No entardecer de sábado, eu estava na feira da Vasco quando um sujeito bateu no meu ombro perguntando se eu era o Milton Ribeiro. Ele se apresentou rapidamente como Jacó, filho da Márcia. Disse mais algumas coisas, mas nem precisava, pois a Márcia é a Márcia e só houve uma em minha vida. A Márcia foi a minha babá, ora. Ela é a responsável por boa parte desta peste que vos escreve. O que me surpreendeu foi o que ele disse logo a seguir: “Ela está conosco aqui na feira”.
Foto: Elena Romanov
E fui na direção daquela diminuta e respeitável senhora de 90 anos que, apoiada numa bengala, caminhava rapidamente olhando frutas e verduras. Uma onda de carinho me invadiu. Eu não a via há algumas décadas. Faz poucos anos, o mesmo Jacó tinha me ligado e eu anotei todos os dados da Márcia na última página de um livro. Pretendia visitá-la, mas… perdi o livro. Volta e meia vinha-me à mente o que ele pensaria de mim. Afinal, tinha prometido entrar em contato e simplesmente…
Minha família diz que fui uma criança agitadíssima, complicada de suportar. Porém, para a Márcia, eu sempre fui um amor, tudo o que eu fazia era maravilhoso e ela, na feira, me contou que me dava comida e depois não conseguia se alimentar, porque eu ficava na volta dela dizendo, “Dá, dá, dá” com o espírito pantagruélico de sempre.
Ela sabe muito mais de mim do que eu dela. Sei que minha mãe sempre foi só elogios para a Márcia. Repetia que eu fora uma criança privilegiada, cuidadíssima, amadíssima. Dá para notar o mesmo espelhado no filho advogado, no cuidado que tem com a mãe. E algo da Márcia certamente está presente no ser grudentinho que me tornei e na forma com que criei os guris, sempre com interesse, atenção e amor incondicionais. Como dizia, lembro de pouca coisa consistente da época de minha infância, o que sei é de ouvir minha mãe contar de sua paciência e amor. Minha mãe trabalhava muito e, sempre que reclamava de mim, a Márcia contra-argumentava a meu favor. Só ela sabia que eu era perfeito…
Não sei quantos anos ela ficou lá em casa. Depois casou, teve o Jacó. Algumas vezes ela veio nos visitar pois tornara-se amiga de minha mãe e eu sentia uma estranha necessidade de tratar muito bem aquela mulher, isto justo numa época em que ainda não dava aos adultos a contrapartida de amor e atenção que recebia. (Aprendi a fazê-lo mais tarde, ainda a tempo de fazer declarações de amor aos meus pais). Mas a Márcia sempre foi diferente. Ela tinha uma coisa tão francamente afetuosa em relação a mim que eu só podia responder da mesma forma. Eu sentia que ela me adorava e que era uma coisa muito verdadeira.
A Elena observou que as pessoas sempre se referem a meus pais como muito especiais, com emoção. Talvez eu nunca os tenha valorizado como os outros. Ao saber que minha mãe tinha falecido em 2012, a Márcia falou muito bem do casal e afirmou algo que eu já sabia: que a morte do meu pai fez um mal enorme à Maria Luiza. Quando falam bem dos meus pais, o peito aperta e começam a me vir lágrimas. Fiquei assim depois dos cinquenta. Então, quando a Márcia começou a falar deles, tive que me controlar e não sei se me saí lá muito bem.
Mas tergiverso. O que interessa é que fiquei muito feliz em vê-la bem aos 90 anos. Estava com seu filho nora e netos, recebendo deles o que me dera. Uma história feliz. Curioso, ela que me conheceu com menos cabelo do que ela e viu o mesmo acontecer novamente agora! Mas o que interessa é que tiramos uma foto juntos — ideia da Elena, realização do Jacó — e o este me escreveu no Facebook:
Puxa, eu que agradeço pelo momento de felicidade que proporcionaste para a minha mãe. Tu não imaginas o que este reencontro rendeu de conversa para ela…
(Tenho um romance quase pronto e parado há anos. Na história tem uma babá e, sim, vocês já sabem o nome dela).
Aguirre, caríssimo! Já disse e repeti que, por mim, a dupla Gre-Nal não jogaria o Campeonato Gaúcho. No máximo entraria num quadrangular final, algo assim. O campeão mesmo é o Campeão do Interior, aliás bi-campeão, o Brasil de Pelotas. É um clube com torcida e história que vai lutar para chegar à série B do Brasileiro em 2015. E merece, Aguirre. Espero que a comunidade pelotense — que gosta tanto e vive seu futebol como nenhuma outra no interior do RS — possa formar uma grande onda junto com o time para chegar onde nunca chegaram. Torço pelo Brasil.
O Inter voltou a jogar bem. Perdemos dúzias de gols e chegamos à final com a discutível vantagem de jogar o segundo jogo da decisão em casa. Já são oito anos que somos o time de maior pontuação e decidimos em casa. De 2008 a 2014, ganhamos todos os Gaúchos, à exceção de 2010. São 43 títulos contra 36 do Grêmio, pois o campeonato é disputado entre os dois, com coadjuvantes.
Mas o que interessa é que William segue jogando muito, que Anderson entrou muito bem, que Lisandro López fez boas jogadas e que o time todo reserva, com as exceções de Paulão, Nilton e Alan Ruschel, demonstrou que pode assumir vagas no time titular sem grandes problemas. Tua estratégia mostra-se inteiramente correta e sei que, se eu tivesse enchido o saco de um técnico como parte da imprensa fez contigo, Aguirre, eu diria, OK, talvez eu tenha errado, ele está dando a volta por cima, etc. Mas, no RS, a desfaçatez grassa. Peço-te desculpas pela existência de Wianeys e outros que tais. Não nos queira mal por meio dúzia de idiotas, tá?
Acho que devemos manter este grupo para jogar os Gre-Nais finais. Claro que o Grêmio é de outro nível, mas quem chegou até aqui foram eles, os reservas. E o que interessa é a Libertadores. Se não der certo, paciência.
Fundamental é o jogo de quarta que pode nos dar a liderança do grupo 4 e um uma boa posição nas oitavas-de final. O tal The Strongest é fraco ao nível do mar. Vamos pra cima deles.
Apertado ao lado de minha mãe na poltrona marrom, eu a ouvia dizer que as árvores tinham profundas raízes e que se alimentavam da terra, da água e da luz. Ficava imaginando as raízes penetrando lentamente na terra. O que seria mais comprido – a árvore do chão até a última folha balançando ao vento ou a árvore do chão até a mais solitária raiz que tivesse penetrado, talvez inadvertidamente, mais fundo na terra? Como a raiz encontraria seu caminho sem ver nada, na escuridão onde também seríamos enterrados? E se a terra fosse muito dura? E como era aquele negócio de se alimentar de luz? Minha mãe me explicou inutilmente a fotossíntese, a produção de oxigênio durante o dia e de alguma coisa ruim à noite, mas eu, como quase não saía de casa depois que o sol se punha, não achei aquilo digno de preocupação. O que eu entendi perfeitamente foi a questão da água: quando chovia, as raízes bebiam tudo. Dava para notar porque as poças d`água não duravam muito tempo. Era óbvio que as árvores chupavam tudo.
Certo dia, estava chegando em casa com meu pai e dei-me conta de que tinha que conversar tudo de novo com minha mãe. Acontece que nossa rua, a Av. João Pessoa, atravessava o Arroio Dilúvio através de uma ponte não muito bonita. Claro que eu sempre soubera que havia palmeiras sobre a ponte, mas como não dispunha de tanta informação sobre as árvores, nunca pensara no problema das raízes. Concluí que tinha que informar minha mãe que nem todas as árvores precisavam delas e que as da nossa ponte viviam apenas de luz e água.
Falei com ela. Estranho, sua reação esteve longe de ser uma admissão de seu erro. Antes ficou assustada com as palmeiras: afinal, elas poderiam cair durante uma ventania e eu e meus amigos costumávamos brincar pelas redondezas. Os adultos eram mesmo desatentos -– será que ela nunca vira as palmeiras sobre a ponte e nunca pensara no perigo? E ela morava ali desde 1951!
Mais vivas do que o time do Palmeiras
Comentei o assunto com meus amigos, mas logo esquecemos daquelas coisas arbóreas que, comparadas com nossas novas descobertas, não tinham nenhum atrativo. Descobrimos que a ponte era uma tremenda diversão. Dava para descer por suas laterais e caminhar sob ela! A brincadeira de esconde-esconde logo mudou muito. Todos queriam se ocultar ali e, muitas vezes, vi meninos negociando se era permitido ou não se esconder debaixo da ponte. Quem estava procurando tinha pouca chance. O cara descia por um lado e nós, vendo sua sombra, fugíamos a toda velocidade, subindo pelo outro lado.
E a ponte logo despertou outras idéias: como quase todas as pontes, ela passava sobre água e nós tínhamos muitos gatos em nosso bairro. Os gatos eram aqueles bichos que arranhavam nossos cães e que tinham a fama de serem limpos e de saberem cair. Ora, a ponte sobre a água lamacenta e ainda pouco poluída – estamos falando sobre o período entre os anos de 1966 e 1970 -, serviria para que os gatos pudessem comprovar se sabiam mesmo cair e para que constatássemos em quanto tempo eles voltariam a ser os bichos limpinhos de sempre.
Acredito que nunca outra geração de gatos teve tanto medo dos meninos da avenida João Pessoa. Hoje, sou indiferente a eles — amo os cães! –, porém, naquela época, entre meus amigos, participava feliz das espetaculares caçadas àqueles animais. Encontrávamos os gatos onde estivessem, trabalhávamos arduamente por nossa diversão e pelo progresso do conhecimento humano. Havia um, bem branquinho, que ficava hesitando entre mendigar comida na frente da casa de um casal de velhos e correr o perigo de ser capturado por nós. Aos amantes dos gatos, asseguro que nunca batemos neles, nunca os maltratamos. Mesmo! Sempre os levávamos em segurança, apenas procurando escapar dos arranhões, mordidas e ouvindo com altivez aquele som ridículo que emitem com a finalidade de avisar quando estão a fim de briga.
Vista da plataforma de arremesso de gatos
Os vôos eram lindos. Eventualmente, caíam com certa elegância. Porém, o mais das vezes, caíam mexendo desesperadamente as pernas — como se corressem no ar — e muitas vezes entravam na água de costas, de uma forma que desnudava a mentira que nos tinham ensinado. O que valera para as raízes das árvores, passara a valer para os gatos. Eles caíam como caíam. E nadavam de uma forma muito mais feia do que os cães. Nós dávamos risadas, descansávamos um pouco e íamos procurar outros. Afinal, precisávamos de uma boa amostragem para confirmar nossas teses.
Asseguramos que nenhum animal foi maltratado ou veio a falecer durante a pesquisa. Não consideramos como tortura o estresse e a adrenalina… Éramos crianças. Os que saíam lanhados ou com rinite alérgica eram humanos. Aprecie com moderação. Se persistirem os sintomas, vá a outro blog. Este texto foi desenvolvido a partir de material reciclável.
Obs.: Nota-se, por sua baixa qualidade, que as fotos foram tiradas por mim.
Esta é uma das mais longas entrevistas já publicadas pelo Sul21, certamente a mais longa publicada pela editoria de Cultura. Mas tão vasta foi a quantidade de informações que recebemos em plena Praça da Alfândega na manhã de quarta-feira, que não havia como fazer muitos cortes. Nela, o patrono da Feira do Livro de 2014, Airton Ortiz, respondeu a cada uma de nossas perguntas, descrevendo sua trajetória desde seu trabalho na editora Tchê até suas muitíssimas viagens. E não nos estenderemos mais porque o texto é longo, divertido, informal e muito, mas muito informativo.
“Codecri queria dizer Comitê de Defesa do Crioléu. Imagina abrir uma editora hoje com esse nome!” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Airton, tu és de Rio Pardo, não?
Airton Ortiz – É, eu nasci no interior do município de Rio Pardo, na Vila Ferroviária, interior do município. Morei ali até os 13 anos de idade, daí meus pais se mudaram para o interior de Candelária, perto dali, onde morei dos três aos 10 anos de idade. Curioso é que era uma encruzilhada. Em um lado da estrada, onde nós morávamos, era Candelária, no outro era Rio Pardo e no outro era Cachoeira. E a escolinha onde eu fui alfabetizado ficava em Cachoeira. Então eu fui alfabetizado em Cachoeira morando em Candelária. Hoje, minha escola, que tinha 18 alunos, é um centro educacional com quase 200 alunos. Eles me homenagearam dando meu nome para a biblioteca da escola. Com 10 anos, eu fui pra Cachoeira, onde morei até os 20. E vim para Porto Alegre a fim de fazer jornalismo na PUCRS, em 1977. Então, a minha trajetória dá para dividir entre esses três lugares: o interior de Rio Pardo, onde nasci e vivi até os 3 anos; o interior de Candelária, onde vivi dos três aos 10; e dos 10 aos 20, Cachoeira do Sul.
Sul21 – Eu li que tu foste funcionário do Banco do Brasil. Isso foi antes ou depois do jornalismo?
Airton – Antes. Para pagar a faculdade, eu fiz jornalismo na PUCRS.
Sul21 – Isso em 1975?
Airton – Sim, 1975. Como naquela época o curso de jornalismo na PUCRS era considerado um dos melhores do Brasil, eu optei por ela. Daí, na semana seguinte ao vestibular, eu fiz um concurso pro Banco do Brasil. Passei, assumi o cargo e tive que ir pro interior. Fui obrigado a trancar a matrícula na faculdade. Fiquei seis meses no interior, voltei pra Porto Alegre e, com meu emprego no Banco, paguei a faculdade.
Sul21 – O que tu fazia no banco?
Airton – Cara, eu arquivava fichas, ficava seis horas sentado arquivando fichinhas dos clientes do banco por ordem alfabética. Era um trabalho extremamente estressante, aquela rotina não tinha nada a ver comigo. Mas fiquei seis anos ali, terminei a faculdade, abri a editora Tchê e, quando achei que a editora já podia me manter, saí do banco. Então, o banco foi uma coisa importante na minha vida. Possibilitou que eu fizesse a faculdade e fizesse uma pequena economia via fundo de garantia para poder abrir a minha editora.
Sul21 – A editora Tchê era mais centrada em autores gaúchos, regionalismo?
Airton – A editora Tchê tinha como objetivo colocar na roda a cultura do Rio Grande do Sul. Ela era consequência do jornal Tchê, que surgiu um pouco antes da editora. Entre 81 e 82 vieram o jornal, a livraria e a editora.
Sul21 – Livraria?
Airton – Também abrimos a livraria Tchê, ali na Salgado Filho. O padrão do jornal era assim… Cara, não reinventamos a roda, o padrão era O Pasquim. Aliás, o jornal O Pasquim era também ligado a uma editora, a Codecri. E eles também abriram uma livraria no Rio. Uma coisa foi puxando a outra. Codecri queria dizer Comitê de Defesa do Crioléu. Imagina abrir uma editora hoje com esse nome! Era uma coisa incrível. O Pasquim era a cultura carioca, era o que de mais carioquês podia ter no mundo. E o Tchê era a versão gaudéria do Pasquim. Éramos todos fãs do Jaguar, do Ziraldo, do Henfil…
Sul21 – Que autores a Tchê publicou?
Airton – A Tchê publicou, durante 15 anos, cerca de mil títulos até que eu fechei a editora para me dedicar exclusivamente a escrever meus livros. A Tchê publicou boa parte do que está aí. Lançamos um monte de gente. O Carlos Urbim, que veio a ser também patrono da Feira do Livro, o Luiz Coronel, idem, o Celso Gutfriend, que era patronável junto comigo. Até brinquei que eu os lancei e eles me meteram essa bola nas costas de serem patronos antes de mim. E ainda disse pro Celso: tu não vai conseguir, Celso! A Tchê publicou uma quantidade enorme de jovens autores.
“Era o então sargento Marco Pollo Giordani e o livro chamava-se ‘Brasil Sempre’. Era uma resposta ao ‘Brasil Nunca Mais’. Ele disponibilizava uma série de documentos secretos do exército que nós da esquerda queríamos colocar a mão e não conseguíamos. Obviamente, só se eu fosse muito louco para sonegar do público as informações que ele trazia. ” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – E o livro do Sargento Marco Polo Giordani que defende os militares da Ditadura?
Airton – A editora publicou mais ou menos mil livros de vários autores. Era uma editora comercial, não uma editora política, ela não veio para defender essa ou aquela ideologia. Eu sempre fui de esquerda, sou e vou morrer de esquerda. Mas a editora era uma editora plural. Nós publicamos, por exemplo, o Barbosa Lessa, que foi um dos fundadores e defendia o tradicionalismo e publicamos o Tau Golin, que o criticava. Porque o objetivo da editora nunca foi o de defender ou criticar o tradicionalismo, mas publicar pensadores que colocassem a disposição do publico ideias, opiniões, para que o leitor então se decidisse sobre qual linha queria seguir. Publicamos autores que defendiam o neoliberalismo, publicamos diversos autores adotados pelo Fórum da Liberdade de Porto Alegre, que é um movimento de empresários e, ao mesmo tempo, também publicamos os grandes pensadores marxistas aqui do Rio Grande do Sul, entre eles o governador Tarso Genro. Publicamos os livros do professor Otto Alcides Ohlweiler, que foi um grande ideólogo da esquerda aqui no Rio Grande do Sul, publicamos livros de políticos, publicamos o livro do Antônio Britto sobre a Constituinte. Publiquei livro do professor Sérgio Borja, que é o atual presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, sobre o impeachment do Collor. Ele defendendo juridicamente o impeachment. O critério que eu tinha como editor era o mesmo critério que todo editor do mundo tem: publicar tudo que as pessoas possam se interessar. Nisso, apareceu um autor que, lá em 1986, foi o primeiro membro do aparelho repressivo que se assumiu como tal. Era o então sargento Marco Pollo Giordani e o livro chamava-se Brasil Sempre. Era uma resposta ao Brasil Nunca Mais. Ele disponibilizava uma série de documentos secretos do exército que nós da esquerda queríamos colocar a mão e não conseguíamos. Obviamente, só se eu fosse muito louco para sonegar do público as informações que ele trazia. O livro está sendo relançado agora, numa edição do autor. Qualquer pessoa, por mais imbecil que seja, sabe que um editor de jornal ou editora não tem que necessariamente compactuar com o que os autores escrevem. É diferente quando tu tens uma proposta ideológica. Uma editora do Partido Comunista, por exemplo, só vai publicar livros de comunistas. Então, essa polêmica não existe.
Sul21 – Bom, e aí tu fechaste a Tchê. Deves ter ganhado dinheiro, porque essas tuas viagens, né…
Airton – As minhas viagens são patrocinadas todas pelo Zaffari. Desde a primeira até hoje, faz 16 anos que eu tenho este patrocínio do Zaffari. As minhas viagens só são possíveis em razão deste mecenato. Hoje já não dependo tanto do patrocínio porque os livros já vendem no Brasil inteiro e eu poderia me bancar com os direitos autorais. Mas, voltando ao fechamento da Tchê: o Brasil passou por um momento econômico de grande concentração da economia com o Collor, as pequenas empresas brasileiras ou se uniram e formaram grandes empresas, ou foram absorvidas por grandes empresas, ou, caso da Tchê, fecharam.
Sul21 – Tu a fechaste em 1997?
Airton – Não, fechei em 2000, em 1997 eu comecei a viajar. Tinha que fechar a Tchê. As grandes livrarias vieram para Porto Alegre, comprando ou absorvendo as livrarias que tínhamos aqui. Chegou um momento em que eu, para vender um livro para as livrarias de Porto Alegre, tinha que ir à São Paulo. Porque a Cultura comprava lá, e também a Saraiva, a Siciliano, etc.
Sul21 – Isso permanece até hoje.
Airton – Sim, estamos numa época em que o mercado livreiro se concentrou nas mãos das grandes redes de livrarias e o mercado editorial se concentrou na mão das editoras estrangeiras. As grandes editoras brasileiras hoje, com a exceção Record e da Saraiva, são de capital estrangeiro. E não sobrou espaço para as pequenas editoras independentes.
“Não se viaja em busca do que tem aqui. Por que a gente viaja? A gente viaja em busca daquilo que só tem naquele lugar.” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Vamos aos livros, qual é a tua proposta?
Airton – A minha proposta como o autor é a mesma que tinha como editor. Levar e disponibilizar conhecimento para as pessoas. Porque eu acho que o acesso ao conhecimento é o maior direito que o ser humano tem, porque só o conhecimento nos liberta, de tudo e de todos, inclusive de nós mesmos. E o instrumento mais fácil de se acessar o conhecimento com profundidade é o livro. O livro é o elemento mais libertador que o ser humano tem, pois nos ensina a pensar e o pensamento liberta. Então, o meu projeto foi unir minha vontade de viajar pelo mundo, que sempre tive, e meu esporte predileto, que é o de escalar montanhas. Tentei viver disso. E achei uma forma de conciliar tudo, que era escrever sobre as minhas expedições pelo mundo. Para meu primeiro livro, de 1997, eu escalei a montanha mais alta da África, que fica na Tanzânia, e voltei de lá com uma história de final feliz, pois consegui chegar ao cume da montanha mais alta da África e uma das mais altas do mundo. E até chegar lá eu vivi uma série de peripécias — fui preso, fui assaltado…
Sul21 – Por que tu foste preso?
Airton – Fui preso porque da África do Sul para Moçambique eu tinha que passar pela Suazilândia, e lá eu peguei carona em uma Kombi. Na fronteira da Suazilândia com Moçambique, o pessoal da Kombi foi preso porque eram pequenos contrabandistas. Eles buscavam na África do Sul essas bugigangas que hoje vamos comprar aqui no Paraguai. Nada sofisticado — levavam conservas, enlatados, leite em pó, sabão em pó, coisas que difíceis de se conseguir em Moçambique. E eu, que peguei carona com esses caras, não tinha a menor ideia disso. E na fronteira foi todo mundo preso, e eu junto. Como eu era estrangeiro, tive um tratamento especial. Quando souberam que eu era brasileiro, um oficial da alfândega perguntou se eu era amigo do Pelé. Eu respondi que era íntimo dele e por isso ele me liberou. Eu escrevi o livro em 1998 e publiquei em 1999. Desde então eu lanço um livro por ano contando as minhas expedições.
Sul21 – Tu és fotógrafo também?
Airton – Também, mas amador. Porque como eu vou normalmente a lugares de difícil acesso, eu mesmo tenho que tirar as fotografias. São lugares aos quais, às vezes, nunca chegou um fotógrafo antes. Tenho um acervo com cerca de 100 mil fotografias do mundo inteiro, mas não sou fotógrafo profissional, minha linguagem é a escrita. A linguagem jornalística nos livros de reportagens, a linguagem do cronista nos livros de crônicas sobre cidades, e a linguagem de romancista nos dois romances que escrevi, cujos temas também são viagens de aventura.
Sul21 – Depois do primeiro livro foste para o Everest, Tibete…
Airton – O segundo livro chama-se Na Estrada do Everest. Eu refiz a trilha da primeira expedição que escalou o monte Everest em 1953. O terceiro livro foi Pelos Caminhos do Tibete. Eu fiquei uma temporada lá camuflado entre os monges. Eu entrei de maneira clandestina no Tibete pelo Himalaia, que faz a fronteira entre o Nepal e o Tibete. O Tibete é um país militarmente ocupado pela China, por isso os chineses não me deram autorização para entrar. Eles não permitem a entrada de jornalistas independentes, a não ser que vá junto com um oficial do governo chinês e isso eu não queria. Aí em Katmandu, eu fiz amizade com a resistência tibetana, e eles me colocaram clandestinamente lá dentro. E isso gerou o livro. Depois o quarto livro foi sobre o Alasca, o quinto foi sobre a Amazônia, depois foi sobre Índia…
Sul21 – E no Alasca tu sofreste bastante?
Airton – No Alasca eu peguei -40ºC. E eu acampei um tempo em uma área selvagem junto com ursos, lobos, com todo aquele tipo de animal selvagem, como alces, renas. Os caras me levaram lá e depois foram me buscar. Eu queria testar a minha resistência psicológica a um ambiente adverso como aquele. Era dia sempre, eu não levei relógio, não sabia se era meio-dia ou meia-noite. Comia quando sentia fome, dormia quando tinha sono, completamente isolado no meio dos animais. E, à medida que o tempo foi passando, fui me adaptando àquele ambiente, e no final eu já fazia longas caminhadas fora do acampamento.
Sul21 – E depois foi a Índia?
Airton – Sim, uma experiência maravilhosa, percorri toda a Índia de trem, por isso o nome do livro é Expresso para a Índia. Foi o país, do ponto de vista cultural, mais interessante que eu já visitei.
Sul21 – Aqui, pelo que eu noto, tu dás uma parada na questão montanhismo. Tu vens pro mundo plano…
Airton – Aqui eu iniciei o que eu chamo de “grandes travessias”. A cultura popular de um povo ela é muito, mas muito mesmo, consequência de sua concepção religiosa. Se tu pegares a Bahia, vais ver que na cultura baiana tudo tem a ver com o candomblé. Se pegares aqui no sul, tudo tem a ver com catolicismo. E assim por diante. Se pegares certas regiões de Santa Catarina, tudo tem a ver com protestantismo. Como a Índia é um país politeísta, a concepção religiosa deles é muito fragmentada, isso gerou uma cultura popular riquíssima. Então, do ponto de vista cultural, a Índia é o país mais interessante do mundo. E o pessoal pergunta sempre isso, qual o país mais interessante… E não dá pra ti escolher um só. O Tibete, por exemplo, é o país mais diferente que eu já vi até hoje.
Sul21 – Hoje, os brasileiros viajam mais.
Airton – O brasileiro está viajando mais, e isso é ótimo, maravilhoso. O que a viagem traz de mais importante para a gente é que ela nos coloca em contato com o diferente. E, à medida que nós vamos viajando, vamos constatando que o contato com o diferente é a maior arma contra o preconceito. Vemos que somos apenas um detalhe em todo o mosaico humano e cultural que há no planeta, e vamos nos dando conta de que somos um pedacinho só, e não o pior, nem o melhor. A gente vai aprendendo a respeitar a cultura alheia. Então, o grande resultado das viagens é nos colocar em contato com as diferenças. E eu digo que de melhor que a humanidade tem é a diversidade. O direito que cada pessoa tem de ser única, que cada cultura tem de ser única, que cada povo tem de ser único, isso é o que de mais importante temos. E aí a gente consegue ter uma visão holística, do mundo, da vida. Bom, o brasileiro está viajando cada vez mais, agora falta um segundo estágio que é o de aprender a viajar. Não se viaja em busca do que tem aqui. Por que a gente viaja? A gente viaja em busca daquilo que só tem naquele lugar. E eu venho martelando muito nisso, quero ajudar as pessoas a viajarem, quero colocar toda essa minha experiência à serviço das pessoas.
“Do ponto de vista da cultura popular, a Índia é o país mais rico, porque é a cultura popular mais diversificada que tem no mundo. Porque ela é muito consequência da religião e o politeísmo indiano é extremamente fragmentado. O Tibete é o país mais interessante do mundo porque lá as coisas são únicas. O que tem no Tibete, tu só vais encontrar lá.” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Na Europa, vi um brasileiro reclamando que no centro de Praga não tinha shopping center…
Airton – É um absurdo, a gente viaja em busca daquilo que só tem naquele lugar. Por isso é que, das viagens que eu fiz, a mais interessante foi a do Tibete. Lá é tudo diferente do que temos aqui. A noção que eles tem do tempo, tudo. Eu conversando com um tibetano falei: “Pô, no Tibete né, vocês aqui, tá certo que é um país de monges, mas a China vem há mais de 60 anos oprimindo vocês, vocês precisam se libertar”. E ele respondeu: “Não tem problema, vamos nos libertar da China. É uma questão de tempo, pode levar 1000 anos, 2000 anos, vamos nos libertar”. O tempo para eles é diferente dessa pressa que a gente tem aqui no Ocidente. Uma vez eu disse uma frase que meus amigos gostaram muito, eu disse que nada é mais velho que o jornal de ontem. Mas, poxa, ontem recém aconteceu!
Sul21 – Então quer dizer que, na tua opinião, a Índia é o lugar mais interessante, e o que tu mais gostaste é o Tibete?
Airton – Do ponto de vista da cultura popular, a Índia é o país mais rico, porque é a cultura popular mais diversificada que tem no mundo. Porque ela é muito consequência da religião e o politeísmo indiano é extremamente fragmentado. O Tibete é o país mais interessante do mundo porque lá as coisas são únicas. O que tem no Tibete, tu só vais encontrar lá, essa é a frase. Por exemplo, a Tanzânia é o país mais interessante do mundo para admirar a natureza selvagem. Tu vais de jipe pelo país e um terço da Tanzânia são parques naturais. Eles se deram conta que a melhor maneira de ganhar dinheiro é preservar a natureza, principalmente a fauna que eles tem lá. Então tu vais andando de jipe e precisa parar para passarem os elefantes, as girafas que vivem ali. Depois de dois minutos, leões. E o país mais interessante do mundo do ponto da geografia, digamos assim, é o Nepal. A fronteira sul do Nepal está na margem do Ganges, a nível do mar e a fronteira norte é a cordilheira do Himalaia, que tem o Everest, o ponto mais alto do mundo. Então, em uma caminhada, como daqui até Torres tu encontras toda a topografia do mundo e todo o clima.
Sul21 – E depois foste para a Amazônia?
Airton – Foi uma experiência maravilhosa. A viagem para a Amazônia foi também única. Eu não tinha nunca a informação se poderia continuar daquela aldeia em que eu estava para outra. Minha pauta de aventura era cruzar a América do Sul, do Pacífico ao Atlântico, por dentro da selva amazônica. Sair de Lima no Peru e chegar em Belém do Pará. Fui buscar informações e não consegui ninguém que me dissessem “vai que dá”. Foi um voo cego, eu fui indo, de aldeia indígena em aldeia indígena, de uma cidadezinha ribeirinha à outra, de um povoadozinho à outro, e sempre de barco, às vezes nos barcos de linha que eles têm, que eu achei maravilhosos. Eles têm barcos de linha, que são barcos que fazem sempre a mesma viagem levando carga e os passageiros. Usei até as pirogas, aquelas canoas estreitinhas e compridas que é pra ter velocidade. Fui indo, indo, e cheguei no Atlântico assim. Então esse livro foi fantástico porque eu nunca sabia se no dia seguinte eu ia poder continuar. Percorri toda a Amazônia brasileira, uma coisa extraordinária.
Sul21 – E há o calor. Manaus é uma cidade complicada.
Airton – O pior de Manaus é o vapor, porque o calor seco não tem problema, já peguei 55ºC no deserto do Saara e foi tranquilo. Mas o vapor… Por isso muita gente chega na Índia e volta, não aguenta. Eu encontrei uma tribo no interior da Amazônia peruana, perto de Iquitos, uma cidade de 400 mil habitantes, que a estrada mais próxima está há mil km de distância. O acesso é todo por rio, e é uma cidade grande. Lá a tradição é que a índia, quando casa, passa a primeira noite ela passa com o cacique. Só na segunda noite é que ela vai para o marido. Isso é uma tradição medieval europeia, tu deves ter assistido, o filme Coração Valente… E eu encontrei isso lá na Amazônia. É uma coisa que as pessoas não sabem porque não vão lá. Eu dei uma palestra na Universidade Federal de Manaus e brinquei “Pô, tem que trazer um gaúcho pra falar da Amazônia pra vocês”. E aí eles me disseram que a maioria dos livros sobre a Amazônia foram escritos por autores que copiaram de outros livros, que não foram na floresta. Tem muito disso hoje né, as pessoas fazem estudos sobre a Amazônia a partir da informação bibliográfica e reproduz algo que já se sabe. E, se alguém escreveu alguma coisa errada, o erro se perpetua.
Sul21 – Depois teve o Egito…
Airton – Depois teve o Egito, que foi uma viagem fantástica também, porque eu cruzei o deserto do Saara de forma clandestina. Primeiro de jipe, depois com uma caravana de camelos. Eu saí da fronteira do Egito com a Líbia e cruzei parte do deserto num jipe preparado para andar na areia. Depois não tinha como o jipe avançar e aí me juntei a uma caravana de camelos. Nessa viagem, o Beto Scliar, filho do Moacyr Scliar, me acompanhou como fotógrafo. Ele se formou em fotografia em uma universidade de Nova Iorque, e aí o Moacyr me ligoue disse: “Ortiz, na próxima viagem que tu fores, leva o Beto. Pra ele aprender um pouco de experiência de vida, ele é um filho super protegido de mãe judia, vê se ele aprende a fotografar na vida real mesmo”. Quando nós chegamos num oásis já assim há 50 km de Luxor, fomos interceptados e presos pelo exército egípcio porque não tínhamos autorização para realizar aquela travessia. Então eu fiz como sempre faço, eu vou até que alguém me prenda. Aí prenderam a mim, ao Beto e a um mexicano que estava conosco. Colocaram-nos em um trem e nos expulsaram do Egito. Na primeira parada do trem nós pulamos, contratamos um barquinho, uma espécie de canoa com uma vela que desce o Nilo. E descemos clandestinos pelo Rio Nilo durante quatro dias até chegar em Luxor, onde eu queria chegar. Tudo isso sem poder atracar nas margens porque numa delas o exército nos pegaria e, na outra, os terroristas nos pegariam porque é uma área onde os muçulmanos fundamentalistas usam como base operacional, nem o exército vai lá. Então precisávamos ficar no meio. O rio corre do continente para o mediterrâneo, e o vento sopra do mediterrâneo para o continente, então quando a velocidade da água é a mesma do vento, a gente fica parado. Um dia ficamos dez horas parados! Foi demais, uma viagem maravilhosa! Mas cheguei a Luxor, que era o objetivo da viagem.
“Porque essa história que a gente se originou do macaco, é uma grande bobagem. O macaco se originou do humano, o chipanzé que está no zoológico, no circo, que a gente acha bonitinho, e que pra nós é o macaco, ele é uma ramificação nossa.” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Depois foste na Trilha da Humanidade, que é saída da África pela Ásia, Alasca até chegar na América, a travessia do homem…?
Airton – É, é uma volta ao mundo mesmo. Eu me propus a reconstituir a história da espécie humana desde o momento em que nós surgimos como uma espécie separada dos demais primatas, até chegar aqui no Brasil. Hoje, quando chamam um humano de macaco, estão ofendendo o macaco, e não o humano. Porque essa história que a gente se originou do macaco, é uma grande bobagem. O macaco se originou do humano, o chipanzé que está no zoológico, no circo, que a gente acha bonitinho, e que pra nós é o macaco, ele é uma ramificação nossa. O que se diz e que as pessoas não entendem muito bem, é que havia grandes primatas, e esses primatas se subdividiram em diversas espécies, e uma das espécies em que eles se subdividiram gerou os humanos, e outras espécies geraram os grandes símios. E essa espécie que gerou os humanos foi se bifurcando, uma dessas bifurcações gerou o chimpanzé. Então o que o cientista considera humano… Eu fui de sítio arqueológico em sítio arqueológico, sempre com datação mais recente, seguindo essa expansão deles pelo mundo. Quando estes bípedes chegaram ao Oriente Médio, onde hoje fica Israel, uns migraram para a Europa e outros migraram para a Ásia atrás das grandes manadas de mamutes. A expansão humana pelo mundo se deu sempre atrás de comida. Chegando ao Oriente Médio, eu segui essa trilha deixada pelos caras que cruzaram toda a Ásia e entraram nas Américas pelo Estreito de Bering. Porque quando eles entraram no Estreito de Bering, nós estávamos vivendo uma era glacial e o Estreito era uma planície seca. Isso tudo hoje não é novidade. E eu fiz esse roteiro. Entrei depois pelo Alasca, segui o Canadá, América Central até chegar num lugar na Amazônia, numa gruta, no interior do Pará, onde estão as pinturas rupestres mais antigas da América do Sul, de 11 mil anos atrás. E dali desci até o interior de Minas Gerais, onde foi encontrado o fóssil mais antigo das Américas. Quanto mais para baixo, mais recente, então esse fóssil é de 10 mil anos, de uma mulher que morou lá, a mais antiga brasileira de que se sabe. E uma coisa notável é que a História do Brasil para nós começa há 500 anos, quando há 10 mil anos isso aqui já era povoado.
Sul21 – Esse livro é um dos mais vendidos de tua autoria?
Airton – É, um dos mais vendidos. Na verdade, os dois mais vendidos são o do Tibete e o da Índia. Por causa dessa questão do misticismo todo. Mas é o meu livro mais importante. É a reportagem mais importante que eu já fiz na vida. A origem dele foi uma série de dez reportagens para a Zero Hora, para o caderno Eureka.
Sul21 – Isso foi em que ano?
Airton – Foi no ano anterior ao ano em que foi publicado o livro, em 2006. Era um sufoco mandar as matérias. Uma história que a gente que é jornalista gosta…: eu estava em Adis-Abeba, na Etiópia, e tinha que mandar uma matéria. Aí fui na Lan House e o cara disse que estava fora do ar. Isso era 10h da manhã; às 11h voltei, estava fora do ar ainda; voltei às 13h e estava fora do ar ainda. Aí eu perguntei se tinha previsão para voltar, e ele o cara me respondeu que “não, está fora do ar há três meses, e não tem previsão de volta porque o governo não pagou o aluguel do satélite”. Aí eu descobri perto da cidade um hotel da rede Sheraton, uma picaretagem muito grande. Eles constróem um hotel na África, cercam o hotel, abrem um campo de aviação lá dentro, pegam os animais doentes, feridos e colocam um zoológico lá dentro para cuidar deles. Aí os aviões da Europa e dos Estados Unidos descem lá dentro do cercadinho do hotel e os caras veem os bichos na jaula… O staff é europeu, a língua é o inglês, a comida é europeia, e os caras voltam dizendo que conheceram a África selvagem. Ali usam cartão de crédito, usam internet, etc. Aí eu fui lá e usei o satélite do Sheraton de Adis-Abeba para mandar a matéria para a Zero Hora. Aí fui finalista do premio Esso de jornalismo. O maior requisito para ganhar o Esso é o grau de dificuldade que o repórter tem para conseguir fazer a matéria. E o Marcelo Rech, que naquela época era o diretor de redação da Zero Hora, foi pro Rio e disse “Ortiz, vamos buscar o premio, porque eu conheço o Esso, já fui jurado e nunca na história do Esso algum repórter teve a dificuldade que tu tivesses para fazer essa série”. Chegamos lá e quem ganhou? Uma matéria do O Globo, sobre a despoluição da Bahia da Guanabara, que o cara fez sem sair da redação. Aí, dizem que nós somos bairristas! O juri e o premiado era amigos. Ainda ontem me perguntaram se eu dou importância para prêmios, mas entre ter prêmios e ter leitores, eu digo que prefiro ter leitores. Porque os leitores pelo menos eu sei que leem os livros, o os caras que julgam os prêmios eu não tenho certeza que eles os leem.
Sul21 – Depois tu foste para o mundo maia?
Airton – Sim, eu percorri toda a América Central visitando as ruínas das cidades maias. Eles têm uma história enigmática. Eles se extinguiram 500 anos antes dos europeus chegarem nas Américas. O auge da civilização maia foi do ano 800 ao ano 1000, por aí. No ano 1100, 1200, eles se extinguiram e ninguém sabe por quê. É um grande mistério, e eu fui em busca desse mistério. E o que eu me dei conta lá, como repórter, é que as cidades maias eram nos vales e foram crescendo muito, e foram ocupando o espaço das lavouras, e eles foram colocando a lavoura das encostas dos vales, e para isso desmataram. É claro que revisei as principais teorias da extinção do povo maia. É uma história longa, mas eu não tenho dúvidas de que a extinção da civilização maia tem muito a ver, se não tudo a ver, com o desmatamento. As cidades maias eram que nem as cidades gregas, cada cidade era um estado independente. E uma coisa curiosa, é que uma cidade maia nunca conseguiu conquistar outra cidade maia, porque eles não conseguiam suprir o exército até lá. Porque tinham que todos os dias levar comida, não tinham como ir acumulando comida. Então todo exército de cada cidade maia tinha um raio até onde ele podia ir, que era até onde os carregadores podiam levar comida durante um dia, a partir dali, os exércitos não podiam avançar. Por isso os maias nunca formaram impérios, diferentemente dos incas, que formaram impérios, porque os incas viviam da batata, e a batata dá em qualquer encosta de montanha.
Sul21 – E quantas línguas tu falas? Porque não se fala inglês e espanhol em todo lugar…
Airton – Não tem outro jeito, tu tens que falar um pouco da língua local. Não é difícil saber um pouco do vocabulário de cada língua. Tem uma listinha com mais ou menos trezentas palavras. Em toda essa nossa conversa aqui, nós não usamos mais de trezentas palavras. Então se tu souberes as palavras chaves de qualquer língua, um vocabulário básico, tu consegues te comunicar com as pessoas. Então cada lugar que eu vou, antes eu estudo um pouco o vocabulário. Só de chegar nestes lugares, a simples presença de um estrangeiro em uma pequena comunidade do interior já é uma agressão. Então, a primeira coisa que tu tens que fazer é romper esta barreira que eles impõem. E a melhor forma é falar algumas palavras na língua deles.
Sul21 — E o Vietname?
Airton – O Vietnã Pós-Guerra! Eu percorri todo o Vietnã, os locais onde existiam as bases americanas, onde existiam as bases vietnamitas, os locais onde se deram as grandes batalhas, percorri os túneis que os vietcongs usavam na guerra. E esse livro tem um propósito: o de recontar a história do Vietnã do ponto de vista vietnamita. Uma pauta que até então ninguém tinha tocado. E quando eu cheguei no Vietnã, a primeira coisa que eu descobri, foi que o que nós chamamos de Guerra do Vietnã, eles chamam de Guerra Americana. Até o nome da guerra muda dependendo do lado que a conta. Nesse livro, eu reconstituo a guerra sob o ponto de vista vietnamita e vou avançando em como é o país hoje, em resultado dessa guerra. Ainda hoje, há regiões inteiras no Vietnã que tu não podes ir porque ainda estão minadas. Todo ano ainda morre uma quantidade enorme de vietnamitas vitima das minas que ainda não explodiram. Sem contar que os americanos jogaram no Vietnã mais bombas do que as que foram utilizadas durante toda a segunda guerra mundial! Todo o lençol freático vietnamita foi contaminado pelas bombas americanas. E as bombas americanas era napalms e aquelas bombas de fósforos que incendiavam. Porque os vietcongs eram guerrilheiros, não tinham um exército convencional, então eles ficavam nas margens dos rios e nas florestas e dali eles atacavam os comboios americanos que desciam os rios. Em resposta, os americanos pegaram o agente laranja e largaram nas margens dos rios para acabar com as florestas, eles desmataram as margens através do agente laranja, desmataram todas as florestas nas margens dos grandes rios vietnamitas. E é óbvio que esse agente químico desceu pro rio e contaminou todo o lençol freático do país. Morreu mais gente no pós-guerra, vítima da contaminação do solo e do rio, do que na guerra propriamente dita. O país hoje não tem vacas nem bois porque o pasto é contaminado. Eles importam leite, importam tudo. E o mais lamentável de tudo é que hoje as empresas mais poluidoras do mundo, que não conseguem licenças em seus países, vão se instalando no Vietnã. Porque o povo vietnamita é tão pobre que, para eles, entre morrer de fome e deixar contaminar o solo, preferem deixar contaminar o solo. E essas empresas poluidoras usam esse artificio sob o pretexto de gerarem empregos, ou seja, de tirarem as pessoas da fome absoluta. O povo fica refém dos empregos. Eu não condeno o cara que se deixa corromper para não morrer de fome. Ele é vítima, o culpado é o corruptor.
Sul21 – E o Zaffari, teu mecenas, o que ganha contigo?
Airton – Ele ganha agradecimentos nos livros e citações minhas. Sempre falo neles em palestras, entrevistas. O que eles ganham é a associação de sua marca a coisas culturais e interessantes. O marketing do Zaffari sempre foi em cima da cultura. Por isso é que eles têm essa imagem tão querida pelo publico gaúcho. Eles investem é para manter uma boa imagem. Eu tenho uma empresa que faz uma clipagem pra mim. Tudo o que sai durante o ano, em TV, rádio, jornal, no final do ano eu levo lá no Zaffari. E junto vai o cálculo daquilo se eles tivessem que pagar.
Sul21 — E a série sobre cidades?
Airton — Em 2010, eu comecei uma série nova. Não eram mais reportagens sobre grandes travessias, mas crônicas sobre cidades. Em 2010 eu lancei sobre Havana; em 2011, Jerusalém; em 2012, eu lancei o Gringo, que é ficção; em 2013, eu lancei o Atenas, e, agora, neste ano, o Paris. Essa coleção é sobre cidades. São crônicas, não é mais reportagem. Então mudaram a pauta e a linguagem.
“E aqui em Porto Alegre não tem. Nenhuma placa de onde morou o Erico Verissimo, onde morou o Lupicínio. Tu vais em Havana, cada prédio tem a placa do cara que morou ali. E aí quando eu disse que Porto Alegre tinha que se inspirar em Havana pra atrair turismo, quase deram em mim!” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Um dia vai ter Londres?
Airton – Sim, sim. Vai ter Londres, Nova Iorque, Amsterdam. Tu gostas de música, deixa eu te contar uma… Em Havana, a Catedral se mantém catedral, mas as demais igrejas, que são todas da época colonial, lindíssimas, elas se transformaram em salas de concertos. Então tem uma igreja belíssima que é a sede do coral de Havana. E eu fui lá assistir, e foi uma coisa belíssima. Chegaram os trabalhadores do coral, cada um com a sua roupa, não tinham uniforme nem nada, parecia um bando de colegiais se reunindo para cantar uma musiquinha. Aí começam a cantar, que coisa fantástica! Tem outra igreja colonial, que é a sede da orquestra especializada em música medieval. E o balé de Havana é um dos melhores do mundo.
Sul21 — E a distribuição dos livros? Mudaste de editora.
Airton – Os meus primeiros quatorze livros foram publicados pela editora Record, do Rio. Em janeiro do ano passado, a Marisa Moura, que é minha agente literária, me ligou dizendo que o pessoal da Benvirá queria conversar comigo. Bom, resumindo: o grupo Saraiva resolveu criar um selo de literatura brasileira, chamado Benvirá, e contrataram para editar esse selo o cara que era o editor da Planeta, o Rogério Alves. E ele me convidou. Hoje, eu resolvi o problema da distribuição. Como a Benvirá é um selo da Saraiva, que tem 110 megalojas no Brasil inteiro, as vendas aumentaram. Apesar da Record ser a maior editora brasileira, ela ainda precisava vender para as livrarias. Agora o livro já sai, digamos, da livraria. Mas vamos falar de viagens! (risadas) Então, em Paris… Eu fiquei um tempo num albergue lá, para ter contato com o pessoal que fica em albergue, que são as pessoas mais bem informadas sobre qualquer lugar. Os mochileiros são os caras mais bem informados em qualquer lugar, tanto em Paris quanto no Himalaia, porque viajam em busca de conhecimento, aquilo que vai além do que os guias de turismo oferecem. E fiquei um tempo ali, também, porque eu queria realizar um sonho comum a vários escritores, que é o de escrever um livro, ou pelo menos começá-lo, morando numa marsarda em Paris. E o albergue tinha no último andar, na mansarda, um quartinho. E o livro Paris, eu comecei a escrevê-lo lá. E a frente da mansarda dava para, nada mais nada menos, o Le Petit e o Le Trianon. Bem, dali eu fui para um hotel, porque queria também ficar um tempo em Paris como os turistas ficam. E depois aluguei um apartamento, me estabeleci, e pensei: “bom, agora eu vou morar aqui como um parisiense”.
Sul21 – É, mas não adianta, gosto mais de Londres.
Airton – E eu de Nova Iorque. A minha paixão sempre foi Nova Iorque. Depois de Porto Alegre, é a cidade que eu mais conheço. Bem, falando a verdade… Agora estou balançando entre NY e Paris. Porque Paris, tem muito de nossas raízes. Os escritores e os pintores que admiramos, etc.
Sul21 – E é tudo fácil de encontrar, né? Porque eles colocam as plaquinhas nos edifícios. Aqui morou tal escritor…
Airton – Sim! E aqui em Porto Alegre não tem. Nenhuma placa de onde morou o Erico Verissimo, onde morou o Lupicínio. Tu vais em Havana, cada prédio tem a placa do cara que morou ali. E aí quando eu disse que Porto Alegre tinha que se inspirar em Havana pra atrair turismo, quase deram em mim! “Como em Havana? Em Fidel Castro, na ditadura comunista! Quer dizer que a gente tem que se inspirar em uma ditadura comunista?” Eu não disse isso… Tô falando pra colocar placas! Se eu digo Paris, tudo bem; mas se eu digo Havana… Havana não! É mais pobre e de esquerda do que Porto Alegre… E lá tem, aqui não.
Hoje é aniversário de meu melhor amigo de infância, o João Batista. Às vezes, encontro-me com ele durante suas caminhadas com seus dois cachorros na Vasco da Gama. Conversamos. A Elena gosta dele. Diz que a gente deveria se encontrar mais e que ele é a pessoa mais calma do mundo. Não deve estar muito longe da verdade. Ele tem fala mansa, fino humor e é muito cortês, dando a impressão de que faltou alguma coisa na minha educação. Minha família morava no apartamento 11 do número 1891 da Av. João Pessoa, em Porto Alegre. A dele, no apartamento 31. Jogávamos futebol todos os dias e, quando chovia, ficávamos em torno de uma mesa de botão (futebol de mesa). Lembro bem, ele era melhor do que eu em tudo, inclusive nos estudos.
Há uma ex-amiga que também faz aniversário hoje. Um amigo deu-lhe o melhor dos apelidos: PMDB, em razão da facilidade para aderir a quem lhe der maior vantagem no momento. A atuação do partido em 2015 só atribui maior exatidão à alcunha.
17 de abril. Por essas e outras é que acho que a astrologia nada mais é do que constelações. Na verdade, quando duas estrelas parecem estar lado a lado, uma pode estar a 50 anos-luz, e outra a 500. Além disso, não vemos as estrelas como elas estão agora, mas através do tempo. Se uma se situa a 200 anos-luz, isso quer dizer que a luz observada partiu de sua fonte há duzentos anos. A rigor, ignoramos até se essa estrela ainda existe.
Então, uma figura tranquila e outra hidrófoba — sei do que falo — podem parecer estar lado a lado, mas é uma mentira. É muito perturbador ver alguém tão querido ao lado de outra detestável no céu (equivocado) de minha memória.
Nilmar fez dois na disputa com… Lisandro López | correndo Foto do grande Alexandre Lops
Parabéns, Aguirre. Marcamos tão adiantados que os zagueiros chilenos ficaram como se tivessem aberto um livro e se dado conta de que o primeiro parágrafo estava repetido até o fim. A bola voltava rápida e os erros, alguns ridículos, se sucediam. Isto é, não fomos especular em Santiago, não fomos esperar o tal “erro do adversário”, fomos ao Chile para jogar e provocar os erros deles. Futebol é um jogo que não se ganha apenas com a elegância e nobreza do jogar bem com a bola, mas com a atitude operária de ir lá limpar a caixa de gordura na esperança de que depois apareça um L’Oréal qualquer.
Teu time foi convincente, Aguirre. Todos aqueles que — como eu — que achavam que tu deverias ficar no clube começam a sorrir, aguardando que outros digam que estavam errados. Sim, jamais ouviremos isso, mas ao menos estamos sentados. Destacar Nilmar — que correu como um louco, só sendo detido pelos abraços de seus companheiros — e Sasha é o óbvio, então eu gostaria de elogiar a dupla de volantes. Rodrigo Dourado desarmou e foi para jogo como um meio-campista de Pep Guardiola. Aránguiz foi um modelo de discrição. Sorrateiro, tirava do adversário e não errava passes.
O resto seria mais elogios, Aguirre. Mas elogiar muito é produto raro neste corneteiro que te escreve. Continua assim, tá?
Minha mãe teve a doença e sua possibilidade é algo que me assusta, como não? É terrível a convivência e a manutenção de uma pessoa assim. Não quero ser um peso para os outros e a Elena e meus filhos não merecem. Então, trato de exercitar o cérebro. Faço contas de cabeça, leio, busco coisas na memória a cada momento.
E ontem dormi ouvindo a Rádio da Universidade. Eu e meu pai tínhamos um jogo que durou da minha infância até sua morte. Toda a vez que ligavávamos na Rádio da UFRGS — especializada em música erudita –, tratávamos de identificar o mais rapidamente possível qual era a música que estava sendo executada. Isto podia acontecer várias vezes ao dia. Com isto, sou supertreinado em descobrir tudo o que ouço de clássico. Só que, lamentavelmente, hoje brinco sozinho, treinando contra o Alzheimer. Ontem à noite, começou a tocar uma obra complicada de adivinhar, mas eu, após, alguns minutos, pensei ter descoberto: era o Septeto de Franz Berwald. Quando terminou, aumentei o volume do rádio, mas ninguém disse nada. Logo entrou um concerto para violino. Fiquei puto, mas logo lembrei da greve e do direito e da boa razão dos trabalhadores. Então me atirei no meio dos discos e, depois de respirar muito pó, encontrei o Berwald e pus para tocar. Ufa, tinha acertado!
Os primeiros minutos depois de acordar são confusos para mim. Não sei em que dia estou nem o que tenho que fazer. Também a tristeza me invade com muita facilidade nestes momentos. Então, viro-me para o lado a fim de ganhar aquele “chorinho” de sono que me é certamente devido. Como complemento e para ganhar ainda mais tempo de consolo, abraço-me na Elena e a aceitação do abraço vai me arrancando da tristeza e dos pensamentos sobre a inutilidade de acordar e da vida. Mas hoje, virei-me, estendi o braço e nada. Tateei. Nada. Abri os olhos. Nada. Porra, mas o que houve? Querem me enlouquecer? Cadê a Elena? Revisei a memória pensando na chegada do alemão. Ela estava em casa ontem, não viajou. Ah, e está se recuperando de uma cirurgia! Será que teve uma crise de Tolstói e está numa estação da Trensurb? Saí da cama meio tonto atrás das alpargatas, abri a porta e lá estava ela, linda, dormindo na sala. Quando me aproximei, ouvi meu querido sotaque russo. Bom dia. Dormi às vinte para as seis e não quis te acordar. Vi toda a primeira temporada de Game of Thrones. Uma maratona.
Nesta semana, Novak Djokovic subiu para o sexto lugar na lista de tenistas que passaram o maior número de semanas como número 1 no ranking da ATP. Djokovic ficou no topo do tênis profissional masculino por 142 semanas, uma semana mais do que Rafael Nadal, e agora ele tem como objetivo ultrapassar John McEnroe, com 170 semanas. Se ele ultrapassar McEnroe ainda nesta sequência, o que é provável, isto ocorrerá na primeira semana de novembro deste ano.
Estes são os jogadores que têm mais de 100 semanas como número 1.
Djokovic diz que Federer e Nadal são os melhores jogadores de todos os tempos, mas isso é pura modéstia de um jogador que fala como se ainda fosse o mesmo jovem piadista que sempre amarelava nas partidas decisivas. Mas isto é passado, é de cinco anos atrás. Na minha opinião, Nole (apelido de Djokovic, também conhecido como Joker) é muito mais jogador do que Nadal. Quanto a Federer, este sim é o melhor de todos os tempos, mesmo que Nole o ultrapasse neste ranking daqui alguns anos (o que é possível, mas improvável).
Lembram aquelas seleções de clássicos dos anos 70 e 80 que tinham gatinhos na capa? Ali, o Aleluia de Handel podia vir antes de Rhapsody in Blue, a qual era seguida da Abertura 1812, por exemplo. Salada semelhante foi servida na noite de ontem. A Ospa estava cheia de gatinhos, óin… Claro que isto não cria público. Este gênero de programa é válido apenas em séries de concertos para escolas ou como eram os velhos “Concertos para a Juventude”, mas, enfim. O apelido “Disco de Gatinhos” ou “Concerto de Gatinhos” é de autoria do Júlio e da D. Cristina lá da King`s Discos, esplêndida loja que ficava na Galeria Chaves. Eles não gostavam muito daquelas seleções… Nem eu.
Allegro politico
Eduardo Cunha, o homem que está tentando — e que provavelmente conseguirá — acabar com direitos trabalhistas conquistados em décadas de lutas, é fiel da Assembleia de Deus. Faz parte da bancada religiosa que infestou o Congresso Nacional. É um lutador, um fundamentalista encarniçado, um homem perigoso.
Retrocesso e maior sofrimento para os trabalhadores em Cristo
Já eu e todos os que estão em greve hoje acham que ele é um criminoso. Afinal, ele está jogando nossos direitos trabalhistas fora em nome do pagamento do lobby dos empresários que financiaram a campanha eleitoral dele e de outros. Foi isso que os deputados fizeram quando aprovaram o projeto que beneficiava os empresários. Nós, é claro, ficamos apanhando do lado de fora do Congresso, sem poder entrar.
Enquanto a bancada religiosa nos fodia no Congresso, um flagrante da festa lá fora
Eduardo Cunha — como costuma ocorrer com os evangélicos — também é um conservador. Ele representa uma oligarquia política oportunista que se aproveita de um governo fraco e desestabilizado para fazer o Brasil retroceder para aquém das mínimas conquistas de melhoria da qualidade de vida, tudo sob a lógica do “melhor um trabalho péssimo que nenhum”, chantagem canalha que apresenta apenas duas alternativas quando existem múltiplas.
Eduardo Cunha é do PMDB e é um sujeito que usa as palavras gay e feminismo como se fossem palavrões. E diz coisas incríveis: “Eu não acho que o homossexualismo deva ser imposto à sociedade”. Eduardo Cunha é do PMDB. O governador Sartori é do PMDB. E a Ospa é do Governo do Estado.
Cunha e Sartori ouvindo Temer: desculpem o mau gosto da foto | Foto: Guilherme Santos / Sul21
Adagio difficili da uccidere
Tal orquestra seminômade criou o projeto OSPA nas Igrejas. Os espaços que o projeto ocupava eram restritos às mais tradicionais instituições religiosas, mas é legítimo que outros espaços de culto reivindiquem concertos, não? Antes dos terreiros de umbanda, dos budistas e do candomblé, os evangélicos saltaram à frente na disputa, pois o momento é de ofensiva social e política deles. Quando eles tomarem o poder em Brasília — pois é essa sua intenção — teremos o maior espetáculo de incultura, burrice, arrogância, intolerância e estupidez de todos os tempos. Nosso país sem educação permitirá tudo a eles. E ontem o concerto (de gatinhos) foi no Templo da Assembleia de Deus da General Neto. Os admiradores da boa música em salas adequadas e humanistas que não têm simpatias pelas relações entre instituições públicas e templos religiosos lastimam e se afastam. Este projeto, ruim na origem, torna-se cada dia pior. No momento político atual do Brasil e do mundo, é um temerário apoio ao furor teocrático dos neopentecostais que são adulados por quase todos os políticos com a exceção de poucos partidos..
Vão me dizer que a orquestra precisa de locais para dar seus concertos, mimimi que justifica o afago feito ontem ao poder mesmo que este esteja no arcabouço de uma tendência que nos empurra mais para perto da tragédia do fundamentalismo. Todos querem ficar bem com a(s) igreja(s). Elas dão votos agora e problemas logo depois, se quisermos voltar a Eduardo Cunha e à famigerada bancada religiosa.
A nova sala de concertos na General Neto, em Porto Alegre
Presto breve
Nem deveria ter escrito isso. A maioria dos cristãos odeia demais e vou ter que moderar os comentários furibundos deles. A pessoa que tem fé deveria procurar só fazer coisas dignas dela, não? Afinal, acho que não desejam perder a salvação assim no mais, ofendendo um ateu bobão como eu.. Só que “Narciso acha feio o que não é espelho” e eles são odiadores profissionais. Prova de que religião não define caráter.
Meu filho Bernardo estagiou por longo tempo no Sul21. Era fotógrafo. Atualmente, está em Berlim, fazendo um curso de fotografia que durará 3 anos. O estranho é que, hoje, tenho a impressão de conversar mais com ele pelo Skype do que fazia antes, quando o tinha a meu lado. Não sabia, por exemplo, de sua admiração pelo trabalho de David Guttenfelder. Aliás, eu desconhecia Guttenfelder! O cara é um monstro. Só espero que o Dado não resolva ser fotógrafo de guerra.
Por favor, fujam desta antiga edição ao lado. Se este romance de Greene é uma obra-prima, a tradução e os inúmeros erros de digitação são espetaculares. Nos últimos anos, no Brasil, as traduções melhoraram muito. Esta, de Leonel Vallandro, é lá dos anos 50 e tem trechos difíceis de entender, seja hoje, seja na época em que foi lançada. Ademais, cadê a revisão? Espero que a nova edição da Globo, de 2003 e com uma bela capa, traga uma versão revisada.
Aliás, Brighton Rock parece fadado a ter problemas. Após uma notável adaptação para o cinema com Rincão de Tormentas (1947), o romance recebeu uma segunda versão para o cinema, O Pior dos Pecados (2003), que é de absoluta ruindade.
Greene: só bebendo para aguentar tanta transposição ruim!
Brighton Rock é a história patética de um adolescente que tenta tornar-se um mafioso — ou chefe de gangue — num mundo adulto. O livro é um curioso exemplar de multi-estilismo. É suspense, é filosófico-religioso, policial, tem crítica social, além de ser um violento drama psicológico.
Logo no início temos o assassinato de um homem logo após ter conhecido a prostituta Ida Arnold. Pinkie, o adolescente que o matou, resolve eliminar todos os vestígios do crime. Para tanto, terá que eliminar alguns comparsas e se forçará a casar com a garçonete Rose, também adolescente, a fim de calá-la.
Só que Ida — desinibida, inteligente e debochada — resolve investigar o caso da morte do novo amigo por conta própria, achando que deve isso a ele. OK, gente, sem spoilers.
A história serve perfeitamente a Greene. O suspense vai até o final — quem vencerá, Pinkie ou Ida? O catolicismo do autor está representado pelo jovem casal. Pinkie acredita apenas no inferno e crê estar condenado pela religião. Rose busca o céu e uma vida melhor, mas com um futuro chefe de gangue. A crítica social perpassa tudo, mas explode brilhantemente na figura do advogado de marginais Prewitt. O mesmo vale para o poderoso drama psicológico, principalmente o que envolve o casamento arranjado de Rose e Pinkie. Ele a detesta desde o primeiro minuto, ela se acha obrigada a amá-lo, mesmo que veja só desprezo em Pinkie.
Escrevi tudo isso rapidamente e não creio ter dado ideia da grandiosidade de Brighton Rock. Mas é da vida. Ah, o livro tem um final estarrecedor do ponto de vista humano, mas esplêndido do ponto de vista de solução ficcional. Indico o romance a meus sete leitores.
Familiares de Adair Wiest seguem esperando respostas da justiça sete anos depois que o pai da família faleceu em decorrência de um atropelamento às margens da BR 116, em Ivoti, no Vale do Sinos. Segundo os familiares, o homem morreu, aos 41 anos, sete meses após o incidente, causado, segundo eles, pelo hoje deputado estadual Marcel Van Hattem (PP). O advogado da família, Marcelo Bastos, estima que se o Superior Tribunal de Justiça (STJ) considerar procedente a ação movida pelos parentes, a indenização pode chegar a R$ 1 milhão.
Marcel Van Hattem em foto retirada de seu material de campanha
Adane Wiest, filha de Adair, contou que o pai retornava de moto de Novo Hamburgo, próximo das 15h, quando percebeu, quase chegando em casa, que uma peça do veículo havia caído às margens da rodovia. Como a casa ficava a aproximadamente 40 metros da BR 116, Adair resolveu deixar a moto em casa e retornar a pé até o acostamento da estrada para procurar a peça. Nesse ponto, ele foi atropelado, em 9 de outubro de 2006.
A família relata que Van Hattem chegou a parar o veículo para prestar socorro à vítima e a ir, no mesmo dia, com os pais, visitar a família de Adair no hospital. No entanto, depois, tudo mudou.
“Ele não nos procurou mais, disse que não podia ajudar e nem acionar o seguro do carro porque ele não foi o culpado, que meu pai que teria invadido a pista e que, por isso, ele teria atropelado meu pai. Não prestou nenhum auxílio. Na época eu não trabalhava, eu tinha 17 anos, meu irmão era menor (tinha 12 anos). A gente vendeu o que tinha e o que não tinha dentro de casa. Precisávamos de fralda e de óleo. Quantas vezes fomos conversar com o Marcel e ele prometia que ia ajudar e não ajudou. Nem visitar meu pai ele foi. Meu pai ficou em coma quase sete meses. Por quase três meses o pai ficou em um lar, porque o hospital não tinha mais o que fazer. Então, é como se tivesse que esperar ele acordar. Ele teve traumatismo craniano. Mandaram ele embora. A casa era um valor absurdo. Fomos conversar com o Marcel. Ele nem bola”, desabafou Adane.
Antes da morte de Adair, o Ministério Público ingressou com uma ação criminal contra Van Hattem. Mas, segundo Marcelo Bastos, a indignação da família é pelo fato de o atual parlamentar não ter respondido pelo homicídio, somente pelas lesões corporais leves, o que tramitou no Juizado Especial Criminal.
“Quando há um atropelamento com morte, quem tem que tratar disso é o Estado. Não é a parte que promove uma ação. E o que se tem no caso concreto, é que o deputado respondeu apenas pelas lesões corporais leves. Tanto é que esse processo tramitou no Juizado Especial Criminal, que trata apenas de lesões leves. A questão do homicídio decorrente do acidente de trânsito não foi apurada. Essa é a indignação da família”, explicou Bastos.
Além disso, a família ingressou com uma ação cível contra Marcel, em 2007, que já foi considerada procedente em duas instâncias da justiça, permanecendo a decisão de culpa. A família pede indenização e danos morais pela morte de Adair. O recurso tramita no STJ, em Brasília. Mas, segundo o advogado da família, a Corte não discute a culpabilidade do motorista. Agora, a discussão é apenas com relação ao valor da indenização.
O deputado respondeu que o acidente ocorreu pelo fato de Adair ter invadido a pista. Van Hattem disse que repudia a ação da família da vítima, que foi até a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, na semana passada, e solicitou a abertura de um investigação sobre o fato, ocorrido há quase oito anos. Apesar de ter sido considerado culpado no âmbito cível, Van Hattem criticou o sistema do Judiciário. Segundo ele, o cível anda “descolado” do criminal.
“Cível, infelizmente, anda totalmente descolado do crime, do processo. O advogado, eu repito, no mínimo está orientando mal os seus clientes dizendo que não fui bem investigado. Isso é mentira. Aconteceu tudo que tinha que acontecer do âmbito das autoridades policiais. Ele está tentando fazer um caso político, inclusive, em cima dessa situação. Mas o cível é um processo separado”, expôs o deputado.
O deputado ainda apontou considerar que a família esteja se utilizando politicamente do caso. A família rebate, assegurando que ingressou com ações contra Van Hattem antes mesmo de ele ser deputado estadual.
A família acrescentou que, na próxima quarta-feira, vai comparecer à reunião da Comissão de Direitos Humanos do legislativo gaúcho.
“Si hay gobierno, soy contra!”: eis aí uma máxima tão repetida quanto cretina. Na democracia, ser contra todo governo, sempre, não é uma postura crítica, mas infantil. É não perceber que num sistema representativo cabe a nós não só eleger o governo como influenciá-lo, seja criticando-o ou mesmo o aplaudindo. A frase, contudo, tem seu charme. Empresta a qualquer resmungo de oposição o silvo de um morteiro republicano, na Guerra Civil Espanhola. O cara pode ser um empresário corrupto que sonega milhões em impostos, mas basta dizer “Si hay gobierno, soy contra!” e fica se achando uma espécie de Hemingway redivivo, recostado numa colina de la Mancha, lutando contra o fascismo estatal.
Uma das consequências da chegada da esquerda ao poder (ou, pelo menos, da chegada de um partido com um discurso de esquerda), em 2003, foi dar à direita este selinho hype, de “Soy contra!”. De uma hora pra outra, o sujeito podia se referir ao Lula como “Aquele retirante analfabeto!” e não estava sendo demofóbico, estava fazendo uma crítica ao poder. Dizia: “O melhor movimento feminino é o movimento dos quadris” e não estava sendo machista, mas lutando contra as feministas governistas que queriam castrar os machos livres da pátria. Piadas racistas e homofóbicas deixaram de ser vistas como reforços aos estereótipos de que o negro é inferior e de que o gay é errado ou doente, para se tornarem armas da livre expressão contra a “ditadura do politicamente correto”.
A Santa Ceia da hidrofobia reacionária
Aguentar a velha hidrofobia reacionária andando por aí de sapatênis e pomada no cabelo, se achando moderninha, seria um preço aceitável a se pagar, caso o PT tivesse instituído a pauta pela qual foi eleito. Hoje, então, negros e brancos teriam as mesmas chances no mercado de trabalho, estudando em nossas boas escolas públicas. Gays andariam de mãos dadas, à noite, sem correrem o risco de serem espancados. Mulheres poderiam recorrer a um aborto, caso todas as providências oferecidas pela excelente frente de planejamento familiar em nossa invejável rede pública de saúde houvessem falhado. O quatrocentão ressentido repetiria à toda hora que “Esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária!”, mas deixaríamos quieto, afinal, ele haveria perdido seu camarote no topo da pirâmide social, num país que deixara de ser um dos mais desiguais do mundo.
O problema é que, com o PT no poder, tais melhoras não vieram. Embora a concentração de renda tenha diminuído um pouco, os 5% mais ricos detém mais de 40% da renda total do país. Nas faculdades, apenas 11% dos alunos são negros. Gays tomam lampadadas na orelha, na Paulista. A polícia mata em média cinco pessoas por dia. As mulheres ganham cerca de 30% menos do que os homens e mais de 50 mil delas são estupradas, todo ano.
Assim, chegamos a este cenário desolador: no poder, uma esquerda esquizofrênica, incapaz de mexer em nossas feridas seculares, liberando, na oposição, as vozes mais raivosas, preconceituosas e reativas às mudanças que essa esquerda sequer promove.
Se fosse um ato de repúdio à desigualdade e à injustiça que se perpetuam, eu iria pra rua, hoje, acusar o governo. Mas pra andar atrás de um trio elétrico que estampa a imagem de uma mão sem o mindinho, ao lado de famílias que fazem “selfies” com a Tropa de Choque, licença: “Soy contra”.
Durante a temporada de desperdício de gols, Juan tenta uma bicicleta na área do Cruzeiro | Foto: Alexandre Lops
O incrível é que não jogamos mal. Perdemos várias chances antes do primeiro gol do Cruzeiro. E houve um segundo. A classificação aconteceu com dois pênaltis reais — a Fifa manda dá-los quando qualquer bola toca na mão de um defensor dentro da área — , mas apenas um foi convertido. D`Alessandro errou e Lisandro López fez o seu. Só não posso concordar com os cartões amarelos imputados. Foram claras bolas na mão, totalmente casuais. Um dos cartões expulsou um atleta do Cruzeiro.
É um lugar-comum e uma verdade: o 2 a 2 é um alerta. É preocupante a dificuldade do Inter para fazer gols, principalmente se pensarmos nos adversários da Libertadores da América. Lisandro entrou e fez dois, demonstrando porque é quem é. Não é jogador de encolher a perna na hora de decidir. Claro que não é só isso, o cara sabe jogar, porém comparem sua gana de fazer gols com a de Valdívia, por exemplo. O cabeludinho chuta com medo de errar. Ainda bem que Dale, Lisandro e Juan garantiram a classificação nos pênaltis. Dos quatro que bateram, só Rafael Moura errou.
Outra coisa, não creio de Jorge Henrique possa ser titular ao lado de Rodrigo Dourado. O baixinho pode jogar eventualmente como volante, mas Nico Freitas e Nilton são do lugar, apesar de terem realizado más partidas.
E vamos em frente, acertando o time e matando alguns — nem que seja de enfarto — pelo caminho. Ah, o Cruzeirinho jogou demais. Futebol moderno, rápido e participativo. Este Luiz Antônio Zaluar é um baita técnico.
Há duas semanas, eu já tinha visto e resenhado o mesmo concerto. Afinal, este programa foi apresentado lá na igreja do Colégio Anchieta. Fui assisti-lo novamente para acompanhar a Elena e ir jantar depois, mas tenho uma coisa a citar, uma coisa a imaginar, uma coisa a nomear, uma coisa a esconder, uma coisa a esperar, uma coisa a lamentar, uma coisa a propor, uma coisa a prometer e uma coisa a imaginar, entre outras coisas.
Comecemos dizendo que, sentado lá em cima, na Igreja da Reconciliação (da Rua Senhor dos Passos) pude ouvir quão melhor é a acústica de lá em relação à Igreja da Ressurreição (a do Colégio Anchieta). Os luteranos têm melhor acústica do que os católicos, quem não sabia? Uma coisa que lamento é o fato de cada concerto da Ospa ser apresentado apenas uma vez. Sem dúvida, o desempenho da orquestra foi bem melhor ontem. É claro que há concertos de gatinhos — como o da próxima semana –, os quais é melhor nem pensar em repetir (melhor correndo fugir deles), mas há vários de nível aceitável que deveriam ser repetidos. Aliás, o próximo concerto da Ospa será num templo da Assembleia de Deus… Se iniciamos o ano assim, não consigo imaginar até onde irá a baixaria. Na boa, há que acabar com esta série de Ospa das Igrejas. Conheço pessoas que já desistiram. Chega disso, seja em igrejas católicas, luteranas ou evangélicas. É bunda dura, palco nenhum e deus demais. Deu.
Mas, voltando à calmaria, dizia eu que estava lá em cima na tal da Reconciliação, assistindo ao Réquiem de Fauré, e só tinha olhos para minha dama, que empalidecia tudo ao redor. A lua lá fora também estava pálida e eu só pensava em me aproximar de minha violinista, pois, como diria o Chico Buarque de Januária, até o mar faria maré cheia para chegar mais perto dela. Mas, dizia eu, este réquiem é tranquilo e apaziguador. Canta com delicadeza a chegada ao paraíso. Estava bom de assistir: o Coro Sinfônico da Ospa saiu-se benissimamente, o órgão estava em mãos seguras, a orquestra soava melhor na referida acústica, o solo de violino fazia curvas tranquilas pelo circuito até tocar de leve no muro de proteção, a dupla de cantores nos levava docemente pela mão… (rimou) Aliás, essa Elisa Machado, que não conheço, canta muito!
Depois veio o Tchaikovsky. A Fantasia para A Tempestade merece o esquecimento. A música horrenda — que, espero, seja reapresentada em Porto Alegre somente muitos anos após minha morte — fazia-me dizer internamente Come on, come on a cada dez segundos. Queria apressar a coisa. A memória veio em meu socorro e os Beatles pegaram aquele repetido Come on e atacaram Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey. E simplesmente, como num quadro lisérgico de Chagall, saí voando com a Elena da Reconciliação, livrando-me daquilo. Afinal, está na letra, the deeper you go, the higher you fly (…) So come on.
O racismo nunca deve ser relativizado. Ele deve ser punido exemplarmente. Acho também detestável o nhém-nhém-nhém jurídico que, através de recursos, transformam as penas em pó. Se houve ofensa racial, o clube e o torcedor devem sofrer o que prevê a lei e isso deve valer para Inter, Grêmio, Flamengo ou ASA da Arapiraca, indistintamente.
Gremistas e colorados fazem parte da mesma sociedade. Há muitos gaúchos, torcedores de ambos os times, que chamam os negros de macacos quando acham que eles estão demais. Nosso racismo circundante não é restrito a determinados clubes.
Os jogos de times como Internacional e Grêmio são registrados por dezenas de câmeras e microfones. Estes devem ser examinados. Acreditar no depoimento de um jornalista é simplesmente ocioso. Ontem, entrei no twitter de Luciano Potter — que acusa torcedores de chamarem Fabrício de macaco. A coisa é uma série de lugares comuns, cheios de grandes palavras vazias. Parece-me que é conselheiro do Inter, o que lhe daria autoridade moral, mas sua postura trai a vontade de posar como herói defensor dos oprimidos. Posso estar errado, mas acho que, para comprovar as ofensas, bastam os registros eletrônicos, sem a necessidade de egos.
E há alguns fatos estranhos: um homem foi acusado de ofender Fabrício. Havia fotos e filme. Ele se apresentou e negou o fato. Estava até rindo da coisa. Afinal, ele é negro e não chamaria ninguém de macaco, disse. Outro é o silêncio de Fabrício a respeito do caso. Ele se declara apenas arrependido de sua atitude e não se apoia em injúrias sofridas. E mais: há certo desejo de que o Inter também seja acusado de racismo, como foi o Grêmio no ano passado.
Por outro lado, o presidente Piffero anunciou que o jogador não joga mais no Inter. É uma atitude que demonstra o destemor do clube com as denúncias de injúrias raciais. Fabrício teria reagido daquele forma por ser meio louco e descontrolado. Quem, como eu, o conhece de outras reações que teve no passado, não se surpreendeu muito.
Concluindo: sou favorável a que a denúncia por injúria racial seja examinada em detalhe, mas por favor, usemos a tecnologia, não o parente de Harry.
Mesmo com as pesadas críticas feitas a teu trabalho por parte da imprensa, o Inter chegou ao final da fase classificatória do Salsichão 2015 em primeiro lugar, quatro pontos à frente do segundo colocado: o Grêmio, treinado pelo infalível sete-a-um. A imprensa da área Zelotes já começa a mudar de opinião a teu respeito, mas te cuida, eles só costumam agir com naturalidade quando o objeto de análise é o time do bairro uma-e tá.
É claro que também fiz críticas a ti. Afinal, não acho que tu sejas um novo Telê Santana ou um Rinus Michels ou um Rubens Minelli ou um Guardiola — meus técnicos favoritos –, só que jamais pedi tua cabeça. Os motivos são óbvios. Qual era o grande problema do time no início do ano? Era a defesa. Lembro dos 4 a 4 contra o São José e de outros jogos onde sempre levávamos gols… Pois nos últimos OITO JOGOS tomamos apenas UM GOL, do Emelec, no interior do Equador. Ou seja, tu trabalhaste e corrigiste nossa maior deficiência. O que não entendo é por que pediam tua cabeça se tu estás trabalhando há menos de três meses. Teu time é um bebê. E mais: acabamos o ano jogando malíssimo. As pessoas pedem por milagres.
Como disse, nós realmente não estamos jogando muito, estamos jogando o que se espera de um time novo. Fazemos algumas boas partidas, outras lamentáveis. Dei risada quando abri o jornal de hoje e li as manchetes “Tranquilidade no Beira-Rio” e “Sete jogos, sete vitórias”. Ontem, era um merda; hoje, foste guindado a gênio. Afinal, passaste na frente do espetacular Grêmio. A avaliação do teu trabalho desconsidera quaisquer processos, apenas vê o último jogo. Então, te cuida, Aguirre. Não há nada a comemorar. Basta perder uma partida para voltar ao estado de merda.
Ontem, houve uma baita festa para a Beatriz Gossweiler, clarinetista que se aposentou da Ospa no final de 2014. Todos os naipes estavam representados, à exceção das violas e da percussão — hum… piano não é percussão? A Beatriz é a mais querida das pessoas. Além dos músicos, estavam lá dois de seus filhos, mais noras e neto. Só que eu tirei poucas, pouquíssimas fotos e estas ficaram lamentáveis. Não em razão dos fotografados, mas da crise de minha pequena Sony. O Augusto é quem estava como uma máquina decente e deve ter muitas. Aqui vão duas e mais uma de nossas diversões da noite: o filme que o Philip Gastal Mayer mostrou para a gente lá no meio da madrugada. Alguém imagina como a orquestra consegue entrar junto na início da Quinta de Beethoven?
A ideia e a organização da festa foram da Astrid Müller e do Augusto Maurer, só para variar. Foi uma noite carinhosa e muito, mas muito engraçada.
Beatriz Gossweiler, Klaus Volkmann e Elena Romanov