Hoje faz aniversário a “Queima de Livros”, a Bücherverbrennung — Veja fotos e filmes

Hoje faz aniversário a “Queima de Livros”, a Bücherverbrennung — Veja fotos e filmes

queima de livros nazista 2Entre os dias 10 de maio e 21 de junho de 1933, logo após a chegada ao poder de Adolf Hitler, foram organizadas queimas de liros em praça públicas com a presença de entusiastas, polícia e bombeiros e representantes do governo. Tudo o que fosse crítico ou se desviasse da orientação nazista, deveria ser destruído. Os incêndios ocorreram por iniciativa do diretório nacional de estudantes nazista.

Os estudantes e membros das SA e SS participaram destes festins. As entidades estudantis NSDStB e ASTA competiram entre si, numa tentativa de uma mostrar-se melhor que a outra. A maioria dos livros queimados pertenciam à bibliotecas públicas. Eles eram de autores “pouco alemães”. O poeta nazista Hanns Johst foi um dos que justificou a queima, logo depois da ascensão do nazismo ao poder, com a “necessidade de purificação radical da literatura alemã de elementos estranhos que possam alienar a cultura alemã”.

Entre os livros queimados pelos nazistas estavam obras de Thomas Mann, Heinrich Mann, Walter Benjamin, Bertold Brecht, Erich Kästner (que, anônimo, assistia a tudo), Robert Musil, Erich Maria Remarque, Joseph Roth, Nelly Sachs, Franz Werfel, Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx e Heinrich Heine.

Oskar Maria Graf não foi incluído na lista. Seus livros não somente não foram banidos como até foram recomendados pelos nazis. Em resposta, ele publicou um artigo intitulado “Verbrennt mich! (queimem-me) no jornal vienense “Arbeiter-Zeitung” (Jornal dos Trabalhadores). No ano seguinte, foi atendido.

A opinião pública e a intelectualidade alemãs ofereceram pouca resistência à queima. A burguesia tomou distância, passando a responsabilidade aos universitários. Também os outros países acompanharam a destruição à distância, chegando a minimizar a queima como resultado do “fanatismo estudantil”.

(Intermezzo de Bertold Brecht

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Fim do intermezzo de Bertold Brecht)

Entre os poucos escritores que reconheceram o perigo e tomaram uma posição estava Thomas Mann. Em 1933, ele emigrou para a Suíça e, em 1939, para os Estados Unidos. Quando a Faculdade de Filosofia da Universidade de Bonn lhe cassou o título de doutor honoris causa, ele escreveu ao reitor: “Nestes quatro anos de exílio involuntário, nunca parei de meditar sobre minha situação. Se tivesse ficado ou retornado à Alemanha, talvez já estivesse morto. Jamais sonhei que no fim da minha vida seria um emigrante, despojado da nacionalidade”.

Certa vez, um dos queimados, Heinrich Heine (1797-1856), escreveu: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.”

Berlin, Bücherverbrennung

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Ana Amélia e seu Homem de Seis Milhões de Dólares

Ana Amélia e seu Homem de Seis Milhões de Dólares
Ana e o biônico | Foto: redesul.am.br
Ana e o biônico | Foto: redesul.am.br

Rapidamente, quase um bilhete.

O gaúcho é mesmo o povo mais politizado do Rio Grande do Sul. Só isso explica a pesquisa do Ibope realizada na semana passada e que coloca Ana Amélia Lemos na primeira colocação para o Governo do Estado. A pesquisa indica uma polarização entre os nomes de do atual governador Tarso Genro e de Ana Amélia. O que vemos é que, em plena semana de descomemoração dos 50 anos do Golpe, a ex-esposa de um senador biônico da ARENA é alçada como a mais provável governante de nosso estado para o quadriênio de 2015-2018. É pra matar.

O termo biônico. No seriado Cyborg — O Homem de Seis Milhões de Dólareso Coronel Steve Austin (vivido por Lee Majors) recebeu implantes eletrônicos que lhe salvaram a vida após grave acidente. O tais implantes custaram seis milhões de dólares. Então, dotado capacidades ultra-ampliadas, ele passou a trabalhar como agente especial do governo americano. Tornou-se melhor e mais forte do que todo mundo. Era o “homem biônico”, que podia tudo. Transposta para nosso mundo político dos anos 60 e 70, tal designação serviu para apontar quem ascendeu ao poder sem o desgaste de uma campanha eleitoral. Ou seja, que foi indicado pelo governo militar. Os biônicos são aqueles que foram investidos de cargos normalmente obtidos por sufrágio.

Como surgiu esta excrescência? Ora, quando a ditadura viu que o MDB, partido único de oposição, estava ficando grandinho demais, resolveu indicar pessoas que a apoiavam para cargos chave. Sem eleição. Foi a forma de se manterem no poder sem dissolver o Congresso novamente. Tais indicações garantiram a continuidade do regime e impediu que os objetivos traçados pelos militares fossem atrapalhados pelo povo.

Um destes biônicos foi Octávio Omar Cardoso, falecido marido de Ana Amélia Lemos. Ele foi senador biônico pelo estado do Rio Grande do Sul entre os anos de 1983 e 1987. Era suplente de Tarso Dutra e assumiu após a morte do titular, quando, ex-arenista, já era do PDS. Dizer que ela não tem nada a ver com isso é quase análogo a dizer que o PP não tem nada a ver com a ARENA. Para que não sabe, a Arena tornou-se PDS, depois PPB e depois PP, o partido da senadora. Então Ana Amélia era casada com o senador que ninguém elegeu, escolhido a dedo pelos militares da ditadura.

É claro que a senadora não forma gêmeos siameses com seu ex-marido — talvez ela esteja grudada apenas à RBS –, porém o amor ao mesmo partido e ao latifúndio, agora agronegócio, permanecem. Ana Amélia é hoje uma bonita senhora de 69 anos que enfrenta um governador que teve bom desempenho econômico, com um PIB que teve crescimento maior que o dobro do nacional, mas que é malvisto pelos professores e pelo Bloco de Luta, que sistematicamente apanha da Brigada Militar estadual. Tarso também perdeu oportunidades de ouro na área da Cultura, deixando a inauguração da Sala Sinfônica da Ospa para o próximo governo e a Biblioteca Pública em obras eternas. Desta forma, decepcionou setores habitualmente amigos das esquerdas. Será uma disputa complicada, mas votar num filhote da ditadura como Ana Amélia? Pelamor.

E, se pensarmos que o líder das pesquisas para o senado deverá ser Lasier Martins, melhor mudar logo nossa sigla estadual de RS para RBS.

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Nós apoiamos a comunista Camila Vallejo! E de forma imoderada

Nós apoiamos a comunista Camila Vallejo! E de forma imoderada

Camilla Vallejo

Querem ver o vídeo? Aí está.

Obrigado, Felipe Prestes.

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O homem que encaçapa a bola branca

O homem que encaçapa a bola branca

Em foto pré-eleitoral, todo o conhecimento de José Maria Marin. Não é só de futebol que ele não entende.

Marin Genio

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Radar (Camila Vallejo)

Radar (Camila Vallejo)

camila_vallejo

Musa chilena e ex-líder de movimentos estudantis, a comunista Camila Vallejo assumiu na manhã desta terça-feira o cargo de deputada no Congresso do Chile, tornando-se a representante mais jovem e bonita da Câmara. A deputada — que chega à Câmara junto a outros cinco integrantes de seu partido — integrará a Comissão de Educação.

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Vai ter Copa

Vai ter Copa

Mas será tumultuada, claro.

A Suécia rejeitou sediar os Jogos Olímpicos de Inverno em 2022 para dar prioridade à construção de moradias. A candidatura de Estocolmo foi enterrada em bloco pelos partidos políticos suecos, com apoio do próprio prefeito da capital e também do primeiro-ministro do país. Os argumentos que orientaram a decisão: a cidade tem prioridades mais importantes, a conta para realizar o evento na cidade seria alta demais, e um eventual prejuízo com a organização dos Jogos teria que ser coberta com o dinheiro dos contribuintes.

Sem dúvida, os escandinavos tomaram a melhor decisão e o Brasil poderia ter agido assim antes de propor-se a ser sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Afinal, o mau uso do dinheiro público está bem claro em algumas construções que receberão dois ou três jogos do Mundial. Só que o caso sueco foi bem diferente do brasileiro — onde nós estávamos quando tudo isso ocorreu, estávamos comemorando? — e, sinceramente, hoje sou contra o movimento “Não vai ter Copa”. Acho que deveríamos lutar por uma improvável auditoria na CBF, em todas as federações estaduais e nas absurdas construções de estádios por todo o lado. Nós sabemos para servem algumas grandes obras no Brasil e o destino dado a cada real devia ser explicado e conferido. Mas agora que a mesa está posta e os convidados batendo na nossa porta, creio ser tolo e impopular o movimento. Não que acredite que o “Não vai ter Copa” passará ao largo da mesma como se os manifestantes fossem mímicos bobos, apenas acho que ele será um gol contra.

Eu tinha 13 anos em 1970. Minha compreensão das coisas era — e ainda é — bem limitada. Mas intuía que devia confiar em quem estava contra a ditadura, era de esquerda e ateu. E torci contra o Brasil. Afinal, a conquista de uma Copa era alienante e a ditadura militar usaria a glória conquistada no futebol para seguir censurando, torturando e matando. E ganhamos a Copa. O mesmo aconteceu na Argentina 8 anos depois. E, bem, foi uma época terrível: o Brasil apresentou um futebol sublime e Médici colheu grande popularidade. Depois, o ditador queria grudar nos jogadores enquanto, nos porões, seus milicos torturavam e matavam. Não adiantava nada, mas era justificado torcer contra. Agora, os tempos são muito diferentes e o que o movimento “Não vai ter Copa” não se deu conta é que não é produtivo combater algo tão popular quanto o futebol. Em junho, todos seremos açambarcados por uma única preocupação e a imensa maioria da população vai dar razão à repressão ao “Não vai ter Copa”.

Não vejo a lógica de tentar impedir o Mundial. A lógica é ser crítico e mostrar que os dribles de Neymar não têm nada a ver com os políticos. Para o bem e para o mal. É ingenuidade pensar que a Copa não tirou recursos da saúde, da segurança e da educação. Porém, quando entidades como a Fundação Getúlio Vargas prometem que haverá a injeção de R$ 142 bilhões na economia e a criação de 3,6 milhões de empregos em função da Copa, deveríamos lutar para que estes recursos e empregos apareçam. Quem vendeu a ideia de que o Mundial é bom para o país que viabilize o nirvana. Ademais, vou dar um golpe baixo: eu e Eduardo Galeano adoramos futebol!

Voltando a falar sério. O que não deveria estar esquecido é a vergonha de termos um anacrônico produto da ditadura militar como presidente da CBF. Sua presença nos eventos será um completo escândalo. Todos estão esquecidos de que Marín esteve envolvido no assassinato de Vladimir Herzog? E por que Dilma ou nosso atuante Congresso não apoiaram uma CPI para investigar a CBF e os negócios da Copa do Mundo de 2014? Lembram que os senadores não tiveram colhões para apoiá-la? Lembram que o senador Zezé Perrela chutou a Comissão Parlamentar pra escanteio antes do helicóptero da família ser flagrado com 400 Kg de cocaína? Será o STF deveria ter entrado novamente em campo, dando mais um passo para a judicialização do estado? Ou também os ministros gostam demais de futebol…?

Não subestimo e amo as ruas, mas vai ter Copa sim. Imaginem que só o sorteio dos grupos da Copa foi visto por 500 milhões de pessoas. E eu e o mundo o veremos. Não há como não acontecer. O “Não vai ter Copa” terá visibilidade, mas joga uma partida perdida, a não ser que esta seja a de só fazer barulho e ser impopular.

O novo Beira-Rio: bonitinho | Foto: SC Internacional
O novo Beira-Rio: de fora, parece um belo bergamotão | Foto: SC Internacional

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Além de feia, a palavra “empoderamento” é confusa

Além de feia, a palavra “empoderamento” é confusa

Eu não gosto desta palavra. Em primeiro lugar porque é feia — tem um som horrível e o verbo empoderar é de matar –; em segundo lugar por ter um significado difuso e estar sendo aplicada nos mais diversos campos militantes, políticos e até psicológicos, de forma sempre a aceitar uma nova ilação. É um gênero diferente da famosa palavra-valise de Carroll (junção de duas palavras em uma). É uma palavra que serve a muitas funções e distorções. Veio de empowerment e sua definição fica próxima de “autonomia” ou da possibilidade das pessoas ou grupos poderem decidir sobre seus próprios destinos. Não surpreende que seja uma das palavras preferidas do feminismo e dos movimentos afro. É claro que eu apoio ambos os movimentos, apesar da palavrinha.

Além de servir aos campos progressistas, serve aos conservadores. A direita a utiliza quando fala em fortalecer a área privada, retirando programas públicos de assistência, deixando para as comunidades a resolução de seus problemas. Enquanto isso, a esquerda fala em bolsa-família para empoderar os populações desfavorecidas, dando-lhes poder de compra e cidadania — não seria o caso de utilizar algo mais próximo de “igualdade”? Ou seja, a direita quer empoderá-los deixando-os autônomos, autogestionados e a esquerda quer empoderá-los assistindo-os. Neste caso, empoderar demonstra toda a sua inexatidão semântica, além de ser uma palavra feia pacas.

Para complicar, os administradores falam em empoderamento organizacional, de forma a que as decisões tornem-se mais coletivas, tipo democracia corintiana. E os psicólogos em empoderamento identitário…, o qual seria um reforço na auto-estima do paciente.

Acho também a palavra poder, origem do neologismo, bastante antipática. Consultando o dicionário, vemos que poder (do latim potere) é, literalmente, o direito de deliberar, agir e mandar. Além disso, dependendo do contexto, é a faculdade de exercer a autoridade ou a posse de domínio, influência, dinheiro ou força. A sociologia define poder, geralmente, como a habilidade de impor a sua vontade sobre os outros, mesmo se estes resistirem.

Este é um texto daqueles bem inúteis, pois penso que a palavra disseminou-se e só posso mesmo espernear. Vou ter que me acostumar a ouvir e ler “empoderamento” por aí, mesmo que deteste a palavra.

empoderamento

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Quase nada sobre rolezinhos, prefeitura, futebol, Abbado, etc.

Quase nada sobre rolezinhos, prefeitura, futebol, Abbado, etc.

Pouco tenho escrito para o blog. Gosto de postar ao menos um textinho por dia, mas por esses dias está difícil. Há muito, mas muito trabalho a fazer no Sul21 e minha impressão, há muito tempo, é a de estar sempre aquém, em falta. Por exemplo, gostaria de meter cuidadosamente meu bedelho na questão do preconceito (ou ódio) de classe envolvido na discussão a respeito dos rolezinhos — tão parente que é da rejeição sem argumentos à Lula, do nojo às classes ascendentes e aos médicos cubanos. (Uma coisa: os rolezinhos já não eram rotineiros e “tolerados” no Shopping Praia de Belas em Porto Alegre?).

Também acho que deveria fazer comentários acerca do rosário de erros e suspeitas sobre a prefeitura de Porto Alegre. Nosso prefeito, o qual, após um período muito notório, agora trata de fingir-se de Fogaça, ou seja, esconde-se para que ninguém fale dele, usando a lógica do juiz de futebol: se ninguém fala do árbitro é porque vai bem. Mas o aumento das passagens está aí, prefeito. Com ou sem calor, vamos ter dias duros pela frente.

Ah, meu outro blog vai igualmente se arrastando. E ontem — e o fato tem tudo a ver com aquele blog — perdemos o grande Claudio Abbado de tantas gravações de invulgar qualidade, inclusive aquela que foi a última obra que meu pai ouviu e que não está comigo por motivos nada claros.

E o futebol? Também acharia interessante fazer uma pergunta que não é feita: por que ninguém parece desconfiar daquele cidadão da Portuguesa — quem será? — que avalizou aquela substituição faltando dez minutos para acabar o campeonato? Parece que a Lusa é apenas vítima quando foi agente de um ato pra lá de suspeito… Coitadinha, né? Para mim é óbvio que tinha inimigo na trincheira.

Ainda no futebol, relaxei a pressão sobre nosso meigo presidente Luigi. Digo isso com alguma arrogância porque sei quem me lê lá dentro do Internacional. Entendo que ele queira reduzir os custos inchados por suas próprias contratações infelizes, mas por favor, mantenha um time para entregar o clube na primeira divisão em 2015, certo? Em 2012, Luigi teve receitas extras, gastou horrores e não obteve nada com elas dentro de campo. Talvez seja bom deixá-lo sem grana. Ao menos ele não aumenta as dívidas…

O problema, repito, é que há muita coisa para fazer no Sul21 e a correria só vai parar no dia 13 de fevereiro, quando devo entrar em férias, espero. Nunca fui desses caras que dizem que precisam de uns dias para se recuperarem, sempre gostei de trabalhar e é difícil me ouvir reclamar, mas 2013 foi um exagero de emoções e desta vez sou obrigado a dizer que já estou batendo biela, precisando de manutenção. Foi um ano vasto e complicado que acabou perfeito do ponto de vista sentimental, mas talvez despojado demais sob alguns outros pontos.

Nossa! São 8h27, já publiquei algumas colunas, mas já estou atrasado nas coisas daqui. Fui!

Foto: Robson Ventura / Folhapress
Foto: Robson Ventura / Folhapress

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Ditadura militar: os fatos com os quais o Comitê Carlos de Ré nem sonha

Baseada em fatos verídicos ocorridos em 18 de dezembro de 2013. Os nomes dos envolvidos foram dramaticamente alterados.

Pois então houve aquele rebuliço legal do dopinha. Pela primeira vez, pudemos ver todas as esquerdas juntas, as falsas e as verdadeiras. O governador falou, o prefeito discursou, assim como os menores irredutíveis e os torturados. Já que a proposta era a de chamar a casa da morte de Centro de Memória Ico Lisboa, lá estava seu irmão Nei cantando. Também houve performances teatrais e a presença de nosso cartunista preferido. Sim, o conhecido Palestuff lá deixou seus traços.

Por Bernardo Jardim Ribeiro

O que as pessoas não souberam foi de um drama real que ocorreu lá fora, naquela tarde quentíssima. O jornal Vermelho23 mandara o repórter Emir Pereira e o fotógrafo Leonardo Ribas fazerem a cobertura do evento. Na saída, eles encontraram dois amigos, os célebres Zezé Cinzano — editor do Jacaré — e o fotógrafo de duas rodas e dois metros Cauan Sanguinetti. Zezé trouxe a ideia de mudar o nome da Rua Santo Antônio para Ico Lisboa. Ora, ele já vira ações semelhantes num passado recente e sobraram alguns poucos adesivos, que ele recebera. Um deles o do próprio Ico Lisboa! Entraram logo em acordo e subiram lentamente a rua sob o sol escaldante de nossa triste capital. Emir saiu do grupo não por receio, mas por responsabilidade; afinal, sua matéria era esperada na redação. Mas os outros permaneceram para a ação. E arrastaram-se até a esquina.

Em ação anterior, Duque de Caxias recebeu um nome muito mais digno.
Em ação anterior, a Duque de Caxias recebeu um nome muito mais digno.

Lá chegando, a primeira dúvida foi a de quem subiria nas costas de quem. Leonardo pegou sua máquina fotográfica e saiu dando ordens:

— Cauan, dá um pezinho pro Zezé. Eu vou registrar em foto. Só vou pegar as mãos e a mudança de Santo Antônio para Ico Lisboa na placa.

Mas Cauan fez um muxoxo e discordou. Queria um outro esquema qualquer. Ficaram Leonardo e Zezé conjeturando enquanto Cauan sumia. Foi neste momento que chegaram, de moto, dois expeditos brigadianos ou porcos, como são mais conhecidos em nossa meiga cidade. Um deles, o Coronel Bicaco, estava preocupado, falando no rádio aos gritos, mostrando serviço à população circunstante. Já o outro, chamado Tenente Portela…

— O que tu tá fazendo com este plástico na mão? — perguntou a Zezé.

A resposta de Zezé foi um tanto agressiva:

— Tu não tem nada a ver com o que eu estou fazendo. É ilícito ficar parado na esquina com um adesivo na mão?

— Se tu vai colar essa merda no poste, é.

— Tu não pode sair questionando todo mundo na rua.

— Não tô questionando todo mundo, rapaz. Tô falando contigo.

Leonardo é um hedonista que tira diversão de tudo. Ele pensava em impor sua visão de mundo quando quedou-se boquiaberto ao observar Cauan saindo de uma lavanderia próxima com uma enorme escada. Desatento, ele passou entre os dois homens da lei, deixando a escada cuidadosamente encostada no poste onde se apoiava Zezé. Sim, como estamos vendo, tudo, SEMPRE, pode piorar.

Depois de cometer tal ato, Cauan sentiu o clima meio assim. Portela parecia deliciado.

— Nunca vi postura mais natural: um sujeito com um adesivo e uma escada ao lado de um poste acompanhado por dois amigos, sob o sol de cinquenta graus de Forno Alegre. É uma nova religião?

— Sou acusado de quê, porra? — perguntou Zezé, hesitando entre brigar com o guarda ou estrangular Cauan. Mas o policial militar também estava aquecendo.

— Olha aqui, seu idiota. Nada de me desrespeitar. Tá pensando o quê? Olha a tua situação! — vociferou Portela.

Nesta altura, Leonardo tratou de vir com panos quentes, apesar da temperatura.

— Olha aqui, seu guarda, o elemento é gente boa. É que a gente estava ali no dopinha. O Sr. sabe o que é o dopinha? É um dos lugares onde a polícia torturava e matava gente como o Zezé e eu durante a ditadura. Ah, gente como tu também, porque já vi que tu é um cara digno e sério, que não gosta de coisa errada… Mas, porra, como o teu amigo berra neste rádio, hein?

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— Poderia não interromper a enrolação, por favor?

— Então, a ideia da manifestação de hoje, que teve a presença do governador e do prefeito, era a de conseguir que o estado adquirisse a casa de número 600, ali embaixo ó, para fazer o Centro de Memória Ico Lisboa, um sujeito que foi irmão do Nei Lisboa e que foi morto na cas… Mas, porra, esse teu amigo nem precisa de rádio pra falar com o QG, né?

— Deixa o Bicaco, desembucha.

— Então, para colaborar com o evento de que participou o teu chefe, o governador Tarso Genro, a gente estava pensando…

— CARALHO! Nós estamos na rua errada! — berrou o Coronel Bicaco, inteiramente estressado. — Temos que ir é na Santo Inácio e a gente veio pra Santo Antônio. Vamo pra lá agora!

Portela preparou-se para seguir seu colega, mas antes dirigiu-se a Leonardo.

— Tu é um cara legal e educado.

E a Zezé:

— E tu é um baita chato.

E foram embora para salvar algum endinheirado na Santo Inácio. Afinal, é a especialidade da corporação.

Já a placa…

.oOo.

Observações finais:
1. As fotos são de Bernardo Jardim Ribeiro e Carlos Latuff (última).
2. Peço desculpas aos envolvidos nesta brincadeira.

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Roberto Carlos mostra toda sua admiração pelo ditador Augusto Pinochet

Roberto Carlos mostra toda sua admiração pelo ditador Augusto Pinochet

E esse cara segue incomodando o Brasil a cada Natal…

No Brasil, RC também demonstrou sua admiração pelos milicos
No Brasil, RC também foi fã da milicada

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Documento da lavra de um informante da ditadura

Melhora clicando na imagem, acho.
Melhora clicando na imagem, acho.

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Apenas uma foto

Apenas uma foto

Dilma Rousseff consola a viúva Maria Thereza Goulart, durante a cerimônia de chegada dos restos mortais do ex-presidente Jango a Brasília. João Goulart foi o único presidente brasileiro morto no exílio e seus restos mortais serão exumados a fim de verificar se foi envenenado ou não.

Foot: Roberto Stuckert Filho/PR
Foot: Roberto Stuckert Filho/PR

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O caso Panair: o esquecimento de que a ditadura fazia mais que torturar

O caso Panair: o esquecimento de que a ditadura fazia mais que torturar

No caso da repressão, talvez se chegue à punição ou, no mínimo, à identificação de militares torturadores, mas o papel da Oban e da Fiesp e de outros civis coniventes permanecerá esquecido nas brumas do passado, a não ser que a tal Comissão da Verdade siga a sugestão do [Carlos] Araújo e jogue um pouco de luz nessa direção também.

Luís Fernando Verissimo, na crônica Os coniventes, de 21 de março de 2013

Cerveja que tomo hoje é
Apenas em memória dos tempos da Panair

A primeira Coca-cola foi
Me lembro bem agora, nas asas da Panair

A maior das maravilhas foi
Voando sobre o mundo nas asas da Panair

Conversando no bar (Canção de Milton Nascimento e Fernando Brant)

Há alguns anos, esta canção de Milton Nascimento recuperou seu título original de Saudades dos aviões da Panair. Na época em que foi lançada por Elis Regina, em 1974, os autores tiveram receio de falar em Panair e em suas saudades da empresa logo no título da canção. Então, ela foi rebatizada para Conversando no Bar. Afinal, era proibido sentir saudades da enorme e respeitada empresa que, por ação dos militares, foi desmontada sem maiores explicações nos primeiros meses do Golpe de 1964. Num país pobre e quase desindustrializado, a existência da Panair do Brasil S. A. era motivo de orgulho nacional.

Logotipo da Panair: pouso forçado em abril de 1965

Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1965, 15 h. Um telegrama do Ministério da Aeronáutica chegou aos escritórios da Panair, a maior companhia aérea do país e uma das maiores do mundo. A mensagem era simples e dava conta de que o governo estava cassando seu certificado de operação em razão da condição financeira insustentável da empresa. O telegrama vinha assinado pelo ministro Eduardo Gomes. A Panair não tinha nenhum título protestado nem impostos atrasados, mas o telegrama adiantava que ela não tinha meios para saldar suas dívidas e que estava proibida de voar. Os dias eram assim, também cantava Elis, ou podiam ser assim.  À noite, tropas do Exército invadiram os hangares da Panair e a Varig imediatamente assumiu todas as  concessões de linhas aéreas e propriedades da concorrente. E conseguiu fazer isto sem atrasar nenhum voo. Provavelmente, tinha sido alertada sobre os caminhos se abririam para ela naquele grande abril.

Um avião que levava um passageiro e 25 fardos de borracha na Amazônia em 1943

A revogação das concessões de linhas aéreas da Panair do Brasil foi decretada pelo Marechal Castelo Branco e a Varig era de propriedade de um aliado do governo militar, Ruben Berta  — nome de bairro em Porto Alegre. De uma tacada, a atitude provocou o desemprego de cerca de 5 mil pessoas, deu à Varig o monopólio dos vôos aéreos internacionais do Brasil e isolou quarenta e três cidades da Amazônia, pois nenhuma outra empresa operava os hidroaviões Catalina, os únicos que alcançavam aquelas localidades. Já a Celma, a subsidiária da Panair que fazia a manutenção das turbinas aeronáuticas civis e militares no Brasil, foi estatizada. Fim.

Provavelmente, não houve apenas uma razão um motivo para que os militares responsáveis pelo Golpe de 1964 perseguissem a Panair. Provavelmente, o motivo foi o conjunto da obra e, certamente, houve considerável influência externa. Mário Wallace Simonsen, o principal sócio da empresa, era um dos homens mais ricos do país. Era uma versão principesca de nossos super-ricos, uma espécie de Eike Batista com glamour. Simonsen era o sócio majoritário da Panair, o dono da TV Excelsior, da Comal — maior exportadora de café do Brasil num período em que o café respondia por dois terços das exportações nacionais –, da Editora Melhoramentos, do Banco Noroeste, do Supermercado Sirva-se (o primeiro a existir no Brasil), da Rebratel (qualquer semelhança com o nome Embratel não é mera coincidência) e de mais 30 empresas. A rapidez com ele foi expurgado do mundo empresarial brasileiro após  1964 foi absolutamente espantosa. A única empresa que continuou a existir foi o Banco Noroeste, que foi repassado a seu primo Léo Cochrane Simonsen até ser recentemente comprado pelo Banco Santander.

A família era admiradíssima como os ricos costumam ser. Presença constante nas colunas sociais, sabia-se que a família Wallace Simonsen – Mário, sua esposa Baby e os três filhos Wallace, John e Mary Lou – viviam como reis. A linda Mary Lou era figura comum nas revistas dos dois lados do Atlântico. Sua festa de debutante foi realizada em Londres, na presença da rainha da Inglaterra. Seu noivado também ocorreu na capital inglesa, só que na embaixada do Brasil. Seu irmão Wallinho andava com um espantoso Mercedes-Benz esportivo nas ruas de São Paulo e tinha casa com mordomo em Paris.

Ou seja, tratava-se do jet set da época, pessoas que normalmente têm boas relações com o poder. Mas Mário Wallace Simonsen devia ter graves problemas, na opinião dos militares. Por que a ditadura empenhou-se tanto para acabar com o império de Simonsen? Há várias possibilidades: é notório que a Varig – cuja diretoria era amiga da ditadura – desejava o mercado aéreo dominado pela Panair, que os Diários Associados queriam o mercado da TV Excelsior e que as empresas americanas de café, representadas por Herbert Levy, queriam abocanhar a Comal. E se havia tais pressões civis, talvez houvesse também um bom motivo militar.

Mario Wallace Simonsen, dono de um grupo de empresas destroçadas pelo Golpe de 64

Simonsen não era especialmente simpático à esquerda nem tinha intimidade com João Goulart, porém, em agosto de 1961, enquanto Jânio Quadros estava em visita à China, Simonsen posicionou-se ao lado da legalidade. Houve “acusações” – fato inverídico – de que Jango teria voltado da China num avião da Panair. Mas a verdade talvez seja ainda pior: Simonsen mandou um executivo da empresa avisar o vice-presidente sobre o que estava em andamento no Brasil. Jango não sabia de nada, pois naquele tempo as comunicações eram tais que o vice-presidente poderia retornar da China sem cargo e sem saber de nada. Então, avisado, Jango deu telefonemas de Paris e Zurique, onde fazia escalas, para San Tiago Dantas — seu futuro Ministro de Relações Exteriores e da Fazenda — e para o ex-presidente Juscelino Kubitschek, articulando sua ascensão ao cargo que lhe cabia constitucionalmente.

Logo após o Golpe, o deputado Herbert Levy conseguiu criar uma CPI da Comal, a empresa de exportação de café de Simonsen.  Levy era uma figura da ditadura militar. Foi deputado federal por dez mandatos consecutivos, entre 1947 e 1987, pela UDN, Arena, Partido Popular, PDS, PFL e PSC, além de secretário da Agricultura do Estado de São Paulo em 1967, durante a administração Abreu Sodré. Na CPI, Levy conseguiu que o novo regime cancelasse a licença da empresa para comercialização de café, sem que ela tivesse um único título protestado.

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Oh!

Oh!

A vereadora Mônica Leal (PP) ficou irritada ao verificar que seu quadro não estava no mural das vereadoras e acusou os manifestantes de o terem roubado. No entanto, um funcionário da Câmara de Vereadores de Porto Alegre a avisou que o retrato havia sido guardado por seus assessores pois estava com o vidro quebrado. A vereadora, então, solicitou ao presidente da Casa, Thiago Duarte (PDT), que fosse aberta uma queixa-crime por conta do vidro danificado.

Foto: Bruna Andrade - Jornalismo B
Texto e fotos: Bruna Andrade – Jornalismo B

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A extinta União Soviética completa 90 anos. Tal país, qual arte?

Publicado em 30 de dezembro de 2012 no Sul21

Nicolau II em 1898: um país de grande literatura, mas em convulsão

A ensaísta Flora Süssekind, num livro sobre literatura brasileira, criou o belo título Tal Brasil, qual romance? É com este espírito — apenas com o espírito, pois nossa pobre capacidade nos afasta inexoravelmente de Flora — que pautamos para este domingo o que representou (ou pesou) a União Soviética em termos culturais. Sua origem, a Rússia czarista, foi um estado que mudou o mundo não apenas por ter se tornado o primeiro país socialista do planeta, mas por ter sido o berço de uma das maiores literaturas de todos os tempos. Quem lê a literatura russa do século XIX, não imagina que aqueles imensos autores — Dostoiévski, Tolstói, Tchékhov, Turguênev, Leskov e outros — viviam numa sociedade com resquícios de feudalismo. Através de seus escritos, nota-se claramente a pobreza e a base puramente agrária do país, mas há poucas referências ao czar, monarca absolutista que não admitia oposição e que tinha a seu serviço uma eficiente censura. Na verdade, falar pouco no czar era uma atitude que revelava a dignidade daqueles autores.

No início do século XX, Nicolau II, o último czar da dinastia Romanov, facilitou a entrada de capitais estrangeiros para promover a industrialização do país, o que já ocorrera em outros países da Europa. Os investimentos para a criação de uma indústria russa ficaram concentrados nos principais centros urbanos, como Moscou, São Petersburgo, Odessa e Kiev. Nessas cidades, formou-se um operariado de aproximadamente 3 milhões de pessoas, que recebiam salários miseráveis e eram submetidos a jornadas de até 16 horas diárias de trabalho, sem receber alimentação e trabalhando em locais imundos. Ali, havia um ambiente propício às revoltas e ao caos social, situação que antecedeu o nascimento da União Soviética, país formado há 90 anos atrás, em 30 de dezembro de 1922.

Os trabalhadores foram recebidos pela artilharia, sem diálogo

Primeiro, houve a revolta de 1905. No dia 9 de janeiro daquele ano, um domingo, tropas czaristas massacraram um grupo de trabalhadores que viera fazer um protesto pacífico e desarmado em frente ao Palácio de Inverno do czar, em São Petersburgo. O protesto, marcado para depois da missa e com a presença de muitas crianças, tinha a intenção de entregar uma petição — sim, um papel — ao soberano, solicitando coisas como redução do horário de trabalho para oito horas diárias, assistência médica, melhor tratamento, liberdade de religião, etc. A resposta foi dada pela artilharia, que matou mais de cem trabalhadores e feriu outros trezentos. Lênin diria que aquele dia, também conhecido como Domingo Sangrento, foi o primeiro ensaio para a Revolução. O fato detonou uma série de revoltas internas, envolvendo operários, camponeses, marinheiros (como a revolta no Encouraçado Potemkin) e soldados do exército.

Se internamente havia problemas, também vinham péssimas notícias do exterior. A Guerra Russo-Japonesa fora um fiasco militar para a Rússia, que foi obrigada a abrir mão, em 1905, de suas pretensões sobre a Manchúria e na península de Liaodong. Pouco tempo depois, já sofrendo grande oposição interna, a Rússia envolveu-se em um outro grande conflito, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), onde também sofreu pesadas derrotas em combates contra os alemães. A nova Guerra provocou enorme crise no abastecimento das cidades, desencadeando uma série de greves, revoltas populares e fome de boa parte da população. Incapaz de conter a onda de insatisfações, o regime czarista mostrava-se intensamente debilitado até que, em 1917, o conjunto de forças políticas de oposição (liberais e socialistas) depuseram o czar Nicolau II, dando início à Revolução Russa.

Lênin trabalhando no Kremlin, em 1918

A revolução teve duas fases: (1) a Revolução de Fevereiro, que derrubou a autocracia do czar Nicolau II e procurou estabelecer em seu lugar uma república de cunho liberal e (2) a Revolução de Outubro, na qual o Partido Bolchevique derrubou o governo provisório. A Revolução Bolchevique começou com um golpe de estado liderado por Vladimir Lênin e foi a primeira revolução comunista marxista do século XX. A Revolução de Outubro foi seguida pela Guerra Civil Russa (1918-1922) e pela criação da URSS em 1922. A Guerra Civil teve como único vencedor o Exército Vermelho (bolchevique) e foi sob sua liderança que foi criado o Estado Soviético. Lênin tornou-se, assim, o homem forte da Rússia, acompanhado por Trotsky e Stálin. Seu governo foi marcado pela tentativa de superar a crise econômica e social que se abatia sobre a nação, realizando reformas de caráter sócio-econômico. Contra a adoção do socialismo na Rússia ergueu-se uma violenta reação apoiada pelo mundo capitalista, opondo o Exército Vermelho aos russos brancos (liberais).

Canibais com suas vítimas, na província de Samara, em 1921.

O país que emergiu da Guerra Civil estava em frangalhos. Para piorar, em 1921, ocorreu a Grande Fome Russa que matou aproximadamente 5 milhões de pessoas. A fome resultou do efeito conjugado da interrupção da produção agrícola, que já começara durante a Primeira Guerra Mundial, e continuou com os distúrbios da Revolução Russa de 1917 e a Guerra Civil. Para completar, houve uma grande seca em 1921, o que agravou a situação para a de uma catástrofe nacional. A fome era tão severa que a população comia as sementes em vez de plantá-las. Muitos recorreram às ervas e até ao canibalismo, tentando guardar sementes para o plantio. (Não terá saído daí a fama dos comunistas serem comedores de criancinhas? Num documentário da BBC sobre o século XX, uma mulher, ao lembrar-se da fome, conta que sua mãe tentou morder sua filha pequena e que ela precisou trancar a mãe e fugir da casa. Bem, continuemos).

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O que querem os protestos?

Por Ramiro Furquim/Sul21
Clique para ampliar | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Tudo. Os protestos querem tudo e… Como fazer para direcionar esse pessoal que se organiza nas redes e organiza protestos imensos como incrível rapidez? Quando eu era jovem, a gente marcava um comício ou um ato público. Estes eram temáticos e, para que pudesse ter gente, nós precisávamos criar panfletos, acertar o desenho e o texto da chamada, reescrever as palavras de ordem (ai, que saco), anunciar em salas de aula, distribuir nas ruas, etc. Não estou falando em tempos de ditadura, estou falando nos tempos das Diretas Já e depois. De tempos efêmeros em minha vida, pois hoje os protestos organizam-se abertamente nas redes sociais, e vai quem quer, não se sabendo o grau de comprometimento de cada um com a pauta inicial.

Pois não são só as passagens. É a frustração de não se ver representado na política, é a péssima qualidade de vida e do transporte em nossas periferias, é um Congresso cheio de personagens de opereta discutindo a cura gay e tantas outras bobagens, são leis novíssimas que são votadas e que já nascem anacrônicas, é a judicialização do estado, é a péssima imprensa — por que os protestos via de regra buscam a Rede Globo e a RBS? — que pensa que pode mudar o protesto para algo “contra a corrupção e a impunidade”, é a editora Abril e sua Veja fascista, são os bancos, são os índios assassinados, é a classe média e seus inarredáveis e incontornáveis probleminhas, é a classe C mais informada, é o mensalão na forma como foi vendido, são as polícias militares sem comando — pois os políticos ainda se cagam quando veem uma farda –, é inclusive a corrupção e a impunidade, mas é muito mais o Planalto desconectado, que vê os manifestantes como incompreensíveis mímicos e financia a mídia que sonha em matá-lo. Read More

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A redação do Sul21 durante o protesto #vemprarua

Nossa pequena redação ficou assim…

Foto: Ramiro Furquim
Clique na imagem se tiver curiosidade em conhecer nossa querida sala | Foto: Ramiro Furquim

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Orquestra grega é fechada e dá adeus sob lágrimas

O crítico inglês Norman Lebrecht recebeu este vídeo dilacerante. A Rádio e a TV nacionais da Grécia fecharam suas portas. Com isso, 2650 famílias tem um ou mais membros sem trabalho.

Não sou músico, mas por alguma razão sinto-me colega deles. Sou jornalista, poderia estar no rol de colegas demitidos, se me fosse dado ser grego. No vídeo, a Orquestra e Coro da Rádio Nacional, estão tocando em lágrimas, dentro de sua sala de ensaios, ontem à noite. A sala, quente e úmida, com o ar-condicionado já desligado, está repleta enquanto milhares de pessoas assistem do lado de fora. Eu também chorei. Chorei pela arte, por ela não merecer atenção apenas residual, complementar, descartável.

Eu acho que a música é um trecho das Variações Enigma, de Elgar. A segunda obra, suponho que seja o hino da Grécia.

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O uso das fotos de Aécio Neves bêbado

O uso das fotos de Aécio Neves bêbado
Marcelo Camargo / ABr
Marcelo Camargo / ABr

Eu também detesto o Aécio Neves, mas acho um saco esse negócio dos sites e blogs de esquerda mostrarem-no sempre naquela série de fotos e vídeo em que ele aparece bêbado, com amigos. A insistente exposição das imagens equivale a utilizar um argumento moralista da pior espécie. Aécio é alcoolista? Claro que não. Eu sei que, se alguém pegar o Lula bêbado — e pode pegar — vai ser a maior baixaria. Mas este tipo de instrumento deve ser riscado da política. E gostaria que tomássemos um passo contra a baixaria. Temos fotos de Aécio bêbado? Temos. São informativas? Não. São criminosas ou reveladoras de algum ilícito? Não. Então têm tudo para ser intimidade, vida pessoal. Read More

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Drogas: maior rigor e atraso

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

O estúpido projeto do deputado Osmar Terra, o qual vai na contramão da tendência mundial, aumentando as penas e prevendo a possibilidade de internações involuntárias, foi em parte aprovado ontem pela Câmara dos deputados e agora vai para o Senado. Enquanto a maioria dos países ocidentais começam a pensar em regularizar as drogas, admitindo que a guerra travada por anos foi perdida, nosso país — dominado por uma classe média religiosa e ignorante — dá um passo atrás. A nova lei é puramente punitiva, não ataca o funcionamento do sistema das drogas, nem evita a entrada de ninguém na criminalidade. Apenas aumenta penas e prevê a internação compulsória para os casos mais graves.  Read More

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