Pois o show dos noruegueses do Mayhem no Opinião foi cancelado. Eu desconhecia a banda até hoje, quando vi as faixas de repúdio na frente da tradicional casa de espetáculos.
Fui ler a respeito dos caras. Primeiro, um membro do grupo se matou estourando os miolos. Os detalhes do cérebro aos pedaços estão bem descritos. Tudo porque, antes de avisar a polícia da ocorrência, seu colega preferiu fotografar longamente o morto para a capa do próximo disco.
O grupo cultua a morte, algo bem fascista.
Tem mais. O líder do grupo e guitarrista principal foi assassinado a facadas (muitas) pelo baixista, que permaneceu preso por 16 anos. Há descrições deste assassinato como se fosse uma obra de arte. Em determinado momento, a faca ficou enfiada no crânio e não saía, imaginem que bacana… Hoje, já livre, este baixista está em outra banda do gênero.
É muito engajamento. Seus shows às vezes têm animais mortos, cabeças de porcos, etc. Os temas são satanismo e morte, coisa de adolescente revoltado + perturbado.
Claro, em determinado momento apareceram símbolos nazistas.
Fui ouvir o grupo e eles não são nada muito diferentes do pouco que ouvi do Black Metal.
Se não fossem os símbolos nazistas, eu aprovaria o show. Afinal, como darwinista, sou fã da seleção natural.
Em 8 de abril de 1991, Dead cometeu suicídio. Cortou os pulsos e atirou contra sua cabeça com uma espingarda. Deixou um bilhete se desculpando pelo sangue. Seu corpo foi encontrado pelo guitarrista Euronymous que não chamou a polícia: resolveu fotografar o cadáver de Dead e usar as imagens na capa de uma álbum futuro, no caso, do bootleg Dawn of the Black Hearts (1995).
Vou escrever sobre uma autêntica obra-prima. Este livro venceu o Booker Prize de 2021. No Brasil, para nossa sorte, A Promessa recebeu cuidadoso tratamento do tradutor, escritor e professor Caetano Galindo. Depois das primeiras dez páginas, ele se torna de fácil leitura, porém não é um livro simples de traduzir. Como Machado de Assis, o autor fala com o leitor, mas também fala ou faz perguntas aos personagens. Como Machado, o livro fala-nos de coisas trágicas e de assuntos profudamente graves, mas tem momentos hilariantes. Os diálogos não são sinalizados, só que a gente se acostuma logo.
Posso dizer qual é a tal promessa do título sem receio de dar spoilers — o primeiro capítulo já denuncia qual é a promessa. O romance de Galgut mostra o declínio de uma família branca durante a transição da África do Sul para o fim do apartheid. Tudo começa em 1986, com a morte de Rachel, uma judia de 40 anos e mãe de três filhos, em uma pequena propriedade nos arredores de Pretória. A história gira em torno de uma promessa que seu marido africâner, Manie, fez a Rachel antes de morrer, e que foi ouvida por sua filha mais nova, chamada Amor: a promessa era que Manie daria à empregada negra da família, Salomé, a propriedade do anexo que ela ocupava. Ou seja, daria a Salomé a casa aos pedaços onde ela morou toda sua vida. Agora que Rachel está morta, Manie aparentemente esqueceu do prometido. O resto da família considera ridícula a teimosa insistência de Amor de que Salomé deveria ser dona de sua casa. Seria aquele tipo de conversa que “agora parece ter infectado todo o país”?
O descumprimento da promessa parece cair como uma maldição enquanto seguimos os filhos e o pai ao longo das décadas. Cada um dos 4 capítulos narram episódios em intervalos de aproximadamente 10 anos e cada um tem o nome de um membro da família. A estrutura escolhida por Galgut sugere uma fábula — o nome dos capítulos, a frequência de 10 em 10 anos, as próprias ocorrências de cada capítulo. E Amor foi atingida por um raio quando criança! É uma abordagem arriscada, visto que o apartheid e suas consequências são cruéis o suficiente para que esse tipo de ficcionalização pareça condescendente. No entanto, a África do Sul — com escândalos absurdos, esperanças frustradas e corrupção constante — é uma tragédia pronta. Desprezando o realismo inabalável como veículo suficiente para transmitir o peso da história, A Promessa oferece uma narrativa que só é igualada no surrealismo pelos próprios fatos. Na África do Sul, sugere Galgut, a arte só pode esperar imitar a vida. Conheço outro país que… Bem, deixa pra lá. A decisão de abrir o romance com uma citação de Fellini é sensata.
Hoje cedo eu encontrei uma mulher de nariz dourado. Ela vinha num cadillac, abraçada em um macaco. O motorista parou e ela me perguntou: “O senhor é Fellini?”. E prosseguiu com voz metálica. “Por que é que nos seus filmes ninguém é normal?”.
Federico Fellini
Galgut também é dramaturgo e intromete-se nos eventos para oferecer julgamentos. Para alguns fatos, ele nega o “isso tem dois lados”. Não tem. Ele nos envolve — e como! — com frequentes apartes. “Devemos dizer…”, “vamos fingir…”. O leitor nunca se sente confortável o suficiente para esquecer que esta é uma história. A recusa de Galgut em permitir que o normal das narrativas flua, sua insistência em desnudar as maquinações da ficção, revelando as pessoas como símbolos e o lugar como cenário, chama a atenção do leitor para o absurdo.
O tom variado e muito debochado de Galgut nos engana muito. Quando parece que fala sério, ele diz que tal coisa “é palpável como um peido secreto”. As cenas com o novo amante da irmã de Amor, Astrid, são engraçadíssimas. A desprogramada narração em terceira pessoa dispara entre os personagens. No meio do parágrafo ou mesmo no meio da frase, mergulhando na ação para detalhar os medos secretos de alguém, por exemplo, o autor pode nos informar de novos fatos. “Você entendeu”, diz o narrador, impaciente.
Do fantasma de Rachel às palavras de uma oração de luto, pouco está fora dos limites do narrador, que se dirige a um leitor africânder implícito cujos supostos preconceitos são citados como forma de desculpa pelas ênfases do livro — em um ponto ele nos diz que não ouvimos muito sobre Salomé porque não nos importamos em perguntar… Galgut emprega todos estes truques no livro, mas está extremamente atento à complexidade emocional do que narra.
Sim, apesar de todas as suas tendências satíricas, este não é um livro que nos deixe confortável, até porque a má fé de Manie não é a única coisa que mina sua promessa. No momento em que o livro começa, a lei sul-africana diz que Salomé não pode ser proprietária da propriedade, mesmo que a família quisesse. As páginas finais, com Amor já madura, são espetaculares. A capa do livro nos diz que Galgut é “Um dos maiores escritores do mundo”. Olha, não deve estar longe disso.
Em resumo, A Promessa, de Damon Galgut, é um raro exemplo de romance que combina uma visão política e histórica com uma estrutura literária brilhante. Mostrando as mudanças dentro de uma família, o livro captura muito mais sobre uma realidade social deplorável do que quaisquer livros de história ou notícias de jornal que você tenha lido. Ele realmente arranha e mete suas garras na realidade.
O primeiro concerto da Ospa deste ano foi extremamente promissor. Casa lotada e a orquestra tocando realmente muito bem. Sem exagero, talvez o concerto de ontem tenha mostrado a melhor Ospa que vi nos últimos anos.
Tudo está puxando a qualidade da orquestra para cima: a presença dos novos concursados, a atuação do maestro Evandro Matté, a necessidade de se mostrar altamente profissional mesmo sem o reajuste do valor da manutenção dos instrumentos desde 2012. Sabem que os instrumentos são de propriedade dos músicos, assim como a obrigação de mantê-los? Sabem que tudo é em dólares e euros?
Antes do concerto, houve a leitura de uma carta muito madura e digna cobrando o estado. Foi aplaudida de pé pelo público presente na Casa da Ospa, mas não apareceu na transmissão pelo YouTube, me contaram.
Voltando ao concerto, digo que aquilo que me entrou pelos ouvidos ontem foi sensacional. O desempenho em “Um Americano em ParisUm Americano em Paris” não foi nada esquecível. As duas obras de Villa-Lobos, idem.
Há coisas diferentes na programação deste ano. A Sinfonia Singular de Berwald é uma delas. Finalmente, teremos Haydn de volta, apesar de que poderíamos ter mais do que apenas a 104. Também virá a raramente executada Sinfonia Nº 1 de Shostakovich, que é linda. Teremos também a 5ª e a 9ª do compositor. Idem para o Concerto para Orquestra de Bartók e o Concerto para Piano Nª 1 de Brahms. Tem também a Sinfonia Nº 1 de Mahler. Mas não tem Bruckner, o que é lamentável. Mas fazer o quê? Fica pra 2024…
Vocês sabem o motivo do nome Bamboletras? Pois é, vem de bambolê das letras. Sim, nossa livraria foi concebida por sua grande fundadora Lu Vilella como dedicada à literatura infantil. Depois ela estendeu a curadoria para os pais dos pequenos e o resto vocês sabem.
Durante nossos quase 28 anos — fazemos aniversário em abril — e até hoje, mantivemos especial cuidado com a área de infantis.
Vejam a querida vovó Jussara Musse com nossa cliente Isabel (5 meses) em foto desta semana. Assim se fazem leitores, mesmo que no começo eles estejam mais interessados em morder os livros…
Outro dia, publicaremos uma foto da irmã gêmea da Isabel, a Beatriz. Não queremos semear ciúmes entre as meninas e nem críticas da mamãe Carolina Musse Branco!
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Cat Stevens, atual Yusuf Islam, estava gravando seu LP Teaser and the Firecat quando ouviu Rick Wakeman na sala ao lado, ensaiando Catherine, que faria parte de seu As Seis Esposas de Henrique VIII.
Gostou do que ouviu e foi falar com ele. Na verdade, era um pedido. Disse para Wakeman que pretendia colocar o tradicional hino religioso Morning has broken em seu novo disco, mas que precisava de uma introdução com piano, algo parecido com a Catherine que recém ouvira.
Wakeman foi generoso. Logo fez e tocou a variação que ouvimos até hoje na famosa canção do disco de Stevens e a produção prometeu-lhe pagar 10 libras pelo trabalho, que era o habitual na época.
40 anos depois, um jornalista perguntou a Wakeman qual era a maior mágoa que vivenciara em sua longa carreira, pensando que certamente ele contaria alguma coisa relacionada às muitas brigas que tivera em seus tempos de Yes.
Mas Wakeman surpreendeu dizendo que sua maior mágoa tinha sido o fato de não ter sido creditado como o pianista que realizou o solo de Morning has broken. Também isto era comum na época. O artista principal comprava o trabalho de outro secundário no disco e o trabalho passava a ser dele — que nem lhe dava o crédito. Por exemplo, hoje todos sabem que Eric Clapton fez o solo de While my guitar gently weeps, mas nada está disso está escrito no White Album e Clapton já era Clapton naquela altura. Também pouca gente sabe quem participava dos primeiros discos de Chico Buarque… Mas havia mais para a mágoa de Wakeman, até hoje ele estava esperando as tais 10 libras.
Cat Stevens soube da reclamação e não apenas mandou creditar Wakeman nas novas edições do disco como pagou as 10 libras e o lucro correspondente ao trabalho dele e dos outros músicos. Pagou uma pequena fortuna a todos.
Amigos: Cat Stevens e Rick Wakeman num show em 2020
Como Saramago respondeu a pergunta “O senhor é socialista?”:
“Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo.”
A cena é despretensiosa – paralelepípedos lavados, paredes caiadas, uma mulher costurando em uma porta aberta enquanto a fachada da casa holandesa sobe em direção a nuvens imóveis. No entanto, todos os visitantes ficam maravilhados diante dele. Talvez o feitiço tenha algo a ver com as janelas abertas e as ainda a serem abertas, ou a cadeia de figuras absorvidas e absorventes, ou o arranjo abstrato de molduras e arcos, ou a alvenaria que parece feita da própria coisa? Os olhos e a mente, seduzidos, procuram respostas na imagem. Como pode a pintura de Johannes Vermeer ser tão infinitamente mais bela do que a cena que representa?
A Pequena Rua (c.1657) está no início de uma das exposições mais emocionantes já concebidas. Vermeer, no Rijksmuseum de Amsterdã, reúne mais de suas pinturas do que nunca – e possivelmente nunca mais, dado o custo e fragilidade –, 28 das 37 obras conhecidas. A mostra é soberba: uma sequência de câmaras escuras, onde as pinturas (como seus temas) aparecem ora sozinhas, ora em duplas ou trios, cada uma em seu foco individual. O design reflete o aspecto revelador da arte de Vermeer a cada passo.
Revelador – e ainda profundamente misterioso. Abre-se para o exterior, com a Vista de Delft e A Pequena Rua, e depois torna-se íntima, convidando-nos a olhar cada vez mais de perto para os interiores. Uma caixa de luz, uma figura, alguns adereços, ocasionalmente uma foto emoldurada: os meios parecem tão restritos, mas as cenas são fascinantemente variadas.
O mundo de Vermeer é um mundo em espera; não congelado de repente no momento, mas ignorando completamente o movimento. A empregada derrama seu leite – mas apenas em teoria. Na verdade, o líquido não está fluindo, sua passagem (mesmo em uma ampliação gigantesca no foyer) é totalmente imperceptível.
A Leiteira (1658-59), Rijksmuseum, Amsterdã
Também não entra e sai gente dessas salas, sempre iluminadas pela esquerda. Meninas de arminho, veludo amarelo e renda, homens com capas e chapéus de castor são retratados, mas não vieram de outro lugar. Não há conversa, não importa que as transações possam estar implícitas. Todos aqueles instrumentos musicais, estão ainda sem som. Da mesma forma, você não pode descobrir o que está acontecendo nessas cenas, cada mistério paira diante de você, imperturbável.
Vermeer usa os interiores brilhantes de Pieter de Hooch, mas raramente mostra mulheres trabalhando. Uma escova está ociosa no chão, criadas trouxeram ou esperaram por cartas. Mas apenas a maravilhosa Rendeira, do Louvre, se debruça sobre sua intrincada tarefa. O tempo é mantido em absorção profunda e produtiva, que parece muito mais significativa do que a criação de qualquer renda.
A rendeira, 1666-1668. Museu do Louvre, Paris.
Certamente é aqui que entra a noção de madonas seculares. Para que serve a garota ali, em Vermeer, senão para receber a extraordinária beneficência de sua luz – uma luz como nenhuma outra, mais do que qualquer sala real poderia conter. Para alguns é sobrenatural, para outros sagrado; sente a própria essência da graça.
As anunciações de Vermeer – notícias do nada, por carta – têm uma imobilidade e quietude que não parecem relacionadas ao cenário proposto, assim como a leitura, a escrita, o olhar ou a pesagem de balanças (vazias) . A sensação de meditação prolongada parece vir do próprio ato criativo. Os curadores mostram (em painéis colocados a uma distância discreta da arte) com que frequência objetos, roupas e até mesmo pessoas foram movidos ou excluídos nas prolongadas deliberações de Vermeer. Ele é conhecido por ter feito apenas uma ou duas pinturas por ano.
E então, de repente, tudo gira e um tremor interrompe o senso de Vermeer. Três interiores aparentemente semelhantes aparecem em uma galeria. Fique no meio e testemunhará mil diferenças. Esta cena é adornada com alfinetes elevados de luz crepitante; aquele é suave e subjugado; um terceiro bem menos íntimo, com uma extensão resplandecente de parede nua. O Rijksmuseum diminui o ritmo para mostrar como Vermeer pode ter pensado sobre a realização de cada imagem.
Às vezes, a visão é parcialmente bloqueada por um homem de costas para nós ou por uma cadeira pesada. Talvez a garota pareça distante, do outro lado de uma mesa ou do outro lado da sala. Ou ela é trazida para um close-up abrupto: como a garota com o chapéu vermelho, ou a garota com o brinco de pérola voltando-se para nós na escuridão total com seu flash de cinema.
Young Woman with a Lute, do Metropolitan Museum of Art de Nova York, é tão espectral que pode ser uma memória ou um fantasma, ao contrário dos objetos sólidos ao seu redor. A janela é extraordinariamente estreita e pequena, a cortina transparente disposta de modo que a luz incide lateralmente, iluminando os pinos em uma cadeira de couro como estrelas brilhantes, mas dissolvendo a garota em halos borrados, como se ela fosse um segredo.
Na fascinante Mulher de Azul Lendo uma Carta do próprio Rijksmuseum, não há janela e toda a cena é impregnada com o azul do vestido, como se fosse uma extensão de sua mente. A carta que ela segura agora é apenas uma lasca de luz. Certamente esta é a mesma garota de um quadro pintado cerca de cinco anos antes, emprestado de Dresden, seu rosto um pouco mais velho, sua absorção agora mais profunda. A esposa de Vermeer deu à luz 15 filhos. Quem sabe algumas de suas filhas apareçam nessas fotos?
Mulher de azul, lendo uma carta (1664)
Tudo muda, mas permanece. Uma empregada olha pela janela com fria (ou irônica?) impaciência, enquanto sua patroa vestida demais lê uma carta. Outro parece flamengo, como se fosse contratado de outro lugar. A carta pode ser dobrada, inscrita, gasta como seda com leituras repetidas, ou passada fechada pela empregada para a amante insatisfeita em uma cena distante vista através de uma porta – como um vislumbre momentâneo em Alfred Hitchcock.
Os detalhes são enigmáticos: uma única gota vermelha no chão (talvez cera de lacre), uma carta de baralho brandida como se em advertência por um querubim, frisos de ladrilhos de Delft que existiam na realidade, mas parecem poder ser decodificados. Uma garota tem um rosto de lua curiosamente plano, outra parece andrógina, outras ainda estão estagnadas como sonâmbulos, mantidas imóveis por uma espécie de gravidade mística.
Por razões desconhecidas, o Kunsthistorisches Museum em Viena se recusou a enviar The Art of Painting , de Vermeer – com seu artista-mágico virando as costas para nós, mesmo enquanto pinta a cena – para que pudéssemos entrar ainda mais fundo na câmara de sua mente. Mas tudo o mais sobre essa exposição é tão perfeito quanto poderia ser. Mais pinturas, visões e variações maiores (e mais condensadas), oferecem todas as oportunidades para olhar mais longe, mais devagar e com mais precisão do que nunca. No entanto, as pinturas de Vermeer têm o mistério de sua própria criação, sua beleza e significado como parte de seu conteúdo. Quanto mais perto você chega, mais estranho ele parece.
Vermeer fica no Rijksmuseum, em Amsterdã, até 4 de junho.
Johannes Vermeer (1632-1675) – The Girl With The Pearl Earring (1665)
Eu ouço quase só música erudita, mas não desconheço o popular e inclusive já fui considerado um bom cantor amador em rodas de samba e bossa nova…
Esta introdução bastante boba é para dizer que não moro num castelo, que tenho em vinil quase toda a bossa nova até os anos 70, mais o samba e o jazz. E que ouvi muito rock, desde o mais básico até o progressivo — sim, já fui jovem, muito jovem.
Só que hoje tenho uma severa avaliação do “rock progressivo”. Tenho fortes argumentos para preferir as canções “mais simples” (estas aspas deveriam estar em negrito).
Só que não dá para discutir que “The Dark Side of the Moon” é um disco maravilhoso. Ele completa 50 anos em 1º de março. Comprei o vinil em 73 — tinha 16 anos — e ele ainda está comigo e em perfeito estado.
Aliás, tenho dificuldade em classificar o disco como progressivo. Não há exibição técnica, megalomania, encheção de linguiça e, principalmente, a coisa soa naturalmente não sinfônica. Talvez tenha sido este fato que tornou o grupo impermeável ao desgaste que ocorreu com outros como Yes e Genesis, só para citar dois.
E as letras também são de bom gosto, falando de loucura, cobiça, velhice, etc. Gosto muito.
Tristram Shandy, de Laurence Sterne, publicado em nove volumes entre 1759 e 1767, tem uma reputação um tanto complicada. Junto com, talvez, Ulysses de James Joyce, é conhecido por ser um romance singularmente difícil, lido principalmente por estudantes ou entusiastas do século XVIII. Talvez o que afaste as pessoas sejam as “digressões” do romance, como o narrador do livro, Tristram, as chama. Ele se propõe a escrever uma autobiografia, mas acaba vagando, continuamente desviado por lembranças sobre seu pai Walter e tio Toby.
Sterne nega-nos a ordem narrativa em que geralmente nos baseamos para diferenciar a ficção da confusão do nosso pensamento cotidiano. Sua obra se recusa a se comportar: a história é, como diz Tristram, “digressiva e […] progressiva também, -e ao mesmo tempo”. O enredo de Tristram Shandy é o ato de construir o enredo e o excêntrico Tristram se deleita com sua criação inquieta, dizendo-nos que a obra é uma “máquina” que deve “ser mantida funcionando”. Examinando as muitas engrenagens de sua história, Tristram está confiante de que seu trabalho pode se sustentar indefinidamente, girando em torno de suas próprias possibilidades infinitas.
Desde sua primeira publicação, o romance gerou críticas e foi descrito por Edmund Burke, o grande antepassado dos românticos, como uma “série perpétua de decepções”. Essa avaliação pouco lisonjeira foi superada por Samuel Richardson, o romancista dos best-sellers do século XVIII, como Pamela e Clarissa: em uma carta ao bispo Mark Hildesley, Richardson declarou que não podia deixar de descrever os volumes de Sterne como “execráveis”. É um romance que sempre frustrou seus leitores.
Não podemos deixar de desejar, às vezes, que Tristram apenas continue com suas quebras narrativas “para lembrá-los de uma coisa – e informá-los de outra”. Tristram nos faz perceber o quanto, ao ler um romance, estamos no poder do escritor. Como seu filósofo favorito, John Locke, Tristram vê as mentes de seus leitores como “tábuas em branco” nas quais ele pode rabiscar ou escrever com precisão como quiser. Devemos concordar com as ruminações desorientadoras de nosso narrador se quisermos vivenciar sua história.
Minha própria leitura de Tristram Shandy foi um processo digressivo. Quando encontrei o romance de Sterne pela primeira vez aos dezesseis ou dezessete anos, fiquei encantado com os capítulos iniciais, nos quais Tristram nos conta, com humor irônico, como sua concepção foi interrompida quando sua mãe perguntou ao pai se ele havia se lembrado de dar corda no relógio. Fiquei perplexa, no entanto, quando a narrativa mudou de curso. Os cavalos de brinquedo abundam no romance: o tio de Tristram, Toby, é obcecado por eles. Enquanto eu lia os primeiros volumes, o enredo em si parecia um cavalo de balanço, brincando de avançar em vez de realmente chegar a algum lugar.
A experiência de tempo de Tristram está muito próxima de nossa própria realidade não estruturada; consumido por distrações, nosso narrador está à deriva em sua própria mente.
Não voltei ao romance até que ele apareceu em uma lista de leitura durante meu mestrado. Minha leitura do texto foi novamente fragmentada. Seções foram designadas para leitura por meus tutores com base, ao que parecia, apenas em seus próprios interesses e fiquei mais perplexa do que nunca. Que tipo de romance é melhor lido e discutido em pedaços? Devemos realmente lidar com os lapsos de atenção de Tristram cortando o texto e digerindo-o em partes?
Fui designado para o episódio “Le Fever”, uma sequência sobre as generosidades de Toby para com os pobres escrita no estilo sentimental que era popular na época de Sterne. Lidas separadamente, essas páginas parecem algo saído de The Man of Feeling, de Henry MacKenzie, um romance famoso quando foi lançado em 1771 por fazer seus leitores chorarem de simpatia por seu protagonista. Mas Tristram Shandy não é – como a leitura desta seção. Ao experimentar diferentes gêneros e estilos, nosso narrador está se apresentando para nós.
Tristram também está fazendo outra coisa: ele está procrastinando. Ele adia contar a história de sua vida porque está bloqueado pela seguinte preocupação: um tempo muito maior decorre enquanto ele escreve sua história de vida, leva mais tempo do que o decorrer de sua própria vida, então ele nunca poderá terminar sua autobiografia, jamais alcançara o dia de hoje. Ele lamenta o tanto tempo que leva para narrar um único dia de sua vida, “em vez de avançar […] estou apenas jogando tantos volumes para trás […] nesse ritmo, eu deveria escrever 364 vezes mais rápido. Do modo como faço, quanto mais eu escrevo, mais terei que escrever – e, consequentemente, quanto mais meus adoradores lerem, mais seus adoradores terão que ler”.
Tristram precisaria de um número infinito de dias para escrever sua autobiografia: ele precisaria, como o filósofo do século XX Bertrand Russell explicou no que chamou de “paradoxo de Tristram Shandy”, ser imortal. Além do mais, nós, leitores, estamos envolvidos no problema de Tristram: quanto mais ele escreve, mais temos para ler. Nós também somos limitados por nossa mortalidade.
Ao nos dizer que a história de sua vida está condenada desde o início, o narrador de Sterne nos nega a ilusão mais reconfortante da ficção: um caminho claro no tempo. Somos, como disse o formalista russo Viktor Shklovsky em 1929, “dominados por uma sensação de caos” quando lemos o romance. A experiência de tempo de Tristram está muito próxima de nossa própria realidade não estruturada; consumido por distrações, nosso narrador está à deriva em sua própria mente.
Peguei o romance pela terceira vez no final do verão passado, tendo me formado na universidade com apenas uma vaga ideia do que queria fazer a seguir. Com a remoção da estrutura da instituição de ensino, o tempo disparou de forma alarmante. As preocupações de Tristram sobre sua incapacidade de completar o que começou ofereciam um espelho do meu próprio estado de distração. Em minha busca por emprego, adiei a decisão sobre meus próximos passos, permitindo-me ser inundado por informações, principalmente on-line.
Percorrendo páginas aleatórias de mídia social, artigos da Wikipédia ou sites de empresas, percebi que a internet nos preparou para experimentar o tempo da mesma forma que Tristram faz. Seus algoritmos nos oferecem informações ilimitadas, alimentando-se de tudo o que chama nossa atenção para nos atrair para um labirinto personalizado. Sempre que usamos uma tela, essas tocas de coelho da Internet aguardam, permitindo-nos, clique a clique, fugir de nosso propósito original.
Minha geração, como somos constantemente lembrados, teve nosso foco arruinado pela tecnologia moderna, e o turbulento Tristram é um porta-voz de nosso estado de espírito. Seu projeto – escrever sua vida e, assim, contornar sua mortalidade – é sempre prejudicado por sua vulnerabilidade a distrações. Frustrado com a linguagem, ele recorre frequentemente a imagens, oferecendo linhas rabiscadas para representar seu progresso rebelde.
Com o objetivo de criar um enredo que seja uma “linha reta tolerável”, fortalecido por “uma dieta vegetal” e “algumas comidas frias”, Tristram resolve novamente arrumar sua narrativa. A questão, porém, é que nem Tristram nem seus leitores conseguem escapar do labirinto de pensamentos, e a melhor forma de ler este romance é não resistir às suas variadas correntes. Tristram articula a frustração de tentar se apoderar das coisas quando o chão abaixo de nós está constantemente cedendo.
Nossas vidas hoje existem em múltiplas dimensões: presente, passado e online. O romance de Sterne pode nos ajudar a entender esse emaranhado. Lendo Tristram Shandy pela terceira vez, percebi que minha frustração anterior não era uma falha em entender o livro. As digressões de Sterne são ricas e insatisfatórias em igual medida, como deve ser qualquer excesso de informação. Mas, embora vasculhar a Internet muitas vezes me deixe esgotada ou entorpecida pela variedade, o romance de Sterne revigora e oprime.
Como uma pintura com múltiplos pontos de vista, ou uma peça musical em estridente polifonia, ela atrai o leitor de volta, entrando novamente através de um novo ato de atenção. Tristram mantém sua história “em andamento” recusando-se a satisfazer seus leitores e, por isso, continua a me surpreender com sua vitalidade. Ao negar a estrutura organizada do tempo narrativo, o romance de Sterne combina com como o mundo parece para mim agora: indefinido, incerto, mas carregado de possibilidades.
Na minha infância, éramos 5. Meu pai, minha mãe, minhas irmãs e eu. Quem mandava eram as três mulheres, com absoluta predominância de minha mãe. Meu pai às vezes se revoltava, mas era sempre uma coisa meio histérica e ele se aquietava depois. Era como deixar uma criança gritar até cansar. Quando a mãe não estava, a liderança se transferia para minhas irmãs.
Então, aprendi desde cedo a respeitar as mulheres. Elas mandavam em mim e, certo, também me tratavam muito bem. Sempre tive sorte. Adolescente nos anos 70, via meus amigos assobiarem ou gritarem “Gostosa” para uma mulher qualquer e ficava quieto, não obstante a oceânica e quase dolorosa atração que sentia pelo sexo oposto.
Até hoje, se uma mulher reclama de mim, ouço sua voz duas vezes mais alto. Me assusto mesmo, coisa que jamais ocorre se um homem reclama. Neste caso, estou sempre pronto para debochar e faço isso muito bem, acredito.
Talvez seja um problema psicológico, mas jamais vou tratá-lo. Ainda mais que nesta manhã dormi além da conta e sonhei que ouvia os gritos da mulher estuprada por aquele jogador de futebol.
Saí da cama totalmente em pânico. E louco para dar uns socos naquele sujeitinho.
Parece que há video do Daniel Alves seguindo a moça até o banheiro e eles saindo, com ela em pânico, chorando. Ela o acusa de tê-la obrigado, através de tapas e ofensas, a praticar felação. Foi o que li.
Se isto é verdade, eu só digo: te fod…, Dani.
É importante dizer que Daniel Alves deu apoio explícito a Bolsonaro nas últimas eleições. Foi também beneficiado pelo desgoverno em um projeto qualquer. Recebeu uma baita verba.
Incrível, a gente lê um disparate, vira, mexe e chega num cidadão de bem.
Em fevereiro de 2014, eu e Elena estávamos em Paris, dentro da Shakespeare and Company, quando comecei a contar pra ela que a livraria mantinha há 100 anos uma gata branca, que era sempre apenas uma e sempre chamada Molly (Bloom, certamente). Disse para ela que eu achava que era em razão dos ratos da beira do Sena, mas que eu nunca tinha visto a lendária gata. Então, passeando lentamente, entramos numa sala e lá estava ela, uma enorme gata branca. Uma mulher disse que Molly recusava contatos, só que, minha filha, ninguém resiste à Elena.
Infelizmente, a expressão ovo da serpente é hoje muito utilizada. Virou lugar comum. Toda vez que alguém quer dizer que uma tragédia ou problema era previsível, lá vem a ela. A expressão nasceu em 1977, com este filme de Ingmar Bergman. O terrível Dr. Hans Vergerus (clique no link) — sobrenome habitual dos filmes do diretor, significando algo ruim — , diz: “É como o ovo da serpente. Através das finas membranas, você pode claramente discernir o réptil já perfeito”.
O Ovo da Serpente é um ponto fora da curva na carreira de Bergman. Acusado de evasão fiscal na Suécia, Bergman se viu no centro de um escândalo que ganhou proporções internacionais. Deixou seus bens para o fisco e partiu para um autoexílio na Alemanha, mais precisamente em Munique, onde acabou fazendo um acordo com o produtor Dino de Laurentiis para rodar um filme em inglês ao mesmo tempo em que lidava com advogados e autoridades fiscais.
E fez um filmaço, desta vez sem explorar ao fundo dramas pessoais, relacionamentos, psicologia, religião, sexo ou filosofia, seus temas mais caros. Aqui, Bergman constrói com impecável riqueza de detalhes o mundo sem dinheiro, inflacionado, sangrento, paranoico e instável da Alemanha de 1923, ano em que se passa o filme, no período entre 3 a 11 de novembro, semana do Putsch de Munique. Sim, o Putsch foi a primeira tentativa de um maluco de tomar o poder. Foi um fiasco. A democracia alemã era mais forte. O nome do maluco era Adolf Hitler.
Abel Rosenberg (David Carradine) é um trapezista judeu desemprego, que vê seu irmão, Max, se suicidar. Ele procura Manuela (Liv Ullmann), sua cunhada. Juntos eles sobrevivem com dificuldade à violenta recessão econômica pela qual o país passa. Sem compreender as transformações políticas em andamento e pegando qualquer trabalho ou grana, eles aceitam trabalhar em uma clínica clandestina que realiza certas experiências que realmente ocorreram naquele periodo e depois.
Estava olhando meu twitter e tem muitos, mas muitos vídeos de gado bolsonarista depredando Congresso, STF e Planalto. E deve ter todo um WhatsApp disponível para ser examinado.
Não sei se este pessoal é burro ou se tem certeza da impunidade.
Espero que, após ontem, a possibilidade de anistia seja definitivamente arquivada e que não nos falte judiciário e prisões. Há muito para fazer.
Acaba de ocorrer um Milagre aqui em casa que gostaria que fosse reconhecido pelo Vaticano.
O café tinha acabado e eu comecei a procurar se ainda tínhamos algum pacote perdido no armário. Foi quando uma sacolinha amarela se desequilibrou lá em cima e veio na minha direção. Era a sacola amarela do Café do Mercado com dois pacotes do café Montanhas do Espírito Santo para serem moídos.
Neste momento, envolvido por aquele maravilhoso aroma, penso na existência de D… Não, no reconhecimento do Vaticano.
Quando contei o Milagre pra Elena, ela disse que comprara os pacotes na quinta-feira — “eu fui no Mercado Público” — mas isto não empana a realidade da multiplicação dos cafés. E a queda? Como vocês explicam o Milagre da Queda, hein?
O jovem Johann Sebastian Bach era contratado na igreja da rica cidade de Arnstadt como organista. Lá, desfrutou de um novo órgão e de um bom salário. Ansioso por mais, em 1705 pediu uma licença de 4 semanas para ir a Lübeck visitar o velho mestre Buxtehude. Tinha apenas 20 anos de idade e viajou os mais de 320 quilômetros que separavam as duas cidades a pé. Surpreendido com a habilidade do jovem organista, Buxtehude propôs a Bach que ele permanecesse em Lübeck até sua morte e depois ocupasse o seu prestigioso posto. Porém, para ocupar tal posição, havia uma regra: o candidato tinha que casar com a filha mais velha do seu antecessor no cargo. A moça em questão, Ana Margarita, era vários anos mais velha do que Bach e não muito bonita, pelo que Bach recusou a oferta.
Handel passou alguns dias em Lübeck em 1703. Bach ficaria lá durante três meses em 1705. Como ele tinha sudo autorizado a ficar ausente por 4 semanas, provocou a fúria dos seus patrões ao fazê-lo durante meses. Essa longa viagem quase lhe custou seu emprego, mas valeu a pena. Ele aprendeu muito com o velho Buxtehude.
Buxtehude estava perto da aposentadoria e ansiava por um sucessor da mais alta qualidade. Claro, tanto Handel como Bach encheram-lhe de esperanças. Ele lhes ofereceu a sua bem paga posição, esclarecendo a questão com sua adorada filha mais velha. Apesar de solteiros, nenhum dos dois compositores concordou. O trabalho era atraente mas, dizem que a filha não era. Johann Mattheson, que seria um compositor proeminente e um notório teórico da música, também a rejeitou.
Bach, contudo, como passou muito mais do que 4 semanas em Lübeck, talvez estivesse pensando seriamente no caso. Digo talvez, porque acredita-se que o jovem Bach estava muito mais interessado em ficar ao lado de Buxtehude o máximo de tempo possível, para aprender tudo o que ele lhe pudesse ensinar.
Uma prova mais forte dos escassos encantos de Ana Margarita pode ser encontrada em visitas anteriores a de Bach. Em 1703, os consagrados Händel e Mattheson também visitaram Buxtehude, repito. Não quiseram ter aulas, vieram apenas para tentar suceder ao venerável organista na sua posição. Quando tomaram conhecimento das condições e de Ana Margarita, não hesitaram: deixaram Lübeck no dia seguinte.
Buxtehude, que tinha jurado não se aposentar até a sua filha se casar, ocupou o cargo até à morte, em 1707. Não pensem, contudo, que Anna Margareta foi deixada sozinha para o resto dos seus dias. O fiel assistente do seu pai, J.C. Schieferdecker, foi encorajado a desposá-la. Ele não é lembrado por mais nada, este foi seu grande feito. Para alguns foi uma atitude de gratidão, para outros, uma demonstração soberana de interesse monetário.
De fato, quando Buxtehude assumiu a posição de organista da Igreja de Santa Maria (Marienkirche), teve de cumprir uma condição semelhante: com a morte de Franz Tunder em Novembro de 1667, a posição de organista da Marienkirche, uma das mais importantes do norte da Alemanha, foi deixada vaga. Depois de muitos outros organistas tentarem o cargo e serem rejeitados, Buxtehude foi eleito em abril de 1668. Em julho do mesmo ano tornou-se cidadão de Lübeck e em agosto casou com Anna Margarethe Tunder, uma das filhas de seu antecessor. Era uma situação imposta para ser aceito no emprego, prática comum na época.
O grupo de rock cujo fim foi mais trágico deve ter sido o Badfinger. De grande repercussão inicial, eles ganharam de presente até uma canção de Paul McCartney em 1968, Come and get it.
Pete Ham e Tom Evans, seus líderes e compositores — autores de sucessos planetários como Without you, No matter what e Day after day –, cometeram suicídio por enforcamento.
Em 1975, Pete, inteiramente endividado após péssimos negócios com empresários sacanas e gravadoras, foi-se deixando um recado onde pedia desculpas pelas dívidas. Em 1983, Tom nem isso fez. Seu filho pequeno o encontrou pendente e avisou a mãe dizendo que um cara parecido com seu pai tinha se enforcado em casa…
(Ontem, ouvi Without you num Uber. A versão era a de Harry Nilsson, aquela que todo mundo que viveu os anos 70 e 80 escutou. Ele fez duas modificações simples e sensacionais na canção. Eliminou o staccato do estribilho e o fez em tom menor em sua primeira aparição. Quase nada, mas o resultado deve tê-lo deixado rico, contrariamente ao que ocorreu com Ham e Evans).