Se não tivesse cruzado com Mark Chapman, provavelmente John Lennon faria 80 anos hoje

Se não tivesse cruzado com Mark Chapman, provavelmente John Lennon faria 80 anos hoje

Hoje, John Lennon faria 80 anos.

Desnecessário explicar que John Winston Ono Lennon (Liverpool, 9 de outubro de 1940 – Nova Iorque, 8 de dezembro de 1980) foi cantor, compositor e que fundou, com outros rapazes de Liverpool, os Beatles, a banda de maior sucesso da história da música popular. Não preciso dizer que sua parceria com o  colega de banda Paul McCartney foi uma das mais célebres da história da música. Também todo mundo sabe que os outros beatles eram George Harrison e Ringo Starr. E é de conhecimento geral que ele seguiu carreira solo após a separação dos Beatles em abril de 1970.

Menos gente sabe que foi ele quem, em 1956, formou sua primeira banda, The Quarrymen, e que esta foi a origem da criação dos Beatles em 1960. Inicialmente ele era o líder de fato do grupo, porém depois passou a dividir o posto com McCartney. Lennon se caracterizou pela natureza rebelde e sagaz de sua música e letras.  No auge de sua fama, na década de 1960, ele publicou dois livros: In His Own Write e A Spaniard in the Works, ambos coletâneas de escritos meio sem sentido e desenhos rabiscados. Começando por All You Need Is Love e seguindo por várias outras como Imagine e Happy Xmas, suas canções foram adotadas como hinos pelo movimento pacifista e pela contracultura da época.

Após mudar-se para Nova Iorque em 1971, suas críticas frequentes e contundentes contra a Guerra do Vietnã resultou em uma longa tentativa do governo Richard Nixon de deportá-lo. Em 1975, Lennon se retirou da indústria musical para cuidar de seu segundo filho, Sean, e em 1980 retornou com o álbum Double Fantasy. Ele foi assassinado em frente à sua casa em Manhattan por Mark David Chapman, um fã dos Beatles, três semanas após o lançamento de seu último álbum.

Como intérprete, compositor ou colaborador, Lennon teve 25 canções na primeira posição da Billboard. Double Fantasy, seu álbum solo mais vendido, venceu o Grammy para Álbum do Ano logo após sua morte. Em 1982, o Brit Award de Contribuição Excepcional à Música foi dado a ele postumamente. Em 2002, Lennon foi eleito o oitavo maior britânico de todos os tempos pela British Broadcasting Corporation. A revista Rolling Stone o elegeu o quinto melhor cantor da história e o incluiu na lista dos cem maiores artistas de todos os tempos. Em 1987, ele foi introduzido no Songwriters Hall of Fame. Lennon ainda entrou no Rock and Roll Hall of Fame duas vezes: como membro dos Beatles em 1988 e como artista solo em 1994.

A célebre foto que Annie Leibovitz tirou de John Lennon e Yoko Ono para a Rolling Stone

Vamos começar pelo fim. Eram 23h do dia 8 de dezembro de 1980. John Lennon e sua mulher Yoko Ono voltavam para o apartamento do casal no luxuoso Edifício Dakota e isto era justamente uma das coisas que Mark Chapman não suportava. Afinal, Lennon cantara em Imagine um mundo sem posses e lá estava ele, entrando em sua casa, localizada num dos endereços mais valiosos de Nova Iorque. Era uma flagrante incoerência. Outra coisa que Chapman não podia admitir eram as muitas alusões religiosas de Lennon, nas entrevistas e nas canções.

Cristão, Chapman se irritara com a frase proferida por Lennon ainda na primeira fase dos Beatles: “Somos mais populares que Jesus Cristo”. Irritou-se ainda mais com o clássico Imagine, onde Lennon cantava que nem céu nem inferno existiam e com God, do primeiro disco pós-Beatles, onde Lennon dizia que “Deus é um conceito através do qual medimos nossa dor”. Não obstante a irreligiosidade, Lennon parecia muito feliz com sua Yoko e ainda era muito rico. Aquilo era demais para Chapman, uma pessoa que ouvia vozes e recebia ordens do além.

Uma das últimas fotos de John Lennon vivo, feita pelo fotógrafo amador Paul Goresh, exibe Lennon autografando o álbum Double Fantasy para seu futuro assassino. | Foto: Paul Goresh

Chapman tinha 25 anos e uma relação confusa com seu maior ídolo. Ao final da tarde daquele mesmo dia, ele, junto com outros fãs, encontrara-se com Lennon e pedira-lhe um autógrafo em seu último LP, Double Fantasy. Lennon autografara a capa do vinil. Às 23h, antes de efetuar cinco disparos contra o ex-beatle, ele gritara “Mr. Lennon!”. Errou o primeiro tiro, mas os outros quatro atingiram Lennon. Um deles acertou a aorta – artéria mais importante do corpo humano. John Lennon caiu e começou a perder rapidamente sangue. O porteiro do Dakota desarmou facilmente Chapman e perguntou: “Você sabe o que fez?”. A resposta foi tão simples quanto a pergunta: “Sim, eu atirei em John Lennon”. Então, o assassino de Lennon sentou-se na calçada e esperou pela polícia.

O corpo foi cremado dois dias depois. A viúva Yoko Ono nunca fez um funeral. Mark Chapman foi condenado à prisão perpétua, com possibilidade de liberdade condicional após 20 anos, isto é no ano 2000. Porém, o benefício foi-lhe negado sete vezes – uma vez a cada dois anos, desde 2000. Em todas as oportunidades, Yoko interpôs-se alegando que sua vida, a de seus filhos e até a de Chapman correriam riscos.

John com sua mãe Julia: aulas com uma péssima tocadora de banjo

Naquela calçada de Nova Iorque, acabava a carreira de um dos músicos mais importantes do século XX e tornava impossível o sonho de muitos fãs dos Beatles: o de um retorno da banda.

Como dissemos acima, John Winston Lennon nasceu em 9 de outubro de 1940. O nome John foi uma homenagem ao avô paterno e o Winston era devido ao ex-primeiro ministro inglês Churchill. Seu pai era um certo Alfred Lennon, que trabalhava na marinha mercante durante a Segunda Guerra Mundial e mandava dinheiro para sua mãe Julia e para o pequeno John, que viviam em Liverpool. O dinheiro deixou de vir quando Alf desertou. John foi criado mais pela rigorosa tia Mimi do que por Julia. Esta desafiava as convenções de que sua irmã Mimi era escrava. Adorava uma plateia e encontrou em John e seus amigos um excelente público. Ela cantava e tocava banjo. Porém, havia o outro lado. Tia Mimi condenava a postura de adolescente rebelde de John e, talvez para afrontá-la, Julia deu a seu menino o primeiro violão, ensinando-lhe os poucos acordes que aprendera para o banjo. Julia morreu subitamente. Foi atropelada por um carro em 1958 e não resistiu.

Um violão? Tudo bem, mas você jamais ganhará a vida com ele.
Tia Mimi

Em 1956, aos 16 anos, John Lennon, armado de seu novo instrumento, recrutava colegas de turma para formar os Quarrymen, que seria o início de sua carreira musical. Em 1957, Paul McCartney viu os Quarrymen em ação, mostrou suas habilidades ao líder John e entrou para banda. Em fevereiro de 1958, ocorreu o mesmo com George Harrison. Estava formado núcleo principal daquilo que seriam os Beatles. Dois anos depois, a banda trocou de nome 5 vezes, até chegar a The Beetles (os besouros) em homenagem a The Crickets (os grilos), banda de Buddy Holly. The Beetles mudou para Beatles porque, assim, o nome derivaria tanto de besouros quanto de beat (batida, ritmo).

A primeira foto de Lennon e McCartney: se Paul compõe, melhor fazer o mesmo

Paul McCartney compunha canções. Então John, para não ficar em segundo plano – logo ele, o fundador da banda – , começou a fazer o mesmo. Na verdade, os mais famosos parceiros de todos os tempos – a dupla Lennon & McCartney – , não costumavam reunir-se para trabalharem juntos. As canções eram escritas por um e depois o outro dava seus pitacos. Há uma regra quase infalível para se descobrir de quem é cada música: basta ouvir quem canta. Se Lennon cantar, é dele; o mesmo valendo para Paul McCartney. Este teste serve para demonstrar o quanto eram diferentes. E bons, muito bons.

Uma das poucas canções que tem melodias de ambos é A day in the life, onde a primeira parte é de Lennon e a segunda, mais rápida, de McCartney. Grosso modo, as canções de Lennon são mais rock ´n´ roll e têm letras mais elaboradas, muitas vezes ácidas. Já Paul é um inventor imbatível de melodias. John escreveu, por exemplo, Help, I’m a loser, You’ve got to hide your love away, Nowhere man e Norwegian Wood na primeira fase do grupo. Durante a segunda fase dos Beatles, John mostrou-se também um grande letrista em Lucy in the sky with diamonds, I am the walrus, Revolution, Julia, Happiness is a warm gun, All you need is love, Strawberry Fields Forever, A day in the life e Across the Universe, entre outras.

O fim dos Beatles foi causado pelas diferenças entre Paul e John, apesar de grande parte dos fãs da época preferirem acusar Yoko e Linda, mulher de McCartney, como as causadoras da separação. Os dois casais pareciam caminhar em paralelo, mas acabaram colidindo. Em março de 1969, Paul e Linda se casaram. Oito dias depois, foi a vez de John e Yoko fazerem o mesmo em Gibraltar. Mas o estilo de Lennon era outro. Em vez dos sorrisos e da privacidade escolhidas pelo casal McCartney, John e Yoko foram para o Amsterdam Hilton a fim de protagonizarem um grande happening de protesto. A polícia holandesa se assustou, mas o protesto era bastante pacífico. Eles anunciaram que deixariam o cabelo crescer e que passariam uma semana sobre a cama, “pela paz, contra a violência e o sofrimento do mundo”. Tudo está explicado na canção The ballad of John and Yoko e em  Give peace a chance. (Esta canção, de 1969, marcou o começo de um processo que culminou, em 1972, com a tentativa do presidente norte-americano Richard Nixon de deportá-lo dos Estados Unidos.)  Mas, além das diferentes bodas, havia uma questão financeira.

John queria que os negócios do grupo fossem dirigidos por Allen Klein, um hábil contador norte-americano que já tinha organizado e deixado ainda mais multimilionários os Rolling Stones — retirando dinheiro das gravadoras a fim de depositá-lo na conta de seus clientes. Em contrapartida, Paul desejava que o gerente fosse Lee Eastman, seu sogro, um conhecedor de questões internacionais sobre direitos autorais. Foi uma batalha que acabou com Paul McCartney deixando os Beatles em 1970, o que provocou o fim da banda.

Após o final dos Beatles, John Lennon seguiu gravando excelentes álbuns, como o primeiro, John Lennon and the Plastic Ono Band, e o segundo, Imagine, onde podemos encontrar Working Class Hero, Mother e God, no primeiro, e Jealous Guy e Imagine, no segundo. No último álbum, Double Fantasy, gravado com músicas suas e de Yoko após cinco anos de reclusão, ainda havia uma grande canção, Watching the Wheels.  Neste disco, em (Just Like) Starting Over, John faz referências à sua volta. Esta canção e Woman atingiram o primeiro lugar nas paradas de sucesso norte-americanas e inglesas, impulsionadas pelo tiro desferido por Mark Chapman. Após ter carregado por toda a vida a mágoa de ter convivido muito pouco com a mãe, John deixou sua carreira paralisada por cinco anos a fim de ver seu filho Sean crescer. Porém, de forma simétrica, Sean não teve melhor sorte: tinha cinco anos quando o pai foi assassinado.

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— Qual o seu nome?
— Joleno.
— Putz, de onde a tua mãe tirou esse nome?
— Dos Bitus.

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John Lennon traduziu angústias masculinas que dizem tanto ao século XXI

Do Pragmatismo Político

John Lennon não foi o melhor músico e — alguns vão objetar, mas subjetividades são sempre subjetividades — tampouco o mais bonito dos Beatles. Talvez até fosse o mais inteligente, o mais experimental, embora os fãs de Paul, de George e mesmo de Ringo sempre tenham lá seus argumentos.

O que não dá para negar é que, nesta sexta-feira do seu aniversário de 80 anos de idade, Lennon sobrevive na memória coletiva como o melhor espelho para o homem desconstruído de 2020 — aquele que foi levado a reavaliar preconceitos, traumas, questões de poder, religião e a própria masculinidade. Com uma vantagem: dessa inquietação, o inglês fez canções que são patrimônio da humanidade.

“E afinal, o que é rock’n’roll? Os óculos do John ou o olhar do Paul?” A troça, feita por Humberto Gessinger e seus Engenheiros do Hawaii na canção “O papa é pop”, põe na mesa a eterna rivalidade, camuflada no interior da parceria Lennon-McCartney, que serve de combustível até hoje para intermináveis conversas de bar (ou melhor, de Zoom, dados os tempos pandêmicos).

John era o beatle sarcástico, cerebral, revoltado, que não se esquivava das polêmicas — um irresponsável capaz de dizer que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. E Paul, o compositor do sentimento aflorado, que fazia as grandes canções de amor dos Beatles e que entendia como ninguém os anseios do seu público.

No entanto, nos 50 anos passados desde o fim dos Beatles, o público mudou, bem como as sensibilidades. As grandes canções de amor, é verdade, resistem, assim como Paul, que antes da pandemia continuava bem ativo nos maiores palcos do mundo. Mas o “zeitgeist” nervoso do pop de 2020 tem muito mais a ver com John, um artista que não se acanhou em transformar a terapia em arte, abrindo a alma diante do que a vida trazia para ele, fossem separações, crenças, mágoas, posições políticas, o mal-estar com si mesmo ou o pesadelo após o fim da lua-de-mel com as drogas.

“A única razão pela qual faço música e sou uma estrela é que aqui posso dar vazão às minhas repressões”, disse certa vez.

Sexo, raiva e ativismo

Ainda com os Beatles, Lennon pediu socorro ante o turbilhão de fama que o engolira (“Help!”) e falou de depressão (“You’ve got to hide your love away”), de infidelidade (“Norwegian wood (this bird has flown)”) e do incontrolável desejo sexual (“I want you (she’s so heavy)”). Em carreira solo, expôs sua raiva em relação a McCartney (“How do you sleep?”), mandou o povo ocupar as ruas (“Power to the people”) e, inspirado pela teoria do grito primal do psiquiatra Arthur Janov, exorcizou a perda da mãe, quando criança, em “Mother” — a intensa faixa de abertura de seu primeiro álbum pós-Beatles.

Aos poucos, Lennon repensou sua atitude abusiva de homem inglês de sua época (“Eu costumava ser cruel com minha mulher, e fisicamente — com qualquer mulher”, admitiu) e, a partir do romance com Yoko Ono, o feminino passou a ter centralidade em sua obra. Ele não apenas defendeu Yoko diante dos outros beatles e dividiu discos com ela, mas de forma absolutamente franca falou de seus erros nessa relação (em “Jealous guy”) e na que teve com a ex-mulher, Cynthia.

Depois de um tempo conturbado de separação de Yoko e muita farra (o “lost weekend”), em 1975 John tomou a decisão de interromper a carreira para, junto da mulher, cuidar do filho Sean — o que não conseguira fazer com Julian, filho que teve com Cynthia no começo do sucesso dos Beatles. E, pouco antes de ser assassinado na porta de casa, em 8 de dezembro de 1980, deixou a canção “Woman”, para Yoko.

Quando propunha um mundo sem religiões, em “Imagine”, John Lennon já considerava Deus “um conceito pelo qual medimos a nossa dor” (na letra da canção “God”). Era a expressão madura de um artista que, anos antes, quando os Beatles foram à Índia, ousara questionar o guru Maharishi Yogi e que conseguiu transformar indagações sobre a existência em um hit de rádio (“Whatever gets you thru the night”, em 1974). Com a postura que tem muito a ver com o niilismo dos tempos atuais, Lennon já dizia nos 70: “Não consigo te acordar, você pode se acordar. Não posso te curar, você pode se curar”

Um dos poucos artistas do rock de sua época cujo ativismo político foi consistente — do bed-in com Yoko (contra a Guerra do Vietnã) e o apoio aos Panteras Negras às críticas sociais de “Working class hero” —, Lennon pagou o preço. Se hoje as pessoas reclamam da vigilância eletrônica sobre suas opiniões, há que se lembrar que, nos anos 70, o beatle duramente foi investigado pelo FBI por suas posições antimilitaristas e esquerdistas. E esteve, durante anos, sob a ameaça de ser deportado dos EUA — como tantos imigrantes por lá hoje.

Pode-se tentar imaginar o que John Lennon estaria fazendo e pensando aos 80 anos. Talvez admirasse os jovens progressistas de 2020, talvez apreciasse as redes sociais — ou tivesse muitas críticas a tudo. Mas pode ser ainda que repetisse o conselho do Lennon fictício, velhinho e anônimo, do filme “Yesterday” (2019), passado numa realidade paralela em que ele e Paul nem chegaram a montar os Beatles: “Diga a verdade a todo mundo que você conhece.”

Sessão de Terapia

No deserto de boas opções brasileiras na TV, merece especial atenção a série do GNT Sessão de Terapia, versão brasileira do original israelense Be Tipul e que já foi adaptada em 30 países. A ideia é simples: a série ficcional acompanha o psicólogo Theo Cecatto (Zécarlos Machado) em sua interação diversos pacientes. Então, exibidos diariamente, cada episódio foca-se na história de um deles e de seus efeitos na avaliação do terapeuta, realizada por sua supervisora Dora (Selma Egrei). A direção é de Selton Mello.

Não sei — e talvez não interesse saber — o que há de Mello e o que há de original na série, mas creio que os grandes trunfos começam pelos bons atores, bons diálogos, pela direção segura de Mello e pela curiosa fotografia esmaecida, a qual não promete emoção e ornamenta com grande elegância ao conjunto. Os pacientes são a médica anestesista Júlia (Maria Fernanda Cândido), apaixonada por Theo; Breno (Sergio Guizé), um policial atirador de elite; Nina (Bianca Muller), uma ginasta ainda menina e com tendências suicidas; o problemático casal Ana (Mariana Lima) e João (André Frateschi) e acho que é só. A supervisora que atende Theo também faz uma terapia de casal entre ele e sua mulher Clarice (Maria Luísa Mendonça). Afinal, Theo confessa-se apaixonado por Julia — fato natural por tratar-se apenas de Maria Fernanda Cândido! … Bem, esqueçam a entusiasmada última observação.

Comecemos pelas críticas. É claro que os tons escuros e a câmera dirigida ao rosto dos atores lembra imediatamente alguns filmes de Bergman, mas há diferenças. Aqui, há muito mais nervosismo. Não há os longos planos bergmanianos em que um personagem diz algo e depois ouve a resposta, muitas vezes alterando radicalmente sua expressão sob o efeito das palavras do outro. Não, a coisa não é tão artística e profunda, mas funciona bem. Outro fato que corta a relação com o sueco é o ponto fraco da série: as sequências de imaginação, sonho e pesadelo, que não são nada sufocantes e que me arrancaram alguns tsc, tsc, tsc, coisa inimaginável nos filmes do sufocante diretor sueco.

Outra coisa de que não gosto é a tomada da voz de Theo. Zécarlos Machado tem a voz muito anasalada e, como está numa terapia, fala baixo. Ele também tem um defeito em comum comigo — não costuma abrir muito a boca para falar e, assim, sua pronúncia fica muito prejudicada. Acho que se o microfone do terapeuta ficasse mais alto ou se ele abrisse mais a boca para emitir palavras mais claras ficaria bem melhor.

São detalhes, pois o restante é muito bom. Mesmo com minhas críticas a sua pronúncia, a série apoia-se firmemente nele e reconheço o excelente trabalho de Zécarlos Machado. É claro que gosto mais de algumas terapias do que de outras. Minha atenção voa quando a sessão era com o policial — ele fez bem em morrer — , coisa que não acontece quando estamos no caso de Julia, Nina e do casal, cuja história cresceu muito nos últimos capítulos. Mas o filé mesmo são os encontros com a supervisora. Lembrava de Selma Egrei como atriz de pornochanchadas e pensava que ela seria, provavelmente, uma atriz muito limitada. Engano, ela está perfeitamente à vontade como uma analista algo irônica que é constantemente desafiada por Theo.

Não é teatro na TV, de forma nenhuma. A única coisa em comum com o teatro são os dois cenários, o de Theo e o de Dora, praticamente fixos. Na verdade, é cinema na TV. A enorme proximidade, o desejo de explorar rostos e expressões, jogam as analogias de  para outro lado. Mas é, antes de tudo, boa TV. E assim os sete leitores deste blog recebem sua primeira indicação televisiva, a série Sessão de Terapia, no GNT.

O terapeuta Theo ainda não comeu ninguém. Talvez por isso seus cabelos estejam tão arrepiados
Mas a tentação é alta, magra e belíssima
Selma Egrei, quem diria, o passado de pornochanchadas escondia uma excelente atriz
A cara de Cazuza de Sergio Guizé, o atirador de elite
A ginasta. Ah, como Zécarlos Machado cresce nos episódio com ela! Ignoro o motivo.
Será que ele perdoará a traição? Tchan, tchan, tchan, tchan…

Júlia (ou Senhorita Júlia), de Christiane Jatahy

Senhorita Júlia é um texto clássico de August Strindberg de 1888. Em Júlia, a diretora carioca Christiane Jatahy realiza uma brilhante adaptação do texto para o Brasil dos dias de hoje. Quem quiser manter contato facilmente com o texto original, pode ver o bom filme de Alf Sjöberg, de 1951. O texto não perdeu nada de sua atualidade, fato que facilita e aumenta a responsabilidade da adaptação. Trata-se da história do envolvimento de uma jovem (muito jovem, tanto que algumas traduções chamam o texto de Menina Júlia) de familia aristocrática com um ambicioso serviçal. No original, é uma noite de festa de São João, na adaptação é apenas uma festa. Júlia provoca e provoca sexualmente um dos criados, noivo da cozinheira da casa. Este, à princípio, tem medo, depois aceita e passa a sonhar e fazer planos com o novo amor. Levados pelo desejo e pelo vinho, eles relembram vivências inteiramente diversas e falam do abismo social que os separa. Brigam. O que seria somente “sexo casual” para ela e “caso” para ele, transforma-se em uma tensa disputa de classes e de interesses.

Infelizmente, este post chega tarde, pois a peça ficou em cartaz em Porto Alegre de 6 a 8 de setembro. Destaque para a brilhante atuação da Júlia que faz o papel da Senhorita Júlia, a atriz Julia Bernat. Infelizmente, a peça ganhou parte de sua fama pela nudez — nada gratuita — da atriz. A montagem avança fundo num experimentalismo de bons resultados. Projetadas em duas telas que podem juntar-se e alternar-se, há cenas pré-filmadas e cenas filmadas ao vivo que se integram. Olha, pena que saiu de cartaz…

Cena de Júlia, de Christiane Jatahy. A cena ao vivo está na tela da esquerda, a pré-filmada na da direita. O câmara fica no palco e interage com os atores. Tudo se integra à perfeição.