Um local da cidade: Bamboletras — a pequena aldeia gaulesa do Nova Olaria

Um local da cidade: Bamboletras — a pequena aldeia gaulesa do Nova Olaria
Sem auto-ajuda, vampiros e tons | Foto: Ramiro Furquim / Sul21

Publicado em 30 de março de 2013 no Sul21

Cercada por megalivrarias e sem nenhuma poção mágica a que possa recorrer, a irredutível Bamboletras resiste. Alheia ao modelo triunfante de livrarias onde os livros são procurados em terminais de computador — Vou ver se tem, poderia soletrar para mim?, diz o atendente, dirigindo-se a um terminal livre — , na pequena Bamboletras a resposta vem imediata e a caminhada é até a estante. Com um dedo, o livro é puxado e mostrado e, se o usuário perguntar, poderá ouvir uma opinião a respeito. Os livros do acervo não são quaisquer. Tudo é escolhido e conhecido pela dona e seus funcionários. Pois quem entra na Bamboletras sente que ali a literatura não está pressionada (ou demolida) sob pesadas cargas de auto-ajuda, vampiros e tons.

A dona e responsável pela pequena e acolhedora Bamboletras (R. Gen. Lima E Silva, 776, Centro, Porto Alegre, tel 51 3221-8764) é Lu Vilella, a jornalista com pós-graduação em literatura que a criou há 18 anos. “Quando eu estava na pós, enquanto meu gosto ia ficando mais requintado, notei que todos os títulos que eu queria ou precisava ler não estavam nas livrarias. Então eu pensei que Porto Alegre precisava de um local especializado em literatura”.

“Se a comunidade não demonstrasse interesse numa pequena livraria de qualidade, nós simplesmente fecharíamos” | Foto: Ramiro Furquim / Sul21

No começo, o foco era a literatura infantil como o nome denuncia: Bamboletras, bambolê de letras. “E comecei a vender livros infantis. A Bamboletras era a única onde as pessoas podiam escolher entre um Ou isto ou aquilo de Cecília Meirelles, ou um Drummond, um Quintana, um Guimarães Rosa ou um Erico para seus filhos”. A livraria foi fundada na Rua da República, 95, onde permaneceu apenas um ano. Depois mudou-se para onde está hoje, no Nova Olaria. “O lugar da Bamboletras é aqui. Recebi convites para abrir filiais em todos os shoppings que abriram, mas meu lugar é aqui”, conta Lu. Logo ampliou seu acervo para abarcar a literatura nacional e estrangeira, o ensaio, a poesia e o que se vê hoje é uma espécie de crescente acervo básico, onde os bons livros são substituídos assim que vendidos. “Quem é apaixonado ou viciado em literatura, aqui na cidade, já foi levado a visitar a Bamboletras por um motivo ou outro, tenho certeza”, completa com simplicidade.

E as megalivrarias? “Quando a Livraria Cultura apareceu em Porto Alegre, a Bamboletras sentiu o impacto”. Naquela época, Lu reuniu sua equipe e disse que teriam que melhorar em tudo: na organização do espaço, no acervo, no atendimento e na atenção para as boas novidades. “Porém, se a comunidade não demonstrasse interesse numa pequena livraria de qualidade, nós simplesmente fecharíamos, pois, se é para vender qualquer coisa, prefiro fechar. Eu só vendo o que conheço e gosto”.

Os banquinhos culturais da Bamboletras | Foto: Ramiro Furquim / Sul21

O primeiro ano de convivência com as megalivrarias foi complicado. Houve um mês de dezembro – mês de colheita para os livreiros – em que as vendas caíram muito. “Eu me desesperei, porém, lentamente, os clientes retornaram em função das sugestões, da orientação, da conversa, do antigo vínculo, da amizade. Nosso público é o da literatura. Aqui não tem 50 tons de nada. Às vezes, entram umas pessoas aqui atrás de best sellers. Neste caso, ou o cara se adapta — e há muitos que se apaixonam por nós — ou vai embora. É que aqui nosso banquinho é da Frida ou da Tarsila, os marcadores são do Dali, os imãs de geladeira são de Tchékhov, Kafka ou Klimt, os livros são diferentes do comum. Às vezes, boto em destaque livros de poesias da Sophia de Mello Breyner Andresen, por exemplo. Então o cara que entra se pergunta que porra é essa, optando por ficar ou não. Já o cara da área, o que já curte cultura, se sente em casa”.

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Cem anos

Cem anos
Relígio astronômico de Praga
Relógio astronômico de Praga

Eu e Elena somamos cem anos. Eu tenho 83; ela uns 17, claro, quem imaginaria outra coisa? Então, são cem anos, um século. Acho que já somei números maiores, mas, desta vez, iniciamos nossa história de maneira centenária. Minha mãe dizia que, na sua época, os homens dependuravam as chuteiras entre os 40 e os 50 anos. Hoje, eu e meus companheiros desbravadores não queremos nem saber — ainda estamos ainda marcando, armando e buscando o jogo, desafiando o técnico e o tempo. Como o Índio. Se há motivos para sê-lo, este é um dos motivos pelo qual não sou apocalíptico — se é certo que o homem destrói o mundo, também é certo que ele é extremamente egoísta e se trata.

Não reclamo da vida, tenho muita sorte, na verdade. E penso diariamente na morte. Todos os dias. E me acalmo. Ignoro se a idade me deixou mais sábio ou se pensar na morte revela sapiência, medo ou desespero, o que sei é que estou em período de gostar da vida e até de seus problemas. Quando me separei, meses atrás, a Elena me aconselhou cultivar a tranquilidade. Faço isso todo o dia. Eventualmente a coisa escapa, porém, até o momento, não houve o dia em que ambos se encontravam nervosos ou, pelo menos, sempre um de nós estava pronto para puxar o outro a um patamar mais acima.

Sorte, certamente. Bem, foi o que me ocorreu escrever neste tablet emprestado que não sei mexer. O problema agora é passar o textinho para o blog. Qual o trabalho que terei até esta coisa improvisada chegar a meus sete leitores é o que verei agora.

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Documento da lavra de um informante da ditadura

Melhora clicando na imagem, acho.
Melhora clicando na imagem, acho.

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James Joyce e seu neto Stephen

James Joyce e seu neto Stephen

James Joyce et son petit-fils Stephen

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Preparando-me para mais um ano com Giovanni Luigi Calvário

Preparando-me para mais um ano com Giovanni Luigi Calvário
Foto retirada do Blog Vermelho,onde ele é chamado de  Luigi Joker.
Montagem retirada do Blog Vermelho, onde ele é chamado de Luigi Joker.

Os colorados devem iniciar logo sua preparação para 2014. Será um ano duríssimo. Por um lado, teremos a grande alegria de rever o Beira-Rio lotado; por outro, teremos o ocaso de uma das administrações de futebol mais pífias e caras de todos os tempos. Pois nosso presidente Giovanni Luigi Calvário (sim, seu nome completo é muito mais transparente) é apenas bom nos negócios extra-campo. Fechou lentamente e de forma competente o contrato de reforma do Beira-Rio com a Andrade Gutierrez e costuma — apesar da morosidade — aplicar bastante dinheiro no departamento de futebol. Também é educado e honesto. É um bom homem para administrar uma empresa convencional, sem dúvida. É cuidadoso, não se atira. Não serve para o futebol.

Seus principais problemas são os fatos de que gasta muito e mal, de que fala muito e mal, de que centraliza muito e mal, de que rumina muito. Dentro do vestiário é igualmente calmo e tragicamente centralizador. O problema de colocar um sujeito lento no futebol do clube é que ele tratará de fazer-se cercado por pessoas do mesmo estilo. Pessoas que jamais criticarão seu ritmo adágio, sua indireção e falta de critério. Afinal, o sistema é presidencialista. Ele está protegido pelo cargo. No vestiário, Luigi é tipo do cara que espera que as coisas se resolvam por si mesmas, gosta de sentar sobre os problemas para refletir e, eventualmente, dormir. Isso talvez funcione na Rodoviária de Porto Alegre — também administrada por ele e onde a pressão é ínfima, comparada a de um clube de futebol. Quando resolve agir, costuma jogar dinheiro fora. O nosso dinheiro, aquele que é pago por sócios como eu.

Uma pena que Roberto Siegmann tenha agitado a coisa de tal forma que se tornou o Inimigo Nº 1 do mais tranquilo dos mandatários. O melhor caminho para um bom 2014 — caminho no qual não acredito — seria a renúncia de Luigi. Em três anos e mais os que foi diretor de futebol, só conseguiu demonstrar sua falta de critério. Não conhece futebol, simples assim. O que determinou que Roth recebesse de presente uma renovação de contrato dias depois do episódio Mazembe? O que norteou a contratação em sequência de Falcão, Dorival, Fernandão, Dunga e Clemer? E o que dizer de sua mania de trazer velhos ídolos de volta a fim de serem massacrados? Mesmo que a negociação com a AG tenha sido um sucesso, seu atraso deixou o Inter sem jogar todo o ano de 2013 no Beira-Rio. Como escreveu o Blog Vermelho “O mais básico em futebol é entender um pouco do assunto. Quem é bom, quem é ruim, quem está velho, quem ainda joga, onde estão as carências. Claro que tudo isso é subjetivo pois o “entender de futebol” depende do ponto de vista de cada um. Mas quando os resultados não acontecem em um, dois, três anos se percebe claramente onde está a origem do problema. Não posso dizer que esse ou aquele dirigente não entende do assunto, mas os resultados sim”.

Os méritos de Luigi são sua educação e honestidade — não é um cara louco por vender jogadores, não é louco por comissões e beiras… Mas seus deméritos são muito maiores: não sabe contratar jogadores nem comissão técnica, é totalmente destituído de senso de urgência e de ideias para o futebol. Não serve para o cargo. Seria uma bênção de renunciasse. Espero um 2014 morno. Se for quente, talvez seja a Segundona. E voltemos logo para o Beira-Rio, por favor.

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O cara que toca órgão e trompete ao mesmo tempo

Os dois primeiros movimentos da Cantata BWV 137, de Johann Sebastian Bach, por Gerard van Reenen:

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Um excelente concerto bachiano que acontecerá novamente amanhã

Um excelente concerto bachiano que acontecerá novamente amanhã

Eu não tinha muita fé na coisa. Domingo passado, no início da noite, fui ao Concerto de Aniversário de 80 anos de uma comunidade luterana ali na João Obino. Tudo porque estavam tocando um Bach que eu adoro – a Cantata BWV 137 – , mais a Glória de Vivaldi, um Telemann e uma pequena e expressiva obra coral de Mendelssohn. Também tinha um interesse extra e nada secundário que devo declinar ao longo do texto, mas, enfim, lá fui eu, apesar de estar perdendo mais um jogo do time de giovanni luigi Calvário.

A primeira surpresa é que, apesar de ter chegado quinze minutos antes do horário, a igreja estava lotada. Sentei numa cadeira extra, dessas brancas, de plástico, que parecem que podem cair a qualquer momento. A função iniciou pontualmente. A congregação – é assim que chamamos a plateia de uma igreja, os fiéis, não? – começou a cantar um hino onde reconheci a melodia-base da Cantata de Bach que viria logo a seguir, certamente uma tradicional melodia luterana. A surpresa é que a plateia cantava com entusiasmo e estranha afinação. Será que os alemães ou os luteranos já vêm com afinação e espírito bachiano pré-instalados? A verificar. Claro que eles cantam melhor que o comum dos mortais. A segunda surpresa é que a acústica da pequena igreja era boa, uma raridade em Porto Alegre.

Passados os primeiro e bons sustos, veio a Gloria, RV 589, de Vivaldi. A música é bonita, conhecidíssima e foi muito bem tocada. Mesmo com uma orquestra formada de improviso, o trabalho do regente Manfredo Schmiedt voltou a aparecer. A orquestra desempenhava bem seu papel e os cantores Elisa Machado, Rose Carvalho, Eduardo Bighelini e Ricardo Barpp mostravam suas habituais competências. Sobrava cantor.

Depois veio Jauchzet ihr Himmel, de Telemann, uma obrinha curiosa que não conhecia. E o filé estava logo ali, vindo.

Collegium-Aureum-C04-3a[Orbis-LP]E chegou. A Cantata BWV 137 Lobe den Herren, de J. S. Bach, recebeu minha admiração mais profunda desde que a conheci naquele vinil da Harmonia Mundi alemã com o Tölzer Knabenchor e a compreensiva regência de Franzjosef Maier. É daquelas pequenas joias que Bach deixou escondidas entre obras maiores. Não há nada que não seja absolutamente perfeito nela. Cioran não disse que foi Bach quem inventou Deus? Deve ter sido mesmo. O primeiro coral saiu belíssimo , mas estava me preparando para a ária para contralto, violino solo e contínuo que viria logo a seguir.

E aqui completo o motivo de minha ida ao concerto, de meu abandono do futebol e da leve indireção da qual sou refém aos finais das tardes de domingo. (Ah, o dia seguinte, a segunda-feira… Como voltar ao trabalho? De onde recomeçar e para quê? Por que não seguir desfrutando a vida e descansando como a mente e o corpo pedem de forma tão persuasiva?)

Mas tergiverso. A linda voz de contralto de Rose Carvalho foi acompanhada pelo solo de Elena Romanov. A Elena – spalla da orquestra e, para quem não sabe, minha namorada, o que me torna certamente suspeito – já tinha me dito: “Coube a mim acompanhar a Rose, que tem uma voz incrível, gosto muito”. A mim cabia apenas ouvi-las. A ária é realmente estupenda, com o solo de violino ornamentando a melodia cantada pelo contralto, que é uma variação do coral inicial e da melodia entoada pela congregação lá no início. Fechei os olhos e realmente fiquei feliz com o que ouvi. Foi maravilhoso e um ateu sabe a quem agradecer aqui na terra. Obrigado, Manfredo, Rose e Liênatchka – sim, este é o “diminutivo” de Elena em russo. Afinal, fui eu quem encheu o saco da Lienka – outro diminutivo, menos carinhoso – para que ela aceitasse o convite…

Sim, este foi o momento da ária a que me referi acima.
Este é um registro fotográfico da ária a que me referi acima. À esquerda do maestro, Elena; à direita, o baixo contínuo acompanhando Rose. (Clique na foto para ampliar)

Depois veio a ária para soprano e baixo acompanhados pelos oboés de Rômulo Chimelli e Anelise Kindel e a ária para tenor com o Bighelini, os violoncelos e os comentários do Elieser Ribeiro no trompete. Tudo foi muito bonito até o coral que fecha a Cantata.

No final, o coral envolveu a congregação e cantou o Verleih uns Frieden gnädiglich, de Mendelssohn, que tem início soturno a cargo do operoso violoncelo de Fábio Chagas e do contrabaixo de Renate Kollarz até que o coral alivia o peso.

Na saída, eu esperava por Elena e via na cara das pessoas o sucesso do concerto. E tudo isso que aconteceu em Porto Alegre será repetido amanhã (sábado, 30/11) na Capela da Ulbra, em Canoas, às 20h. Vão lá! Quem for, não vai dizer que eu sou suspeito e menti, tenho certeza.

(A Elena detesta aparecer fora do ambiente musical– “Milton, tu não és nada discreto. Liênatchka, por exemplo, pra quê?” – e vai querer me matar por este merecido texto. Intimamente, desejo-me sorte nos momentos da pós-leitura dela…)

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Hitler de shortinho

Hitler de shortinho

O Führer proibiu estas imagens — e várias outras feitas por seu fotógrafo pessoal no final da década de 20 — dizendo que elas estão “abaixo de sua dignidade”. Já que ele achava isto, publico-as com algum atraso, mas ainda com gosto.

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Ospa termina o ano com show de Rachel Barton Pine em excelente concerto

Ospa termina o ano com show de Rachel Barton Pine em excelente concerto
Foto: Giovanna Pozzer
Foto: Giovanna Pozzer

Apenas isso: o concerto de ontem à noite era de presença obrigatória. Havia a presença da grande violinista Rachel Barton Pine interpretando obras que talvez não fossem as melhores de seu vasto repertório, mas, pô, lá estava ela, uma violinista maior, e com seu Guarnieri.

Rachel Barton Pine diz que só lê sobre música, que só se interessa por música. E que sempre foi assim. Uma vez, seus pais tentaram desviá-la para outros trabalhos manuais e o resultado foi que só saiam violinos de suas agulhas de crochê. Na infância, às vezes não tinha luz em casa, pois se esta fosse paga, talvez faltasse comida. O transporte também era complicado. Depois, quando ela se tornou uma estrela ascendente, a dúvida era entre comprar partituras, cordas para o instrumento ou vestidos para os concertos. Um dia, o vestido e o transporte pregaram-lhe uma peça. O vestido ficou preso num trem do metrô e ela foi arrastada por 200 metros. Ficaram-lhe sequelas, mas ela não faz drama, apenas diz, toda sorridente: “Foi só mais um obstáculo”.

Ela esteve entre nós. O marido e o filho pequeno acompanharam o concerto e o caso das malas deles todos. As malas foram perdidas em São Paulo no domingo. Parece que lhes devolveram os pertences só segunda-feira à noite. Outro obstáculo. Ela achou graça. Não sei o resto da família.

RBP também disse que não há música quase afinada. Que é como a gravidez. Ou se está afinado ou desafinado. É como um bit qualquer do teu computador, caro leitor — ele está ligado ou desligado. Simples.

O concerto iniciou com o chatinho inglês Vaughan Williams, mais exatamente com The Lark Ascending (O Voo da Cotovia). A música foi inspirada por um enorme poema homônimo de George Meredith. São 122 linhas. A cotovia estreou em uma versão para violino + piano em 1920. A versão para violino + orquestra é do ano seguinte. O arranjo orquestral é mais famoso e tocado. Trata-se de uma das peças mais populares do repertório clássico entre os ouvintes britânicos. Ouvi alguns músicos de Ospa dizerem que tratava-se um obra precursora do new age. Olha, têm razão. É mais ou menos isso: um solo de violino com ornamentações, construindo um música nostálgica e folclórica, estática e extática, com maravilhosa interpretação de Barton Pine.

A Fantasia Carmen, de Pablo Sarasate, é por demais conhecida e popular. São as principais melodias da Carmen de Bizet em versão ultra-virtuosística e escabelada. Como música, pode ser um lixo, mas, como dissemos lá em cima, havia Rachel Barton Pine. Sua interpretação foi extraordinária, extraordinária e estimulante, extraordinária, estimulante e feliz e perfeita e inesquecível. Os alunos de violino, presentes comigo nas primeiras filas da reitoria da Ufrgs, olhavam encantados para a violinista que esmerilhava seu instrumento na frente de todos. Um show. Porém, para você, meu cético leitor que já está pensando numa demonstração vazia de habilidade, digo que ali tinha embutida uma interpretação diferente da habitual — e muito superior. Ou seja, havia música onde não se esperava. Muita música.

Nos bis, Paganini — com um final em estilo trash metal — e um belo arranjo de Barton Pine para diversos temas de Piazzolla.

Tive medo da Morte e Transfiguração, de Richard Strauss. Ou as cordas da Ospa iam se deprimir após RBP ou iam dar uma resposta. E deram. Olha, tocaram muito, demais mesmo. O poema sinfônico de Strauss é um lindíssimo dramalhão fin de siècle em quatro movimentos. Como quase sempre, Strauss é programático aqui. Desta forma, a obra descreve a morte de um artista. Conforme vai agonizando, pensamentos da sua vida passam por sua cabeça: a inocência da infância, os problemas da vida adulta, as conquistas, fracassos e, no fim, a transfiguração — uma passagem belíssima e cheia de anjinhos, baseada num motivo que se repete cada vez com maior intensidade). Música complicada e exigente que a Ospa realizou à perfeição sob a direção do bom uruguaio Nicolás Pasquet.

E, infelizmente, aqui acabam os Concertos Oficiais de 2013. Apesar da Ospa estar às traças e ser jogada de um lugar para outro como um cachorro indesejado, foi um bom ano artístico. Pergunte-me como isto aconteceu e eu vou responder que há grandes profissionais na orquestra. Só pode, não há outro jeito.

Que 2014 seja ainda melhor!

Foto: Giovanna Pozzer
Foto: Giovanna Pozzer

Programa:
Ralph Vaughan Williams – The Lark Ascending (O Voo da Cotovia)
Pablo de Sarasate – Fantasia Carmen
Richard Strauss – Morte e Transfiguração
Regente: Nicolás Pasquet
Solista: Rachel Barton Pine (violino)

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Frases ouvidas no fim-de-semana

Frases ouvidas no fim-de-semana

Do presidente da Associação Cultural Brasil-Peru, Carlos Nevado:

— Antes eu levava todos os sábados minha barraca para a Praça Brigadeiro Sampaio, ali ao lado do Museu do Trabalho a fim de participar da Feira de Gastronomia Internacional, que hoje não existe mais, infelizmente. Depois vim para o Comitê Latino-Americano, onde ficamos conhecidos pelos nossos almoços de domingo. Agora estamos neste novo espaço (o recém inaugurado Centro Peruano). A gastronomia peruana é respeitada no mundo inteiro, mas é desconhecida aqui. Na verdade, este trabalho de divulgação é uma continuidade de meu trabalho profissional como psicanalista. Trata-se do afeto, sempre.

 

Foto: Ramiro Furquim
Carlos Nevado | Foto: Ramiro Furquim

De uma amiga, rindo muito quando chegamos ao Festim Diabólico © de sábado, diretamente ao ouvido de Elena Romanov:

— Vamos fazer um brinde…? Aos encontros e desencontros!

 

Teve gente que afirmou ser incapaz geneticamente de dançar e que depois revelou-se pé-de-valsa.
Teve gente que afirmou ser incapaz geneticamente de dançar e que depois revelou-se — de forma severa — pé-de-valsa | Foto: Augusto Maurer
Foto: Augusto Maurer
Grande noite de sábado (eu e Elena) | Foto: Augusto Maurer

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Prefeitura mantém criadouro de aedes aegypti em pleno Parque da Redenção

Prefeitura mantém criadouro de aedes aegypti em pleno Parque da Redenção

Agentes da Prefeitura Municipal costumam bater em nossas casas a fim de verificar se não mantemos condições propícias ao surgimento do mosquito da dengue, o aedes aegypti. Acho que todos sabem que dito cujo se reproduz em qualquer lugar onde houver condições propícias (água parada limpa ou pouco poluída).

Pois ontem, após almoçar no Centro Peruano, passávamos pelo meio da Redenção, próximo ao Auditório Araújo Vianna, e encontramos um local que talvez vise substituir o zoológico retirado do centenário parque. Tratava-se do maior criadouro do mosquito da dengue a céu aberto de nossa cidade. Uma maravilha! Vejam as fotos abaixo, tiradas por este brioso repórter.

Como diz nosso prefeito, chove muito em Porto Alegre. OK, não chovia desde quarta-feira, mas não interessa.

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Porque hoje é sábado, comemoramos a sexta-feira, pois foi o dia em que Scarlett Johansson completou 29 anos

Porque hoje é sábado, comemoramos a sexta-feira, pois foi o dia em que Scarlett Johansson completou 29 anos

Em atendimento a Igor Natusch.

Sim, ontem, em 22 de novembro, a deusa e co-padroeira do PHES completou 29 anos.

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A cada ano, Scarlett Johansson recebe um desses galardões idiotas

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de A Mulher Mais Sexy do Mundo.

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Ela é indiscutivelmente linda, tem uma suspensão agradável e é pneumática (*).

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Porém, minha experiência manda dizer algumas coisas:

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1. há mulheres mais e menos femininas

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(há as patrolas abrutalhadas, os poemas naturais e todas as gradações intermediárias)

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2. todas as citadas acima podem tornar-se extremamente sexies,

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dependendo da companhia e do interesse delas, entendem?

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Então, quando falam em ser sexy, acho melhor falar em potencial.

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Já imaginaram as potencialidades matemáticas de uma Scarlett interessada?

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Britten e eu

Britten e eu

Hoje Benjamin Britten faria 100 anos. Já eu, faz um mês que não vejo meus livros, CDs, discos e outros pertences.

Ah, temos também os 50 anos de With the Beatles, segundo LP da turma.

Benjamin Britten (1913-1976): gênio total
Benjamin Britten (1913-1976): completo gênio

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Ospa em noite de formas clássicas e três heróis

Ospa em noite de formas clássicas e três heróis

A função da última terça-feira foi um concerto de formas clássicas, por assim dizer. Uma sinfonia de espírito vienense com dois Allegri cercando um Adagio e um Scherzo — substituto do minueto — e duas peças em três movimentos no esquema rápido-lento-rápido, mesmo que a obra de Piazzolla seja uma engembração bem feita. Cada uma das músicas teve seu herói.

A sinfonia de Bizet é melodiosa e trabalhosa. Inicia levada pelos violinos; depois, há um gentil adágio onde a oboísta Viktória Tatour — a primeira heroína da noite — , acompanhada pelas cordas em pizzicatto, deu um banho que acabou em fuga (calma, a oboísta não fugiu, tratava-se de um episódio fugatto); segue-se um scherzo bem fuleiro e tudo termina num vivace que quase mata os violinos. É uma sinfonia bonitinha, não passa disso. Mas também é uma obra longa e inadequada para iniciar um programa. Como fazer entrar os chatos dos retardatários? Bem, não é problema meu.

O concerto de Arthur Barbosa trouxe de volta a Porto Alegre o extraordinário trompetista Flávio Gabriel, que já foi da Ospa e hoje está na Osesp. Eu curti o concerto que estreava naquele dia, cheio de ostinati, humor e ritmos latino-americanos. O cearense Barbosa brindou os gaúchos com uma milonga no movimento central. Não sei se o concerto foi dedicado ao trompetista Gabriel, mas, olha, parecia, tal a facilidade com que este enfrentou — com seus três trompetes — as dificuldades do concerto. Parabéns aos envolvidos.

Já o terceiro herói da noite foi o spalla Omar Aguirre, que demonstrou inequivocamente que é platino o sangue que lhe corre nas veias. Seus solos nos tangos de Piazzolla transferiram a Reitoria da Ufrgs para algum canto de San Telmo ou Palermo, onde um casal trançava suas pernas. O mérito transfere-se para toda a orquestra em Fuga y misterio. A fuga é terrível em suas texturas contrapontísticas e o mistério trouxe Aguirre de volta tocando uma melodia melancólica.

Mas não adianta, todo mundo saiu da Ufrgs cantando a fuga. Foi um belo concerto.

Georges Bizet – Sinfonia em Dó Maior
Arthur Barbosa – Concerto latino-americano para trompete e orquestra (estreia mundial)
Astor Piazzolla – Seleção de tangos – “Decarisimo”, “Chiquilin de Bachin” e “Fuga y misterio”

Regente: Enrique Ricci
Solista: Flávio Gabriel (trompete)

Tudo certo com a fotografia, maestro Ricci! | Foto: Augusto Maurer
Tudo certo com a gente, maestro Ricci! | Foto: Augusto Maurer

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Desbatismo com secador de cabelo

Eu e o Paulopes perdemos o “desbatismo” que houve em julho no Brasil, mas ele é bom demais para deixar passar. Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA), organizou uma simulação de “desbatismos” (com um secador de cabelo), para protestar contra seu governo por ter gasto 50 milhões dólares para receber o papa Francisco.

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Paul McCartney pede para Vladimir Putin a liberação da tripulação do Greenpeace

Paul McCartney pede para Vladimir Putin a liberação da tripulação do Greenpeace
Heather e Paul McCartney com Vladimir Putin em 2003
Heather e Paul McCartney com Vladimir Putin em 2003

O músico tornou pública uma carta que escreveu para o líder russo há um mês. Ele está aguardando uma resposta.

Leiam abaixo a minha carta ao presidente Vladimir Putin, ainda não respondida. O embaixador russo gentilmente me comunicou que a situação “não é corretamente apresentada na mídia mundial .

Seria ótimo se esse mal-entendido pode ser resolvido e os manifestantes pudessem estar em casa com suas famílias, em tempo para o Natal . Vivemos na esperança.

Paul McCartney

A carta enviada a Putin:

14 de outubro de 2013
Querido Vladimir,
Espero que esta carta o encontre bem. Faz mais de dez anos que eu toquei na Praça Vermelha, mas acredite que muitas vezes penso na Rússia e nos russos.
Escrevo-lhe sobre os 28 ativistas do Greenpeace e dois jornalistas detidos em Murmansk. Espero que você não se oponha a que eu comente o caso.
Eu ouço dos meus amigos russos que os manifestantes estão sendo retratados em seu país como sendo contra a Rússia, que eles estavam fazendo o jogo dos governos ocidentais, e que ameaçaram a segurança das pessoas que trabalham na plataforma de petróleo do Ártico.
Estou escrevendo para garantir que o Greenpeace não é certamente uma organização anti-Rússia. Na minha experiência, eles tendem a irritar todos os governos. E eles nunca pedem recursos a nenhum governo ou corporação de qualquer lugar do mundo.
E acima de tudo, eles são pacíficos . Na minha experiência, a não-violência uma parte central de sua atuação.
Leio que você disse que eles não são piratas – bem, isso é algo que todo mundo pode concordar. Tão importante quanto isso, é o fato de que eles não pensam que estão acima da lei. Eles dizem que estão dispostos a responder por aquilo que realmente fizeram, então não poderia haver alguma forma de deixá-los livres?
Vladimir, milhões de pessoas em dezenas de países seriam muito gratas se você interviesse para pôr fim a este caso. Eu entendo, claro, que os tribunais russos e a Presidência da Rússia são entidades distintas. No entanto, pergunto-me se você não poderia usar sua influência a fim de reunir os detentos com suas famílias.
Quarenta e cinco anos atrás, eu escrevi uma canção sobre a Rússia para o Álbum Branco, bem na época em que não era moda dizer coisas boas sobre o seu país. Essa música tinha uma das minhas frases favoritas dos Beatles: “Been away so long I hardly knew the place, gee it’s good to be back home.”
Você poderia fazer isso se tornar realidade para os prisioneiros do Greenpeace?
Espero que, quando nossas agendas permitam, possamos nos encontrar novamente em Moscou.
Atenciosamente,
Paul McCartney

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Memória

Memória

villa-lobos com violao

Acabo de escrever 10 mil caracteres sobre Heitor Villa-Lobos. Por minha biblioteca estar longe, praticamente só utilizei a memória, além da ajuda no site do Museu Villa-Lobos. Sob a pressão de ter de entregar a matéria, acabei lembrando de coisas que nem sabia mais… Tive que conferir tudo e acho que não menti muito. A coisa deve ser publicada amanhã no Sul21.

Mas não estou aqui para me gabar. Todos têm memória. Só que é tanta coisa armazenada que a gente mal consegue fazer aflorar e deixar disponível. Eu, por exemplo, sou lentíssimo. Precisei de uma noite de sono e de preocupação. Porém, hoje pela manhã, cheguei a recordar a voz de Villa-Lobos, presente em um de meus CDs. Ainda estou surpreso e lembro agora de uma cena aterradora.

Em 1993, no velório de meu pai, fiz-lhe um carinho e ele estava frio como nunca estivera. Notei que toda a memória que ele tinha de mim se esvaíra e este pensamento acabou comigo. Muito do que ele sabia de mim se fora, muito do que eu ainda podia saber se perdera. Isto me deixa triste e choramingas até hoje. Ele morreu cedo demais.

(Fazia tempo que eu não publicava nada na categoria “Em torno do meu umbigo”…)

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Apenas uma foto

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Dilma Rousseff consola a viúva Maria Thereza Goulart, durante a cerimônia de chegada dos restos mortais do ex-presidente Jango a Brasília. João Goulart foi o único presidente brasileiro morto no exílio e seus restos mortais serão exumados a fim de verificar se foi envenenado ou não.

Foot: Roberto Stuckert Filho/PR
Foot: Roberto Stuckert Filho/PR

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Ontem, Marcelo Delacroix e Dany López no excelente Canciones Cruzadas

Ontem, Marcelo Delacroix e Dany López no excelente Canciones Cruzadas

O teste final de um romance será a nossa afeição por ele, como é o teste de nossos amigos e de qualquer outra coisa que não possamos definir.

E. M. Forster – Aspectos do Romance

A citação de Forster serve para muitas coisas. Ontem à noite, eu e Elena fomos ver o show Canciones Cruzadas, de Marcelo Delacroix, Dany López e uma afinada banda multicultural e nacional. Foi um esplêndido espetáculo no palco do Theatro São Pedro, que marcava, em grande estilo, o lançamento do CD Canciones Cruzadas. Antes que me esqueça, já deixo registrada nossa felicidade à saída do velho São Pedro, assim como o abraço que a Elena mandou para o Marcelo. Não fomos cumprimentá-lo, ando cheio de pudores, mas só em público.

Vocês sabem, em condições normais, um CD gravado em estúdio só supera o registro ao vivo se os músicos não forem bons. Então, por ter ouvido o CD antes da noite de ontem, afirmo que este é muito bom, mas o show é ainda melhor. Lastimo que apresentação tenha sido a única no palco de ontem. Porto Alegre merecia mais, só que, para ter mais, teria, certamente, que se informar melhor. Pessoalmente, falhei na divulgação de Canciones Cruzadas. Tive inúmeros problemas que me afastaram do CD e do papel onde fiz várias anotações. (Lembro que anotei repetições de palavras em várias canções, que estas formavam uma definição do disco e que mais repetida era “frio”, coisa típica deste sul de mundo). Também estava com pouco tempo, achei que faria um mau trabalho e limitei-me a informar o pessoal sobre o show na agenda do Sul21.

Canciones Cruzadas é o resultado da uma parceria entre o gaúcho Marcelo Delacroix e o uruguaio Dany López, em que cada músico relê as composições do outro, cruzando canções, ritmos e influências do Brasil e do Uruguai. Delacroix é mais MPB, mas trafega confortavelmente no universo gaúcho. López é mais pop. O legal desta parceria é que a influência — e certamente a generosidade de ambos — levou-os a pontos que talvez não alcançassem sozinhos. O bom pop-rock de Dany López ganhou instrumentação e percussão mais pesada e o lirismo de Delacroix ficou mais atlético e alongado. É incrível como a maior qualidade de um ser humano possa tornar-se defeito quando levado ao exagero. Marcelo é uma pessoa de rigoroso bom gosto, de voz, afinação e repertório perfeitos. López deixou-o mais relaxado e, em vez de dilui-lo, fez com que ele chegasse com sobras a um pop robusto e feliz. Claro que tudo fica mais fácil pelo fato dos dois serem craques em seus instrumentos. Só ao vivo pude ver conferir as enormes qualidades de López como pianista — e algumas limitações como cantor, fartamente compensadas por Delacroix. Já Marcelo é bem conhecido de nós, gaúchos, como excelente compositor, cantor e violonista.

O repertório, em sua maioria, é da lavra da dupla, acrescentado de canções emblemáticas de outros compositores uruguaios, brasileiros e sul-americanos, algumas bastante inusitadas.

Marcelo Delacroix e Dany López
Marcelo Delacroix e Dany López

Gostei de várias canções — Libélula, Depois do Raio, Perdido por Perdido — e outras que não lembrarei por estar sem o CD. Também adorei a versão ao vivo de El Mar en un Anden, da uruguaia Samantha Navarro, um popzito que ganhou grandiosidade no show e do clássico Uirapuru, estrategicamente “roubado” por Dany ao paraense Waldemar Enrique. Se tais surpresas não garantem nenhuma universalidade, mas apenas a junção de estilos irmãos da América Latina, também sou obrigado a dizer que sentava entre uma russa e uma bielorrussa e que a primeira dançava na cadeira e a segunda só fez elogios ao show. A banda é sensacional, com destaque para a percussão e bateria, além da presença luminosa de Pedrinho Figueiredo.

No dia 17 de novembro, Canciones estará em Montevidéu, no Uruguai, na Sala Zitarrosa. Vão ter que voltar a Porto Alegre, acho incontornável.

E se, como escreveu Forster, o teste final de um show é nossa afeição por ele à saída, Canciones Cruzadas foi muito, mas muito, satisfatório. Pois estou com ele na cabeça e no coração.

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Ospa em noite de programa perfeito

Ospa em noite de programa perfeito

A Ospa acertou no ângulo. Há problemas com os locais de ensaio e de apresentações? A programação de 2013 teve que ser toda alterada, sofrendo uma espécie de downsizing? A construção da Sala Sinfônica está atrasada? Sim, sem dúvida, mas nada disso atrapalhou a criatividade de quem programou a gloriosa função de ontem à noite, toda feita de obras de primeira linha. Confiram na lista abaixo.

Ricardo Castro – Samba nº II para Orquestra
Sergei Prokofiev – Concerto para piano nº 3
Wolfgang Amadeus Mozart – Sinfonia nº 36

Regente: Roberto Tibiriçá
Solista: Alexandre Dossin (piano)

Ricardo Castro (1981) foi um dos vencedores do Concurso Ospa para Jovens Compositores. Eu me preparei para encará-la com certa indulgência por tratar-se, afinal, de um jovem compositor. Mas era desnecessário. O Samba Nº II é bom demais, é música muito bem escrita e pensada. São vários temas — alguns de aparência vetusta — que vão discutindo, argumentando e adequando-se um ao outro até se engalfinharem num samba rasgado. O parentesco com Villa-Lobos é bastante claro, mas a visitação a um de nossos ritmos mais importantes — também o caso dos Choros de Villa — também é uma questão de inteligência histórica, pois a maioria dos compositores do passado, começando lá na Idade Média, fizeram constantes visitas à música popular. Afinal, como se fizeram Bartók e Stravinsky, para não ir mais longe?

Dos cinco concertos para piano escritos por Prokofiev, o terceiro é o meu preferido. Na verdade, é uma das obras de minha preferência absoluta. Muito contrastante — com passagens líricas e dissonâncias espirituosas, principalmente em seu movimento central –, irradia grande vitalidade. Uma verdadeira proeza de Prokofiev, que ainda mantém notável equilíbrio entre o solista e orquestra. Ao contrário dos concertos para piano criados por muitos de seus antepassados ​​românticos, a orquestra não está lá para apenas dar brilho ao piano, mas para desempenhar papel ativo.

O pianista Dossin: show de bola
O pianista Dossin: show de bola

Alexandre Dossin foi um solista extraordinário. Demonstrou claramente que seus anos russos (ou seriam soviéticos?) não foram em vão. Tenho a lamentar apenas certo empastelamento causado pela acústica da Reitoria da Ufrgs. O toque sutil de Dossin, quando vinham junto com o som da orquestra, muitas vezes perdia-se nos enganadores meandros do auditório e, com efeito, nem sei se no final do primeiro movimento havia mesmo alguém(ns) muito errado na orquestra ou se estava sendo iludido por não ouvir bem o piano nos forti, tutti, essas coisas. O fato mais importante é que a Ospa enfrentou uma obra complicada, saindo-se muito bem. Ah, Dossin deu três bis. O melhor foi um Tchaikovsky que quase me destruiu. Depois, a coisa ficaria bem mais simples e eufórica, apesar de igualmente trabalhosa.

Linz

No dia 3 de Novembro de 1783, Wolfgang Amadeus Mozart terminou a composição da Sinfonia Linz, que seria estreada logo no dia seguinte. A sinfonia é uma pequena joia composta em apenas 3 dias. Sem um tema grudento ou excepcionalmente melodioso, é genial e atlética. Sua história é curiosa: Mozart estivera com a esposa Constanze por alguns meses em Salzburgo. Em seu retorno a Viena, passou por Linz, onde ficaram hospedados na casa do Conde Thun-Hohenstein. Comovido com a hospitalidade do mesmo, Mozart retribuiu a gentileza, aceitando apresentar uma nova obra. Como não levava nenhuma sinfonia no coldre, resolveu criar uma novinha em folha para o concerto, que iria se realizar quatro dias depois. Desta forma, a estreia da Sinfonia Nº 36, de Mozart, teve lugar em Linz. Adivinhem qual foi o apelido que ela ganhou? Acertou quem respondeu Linz!

Trata-se de uma sinfonia feliz e gentil, o que permitiu ao maestro Roberto Tibiriçá brincar bastante com os músicos, principalmente com os primeiros violinos, os condutores da obra em âmbito sonoro. Ele pulava, dançava, sorria, agachava-se e torcia-se todo. Loucura? De modo algum. Estava apenas retirando com empolgação o melhor da orquestra — o que fez por todo o concerto — , além de encarnar o espírito de uma sinfonia feliz que deixou todo sorridente à saída do concerto.

Estávamos tão felizes que, ao final do concerto, cantei para o violoncelista Philip Gastal Mayer, mais conhecido como Phil:

Phil maravilhááááá, nós gostamos de você!
Tiú, tiú, tiú, tiú, tiú, tiuru, tiú
Phil maravilhááááá, faz mais um pra gente vê!
Tiú, tiú, tiú, tiú, tiú, tiuru, tiú

Acho que ele riu só para ser simpático.

E bem, diante da ausência do fotógrafo oficial deste blog, Augusto Maurer, utilizaremos dois registros vindos da assessoria de imprensa da Ospa:

Foto: Giovanna Pozzer
Foto: Giovanna Pozzer
Foto: Giovanna Pozzer
Foto: Giovanna Pozzer

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