Das diferentes perspectivas:
Por Samuel Sganzerla
Renato, na bacia das almas que se encontra na foz do Rio da Prata, repousam alguns dos espíritos mais fortes do COPEIRISMO continental. Tu, que já cruzaste tanto estes pagos, fardando os mantos tupiniquins que se atreveram a desbravar América a dentro, deverias saber bem disso.

Porque, Renato, não se encara o Estudiantes de La Plata, mesmo quando condenado pela imprensa desportiva por “não viver seu melhor momento”, sem considerar que o time dará o sangue e a alma para tentar buscar a vitória. Assim como na semana passada, vimos os jogadores jovens fazerem os nossos “velhos” sofrerem, coisa típica destes tempos em que não se respeita mais nada.
A noite fria em Quilmes – e infelizmente não falamos daquela loira gelada que importamos dos hermanos – viu, num primeiro tempo, um adversário que compensava suas deficiências técnicas com muita vitaliciedade e entrega. Quando parecia que o Estudiantes não teria muito mais recursos do que o “vamo que vamo, que se puede”, o jovem Apaolaza emplaca um chute de raríssima felicidade, abrindo o placar para os donos da casa logo no início da partida.
O primeiro gol deles, Renato, saiu de uma bola retomada da nossa defesa, na marcação pressão que eles aplicavam sobre nós. Mesmo tendo muito mais posse de bola já naquele momento, o Grêmio não raro se via apertado na saída, precisando dar chutões para a frente. E, sem o Jael, fica muito difícil ganhar a segunda bola. Pouco conseguíamos criar (a ausência do Everton foi gritante, especialmente porque Pepê pareceu sentir um pouco a pressão do jogo). De outro lado, víamos os contra-ataques impetuosos daquela voraz juventude platense.
Se a coisa já não ia bem, ficou ainda pior, quando, na cobrança de escanteio, Campi cabeceou no canto oposto de Marcelo Grohe, aos 38 do 1º tempo. Gol de manual, mas que contou com a falha da marcação na bola aérea – era daquelas noites em que até os problemas que pareciam estar resolvidos voltam a nos assombrar. O momento seguinte foi horrível: com dois gols à frente no placar, o Estudiantes encaixava contra-ataques perigosos. Parecia que o que era ruim iria piorar. Eu temi pelo pior por alguns instantes, Renato.
Entretanto, eis que a copeira bola aérea que pune também salva, liberta e dá esperanças. No apagar das luzes da primeira etapa, Luan bateu escanteio com precisão, André desviou de cabeça, Andújar fez grande defesa, mas Kannemann, nosso melhor jogador em campo, estava lá para completar para o fundo das redes, também de cabeça. 2 a 1, o alívio e a certeza de que dava para reverter a desvantagem ainda no jogo de ida.
No segundo tempo, contudo, o Grêmio até foi melhor, mas pouco efetivo. Perdemos boas chances e não soubemos aproveitar o fato de ter jogado os 15 minutos finais com um homem a mais, depois que Zuqui levou o segundo amarelo, numa falta infantil que mostrou que, para boa parte da equipe deles, ainda falta maturidade. O jogo terminou com o mesmo placar do primeiro tempo, o gol qualificado faz com que a vantagem deles não seja tão grande; mas ficamos com a sensação de que o Tricolor ficou devendo em campo, Renato.
O que eu gostaria de te dizer é que espero que não seja preciso uma eliminação precoce para que tu aceites que algumas mudanças precisam ser feitas no time. Cícero e Maicon são uma boa dupla de volantes, os dois têm qualidade, claro; porém, não está dando mais para jogarem juntos, porque são veteranos, não têm pernas para correr atrás na marcação (especialmente quando a velocidade do adversário no contra-ataque é uma arma). Mesmo que perca em qualidade técnica na armação, o time ganharia com Jaílson na marcação.
Da mesma forma, Leo Moura é um baita lateral. Mesmo quase beirando os 40 anos, ainda tem muita qualidade. Ontem deu conta de jogar toda a partida e foi bem. Mas sabemos que não será sempre assim, Renato. E, por falar em qualidade, não duvido da capacidade técnica do André, porém já não há mais justificativa para que Jael fique no banco. Toda vez que ele entra, o time ganha em movimentação, bola aérea, e segunda bola. E eu espero que o Bruno Cortês retome logo a posição do Marcelo Oliveira, que ontem foi MUITO mal.
Enfim, não precisamos apelar para clichês como “não tá morto quem peleia” ou discursos motivacionais que invocam a garra do gremismo. A desvantagem no confronto é totalmente reversível, sabendo que precisamos da vitória mínima aqui na Arena, quando tenho certeza que nossa torcida a lotará mais uma vez, para fazer com a bola entre nem que seja pela força do ALENTO. Mas eu gostaria, Renato, que tu abrisses mão de certas convicções – e PARA COM ESSA COISA DE ESCANTEIO CURTO, por favor (nosso único gol ontem saiu de uma bola cruzada, Renato!).
E vamos que vamos, que a busca pelo Tetra da Libertadores começou neste mata-mata com o pé esquerdo, mas a gente nunca para de acreditar. Vamos adiante, agora pensando no jogo em casa que termos contra o Vitória, no domingo. Aliás, como só voltarei a falar contigo na segunda-feira, já deixo aqui meu parabéns pra ti, pelo dia dos pais vindouro. Manda um beijo pra Carolzinha!
Saudações Tricolores!
E segue o baile…
O impacto deste livro em Portugal foi imenso. Isto deve-se ao fato de que o texto quebrava o mito de certa versão cor-de-rosa que boa parte da sociedade portuguesa seguia cultivando sobre o período colonial africano. Este teria sido muito mais um auxílio ao continente do que violência e opressão… Mas o livro de Isabela Figueiredo vai adiante de meras observações sociológicas, tratando da traição da autora às opiniões e à memória de seu pai, um colonizador daqueles bem típicos. Na verdade, Isabela sempre foi uma loira-negra, permanecendo solidária ao sofrimento dos negros e identificado-se com sua cultura. Seu pai era excelente como pai e a autora o amava, mas havia o lado B do colonizador que podia agredir funcionários e tinha a opinião de que todo e qualquer negro era incapaz de se organizar e era tolo, mesmo que sua pele tivesse sido salva por um deles, seu vizinho.
A autora sabe do que fala. Nasceu em Lourenço Marques, hoje Maputo, e permaneceu no país até alguns dias depois da descolonização. Na verdade, saiu fugida porque os colonizadores estavam sendo perseguidos. É um livro raro porque há pouca informação sobre a vida real nas colônias, mesmo sob a perspectiva dos retornados. e retornadas. Caderno de Memórias Coloniais (Todavia, 180 págs.) nos conta tudo isso em 51 brilhantes textos escritos na primeira pessoa do singular, sem poupar detalhes. O livro reescreve a história oficial, mostrando desde o racismo do dia a dia — nosso íntimo também no Brasil — até às agressões que sofreram os colonos depois do 25 de Abril.
O testemunho de Isabela nos mostra a diferença de tratamento através dos olhos de uma criança que se retirou do país aos 13 anos, também fala da exploração do trabalho — os “pretos do meu pai” — e o medo colonial que gera e justifica a violência.
Há também o sexo. Os colonos gostavam de transar com as negras e as pagavam na frente de seus maridos, humilhando-os. As mulheres dos colonos “compreendiam” tal atração: afinal, as negras estariam mais perto da natureza, teriam a vagina mais aberta (?), fácil e convidativa… Isso era o que elas diziam.
Porém, além de toda a informação, há a excelente escritora que é Isabela Figueiredo. Sua prosa é de primeira qualidade, ao mesmo tempo clara e lírica. Se fosse um livro comum, ficaria como documento. Seu sucesso de crítica e público deveu-se à linguagem de Isabela, que catalisa sentimentos, impulsiona e dá colorido adequado a tudo que é contado.
Recomendo fortemente!

Gente, as eleições mais importantes são as para Deputado Federal e Senador. Nestes cargos é que fundamental influenciar, votando em quem não será depois Centrão. A palavra Centrão significa o grupo de deputados que apoia a quadrilha que ora ocupa o Planalto e que deverá estar com Alckmin e Ana Amélia.
Importante: o título deste post não defende Dilma, uma de nossas piores presidentes da história. Usei o episódio apenas como exemplo, pois foi ali que todos viram em quem votamos, quem é nosso Congresso. O que sei é que ignoramos o parlamento no período eleitoral e depois nos surpreendemos com sua ruindade, tolice e corrupção. Há que examinar o voto com lupa.

Já tivemos Ian McEwan no Fronteiras. Ele comentou um livro seu, Enclausurado, cujo narrador era um feto. Pois o narrador de O Vendedor de Passados é uma lagartixa. E esta conta a história de Félix Ventura, um negro albino que vende passados para quem não gosta do seu. Ou seja, ele prepara e vende árvores genealógicas, criando passados mais amenos e bonitos. Seus clientes são prósperos empresários, políticos e militares que têm assegurados belos futuros em Angola. Todavia, falta-lhes um passado digno. A lagartixa Eulálio vive nas paredes da casa de Félix acompanhando seu trabalho de comerciante. Conta-nos sobre a enorme biblioteca de Félix e dos recortes de jornais e revistas de várias épocas que guarda e consulta. Além disso, ele frequenta lojas de antiguidades e sebos, a fim de buscar inspiração. Afinal, o passado tem de ser plausível, se possível colorido e sedutor. E acaba negociando objetos comprobatórios, pois seu trabalho de “romancista” não vai para as páginas de livros, deve ser real, ou quase.
Por Samuel Sganzerla
Eu vou ser bem sincero contigo, Renato: nem sei exatamente o que escrever por aqui hoje. Saí tão p… da cara da Arena ontem, xingando até a oitava geração da família do juiz. No fundo sabemos que jogamos para tomar o merecido empate. Mas o senhor de amarelo, que sujeitinho bem SAFADO, invertendo faltas e adotando duplo critério na marcação.
O gol sofrido faltando 15 segundos deu aquela sensação de que tudo deu errado, Renato. Mas, a bem da verdade, eu te digo e afirmo que, no final, tudo deu certo ontem à noite. Porque a vida do Grêmio é assim mesmo: entre tropeços e erros, vem a superação. Foi o primeiro episódio de uma batalha que só termina daqui a duas semanas.
O futebol tem dessas coisas: no momento em que o time segue a boa fase e vem fazendo grandes partidas em casa, tem aquele jogo para colocar tudo em dúvida. Levar aquele empate no final é como, nas metáforas que só os românticos como nós entendemos, Renato, quando aquela morena de lábios carnudos que te propicia noites maravilhosas vai embora de manhã, te deixando sem saber muito o que pensar da vida.
Enfim, nem tenho muita coisa para dizer hoje. Poderia descrever cada uma das atuações individuais ruins e das tuas más substituições, mas prefiro focar na ideia de que a classificação lá é bastante possível. No próximo fim de semana jogamos de novo contra o Flamengo na Arena, desta vez pelo Brasileirão. Mas já estou com a cabeça lá no Maracanã, onde mais de uma vez já triunfamos. Que 97, em especial, seja lembrado!
Saudações Tricolores, Renato!
E segue o baile…
Estou em férias até quinta-feira. Vi o jogo do Inter e escrevo rapidamente entre o café e uma caminhada que farei. O dia está lindo.
Como eu tinha previsto no Facebook, tu não inventarias nenhuma novidade tática contra o Botafogo, Odair. Afinal, tuas últimas criações foram enormes fracassos e pensei que voltarias a teu estado normal. Bingo! Escalaste um time no 4-1-4-1 ou no 4-3-3. No jogo, foi mais o segundo esquema, com Nico e Pottker jogando (bem) pelos lados e Damião centralizado. Entre Pottker e Nico, quem mais recuou foi teu bom menino Pottker. Foi uma exibição de luxo.

Foi assim: no meio-campo, Rodrigo Dourado ficou protegendo a zaga, tendo logo mais à frente o fraquíssimo Edenílson e o bom Patrick. Dos três atacantes, o mais discreto foi Damião.
Lá atrás, Cuesta e Emerson Santos fizeram boa partida. O titular é Rodrigo Moledo, que tem sido um dos melhores zagueiros do Brasileiro. Nas laterais, Zeca (que se machucou e fará falta se não voltar logo) e Iago, dois bons jogadores.
Mas o destaque é Patrick, que finalmente mostra bom futebol e regularidade.
A rodada acabou ontem e, após 16 rodadas, estamos isolados na terceira colocação com 29 pontos. Espero, Odair, que não estejas muito criativo nos próximo dias. É cuidar da ruindade de Edenilson, tentar recuperar Moledo e ir observando Dale e Álvez. De resto, não mexa demais.
O próximo jogo é só no dia 6 de agosto, às 20h, contra o Atlético-MG no Independência. É um adversário direto, e jogo difícil, mas não me invente uma retranca!
Era isso.
Por Samuel Sganzerla
Eis que a segunda-feira amanheceu para nós sinalizando, mais uma vez, que o Campeonato Brasileiro será uma pretensão secundária nesta temporada. O contexto em que se deu a partida, Renato, poderia indicar um bom resultado (empate com o time reserva, fora de casa, contra um mandante que já venceu equipes da parte mais alta da tabela em seu estádio). Não vejo, porém, que isso permita comemoração, acaso se pense mesmo em título.

É bem verdade que o time que entrou em campo ontem teve um caráter bastante experimental. Douglas iniciou uma partida como titular pela primeira vez em mais de um ano e meio. Marinho, ainda sem tanto ritmo de jogo, após sua chegada da China, também teve sua estreia como titular. Pepê teve a incumbência de fazer a função de Everton. E por aí vai.
A questão é que o time, apesar de todos esses pesares, começou bem. O gol logo no início parecia que ditaria o ritmo de jogo, Renato. Destaque, aliás, para o bom passe de Hernane para Pepê marcar. Uma coisa rara de se ver nessa temporada é o time de adversário ter mais posse de bola, enquanto exploramos o contra-ataque. O que até funcionou bem na primeira etapa, em que pese termos perdidos boas oportunidades de ampliar o placar. E isso nos custou caro.
No segundo tempo, a Chapecoense melhorou muito, e nós pioramos bastante. Tudo bem, Renato, é de se dar um desconto pelo fato de serem os suplentes. Entretanto, o chamado “efeito vestiário”, que quase sempre pesa a nosso favor no intervalo, ontem jogou contra. Faltou leitura sobre o jogo da Chape, e fomos praticamente dominados no segundo tempo.
Neste ritmo, não tardou para que empatassem o jogo. Paulo Vítor é um bom goleiro, mas voltou a falhar. Sua saída precipitada num lance com a bola quase na linha de fundo permitiu o gol adversário. Para sermos justos, ele faria uma ótima defesa no final da partida, que salvaria o ponto trazido na bagagem. Entretanto, no balanço das suas atuações até agora, ainda faz sentir a ausência de Marcelo Grohe em campo. Precisa melhorar.
Agora, ontem não dá para dizer que foram dois pontos perdidos, como em vários outros confrontos. Porque nosso segundo tempo fez com que o empate fosse até lucrativo. Se a Chapecoense tivesse virado a partida, não seria nenhuma injustiça. Espero que Alisson volte logo, pois já ajudaria muito nestes jogos com os suplentes. E que a lesão do Bressan, reserva imediato da zaga, não tenha sido muito séria.
Ao final, Renato, parece que os deuses do futebol mandam um claro recado: miremos na Copa do Brasil e na Libertadores. Gostaria muito de voltar a ganhar o Brasileirão, mesmo sabendo que é praticamente impossível para um time brasileiro jogar com força total nas três competições. Não deixa de dar uma certa frustração, porém, observar que o Grêmio vê a liderança ficando no distante.
De qualquer forma, todo nosso foco agora é na Copa do Brasil, no confronto do meio desta semana. Que encarnemos mais uma vez o espírito copeiro, para receber o Flamengo com todo nosso futebol, em casa, com a força da torcida e a sede pela hexacampeonato. Todos os caminhos levam ao Humaitá. Nos vemos lá na Arena quarta-feira, Renato!
Saudações Tricolores!
E segue o baile…
Um crítico escreveu algo assim: “Li Ao Farol da mesma forma como costumo comer chocolate, pretendendo fazê-lo aos poucos entre outros afazeres, só que logo me deu aquela vontade incontrolável de ler tudo sem parar”. Certamente isso não se deveu a uma trama envolvente, nem a casos românticos para os quais ele precisasse saber do desenlace. E realmente, os livros de Virginia Woolf quase deixam de lado a trama e se fixam nas minúcias humanas, mesmo que a seção central de Ao Farol fale de como uma casa se deteriora. O curioso é que sou um sujeito que pede alguma profundidade dos romances, mas a diluição de VW jamais me incomoda, pois há profundidade de observação — mesmo que seja de coisas secundárias –, assim como qualidade narrativa, clareza estrutural e estupenda criação de personagens.
O livro trata da família Ramsay, casal, oito filhos e agregados em férias. A personagem central é a Sra. Ramsay, uma bela mulher que usa seu charme e trato social para manter a harmonia entre todos. Mas ela parece ser sabotada pelo próprio marido, um homem “do contra” e amargo.
O livro é dividido em 3 capítulos. A janela funciona como uma apresentação dos personagens, temperada pela inteligente e sutil dinâmica de Virginia. Tudo se passa em um só dia na casa de veraneio da família, próxima a um farol que James Ramsay, o filho caçula, deseja muito visitar. Só que a previsão do tempo conspira contra os planos. James alimenta ódio pelo pai, por ele ser tão grosseiro em suas colocações sobre o passeio. O tempo passa, além de mostrar a degradação da casa, revela acontecimentos cruciais na família Ramsay. Já O farol é o momento em que realmente acontece o tão esperado passeio, porém de uma forma muito diferente.
Ao Farol poderia ser um livro denso escrito em insistentes “fluxos de consciência”, mas é leve ao acompanhar o vaivém dos pensamentos, dos medos e vacilações de seus personagens. Estes são mostrados em extrema proximidade no microscópio de Woolf e a compreensão das pessoas é o que vale neste extraordinário romance. Que personagem notável é Lily Briscoe! Que descrições maravilhosas temos do que lhe ocorre enquanto pinta! Não são pensamentos extraordinários ou filosóficos — na verdade, pelo contrário, ela e os outros personagens são intelectuais bastante convencionais, do tipo que se encontra em muitos livros. Pode ser dito que eles não oferecem nada novo, mas um mundo interior muito semelhante ao nosso, com pensamentos completos ou incompletos e livres-associações as mais absurdas.
Excelente tradução de Denise Bottmann para a L&PM.
Recomendo fortemente!
Nem vou perder muito tempo falando neste jogo, Odair. Tenho que trabalhar. Te confesso que procurei Charles na escalação de nosso time que recebo no celular. Quando vi que ele não estava escalado, disse para minha mulher: “Hoje será um dia de grandes complicações para o Inter. O maluco do nosso treinador voltou a inventar”.

E foi uma noite de grandes complicações. Com Dourado fora, a entrada de Charles seria o natural, o óbvio. Mas fazer o simples não é a tua especialidade. Então tu alteraste o posicionamento do mau Edenílson e do bom Patrick, deixando-os mais atrás, para colocar, para acomodar… Lucca no time. Para manter Pottker no time… Não, não dá para entender.
Ou dá. Contra o Atlético-PR, já que Patrick não poderia jogar, tu inventaste Zeca no meio, para colocar… Fabiano da lateral. O resultado foi péssimo, mas empatamos. Ontem, nem isso. Não vou reclamar dos absurdos do árbitro se as mancadas mais graves partiram de ti. Será que domingo que vem, contra o Botafogo no Beira-rio, vais inventar mais alguma coisa? Tenho medo.
Ou seja, num grupo com 30 jogadores ou mais, tu brincas de fazer improvisações… Meu deus, Odair. Daqui algum tempo, alguém vai começar a armar contra ti no vestiário. Prepare-se!
Nem sei qual é nossa posição na tabela, tão irritado fiquei ontem ao ver nosso time sem marcação no meio-de-campo e com Pottker + Lucca. Mas é óbvio que, por culpa tua, perdemos posições.
Por Samuel Sganzerla
De volta à Arena, de volta ao caminho da vitória, Renato! Eis que amanhecemos bem nesta sexta-feira, diante do ótimo resultado contra o São Paulo na noite de ontem. Não foi sem levar um susto no início da partida; entretanto, é bom ver o Grêmio não apenas jogar para vencer, mas também ter o poder de decidir para triunfar. Cebolinha ontem provou mais uma vez que vem sendo um dos melhores atacantes do futebol brasileiro nesta temporada.

O horário do jogo e o clima dessa última não ajudaram muito, né?! Como a partida se iniciava às 19:30, nem pensei em tentar me dirigir à Arena. Até porque talvez seria necessário tomar um catamarã para chegar lá – mas parece que a Prefeitura ainda não viabilizou o trajeto Cais Mauá-Humaitá. Então, rumei para o bar mais próximo, depois da jornada diária de labuta.
No começo, a coisa mais rara destas últimas temporadas aconteceu: Geromel cometeu uma falha grosseira. Deu um golpe de vista para deixar a bola passar para Marcelo Grohe, mas que apenas permitiu que Arboleda chegasse antes e fizesse o cruzamento para Diego Souza empurrar sozinho para as redes. Mas é isso que no futebol chamamos de CRÉDITO, não?! Se tem alguém que erra, e a gente praticamente não dá bola, é o Geromito (já te contei, Renato, que o nome do meu filho vai ser Pedro?).
Contudo, bastou que o adversário saísse na frente para, novamente, como tem sido tão comum nesta temporada, o filme se repetir: time adversário retrancado, Grêmio com mais de 70% de posse de bola, girando a área de ataque, mas criando poucas chances efetivas de gol. Ainda teve a agravante de que o gol sofrido no começo manteve o time nervoso por uns minutos, errando muito.
Kannemann ainda salvaria a pátria Tricolor no primeiro tempo, num perigoso contra-ataque são-paulino. Um daqueles lances lindos, em que o zagueiro se joga com precisão cirúrgica para tirar a bola quase de cima da linha. Digno de nos fazer questionar de novo, Renato, o porquê de ele nunca ter recebido uma chance em meio aquela NABA que é a zaga da Argentina.
Apesar da desvantagem temporária, felizmente ontem era o dia de Everton brilhar mais uma vez. Já nos aproximávamos do final da primeira etapa, quando Maicon viu o espaço livre no flanco esquerdo da zaga e fez um lançamento primoroso. Cebolinha dominou a bola e foi para cima da marcação, ENTORTANDO Éder Militão e fintando novamente, antes de bater entre o lateral e o zagueiro, no canto oposto do goleiro. Golaço!
Na volta da segunda etapa, o São Paulo precisou mudar um pouco de postura, já que o empate tirava sua chance de assumir a ponta da tabela. Um caso curioso, inclusive, porque parece que o gol de empate repentinamente curou as câimbras que os jogadores do time paulistano vinham sentido. De chamar o Ministério da Saúde para averiguar o caso, Renato.
Bueno, apesar do jogo um pouco mais aberto, o Grêmio praticamente não correu riscos. O São Paulo teve uma única boa chance no segundo tempo, mas Diego Souza desta vez parou nas mãos de Milagrohe. O Tricolor começou a ter mais espaços e mais chances, embora sem conseguir transformar isso em chutes a gol.
Foi então numa baita dormida da zaga adversária que Luan roubou a bola no nosso campo de ataque e fez a assistência para Everton. Outra vez o Cebolinha foi para cima da marcação, driblou e finalizou letalmente. O cara tá demais, Renato! O jogador que sabe driblar e consegue definir a jogada em pouco espaço é o diferencial nestes tempos de linhas de marcação muito fechadas, de priorização do sistema defensivo.
A partir daí, desenhou-se a vitória do Grêmio. Não foi das atuações mais brilhantes deste ano, mas o time teve consistência para superar a adversidade do gol sofrido logo cedo. E contou com a individualidade de um jogador habilidoso e de finalização precisa para vencer. Em tempos de times bem montados na defesa, é fundamental tê-lo na equipe – além de saber usar mais as bolas paradas e aéreas.
No mais, foi bom ver que o Imortal soube transformar em vitória o seu domínio tático sobre o adversário, diferentemente do que tinha ocorrido no último domingo. Neste campeonato, estamos indo bem contra a parte de cima da tabela, mas perdendo pontos importantes para a parte de baixo. Um filme que infelizmente se repete há tempos, Renato. Quando isso mudar, a gente volta a levantar esse caneco também.
Agora, imagino que, a despeito do discurso protocolar, a cabeça já esteja pensando no duelo contra o Flamengo, pelas quartas de final da Copa do Brasil, na próxima quarta-feira. O que não é errado, Renato, porque sei que não vai ser possível jogar “às ganhas” as três competições. Mas seria bom se o time misto/reserva que vai a Chapecó neste fim de semana trouxesse de lá mais três pontos na bagagem.
Por fim, queria comentar contigo sobre o fato lamentável de o Raí ter culpado o apito pelo resultado. Que a arbitragem brasileira é fraca, todos sabemos, mas nada que indicasse favorecimento a nós e que afetasse o placar. O dirigente são-paulino queria o quê?! Que os jogadores dele baixassem o sarrafo à vontade, sem levar cartão?
Acho que isso é costume de quem é muito mais beneficiado do que prejudicado. Até porque é fácil narrar teses conspiratórias para encontrar culpados pela derrota, quando teu time entrou em campo com a covardia de um moleque que bate numa mulher (peço licença aqui: que eu nunca cruze com o infeliz que motivou esta livre associação, para o bem dele). De toda forma, nessa história de “apito amigo”, só posso dizer ao Raí: procura um espelho, camarada!
Saudações Tricolores, Renato!
Segue o baile…
Com a concordância do prefeito (sim, aquele mesmo que diz não ter dinheiro para nada), a Câmara Municipal de Porto Alegre abriu um edital de R$ 350 mil para que seja composta uma ópera-rock baseada na Revolução Farroupilha. Bem, a época deste gênero musical já está mais do que finda, só podendo ser coisa de quem não acompanha nem de longe o movimento cultural, parecendo mais um projeto pessoal de um sem-noção.
Moda no final dos anos 60 e início dos 70, as óperas-rock foram puxadas pelo excelente The Who, cujo principal compositor, Pete Townshend, escreveu a pioneira Tommy — OK, a primeira foi A Quick One, também do The Who — e a melhor de todas, Quadrophenia. Depois o gênero diluiu-se e foi parar nos musicais, onde morreu há muitos anos. Uma ópera-rock era simplesmente uma série de canções interligadas que, reunidas, contavam uma história, sem chegar a ser um drama musical como os de Wagner.
Na época das óperas-rock, as pessoas se vestiam assim, meu caros edis.

Mais: além da Câmara propor uma composição de gênero anacrônico, a tal “Revolução Farroupilha” sempre esteve longe de ser uma unanimidade no estado, mesmo na época em que ocorreu. A própria cidade de Porto Alegre não a apoiou. Talvez fosse adequado a nossos vereadores darem uma olhadinha no brasão de armas da cidade. Lá está escrito o lema “Mui Leal e Valerosa”. Esta frase está ali por NÃO termos apoiado os Farrapos. Desculpem, a verdade é algo incontrolável mesmo.
Gente, a Revolução Farroupilha não foi a luta do povo rio-grandense contra o Brasil. Uma parte importante dos moradores da província lutou a favor do Império. Nem mesmo na região da Campanha, tida como base dos farroupilhas, havia unanimidade. Muitos dos líderes militares e grandes estancieiros, que ali viviam, eram legalistas.
E ainda mais: a Câmara de Vereadores financiando um tema que não diz respeito exclusivamente a Porto Alegre é, no mínimo, estranha.
Li em algum lugar que seria melhor montar uma ópera sobre o tema. Até concordo. Por que não? Afinal, elas ainda são compostas e são populares. É um gênero vivo em Porto Alegre, onde as montagens lotam teatros. Mas gostaria de sublinhar que já existe uma ópera chamada Farrapos, conforme lembra o tenor Antonio Telvio. Ela foi estreada em 1935 ou 36 no Theatro São Pedro e é de autoria de Roberto Eggers (1889-1984), que também compôs Missões. Eggers foi uma figura bem conhecida na cidade — dirigiu o Orfeão Riograndense e foi Diretor Musical das Rádios Gaúcha e Farroupilha.
Para terminar, por que não propuseram simplesmente um musical ou uma ópera gaudéria? Talvez uma ópera-funk? Ah, Pete Townshend, que estrago você fez na cabeça de nossos ignorantes edis!

Com grandes dificuldades, o Inter acabou vencendo a boa retranca do Ceará no Beira-Rio. Estes garantem, após a 14ª rodada, um total de 26 pontos e o terceiro lugar isolado na tabela de classificação.
Foi complicado. No primeiro tempo, o Inter teve plena posse de bola, mas também foi plenamente improdutivo. Jogando no esquema 4-1-4-1, o colorado tem, na linha mais ofensiva de 4, dois volantes de origem atuando pelo meio — Edenílson e Patrick — e dois atacantes pelos lados — Nico López e Rossi. Os volantes deixam lenta a armação. Edenílson é um condutor de bola bastante comum e errático. Patrick é bem melhor, mas é homem de pisar na bola e pensar. Ou seja, escalado assim, somos um time muito lento, ineficiente para enfrentar retrancas.
Tivemos apenas uma chance de gol. Mas que chance! Num dos poucos contra-ataques que conseguimos, Rossi passou por dois dentro da área do Ceará e mandou a bola no travessão. Porém, no restante do tempo, só ficamos rondando.

Estava na cara que algo precisaria se alterado. Com D`Alessandro e Damião no banco, era claro como a coisa ia acontecer. Odair retiraria um dos volantes e substituiria outro da linha de quatro. Dale entrou no lugar de Rossi e Damião no de Edenílson. A coisa melhorou, mas o Ceará não estava para brincadeiras e começava a gostar no jogo, tanto que chutava em nosso gol, mesmo sem perigo.
O gol do Inter surgiu em bela jogada. Depois de boa trama pelo meio, D`Alessandro lançou Patrick na área. Este encostou de cabeça para Damião que, atuando como pivô, fazendo a parede, deu um passe sensacional, ajeitando para o chute de Nico López. No rebote, William Pottker mandou para o fundo das redes.
E foi só. Mas foi tudo o que precisávamos.
Continuamos sem entender o que faz Danilo Silva no time, enquanto Klaus permanece sentadinho no banco. Até Fabiano poderia jogar em seu lugar, penso. Também Iago fez péssima partida. Parece estar mais atento à Copa do Mundo que já acabou. Enquanto isso, Nico e Dourado — que não estará no jogo seguinte pelo terceiro cartão — seguem bem, assim como Pottker, que ressurgiu das cinzas em que se encontrava no período pré-Copa.
A próxima partida será na quinta-feira, às 20h, contra o América-MG, em Minas Gerais.
Por Samuel Sganzerla
Quer dizer, nem tão bom assim, convenhamos!
Renato, eu vou ser curto e grosso: é de desistir de acreditar que o Grêmio pode ser campeão do Brasileirão. Ano após ano, é uma história que se repete. Com todo o respeito ao Vasco da Gama, que já viveu tempos bem melhores, mas não dá para perder para aquele time medíocre, tendo um jogador a mais durante dois terços da partida.

Acho que os deuses do futebol estão sendo bem claros em seu recado: deixemos o Campeonato Brasileiro de lado e foquemos na Copa do Brasil e na Libertadores da América, que é onde nos saímos melhor. Pelo menos enquanto essa fórmula de pontos corridos e a possibilidade de fazer 10 jogos por mês perdurarem (razão pela qual eu entendo tu teres poupado o Maicon).
Enfim, era só isso que eu tinha para dizer: foco na busca pelo hexa da Copa do Brasil e pelo tetra da América. A partida de ontem não me permite dizer mais. Pelo menos nada que seja publicável aqui. Que m…
Saudações Tricolores, Renato!
E segue o baile…
O Inter abriu mão de dois pontos ontem à noite em sua partida contra o atualmente fraquíssimo Atlético-PR. Acabou 2 x 2, mas o que poderia ter sido um passeio quase acabou em derrota.
Antes do jogo, eu pensei que, num grupo de mais de 30 jogadores, jamais um lateral como Zeca deveria ser improvisado como meio-campista. É claro que os caras do setor de meio-de-campo devem ficar putos, ainda mais vendo que o beneficiado que entra no time, na lateral, é o péssimo Fabiano. Pensei que tu, Odair, dás merecida importância à ausência de Patrick, um jogador que se tornou fundamental, mas que errarias ao colocar Zeca no meio.
Não deu outra. E logo no início do jogo se viu que Zeca, desadaptado, seria um peso morto. Mas tu só tiraste Fabiano, recolocando Zeca em sua posição, depois que o Atlético-PR virou o jogo para 2 x 1. Lamentável.

Mas ainda pior foi a colocação de Danilo Silva no lugar de Moledo. Seu substituto natural era Klaus, que é bem melhor. Danilo esteve presente nos dois gols do Atlético-PR, sempre fazendo merda. Ou seja, sua colocação foi determinante para o empate de ontem. Mas o Inter gosta disso. Danilo é um veterano que já tinha demonstrado sua ruindade com o Inter na segundona. Só que não gostamos de colocar jovens no time para deixar um (pseudo) medalhão no banco. Então, Klaus devia estar dando risada no banco, vendo as cagadas de Danilo.
Para piorar as coisas, Danilo joga ao lado de Fabiano…
Ah, e Lucca? Bah, esse não jogou nada e acabou sendo bem substituído por Wellington Silva. Lucca ainda recebeu o terceiro cartão, o que pode ser positivo para teu time.
Pelo lado positivo, tivemos uma atuação aceitável de Pottker e uma bela participação de Nico López, que finalmente está tendo merecidíssima sequência.
Como foi ontem? O jogo estava parelho até que Nico López fez boa jogada, chutou a gol e a bola rebotou num zagueiro, sobrando para Pottker marcar. Foi com a mão? Sim, mas o braço de Pottker estava junto ao corpo. Ou seja, se não estivesse ali, provavelmente o gol seria de barriga.
Depois começou a tragédia. Fabiano errou um passe, dando um contra-ataque para os paranaenses. Danilo foi recuando, recuando, recuando até que o cara chutou para marcar. Ah, essa duplinha…
No inicio do segundo tempo, num escanteio, Paulo André pulou sozinho no setor de Danilo. 2 x 1.
Então tu corrigiste o time, fazendo a obviedade que citei acima. Entrou Rossi no lugar de Fabiano e o Inter não apenas empatou com Wellington Silva como poderia ter virado o jogo. Mas não houve tempo. Então, Odair, te responsabilizo pelos dois pontos que deixamos de ganhar ontem.
Estamos em quinto lugar com o mesmo número de pontos de Atlético-MG e Grêmio, todos com o baixo aproveitamento de 59%. Nossa próxima partida é contra um time bem parecido com o Atlético-PR. O adversário será o fraco Ceará, último colocado na tabela de classificação. O jogo será na segunda-feira, 23, às 20h.
Espero que tu não inventes de deixar Danilo Silva no time.