Ajuda humanitária para a Venezuela — a posição de Gustavo Dudamel
Este livro foi um presente de um leitor deste blog e amigo meu do Facebook. Jonas Fernando Pohlmann é um gaúcho e colorado de Ijuí que mora em Maputo, Moçambique. Como a maioria dos que leem este blog, Jonas é uma pessoa altamente qualificada, tendo estudado na Ufrgs e na London School of Economics and Social Science.
Já Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, em 1990. Suas histórias têm gerado discussões em um país que pratica a poligamia. É o caso de Balada de Amor ao Vento.
A história do amor de Sarnau e Mwando é longa e cheia de reviravoltas dentro do contexto do sul de Moçambique. Não vou contar tudo, claro, só que Mwando queria ser padre, mas também desejava Sarnau e, por isso, acabou expulso do seminário. Ela engravidou e ele a rejeitou, pois seus pais tinham-lhe arranjado outro casamento. O casamento é infeliz e ele tenta voltar para Sarnau, que já era uma das esposas do chefe local. E mais não conto.
Para a compreensão completa do livro é importante saber o que é o lobolo. Lobolo é um costume cultivado até hoje no sul de Moçambique. Segundo esta tradição, a família da noiva recebe dinheiro pela perda que representa o seu casamento e a ida para outra casa. A cerimônia consiste numa oferta de bens — gado, dinheiro, roupas e alimentos, entre outros — à família da noiva. Após a aceitação e recepção destes bens por parte da sua família, a noiva passa a pertencer à família do homem. Por esse motivo, aos olhos ocidentais e dos colonizadores portugueses, a mulher estaria a ser vendida. O dote oferecido serve de fundo para a família da moça. E também como um seguro, pois para anular a união seria necessária a devolução do dote… Imaginem o problema de uma mulher querer se separar: isto obriga sua família a devolver o dote ao seu esposo. Assim funciona o lobolo.
A história de Sarnau e Mwando faz-nos pensar. Ela gira e espreme algumas tradições, dando-nos uma visão clara do que representa a poligamia — e até dando algumas vantagens a ela quando diz que é uma forma do pai jamais deixar os muitos filhos abandonados –, mas sempre deixando claro que é uma vida insatisfatória para a mulher — brigas, ciúmes entre as esposas, tudo pela atenção do homem — e que garante a inteira supremacia do homem.
A prosa de Paulina Chiziane é leve, fluida e colorida. Não pense que ela discute o lobolo, a pobreza e o colonialismo através de teses ou discursos. SE fosse assim, o livro perderia muito de sua força. Ela apenas demonstra as situações e é brilhante nisto.
Recomendo.

A boa notícia é que o Inter melhorou. Não foi muita coisa, mas houve melhora. Pela direita, Zeca não repetiu Carlos Alberto Torres, porém é muito melhor do que os outros que por ali estiveram. Pela esquerda, Iago foi lastimável. Pottker — aleluia! — jogou bem. Nico López mostrou que joga mais atuando pelo meio. Neilton atuou como no Vitória, chamando o jogo para si e resolvendo bem as coisas. Já Tréllez poderia trabalhar organizando gôndolas em supermercados, é alto e alcançaria as prateleiras mais próximas do teto. Parece não servir para outra coisa, infelizmente.

A defesa também está longe de seu desempenho de 2018. Cuesta está em má fase e, para piorar, tem Iago jogando mal a seu lado.
O que não podemos entender é a contratação de Tréllez, atacante que jamais se destacou em lugar nenhum — nem na sua Colômbia natal.
Porém, como disse, o time melhorou e não vamos negar o mérito de Odair Hellmann nisso. Nico López, Edenílson e Dourado são os grandes destaques da equipe. Só que Pedro Lucas deveria entrar logo no lugar de Tréllez.
A expulsão de Nico foi justa. O técnico Winck, do Juventude, criou toda a confusão, só que o uruguaio não precisava ter ido até o banco do Ju para uma troca de socos. Aliás, que atitude varzeana a de Winck. Se acertou nas expulsões, a arbitragem não deu um pênalti de Cuesta e também impediu que Nico marcasse nosso segundo gol antes dos 30 do primeiro tempo.
Jogar o Gaúcho é complicado.
Esperamos que a evolução do time siga na próxima partida contra o Caxias, domingo, às 19h, no Beira-Rio. Não está nada bom, mas estamos melhorando e, daqui alguns dias, talvez sejamos melhores do que o Vasco.
Ontem à noite, eu e alguns poucos e bons amigos fomos convidados como cobaias da chef Astrid Müller. Cobaias é uma forma educada de reduzir o convite aos níveis habituais das improvisações amadoras, pois um jantar da Astrid não é nada disso. Ali, nós estamos naquela situação de dar uma garfada e olhar para o prato a fim de descobrir o que haveria nele para nos causar tanta surpresa e prazer.
Eu sou um glutão tosco que não sabe nada de gastronomia e que sempre lavou a louça em casa por não saber cozinhar. Mas garanto-lhes — garanto mesmo! — que sei diferenciar o arrebatador do apenas ótimo. E a sequência de pratos foi arrebatadora.
Um psicanalista que cozinha muito bem disse-me que a cozinha era a extensão natural de seu trabalho no consultório. Em ambos os trabalhos, ele trabalhava com afetos. Penso eu que um jantar como o de ontem é um meio muito sofisticado e absolutamente matador de criar oportunidades de alegria.
Foi isso que a Astrid obteve para nós e demonstrou para nós, afeto.
P.S. 1: Como disse, sou um tosco gastronômico. Se a Astrid quiser vir aqui descrever os pratos cujas fotos coloco abaixo, eu acrescento o texto dela. Para que vou passar vergonha depois daquela sinfonia?
P.S. 2: Com Augusto Maurer, Elena Romanov, Jussara Musse e Ricardo Branco.
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As fotos da sequência:
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No Brasil — ou ao menos em Porto Alegre — existe o Imposto Sotaque. Se eu peço um serviço, ele custa mais ou menos R$ 25 por hora. Se a Elena pede, custa R$ 60. Não estou brincando. Aconteceu ontem e hoje, com a mesma pessoa.
Também se a Elena, que é bielorrussa, usa um táxi, tem que explicar o itinerário. Se não faz isso, o cara vai de um bairro a outro da cidade pelo Canal do Panamá.
Isso faz com que eu seja o porta-voz do casal para efeito de contato com prestadores de serviços. Marceneiros, hidráulicos, pintores, eletricistas, pessoas que arrumam ar condicionado, tudo tem que ser comigo. O que é muito chato, pois a maioria dessas pessoas presta maus serviços e tudo acaba em reclamação. Semana passada contratei um marceneiro para arrumar nossas venezianas.
— O Sr. também pode pintá-las?
— Sim, claro.
Pintura feita, vemos que o serviço ficou uma porcaria.
— É que o Sr. sabe, eu sou marceneiro. Pintei só porque o Sr. pediu. Na verdade, não sou pintor.
E eu não pedi absolutamente nada, apenas perguntei. Assim, enganado desta forma, vou lentamente enlouquecendo e morrendo. Para não matar.

Ainda bem que a temperatura caiu nos últimos dias em Porto Alegre. Na semana passada, quase todas as pessoas com as quais eu mantive contato estavam irritadas, muito irritadas e cansadas. Vivíamos sob 37 graus e sensação térmica de 46. Os antigos narradores de futebol falavam em “temperatura senegalesca”, o que revela que os narradores de antes eram tão desinformados quanto os de hoje, pois, se a temperatura do Senegal chegasse aqui, seria uma dádiva a ser saudada por qualquer porto-alegrense.
Saibam que o Senegal é um país de clima muito agradável. Tem, basicamente, duas estações. Uma estação seca de novembro a maio, quando nunca chove e as máximas ficam entre os 23 e 25 graus. A outra estação é úmida e mais quente: de junho a outubro há alguma chuva, principalmente no sul do país. A média das máximas fica em 29, 30 graus.
Então, meus filhos, quando a coisa estiver insuportável por aqui, não fale em temperatura senegalesca e pense em Dakar como um bom destino. Ah, prepare algumas frases em francês. Ou em uolofe.

Inter iniciou o jogo com Bruno e Tréllez. Isto além de D`Alessandro, que deveria entrar no segundo tempo. Essa escalação é quase como entrar com 9 homens. Ou com algumas substituições certas para corrigir o time no segundo tempo. (Isso eu escrevi no twitter antes da partida. Adivinha se os dois primeiros não foram substituídos?).

O jogo iniciou com o Inter sem soluções ofensivas. Porém, em lance isolado, aos 14 min, D`Alessandro chutou no travessão. Na sobra, Moledo marcou, mas estava impedido.
Aos 15, novo gol perdido. Tréllez não entendeu a jogada de calcanhar de Nico López e não fez o gol por desatenção.
A defesa do Brasil-Pel mostrava não ser lá essas coisas. Os pelotenses erravam muitos passes, mas o Inter, para organizar contra-ataques, antes tinha que carimbar um memorando pedindo licença. Entendam, é um time burocrático.
Ademais, as jogadas de ataque acabavam sempre em Tréllez, que perdia todas.
Aos 32, Neílton deixou Edenílson na cara do gol, mas ele perdeu a bola para o goleiro.
Um minuto depois, Iago cruzou sem goleiro para Tréllez. Adivinha o que aconteceu? Nada, pois a forma com que Tréllez disputa as bolas na área é digna de um bêbado.
Graças a deus, acabou o primeiro tempo.
A mediocridade acentuou-se no segundo tempo. Havia tantas opções melhores no banco — Falo sério, ou seja, o Inter está muito mal escalado — que nem sabia o que sugerir.
Aos 13 min do segundo tempo, Odair tirou Tréllez — finalmente! — para colocar Pedro Lucas. Aos 20, já desesperado, nossa sumidade colocou Sarrafiore no lugar de Neílton.
Tudo porque nosso time parecia uma lixeira. Com Pedro Lucas e Sarrafiore, tudo melhorou. Então, Pedro tomou uma falta na entrada da área. Na cobrança, Dale bateu mal, mas no rebote Dourado tentou o gol e Moledo marcou.
O namorado da filha da minha mulher é colombiano e acompanha MUITO futebol. Ele me disse que não entende a contratação do Tréllez. Disse que ele JAMAIS se destacou por lá. Um dia — quem sabe o que houve? — , talvez o MP se interesse pelo caso. Custou R$ 1,5 milhão.
Nosso time segue mal, mas ganhará uma semana para treinar. Espero que Odair possa dar alguma dinâmica a ele e que vá retirando os inúteis. Ah, Zeca entrou bem na de Bruno.
O próximo jogo é domingo, às 17h, no Alfredo Jaconi, contra o Juventude.
Abaixo, reportagem da Marie Claire sobre Sabrina Bittencourt.

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Ativista social e uma das mulheres que ajudou a desmascarar abusos sexuais de João de Deus e Prem Baba, Sabrina Bittencourt, 38, cometeu suicídio no sábado (02/02). Em nota de falecimento comunicada à imprensa assinada por Maria do Carmo Santos, presidente da ONG Vitimas Unidas, com a qual Sabrina trabalhava, a morte de Bittencourt foi confirmada.
“O grupo Vítimas Unidas comunica com pesar o falecimento de Sabrina de Campos Bittencourt ocorrido por volta das 21h deste sábado, 02 de fevereiro, na cidade de Barcelona, na Espanha, onde vivia. A ativista cometeu suicídio e deixou uma carta de despedida relatando os porquês de tirar sua própria vida. Pedimos a todos que não tentem entrar em contato com nenhum integrante da família, preservando-os de perguntas que sejam dolorosas neste momento tão difícil. Dois dos três filhos de Sabrina ainda não sabem do ocorrido e o pai, Rafael Velasco, está tentando protege-los. A luta de Sabrina jamais será esquecida e continuaremos, com a mesma garra, defendendo as minorias, principalmente as mulheres que são vítimas diárias do machismo”.
Antes de cometer suicídio, a ativista e Doutora Honoris Causa por seu trabalho humanitário pela UCEM – Universidad del Centro, no México, escreveu post em sua conta no Facebook em que fala sobre sua vida e a luta pelas mulheres e minorias. “Marielle me uno a ti. Eu fiz o que pude, até onde pude. Meu amor será eterno por todos vocês. Perdão por não aguentar, meus filhos.”. Sabrina, que morava em Barcelona, se matou no sábado (02/02) e deixa três filhos.
De família mórmon, Sabrina foi abusada desde os 4 anos por integrantes da igreja frequentada pela família. Aos 16, ficou grávida de um dos estupradores e abortou. Bittencourt dedicou a vida a militar por vítimas de abuso e a desmascarar líderes religiosos, dentre eles Prem Baba e João de Deus. Bittencourt é uma das criadoras do “movimento” Coame, sigla para Combate ao Abuso no Meio Espiritual, plataforma que concentra denúncias de violações sexuais cometidas por padres, pastores, gurus e congêneres. Sabrina ajudou, principalmente, as vítimas de abuso sexual de João de Deus, investigando as acusações junto à imprensa. Sabrina também auxiliou a filha do próprio médium, Dalva Teixeira, na denúncia contra o pai por abuso.
Em relato em primeira pessoa feito em dezembro de 2018 à Marie Claire, Sabrina conta sobre a vida de abusos e como se tornou uma das principais vozes e forças de apoio a vítimas de abuso sexual, principalmente dentro de grupos religiosos. Alvo de ameaças de morte, Sabrina vivia fora do Brasil e se mudava frenquentemente.
A seguir, leia na íntegra o post de Sabrina postado no Facebook na noite de sábado (02/02):
“Marielle me uno a ti. Somos semente. Que muitas flores nasçam dessa merda toda que o patriarcado criou há 5 mil anos! Eu fiz o que pude, até onde pude. Meu amor será eterno por todos vocês. Perdão por não aguentar, meus filhos. VOCÊS TERÃO MILHARES DE MÃES NO MUNDO INTEIRO. Minhas irmãs e irmãos na dor e no amor, cuidem deles por mim… ❤️ Eu sempre disse que era só uma pequena fagulha. Nada mais. Só pó de estrelas como todos. USEM A SUA PRÓPRIA VOZ. A SUA PRÓPRIA VONTADE. TOMEM AS RÉDEAS DE SUAS PRÓPRIAS VIDAS E ABRAM A BOCA, NÃO TENHAM VERGONHA! ELES É QUEM PRECISAM TER VERGONHA. Não aguento mais. Todas as provas, evidências, sistemas de apoio, redes organizadas e sobretudo, meu legado e passagem por aqui está entregue ou chegará às mãos corretas. As REDES DE APOIO AOS BRASILEIR@S FORAM CRIAD@S E SE EXPANDIRÃO NA VELOCIDADE DA LUZ! Não se desesperem. Dessa vida só levamos o mais bonito e o aprendido. Paulo Pavesi, eu sinceramente sinto muito pela morte do seu filho. Tenha certeza, que se eu soubesse da sua história na época, implicaria minha vida e segurança como fiz com centenas de pessoas. Damares, eu sei que você não teve tratamento psicológico quando deveria e teve sequelas, servindo de marionete neste sistema de merda que te cooptou, acolheu e com o qual você se sente em dívida o resto da sua vida. Não tenho dúvidas que você amou e cuidou da sua “Lulu” como gostaria de ter sido cuidada e protegida na sua infância, mas ela nao é uma bonequinha bonita que você poderia roubar e sair correndo… Giulio Sa Ferrari, eu te considerei um irmão e você sabia de todas as minhas rotas de fuga… eu vi em você a pureza de um menino que nunca foi notado por uma sociedade neurotípica que não entendia os neuroatípicos, mas reputação é algo que se constrói e não é de um dia ao outro. Gabriela Manssur, muito obrigada por me fazer ter esperança de que elas serão ouvidas e atendidas em suas necessidades. João de Deus, Prem Baba, Gê Marques, Ananda Joy, Edir Macedo, Marcos Feliciano, DeRose Pai, DeRose filho, todos os padres, pastores, bispos, budistas, espíritas, hindús, umbandistas, mórmons, batistas, metodistas, judeus, mulçumanos, sufis, taoístas, meus familiares, Marcelo Gayger, Jorge Berenguer, eu desconheço a sua infância e a sua criação pelo mundo, mas sei no meu íntimo que TODO MENINO NASCEU PURO e foi abusado, corrompido, machucado, moldado, castrado, calado, forçado a fazer coisas que não queria, até se converter talvez, cada um à sua maneira, em tiranos manipuladores (em maior ou menor grau) que ao não controlar os próprios impulsos, tentam controlar a quem consideram mais frágil e assim praticam estupros, pedofilia, adicções diversas… Eu sei, eu sinto, eu vi. Mas ainda assim, preferi SEMPRE ficar do lado mais frágil nesta breve existência: mulheres, crianças, idosos, jovens, povos originários, afrodescendentes, refugiados, ciganos, imigrantes, migrantes, pessoas com deficiência, gays, pobres, lascados, fudidos, rebeldes e incompreendidos… Essa vida é uma ilusão e um jogo de arquétipos do bem e do mal, de dualidades… desde que o mundo é mundo. Vivo num outro tempo desde que nasci e sempre senti que vivia num mundo praticamente medieval. Volto pro vazio e deixo minha essência em PAZ. Aos meus amigos, amadas e amantes, nos encontraremos um dia! Sintam meu amor incondicional através do tempo e do espaço. SIM e FIM.”
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Obs. do editor: Não tenho boas alternativas, mas não gosto da expressão “cometeu suicídio”. A pessoa comete crimes ou ilícitos. Acho que tirar a própria vida, matar-se, suicidar-se ou abandonar a vida é um direito.
Era um problema. Um pequeno grande problema. Não, era um grande problema. Simplesmente, ele não tinha dinheiro para comprar o presente de aniversário para o filho. Ele possuía uma pequena empresa à qual não conseguia dar atenção e havia um acordo do casal: a mulher estava fazendo doutorado — estudava, pesquisava e recebia uma bolsa, enquanto ele cuidava da empresa e das crianças. Júlio levava-as e buscava-as no colégio, ia e vinha, trabalhava apenas até às 16h30, depois saía correndo para pegá-las. Em vários dias de semana, levava-as para almoçar ao meio-dia. Pela manhã, chegava cedo na empresa a fim de organizar as coisas, mas os clientes só chegavam ou telefonavam mais tarde. Os finais de semana também eram passados com os guris. Ele vivia na certeza de que ia falir. Sentia-se como se acelerasse um carro de encontro a um muro, sem conseguir uma forma de desviar ou parar.
Seu sócio já estava atrás de um emprego. Era uma boa pessoa, disse que eles não tinham perfil de empreendedores e que ia embora logo que pudesse.
Ele não podia — ou pensava que não podia — descumprir o acordo com a mulher. Tinha garantido que tirava de letra. Dissera para ela gastar o dinheiro da bolsa com ela mesma e ele arranjaria o resto. Seria briga certa e grave se ele quisesse alterar o acordo. Com a palavra empenhada, escondia as dívidas da mulher — o colégio dos filhos estava com pagamentos em aberto — e tinha vergonha de pedir dinheiro a ela que, além disso, faria perguntas. A situação já perdurava há meses e ela já falara que o salário dele na firma devia ser uma pensãozinha. Ah, se ela soubesse…
Júlio adorava os filhos. Gostava de brincar e de conviver com eles. Esquecia dos problemas na companhia dos filhos. Divertia-os com sua presença. Então, havia uma ilha de pobreza em casa, ilha que ele tratava de esconder sob as névoas da alegria infantil e do bom humor.
Mas como não dar um presente?
No domingo seguinte, ele levou Leo a um jogo de futebol para o qual o menino tinha sido convidado. O pai de um amigo do filho tinha alugado uma quadra de futsal pras crianças. Júlio tinha só o pouco dinheiro do bolso. Os valores no banco, estes só apareciam em algarismos vermelhos. Quando chegaram, Leo pediu para que ele colocasse uma moeda numa máquina que dava em troca uma bolinha transparente. Era uma surpresa. Dentro vinha um chiclete e um bichinho de plástico que quebrava em dois dias. A moeda não mudaria grande coisa da situação, mas mesmo assim Júlio hesitou em gastá-la e o menino deve ter notado.
Então Leo disse:
— Tu não me deu nada de aniversário. Quero isso. Vale como presente.
Recebeu a moeda.
— Taqui meu presente, pai! Achei legal! Guarda pra mim?
Ele foi jogar bola e Júlio ficou na beira da quadra, lutando contra as lágrimas, ainda mais isolado. Sem poder e sem saber como gritar.
(Então, como havia quatro pais assistindo o jogo, Júlio foi convidado a jogar. Dois para cada lado. Os pais não procuravam tirar a bola das crianças, mas enfrentavam-se um ao outro em jogadas gentis, sem nenhum impacto físico. Não queriam machucar um ao outro, tratavam-se com respeito enquanto riam e gritavam como crianças. Júlio era um bom jogador, mas estava desconcentrado, ainda comovido com o gesto de Leo. Foi quando recebeu uma batida de ombro do pai que era o dono da festa. Não foi com força, mas Júlio pensou vou cair e caiu. O outro pediu desculpas e estendeu-lhe o braço, perguntando se tinha se machucado. Não, não foi nada, estou bem.
Júlio foi invadido por um ressentimento avassalador. O cara que lhe derrubara tinha um tremendo carro, esbanjava seu dinheiro para divertir o filho. Os outros dois pais também tinham aquele jeitão de bem-sucedidos. E Júlio deixou de correr, com um azedume tipicamente infantil. Quando cruzou com o pai rico, tentou dar-lhe uma rasteira.
O homem não gostou
)
Pois o Inter entra em campo apenas segunda-feira para mostrar seu futebol de segunda categoria. Assim estamos. Uma bagunça geral. Em nosso time, quem tiver vontade bate pênalti. Pedro Lucas foi o melhor jogador que atuou na centroavância em 2019, então nem fica na reserva. Joga Tréllez, dispensadíssimo no São Paulo. Ou Pottker, de quem ainda falaremos. Odair já diz “não estar sofrendo pressão”. Tá bom. Nico López — melhor jogador do time –se consagrou e diz pra todo mundo que gosta de jogar no meio, então Odair o coloca pela direita, usando um lendário senhor de quase 38 anos no meio. Melhor seria preservá-lo, imitando que a Roma fazia com seu ídolo Totti. Parece que o técnico está refém de alguns jogadores “mais salientes” e sabemos onde isso vai parar. A mesma defesa que era um paredão agora só vaza. Sarrafiore entra aos 40 do segundo tempo para resolver o jogo — e o incrível é que o time melhora –, mas não inicia os jogos. Pottker há um ano é uma piada, só atrapalha. Faria mais se caminhasse em campo, falo sério. Fizemos 3 gols em 4 jogos… Não há nem triangulações, parece que o time não treina. O elogiado Nonato não foi visto em campo. Deve ter um mau empresário. O recém contratado lateral Bruno não parece ser do ofício. Do ofício de jogador de futebol. E Zeca? Este deve ter músculos de gelatina, sempre sentido desconforto muscular, Fica olhando o Bruno e pensando “não quero jogar”, “não quero jogar”…
Odair, iniciamos o ano muito mal. Eu e a toda a torcida colorada estamos apavorados. Libertadores? Bah, nem me fala nisso.

O Médico e o Monstro (O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde) é uma novela escrita por Robert Louis Stevenson para o Natal de 1865. Este período é tradicionalmente associado a histórias horripilantes na Inglaterra. Lembram de A Christmas Carol de Dickens e de O Ladrão de Cadáveres do próprio Stevenson? Pois é, são o mesmo tipo de narrativa, mas inferiores em qualidade. A publicação de O Médico e o Monstro acabou adiada para janeiro de 1886. Era uma encomenda, devia ter aproximadamente 100 páginas para custar bem baratinho. O resultado foi espantoso: o livrinho foi um enorme sucesso, vendeu 40 mil exemplares nos primeiros seis meses na Inglaterra, foi lido por todo mundo, inclusive pela Rainha Vitória, influenciou toda a literatura de inspiração gótica de sua época, que costumava usar castelos, épocas e locais remotos como palco de estranhos acontecimentos.
Já a novela de Stevenson era diferente. Tinha sua ação situada na Londres da época, com suas ruas escuras e seu fog. Não havia precedentes de histórias que pudessem acontecer na casa vizinha. Mais: não havia precedentes de histórias relativamente plausíveis. Mr. Hyde não é sobrenatural, não é um monstro, apesar de pisar em criancinhas.
O primeiro rascunho de Jekyll e Hyde foi queimado. A esposa de Stevenson, Fanny, reclamou que a alegoria não era forte o suficiente e simplesmente jogou o manuscrito no fogo. Stevenson ficou de cama por três dias e depois escreveu uma nova versão. Envergonhado, disse que era a pior coisa que tinha escrito, mas Fanny gostou da nova versão. Ela sabia das coisas.
O impacto do romance foi enorme e tornou coloquial a expressão “Jekyll e Hyde” usada para indicar uma pessoa que age de forma moralmente diferente, dependendo da situação. A obra explora brilhantemente não somente o terror e a violência, mas o fenômeno das múltiplas personalidades — ou, no mínimo, do lado escuro, mau e escuso que carregamos.
Ou seja, a novela é uma parábola que assusta não somente por conter acontecimentos extraordinários, mas também por estar muito perto de nossa vida psicológica. Quem não tem um lado escuro que por vezes deseja o mal, quem não peca em segredo? E quem não cultiva uma imagem melhor do que a que vê de si mesmo? Note-se também que a Inglaterra vitoriana respeitava neuroticamente reputações e aparências. E Stevenson nos mostra um médico com um lado indefensável.

Sem spoilers: na narrativa, o advogado londrino Gabriel Utterson investiga estranhas ocorrências entre seu velho amigo médico Henry Jekyll e um certo Edward Hyde. Utterson estava preocupado, pois recentemente seu cliente, o respeitável médico Dr. Henry Jekyll, tornou Hyde beneficiário de seu testamento. Quem seria Hyde?
Alguns dias depois, o advogado consegue se encontrar com Hyde e fica muito impressionado. É um ser repugnante e asqueroso, lombrosiano. Sua simples visão deixa o advogado congelado e enojado. Após um jantar na casa de Jekyll, Utterson discute o assunto com o médico, mas este garante que está tudo sob controle e que não precisa absolutamente se preocupar. Meses depois, numa noite, Hyde espanca um importante membro do parlamento com uma bengala que Utterson presenteara a Jekyll.
E não vou contar o resto.
A narrativa é espetacularmente bem escrita. Seu estilo foi tão copiado, mas tão copiado que parece conter clichês. É claro que há mistério e reviravoltas na luta entre o bem e mal. O palco desta luta é interno, psicológico. Não é uma novela apenas para assustar, ela deixa-nos espreitar que toda pessoa carrega diferentes características dentro de si. Algumas delas são exibidas, outras não.
Recomendo demais.

Como disse o Julio Linden, há duas certezas na 1ª fase do Gauchão: (1) o Inter jogará sob um calor de 50 graus no gramado sintético do Passo d`Areia e (2) o Gre-Nal será na Arena.
E foi sob forte calor que nós vimos mais um fiasco do teu time, Odair. Com Patrick em campo, novamente perdido, o time voltou a não ter articulação e só jogou bola quando já perdíamos por 2 x 0. Tá meio na cara que precisamos de um articulador, mas Sarrafiore só entrou quando faltavam 10 min para o jogo terminar. Mesmo sem ser brilhante, o argentino deu algum trabalho.

Alias, tuas substituições ontem foram atabalhoadas e inúteis até a entrada de Sarrafiore. A torcida, que não tem razão ao atirar pedras no ônibus do clube, tem toda a razão ao protestar: teu time foi mal escalado — Lindoso e Rithely saíram jogando, enquanto Nonato e Ramon, elogiadas joias da base, ficaram chupando o dedo –, com zero de entrosamento e sem muita perspectiva, mesmo considerando que são reservas. Todos os colorados estão preocupados, pois é quase um recorde ver o clube em crise antes de entrar em fevereiro. Nem o trágico 2016 foi assim. E não começar com Sarrafiore foi patético.
Ou seja, estamos muito mal. A torcida já está puta e pedindo tua cabeça. Não digo que o time não tenha vergonha, tu é que obedeces os medalhões e nunca tira ninguém por estar em má fase. Pottker e Patrick, que estão muito mal há seis meses, que o digam. Têm lugar perpétuo. Dale também. Eu fico imaginando a motivação desses garotos que subiram: Nonato, Sarrafiore, Richard, etc. Vão precisar de auxílio psicológico para entrar em campo. No dia em que entrarem, os coitados.
Odair e Cia. precisam parar com o discurso de início de temporada, de chegada de novos jogadores etc. Isto não é uma exclusividade do Inter. Outros na mesma condição mostram um futebol organizado, sem as desculpas. Não falo de resultados, mas de organização tática e técnica. Em três jogos o Inter não apresentou nada em 2019, independente das escalações.
Eu sou contra mudar técnicos, OK? Mas hoje descobrimos que tu, Odair, passaste as férias sem pensar. Patrick não pode jogar na armação. É um volante. Ou joga ali ou é banco. Pottker não é para o Inter. E talvez Dale deva entrar só no segundo tempo. Mas como convencer um cabeça dura como tu a iniciar o jogo com Neilton e Sóbis? Enquanto isso, Nico López joga sozinho, coitado.

E o time fica sem ataque, se atrapalha em casa contra times fechados, blá-blá-blá. Sim, blá-blá-blá porque isso a gente já sabia do ano passado, né? Cansei de repetir os mesmos argumentos. Novidade nenhuma. Os jogos em casa eram um parto porque não sabíamos atacar. Ontem PERDEMOS para o PELOTAS.
Sei que é cedo, mas acredito que vale o alerta. Não estamos mais em época de reconstrução e temos jogadores e possibilidades melhores do que as que são escaladas.
Será que será mais um ano de ir atrás de uma vaga na Libertadores 2020? Porque, desse jeito, vamos cair na fase de grupos.
O Alexandre Perin acaba de contar a seguinte história:
o São Caetano tinha 2 jogadores de meio campo promissores e negociou um com o Grêmio e um com o Inter.
Matheus, o que foi pro Grêmio, teve 1195 minutos em campo em 2018 com o time principal.
Nonato, o que foi pro Inter, teve ZERO minutos em campo em 2018 com o time principal.
Assim é o Inter. No nosso time só jogam medalhões como Patrick e Pottker. Os guris que se ralem.
“Eu não quero ser mártir. Eu quero viver”, escreveu Jean Wyllys.
Só se vive uma vez e ninguém é obrigado a ser mártir, ainda mais perdendo a vida para um tiro de um miliciano bolsonarista. Todos sabem que os perfeitamente imbecis Jair Bolsonaro e Alexandre Frota são os maiores inimigos de Wyllys. E ele tem sido multi-ameaçado, ainda mais depois que se descobriu que quem matou Marielle Franco — também do PSOL — está ligado até por seus empregos à família Bolsonaro. Sim, dá medo. Dá muito mais medo do que discursar em Davos.
Ele já está no exterior e não irá retornar para o Brasil. Pretende seguir a carreira acadêmica, dedicando-se a um doutorado e ao livro que está escrevendo.
O suplente de Jean é o vereador carioca David Miranda, que também é homossexual assumido e marido do jornalista Glenn Greenwald, fundador do Intercept, com quem tem dois filhos. Sai um LGBT, entra outro.
A luta continua.
Sei muito bem que, nas redações, os jornalistas recebem muitas denúncias, boa parte delas furadas, apenas nascidas da vontade de se vingar de alguém, etc.
Mesmo assim, as denúncias que valeria a pena investigar sempre superam o número de jornalistas disponíveis, pois, é claro, ir atrás de uma denúncia requer tempo para checagem, para estabelecer contatos, enfim, é caro manter uma equipe como a do filme Spotlight para correr atrás de denúncias que às vezes não darão notícias, mas que sempre darão muito trabalho. Ainda mais que, por outro lado, há a necessidade de alimentar o sempre pantagruélico jornal com novidades diárias.
Porém, tudo isso se altera quando um beócio como Alexandre Frota — sim, aquele que fala pelo “Jair” — avisa que vai destruir a Globo e se aproximar dos pastores da Universal. Resultado: a emissora vai atrás de cada denúncia que recebe sobre a famiglia Bolsonaro e descobre horrores. Aposto que a Globo até segura o que já sabe para dar um escândalo a cada 2 ou 3 dias, como um conta-gotas. E também aposto que há um crescente time de denunciantes ligando para a Redação.
Quem planta inimizades não pode ter telhado de vidro.
(E Moro permanece silencioso como um capanga)
Aquilo não era um time, apenas um ajuntamento de última hora, Odair. Então, é impossível falar em organização. Sim, na coletiva tu falaste em organização. Elogiaste a partida e a sincronia de movimentos dos reservas. Balela, achei (achamos) cômico. Aqui neste espaço podemos ser mais razoáveis e falar somente em individualidades. Aquilo não foi um time, foi um horror. Então, falemos dos jogadores individualmente.

Emerson Santos e Roberto foram surpreendentemente bem. Emerson jogou até de lateral, e muito bem. Roberto fez uma bela estreia.
Neílton repetiu seus bons jogos no Vitória. Foi para cima dos adversários e sempre obteve vantagem. Na minha opinião, acabará titular.
Pedro Lucas e Rithiely fecham o grupo dos que jogaram bem.
Daniel, Klaus, Iago, Bruno José foram aceitáveis.
Sarrafiore iniciou bem e foi afundando. É um caso para ser observado, porque parece que “pode ser bom”.
Lindoso, Parede e Juan Alano foram medonhos, mas o pior mesmo foi Uendel, uma piada. Não parecia estar muito interessado em jogar futebol. Curiosamente, recém teve seu contrato expandido.
O jogo? O jogo foi chatíssimo. Uma várzea completa. Uma perda de tempo assistir. Valeu pelos 3 pontos em um campeonato que não interessa muito.
A próxima partida do Inter será na quinta (24), às 21h15, contra o Pelotas. O time que entrará em campo será o titular e, desta vez, esperamos um futebol melhor.
Dias antes do falecimento de Aldyr Garcia Schlee (1934-2018), em novembro do ano passado, recebemos na Bamboletras seu último livro, O Outro Lado – Noveleta Pueblera (Ardotempo, 152 páginas). A leitura do livro, realmente muito bom, só pode nos deixar ainda mais tristes pela perda. A primeira coisa que chama a atenção é a linguagem fronteiriça, algo que talvez só se mantenha naquela região. Costumava ouvir muitas daquelas palavras e expressões da boca de meus pais, parentes e amigos. E isso só até os anos 60 ou 70, porque depois parece que fomos invadidos por um dicionário urbano, feio e descolorido. A linguagem utilizada por Schlee é linda, muito influenciada por uruguaios e argentinos.
Schlee foi escritor, jornalista, tradutor, desenhista e professor universitário. Fundou a Faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas / UCPel e de lá foi expulso durante o golpe civil militar de 1964. Sua cidade, Jaguarão, é ligada ao Uruguai pela bonita ponte que está na capa de O Outro Lado.
O Outro Lado conta a história de Martita e José Jacinto, personagens humildes em uma paisagem deserta. José Jacinto é um andariego sem paradeiro que gosta mais de pueblos do que de cidades e que vive circulando entre as coxilhas. Martita é a mulher que o espera. É daqueles livros em que delicadas nesgas poéticas giram em torno de um fato muito forte que… não contarei. É um livro é comovente sem ser piegas — ou uma história nada simples de gente humilde. É diferente daqueles livros amalucados de Schlee – também ótimos — sobre Gardel, Jaguarão e Melo, como, por exemplo, O Dia em que o Papa foi a Melo, livro de contos que deu origem ao filme O Banheiro do Papa.
Schlee tem extremo senso de estilo e bom gosto literário. Ele amava o Brasil de Pelotas e o Inter de Porto Alegre. Nossa, foi uma pessoa perfeita, daquelas que estavam lá no topo da evolução.
Recomendo muito.
