Estudo para uma abordagem a Lucia Berlin (I)

Estudo para uma abordagem a Lucia Berlin (I)

Para abordar uma contista tão rica e surpreendente como Lucia Berlin, vamos fazer antes uma rápida excursão à origem do conto e a sua definição, se é que podemos defini-lo.

Determinar o que exatamente separa um conto de formatos ficcionais mais longos é problemático. A definição clássica foi dada por Poe e é bem simples: “O conto é aquilo que pode ser lido em uma sessão de leitura ou, digamos, em uma sentada”. A interpretação disto pode ser problemática hoje em dia, porque talvez, nos nossos dias, a duração de “uma sentada” possa ser mais curta do que era na época de Poe…

Então, os contos têm tamanhos vagamente definidos. Mas há pessoas que demarcam os gêneros literários em termos de contagem de palavras, como se a diferença entre uma crônica, um conto, uma novela ou um romance pudesse ser definida pelo número de palavras. Eu acho que as definições devem partir do contexto, mas tem gente que insiste em contar palavras e que diz que um conto deve ter menos de 7.500 delas.

Histórias mais longas que não podem ser chamadas de romances são às vezes consideradas “novelas”, que são normalmente publicadas como os contos, em coleções dentro de um só volume ou em pequenos livros com só uma delas.

Mas como o conto surgiu?

Vamos a uma brevíssima história. Os precursores do conto foram as lendas, os contos populares, os de fadas, as fábulas e as anedotas. Claro que estas histórias curtas existiam principalmente na forma oral e assim iam sendo transmitidas de uma geração para outra. Um grande número destes contos é encontrado na literatura antiga, desde os épicos indianos como o Ramayana e o Mahabharata até os épicos homéricos, como a Ilíada e a Odisseia. As 1001 Noites, compiladas pela primeira vez provavelmente no século VIII, também é um repositório de contos folclóricos do Oriente Médio.

Na Europa, a tradição oral de contar histórias passou para o papel no início do século XIV, principalmente com os Contos de Canterbury, de Chaucer,  e o Decamerão, de Boccaccio. Ambos os livros são compostos de contos individuais — que variam de histórias de humor rasgado até ficções literárias mais elaboradas — inseridos em uma narrativa mais ampla, aliás como já eram As 1001 Noites.

Na década de 1690, os contos de fadas tradicionais começaram a ser publicados por Charles Perrault. Logo depois, apareceu a primeira tradução moderna para o francês de As 1001 Noites, a qual teria enorme influência nos contos europeus.

As primeiras coleções de contos, próximas do que hoje se conhece, apareceram entre 1810 e 1830 em vários países ao mesmo tempo. Foi o momento em que o conto começou a abandonar a necessidade de passar uma mensagem, uma moral. Notem, por exemplo, que o livro de contos de Cervantes, escrito em 1613, chama-se Novelas Exemplares.

Então veio a virada de Poe

Edgar Allan Poe (1809-1849)

O grande transformador do conto foi Edgar Allan Poe. Ele criou o conto psicológico, o de terror e deu um passo gigantesco na direção do que seria a literatura policial, que depois adquiriu enorme prestígio e tradição. Mas o principal é que ele iniciou a fase em que o contista narra duas histórias ao mesmo tempo. Não há mais uma moral, mas há uma segunda história subterrânea que vai sendo contada sob a superfície. Esta segunda história não é explicitada. A segunda história contada está escondida sob a primeira, que é a que você lê.

Esta tese não é minha, é do brilhante escritor argentino Ricardo Piglia: ele assegura que o segredo de um conto bem escrito é que, na realidade, todo conto conta duas histórias: uma em primeiro plano e outra que se constrói em segredo. A arte do contista estaria em saber cifrar a segunda história nos interstícios da primeira. Uma história visível esconde uma história secreta, narrada de forma elíptica e fragmentária. O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta nos salta aos olhos. Às vezes, o que parece  supérfluo para uma história é fundamental para a outra.

Vou dar um exemplo para que fique mais claro. Acho que todos conhecem o conto Missa do Galo, de Machado de Assis, um dos contos mais perfeitos que conheço. A história da superfície mostra o narrador, Nogueira, relembrando uma noite da sua juventude e a conversa que teve com uma mulher mais velha, D. Conceição. Ironicamente, mestre Machado inicia o conto com a seguinte frase: “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta”. Esta história é tão, mas tão perfeita, que o narrador nos confessa logo de cara que não entendeu a segunda história. E ele passa a nos encher de detalhes e diálogos. Vemos claramente, sob nossos olhos, o desenrolar da segunda história, contada muito aos pedaços e sutilmente, a de como vive D. Conceição, a de como seu marido a abandona em casa, a de sua falta de afeto, os motivos que ela tinha para tentar seduzir o menino.

Outra coisa é a maestria de Machado. Ele não apenas demonstra tudo isso, como fica claro o momento em que D. Conceição para de tentar, pois, certamente pouco conhecedora da arte da sedução, ela erra a mão e deixa passar o momento. E Machado nos demonstra tudo isso sem frases como “Conceição cansou e desistiu do menino”.

Depois, Joyce inverteu este modelo. Em Dublinenses, parece que a história 2 comenta a 1, às vezes a ataca ou duvida dela.

Lucia Berlin usa e abusa destes artifícios e de outros. Por exemplo, no conto que abre Manual da Faxineira, Lavanderia Angel`s, ela conta duas histórias de superfície. Ambas acontecem dentro de lavanderias self-services, dessas de moedas, uma em Nova York e outra em Albuquerque, no Novo México. As duas histórias estão separadas não somente geográfica como temporalmente. E ambas contam uma terceira história, a da própria autora, mãe de 4 filhos antes dos 30 anos, sempre lavando muita roupa, sempre devaneando muito e causando problemas, como o que ela causa ao apertar botões e reprogramar máquinas que estão lavando as roupas de outrem. Uma mulher inteligente, muito bonita, mas que parece um tanto inadequada ao mundo.

Agora, somos obrigados a falar da biografia de Lucia Berlin porque ela sempre escreveu sobre si mesma.

(continua com uma pequena biografia de Lucia Berlin)

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A inicial B na música erudita

A inicial B na música erudita

É incrível o número de bons combositores cuja primeira letra do sobrenome é B. Estava bebendo vinho agora e falando pra Elena: Bach, Beethoven, Bartók, Brahms, Bruckner, Biber, Buxtehude, Britten, Borodin, Bowie, BacCartney, Barber, Boulez, Bizet, Brokofiev, Bernstein, Beatles, Berlioz, Bahler, Bozart, Berg, Bussorgsky, Bellini, Bley, Bottesini, Bendelssohn, Joe Bean — autor de Garota de Ibanema –, enfim, são muitos.

Bolfgang Abadeus Bozart (1756-1791)

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2022

2022

Em 1962, uma revista italiana publicou uma matéria sobre como o mundo seria em 2022. Abaixo, uma das fotos ilustrativas.

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Atrás do balcão da Bamboletras (XXV)

Atrás do balcão da Bamboletras (XXV)

17h30 de um dia complicado, com falta de luz e problemas na bicicleta de nosso querido entregador, correria e pressa com a loja às escuras, enfim, uma típica sexta-feira 14.

Então, entra um segurança na livraria. Todo de preto, vestido com roupa de quem pode enfrentar a polícia de Lukashenko ou o Choque, proteção de plástico nos joelhos, jaqueta estilo militar, mais ou menos o tipo de pessoa de que não se espera numa livraria.

Pergunto o que ele deseja:

— Eu quero ver se vocês têm algum livro de Hermann Hesse.

Eu lhe digo os que nós temos, enquanto ele pede para dar uma olhada nos outros livros. Puxo papo e ele me diz que não lia antes, mas que com o trabalho de agora — neste momento ele fez uma reverência-referência a seu uniforme –, ele tem tempo para ler.

— Sabe, eu quero ler alguns livros de escritores bem diferentes para encontrar aquilo que gosto. Acabei Crime e Castigo e agora quero conhecer esse tal de Hesse.

Falo pra ele que li tudo de Hesse durante aos anos 70, que ele é jovem e talvez não saiba que ele foi moda entre os alternativos daqueles anos.

Ele me pergunta se Hesse é muito diferente de Dostoiévski e eu faço um gesto para indicar o abismo entre os dois. Falo um pouco sobre os livros e peço para que ele me perdoe alguma inexatidão — afinal, são livros que li há mais 40 anos.

Ele escolhe levar Knulp, Demian e Sidarta.

— Recebi hoje e acho melhor botar a cabeça pra funcionar.

O resultado é que o cara justificou todo o meu dia. Talvez seja alguém que, com a crise, ocupe um cargo muito inferior do que sua qualificação, mas agora vou rejeitar as considerações sociológicas e achar que ajudei a pô-lo para pensar.

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Dia dos Pais

Dia dos Pais
Milton Ribeiro | Foto: Bárbara Jardim Ribeiro

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Aborto espontâneo

Aborto espontâneo

Cada um tem sua versão sobre cada acontecimento grave, é claro. Nas grandes crises, que para minha sorte ocorreram todas a mais de 10 anos, eu sempre me recolhi, mas às vezes me dá vontade de escrever um livro chamado Quatro (ou Cinco, ou Seis) Relatos Autobiográficos. Talvez eu pudesse ser tão franco quanto Knausgård, mesmo sem um pingo de seu talento. Seria um monumental gol contra — ninguém leria o livro e eu ainda arranjaria problemas com figuras que hoje estão lá longe, quietas.

Agora, enquanto lavava louça, pensei em três casos: um em minha família, outro na de outrem — mas como encheram o meu saco! — e ainda outro político, o qual me renderia certamente um processo de parte de um partido de direita. Mas, amanhã de manhã, tenho certeza que meu projeto de complicar estará abortado. Afinal, todos nós temos coisas jamais confessadas se remexendo em nossa cabeça e eu acharei as minhas muito bobas.

Fonte da imagem: https://www.morandosozinho.net/papel-higienico-joga-no-lixo-ou-privada/

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As 20 piores capas de LPs e CDs eruditos segundo o maestro Leonard Slatkin

As 20 piores capas de LPs e CDs eruditos segundo o maestro Leonard Slatkin

A gente é useiro e vezeiro nesse negócio de capas de discos.

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Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Reli o super clássico Memórias póstumas de Brás Cubas, a obra que marcou uma mudança radical na produção de Machado de Assis. Na época, Machado tinha 41 anos — a história foi publicada em folhetim em 1880, tomando a forma de livro no ano seguinte — e ele era considerado um excelente escritor do romantismo. Pois então veio Brás Cubas veio para mudar e dar um salto de qualidade não somente dentro de sua obra como no panorama da literatura brasileira. Memórias Póstumas é o livro que faz a transição do romantismo para o realismo, incutindo audácia e graça, refinamento e pessimismo, sensualidade e humor (às vezes negro) em nossa literatura. Os críticos torceram o nariz e depois se curvaram ao novo estilo livre de Machado, fã confesso de Laurence Sterne.

Anos depois, ao escrever o prefácio de Helena, romance de sua fase romântica (1876), Machado comenta rapidamente sua revolução:

Não me culpeis pelo que lhe achardes romanesco. Dos que então fiz, este me era particularmente prezado. Agora mesmo, que há tanto me fui a outras e diferente páginas, ouço um eco remoto ao reler estas, eco de mocidade e fé ingênua. E claro que, em nenhum caso, lhes tiraria a feição passada; cada obra pertence ao seu tempo.

Brás Cubas é narrado por um defunto e dedicado ao primeiro verme que roeu as frias carnes de seu cadáver e é a celebração do nada que foi a vida do personagem principal. Brás Cubas é um rentista canalha, uma daquelas pessoas que nasceram podendo fazer exatamente nada, para apenas ficar administrando a herança recebida do pai e tentando vagamente uma carreira na política. Boa-vida, ele representa maravilhosamente nossa elite endinheirada, fútil e amante de privilégios. Sua vida é basicamente a narração de seus amores, por onde vazam suas características pessoais.

Primeiro vem Marcela, uma bela cortesã que trata de obter ganho financeiro de Brás Cubas, fato que só cessa com a intervenção de papai, que o manda estudar em Coimbra, de onde ele volta formado em Direito. De seu curso, ele mesmo diz que colheu “de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação”. O resto foram festas. Quando volta, seu pai quer vê-lo casado e deputado… E aparece Eugênia, a flor da moita, uma coxa que se enamora dele, mas que não se deixa humilhar com a certa rejeição. Depois vem Vírgília, o grande amor de sua vida. Num episódio que demonstra que Virgília não é flor que se cheire, ela se casa com Lobo Neves. Depois, Brás e ela tornam-se amantes por longos anos. Vírgília toma as páginas do livro, porém ainda há Eulália, a flor do pântano.

Por onde passa, Brás não somente conta de forma sedutora sua vida medíocre, como faz observações bastante cínicas sobre a vida e a política nacionais. Um dos personagens muitas vezes admirados por Brás é seu cunhado Cotrim, uma figura abjeta que trafica escravos e ganha muito com isso. Ao mesmo tempo, Cotrim seria “ferozmente honrado”, um “filantropo dotado de sentimentos pios”, mas com um detalhe: mandava “com frequência escravos para o calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue”.

O texto é maravilhoso. Dividido em 160 capítulos curtos e ziguezagueantes, muitos deles meros exercícios de prosa, o livro é que há de sedutor e grudento. Machado não julga, não dá lições, apenas mostra e deixa seu crápula tagarelar, argumentando à vontade seus motivos e contando os acontecimentos. É uma leitura toda de viés, com o autor não deixando clara sua opinião certamente desfavorável sobre o “herói” do romance. Ao final, quando Brás diz “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, respondemos no mesmo estilo dele: sorte nossa. Só que não adiantou muito, pois ainda estamos lotados de  de Brás Cubas — e de todo gênero de privilegiados — em nosso amado Brasil.

Claro, trata-se de um clássico que merece o lugar-comum: Memórias Póstumas de Brás Cubas é incontornável!

O grande Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

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Bach escreveu a Cantata BWV 82 para transcender a tragédia. É uma canção de ninar para os nossos tempos

Bach escreveu a Cantata BWV 82 para transcender a tragédia. É uma canção de ninar para os nossos tempos

Por Mark Swed — Traduzido livremente por mim.

Ich habe genug, Cantata BWV 82 de Bach, é comumente traduzida como Estou contente. No centro da cantata, há uma canção de ninar de doçura consoladora e benção sonolenta, cuja melodia é incomparável. Quem está atualmente contente? Quem não está dormindo muito ou pouco, com noites pesadas e angustiadas?

Na verdade, a Cantata 82 fornece um manual de como morrer tranquilamente, mapeando o caminho para o paraíso. E, aparentemente, essa é a última coisa que alguém quer ouvir durante as circunstâncias terríveis que vivemos.

Eu tentei um experimento. Por alguns dias, a Cantata foi a última música que eu escutei antes de ir para a cama e a primeira que eu ouvi de manhã. Não me aliviou a apreensão noturna nem se mostrou eficaz para melhorar o humor diurno. Eu não fiquei mais contente, mas o curioso era que eu esperava ansiosamente aqueles momentos de escuta. Claro, a BWV 82, para usar o sistema de numeração convencional que usamos para Bach, não se tornou sem motivo uma dos mais amadas das cerca de 200 cantatas existentes de Bach. Ela é linda.

As cantatas de Bach são uma conquista da humanidade. Acredita-se que ele tenha composto pelo menos 300 (um terço ou mais foram perdidas). Aos 38 anos, em 1723, ele era o encarregado da música das quatro principais igrejas luteranas de Leipzig, na Alemanha, e era obrigado a fornecer 59 cantatas por ano, uma para o culto de cada domingo e outras para os feriados. A maioria das cantatas era composta por 3 árias, 3 movimentos corais e recitativos. E era interpretada por um ou dois cantores solo, coral e um conjunto instrumental no qual os membros também podiam ter partes solo, o que significava agendamentos frenéticos de ensaios.

As cantatas acabaram se tornando um álbum de respostas emocionais a seu tempo e lugar, às estações do ano, às alegrias e tristezas da vida de Leipzig no século XVIII. Elas eram meditações profundas sobre o significado de tudo, discursos pessoais de sons.

A Cantata (que significa apenas cantada) era, por si só, um gênero vago. Embora principalmente sacras, as elas também poderiam ser seculares, destinadas a casamentos e outras celebrações, funerais ou mesmo, como Bach nos demonstrou deliciosamente, a um café.

Como disse, elas normalmente continham árias para um ou dois cantores, um coro e um pequeno conjunto com solos para instrumentistas virtuosos. Para aborrecimento dos padres, a música de Bach costumava ser a principal atração para os cultos que começavam às 7 da manhã e podiam durar quatro horas. Sabe-se que a congregação da sociedade de Leipzig chegava tarde à missa e saía mais cedo, ou seja, iam mais para assistir Bach do que o sermão.

O BWV 82 foi escrito em 1727 para a Festa da Purificação da Virgem Maria, que aconteceu em 2 de fevereiro. É para um cantor solo e prescinde do coro. Seu libreto anônimo concentra-se em Simeão, que, depois de ver o menino Jesus no templo, não precisa mais da vida terrena.

Em seu brilhante estudo de Bach, Música no Castelo do Céu, o maestro John Eliot Gardiner diz que a teologia da época encarava o mundo como “um hospício povoado por almas doentes cujos pecados apodrecem como furúnculos supurantes e excrementos amarelos”. Mas, no BWV 82, Bach radicalmente nos permite aspirar a sermos anjos. A morte não é transformação ou punição, é missão cumprida, é uma boa noite de sono e uma alegre viagem para casa.

Anjos não somos, mas por 25 minutos sentimos que somos. Os sons das palavras do texto anônimo são transformados em melodias luxuosas, que demonstram um talento operístico indiscutível. Mas a realização mais significativa é a de que a melodia e a instrumentação transcenderem o texto completamente.

O formato da cantata é simples: um cantor — Bach criou versões para soprano, mezzo-soprano e baixo-barítono — e três árias conectadas por dois recitativos curtos. Um pequeno conjunto de cordas o acompanha. Um oboé solo (ou flauta na versão soprano) gira melodias acrobáticas fazendo um sofisticado contraponto à linha vocal. Sobre as cordas suaves, a ária de abertura começa com o oboé ou flauta, introduzindo a frase melódica de cinco notas que carregará as palavras “Ich habe genug”.

Bach não está nos dizendo isso por palavras. Ele não está explicitando nada. Nem está, por mais que pareça, revelando as emoções carregadas no texto. Ele está nos levando pela mão a algum lugar.

A suposta tarefa da ária de canção de ninar “Schlummert ein” era representar a morte como sono. Em vez disso, Bach produz um milagre musical. Para que ele não nos leve a dormir, Bach produz um estado de reverência. O sono, então, torna-se não a morte, mas uma visão fugaz da morte, da qual acordamos revigorados. É por isso que a ária final curta e alegre pode estar escandalosamente viva.

Ich habe genug veio logo depois que Bach se cansou de cantatas para funerais. Aliás, a morte foi sua companheira constante. Seus pais morreram quando ele era menino. Sua primeira esposa morreu jovem. Ele sofreu a morte de seis de seus 20 filhos, incluindo a de um filho de seis meses antes de escrever o BVW 82. A essa altura, Bach havia deixado a tarefa hercúlea de escrever cantatas sem parar, para produzi-las apenas ocasionalmente. Mas o BWV 82 parece ser uma questão pessoal e Bach produziu um total de seis versões, a última em 1748, dois anos antes de sua própria morte.

Seis meses antes do 11 de setembro, a mezzo-soprano Lorraine Hunt Lieberson cantou a cantata em uma produção encenada de Peter Sellars no Lincoln Center em Nova York. Nos dois anos anteriores, ela cuidara da irmã que estava morrendo. A encenação surpreendente de Sellars trouxe um paciente moribundo em um hospital e terminou com Hunt Lieberson cortando os tubos, como se diz. Não havia um pingo de satisfação na maneira como Hunt Lieberson cantou as palavras “Ich habe genug”.

Para a questão universal do que significa ter o suficiente quando vivemos em um mundo que perigosa e autodestrutivamente pede cada vez mais, Bach é a resposta. Quando a produção dos Sellars chegou a Amsterdã em 2005, o “Ich habe genug” se tornou uma espécie de despedida de uma dos maiores cantoras que os EUA produziram. Hunt Lieberson morreu de câncer no ano seguinte.

Lorraine Hunt Lieberson ao final da BWV 82, Ich habe genug

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Em tempos de angústia, nada melhor do que as narrativas sombrias e engraçadas de Charles Dickens

Em tempos de angústia, nada melhor do que as narrativas sombrias e engraçadas de Charles Dickens

Da coluna de JOSÉ ANDRÉS ROJO, no El País
Traduzido livremente por este criado de vocês

Muito foi dito sobre a oportunidade que o confinamento nos proporcionou de reencontrar livros e filmes, ver séries. Falamos também das chances para começar a desenhar ou escrever, para contar coisas, para ouvi-las. Ficamos em casa para ajudar a conter o contágio da doença, e acontece que, entre quatro paredes, havia muitas possibilidades. Nestes momentos em que não se sabe o que finalmente acontecerá e que a suspensão da normalidade mais uma vez valorizou o tempo e, portanto, as histórias, recordamos que Charles Dickens foi um dos mais capazes de contá-las. E este ano está sendo lembrado que ele morreu em 1870, há 150 anos.

E ele tem algo a nos dizer neste momento, as aventuras de seus personagens são interessantes, ele oferece alguma lição, seus assuntos ainda preocupam as pessoas de hoje? Há um momento em um de seus livros em que um de seus personagens deixa cair um chapéu. E este começa a escapar, empurrado por um vento “sutil e brincalhão”. “Existem poucos momentos na vida de um homem”, escreve Dickens, “onde ele experimenta um sofrimento mais grotesco do que quando persegue seu próprio chapéu”. Esse homem é o Sr. Pickwick, fundador de um clube selecionado ao qual outros membros ilustres se juntam a fim de contarem suas aventuras e registrar suas viagens e investigações, suas observações e conjecturas sobre o mundo. E essa autoridade imponente de um clube tão especial sofre esse revés no meio de uma multidão que observava algumas práticas militares. As tropas aparecem em perfeita formação, a banda militar se interrompe para tocar, os cavalos movem suas caudas de um lado para o outro, há uma sucessão interminável de guerreiros de farda vermelha e calças brancas, os soldados se preparam para executar suas exibições de tiros e manobras. E Pickwick está na primeira fila, para não perder nada, e seu chapéu voa.

Dickens estava escrevendo suas histórias em capítulos, o público as esperava, lia e comemorava. Ele contou o que estava acontecendo com os curiosos membros do clube Pickwick, mas também contou histórias tristes de órfãos que viviam terríveis circunstâncias na Londres vitoriana. Casas apertadas e pobreza, mas também mansões e luxo, grandes ambições e esperanças, caminhos truncados, renúncias generosas e manobras repugnantes de exploradores sem escrúpulos. Dickens era um mestre a contar as mais diversas histórias. Você conhece George Silverman`s Explanation, nada mais do que algumas páginas em que ele conta a vida de uma criança que vê seus pais morrerem em um porão infectado e que depois renuncia à mulher que ama?

Onde exatamente estamos agora? Mais perto do homem que sofre ao levar a mulher que ama para os braços de outro ou do pobre diabo que é forçado a se fazer de bobo enquanto corre atrás do chapéu? Certamente de ambos os lados, no caso menor e no que parece maior. As histórias valem a pena e são melhores se forem contadas por alguém tão bom e engraçado como Dickens.

Charles Dickens (7 de fevereiro de 1812 – 9 de junho de 1870)

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Segredos, de Domenico Starnone

Segredos, de Domenico Starnone

Após os excelentes pequenos romances Laços e Assombrações, Domenico Starnone retorna com mais um, Segredos. Os três livros — todos publicados no Brasil pela Todavia — formam uma esplêndida trilogia sobre as complexas tramas dos relacionamentos amorosos e familiares.

Pietro vive um amor tempestuoso com a bela e brilhante Teresa, uma mulher exuberante em todos os sentidos. Ele fora um professor muito admirado por ela na escola. Meses depois de sair da escola, ela procura Pietro e o seduz facilmente. É uma mulher incontrolável, 12 anos mais jovem que o professor. Eles brigam muito e, após uma destas discussões, surge uma ideia: diga-me algo que você nunca disse a ninguém — ela sugere –, diga-me a coisa de que mais se envergonha e farei o mesmo. Deste modo, permaneceremos unidos para sempre.

(Diga-se de passagem que Starnone foi professor de escola por mais de 30 anos).

Unidos? Eles terminarão o relacionamento logo em seguida… Então, quando Pietro conhece Nadia, ele instantaneamente se apaixona por sua timidez e relutância, por sua suavidade, depois de tanta agitação. Só que alguns dias antes do casamento, Teresa reaparece. Ela não quer nada com ele, mas, com ela, ressurge a sombra do que eles confessaram um ao outro.

— Lembre que, se você vacilar com essa pobre moça bonita, eu sei de coisas que podem te destruir –, disse ela, alegremente.
— Eu também sei coisas lindas de você. Por isso, olhe lá, ande na linha. Fique esperta.

Unidos sim. A vivacidade e as atitudes fortes de Teresa marcam Pietro. Eles seguem caminhos diferentes na vida: ela inicia uma fulgurante carreira nos Estados Unidos e Pietro, mais discretamente, começa a se destacar como um crítico do sistema educacional italiano. Mesmo casado com Nadia, Pietro mantém por décadas trocas de cartas com Teresa. De  certo modo, sua autoestima e reconhecimento de sucesso dependem do aval dela. Ele pensa temer pelos segredos trocados, mas isso é passado e ele depende dela apenas porque depende.

Que problema, um amigo me disse uma vez, se apaixonar por uma mulher que, em todos os aspectos, é mais viva do que nós.

Os anos passam e a jovem família se consolida, cresce e Nadia agora é mãe de Emma, ​​Sergio e Ernesto, os três filhos de Pietro. Segredos começa com estas palavras:

O amor, dizer o quê?, fala-se tanto dele, mas não acho que eu tenha usado a palavra com frequência, aliás, minha impressão é que nunca recorri a ela, apesar de ter amado, claro que amei, amei até perder a cabeça e os sentimentos. De fato, o amor tal como o conheci, é uma lava de vida bruta que queima a vida fina, uma erupção que anula a compreensão e a piedade, a razão e as razões, a geografia e a história, a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a exceção e a regra.

Domenico Starnone nos coloca diante de dois tipos muito diferentes de relacionamentos. Na vida há amores e amores, relacionamentos e relacionamentos: cada um tem muito que não pode ser reproduzido nos outros. Os amores vão se alterando, transformam-se às vezes em monstros mas, de uma forma ou de outra, não desaparecem. Aqueles que amamos um dia continuam sendo os guardiões de algumas ansiedades, incertezas, hesitações e de fatos que poucos conhecem. Eu sempre disse que ex, qualquer ex, é cargo de confiança…

Segredos mostra as qualidades indiscutíveis ​​de Starnone, um escritor direto, observador crítico e agudo dos traços humanos. Seus personagens são muito imperfeitos, não parecem sinceros e consideram-se medíocres. Starnone guarda para eles um olhar desapegado, além da leveza das boas narrativas. Ele nos fala de pessoas que parecem inadequadas para si mesmas, mostrando o quão frágeis são as bases em que se baseiam suas (nossas) identidades.

Domenico Starnone (1943)

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O Milton Ribeiro que não é Ministro sugere

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As melhores Cantatas de Bach

As melhores Cantatas de Bach

Escolher as “melhores” das mais de 200 cantatas sacras de Johann Sebastian Bach é uma tarefa assustadora, pois cada uma delas parece perfeita. Mas três grandes especialistas em Bach aceitaram o desafio.

Traduzido da dw.com

Peter Wollny, diretor do Arquivo Bach em Leipzig, Michael Maul, novo diretor do Bachfest, e Sir John Eliot Gardiner, maestro britânico, presidente do Arquivo Bach, escolheram as que consideram as “maiores” cantatas de Bach. Maul identificou 33, Gardiner tinha um total de 38 e Wollny 52.

Cada um do trio fez sua lista individualmente e 15 cantatas apareceram nas três relações. Então, já juntos, Wollny, Maul e Gardiner reduziram a lista para 33.

Isto foi feito nas primeiras 48 horas do Bachfest de Leipzig, em agosto de 2018. Depois, todas as 33 Cantatas foram apresentadas durante o Festival.

Então, o que é uma Cantata? O termo vem do italiano “cantare” e tem a ver com canto. A cantata é um trabalho vocal com duração de cerca de 20 minutos que compreende várias peças menores — árias, corais, recitativos, sinfonias.

Uma Cantata geralmente leva o mesmo nome que um hino de igreja, e as melodias e motivos musicais do hino — frequentemente o próprio hino – soam ao longo da peça. No tempo de Bach, cantatas sacras eram apresentadas durante os cultos da igreja, e os textos cantados tinham a ver com o tema da leitura do evangelho naquele domingo. É por isso que existem Cantatas para os domingos e feriados específicos do ano litúrgico.

Bach compôs Cantatas semana após semana e mandou tocá-las pelos meninos do coral de St. Thomas e por quaisquer instrumentistas que pudesse arranjar. Poderia ele sonhar que, 333 anos após seu nascimento, a performance de 33 de suas cantatas em seu último local de trabalho seria notada em todo o mundo? Só se pode especular.

Não é um ribeiro, é um oceano!

“Ele não deveria se chamar Ribeiro, mas Oceano!”é uma frase atribuída a Ludwig van Beethoven. É um jogo de palavras: “Bach”, em alemão, significa “ribeiro” ou “riacho”. Beethoven estava se referindo à quantidade  e à qualidade universal da obra de Bach. Nesse oceano, as cantatas são ilhas menos conhecidas do que muitos de seus outros trabalhos, mas definitivamente valem uma visita — ou uma revisão. A música é atraente na primeira audição, e torna-se ainda mais interessante quando cresce a familiaridade.

E aqui estão os 33 “melhores” selecionados por Peter Wollny, Michael Maul e Sir John Eliot Gardiner:

· Nun komm der heiden Heiland, BWV 61
· Wachet auf, ruft uns die Stimme, BWV 140
· Ich habe genug, BWV 82
· Wie schön leuchtet der Morgenstern, BWV 1
· Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen, BWV 12
· O Ewigkeit, du Donnerwort, BWV 20
· Ich hatte viel Bekümmernis, BWV 21
· Es erhub sich ein Streit, BWV 19
· Schwingt freudig euch empor, BWV 36
· Wachet! Betet! Betet! Wachet !, BWV 70
· Unser Mund sei voll Lachens, BWV 110
· Sede de Saba alle kommen, BWV 65
· Jesus schläft, was soll ich hoffen, BWV 81
· Liebster Emanuel, Herzog der Frommen, BWV 123
· Sehet, wir gehen hinauf gen Jerusalem, BWV 159
. Herr Jesu Christ, Mensah und Gott, BWV 127
· Himmelskönig, sei willom, BWV 182
· Der Himmel lacht! die Erde jubilieret, BWV 31
· Bleib bei uns, denn es will Abend werden, BWV 6
· Ihr werdet weinen und heulen, BWV 103
· Ewiges Feuer, O Ursprung der Liebe, BWV 34
· Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, BWV 76
· Die Elenden Sollen Essen, BWV 75
· Brich dem Hungrigen dein Brot, BWV 39
· Ach Gott, vom Himmel sieh darein, BWV 2
· Herr, gehe nicht ins Gericht, BWV 105
· Ich will den 
Kreuzstab gerne tragen, BWV 56
· Komm, süße Todesstunde, BWV 161
· Liebster Gott, Wann Wird ich sterben, BWV 8
· We weß, we have the mir mein Ende, BWV 27
· Christus, der ist mein Leben, BWV 95
· Nimm von uns, Herr, du Geu, BWV 101
· Jesus, der meine Seele, BWV 78

Obs. do blogueiro: Eu não estou muito disposto a discutir com o Gardiner e companhia, mas a 106 e a 80 tinham que estar na lista! Agora, achei ótimas as presenças das pouco citadas 36, 75, 95 e 127. A 106, a 80 e a 82 são minhas preferidas, além da incrível 198. E a sensacional 78?

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Eu não sou o Ministro

Eu não sou o Ministro

Sou LIVREIRO, proprietário da melhor livraria de Porto Alegre, a Bamboletras. Sou ateu, da esquerda independente, colorado e não tolero evangélicos fora da igreja. Eles são um dos principais pontos de apoio do fascista Bolsonaro.

Se você quiser livros e cultura — artefatos tão desprezados pelos atuais governantes –, entre em contato conosco. Somos uma pequena e corajosa livraria que está enfrentando a crise com dificuldade e dignidade. Não demitimos nenhum funcionário e este é um ponto de honra nada desconsiderável. Obviamente, estamos respeitando o distanciamento social, mas temos telentrega ativa para todo o Brasil.

Entre em contato pelo Whats 51 9 9255 6885.

P. S. — Tô tentando lembrar onde fiz meu doutorado…

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Um Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe

Um Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe

Um Diário do Ano da Peste é uma leitura óbvia — uma releitura, no meu caso — neste período de pandemia, pois é um livro que nos dá uma perspectiva peculiar, uma visão do passado sobre nossa crise atual. Mas não é apenas isso: ele também tem sido por séculos fonte de admiração, com suas histórias “de uma Londres estranhamente alterada”, onde, durante 18 meses em 1665 e 1666, a cidade perdeu 100.000 pessoas — quase um quarto da sua população. García Márquez e Anthony Burgess eram grandes admiradores da obra que narra jornalisticamente, em um texto sem divisões por capítulos, uma distopia semelhante a que estamos vivendo hoje.

A primeira coisa que devemos dizer sobre Um Diário do Ano da Peste é que não é, estritamente falando, um registro in loco. O livro foi publicado em 1722, mais de 50 anos após os eventos que descreve. Quando a praga assolava Londres, Defoe tinha cerca de cinco anos. Mas o autor afirma que o livro é um relato contemporâneo genuíno — a página de rosto afirma que o livro consiste de “Observações e recordações dos acontecimentos mais extraordinários, sejam públicos ou privados, ocorridos em Londres durante a última grande epidemia em 1665. Escrito por um CIDADÃO que permaneceu o tempo todo em Londres. Nunca publicado antes” e credita o livro a HF, entendido como seu tio Henry Foe.

Mas voltemos a 1722 e pensemos que os escritores costumavam dar ares de realidade a tudo. Por exemplo, Defoe também afirmou que Robinson Crusoe foi escrito por um homem que realmente viveu em uma ilha deserta por 28 anos, e que seu livro sobre o célebre ladra Moll Flanders foi escrito “a partir de seus próprios memorandos”. Ele até coloca essa afirmação no enorme título, que vale a pena reler na íntegra: As aventuras e desventuras da famosa Moll Flanders, que nasceu na prisão de Newgate e que, ao longo de uma vida de contínuas peripécias, que durou três vintenas de anos, sem considerarmos sua infância, foi por doze anos prostituta, por doze anos ladra, casou-se cinco vezes (uma das quais com o próprio irmão), foi deportada por oito anos para a Virgínia e, enfim, enriqueceu, viveu honestamente e morreu como penitente. Escrito com base em suas próprias memórias.

Digo isso reconhecendo a extraordinária qualidade e o enorme significado literário e histórico de Um Diário do Ano da Peste. É possível, claro, que tenha sido baseado nos diários do tio de Defoe. É certo que o próprio Defoe pesquisou longa e detalhadamente sobre o assunto e que usou seu enorme talento ​​para dar vida a ele. O livro está cheio de descrições vívidas da maneira como a praga se deslocou pelos diferentes bairros de Londres, as precauções tomadas para combatê-la e o progresso assustador das carroças carregadas de cadáveres acompanhadas por gritos de “tragam seus mortos”. Também há percepções notáveis ​​sobre o comportamento humano sob a sombra de uma pandemia, sem mencionar os casos de mau comportamento e loucura, como o demonstrado por um cidadão chamado Solomon Eagle, que desfilou pelas ruas denunciando os pecados dos cidade, às vezes completamente nu. Os relatos de médicos, de charlatães vendedores de “remédios milagrosos”, de padres e padeiros são sensacionais.

O próprio Defoe também é um assunto intrigante. Além de escrever mais de 300 livros e folhetos sob quase 200 pseudônimos diferentes, ele viajou amplamente, administrou uma fábrica de azulejos e tijolos e encontrou tempo para participar da desastrosa rebelião de Monmouth que tentava derrubar James II. Foi rico e perdeu tudo várias vezes… Possuiu navios e uma propriedade rural, acabando várias vezes na prisão de devedores… Também foi preso por fingir argumentar, em sua sátira de 1702 The Shortest Way with Dissenters, que a melhor maneira de lidar com rebeldes religiosos era bani-los do país e matar seus pregadores. Houve gente que não entendeu a piada e a Câmara dos Comuns queimou o livro e mandou o autor para a prisão de Newgate por calúnia, enquanto seus amigos aproveitavam a oportunidade para divulgar mais seus panfletos.

Tudo isso ocorreu antes de ele realmente começar a escrever livros. Seu romance mais famoso, Robinson Crusoe, foi publicado em 1719 e Um Diário do Ano da Peste seguiu-o em 1722. Em seus últimos anos, ele também escreveu um grande livro de viagens sobre a Grã-Bretanha , o mencionado Moll Flanders e mais de uma dúzia de outros romances. Na época de sua morte, em 1731, ele estava novamente escondendo-se dos credores.

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Ao reler um Um Diário do Ano da Peste, os primeiros ecos de 2020 vêm na primeira página 1. O narrador nos diz que ele e seus vizinhos ouviram que a praga “voltara da Holanda”. Somos informados de que o governo recebeu avisos, mas não achou algo digno de preocupação. E os navios daquele país continuaram chegando.

Os paralelos para com nossa despreocupada reação inicial a um problema distante — a pandemia iniciou na China — são tão impressionantes que parece quase ridículo apontá-los. Depois, vire a página e leia o primeiro relatório das “contas semanais” mostrando o aumento de mortes em cada paróquia de Londres. Tais estatísticas são obsessivamente observadas pelo nosso narrador ao longo de seu relato. Os registros fornecem comentários sombrios sobre o terror da doença, assim como os números de mortes que agora recebemos todos os dias há semanas.

Então, descobrimos que esses registros podem não ser confiáveis. Os números das autoridades são sempre baixos. Que coincidência, há subnotificação! “Os números da peste apontavam 17, mas os enterros em St. Giles eram 53″.

Os paralelos continuam. O narrador observa que as medidas necessárias para conter o surto foram tomadas tarde demais. Em outras passagens, há descrições assustadoras do vazio das ruas, “pois quando as pessoas chegavam às ruas, elas as viam vazias, as casas e lojas fechadas, com uns poucos andando no meio da rua, um bem afastado do outro”. Não temos o hábito de pintar cruzes vermelhas nas portas das casas onde há infectados ou de colocar guardas do lado de fora para que as pessoas que contraíram a doença não possam escapar. Também não impusemos o período de isolamento de 40 dias, o que dá nome à “quarentena”. Mas hoje qualquer leitor reconhecerá o medo e a piedade com que o narrador fala das pessoas que têm a doença e podem transmiti-la, especialmente daquelas que o fazem sem querer:

Quero falar daqueles que receberam o contágio e o tiveram realmente em seu sangue, mas que não mostraram as conseqüências disso em seus semblantes: ou melhor, nem eles próprios eram sensíveis, pois muitos não são por vários dias. Sem saber, expiravam a morte sobre todos os lugares e sobre todos os que se aproximassem deles, Suas próprias roupas retinham a infecção e suas mãos infectavam as coisas que tocavam.

Uns expiravam e outros aspiravam a morte, outra coincidência! Não é de surpreender que todo mundo, na Londres de Defoe, esteja nervoso. Mas hoje sabemos que o contágio não vinha das pessoas: a culpa era de ratos e pulgas. Há poucas menções aos ratos cujas pulgas transmitiam a peste bubônica — mas há preocupações sobre animais domésticos. Defoe observa que um número prodigioso desses animais foi morto. Foram mortos 40 mil cães e 200 mil gatos…

Defoe também nos fala dos ricos que fogem para o interior e levam a morte — na verdade alguns ratos — com eles, observando como os pobres estiveram muito mais expostos à doença. Mais uma coincidência… Ele descreve como charlatões vendem curas falsas e de como pobres “até se envenenavam de antemão por medo do veneno da infecção”.

As correspondências são tão claras que parece estranho lembrar que Defoe estava descrevendo eventos de 355 anos atrás — e que Um Diário do Ano da Peste, publicado em 1722, nem sequer seja uma descrição em primeira mão. Mas nisso, pelo menos, há esperança. Ele escreve no final:

Terrível peste esteve em Londres
no ano de sessenta e cinco
cem mil almas levou consigo
mesmo assim, estou vivo!

Espero que eu e você possamos dizer o mesmo no final da atual pandemia.

RECOMENDO MUITO!

Daniel Defoe (1660-1731)

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Incrível, o futebol já tem data para voltar

O futebol retorna ao RS no dia 23 — daqui exatas duas semanas — com a sequência do Campeonato Gaúcho. A rodada terá Gre-Nal de portões fechados no Beira-Rio. O treinos estão liberados a partir do dia 13.

A federação apresentou um protocolo a ser cumprido e o governador aceitou.

Eu sei lá, acho que o time mais infectado deveria ser declarado campeão.

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Os pseudo escritores já começaram a falar no “grito silencioso” dos estádios vazios. Que a volta do futebol com tantos mortos seria “o barulho do silêncio”.

Aí são duas coisas a criticar: a má ideia de fazer voltar o futebol agora e falta de ideias de determinados escribas. Pô, vamos pensar em algo diferente do tal “silêncio ensurdecedor”?

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A morte de Eric Dolphy, um negro

A morte de Eric Dolphy, um negro

Nestes dias em que se fala tanto em racismo e onde pessoas brancas deixam escancarados seus preconceitos, gostaria de lembrar como morreu o genial saxofonista e claronista Eric Dolphy, um negro do qual brotava sons alegres, vanguardistas, criativos e de desconformidade.

Na tarde de 18 de Junho de 1964, Dolphy caiu nas ruas de Berlim e foi levado a um hospital. Os enfermeiros, que não sabiam que ele era diabético, pensaram que ele havia tido uma overdose e deixaram-no num leito até que passasse o efeito das “drogas”. E ele morreu aos 36 anos…. Foi um enorme artista.

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Miguel Torga (1907-1995) escreveu em seus Diários:

Miguel Torga (1907-1995) escreveu em seus Diários:

É um fenômeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, como, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.

Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.

Somos, socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados.

Miguel Torga

No dia anterior, ele tinha anotado em seu diário:

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O covid-19 no Japão

O covid-19 no Japão

O Japão não fez lockdown, mas o resultados obtidos contra o covid-19 foram os mesmos de como se tivesse feito. A mortalidade lá é uma menores do mundo, comparável ao Uruguai e à Nova Zelândia. A esmagadora maioria das pessoas vive em grandes cidades e a população é velha. A grande Tóquio tem 37 milhões de habitantes, por exemplo. Então, como conseguiram?

O segredo é a educação do povo, que ouviu o governo quando este aconselhou a população para evitar três coisas:

— lugares fechados com pouca ventilação,
— lugares lotados com muita gente e
— contato próximo em conversas.

E a usar máscaras.

Simples, né? Ou nem tanto, pois educar não é simples.

Ah, mais uma coisa: o governo pede, tem credibilidade, o povo escuta.

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O PUM dá a sua opinião a respeito do covid-19 de Bolsonaro

O PUM dá a sua opinião a respeito do covid-19 de Bolsonaro

O Partido Utópico Moderado vem aos brasileiros explicar o que rola no Planalto. Espreitamos o quarto de Boçalnato e o que ouvimos entre paredes?

— Presidente, a cloroquina é um placebo em seu caso.
— O que é placebo?
— É tipo o seu governo.

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Armação Ilimitada II:

Bolsonaro foi convenientemente esfaqueado em 2018. Agora, contrai um oportuno Covid-19. É o governo Neymar. Em qualquer dificuldade, rola no chão.

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