A mulher que era o general da casa, de Paulo Moreira Leite

Capa do livro da Arquipélago

A mulher que era o general da casa (Arquipélago, 223 páginas), do jornalista Paulo Moreira Leite, é um relevante painel criado a partir de várias histórias de pessoas que participaram — com a coragem e as armas que dispunham — da resistência civil à ditadura militar brasileira (1964-1985). São oito extraordinárias reportagens sobre resistentes brasileiros e uma sobre o embaixador Lincoln Gordon, que fazia o exato contrário. Quase todas as reportagens foram ampliadas de originais publicados em jornais e revistas. A linguagem de Leite é a jornalística, porém seus textos são envolventes e os retratos resultantes são mais do que verossímeis, eles emocionam, traçando minuciosos e doloridos desenhos que tornam o livro nada esquecível.

O livro inicia com uma apresentação absolutamente entusiasmante de aproximadamente 15 páginas. Nela, o autor, nascido em 1952, explica sua relação pessoal com a ditadura, e como ela alterou sua vida desde a adolescência. Na minha opinião, o livro cai quando entram a reportagem-título a respeito de Therezinha Zerbini e seu marido general, seguida pela de Jaime Wright. É difícil explicar o que me afastou delas. Talvez tenha sido a inesperada entrada da linguagem jornalística após uma apresentação tão pessoal, talvez tenha achado os personagens por demais carolas para meu gosto e tenha ficado desconfiado do que teria que ler depois, mas as três que vieram depois — focalizando o severo Florestan Fernandes, o bibliófilo José Mindlin e “comunista de direita” Armênio Guedes — recuperaram a impressão inicial. São soberbas, assim como a grandiosa reconstrução da personalidade do rabino Henry Sobel, sem recuar frente aos rumorosos e lamentáveis episódios de roubo. A reportagem sobre o pioneiro Washington Novaes é excelente. O mosaico formado por todos os textos recebe um balde de podridão quando chega a vez de Lincoln Gordon, o homem que seguiu negando o que fez, mesmo em face a documentos.

Todos os personagens foram entrevistados mais de uma vez pelo autor nos últimos 40 anos. As biografias, as perspectivas e algumas opiniões mudam e o autor pontua tais fatos. Não pensem que Moreira Leite teve o mau gosto de escrever em algum lugar do livro um libelo pelo esclarecimento e punição dos crimes cometidos pelos agentes de Estado contra cidadãos que teoricamente deveria proteger. Não precisa, porque A mulher que era o general da casa é inequivocamente a favor do esclarecimento. Está implícito a partir das histórias e conflitos narrados. A colocação da reportagem sobre Gordon na última parte do livro e a leitura de suas mentiras, repetidas pela sua sorridente e prestigiada figura mesmo frente a documentos liberados pelo governo dos EUA, é algo de deixar qualquer leitor perplexo. Foi assim que acabei o livro. Perplexo. E alguns, como Florestan, Wright e próprio Gordon, já morreram. O que estão esperando?

Recomendo muito a leitura.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

'Antes do Passado': a dor e a injustiça do silêncio

À primeira vista, a lápide acima pode parecer a de alguém que comprou seu próprio jazigo para não incomodar os familiares com trâmites burocráticos e faz questão de avisar aos passantes sobre a propriedade do túmulo. Acontece muito em comunidades italianas no interior. É caso para orgulho e uma demonstração do altruísmo do futuro morto. Mas o início da frase – “Esta sepultura aguarda o corpo de” – causa no leitor uma sensação de estranheza ou de humor mórbido. O poema de Lila Ripoll complica ainda mais a compreensão, pois põe em dúvida a ocorrência de mortes – no plural e no passado. Porém, todas as nossas impressões se alteram e adquirem seriedade quando sabemos que Cilon Cunha Brum foi uma vítima da ditadura militar brasileira, que é um de nossos desaparecidos e que quem fez a laje tem realmente esperança de que esta, um dia, possa enfim receber seu morto. É o mínimo que um cidadão esperaria de qualquer sociedade.

A edição da Arquipélago

A foto é de um cemitério de São Sepé (RS) e é mais um detalhe documental do excelente livro Antes do Passado, de Liniane Haag Brum (Arquipélago, 271 páginas), uma raridade na literatura memorialística com foco na ditadura militar brasileira. Em primeiro lugar, por ser excepcionalmente bem escrito e também pelo tom correto adotado pela autora: os fatos e as situações falam tanto por si, todos os detalhes são tão perturbadores que qualquer intervenção de discursos ou de posições políticas viria a prejudicar aquilo que já fica claro pela via da humanidade. E Liniane não avalia nada, apenas relata de forma literária.

Cilon Cunha Brum é tio e padrinho da autora. A única vez que estiveram juntos foi no batizado de Liniane. Cilon, já clandestino em 9 de junho de 1971, foi chamado pelo padre. Saiu detrás de uma coluna, participou rapidamente da cerimônia e voltou a seu posto. Ele era um alto e magro militante do PC do B. Seu apelido era Comprido e todos diziam ser um sujeito solidário, simpático e brincalhão. Gostava também de crianças. No Araguaia é lembrado por seus poços artesianos, pela doutrinação e por sua relação com as crianças, é claro. Perto do final da Guerrilha, entregou-se. A questão do desaparecimento tornou-se um tabu familiar. Ninguém falava a respeito, apesar do pai da autora ter sempre procurado o irmão. Desde 2002, Liniane Brum, que é jornalista da TV Cultura de São Paulo, organizava e saía com uma equipe de reportagem a procura do que houvesse para descobrir. Porém, em 2009, a revista Veja publicou a terrível novidade: Cilon tinha sido morto a mando do então major Sebastião Curió no Araguaia e seu corpo ficara insepulto. Só então Cilon voltou a ser comentado em família. As circunstâncias da morte – Cilon era um prisioneiro fraco, vítima da malária que circulava livremente pela Fazenda Consolação tomada pelo Exército (para onde poderia fugir no estado em que se encontrava?) – revelam assassina necessidade de vingança e, fundamentalmente, desprezo. Segundo testemunhos, ele e dois companheiros foram executados e deixados no local, sob galhos de árvores. As mesmas testemunhas revelam que só foram enterrados depois que o dono da fazenda reclamou do cheiro.

Cilon Brum com seus pais, Lino e Eloah (Lóia)

A delicada da prosa de Liniane não recua dos detalhes e há artifícios que potencializam o que há de estarrecedor em Antes do Passado. Liniane usa um formato que aos poucos se revela muito eficiente. Ela joga as informações que colhe – fragmentos e mais fragmentos – na forma de crônicas e depois organiza-as na forma de cartas endereçadas à Vó Lóia, mãe de Cilon, falecida em 1989. Tal recurso funciona sob mais de uma perspectiva: ela não apenas “reorganiza o leitor” como dá uma demonstração do que pode ser dito sem chocar muito. É como se Liniane estivesse limpando o sangue da história a fim de reapresentá-la para suas tias. O efeito é devastador, principalmente quando a autora passa a se desculpar dizendo algo como “Olha, Vó, a senhora não vai gostar do que acabo de saber, mas vou ter que contar”. É o ponto onde a autora não consegue mais lavar o sangue.

Outro grande momento é quando a escritora irrita-se durante o retorno para São Paulo de uma de suas viagens ao Araguaia. Ela se encontra com um moço galante que, ao saber de onde ela viera, apresenta-se com sobrinho de um militar que era o braço direito de Figueiredo no SNI. Seu tio acabara de morrer e ele fora ao enterro para “cumprir tabela”. A situação simétrica, mas inteiramente injusta, deixa Liniane furiosa.

O relato de Liniane também demonstra o quanto a “Guerra” afetou a região do Araguaia e como as pessoas foram usadas e torturadas para auxiliar os militares. Até hoje muitos os temem. Quando são descobertas ossadas, eles, os militares, reaparecem. A população tem medo das entrevistas; afinal, há boatos de que os parentes dos guerrilheiros mortos preparam-se para voltar à região a fim de perpetrar uma vingança pelo colaboracionismo de alguns…

O livro de Brum é um poderoso documento pessoal da história recente do Brasil e torna-se mais potente pelo que possui de mérito literário. O Sul21 conversou rapidamente com Liniane Haag Brum.

A autora Liniane Haag Brum | Foto: Marcelo Min

Sul21- Há uma tentativa do MPF de abrir um processo contra o Major Sebastião Curió, como tu vês isso?

Brum – É claro que eu acho que é pertinente este gênero de ação. Afinal, há depoimentos e evidências que levam a crer que houve torturas e execuções. Não é um assunto que diga respeito apenas aos familiares. Nós podemos ser o elo de comunicação com os acontecimentos, mas o assunto é da nação. Como digo no livro, há duas fontes que teriam estado presentes na morte do Cilon, ambas vão mais ou menos pelo mesmo caminho. Não creio que seja função minha averiguar o que houve no Araguaia. O que fiz foi uma contribuição, na expressão e no formato que posso dar, para aproximar as pessoas da história numa abordagem literária.

Sul21- Na semana passada, houve manifestações contrárias às comemorações do Clube Militar pelo Golpe de 1964. De certa forma, o assunto da ditadura voltou à tona com força inesperada.

Brum – É verdade. Se a gente tentar ver o que está acontecendo com certo distanciamento – o que é difícil porque estamos imersos no agora – , veremos um momento muito peculiar. Peço desculpas pelo lugar-comum, mas parece que os jovens querem ir à frente passando a limpo uma série de coisas tal como fizeram os países vizinhos. O Clube Militar tem todo o direito de fazer suas comemorações e, a sociedade, tem o direito de reverberar o fato. Há, também, eventos no Memorial da Resistência aqui em São Paulo. Assim como fazem os militares, são chamados palestrantes que fazem exposições. O problema não são os eventos em si, o problema é que, se um vai ficar apenas apedrejando o outro, não se vai avançar. Eu acho que seria ótimo se fosse revogada a Lei de Anistia ou o cumprimento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA no caso Araguaia. O Supremo Tribunal Federal julgará na próxima quinta-feira, dia 12 de abril, a ação da OAB sobre o cumprimento desta sentença. Vale pressão. Acho bom também ser lembrado que a tortura é crime imprescritível.

Sul21 – O livro relata casos de pessoas do Araguaia que ainda têm medo de falar  sobre o início dos anos 70. Como é isso?

Brum – Meu livro não é puramente jornalístico, nem puramente histórico, é a história versus a minha subjetividade, o que não significa dizer que a informação fique desqualificada. O medo das pessoas é um fato indiscutível. É claro que alterei a linguagem para pôr no livro, mas há um medo real. A população participou involuntariamente daquilo que chamam de “guerra”, foram convocados à força. Então, quando chega uma mulher fazendo perguntas, eles se retraem. A população também foi torturada pelos militares atrás de informações que os levassem aos grupos guerrilheiros. Há medo até hoje.

Sul21 – Existe, em São Sepé, o pensamento de que Cilon era um perigoso assaltante de bancos e que recebeu o que lhe era devido?

Brum – Na época, não havia um entendimento global do que acontecia e não somente em São Sepé. O tom era mais ou menos assim: “Se o filho do Lino foi morto, imagina o que não terá feito!?”. Isto está no livro para mostrar a época que se vivia. Apesar de que há ainda gente que pensa assim.

Sul21 – Durante o livro, tu estás quase sempre acompanhada de uma equipe de filmagem, há planos para um filme?

Brum – Antes de ser um livro, Antes do Passado, foi um filme… Em 2002, eu planejei um documentário. Na verdade, não tinha muita compreensão do que estava fazendo. Afinal, eu sempre trabalhei com cinema e áudio-visual — hoje em dia, sou editora de TV. Eu pensava em realizar um documentário sobre a Guerrilha, tendo por foco o tio Cilon. Era uma má compreensão das coisas… Comecei a colher e gravar entrevistas. Enquanto isso, estudava literatura, planejei outros livros e, quando foi confirmada a morte do tio Cilon em 2009, resolvi que era um livro. Mas é claro que eu tenho um material imenso gravado e tenho que avaliar o que fazer com ele, apesar de que o livro me satisfaz. O que eu desejava dizer está ali.

Sul21 – E como tu encontraste o tom para o livro, como tu resolveste estruturá-lo numa série de crônicas?

Brum – Eu cheguei nesta forma não brigando com os fatos. Eu tinha só pedaços, não tinha nada inteiro. Primeiro eu resolvi que seria literatura, não apenas um documento ou uma narrativa. Decidi também pela primeira pessoa do singular porque eu seria o elo que tentaria costurar as pontas. E seria a história de uma busca. A forma da crônica me pareceu a melhor para dar mais vida, para fazer com as matérias aderissem melhor ao todo. Retirei muitos trechos de minhas memórias de infância, que não interessavam diretamente e que pretendo usar futuramente numa ficção.

Sul21 – A temperatura emocional do livro sobe muito nas cartas para a Vó Lóia…

Brum – Isso surgiu depois, não estava no projeto inicial. Veio no processo de escrita. Permitiu que eu pudesse falar mais intimamente da família. Achei que aquilo aproximava o tio e a situação famíliar das pessoas. Minha escrita funcionava com muita naturalidade quando eu me dirigia a ela. E era um modo de colocar mais informações para o leitor.

A mãe Eloah (Lóia), Cilon e Elza Barberena

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Como me tornei cristão

freira

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Vertigem IV

Um operário tira uma sesta em uma viga durante a construção do edifício Radio City, com a cidade de Nova York espalhada abaixo. A foto é de 1933.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Fadiga dos metais

Ontem, o programa da Ospa era bem bom, —

Brenno Blauth: 3 Movimentos para Quinteto de Sopros e Cordas (Estreia)
João Guilherme Ripper: Concerto a Cinco (homenagem ao Quinteto Villa-Lobos pelos 50 anos)
Dmitri Shostakovich: Sinfonia nº 5

Regente: Victor Hugo Toro
Solista: Quinteto Villa-Lobos

— mas é muito claro quando o regente não agrada à orquestra por estilo pessoal ou incompetência. Creio que não preciso falar com nenhum músico para afirmar tal fato. As encantadoras obras de Brenno Blauth e João Guilherme Ripper foram levadas brilhantemente pelo Villa-Lobos e pela Ospa, apesar da confusão ocorrida no início do concerto, quando os violoncelos ou os contrabaixos simplesmente não entraram e tudo teve que ser recomeçado. Fato inédito: o maestro Toro olhou para a direita e viu apenas o pano vermelho. Estávamos com um ou dois segundos de música, então a coisa passou batido, principalmente se considerarmos que a obra de Blauth, que ficara anos perdida entre os papéis de sua mulher, era de excelente qualidade e compensou o contratempo. A música recomeçou, mas ficou aquele fiasquinho na conta.

A primeira parte do concerto, onde foram tocadas as obras de Blauth e Ripper, foi a melhor. Os extraordinários solistas do Quinteto Villa-Lobos arrebentaram, só não precisavam ter tocado com tanto descuido o bis com a Ária da Bachiana Brasileira Nº 5. O bis é um momento de alegria. O público o exige num elogio aos solistas e o solista retribui a homenagem reafirmando sua categoria. Não é um momento para crivar de erros uma peça conhecida, ainda mais num arranjo assim assim.

A conhecidíssima Quinta de Shostakovich foi interpretada mais na concepção heroica de Bernstein do que na contida de Mravinsky, mas a orquestra não parecia tão entusiasmada  quanto Toro, que chegava a pular no pódio com sua batuta daquela forma que Fabiana Murer não fez com sua vara. As cordas da orquestra estiveram muito bem, assim como flautas e oboés — com destaque novamente para os impecáveis Artur Elias e Viktória Tatour — , mas os metais estiveram desfalcados e mals, muito mals. Apenas para usar uma expressão comum, diria que tinha gato (mais provavelmente uma gata) na tuba e filhotinhos pelos outros instrumentos.

Apesar da excelente primeira parte, ficou aquela impressão de que o concerto poderia ter sido muito melhor.

P.S. — Ah, esqueci: sentei lá em cima no Dante Barone. Num local onde a acústica era efetivamente péssima. Fiquei sonhando com a construção e desejando o bom andamento das licitações da Sala Sinfônica.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Trecho do filme “Amante Latino” (1979) com Sidney Magal / Roteiro de Paulo Coelho

Isto também não é uma “idiotice”? Refiro-me ao post abaixo. Dica do Fernando Guimarães.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Paulo Coelho: Ulysses, de James Joyce, é "prejudicial" para a literatura (bem que eu desconfiava)

Não posso dizer que lamentei esta matéria. Ao contrário. Por admirar Jorge Luis Borges, Paul Rabbit já escreveu livros com os títulos de O Aleph e O Zahir. Acho que ele jamais escreverá sua versão de Ulysses. Que bom!

Traduzido livremente por mim, do The Guardian

Escritor brasileiro descarta clássico modernista sobre um dia da vida de Leopold Bloom. Chama-o de “puro estilo”

Paulo Coelho põe no lixo o Ulysses, de James Joyce. "Não há nada lá".

Ulysses, de James Joyce, tem vencido enquetes e mais enquetes como o maior romance do século 20, mas, segundo Paulo Coelho, o livro é “uma idiotice”.

Antes, porém, falou de si ao jornal brasileiro Folha de S. Paulo. Coelho disse que o motivo de sua popularidade é o de ser “um escritor moderno, apesar do que dizem os críticos”. Isto não significa que seus livros sejam experimentais, acrescentou — sim, “eu sou moderno porque faço o difícil parecer fácil e então eu consigo me comunicar com o mundo inteiro”.

Os escritores se dão mal, de acordo com Coelho, quando se concentram na forma e não  no conteúdo. “Hoje em dia escritores querem impressionar outros escritores”, ele disse ao jornal. “Um dos livros que causaram maior dano foi Ulysses de James Joyce, que é puro estilo. Não há nada lá. Desmontado, Ulysses é uma idiotice”.

Os livros e romances espirituais de Coelho — cujo último, Manuscrito encontrado em Accra, passa-se na Jerusalém de 1099, prestes a ser atacada por cruzados — já venderam mais de 115 milhões de cópias em mais de 160 países. Ulysses, o romance modernista de Joyce, com 265.000 palavras sobre um dia na vida de Leopold Bloom em Dublin, foi publicado pela primeira vez com uma tiragem de 1.000 exemplares em 1922. Essas primeiras edições pode ser adquiridas hoje ao valor de R$ 320 mil e a existência do livro é comemorada todos os anos e em todo mundo no dia em 16 de Junho, data em que Bloom vagou por Dublin.

Embora Ulysses frequentemente encabece listas de melhores livros, não é raro que o critiquem. Coelho não é o primeiro a criticar obra-prima de Joyce. Roddy Doyle disse em 2004 que duvidava que as pessoas que os colocavam no topo tivessem sido realmente tocadas por ele.

P.S. — Este post só foi possível porque a Caminhante Diurno — que é também a Caminhando por fora — me indicou a matéria no The Guardian.

P.P.S. — Idelber Avelar escreve para mim no twitter, prenhe de razão: há um probleminha de tradução: “stripped down, Ulysses is a twit”. É um TUÏTE, não uma ‘idiotice’. Abraços.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Mudança de fase

Já passei da fase de defender meu time sob quaisquer circunstâncias. Quando um árbitro beneficia o Inter, digo sem qualquer problema ou sofrimento. Ontem, houve um jogo aqui no Olímpico onde o Bahia foi roubadíssimo em favor do Grêmio.  À exceção de um, foram lances claríssimos. Não creio em pagamento de árbitro, mas em azar e predisposição. O sergipano Lima e Silva e seus auxiliares tiveram azar de ocorrerem vários lances duvidosos que fizeram com que aparecesse claramente sua predisposição a não se incomodar com a torcida local. O gol da virada do Bahia foi legal. O gol da vitória do Grêmio foi MUITO ilegal e na cara do auxiliar que vigia a linha de gol. O sujeito estava há 5 metros de distância e voltado para o lance. Quando pensei que o cara ia falar com juiz a fim de anular o gol, ele apenas avisou ao perdido sergipano que ele tinha dado dois cartões para Mancini e, portanto, deveria expulsar o jogador do Bahia. Foi uma decisão correta. O único lance realmente duvidoso foi se Kleber estaria ou não impedido no primeiro gol do Grêmio. Porque o pênalti posterior foi claro.

Ou seja, houve uma cirurgia no Olímpico e estou esperando a visita do sergipano ao Beira-Rio para poder dizer que beneficiaram o Inter.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Não brinca com a gente, Gurgel

Trabalhei toda a sexta-feira nas matérias culturais do Sul21, mas, sábado, logo notei que a leitura da acusação fora uma decepcionante. Ela ficou clara quando li as manchetes dos jornais no último sábado. A manchete de um jornal aqui de Porto Alegre foi “Dirceu era chefe do mensalão, diz Gurgel”. A intromissão daquele “diz Gurgel” revela a verdade: não houve novidades, provas, nada. O desencanto da manchete foi aquele de quando a gente pega o jornal sem saber o resultado do jogo e fica sabendo de forma súbita a respeito de nossa derrota. O que disse o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, no Plenário do Supremo Tribunal Federal, foi apenas a palavra do Procurador Geral da República, Roberto Gurgel. A leitura foi quente, mas, quando passada no coador, o que sobra é que Gurgel considera possível a culpa de Dirceu. A Globo News não se referiu ao trecho em que Gurgel afirma com todas as letras “não ter provas” contra seus principais réus. O que mais me surpreendeu a forma: o fato do homem ter colocado recortes de revistas e jornais e de que seu discurso ter sido um resumão da Veja. Quem acredita hoje na revista mais comprometida com um partido no país?

A questão do carro-forte usado para transportar valores que seriam pagos a parlamentares em troca de apoio, foi um exemplo cômico do vazio das acusações. OK, usaram um carro-forte, mas vamos lá: quem alugou, quem dirigiu o carro, por onde ele andou, que contas movimentou, etc.? Nenhuma comprovaçãozinha? E quando as datas de saques não batem com as das principais votações? Ora, neste caso o Gurgel disse houve “rompimento de acordos pré-estabelecidos entre os mensaleiros”. OK, e dava pra explicar os detalhes do rompimento? Não. E a tentativa de condenar Dirceu usando como provas depoimentos de réus do inquérito que se tornaram inimigos políticos de Dirceu é mais uma confissão da fraqueza de argumentos.

Concordo com o que escreveu o Sérgio Amadeu nos 140 caracteres do twitter: “O PT caiu na crença de que a elite brasileira é coerente. Se os tucanos fazem esquemas de arrecadação, ele também poderia fazer. Isso foi o mensalão”. E isso foi o que pensei desde o primeiro dia. Também sem provas.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A Ospa e a inação como método

Não sei como é para vocês, caros amigos da OSPA, mas a mim, que sou um pouco inquieta, o que mais irrita em tudo o que debatemos neste grupo (fim da escola, nenhuma sensibilização de públicos, escassos concertos para a juventude, inexistentes palestras pré-concerto, etc.) é ver a enorme falta de flexibilidade e criatividade para se empreender qualquer ação que seja diversa aquela prevista no papel. Isto vai desde formalizar e ter este grupo reconhecido e integrado à orquestra até atuar pequenas idéias como publicar previamente no grupo a música dos concertos para preparar o público interessado para a audição e parabenizar os ospianos pelos aniversários. “Mas estas são bagatelas!”, vocês dirão.

Posso até desconhecer todos os mecanismos, necessidades técnicas e outros meandros do métier… Ok, sei bem que não sou perfeita e não sei tudo! Mas, pela vivência em associações e trabalhos de voluntariado sei que muitas coisas podem ser feitas com um pouco mais de boa vontade.

Me angustia o foco unidirecional e restritivo, voltado quase exclusivamente para a construção do teatro, que parece aniquilar a possibilidade de qualquer outra ação. Obviamente, ninguém quer a OSPA e seus integrantes trabalhando em condições adversas e em locais impróprios mas, tenho certeza, haverá espaço ocioso em outras estruturas do estado e do município (CCMQ, Gasômetro, etc) que poderiam ser usados para atividades. Eu, inclusive, acredito que a atual administração seja muito enxuta e não consiga dar conta de tudo mas então, porque não usar as ofertas voluntárias de ajuda? Centralização de poder e de fazer não está com nada!!!Imagino que palestras, concertos didáticos com grupos menores e até pequenos cursos poderiam ser ministrados deste modo. Pode até ser que eu esteja errada mas a sensação que tenho é que estamos desprezando as excelências da OSPA e perdendo grandes oportunidades. Sem formação de público e sensibilização quem vai frequentar o novo teatro???

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Sobre absolutamente nada (ou Irritações em casa)

Tolstói dizia que o que mais irrita o ser humano é a mudança de planos causada por surpresas desagradáveis. O russo era dado à declarações bombásticas e devia falar como se fosse a Bíblia, tal o número de afirmativas de tom indiscutível que externava em seus escritos. Se os sites que divulgam citações lessem Tolstói, estariam cheios de frases do autor. A mim, o que mais irrita são as surpresas desagradáveis que envolvem desencaixes financeiros, fato que está perfeitamente dentro do conceito acima e de quem  é financeiramente contido — sucedâneo para pão-duro — mas é obrigado a gastar muito mensalmente.

Pois anteontem, nós montamos uma espécie de estúdio na casinha (edícula) de trás de nossa casa para minha filha estudar tranquila, no silêncio. Só que chovia lá fora e descobrimos uma enorme goteira no corredor que liga a sala da casinha a seu único quarto. Mas quando falo em enorme goteira, quero dizer que quase chovia dentro da casa, sobre o parquê. Para completar, a casa, onde há pouco mais de ano morava minha mãe, que é agradável e que usamos habitualmente para receber pessoas, tinha virado um depósito de portas e colchões, fato que certamente deixaria Tolstói furioso, louco para atirar Guerra e Paz na cabeça do primeiro ser humano que visse pela frente.

A edicula com suas telhas malditas

Instalando boa dose de esquizofrenia no cérebro, fingimos ser normal a presença de colchões e portas, assim como da chuva estragando o parquê, e transferimos as excrescências para o quarto da edícula. A sala ficou uma beleza para estudar. Compramos quadro-negro, flip-chart, canetas, papel, além de um pequeno farnel de guloseimas.

Com a chuva, voltou o velho problema da Vicentina, nossa cadela burra. Há anos de forma unilateral, ela tomou a decisão de que não pode tomar chuva. Então, quando chove, ela fica na garagem, onde passa a fazer suas necessidades. Claro que isto é irritante, mas a gente está adaptado. Só que hoje pela manhã, notei que algo no cérebro da Vicentina — que foi adotada por nós e que deve ter sofrido graves problemas alimentares durante a mais tenra infância — fez com que ela permanecesse cagando na garagem mesmo em noite estrelada e sol nascente radiante. Lembrei de Tolstói novamente ao concluir que não conseguiria sair de casa sem retirar os cocôs. Quase perdi o ônibus.

Obviamente, estava louco para dar uns tapas na Vicentina, mas não costumo fazer isso e ela não entenderia, pois nenhum cão, nem os mais inteligentes, ligariam uma surra ao fato de ter posto um cocô horas antes. Ela apenas ficaria com medo de mim. Mas por que a Juno aprende tudo e a Vicentina nada? Qual é o grau de cognição daquela cusca? Bom, hoje à tarde vai o cara lá arrumar o telhado. Quando liguei para ele, parecia saudoso de nós. Há quanto tempo, seu Milton! É muito boa pessoa, muito engraçado, competente, simpático e gremista. Poderia nos visitar sem cobrar, né?

Juno e sua companheira preta a burra

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Vinte anos após o fim da URSS, Rússia volta a ter ensino religioso

Nenhuma tradição democrática, surras em homossexuais, um mal disfarçado ditador, julgamento de bandas que criticam o dito cujo… Enfim, a Rússia segue atrasada. Porém, em termos laicos, era bem mais avançada que nosso país quase fundamentalista. Lamento muito esta notícia de retrocesso, apesar desse troço de religião sempre ter resultado em bons romances por lá…

Por Gonzalo Aragonés para o La Vanguardia, retirado do Paulopes

Igreja Ortodoxa conseguiu, segundo ela, acabar com monopólio do darwinismo

Vinte anos depois que a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) foi fendida, a religião volta a ser ensinada nos colégios da Rússia. Nestas duas décadas, a Igreja Ortodoxa vem ganhando proximidade com as instituições e presença entre uma população que durante quase todo o século XX foi oficialmente ateia. Sendo uma religião majoritária entre os russos, um de seus objetivos tem sido entrar nas escolas.

No próximo período escolar, que começa no dia primeiro de setembro, todos os colégios russos contarão com uma disciplina a mais: “Fundamentos das culturas religiosas e da ética laica”. Um chamativo nome pelo qual o Kremlin encontrou uma solução salomônica para acomodar as principais religiões do país.

A disciplina será de caráter trimestral, nos quartos e quintos anos (10 e 11 anos). Além disso, é obrigatória, desta forma, ninguém poderá ficar sem cursá-la se não quiser ficar sem o diploma escolar. No entanto, os pais têm a possibilidade de escolher um dos seis módulos pelos quais a disciplina está dividida.

Estes módulos foram programados a partir do mapa religioso da Rússia, o país mais extenso do mundo, com uma população de 142,9 milhões de habitantes. Os alunos podem escolher a história de uma das quatro religiões tradicionais da Rússia (cristianismo ortodoxo, islamismo, judaísmo e budismo) ou um módulo mais geral: “fundamentos das culturas religiosas” ou “fundamentos da ética laica”.

Tudo começou em 2009, quando o então presidente russo, Dimitri Medvédev, criou um programa piloto para introduzir nas escolas o ensino da moral depois do colapso da URSS. O Ministério da Educação introduziu a disciplina como optativa e, entre 2009 e 2012, foi ensinada em 19 das 83 regiões do país.

Segundo as autoridades educativas russas, o experimento obteve êxito. Porém, as vozes críticas não estão ausentes nesta questão de devolver a religião às escolas. Essas vozes não estão de acordo com a decisão por diversas razões. Sob um ponto de vista educativo, o especialista em religiões, Ivar Maksúrov acredita que seja “errôneo dividir a crianças, numa idade tão jovem, por crenças”. “Não sou contra introduzir estas disciplinas nas escolas, mas não desta forma”, acrescenta.

Outros críticos são mais contundentes e qualificam a iniciativa de “prejudicial e perigosa”. Alguns temem que a aula seja utilizada como espaço de pregação ou, inclusive, de proselitismo. E outros que o ensino careça de caráter científico.

Precisamente, um dos problemas que será enfrentado pela nova disciplina de religião, nas escolas russas, é a falta de professores preparados e de manuais. Para resolver isso, são preparados milhares de tutores, em nível estadual, que depois vão preparando os professores nas regiões. A disciplina se centra mais na história do que em questões de fé.

O protodiácono Andréi Kuráiev, professor da Universidade Estatal de Moscou (MGU) e da Academia Espiritual de Moscou, se encarregou de redigir o manual sobre cristianismo ortodoxo.

“Não existe lugar para propaganda religiosa nestas lições, nem tampouco para fazer convites para participar em determinados ritos religiosos ou aceitar dogmas particulares. Os livros não devem incluir críticas a outras religiões, e não tem que ter somente uma linha que possa ser usada como argumento no debate sobre a superioridade de uma religião em relação à outra. A disciplina deve ser abordada a partir de um ponto de vista laico”.

Igreja Ortodoxa Russa vinha tentando introduzir o ensino religioso havia anos

Depois de duas guerras na Chechênia, e com o Cáucaso ainda quente, o enfrentamento entre grupos étnicos ou religiosos é uma questão muito sensível na Rússia. Além disso, na última década, tornou-se evidente que a crescente imigração do Cáucaso e da Ásia Central (mulçumanos, em sua maioria) não é muito bem vista pelos russos étnicos. Surtos esporádicos de violência têm feito as autoridades temerem pela estabilidade do país.

“Os bons manuais são, evidentemente, necessários, mas o mais necessário são bons professores. Com um bom professor, uma lição sobre fundamentos religiosos pode se tornar uma boa lição de tolerância religiosa”, apontouYevgueni Bunimóvich, que possui o título honorífico de professor da Rússia.

Durante anos, introduzir a religião nas escolas tem sido um objetivo da Igreja ortodoxa russa. De fato, em 2006, as regiões de Bélgorod, Briansk, Kaluga e Smolensk incluíram em seus planos de estudo a história da religião ortodoxa como uma disciplina optativa. Isso levantou protestos por parte de outras crenças, especialmente das autoridades religiosas mulçumanas. O islã é a maior das religiões minoritárias da Rússia.

Num tempo de aproximação entre o Kremlin e o Patriarcado ortodoxo de Moscou, o projeto de Medvédev levantou temores entre as outras comunidades religiosas. No entanto, a possibilidade de escolher a disciplina favorece as outras confissões nas regiões onde são majoritárias. Na república de Tuvá, no sul da Sibéria, fronteira com a Mongólia, a maioria de seus habitantes é budista da escola tibetana, desta forma, a maioria dos pais (mais de 70%, segundo o governo local) escolheu o módulo fundamentos da cultura budista.

O ateísmo da época soviética também continua tendo peso (ateísmo de Estado), quando a religião era o “ópio do povo”, como classificou Karl Marx, e quando o Estado confiscava e destruía as propriedades da Igreja.

No conjunto do Estado, a maioria dos pais (41%) já escolheu fundamentos da ética laica. Embora a maioria dos russos se declare cristão ortodoxo, segundo uma pesquisa do Centro Levada, do ano passado, 47% nunca vão à Igreja, e somente 3% vão semanalmente.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Vertigem III

Em foto de 1955, trabalhadores ficam sobre uma viga de aço de 4,5 cm em Nova Iorque. Barbada.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Quem pagar R$ 100 mil, leva Andressa Mendonça Cachoeira em prisão domiciliar

Andressa Mendonça foi detida sob suspeita de tentar corromper um juiz.

Há pessoas verdadeiramente profissionais neste mundo!

Para piorar a coisa, o escritório do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos…

… decidiu deixar a defesa do marido de Andressa, o ridículo Carlinhos Cachoeira.

Para ser libertada (oh!), Andressa deverá pagar R$ 100 mil de fiança em dinheiro.

Porém, se alguém pagar 34 mil e deixar dois pré-datados de 33 mil cada um, …

poderá levá-la em prisão domiciliar. Olha, gente, eu não tenho essa grana, …

… mas não acredito que faltarão candidatos.

Dizem que um empresário ligado à Abril e à revista Veja,

fará seu lance em dinheiro na Justiça. Aguardem!

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A aventura de Cesare Battisti em Caxias do Sul

É claro que a livraria Do Arco da Velha não é obrigada a comprar brigas que não são suas, mas deveria ter tomado uma posição clara e firme em relação aos ataques que sofreu na semana passada. Uma livraria deve ser sempre um espaço de civilidade e esta deve prevalecer, mesmo numa situação difícil. Explico: a Do Arco da Velha, de Caxias do Sul, tinha marcado no último sábado uma sessão de autógrafos com Cesare Battisti, que acaba de publicar seu 18º livro, Ao pé do muro (Martins Fontes). Porém, dias antes do evento, deixou-se intimidar por um bando de malucos que, no Facebook, prometeram hostilizar e até matar o italiano Cesare Battisti, ex-militante do PAC italiano (Proletários Armados pelo Comunismo) e desistiu do evento marcado. É claro que ninguém mataria Battisti. Todos seguiriam vivendo suas vidas, uns mais mal humorados do que outros. Na minha opinião, a livraria deveria ter ignorado publicamente os ataques e mantido a sessão — não sem antes avisar a polícia porque poderiam acontecer manifestações. Seria uma atitude contra o obscurantismo, a intolerância e o provincianismo. Tenho certeza de que nem manifestações ocorreriam.

Não interessa se Battisti é um bom autor. Não interessa se ele matou. Não interessa se foi julgado à revelia. Nosso país formou-se a partir de imigrantes e, se eles estão aqui legalmente, devem ter liberdade de trabalhar honestamente e produzir, sem serem ameaçados. Não entendo o gênero de conspurcação que a cidade sofreria com a presença do ex-militante e atual escritor. Caxias está no Brasil, assim como Battisti.  Queiram ou não, ele está no país legalmente, escreveu 18 livros — 15 na França, em liberdade — e, se quisesse, poderia processar quem o chama de assassino. Afinal, o STF liberou o homem, que pode ir a vir.

A manifestação da livraria caxiense no Facebook foi pusilânime, para dizer o mínimo. Lavou as mãos, como se o convite tivesse sido enfiado goela abaixo pela Martins Fontes:

Na maior parte dos casos não somos nós que buscamos um ou outro autor em específico para um lançamento, mas as editoras ou os próprios autores nos procuram para estes eventos. No caso do autor Cesare Battisti, a editora Martins Fontes do Rio de Janeiro que publica sua obra, nos procurou, pois a vinda do autor estava certa para o estado do Rio Grande do Sul, com um lançamento programado para Porto Alegre. Eles quiseram aproveitar e incluir um lançamento na cidade de Caxias do Sul. Entendam que não estamos trazendo ele a Caxias do Sul, estamos cedendo o lugar para o lançamento do livro e sessão de autógrafos.

O que é isso??? Lamentável manifestação, a qual foi complementada pelo cancelamento da sessão de autógrafos, sem aviso no Facebook. A livraria deveria defender Battisti, fazendo frente à truculência e à barbárie. Lembro que uma vez, há uns trinta anos atrás, num churrasco na casa de um amigo, este fez uma série de ironias com um convidado, o qual ficou visivelmente constrangido e incomodado. Não respondeu. Pois o dono da casa, pai do autor das ironias, reagiu fortemente:

— Meu filho, aprenda de uma vez por todas uma coisa. Todos os convidados, em nossa casa, todos, sem exceção, são sempre recebidos com educação. São convidados e não merecem sentir-se excluídos.

O churrasco acabou bem e jamais esqueci daquilo. Cumpro em minha casa. A Palavraria recebeu Cesare Battisti normalmente aqui em Porto Alegre. Quem quis ir, foi; quem não quis, ficou em casa, assim como quem detesta o escritor como um terrorista assassino. É simples assim.

Alguns caxienses organizaram outra sessão de autógrafos e leituras do livro. Foi ao livre, numa residência da cidade. O escritor chegou simpático e sorridente. Foi bem recebido.   Lá tinha mais luz do que na tal livraria. Quem quis vê-lo, viu. É assim que se faz.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Heleno de Freitas: a mais solitária das estrelas

Publicado originalmente no Sul21 em 6 de de abril de 2012

Uma tragédia fica caracterizada onde não há apenas seriedade e dignidade, mas também conflitos com instâncias superiores, sejam elas metafísicas, como com deuses ou o destino, ou tangíveis, como com as leis e a sociedade. No caso de Heleno de Freitas o algoz foi o destino, o qual, como nas tragédia grega, não se deixou dobrar em nenhum momento. Pode-se dizer que Heleno cumpriu minuciosamente todo o papel trágico que lhe cabia, saindo da glória para a loucura e a morte em linha reta, com a convicção demonstrada sobejamente em Heleno, filme de José Henrique Fonseca, em cartaz nas principais cidades brasileiras.

A obra, rodada em gloriosa fotografia em preto a branco, deixa-nos por duas horas livres de quaisquer vestígios de ciúmes sobre a qualidade do cinema argentino, apesar da presença do hermano Fernando Castets dentre os roteiristas. Mais: não é necessário gostar de futebol para gostar de Heleno. Advogado, jogador de futebol dos bons, galã, boa vida, viciado em éter e lança-perfume, intratável, inteligente e vítima da sífilis, Heleno de Freitas traz todos os ingredientes de um grande personagem de tragédia. Vitimado pelos vícios e pela sífilis diagnosticada tardiamente — e que ele se negava a admitir ou tratar — , Heleno também foi vitimado pela celebridade e arrogância. É uma história triste, claro.

O craque e seu cabelo bem repartido

Heleno foi o primeiro grande encrenqueiro do futebol brasileiro e talvez mantenha-se no topo até hoje. A Adriano Imperador falta não apenas classe. O comportamento de nosso contemporâneo é uma brincadeira boba e monotemática frente a alguém que foi o principal jogador do Botafogo por oito anos — que fez 209 gols em 235 jogos no Bota, além de 19 em 24 jogos pelo Vasco e 15 em 18 jogos pela Seleção — , que desprezava seus companheiros pelo fato de serem um bando de pernas-de-pau (e que dizia e repetia isso para quem quisesse ouvir, a imprensa deliciava-se), que conquistava as mulheres que bem entendia, que se irritava por nada, que deu um nada metafórico tiro no pé ao tentar acender um fósforo enfiado na unha (John Wayne foi sua inspiração), que tinha amigos empresários, juristas e diplomatas e que acabou louco. Como definiu seu biógrafo Marcos Eduardo Neves:

Ele era temperamental como Edmundo, bonito como Raí, mulherengo como Renato Gaúcho, artilheiro como Romário, boêmio como Ronaldinho Gaúcho, inteligente como Tostão, de boa família como Kaká, elegante como Falcão e problemático como Adriano.

(Faltou dizer que ele torrava dinheiro e era explorado pelos amigos como Garrincha).

Rita Hayworth no papel de Gilda

Seu gênio irascível e predador de mulheres rendeu-lhe o apelido de Gilda, analogia com a célebre personagem de Rita Hayworth, também bela e incontrolável. O apelido foi criado pela torcida do Fluminense. As noites de Heleno eram no Copacabana Palace, no Cassino da Urca ou na boate Vogue, tudo o que de melhor que a noite do Rio oferecia. Porém, assim como Rita Hayworth dizia que “todos os homens que já tive foram para a cama com Gilda e acordaram comigo”, Heleno dormia no Copacabana Palace e acordava no Botafogo. E o Botafogo era ruim demais, só Heleno se salvava. O time era tão ruim que Heleno nunca foi campeão carioca pelo time.

Em 1948, a contragosto, foi vendido ao Boca Juniors na maior transação do futebol brasileiro até então. Deixou a mulher grávida no Rio e seguiu fazendo seus gols até dar o tal tiro no pé. Voltou para conquistar seu único título carioca pelo Vasco, no ano de 1949. O técnico do Vasco era o exigente Flávio Costa, que também comandava a Seleção Brasileira. Aliás, a Seleção tinha por base o Vasco. Assim, era quase inevitável que Heleno jogasse e fosse Campeão do Mundo em 1950. Mas não gostava dos treinos, coisas chatas e cansativas após as noitadas. Um dia, irritado, ameaçou Flávio Costa com uma arma descarregada e acabou apanhando. Ficou fora da Copa, claro. E acabou partindo para a Colômbia, que pagava os mais altos salários do continente. Com a camisa do Atlético Barranquilla, “El jugador”, com era conhecido, encantou um jovem jornalista chamado Gabriel García Márquez.

Durante a Copa do Mundo, Heleno esteve na Colômbia. Quando soube da derrota, numa das melhores cenas do filme, Heleno comemorou a perda do título, finalizando a festa como sempre: com bebedeira e mulheres.

Fora de forma e falido, viciado em éter e lança-perfume, mas com os sintomas da sífilis já absolutamente presentes, teve uma passagem pelo Santos — nunca entrou em campo — e voltou ao Rio em 1953 para jogar em seu novo clube, o América-RJ. Jogou apenas alguns minutos. Foi expulso no primeiro tempo e nunca mais entrou em campo. Foi internado em 1954 na Casa de Saúde São Sebastião. Emagreceu, perdeu dentes e cabelo e o que lhe restava de sanidade. Ouvia vozes e agia de forma violenta.

O cuidadoso mosaico que o filme vai montando é formado por cenas alternadas da ascensão, glória, decadência e fim do craque, sem respeito à linha de tempo. É perfeito ao mostrar como que sua vida fora do campo foi lentamente matando o craque. Rodrigo Santoro, no papel de Heleno, voltou a demonstrar que não é apenas mais uma carinha bonita. Poucas vezes se viu no cinema nacional uma imersão tão radical num personagem. Basta dizer que o ator perdeu 12 quilos para viver as cenas finais do filme, já louco num sanatório. Santoro começou as filmagens pesando entre 80 e 82 quilos e chegou a 68, 69, fruto de uma dieta rigorosa ou, segundo declarou, da fome. Também tomou aulas com o bailarino Marcelo Misailidis para ganhar leveza e agilidade, características do jogador. O treinamento com bola foi feito com o ex-jogador Cláudio Adão.

O trio principal de atores é completado por Alinne Moraes, como Sílvia, esposa do jogador, pela colombiana Angie Cepeda, uma de suas amantes, e por Erom Cordeiro, que faz Alberto, o melhor amigo de Heleno e que acaba ficando com sua mulher… Heleno foi a mais solitária das estrelas.

Heleno é um filme rigoroso, não é moralista e muito menos piegas. Mesmo a música que acompanha a degenerecência mental do craque não busca lágrimas. É um movimento da 5ª Sinfonia de Mahler. O diretor Fonseca diz que gostaria que os espectadores soubessem da biografia de Heleno antes de verem o filme, pois considera que as cenas mostradas sejam insuficientes. Pedimos licença para discordar. O que é mostrado nos deixa tão fascinados que é impossível não sair do cinema e dar uma olhadinha no Google.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A mais hedionda das fotos?

O genocídio armênio ou holocausto armênio é como é chamada a matança e deportação forçada de centenas de milhares ou até de mais de um milhão de armênios que viviam no Império Otomano, com a intenção de exterminar sua presença física e cultural durante o governo dos chamados Jovens Turcos, de 1915 a 1917.

O genocídio teria inspirado Hitler no extermínio de judeus. Hitler teria dito que as pessoas esqueceriam do fato — Afinal quem fala hoje do extermínio dos armênios? O genocídio caracterizou-se pela inédita violência, além de prisões e assassinatos, houve a utilização de marchas forçadas para a deportação, o que levou milhares de armênios à morte. Foi uma política de extermínio semelhante àquela que os nazistas impuseram aos judeus e a que os judeus impõem hoje aos palestinos. Historicamente, está estabelecido que houve o genocídio, há documentação e a certeza de um plano organizado de eliminar sistematicamente os armênios. Adota-se a data de 24 de abril de 1915 como a do início do massacre, por ser a data em que dezenas de lideranças armênias foram presas e massacradas em Istambul.

O governo turco rejeita o termo genocídio e também que as mortes tenham sido intencionais. Quase cem anos depois, ainda persiste a polêmica, tanto que o Nobel Orhan Pamuk entrou em rota de colisão e passou a ser perseguido pelo governo turco e por parte da opinião pública do país ao admitir o genocídio, em entrevista concedida a uma revista suíça.

No último dia 7, o presidente francês, François Hollande, afirmou que “continua com a intenção de propor um projeto de lei para reprimir a negação do genocídio armênio”. Haveria uma pena para quem o negasse.

O Genocídio -- cena durante uma das marchas de deportação: com um pedaço de pão, um oficial turco provoca crianças armênias famintas (Clique para ampliar)

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Fernandão e o difícil caminho da simplicidade

É, o difícil é fazer o simples
Bruno Zortea, no Facebook

O time está perfeito, espetacular? Claro quer não. Vamos patrolar o Vasco? Olha, se alguém passar por cima de alguém é mais provável que estejamos SOB o Vasco no próximo sábado. Mas o Inter melhorou muito, basta (re)ver o jogo de ontem. Fernandão e seu auxiliar não tiveram tempo para grande treinamentos. Acertaram apenas a escalação e tiveram a sorte de pegar dois adversários fracos — Atlético-GO e Figueirense. Mas só o fato de terem abandonado algumas invenções de Dorival e principalmente por não fazerem o gênero de substituições tolas como as do ex-treinador, fizeram o time crescer. Mudou muito? Não, negativo, porém Fernandão fixou o excelente Fred como titular na ausência de outros meias e evitou aquelas dorivalices de escalar um monte de “confirmados” (segundo ele) ou um monte de jovens, sem mesclar. Estes têm que entrar um a um, apoiando-se nos mais experientes.

A melhora do time reforça minha tese de que o melhor treinador é o que tem bom senso. É óbvio que eu não poderia treinar um time de futebol mesmo sabendo escalá-lo — pois desconheço a rotina de correções de posicionamentos, posturas, ajustes finos, controle do grupo, etc., mas penso que qualquer auxiliar de uma Comissão Técnica possa assumir o posto de técnico desde que lhe seja dado apoio e que haja organização e uma política de futebol. Por favor, chega de figurões, de magos. O Inter tem uma vaga política futebolística, mas Fernandão tem boa postura e apoio. É um ídolo do clube e isto lhe bastou para esta arrancadinha. Fundamentalmente, está longe de ser um tolo: como sabe que não é treinador — por enquanto é apenas um bom escalador de time — fez o Inter trazer do Catar um auxiliar técnico muito respeitado: Josué Teixeira, que trabalhava com Abel Braga, este sim um técnico de futebol.

O trabalho começa com duas vitórias que não garantem nada, mas já sabe melhor do que o de Dorival. Fernandão não perde os jogos na véspera, desculpando-se com desfalques por lesões, convocações ou cartões. Disse quando assumiu: o time que eu escalar é o Inter e será cobrado como o Inter é sempre cobrado. E foi esperto o suficiente para não tentar ser gênio. Apenas botou em campo a escalação que a gente imagina a mais equilibrada. E fim.

E é óbvio que desejo a Fernandão toda a sorte do mundo.

Com a simplicidade de Fernandão, até Elton voltou a parecer um jogador de futebol

.oOo.

A tabela do Brasileiro de 2012 é completamente diferente das dos anos anteriores. Vários clubes dispararam e a necessidade de pontos para a Libertadores será muito maior. Um campeão como o Corinthians, vencedor com menos de 66% dos pontos, está fora de questão. O Atlético-MG tem 85% e o Vasco 81%. O Grêmio, com pontuação de líder (66%), está em quarto lugar e os rebaixados têm o mais baixo percentual de aproveitamento dos últimos anos. A tabela não está achatada, muito pelo contrário. O site de estatísticas Chance de Gol avisa que os pontos necessários para a Libertadores não são mais os 63, 64 dos últimos anos, mas 74.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Vertigem II

Não, não é uma montagem. É uma foto do início dos anos 30, da construção do edifício Empire State. Claro que muitos operários morriam. Dizem que centenas. Mas os construtores admitiram apenas 5 mortes. Os trabalhadores, em sua maioria emigrantes da Europa e do Canadá, não tinham qualquer equipamento de proteção, cintos, cordas, etc. A foto é de Lewis Hine.

Clique para ampliar

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Ospa: tudo é bom quando acaba bem

O programa de ontem da Ospa oferecia duas obras bem diferentes, um aquecimento com o subwagneriano Franz Schmidt (o Intermezzo da ópera Notre Dame) e um portento de Gustav Mahler, a Sinfonia n°4.

O tal Intermezzo era bem curtinho. Brumas wagnerianas adentraram o palco da Reitoria. Porém, logo foram desfeitas pelas cordas tentando tocar em uníssono. Não funcionou nada bem, mas perdeu-se pouco: o Intermezzo é um daqueles longos clímaces (plural de clímax, por favor?) que parecem desaguar em algum local muito longínquo, bem longe do Bonfim e de suas famílias judias. Mas vamos ao que interessa.

A Ospa estava preparada era para Mahler. A quarta sinfonia é uma pequena e leve composição quando comparada com suas irmãs. É uma sinfonia distinta das outras do compositor, assim como o são a sarcástica 9ª na obra de Shostakovich ou a haydniana 8ª na de Beethoven. Os temas da 4ª fluem com facilidade e humor. Porém, a orquestra não tem vida fácil. A orquestração é via de regra rarefeita; a música é levada por sub-grupos solistas que se revezam em diferentes combinações. Não é apenas música de primeira qualidade, é uma coisa interessante de ser assistida ao vivo, pois as melodias que começam aqui são continuadas ali; depois, são feitas variações timbrísticas acolá e finalizadas algures. A plateia perce que está num jogo de tênis, virando a cabeça a cada momento. É que, nesta sinfonia, Mahler fugiu dos grandes efeitos de massa, escolhendo combinações de câmara e o contraponto como fator de equilíbrio da obra. Os músicos estavam todos muito concentrados, sem os habituais saracoteios daqueles que regem e motivam a si mesmos. E o resultado foi maravilhoso.

Há muito a destacar. Começo pelo spalla Emerson Kretschmer e pelo concertino Omar Aguirre. Foram perfeitos em seus muitos solos. As intervenções do trompista Alexandre Ostrovski e da oboísta Viktória Tatour foram absolutamente impecáveis — sempre são! — , assim como as dos clarinetistas Augusto Maurer e Diego de Souza e as dos flautistas Klaus Volkmann, Leonardo Winter e de mais um do qual também não sei o nome. Impressionante a forma como os violoncelos cantaram no terceiro movimento sob o domínio da precoce aposentada Inge Volkman, que fazia… Sua última apresentação com a Ospa? Ah, brincadeira, né?

(Intermezzo: Querida Inge. Parabéns. Mas não pare de trabalhar. Mantenha projetos e siga tocando cello. A aposentadoria pode ser uma coisa terrível e digo isso por vários exemplos familiares. Mantenha-se ativa, até porque é um crime deixar tanto talento de pijamas ou chinelinhas em casa. Nada de ficar vendo TV e acompanhando séries americanas. Isso emburrece, certo? Fim do intermezzo).

Porém, meus amigos, nada foi comparável à regência compreensiva do imenso Kiyotaka Teraoka e, principalmente à delicadeza, à presença e ao canto do soprano Sara Kobayashi. Céus, aquilo foi espantoso desde a entrada — uma aparição saída dentre os violinos. Além de ser uma moça belíssima, Sara tem excelente voz e sabia que estava cantando A Vida Celeste palavra por palavra. Foi um momento arrepiante e inesquecível. É muito difícil fazer o simples que o lied parece exigir e tenho certeza que todos os que estiveram lá levaram bem gravada em seus olhos a imagem e a voz de Sara Kobayashi cantando o final da 4ª. Foi o máximo.

Sem dúvida, uma grande noite.

Sara Kobayashi (Foto de seu site)

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!