesmo… Ela tá lá na casa, deitada, sem tomar banho…
– Grande novidade.
– Pera aí. E menstruada sem tampão…
– Pô.
– Isso num é nada. Espera pra ouvir o resto.
– Devia tá dopadinha, quetinha, isso sim. A gente paga a porra de um médico…
– A mulher ficou fora de controle, Bob. Agora, ela ficou.
– Como assim? Conheço a doida bem demais.
– Conhece nada…

(Silêncio, logo depois que surgem uns ruídos de telefonia)

– Que é isso? Tá escutando?…
– Sei lá. Te disse pra não ligar.
– Desligo?
– Pera aí. Vou dar outro número.
– Pra ligar?
– Anota, engraçadinho: 33-07-66-02.
– DF?
– Claro, né? Saigon é que não é.

(Curto intervalo)

– Alô.
– Pronto. Vai, fala.
– O que foi aquilo?
– Menor ideia. Isso aqui é vizinho do Oval, pô. Todo mundo grampeia todo mundo…
– Eu sei. Trabalhei aí quase a vida toda, lembra-se?
– Pois é. E a loura? Por que você acha que ela pirou mais ainda?
– Hein? A outra linha tava melhor.
– Esta é mais segura.
– Fala mais alto.
– Uma ova. Tenta escutar mais, tira a cera do…
– Não tô escutando quase nada, agora.
– Merda. Não posso GRITAR.
– Agora tô ouvindo.
– A loura. Por que ela parou?
– Parou de quê?
– Você num disse que ela pirou? Ela parou de ser razoável. Com o Jack.
– É pior do que pensam. A gente gravou ela dizendo que vai falar. Tudo.
– Tudo o quê?
– Tudo.
– …
– Alô?
– Sobre o quê?
– Sobre a ligação com vocês.
– Pera aí… Que ligação?
– Dela. Contigo e com teu irmão.
– Com o Presidente?
– É. Com o Procurador e com o Chefão.
– Não tem “chefão” aqui.
– Tem.
– Você tá falando do Presidente dos Estados Unidos, idiota.
– Teu irmão sempre armou. É doente pela coisa.
– Cala a boca.
– Vi Jack de cueiro. Você nem era nascido ainda. Vão pra merda, os dois.
– …
– Alô.
– Escuta. Tás falando o que não dev…
– Entende, Procurador, vou soletrar: num-dá-mais-tempo. Só isso.
– Pra quê?
– Cê num tava querendo “conversar” com ela de novo? Não dá mais.
– Claro que dá. Nem que tenha que bater na suja.
– Já falei: ela pirou. MM pirou. Diz até que abortou.
– Como é?!
– Tô falando: ela pirou.
– Para de falar “ela pirou”. Que negócio é esse de aborto?
– Ela está disposta a jogar merda toda no ventilador, Robert. Sério. E basta ela fazer uns telefonemas, convocar os putos da imprensa…
– Pô. A merda cobre.
– Então. E enche o Oval (e o país inteiro): de sujeira, de esperma, de droga, de Sam Giancana…
– Esse tá ferrado, o sacana.
– Tá nada. O Sam tá é muito puto com vocês dois…
– Me respeita, cara. E respeita o Presidente.
– Cacete que eu respeito. Dois fudedores comendo todo mundo…
– Cala essa boca.
– VOCÊ me escuta, garoto. Os dois armam, e sobra pra quem? Pra mim. Pro “tio” velho.
– O que é que ela quer? Dinheiro?
– Ela tem.
– Uma merreca.
– Mas assim mesmo ela não quer mais merreca de grana, santo deus. Entende isso, cara. Nem tudo é dinheiro.
– Ô “São Franciscuzinho”, desembucha de uma vez. O que é que a porra da mulher tá querendo?
– O que ela quer? Ela quer ferrar.
– Alô?
– FERRAR. Ela quer isso! Chamar todo mundo, dizer: “sabe quem me come? Eles, os dois…”
– Isso é loucura. Fica calmo.
– Foda-se. Tô calmíssimo. E vendo ela aqui, na minha frente, pelo monitor. Tá possuída, a doida…
– Desliga…
– Desliga o quê? Meu monitor?
– O telefone! VOCÊ tá gritando, cacete.
– É ela que vai gritar. Pra todo mundo ouvir. Jornal, rádio, TV, o escambau…
– …
– Vai gritar que quer casar com o Jack Grandão.
– …
– “Happy birthday Mr. President”… (canta em falsete, irônico)
– …
– Parece até que eu posso ver o casalzinho, e Bob, o mister Procurador… de padrinho.
– CALA A B-O-C-A.
– Eu to avisando: essa mulher é pior que um ataque de míssel russo.
– Deixa eu falar com o Jack.
– Agora?
– Agora. Ele tá vindo pro Oval. E já tá encarando…
– O quê?
– A solução.
– Final?
– Hum-hum.
– Aquela?
– Você próprio acaba de dizer que ela agora ficou doida pra ferrar todo mundo.
– Tá gravado aqui. Posso mandar a fita.
– Manda não. Tu tem razão. Agora, tem é que parar essa desgraçada.
– Bom, isso aí já é falar como homem. Nembutal?
(Silêncio, por um momento)
– Bob? Alô?…
– Tô aqui.
– Nembutal?
– É. Nembutal. Mas, SL. Serviço limpo.
– Autópsia, tudo garantido?
– Cem por cento. Altamente profissonal, nem preciso dizer.
– Sim, mas olha que é a MM, hein? Num é uma qualquer, como aquelas que…
– Escuta, eu vou desligar. Tá ficando perigoso. E Jack chegou lá no Salão. Acendeu a luzinha aqui.
– E o irmãozinho vai falar claro com ele?
– Vou. Mas ele mesmo já tinha pensado em se livrar agora, bem antes da campanha.
– Ok. E eu fico esperando autorizar “despirar” a loura forever?
– Fica. Mas isso não vai ser pelo telefone.
Um click, desligando.

NB:
A atriz Marilyn Monroe, de 36 anos, foi encontrada morta em menos de 24 horas depois dessa conversa por mim transcrita na manhã de 10 de agosto de 1962.
Os jornais informaram mais ou menos assim: “MM faleceu enquanto dormia em sua casa de Brentwood, na Califórnia, aparentemente por efeito de um dose letal de barbitúricos ingeridos pela atriz com a intenção de acabar com a própria vida…”
E hoje está até na geleia geral da Wikipédia: “Ninguém sabe de fato o que aconteceu naquela noite. Ouviu-se o barulho de um helicóptero. Uma ambulância foi vista esperando fora da casa dela antes que a empregada desse o alarme. As gravações de seus telefonemas e outras evidências desapareceram. O relatório da autópsia foi perdido. Toda a documentação do FBI sobre sua morte foi suprimida e os amigos de Marilyn que tentaram investigar o que aconteceu receberam ameaças de morte”.

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Noite de Edu Lobo

É, tive que fazer um investimento num espetáculo caro. Agora à tarde, saí correndo para o Teatro São Pedro a fim de comprar ingressos. Quase não consegui. Só cadeiras extras disponíveis a 80 pilas cada. Foda-se. Se isto significa sentar numa das laterais da plateia, também pode significar sentar no fosso. Queremos o fosso, claro. A banda será formada por Edu, Cristóvão Bastos, Carlos Malta, Jorge Helder e Jurim Moreira.

Como disse o Jornal do Comércio, do Recife, o preço do ingresso pode até ser considerado “popular” diante do valor cobrado pelo seu parceiro de grandes obras Chico Buarque, o qual valeria R$ 350. Por falar na dupla Chico-Edu, estão no repertório Beatriz, Choro bandido e A ciranda da bailarina.

Como Edu Lobo tem o frevo no sangue, espero que saiam também Angu de caroço e Frevo diabo. Minha irmã, que tinha Edu como símbolo sexual numa época em que todas as moças suspiravam pelo olhos e o restante de Chico Buarque, não vai poder ir. Lastimável. Mas fico feliz que Porto Alegre reconheça e lote o teatro para ver um dos grandes gênios da MPB.

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O trânsito no Dia das Mães

Ontem, Dia das Mães, fui obrigado a dar umas voltas na cidade pela manhã. Saí de casa às 11h15 e fui visitar minha mãe na clínica geriátrica. Depois, iria almoçar com a família de minha mulher e, principalmente, com minha sogra. Eu já deveria ter aprendido que estes dias são terríveis. Por volta do meio-dia, não apenas fica difícil arranjar um restaurante como até mesmo andar na rua de carro. E eu tendo que atravessar a cidade inteira… Devia ter pensando que, se eu tinha de me deslocar, os outros também.

Dentro do carro, dois CDs de jazz, um de uma big band belga e outra americana. Coisa muito divertida, mas haja big bands! Foram duas horas para ir e voltar numa cidade ainda tranquila e provinciana como a nossa. Não sou dessas pessoas que se irritam muito com o trânsito. Talvez facilite o fato de eu apenas dirigir no fim-de-semana, sei lá. Não obstante, sempre acho incrível a movimentação no almoço do Dias das Mães.

Se conheço tão bem o fenômeno e não sou antropólogo, significa que participo dele há muitos anos. Sim, é tradicional procurar a mãe para almoçar no segundo domingo de maio, mas há mais a considerar: há o não vamos deixar ela fazer almoço hoje, né?  Então, muitos devem ir até a casa de suas mães para dar-lhes um beijo e depois sair para um restaurante. OK, elas podem ir direto, mas é menos gentil. Para piorar o trânsito, as mulheres vivem mais, gerando um número de deslocamentos muito maior, por exemplo, que o do Dia dos Pais, dentre os quais há muito mais mortos. E alguns de nós têm que visitar duas ou três mães: a própria e mais uma ou mais avós, pois as mulheres são maioria nas famílias, elas não apenas nascem mais como vivem mais, como já disse. Outro fato que tive a oportunidade de analisar: o movimento que vai para a Zona Sul de Porto Alegre é muito maior do que o contrário. Tal fato deve ter implicações econômicas que não sei muito bem analisar. Também econômico é o fato que me fez, já preocupado em razão do atraso, entrar pela Vila Cruzeiro (*). Ali o trânsito estava livre, mas garanto havia ainda mais gente caminhando pelas ruas. (Explico: na Cruzeiro, certamente como resultado de função de anos e anos com calçadas esburacadas, quase todas as pessoas preferem caminhar pelo meio da rua. Hoje há mais calçadas, mas o pessoal acha mais confortável andar no meio da rua).

O resultado de tudo isso é que cheguei atrasado no almoço da sogra. Ah, me desculpem a reflexão idiota. É que sempre tive ressentimento pelo fato das mulheres viverem mais e comecei a pensar que isto se reflete até no trânsito…

(*) O bairro central mais pobre de Porto Alegre.

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A ferida do exílio

Por Martim Vasques da Cunha, na Rascunho.

James Joyce por Robson Vilalba

My wound tires me.
James Joyce, Exiles (Exilados)

Nascido a 2 de fevereiro de 1882 em Dublin, James Joyce sempre foi um jovem inquieto e preocupado com o fato de que a Irlanda o traía constantemente, tratando a nova geração de artistas como “a porca que devora sua prole”. Havia poucas oportunidades: sufocada pela bota inglesa, fossilizada por um catolicismo moralista, a nação era descrita por uma palavra que o próprio não hesitou em colocar na abertura do conto As irmãsparalisia.

Era a paralisia espiritual do nacionalismo pueril das peças mitológicas de W.B. Yeats e John M. Synge que alegravam o público do Abbey Theatre, ponto de encontro dos intelectuais dublinenses. A mente de Joyce, como o próprio dizia aos colegas, lhe parecia ser mais interessante do que o que acontecia no país. Absorvia o melhor de uma civilização ocidental que a Irlanda se recusava em aceitar; prodígio de intelecto e de arrogância, já criava uma teoria estética que se aproveitava de Dante, Aristóteles e Tomás de Aquino; e ficava absolutamente maníaco quando via um fato inusitado no cotidiano de Dublin, não hesitando em anotá-lo em um caderninho, para depois apelidá-lo carinhosamente de “epifania”. Dirigia-se para um lugar ainda inexplorado e a sociedade onde vivia não percebia o que acontecia nela porque estava viciada nas correntes do provincianismo.

Segundo T.S. Eliot, ser “provinciano” não significa “não possuir a cultura ou o requinte da capital”, muito menos ser “estreito no pensamento, na cultura e no credo”. É algo além — e mais trágico para a cultura de uma nação que se pretenda saudável. Refere-se “também a uma distorção de valores, à exclusão de alguns, ao exagero de outros, que resulta, não de uma falta de ampla circunscrição geográfica, mas da aplicação de padrões adquiridos dentro de uma área restrita, para a totalidade da experiência humana, que confundem o contingente com o essencial, o efêmero com o permanente. (…) É um provincianismo, não de espaço, mas de tempo (…), a propriedade da qual os mortos não partilham. [Sua ameaça] é que podemos todos, todos os povos do mundo, ser provincianos juntos; e aqueles que não estiverem satisfeitos podem apenas tornar-se eremitas”.

Joyce não chegou a se tornar um eremita. Foi além: assumiu a postura do gênio que vai contra qualquer regra da sociedade. Recusou a Igreja, não aceitou o que seus pais lhe ensinaram, muito menos os conselhos dos amigos prudentes. Encaminhava-se para “a completude e a experiência da vida” e não se importava em admitir que havia um abismo separando-o da antiga geração. Sua jornada era tão conscientemente solitária que, ao se encontrar com W.B. Yeats, fez questão de ampliar a lacuna. Conta-se que Joyce respondeu da seguinte forma a Yeats, após os dois terem se encontrado em uma reunião em que os elogios deste não encantaram o primeiro: “Nós nos encontramos tarde demais. O senhor é velho demais para que eu tenha qualquer efeito sobre o senhor”.

Joyce era ainda um escritor em formação; escrevera alguns versos, planejava alguma carreira de cantor ou de ator. Precisava de mais algumas experiências para realizar aquilo que acreditava ser a sua missão: “forjar a consciência incriada da sua raça”. Buscava a compreensão da realidade como uma unidade, como a manifestação de um divino que se imiscuía no cotidiano paralisado de Dublin. Apesar de seu Non serviam em relação à Igreja — atitude com a qual Joyce manteve uma relação ambígua por toda a vida —, é nítida a intenção de se mostrar como um artista que procura um Deus que está além do “grito na rua” em que seus compatriotas o transformaram. E ele sabia que, para forjar a tal consciência, teria de aceitar dois fatos extremos: a compreensão da morte como parte integrante da vida e o reconhecimento da condição humana como perpétuo exílio.

Espírito torturado

Esses fatos seriam o fardo nos ombros de Stephen Dedalus, o anti-herói de Retrato do artista quando jovem, romance autobiográfico que mostra James Joyce exibindo ao mundo o que aprendeu ao aplicar seu espírito às artes desconhecidas. Seu nome é uma união de duas personalidades marcantes do mundo antigo: o primeiro mártir cristão, Estevão, que, conforme nos conta Atos 7:55-60, foi apedrejado pela multidão de Jerusalém ao gritar na rua sobre a ressurreição de Cristo; e o arquiteto Dédalo, criador de construções como o labirinto que aprisionava o Minotauro, e pai de Ícaro, com quem fugiu da sua própria criação ao criar asas de cera, mas viu seu filho morrer afogado no mar por não escutar os conselhos de voar distante do sol.

Joyce não escolheu esses nomes ao acaso. Acreditava realmente que era um mártir e que a literatura era a fuga da paralisia dublinense. A figura de Stephen surgiu na adolescência e foi elaborada, em primeiro lugar, em um romance autobiográfico inacabado, Stephen hero. Ela tinha todas as qualidades e defeitos de Joyce: a petulância, o pedantismo de uma erudição que se preocupa com sua própria mente, a constante intransigência com o país, a família e os amigos. Entretanto, ao transformar Stephen hero em Retrato do artista, Joyce queria aprofundar a objetividade da consciência e, além disso, tornar Stephen mais distante de si próprio — era necessário que se tornasse um personagem e não apenas um alter ego. Retrato do Artista realiza isso com perfeição: o início é um passeio pela consciência infantil do jovem Stephen; conhecemos sua família, sua educação, seus amigos, sempre de forma indireta; pouco a pouco, o estilo se desenvolve para uma exploração de sentimentos e de emoções que se transformam em uma música das sensações. Joyce retrata o crescimento de uma mente que opta pelo exílio dentro do seu país porque a perseguição é a única forma de encontrar um sentido na vida dublinense.

Como o próprio Dédalo, Stephen está preso não só no labirinto onde foi jogado, mas também no que ele próprio criou — onde seu espírito está sendo torturado por pensamentos que não consegue apreender corretamente. Esta é uma observação importante porque sem ela não podemos entender Ulysses, e nos permite corrigir um grande erro que rondou a obra de Joyce: a de que ela seria uma apologia do orgulho satânico.

Sem dúvida, Stephen é um orgulhoso, e falaremos sobre isso adiante; mas é o orgulho patético do jovem que se sente mais importante do que o país onde vive. Não se trata de revolta contra a realidade ou contra Deus. A citação do nome de Stephen ao primeiro mártir cristão prova isso — apesar do Non serviam contra a Igreja que ecoa nos ouvidos. A prisão mental de Dedalus, sua planejada fuga para o exílio em Paris (que ocorre no final de Retrato) e o encontro com sua vocação artística são apenas os primeiros passos para a verdadeira intenção de Joyce, e que se revelam como uma profunda análise do artista maduro sobre o que move a pessoa determinada em criar um novo mundo dentro dos limites do exílio. Stephen sempre se deparará com a prisão da sua alma — que foi criada justamente pelo orgulho da traição.

E o orgulho da traição, se isso for possível, acontece justamente por causa da condição que chamamos de exílio. O poeta russo Joseph Brodsky, um exilado de primeira categoria, escreveu certa vez que o verdadeiro exílio nos ensina três coisas: que a condição humana é um exílio metafísico que nos põe em constante estado de tensão, seja no pensamento ou no espírito; que alguém que vive o exílio sempre será um ser voltado para o passado, para o lugar onde viveu e ao qual não pode mais retornar — como foi o caso do próprio Joyce com Dublin, em que ele dizia que, se a cidade fosse destruída por um incêndio, ela poderia ser reconstruída através de seus livros; que o exílio é, antes de tudo, uma escola de humildade.

Humildade é algo que Stephen Dedalus não possui. Durante todo o Retrato, deixa o orgulho tomar conta de suas atitudes, mesmo quando consegue uma aparente libertação após ter uma epifania em Sandycove, ao ver uma moça à beira da praia e sentir o chamado da literatura. Seu lema de sobrevivência explicita isso quando fala sobre sua ars poetica ao amigo Cranly: a de que ele construirá uma obra fundada no “silêncio, exílio e astúcia” (silence, exile and cunning). O que seria essa astúcia? Justamente a falta de humildade que fará de Stephen um mártir de seus próprios pensamentos e ações. Ou pior: o desejo alucinado de ser traído a qualquer custo, seja pelos próximos ou pelo próprio país. Vai para Paris, mas pede antes uma benção do pai, chamando-o de “velho artífice”; como alguém que gosta de esconder pistas, Joyce sugere que nem o próprio Stephen está certo da sua condição de mártir ou de rebelde. É claro que não estava. O motivo é simples: ninguém suporta ser traído ou viver numa constante suspeita de que será traído. Naquela época, nem Joyce, que cometeu o mesmo erro, sabia se estava pensando ou fazendo a coisa certa. E ele conhecia a razão: tanto Stephen Dedalus como James Joyce voltariam a Dublin para ver a lenta agonia de sua mãe.

Acerto de contas

Para a criação de um novo mundo, é necessário que o artista entre em comunhão com o mundo real onde vive e aceite as suas imperfeições, suas incertezas e, sobretudo, a sua descrença. Este talvez seja o verdadeiro tema de Ulysses, romance que lançou James Joyce ao topo da literatura mundial e que se passa em um único dia, 16 de junho de 1904, o Bloomsday. É uma continuação de Retrato do artista quando jovem porque, logo no início, nos reencontramos com Stephen Dedalus, que voltou de Paris para justamente acompanhar a morte de sua mãe.

Também acompanharemos a peregrinação de Leopold Bloom, vendedor de anúncios de descendência judaica, preocupado com várias coisas, entre elas o funeral de seu amigo Paddy Dignam, o luto mal resolvido por um filho morto prematuramente (Rudy), a sua fixação por uma amante que se comunica somente por correspondência (Martha) e, sobretudo, a possibilidade de que, enquanto anda pelas ruas de Dublin, sua esposa Molly o trai com o garanhão Blazes Boylan.

Por que Joyce escolheu o dia 16 de junho de 1904 para ser a data que marca a ação de seu livro? A razão é singela: neste mesmo dia, o jovem James Augustine Joyce saíra com sua futura companheira, Nora Barnacle, que, como o próprio diria anos depois a ela, “fez dele um homem”. Joyce estava na mesma situação de Stephen Dedalus: atormentado por dúvidas, pela culpa de ter visto a mãe agonizante e por não ter cumprido os últimos desejos dela ao se recusar a proferir a oração dos ritos finais. Além disso, o espectro do fracasso o perseguia: de nada adiantava ser um grande talento se não estava plenamente desenvolvido. O encontro com Nora marcou-o como a possibilidade de entrar em contato com o mundo e deixar para trás a solidão que sentia desde a morte da mãe; e, com isso, Joyce acreditou ter encontrado uma companheira para toda a vida, apesar das observações sarcásticas de seu pai, que afirmava que ela jamais largaria o filho, numa referência nada delicada ao seu sobrenome (Barnacle significa “carrapato”).

Portanto, Ulysses é uma das maiores cartas de amor já escritas. É também o acerto de contas de Joyce com o seu presente e com o seu passado — representados respectivamente por Leopold Bloom e Stephen Dedalus. Ambos se encontrarão nesse dia para que achem uma maneira de dar rumo a suas vidas — para que o sentido das coisas surja como se fosse algo óbvio e os faça ir para frente, nunca para trás. A presença de Nora Barnacle aparece também na figura de Molly Bloom, a esposa de Leopold, uma mulher que nos parece ser uma aranha devoradora, mas, no fim, é quem fará a unidade na existência destes dois homens dilacerados.

O acerto de contas com o passado não se dá apenas na esfera pessoal. Joyce também resolve, em seu romance, o seu próprio lugar na literatura. Para isso, cria uma estrutura romanesca baseada em três pilares: Homero, Dante e Shakespeare. O primeiro é nítido: além do título do romance, cada episódio do livro é inspirado em um canto da Odisséia, épico de Homero que conta o retorno de Ulisses, o famoso guerreiro de Tróia, à sua Ítaca. Dessa forma, Leopold Bloom seria ninguém menos que Ulisses; Stephen Dedalus seria Telêmaco, o filho de Ulisses; e Molly Bloom representaria Penélope, apesar de não ser uma esposa tão fiel assim. Na visão de Joyce, Ulysses não é apenas um romance sobre o exílio, mas um romance sobre a volta para a casa após uma longa temporada no exílio. Bloom e Dedalus são deslocados em Dublin e ambos procuram uma pátria espiritual; o tema da paternidade é recorrente: os dois buscam pais e filhos desaparecidos em suas vidas e descobrem o que procuravam ao se encontrarem quase por acaso. Entretanto, nada em Joyce é por acaso; ele aproxima a mitologia grega do cotidiano dublinense usando os artifícios mais complicados e, ao mesmo tempo, simples da literatura; usa e abusa de paralelismos no tempo e no espaço, criando uma sensação de sincronicidade em eventos aparentemente desconexos; desenvolve o fluxo de consciência não como ferramenta narrativa, mas como um modo de o leitor entrar nos segredos mais íntimos dos personagens; e, sobretudo, registra minuciosamente cada ato, cada hora, cada sensação, cada fala de qualquer personagem que seja importante em sua estrutura porque quer provar, através de seu livro, que o passado pode ser revivido no presente.

O confronto com o passado dentro do presente só será resolvido por meio da influência de Dante. Joyce quis fazer com Ulysses o que o poeta florentino fez com A divina comédia: registrar toda a experiência da civilização ocidental em um único tomo. Daí a referência enciclopédica a obras de literatura, teologia, botânica, história da arte, história universal que estão espalhadas pela narrativa, como se fosse um corpo com vida própria.

Contudo, de nada adianta essa síntese se o homem comum, representado por Leopold Bloom, não consegue se confrontar com o fantasma da morte. No episódio “Hades”, inspirado no canto homérico em que Ulisses desce aos infernos para encontrar com o espectro de seu pai, Joyce descreve a descida de Bloom ao reino subterrâneo. Bloom se dirige com alguns amigos (entre eles, o pai de Stephen, Simon Dedalus) para o funeral de Paddy Dignam, um velho conhecido da boemia dublinense. Todos se lembram da morte de algum colega, de algum ente querido; Bloom se lembra da morte de seu pai, que se matou por envenenamento, e de seu filho Rudy.

Ao ver o caixão de Dignam ser enterrado, conscientiza-se de que seu destino final não é apenas a morte, mas também o esquecimento. Mesmo qualquer espécie de oração não resolve esse problema. “Será que alguém realmente reza?”, ele se pergunta. Bloom sabe que precisa fazer algo para não cair no olvido. Mas o quê? O inferno é muito grande aos olhos de Bloom; existem muitos mortos, muitos a serem esquecidos. E então percebe que, em breve, se não fizer nada, pode ser um deles: “Quantos, meu Deus! Todos estes aqui andaram certa vez por Dublin. Mortos fiéis. Assim como vocês são agora assim certa vez fomos nós”[1]. O maior pecado de Bloom é não fazer algo da sua vida que valha a pena.

O mesmo pode se dizer de Stephen Dedalus. Joyce faz seu alter ego, ocupado por uma mente que elabora os mais complexos teoremas, incapaz de lidar com a vida como ela é, confrontar-se com o espectro de William Shakespeare. É o embate entre a antiga literatura inglesa e a nova literatura — o modo como Stephen encontrou para acordar do pesadelo chamado História. Isso é motivo para uma das cenas mais divertidas de Ulysses, quando Dedalus explica para alguns colegas o que seria sua inusitada teoria de que Shakespeare é, ao mesmo tempo, pai e filho de Hamlet.

O teorema é o seguinte: “Hamlet é Hamlet, o filho morto prematuramente do próprio Shakespeare; Shakespeare é o espectro, o marido ultrajado, o rei deposto; Anne Shakespeare, nascida Hathaway, é a rainha culpada”. Stephen faz uma mistura de pseudo-biografia, fofoca literária e delírio hermenêutico para explicar que as peças de Shakespeare não saíram de uma existência imparcial e distanciada da vida, mas sim de uma experiência traumática no conhecimento de sua própria maldade e da maldade dos outros — no caso, o suposto fato de que o jovem Shakespeare foi abusado sexualmente por sua esposa Anne, 15 anos mais velha. A tese choca os colegas de Stephen. “Mas essa intromissão na vida familiar de um grande homem”, retruca um; para eles, Anne Hathaway foi um detalhe na vida de Shakespeare, uma mulher a quem ele não deu a mínima importância, pois cedeu, em seu testamento, nada mais nada menos que “sua segunda melhor cama”. Um erro, enfim. “Bobagem!, diz Stephen rudemente. Um homem de gênio não comete erros. Seus erros são voluntários e são portais de descoberta.”

Esta apresentação é a forma de Stephen lidar com a obsessão pelo exílio e pela traição. Ele se sente culpado por ter traído sua mãe ao não cumprir seus últimos desejos e sente que foi traído pela Irlanda e por seus amigos. Mas, no fundo, também percebe que algo na sua vida saiu errado — e a culpa é exclusivamente sua. A cena na Biblioteca Nacional mostra exatamente isso. Pouco a pouco, Stephen se sente cercado por seus colegas e, quando menos se espera, se rende à imbecilidade coletiva. O clima de incompreensão e de incomunicabilidade cresce cada vez que Dedalus tenta provar sua teoria.

Stephen está muito fraco espiritualmente — o orgulho da traição já consumiu suas forças. E então vem um dos momentos mais reveladores de Ulysses, quando alguém afirma o seguinte a Dedalus:

— O senhor é uma ilusão — disse sem rodeios John Eglinton a Stephen. — O senhor nos fez percorrer todo esse caminho para nos mostrar um triângulo francês. O senhor acredita em sua própria teoria?

— Não — disse prontamente Stephen.

É neste instante que Joyce se mostra um verdadeiro Dédalo, muito superior ao seu personagem, despistando o leitor, indicando a verdadeira direção para escapar do labirinto que criou. Vários estudiosos deixam esse trecho de lado e afirmam que o próprio Joyce estava brincando com a teoria de Shakespeare. Para René Girard, este é um erro gigantesco[2]. O “não” de Stephen é o que ele fala em voz alta; contudo, algumas linhas depois, saberemos o que verdadeiramente se passa em sua alma:

Eu acredito, Ó Senhor, ajude minha descrença. Isto é, me ajude a crer ou me ajude a descrer? Quem ajuda a crer? Egomen. Quem a descrer? Um outro camarada?

A referência é ao evangelho de Marcos, capítulo 9, versículo 24. Como Joyce não brinca em serviço, é bom lermos o episódio bíblico para percebermos o que ele realmente quis dizer. Trata-se da cura do epiléptico endemoninhado em que o pai deste exclama: “Eu creio! Ajuda a minha incredulidade!” — as mesmas palavras que Stephen diz para si mesmo.

Ele se reconhece como o representante de uma mente tão paralisada quanto a Dublin que criticava. A divagação sobre Shakespeare não é uma brincadeira: é um diagnóstico do problema que atacava não só a Irlanda, mas também a Europa, como veremos em breve. O espírito da época, o zeitgeist, está mudo e surdo; a descrença de Stephen em suas teorias significa que ele também não acredita em si mesmo — o mesmo problema que ronda Leopold Bloom. E o que podem fazer?

A vida fará com que ambos se encontrem no final da tarde, em uma maternidade onde um amigo em comum será pai. Não simpatizam no início; mas, após uma bebedeira (o típico modo irlandês de resolver os problemas) na mesma maternidade, resolvem ir a um bordel. Lá, se deparam com uma vida noturna que desperta os seus maiores pesadelos e suas maiores culpas; Bloom se encontra com o espectro de seu falecido filho, e Dedalus, enfim, enfrenta a sua mãe. O desespero é tamanho que Stephen quebra o candelabro do bordel com sua bengala e provoca uma grande confusão com as prostitutas e a polícia local; será Bloom quem o salvará afirmando ser seu responsável. Juntos, vão embora, rumo à casa de Bloom, na Eccles Street número 7. Estão bêbados, mas descobrem uma comunhão inusitada. Comem uns sanduíches na cozinha e, logo depois, se despedem. Bloom sobe as escadas e se deita na cama, ao lado de sua esposa. E então ocorre o gran finale do livro: o monólogo de Molly Bloom, mais de 40 páginas sem pontuação, dedicado a uma personagem que parecia ser marginal ao enredo, mas é a única que resume a completude da vida ao aceitar tudo com um vertiginoso “sim!”.

O “sim” de Molly é também o “sim” de James Joyce. É ele o Egomen para quem Stephen pede ajuda no seu momento de descrença. Apesar de Molly ser uma adúltera, Joyce coloca na sua boca a fundação de um novo mundo onde a vida é o motor propulsor, nunca a morte. No fim, após uma longa odisséia dentro do exílio, descobre-se que é nele que se encontra a unidade e a completude das coisas. Ulysses pode ser um livro de leitura difícil (e é), mas sua dificuldade esconde as pistas de uma delicadeza humana inegável. O encontro entre Stephen Dedalus, Leopold e Molly Bloom é a prova de que, antes de tudo, para não cairmos no esquecimento, temos de ter consciência do nosso próprio valor. Sem isso, não temos como empreender nossa missão, seja como o casal Bloom, para recuperar um matrimônio perdido, ou como o jovem Stephen que, após o dia 16 de junho de 1904, se transformará em James Joyce e tirará do exílio a lição necessária para escrever Ulysses.

Em guerra

Contudo, este mesmo exílio deixou uma ferida que não tinha como ser curada. Há um preço muito alto a ser pago quando o homem de gênio se dedica aos seus erros como portais de descoberta. Dezesseis anos depois do lançamento de Ulysses, Joyce lançaria a pedra final de seu novo mundo, Finnegans wake. É um livro que implode e explode a língua inglesa em uma série de trocadilhos que desafia a lógica e se baseia somente no som; não há mais um enredo, mas sim várias histórias que desaguam em uma única História que vive em eterno retorno; o mundo não é apenas composto de epifanias; é, na verdade, uma gigantesca epifania que se transforma em alucinação sobre a qual a mente do seu autor parece não ter mais controle.

E não tinha mesmo. Ele escrevia Finnegans wake quando estava no auge de sua força literária e também em um dos seus períodos mais turbulentos, quando a filha favorita, Lucia, foi diagnosticada esquizofrênica. Foi Carl Gustav Jung quem analisou a moça a pedido do pai e este se escandalizou com a avaliação. Acreditava que ela também era um gênio. Jung apenas respondeu: “Vocês nadam no mesmo oceano; contudo, se o senhor nada, ela já se afogou”.

O oceano do exílio destruiu as forças do velho Joyce, mas lhe deixou a humildade necessária para saber qual foi o valor da sua empreitada. No final de Ulysses, fez questão de colocar os lugares e as datas em que o livro foi escrito: “Trieste – Zurique – Paris, 1914-1922”. Ele escreveu o seu épico sobre a comunhão humana na mesma época em que a Europa travava a Primeira Guerra Mundial; nunca precisou ir às trincheiras porque tinha a sua própria guerra particular, uma guerra contra não só o provincianismo de sua terra como também contra o provincianismo do ser humano. Estava tão exaurido que podia se dar ao luxo de fazer a seguinte piada, como inventou Tom Stoppard na peça Travesties, quando Joyce se encontra com um soldado veterano da Primeira Guerra: “O que o senhor fez na Grande Guerra, Sr. Joyce?”, pergunta o soldado; e escuta a seguinte resposta: “Eu escrevi Ulysses. E você — o que fez?”.

James Joyce morreu no dia 13 de janeiro de 1941, de úlcera perfurada. Sua máscara mortuária, exibida no James Joyce Centre, em Dublin, mostra que não teve uma morte fácil. Foi enterrado em Zurique, de onde escapava dos tumultos da Segunda Guerra Mundial junto com sua família. Seu túmulo, segundo Richard Ellmann, biógrafo do escritor, “é simples e de classe média. Já que Joyce não gostava de flores, colocaram uma folhagem verde. Uma coroa verde no funeral trazia uma lira tramada com o emblema da Irlanda. A Irlanda não teve nenhuma outra participação no funeral”. Já Nora Barnacle Joyce morreria dez anos depois, em 10 de abril de 1951, também em Zurique, num convento. E quanto a Lucia Joyce, talvez tenha sido a única com lucidez ao definir quem era o pai quando soube de sua morte, antes de ela mesma morrer em um sanatório no dia 12 de dezembro de 1984: “O que é que aquele idiota está fazendo debaixo da terra?”, disse ela. “Quando vai se resolver a sair? Ele está nos vigiando o tempo todo.”

E talvez esteja mesmo. Joyce sofreu como poucos a ferida do exílio — mas foi também um dos poucos que enfrentou com determinação a paralisia espiritual que quase o vitimou. Há alguma forma de escapar disso? Provavelmente não, uma vez que “a arte é uma mistura de ambíguo e de inefável; seu mistério nunca passa da lápide e é tanto ou mais brutal que ela”. Cumpre a quem fica que reconheça a vigilância de Joyce, crie novos mundos a partir da imperfeição deste e acabe com as elegias que nos paralisam, pois, como diria o poeta, “há um país que é preciso pôr abaixo”.


[1] Todas as citações de Ulysses em português vêm da tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, lançada pela editora Objetiva (depois, Alfaguara) em 2005.

[2] Cf. o capítulo “Triângulos franceses” no Shakespeare de James Joyce, págs. 475 – 498, in: Shakespeare — O teatro da inveja, publicado pela Editora É em 2010.

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Aos 90, "Ulysses" ganha terceira tradução no país

Retirado do Conteúdo Livre.

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Obra de Joyce entra em domínio público junto com nova versão de clássico 

Trabalho de Caetano Galindo revigora mística do romance, tido como o maior do séc. 20, mas considerado “difícil” 

FABIO VICTOR
DE SÃO PAULO

Há clássicos literários reverenciados, outros populares. E há os que, embora muito reverenciados, são muito pouco lidos. Este parece ser o caso de “Ulysses”.

Apontado em diversas enquetes com críticos como o principal romance do século 20, o livro maior do irlandês James Joyce (1882-1941) é uma provocação ao leitor. É enorme (mais de 800 páginas), experimental e vertiginoso.

Surge agora mais uma chance para os brasileiros de enfrentá-lo: a nova tradução ao português de Caetano W. Galindo, com coordenação de Paulo Henriques Britto e edição de André Conti, para o selo Penguin-Companhia, a terceira disponível no país, que acaba de chegar às livrarias.

As diferenças para os trabalhos de Antônio Houaiss, de 1966, e de Bernardina da Silveira Pinheiro, de 2005, começam no título. Galindo é o primeiro a adotar a grafia original em latim, “Ulysses”, com “y” no lugar do “i” aportuguesado de Houaiss e Bernardina (leia na pág. E7).

O volume traz uma nota do tradutor, na qual ele promete para breve um guia de leitura do romance, e uma introdução do professor irlandês Declan Kiberd.

Kiberd relembra como Virginia Woolf — que nasceu e morreu nos mesmos anos de Joyce e cuja obra, como a dele, entra agora em domínio público — rejeitou “Ulysses” à época do lançamento, o definindo como a obra “de um estudante nauseado espremendo suas espinhas”.

Kiberd também refaz a trajetória tortuosa do romance, censurado e processado por obscenidade e publicado em Paris, em 1922 (completa 90 anos e seu criador, 130).

A obra de Joyce narra um dia na vida de Leopold Bloom -um agente publicitário dublinense, anti-herói baseado no Ulisses da “Odisseia” de Homero, casado com Molly Bloom, sua Penélope infiel-, e de seu amigo Stephen Dedalus, correspondente de Telêmaco e alter ego de Joyce.

O ano é 1904, o dia é 16 de junho, o mesmo em que hoje ocorre o Bloomsday, celebração anual do clássico.

Seria prosaico assim, se ao mesmo tempo “Ulysses” não tivesse revolucionado a forma tradicional do romance, criando novas ortografia e sintaxe e imprimindo à narrativa um fluxo verbal alucinado, que leva ao limite o chamado monólogo interior.

Convulsionou a literatura a ponto de virar anedota, como relata o escritor Daniel Galera ao lembrar que sua história com o livro começou aos 12 anos, quando o pai dele “apontou para aquele tijolo no alto da estante e disse”:

“Tá vendo aquele livro? Tem uma frase de 50 páginas que fica contando o pensamento de uma pessoa”. Referia-se ao monólogo de Molly Bloom, o trecho final de “Ulysses”.

Segundo Galera, aquilo instalou nele “um fascínio imediato pelo volume”, que só viria a ler quando adulto.

Outra vítima da mística de “Ulysses” foi o escritor Joca Terron, que paquerou por anos uma edição do livro na estante do pai, sem coragem para encará-la. Quando o fez, leu só um terço, até que o pai tomou de volta o exemplar.

A jornalista e colunista da Folha Barbara Gancia diz ter lido “Ulysses” “na marra”, porque fazia parte do seu currículo escolar.

“Ou melhor, não li. Ninguém ‘lê’ ‘Ulysses’, estuda-se o livro parágrafo por parágrafo. É tão complicado e cheio de referências que talvez seja uma boa ideia usá-lo como aposto na leitura de ‘Retrato do Artista Quando Jovem’, a obra que o precede e é um pouco mais amigável.”

Discorda dela o professor e crítico Alcir Pécora, para quem “em termos de prosa inglesa, apenas [Laurence] Sterne e [Joseph] Conrad planam nas mesmas alturas” que o Joyce de “Ulysses”.

O escritor e tradutor Daniel Pellizzari, que como Pécora leu e adorou, considera que, mesmo sendo “importantíssimo na história da literatura”, “Ulysses” não é um livro essencial, “do tipo que se diria que ‘todos precisam ler'”.

Para quem quer enfrentar, o escritor Nelson de Oliveira sugere: “Esqueça as notas de rodapé [eliminadas na nova tradução] e os mapas de leitura. Entre desarmado no labirinto”. Fã do livro, o artista plástico Nuno Ramos aconselha que “quando ficar chato, pule -quem sabe para voltar depois. Vale a pena”.

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Crítica / Romance 

Versão resolve mais satisfatoriamente multiplicidade estética do texto joyceano
SERÁ ESTA NOSSA TRADUÇÃO DEFINITIVA DE “ULYSSES”? NÃO, ISSO NÃO EXISTE: CADA RECRIAÇÃO É OBRA AUTÔNOMA
MARCELO TÁPIA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Jovial, o velho gigante James Joyce ressurge luzente em nosso horizonte literário. Com nova voz, resultante de dez anos de labor, veste-se sóbrio, à imagem da edição da Penguin em língua inglesa: sem notas e com a densa introdução de Declan Kiberd.

Isto, segundo o tradutor Caetano Galindo, para apresentar o “Ulysses” “como o que ele deve sempre ser”: “um romance, talvez o maior romance de todos, e não um quebra-cabeça exemplar”.

Um convite à simples leitura desse complexo e divertido livro, desprovido de um sumário de seus capítulos.
Conheci trechos da versão de Galindo, lidos, ao longo dos anos, no Bloomsday de São Paulo. E testemunho, com base neles, a busca do tradutor pelo aprimoramento de suas soluções.

Se, antes, Cunningham perguntava, na carruagem que conduziria Bloom e companheiros ao enterro de Dignam, “Estamos todos aqui agora?”, ele passa a dizer “Já está todo mundo aqui?”. Tanto faria? Não. Por trás das escolhas, há questões difíceis a resolver, como a grande variedade de registros da prosa joyciana, que transita do tom mais coloquial ao mais “literário” ou ao mais inusitado.

Pode-se ver o “Ulysses” como um colossal poema: sua tradução será re-criação do intrincado sistema de relações construído pelo criador do périplo de Bloom.

No início do capítulo “Gado do Sol” (relativo ao episódio das vacas do deus Hélio, na “Odisseia”), Galindo mostra ter encontrado (como em muitos outros casos) uma solução plena para “Send us, bright one, light one, Hornhorn, quickening and wombfruit”: “Dai-nos, leve, luzente, Hornhorn, fertilidade e frútero”. Parece fácil? Se sim, esta será uma qualidade do bem resolvido.

Nesse capítulo, passado na maternidade -em que Joyce imita estilos literários e esboça a história da língua inglesa-, Galindo colhe um dos frutos mais atraentes de seu esforço, ao valer-se de recursos como o arcaísmo e o tom vulgar para recriar a diversidade linguístico-estilística:

“Daquela casa A. Horne é senhor. Setenta litros ele i mantém por que as madres na sua hora delas i venham parir e dar à luz crias sãs como o anjo de Deus a Maria disse”; “Dormiu aonde ontonte? […] Lá onde o Juda perdeu as bota e achou uns trapo véio”…

Será esta nossa tradução definitiva de “Ulysses”? Não, isso não existe: cada recriação é obra autônoma, embora interaja com o original e as demais traduções dele. A que ora nos chega tem a vantagem (e a desvantagem) da anterioridade de dois notáveis trabalhos: o de Antônio Houaiss, pioneiro, e o de Bernardina Pinheiro, de 2005.

Esta versão resolve mais satisfatoriamente a multiplicidade estética do texto de Joyce: não incorre no criticado “rebuscamento” geral da primeira ou no resultado explicativo e “normalizador” da segunda, que dilui a polifonia joyciana.

Mas muitas soluções de Houaiss continuam as mais instigantes, e o texto de Bernardina permanecerá como fonte de leitura mais corrente, associada a notas utilíssimas. Opções que se somam para compor a inesgotável pluralidade de “Ulysses”.
 
MARCELO TÁPIA, poeta, é doutor em teoria literária pela USP, diretor da Casa Guilherme de Almeida e co-organizador do Bloomsday em São Paulo
 
ULYSSES
AUTOR James Joyce
TRADUÇÃO Caetano W. Galindo
EDITORA Penguin-Companhia
QUANTO R$ 47 (1.112 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

.oOo.

“Clássico de Joyce é pura e simples diversão”

Caetano Galindo, tradutor da nova versão, rejeita fama de “livro chato” e diz que obra tem “todo tipo de tosqueira” 

Iniciado há dez anos, o trabalho do professor universitário ressaltou os aspectos lúdicos e coloridos do romance 

MARCO RODRIGO ALMEIDA
DE SÃO PAULO

O lançamento da nova versão de “Ulysses” encerra uma jornada iniciada há dez anos por Caetano Galindo, 38, professor da Universidade Federal do Paraná.
À Folha, ele explica as escolhas que nortearam a tradução, contesta a fama de o livro ser chato e comenta a dificuldade em achar a “voz” da personagem Molly.
 
Folha – Qual o principal diferencial da sua tradução?
Caetano Galindo – O objetivo era tentar liberar mais plenamente o potencial lúdico do “Ulysses”, um livro extremamente colorido, variado, corajoso e descarado.
 
Em que capítulo ou trecho isso fica mais evidente?
No “Gado do Sol”, que é todo ele uma série de pastiches de textos de momentos diferentes da história da literatura e da língua inglesa.
A nossa tradução é, até onde eu saiba, a primeira a responder na mesma moeda de Joyce, buscando caso a caso as referências e os estilos de dezenas de autores e períodos da história da língua portuguesa.
 
O que você acha das traduções feitas por Antônio Houaiss (1966) e Bernardina da Silveira Pinheiro (2005)?
São dois monumentos da tradução brasileira, mas as nossas entradas são fundamentalmente diferentes.
O que me incomodava mais na tradução de Houaiss, que é mais que adequada ao seu momento histórico, era um certo achatamento de diversidades e coloridos. Foi nesse polo oposto que eu mirei desde o início, para tornar o “Ulysses” mais romanesco, mais vário e múltiplo.
 
As duas traduções anteriores grafaram o título como “Ulisses”, com “i”. Por que a sua é com “y”, como em inglês?
A gente [André Conti, editor do livro, e eu] simplesmente percebeu que sempre tinha se referido assim ao livro. E, de repente, a gente achou que fazia sentido manter assim. Para marcar uma fidelidade? Para marcar uma diferença? Eu realmente acho que não sei, mas ficou lindão na capa!
 
Muita gente acha o livro chato.
É claro que o livro é difícil, é complexo mesmo. Mas, se você estiver disposto a colocar ali o esforço que o livro pede, a recompensa é pura e simples diversão. O livro tem piada de peido, tem todo tipo de imoralidade e tosqueira. Tem bobagem a dar com o pau. Como disse Samuel Johnson [escritor inglês], só acha o “Ulysses” chato quem acha a vida chata.
 
E como foi traduzir o célebre monólogo final de Molly?
Molly é um problema na medida em que ela é a maior bênção do livro. A literatura brasileira tem uma dificuldade histórica em lidar com a oralidade de uma maneira não estilizada, não idealizada. É muito foda achar a “voz” da Molly. Hoje estou contente com a minha Molly.

Folha de S.Paulo
12/05/2012 

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Variações em torno de um raro romance

Por Donaldo Schüler
O Estado de S.Paulo

Os leitores de James Joyce no Brasil estão em festa. Apareceu uma terceira tradução do Ulisses. O romance de Joyce teve o privilégio de encontrar tradutores qualificados. Antônio Houaiss, além de crítico literário e tradutor, foi um dos melhores conhecedores da língua portuguesa, mérito atestado pelo substancioso dicionário que nos deixou. Bernardina da Silveira Pinheiro é professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro com estudos no exterior centrados em Joyce. E agora aparece Caetano W. Galindo – professor de Universidade Federal do Paraná, doutor em Letras – com a tradução de Ulisses. Caetano prefere Ulysses. Uso a tradução de Houaiss desde o momento em que ela apareceu, leio ainda a primeira edição, a de 1966. Interessei-me pela tradução de Bernardina (2005) e agora (2012), para comemorar a tradução de Caetano, sou convidado a me pronunciar sobre todas. As três têm méritos. Tradução literal não há. Tradução, para ser boa, terá que ser criativa. A criatividade muda de tradutor para tradutor. Aplausos merecem os editores e os leitores brasileiros que correspondem positivamente ao desafio de um texto exigente. Grande literatura sem grandes leitores não há. Leitores nossos prestigiaram Vieira, Machado, Euclides, Clarice, Rosa, João Cabral… E agora incorporamos Joyce, abrasileirado pelas traduções.

Caetano, querendo que o romance seja lido como romance, expressa reservas a notas que desviem do texto. Caetano não recusa recursos que facilitem a compreensão. Como usá-los fica por conta das preferências de cada um. Visto que Joyce abala a tradição narrativa inaugurada por Homero, salientar peculiaridades ampara a decisão de enfrentar procedimentos originais. Os que nos aproximamos de Homero, Sófocles, Dante, Shakespeare acolhemos os que apontam caminhos. Textos sobre textos ampliam acessos. Caetano dedicou anos à tradução de Ulisses. Quantas horas lhe consumiram estudos sobre Ulisses? Livros construídos sobre livros erguem o edifício da produção literária. Úteis são as notas que Bernardina oferece depois de concluir a tradução. A editora Penguin decidiu socorrer os leitores brasileiros com uma introdução de mais de 70 páginas, feita por Declan Kiberd. Isso ainda é introdução ou já é um livro que leva a outro livro? Se a editora nos tivesse dado a oportunidade de ver brasileiros nesse espaço, teríamos tido a oportunidade de averiguar a recepção de Joyce no Brasil. Por que não o próprio Caetano? A brevíssima informação a que se limita sobre a composição de palavras fica aquém do cuidado com que aborda invenções joycianas.

Kiberd nos dá um Joyce pacifista. Pessoalmente, prefiro o Joyce guerreiro, oswaldianamente antropofágico, o Joyce do Deus-guerra (he war) do Finnegans Wake, o Joyce do conflito de palavras e de ideias, o Joyce que, ao escrever inglês, implode a língua do dominador, a língua do império britânico. Aliás, o primeiro capítulo de Ulisses nos arrasta a uma batalha ferida dentro de uma fortaleza, a Torre Martello, em Dublin, construída em princípios do século 19 para resistir a uma temida invasão napoleônica que nunca se realizou. Combatem três jovens: Buck Mulligan e Stephen Dedalus, dois irlandeses em luta interna, além de Haines, um oxfordiano, representante do imperialismo inglês, armado de carabina no pesadelo de Stephen. Buck Mulligan, brincando com o seu próprio nome, diz: “Tripping and sunny like the buck himself.” Houaiss: “Ágil e ensolarado como um cabrito mesmo.” Bernardina: “Saltitante e radioso como o próprio cervo.” Caetano: “Ágil e radiante como um buque de guerra.” Caetano, afastando-se do significado de buck (macho de homens ou animais) fica mais próximo do jogo de palavras proposto por Joyce. Se ele decidisse, em vez de “buque de guerra”, “bucke de guerra”, teria incorporado o nome da personagem, expediente que nos levaria a muitas associações: macho, bode, sátiro, sacerdote, demônio…

Buck Mulligan denuncia o amigo Stephen Dedalus de matricídio, crime dos mais graves para um tragedista como Ésquilo. Buck Mulligan estende um espelho a Stephen. O incriminado, ao contemplar-se, vê a imagem de um dogsbody. Houaiss, para traduzir dogsbody, inventa canicarcaça. Por quê? Dogsbody em inglês é expressão coloquial. Bernardina opta pela tradução literal, corpo de cão. Mas há uma sutileza. Joyce cria atmosfera sagrada. Buck Mulligan – sátiro, sacerdote satânico -, pararodiando a missa, abençoa a paisagem. A missa negra faz alusão ao godsbody, o corpo de Deus em que, no ritual católico, a hóstia consagrada se transforma em corpo de Deus. Ao observar as linhas do seu rosto no espelho, pergunta Stephen: “Quem escolheu esta cara para mim? Este dogsbody, que devo libertar dos vermes? It (o espelho) pergunta-me também.” Stephen conversa com o espelho. O espelho inverte god (deus) em dog (cão). Caetano percebendo o jogo oferece a tradução irmãodasalmas. Lance arguto! A invenção de Caetano evoca o poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, musicado por Chico Buarque de Holanda. Cabral designa “irmão das almas”, cada um dos dois que conduzem Severino ao último repouso. Acontece que as três traduções prendem Stephen na morte. Isso é joyciano? Joyce cultiva concepção circular do universo, passagem da morte para a vida e da vida para a morte. Se não quisermos recorrer ao gesto humilhante de dizer em nota de pé de página que o inglês tem recursos que faltam ao português, temos que achar outra saída. Enfrentei o problema na tradução de Finnegans Wake, pág. 276. Se eu dissesse, que meu cachorro se chama Sued, ninguém me olharia espantado. Pois sued inverte especularmente deus. Proposta: “Quem escolheu esta cara para mim? Esta cara de suedcão, roída de vermes. Esta é também a pergunta desta coisa.”

Momentos depois, numa clara alusão a Shakespeare, aparece a sombra da mãe, Stephen a enfrenta assombrado: “No mother. Let me be and let me live.” Caetano: “Não mãe. Deixe-me estar e deixe-me viver.” Prefiro a tradução de Houaiss: “Não, mãe. Deixa-me ser e deixa-me viver.” Stephen roga o direito permanente de ser (autônomo, inventor, escritor). Bernardina entende que Stephen pede tranquilidade: “Não, mãe! Me deixe em paz me deixe viver.” Traduções nos fazem pensar.

No segundo capítulo, Stephen Dedalus, professor de história, termina a aula com uma charada que ele próprio inventou: The cock crew/ The Sky was blue:/ The bells in heaven /Where striking eleven,/ Tis time for this poor soul./ To go to heaven. Tradução de Caetano: “O galo cantou,/ O céu azulou, E os sinos de bronze /Bateram as onze./ É hora do incréu/ Seguir para o céu.”

O que teria levado Caetano de “pour soul” a “incréu”? “Incréu” rima com “céu”. Já sabia Drummond que nem sempre rima exprime solução. Ao que se sabe incréus não sobem aos céus, o destino é dantescamente outro. Improvisemos outra proposta: “É tempo dessa pobre alma/ Buscar o céu com calma.”

O texto da charada deve corresponder à solução. Caetano: ” – A raposa enterrando a avó embaixo de um azinheiro.” Nossa perplexidade diante da tradução de Caetano é maior do que a dos alunos confrontados com a resposta de Stephen: “The fox burying his grandmother under the holybush.” Ora, tudo leva a crer que Stephen armou a charada com experiências pessoais. Neste caso, a raposa (o intelectual) é ele. Pela altercação do primeiro capítulo, Stephen leva na consciência a morte da mãe. Na charada, grandmother não é avó, grandmother é a grandemãe (Igreja, Inglaterra). Stephen roga que sua mãezinha piedosa e poderosa repouse no céu para que ele possa viver em paz e levar a vida de artista (Dedalus) a bom termo. Stephen empenha-se em enterrar a grande mãe para que suma a sombra que o atormenta. A solução de Stephen a sua própria charada ecoa na resposta dada a Deasy, o diretor da escola, momentos depois: “A história é um pesadelo do qual tento despertar.” A história é a mãe, a grande mãe com a qual Stephen está em conflito do princípio ao fim.

Traduzir é difícil. Traduzir Joyce representa dificuldade dobrada. Antes de ousar uma quarta tradução, convém revisar as existentes, inquestionavelmente boas. O que é bom pode ser ainda melhor.

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Hoje, dois anos do Sul21

Logo mais, uma pequena confraternização. Abaixo, alguns anúncios da época da fundação:

 

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O mundo é um lugar muito estranho

Fiquei bastante chocado com algumas opiniões acerca do filme Melancolia, de Lars von Trier. Depois de fazer meu elogio ao filme, fiquei observando as opiniões de quem escrevia a respeito. Alguns elogiavam — houve associações de críticos que até lhe deram prêmios de filme do ano e outros — e houve quem se ofendesse com sua extrema ruindade. Lendo os últimos, várias vezes tive vontade de rir, o que não é tão estranho, considerando-se o conteúdo do filme. Do meu lado, entre os que gostaram, ninguém chegou tão próximo de minha opinião quanto a escritora Lélia Almeida, que hoje publica uma colorida, incontrolável e “compreensiva” coluna” no Sul21.

É óbvio que quem detestou o filme não é burro, acredito mesmo que gostar ou não dele trata-se de uma opção estética (pois Von Trier coloca um filtro bem espesso entre o tema e o espectador), mas fiquei menos sozinho ao ler vários parágrafos que foram pensamentos meus quando vi o filme. Sim, Lélia, a terra é mãe, é má e é boa, assim como todos nós. E o filme fala de forma muito inteligente sobre as mulheres e as posturas de todos. O roteiro do filme é um jogo no qual as irmãs são colocadas contra diferentes tragédias. De minha parte, apesar de mais espectador do que em outros filme, identifiquei-me totalmente com Justine (Kirsten Dunst), a personagem sem beira que sabe o que fazer, mas só no fim do mundo. Mas indico a coluna da Lélia, querida amiga que não conheço.

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Entrevista concedida por este que vos escreve ao Substantivo Plural

Retrato do Autor Quando Bebê

Ontem, foi publicada uma entrevista comigo lá no Substantivo Plural. Não sei bem quem conheceu primeiro quem, pensando melhor acho que o site me foi apresentado pelo Fernando Monteiro, o que sei é que o SPlural está no meu Reader e o acompanho há muito tempo. Cliquem aqui para conferir. Ele tem estrutura de um blog, mas não é um blog. É um repositório selecionado daquilo que sai de bom por aí em termos de Cultura e Ideias. As matérias copiadas vêm com educados links e tudo aquilo que se espera em nosso mundo copyleft. O SPlural tem editor —  Tácito Costa —  e colaboradores. E volta e meia eles fazem posts pegando coisas deste blog e do Sul21. Gosto muito quando fazem isso e gostei ainda mais quando o Lívio Oliveira, que não conhecia, me propôs uma entrevista mais ou menos baseada em meu Curriculum Vitae. A entrevista é decididamente amalucada, mas muito franca e o resultado… É comigo mas achei legal, tá? Abaixo, o texto completo:

Milton Ribeiro é um jornalista do Sul do país, crítico literário e de artes, escritor bissexto e editor de um blog maravilhoso (AQUI) muito bem acessado e que muitos aqui certamente já o conhecem. Tácito vem republicando, vez ou outra, alguns textos seus. O seu link também se encontra no canto direito deste SPlural (Aproveitem e vejam todos os endereços eletrônicos de Milton abaixo do presente post).

Milton, uma figura com a qual muito me identifico pelos gostos e escolhas (tomo a ousadia de dizer isso pelo que conheço do seu blog), concedeu-me, generosa e pacientemente, essa entrevista que fiz me baseando num inusitado “curriculum vitae” que está divulgado no seu blog. Procurem ler, antes, o tal “curriculum” e depois leiam a entrevista bem humorada e ao mesmo tempo instrutiva e produtora de reflexões, principalmente de ordem estética.

Aí vai:

L. O. E para começar, assim, já pergunto: por que fazer e manter um blog? O que o move nesse desiderato? É um instrumento essencial para um jornalista independente?

M.R. Tenho blog desde maio de 2003. Antes, ele era bem mais pessoal e eu o utilizava para me colecionar. Tinha de tudo ali, desde contos e capítulos de romances até meras anotações pessoais. Fui adquirindo uma pequena celebridade na chamada blogosfera, também fui processado duas vezes, tal a liberdade que sentia – a propósito, o último processo foi claramente absurdo e intimidatório e recebeu um julgamento muito injusto. Como resultado, deixei que um pouco de autocensura e pudor tomassem conta de mim. Talvez tenha sido um erro, pois sendo mais sério e utilizando menos a primeira pessoa do singular, perdi leitores. Também os blogues se modificaram, saíram da moda, perdendo espaço para o Facebook e Twitter. Por que o mantenho? Ora, porque sou lido por pessoas interessantes e ainda conheço outras. Mas não creio que seja um instrumento essencial.

L. O. Em que medida o daltonismo ajuda na fruição artística? Ou só atrapalha, mesmo?

M.R. Esta é uma pergunta curiosa. Depois de ler alguns livros de Oliver Sacks, tenho a fantasia de que meu profundo amor pela música seja uma boa filha de meu daltonismo, também chamado nos EUA de color blindness. É como se a falta de parte de um sentido tivesse tornado outro hipertrofiado, mas deve ser tudo imaginação. Para a fruição das artes plásticas, o defeito atrapalha de forma considerável, mas ele é decisivo na escolha de roupas. Minha mulher quase enlouquece quando chego num lugar com uma combinação de cores que só faz sentido para mim.

L.O. Mesmo assim, confia em suas escolhas estéticas?

M.R. Em artes plásticas, não. Nas literárias, cinematográficas e musicais, sim.

L.O. Essa mania de contar/catalogar filmes e livros…de onde vem? Qual o sabor disso?

M.R. Outra pergunta complicada. Nasci com mania de catalogador, as pessoas sabem disso e me fazem consultas. Há pessoas que me chama de guru… É como aquela piada do Groucho Marx citada pelo Woody Allen. “Meu irmão pensa que é uma galinha, mas não o trato porque preciso dos ovos”. Muita gente me pede os ovos – bem, a frase ficou esquisita, mas deixa assim. Também tenho muito boa memória, mas não prescindo da bengala de longas listas. Gosto de passar os olhos por uma relação de livros antiga para lembrar que, por exemplo, Uma Confraria de Tolos era uma obra-prima e nunca mais foi reeditada. Há um sabor interessante nisso. Assim como me sinto tranquilo vivendo sob uma rotina, sinto-me ainda melhor se anoto o que faço e vi. Enfim, é uma neurose como qualquer outra.

L.O. E essa outra mania, a de roubar livros? Por sinal, já acabou? E você empresta livros?

M.R. Roubei muitos livros durante a adolescência, roubava para mim e para os amigos. Me dava pena que fossem tão sedentos de cultura e pusilânimes. Durante uma época da vida, roubar livros é o único caminho para leitores apaixonados e sem dinheiro, como eu era. Tudo o que escrevi naquele post é verdadeiro. Hoje não roubo mais, nem saberia fazê-lo. Tenho medo, apesar de que o adolescente Milton nunca foi flagrado em ação. Bolaño foi outro grande ladrão de livros, muito maior do que eu. Eu roubei algo entre 300 e 500 livros. É claro que os livros devem ser emprestados e devolvidos. Tenho também uma lista de livros emprestados e costumo cobrar se não devolvem, claro. Há que ser moral!

L.O. Que ligações existem entre Literatura, Cinema, Música e Futebol?

M.R. Inúmeras. As artes, assim como o futebol, são representações da vida. O futebol nunca chegará ao nível e à abrangência de uma peça de Shakespeare ou de uma música de Bach, mas tem uma riqueza toda particular. É diferente. Há algum lugar onde você vai com a finalidade de desejar uma coisa com todas as suas forças, mas que possa subitamente mudar de partido dependendo do que ocorrer? Além disso, o futebol é muito plástico e emocional. Talvez sua ligação mais difícil seja com a música. Não venham dizer que o drible é uma dança… Não, drible é drible.

L.O. Quem são seus craques preferidos na Literatura, Cinema e Música? E os seus artistas no Futebol?

M.R. Olha, são mais de cem ídolos em cada área. Se você me ameaçar fisicamente para que eu escolha cinco em cada área sairá algo como que segue. (Vou responder rápido antes que me arrependa). Literatura: Tchékhov, Machado, Dostô, Joyce, Melville. Cinema: Bergman, Welles, Kubrick, Kusturica, Antonioni. Música: Bach, Beethoven, Bartók, Brahms e Bahler ou Mahler.

L.O. Por que não publicar os livros que tem em mente? E por que razões os publicaria?

M.R. Bela pergunta. Minha ex-mulher era muito competitiva e, para manter o casamento, era necessário ser humilde, aparecendo menos do que ela. Como ela tinha altas aspirações intelectuais e existe o mito de que o livro é um ápice da vida de alguém, fui treinado a evitar os livros. Hoje tenho a mulher perfeita, mas mantive a mania de escrever para mim mesmo. Há outro motivo também: é divertido apresentar personagens, estabelecer conflitos e até finalizar os romances, mas é muito chato revisar. Também vejo muitos colegas publicando livros sem conseguir vendê-los ou sendo obrigados a se tornarem vendedores em feiras, eventos, etc. Não sei se tenho este talento. Teria se fosse vendê-los em Londres, Roma ou Paris. Porém, você sabe como é: acordo todo o dia às 6h para escrever um romance que está na metade. Mas, olha, não tenho nenhum plano de ir além da finalização do mesmo. Sei que está tão fácil de publicar quanto de ficar encalhado e que ficaria louco se encalhasse.

L.O. Por que razões as mulheres ficam mais belas aos sábados? Vinícius de Moraes tem algo a ver com isso? (falo para Milton de uma das famosas seções de seu blog e que é publicada somente aos sábados, com a publicação de fotos e de comentários irreverentes sobre belíssimas e famosas mulheres).

M.R. O “Porque Hoje é Sábado” nasceu de uma aposta com o ex-Ao Mirante Nelson, atual Tom O`Bedlam. Conversávamos pelo MSN sobre nossos blogs e ele me desafiou a manter, no final de semana, a mesma visitação dos chamados dias úteis. Fui à luta e consegui. Ele disse que aquilo não valia, que foi um golpe abaixo da cintura. Ora, tal fato é visível. Mas a verdade é que não costumo mostrar pelos pubianos. É uma seção família do blog, destinada às grandes atrizes, seus rostos e seios. Adoro seios. E atrizes. Mulheres também.

L.O. Por que mudou para o Sul21?  Sei que a resposta parece óbvia, mas…

M.R. Bem, eu sou um dos editores do Sul21. Era natural que colocasse meu blog no condomínio de blogs do site, não?

L.O. Aí não vale…mas, acredito que a sua maior satisfação com as artes é mesmo na condição de alguém que contempla, na condição de um apreciador, de um fruidor. Nesse contexto, acredita que existem regras para o “gosto”, o “fruir” estético? Há parâmetros exigíveis e/ou necessários para isso?

M.R. Não. Mas o há o bom e o mau gosto. O bom gosto se forma com a vivência. Há que dar acesso às pessoas. Por exemplo, duas semanas de tratamento intensivo de PQP Bach impedem Michel Teló na terceira semana. O problema é que recebemos uma enchente de “Vingadores” e pingos de “A Separação”. Mas é claro que sou um fruidor de arte. E feliz.

L.O. Existe uma hierarquização das artes? Ao menos, existe uma hierarquia na sua cabeça? Percebo que se emociona mais com a música erudita…é verdade? Por quê?

M.R. Creio que exista uma hierarquia diferente para cada pessoa. Há algumas emoções só alcançáveis pelo cinema, outras pela literatura, mas a mais completa das artes é a música. Como Shostakovich comprovou, ela exprime tudo – até a situação política – em linguagem universal, sem palavras.

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Música apenas média e quase nada de informação

O concerto de ontem à noite da OSPA estava dentre aqueles que eu não indicara. Não, não sou nenhum oráculo mas tenho 40 anos de salas de concertos. Dou bons chutes. Infelizmente, tinha razão. O programa era o seguinte:

Bruno Kiefer: Poema Telúrico
Claudio Santoro: Concerto para Violoncelo (Solista: Antonio Del Claro)
Claudio Santoro: Sinfonia nº 11

Regente: Roberto Duarte

Quando se fala em promover a música brasileira, isto não significa o desligamento de qualquer senso crítico. O Poema Telúrico de Kiefer é apenas médio, a Sinfonia de Santoro é consistente e ótima, mas seu Concerto para Violoncelo é medonho e foi um alívio quando terminou. Acho que o violoncelista nem voltou uma segunda vez para ser aplaudido. Ele não era culpado de nada, só que todos desejavam que ele fosse logo embora. Não é uma opinião única ou algo ditado por minha mente melômana. Na verdade, era tão incrivelmente ruim que consultei alguns não-melômanos  durante o intervalo. Eles me confirmaram a extrema ruindade da coisa. Outro alívio foi quando Roberto Duarte, antes de atacar a sinfonia, falou à plateia dizendo que a obra  fora composta muito tempo depois e que era muito diferente. Obviamente, ele não fez referência à música anterior, talvez nem quisesse dizer “agora, a coisa vai”, porém a mensagem foi compreendida assim.

A angustiante sinfonia Nº 11 é muito boa mesmo e uma amiga psicóloga disse ao final: “Posso não entender nada de música, mas de angústia eu entendo!”.

O fato lastimável do concerto foi o programa. Papel de boa qualidade, muito bonito e inútil. Imaginem: a gente vai assistir uma série de músicas brasileiras desconhecidas e, naturalmente, recorre ao programa. Este não informa o nome nem o número de movimentos da obras. Lá no meio do texto éramos informados que o Poema Telúrico tinha dois, mas e o resto? E os textos sobre as obras? OK, o maestro Duarte dispôs-se a explicar a sinfonia verbalmente e aquilo foi bem adequado, porém… e o resto, repito? O programa trazia vastos espaços em branco — pagos por alguém — e quase nenhuma informação. Algumas perguntas a qualquer um dos músicos da orquestra resolveria a questão facilmente.

Para piorar, ainda havia erros. Éramos informados que Santoro escrevera oito sinfonias, mas que ouviríamos a 11ª. Desta forma, ficamos sabendo que boa parte do pessoal da OSPA ignora e não quer saber de informações sobre o que será executado. Para piorar, fazem isto justamente num dia de música brasileira de concerto. Justamente a menos divulgada — o PQP divulga mil vezes melhor (vejam o que eles fazem com a Música Colonial e Imperial Brasileira, por exemplo).

Péssimo, né? Música mais ou menos e informação ruim não podem dar em bom concerto.

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A lista dos 100 livros melhores livros de literatura de José Mindlin

Alain-Fournier (1886-1914)

A lista dos 100 livros de José Midlin contém as idiossincrasias de qualquer lista, mas gostaria de considerar que a presença de O Grande Meaulnes (1913) tenha sido produto de longa reflexão… (Se isso fosse uma série norte-americana, talvez ouvíssemos risadas). Afinal, achei estranha a presença da boa Adélia Prado na segunda colocação e espero que o terceiro lugar não seja também uma excentricidade. Digo isso porque o único livrinho de Alain-Fournier — que li lá pelos anos 70 — , pareceu-me na época uma delicadíssima e perfeita obra-prima.

Lembro de pouca coisa do conteúdo. O que lembro mesmo é de minha felicidade ao lê-lo. A Wikipedia diz:

Le Grand Meaulnes é o único romance do escritor francês Alain-Fournier, que morreu pouco depois, em 1914, na Primeira Guerra Mundial. No livro, François Seurel, aos 15 anos, narra a história de seu relacionamento com o amigo Augustin Meaulnes, de 17 anos, que procura por seu amor perdido. Impulsivo, imprudente e heróico, Meaulnes encarna o romantismo ideal, a busca para o inalcançável e o misterioso mundo entre infância e idade adulta. No Brasil, tanto o livro quanto o filme por ele inspirado receberam o nome de O Bosque das Ilusões Perdidas, em Portugal o livro intitula-se O Grande Meaulnes. François, o narrador do livro, é o filho do Sr. Seurel, um diretor de escola em uma aldeia de Sologne, uma região de lagos e florestas arenosas. Depois de chegar à escola, seu amigo Augustin Meaulnes, que vem de uma família pobre, logo desaparece. Quando ele retorna, relata ter ido à uma festa a fantasia incrível e mágica, onde conheceu a garota de seus sonhos, Yvonne de Galais, e passa a procurá-la romântica e insistentemente.

Será que é tão bom mesmo? O livro tem existência quase secreta no Brasil. Li uma edição portuguesa do livro. A brasileira veio depois. O livro é extraordinariamente romântico, mas é tão bem escrito que nos convence. Era só isso. Fiquei feliz de revê-lo…

A lista de Mindlin:

1 – As mil e uma noites –
2 – Bagagem – Adélia Prado
3 – O Grande Meaulnes – Alain-Fournier
4 – A peste – Albert Camus
5 – Os três mosqueteiros – Alexandre Dumas
6 – A ilha dos pinguins – Anatole France
7 – Formação da Literatura Brasileira – Antonio Cândido
8 – Sermões – Antonio Vieira
9 – Comédia Humana – Balzac
10 – A Torre do Orgulho – Barbara Tuchman
11 – As Flores do Mal – Baudelaire
12 – Teatro – Beaumarchais
13 – Adolfo – Benjamin Constant
14 – Teatro – Bernard Shaw
15 – Decameron – Boccacio
16 – Poesia – Carlos Drummond de Andrade
17 – Memórias – Casanova
18 – Poesias – Castro Alves
19 – Poesias – Cecília Meirelles
20 – Grandes Esperanças – Charles Dickens
21 – Romances e contos – Chekov
22 – O Amanuense Belmiro – Cyro dos Anjos
23 – Robinson Crusoe – Daniel Defoe
24 – Jacques, o fatalista – Diderot
25 – Crime e Castigo – Dostoievski
26 – Os Maias – Eça de Queiróz
27 – Poesia – Elizabeth Barrett Browning
28 – Poesia – Emily Dickinson
29 – O Morro dos Ventos Uivantes – Emily Brönte
30 – O Tempo e o Vento – Érico Veríssimo
31 – Teatro – Ésquilo
32 – Teatro – Eurípedes
33 – Poesia – Fernando Pessoa
34 – Tom Jones – Fielding
35 – O Processo – Franz Kafka
36 – Cem anos de Solidão – Gabriel García Marquez
37 – Casa Grande e Senzala – Gilberto Freyre
38 – Romances – Gogol
39 – Poesia Completa – Gonçalves Dias
40 – Vidas Secas – Graciliano Ramos
41 – Poemas – Gregório de Mattos
42 – Grande Sertão Veredas – Guimarães Rosa
43 – Educação Sentimental – Gustave Flaubert
44 – Contos – Guy de Maupassant
45 – Minha Vida de Menina – Helena Morley
46 – O Lobo da Estepe – Herman Hesse
47 – Odisseia/Ilíada – Homero
48 – Comédia Humana – Honoré de Balzac
49 – Orgulho e Preconceito – Jane Austen
50 – Confissões – Jean Jacques Rousseau
51 – Poesia Completa – João Cabral de Mello Neto
52 – A Morte e a Morte de Quincas Berro D´agua – Jorge Amado
53 – A Biblioteca de Babel – Jorge Luis Borges
54 – O Guarani – Jose de Alencar
55 – Menino de Engenho- Jose Lins do Rego
56- Memorial do Convento – José Saramago
57 – Lord Jim – Joseph Conrad
58 – Rayuela – Julio Cortazar
59 – Contos e Novelas – La Fontaine
60 – Triste Fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto
61 – Os Lusíadas – Luís de Camões
62 – Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
63 – Memórias de Um Sargento de Milícias – Manoel Antonio de Almeida
64 – Gramática Expositiva do Chão – Manoel de Barros
65 – Poesia Completa – Manuel Bandeira
66 – Em Busca do Tempo Perdido – Marcel Proust
67 – Macunaíma – Mario de Andrade
68 – Teatro – Marivaux
69 – Dom Quixote – Miguel de Cervantes
70 – Teatro – Moliere
71 – Ensaios – Montaigne
72 – Cartas Persas – Montesquieu
73 – A Carta Escarlate – Nathaniel Hawthorne
74 – Poesias – Olavo Bilac
75 – Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
76 – Serafim Ponte Grande – Oswald de Andrade
77 – Poemas – Paul Eluard
78 – Poemas – Paul Verlaine
79 – Retrato do Brasil – Paulo Prado
80 – As Memórias – Pedro Nava
81 – Diálogos – Platão
82 – O Quinze – Rachel de Queiroz
83 – O Ateneu – Raul Pompéia
84 – Poesia – Rimbaud
85 – Raízes do Brasil – Sergio Buarque de Hollanda
86 – Teatro – Sófocles
87 – O vermelho e o negro – Stendhal
88 – Tristram Shandy – Sterne
89 – Gulliver – Swift
90 – A Montanha Mágica – Thomas Mann
91 – Guerra e Paz – Tolstoi
92 – Romances – Turguenev
93 – Conversa na Catedral – Vargas Llosa
94 – Poemas – Vicente de Carvalho
95 – Os Miseráveis – Victor Hugo
96 – Poesia – Vinicius de Moraes
97 – Eneida – Virgílio
98 – Orlando – Virginia Woolf
99 – Romances – Voltaire
100 – Teatro – William Shakespeare

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Não tem essa de me dar carona!

Mentira. Pois quando me oferecem sempre pego na hora. Porém, hoje, evitei receber o convite quando meu vizinho saiu de casa na mesma hora que eu. Ele é muito educado e solidário, vai de carro e me faz ganhar quinze minutos. Mas hoje eu acelerei o passo e segui meu caminho para a parada. Passei reto por um simples motivo — queria ler meu livro no ônibus. Atualmente, quase só leio nos ônibus e lotações. Dá uma hora por dia. Em casa, sempre há algo solicitando minha atenção. Um saco, um saco. Mas poderia haver outro motivo. Desde há muito comecei a me deslocar sozinho para o Centro da cidade. Na verdade, desde os 9 ou 10 anos de idade. Quando conseguia sentar, aqueles eram momentos felizes nos quais divagava à vontade, como se não pudesse fazer melhor noutro lugar. Talvez a entrada e saída de pessoas desse maior criatividade aos pensamentos. O fato é sempre houve um traço poético em ser levado dentro de um coletivo. Não sei bem por quê: pode ser o balançar do ônibus, pode ser as caras das pessoas que me fazem adivinhar-lhes as histórias. É um momento de pura indireção, em que não há nada de objetivo que possa ser resolvido e me irrito muito se o celular toca. É muito bom. Então, sempre achei prazerosa a coisa dos ônibus. Ademais, há a discutível certeza de estar colaborando com a humanidade ao não estar andando sozinho dentro de um carro. Foi um boa decisão a de ter ficado com um só carro em casa, acho.

Quando criança, preferia os bondes. Afinal, eles andavam sobre trilhos e nunca poderiam alterar seus caminhos. Eu morria de medo que os ônibus saíssem por aí livremente pela fantasia de um motorista alucinado. Achava que todos os adultos conheciam a cidade. Eu não. E era muito tímido para perguntar como voltar pra casa. Então, os trilhos eram minha segurança. Hoje, nem olho muito as caras das pessoas. Entro, dou bom dia para o motorista e sento para ler. Já me falaram na possibilidade de descolamento da retina. Francamente, que descole.

(O umbiguismo voltou com tudo hoje. Acontece).

Imagem retirada do Blog de Rafael Corrêa.

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