Sartori: problema com as roupas em casa (Foto: Ramiro Furquim / Sul21)
Mudança é a palavra mágica para qualquer marqueteiro político. Nove entre dez deles mandam seus candidatos dizerem que são agentes da mudança e Sartori repete isso como um mantra: estou aqui para mudar, eu represento a mudança. Ontem, eu vi o programa eleitoral do homem da mudança. Ele estava em família, sentado na sala da sua casa com a esposa deputada e os dois filhos que acabarão deputadinhos, é só esperar. O programa não podia ser menos político ou propositivo. A filha comentou que o pai era brincalhão, mas que quando ficava brabo, nossa senhora. Pensei em como aplicar tal fato no Palácio Piratini. O filho disse que a mãe sempre separava e arrumava a roupa de Sartori, mas que quando virou deputada, o pobre passou a ter que escolher ele mesmo o que vestiria. Então, em apuros, ele perguntava aos filhos se podia sair de casa assim ou assado. Olha, já li reportagens de Caras que eram mais palpitantes.
Dona Elsa garante: o filho é bom (Foto: Ramiro Furquim/ Sul21)
Mas há mais: ontem, liguei o rádio e entrou uma dessas propagandas eleitorais gratuitas. Pasmo, ouvi a mãe de Sartori dizer que seu filho sempre foi bom e correto. Parecia a mãe de um trombadinha garantindo que “meu guri é bom, o problema são as companhias”. Vejam bem: um depoimento da própria mãe! Nunca antes ouvi nada mais imparcial… Fico triste que minha mãe não tenha gravado depoimentos a meu respeito. Ela garantiria para vocês a pérola de pessoa que sou, indubitavelmente.
Tal é o esvaziamento da discussão politica em nosso país… A cena da mala de papelón — entre Dona Elsa e o filho na propaganda da TV — com a qual Sartoni foi para o seminário mesmo sem vocação para padre, traz os lugares-comuns mais chatos da imigração italiana: povero, contadino, católico, nostálgico de suas raízes. Só o italiano tem saudades, só eles têm coração, só eles são bons, só eles são passionais, ai que saco.
Voltando ao político Sartori, outra particularidade sua é a fuga dos debates. Com receio da argumentação de Tarso Genro ou com medo de colocar fatos novos numa situação que o beneficia — pois ele lidera as pesquisas (se isso pode ser mesmo levado a sério) –, Sartorão desmarca e desmarca debates. Entre um e outro cancelamento, o gringuinho medroso apresenta poucas ideias, investindo na imagem bom moço, que tem como partido apenas o Rio Grande. Estranhamente para um peemedebista tão caseiro, Sartori procurou grudar seu nome nos protestos de junho de 2013. Afinal, os protestos queriam o quê? Ah, claro, eram um clamor por mudança, como você, um de meus sete leitores, certamente adivinhou. Só que Sartori tem tanta empatia com os fatos de junho de 2013 que dou risadas ao pensar em tê-lo a meu lado pelas ruas, naquele inverno quente. Além disso, seu partido, o PMDB, sempre foi reformista, um verdadeiro agente de mudanças, não?
(Engraçado, uma pessoa de minhas relações ficou apelidada de PMDB por sua fácil aderência seja a quem for. Ela não lê mais este blog, mas antes lia).
Para terminar, diria que seria maravilhoso se o Sartori propusesse a mudança de seus adversários para um lugar legal como o Uruguai. O RS está ficando monótono demais. Como viver com Fortunati na prefeitura e Sartori no Piratini? Melhor Montevidéu. Há um Café Brasilero na Avenida 18 de Julio, parada obrigatória.
Abel tripudia sobre este comentarista: “Ganhei, viu seu putão?”.
Meu caro Abel Braga, como é difícil conviver contigo! Na quinta-feira, tu me tomas 5 x 0 da Chapecoense e no domingo tu ganhas do Fluminense por 2 x 1 jogando bom futebol? É óbvio que houve graves problemas no vestiário no jogo em Santa Catarina, além de tuas escalações malucas, né?
Pois ontem tu estiveste mais calmo, sem inventar muito. Puseste o ex-junior Diogo no lugar do péssimo Gilberto e não fizeste nenhuma outra improvisação. O único senão foi a reescalação de Alan Patrick, teu bruxo, como titular. Bota o Valdívia deste o início, Abel! O AP é muito deficiente e lento! O futebol é dos que fazem o máximo em menos tempo e o AP tem que pisar na bola, olhar, cada jogada dele é um parto.
Apesar de todas as merdas que fizemos no campeonato, temos, segundo o matemático Tristão Garcia, 81% de chances de chegar à Libertadores e 11% para sermos campeões. É uma campanha média superior. Só não me caga tudo de novo, tá? Aránguiz retorna como volante, Gilberto vai para o crematório, Valdívia entra na do Alan Patrick e nada de enfiar o Wellington Paulista ou no Rafael Moura no time ao lado do NIlmar, tá? Nilmar tem que jogar com quem sabe: Alex, D`Alessandro — que jogaram demais contra o Flu — Valdívia e Aránguiz.
Depois do The Guardian, mas com mais informações, quem sabe…
O Último Concerto (2012), de Yaron Zilberman, ora em cartaz em todas as capitais brasileiras, é uma boa e inesperada surpresa. É um retrato sincero, inteligente, não muito sentimental — considerando-se que é um filme norte-americano — e bem-construído sobre um músico que foi diagnosticado nos estágios iniciais do Mal de Parkinson. Por favor, esqueçam Amor, de Michael Haneke.
Christopher Walken dá um desempenho suave a Peter, um violoncelista muito amado e admirado, verdadeiro eixo emocional da trama e do Fugue Quartet, o qual trabalha junto há 25 anos. Ele é mais velho e mais sábio do que os outros: o primeiro violinista Daniel (Mark Ivanir), o segundo violinista Robert (Philip Seymour Hoffman) e Juliette (Catherine Keener), os dois últimos formando um casal.
O anúncio de Peter a seus atordoados parceiros desencadeia todos os tipos de repercussões dolorosas de grupo. Quando ouvem a notícia percebem que não são livres. O grande sucesso artístico e a história do quarteto comprova que eles cresceram juntos, organicamente, como uma família. Porém, confrontados com a perda de presença tranquila e apaziguadora de Pedro, eles entram em colapso e passam a duvidar de suas escolhas.
O roteirista teve o bom gosto de centralizar a música apenas no Quarteto, Op. 131, de Beethoven, uma peça de maturidade que exige o mesmo do quarteto. Ela, em seus sete movimentos encadeados, fala sobre a finitude, assunto principal de um filme que também nos mostra como funciona a intimidade de um grupo de pessoas talentosas e de como seus egos acomodam-se. Ou não.
Um belo filme adulto. Gostei muito, porém…
Aviso aos músicos: Apesar do enorme esforço e do trabalho que tiveram para aprender a imitar movimentos de músicos profissionais, para a Elena, minha namorada, o filme foi mais complicado. Violinista de sólida formação musical, ela tinha fechar os olhos para não ver as barbaridades cometidas pelos atores nas posturas dos atores fazendo-se de músicos. Por exemplo, quando Robert testa um violino, ele extraiu um vibrato perfeito para uma peça de Sarasate, só que sua mão esquerda está parada…
Quando pegamos um CD ou um programa de concerto e lemos o nome de Lavard Skou Larsen, ficamos normalmente surpresos ao saber que se trata de um maestro e violinista porto-alegrense radicado na Áustria. Os pais desta estrela internacional da chamada música erudita são os violinistas Perly e Gunnar. Ela é gaúcha e Gunnar Skou Larsen foi um dos estrangeiros que vieram para tocar violino na Ospa (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre) de Pablo Komlós nos anos 50. Veio da Dinamarca.
Lavard recebeu o Sul21 no apartamento de sua mãe, no bairro Moinhos de Vento. Mesmo com a pesada agenda de concertos — nesta quinzena ele deu concertos em Erevan e em Tbilisi, respectivamente as capitais da Armênia e da Geórgia — ele sempre retorna a Porto Alegre para ver D. Perly, uma lúcida senhora de 90 anos e para tocar e reger, como fará na próxima terça-feira (15). Desta vez, trouxe a nora e os netos. Lavard viveu em nossa cidade só até os quatro anos de idade, mas fala um português perfeito e diz sentir-se em casa como porto-alegrense, gremista e amante do churrasco.
Hoje, além dos concertos pelo mundo, Lavard Skou Larsen é professor de violino na Universidade Mozarteum, em Salzburg, e da cadeira de prática de orquestra. Desde 1991, é fundador, maestro e diretor artístico da Salzburg Chamber Soloists, de grande sucesso no mundo inteiro. Grava regularmente para os selos Naxos, Denon, CPO, Marco Polo, Movieplay, Stradivarius e Coviello Classics e, em 2004, assumiu o cargo de maestro titular da Deutsche Kammerakademie Neuss am Rhein (Alemanha).
Como dissemos, na próxima terça-feira ele estará novamente à frente da Ospa, no Auditório Dante Barone, às 20h30, num concerto cujos detalhes são discutidos abaixo.
É desnecessário alongar-se sobre seu currículo. Acreditamos que boa parte de sua visão da música e do mundo está na entrevista abaixo, que foi longa, gentil, informal e pontuada por risadas.
“Às vezes, meu pai me batia com o arco do violino, então eu tocava melhor!” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 — Como é que um sujeito chamado Lavard Skou Larsen nasce em Porto Alegre?
Lavard Skou Larsen — (risos) Meu pai veio para o Brasil em 1955. Naquela época, vir para o Brasil era uma coisa muito especial, muito exótica, era uma aventura. Ele era violinista, dinamarquês e estudava violino em Viena. Mas quis fazer um ano ou dois anos em outro país. Poderia ter ido para a Índia, para o Paquistão, mas veio para o Brasil. Ele tentou tocar violino no Rio de Janeiro, na OSB, mas lá não tinha lugar. Daí, disseram pra ele “Olha, em Porto Alegre tem um húngaro, Pablo Komlós, que fundou uma orquestra, e lá estão precisando de gente”. E ele veio. Minha mãe conta sobre o dia em que ele chegou. Ele apareceu no ensaio com uma mala numa mão e o estojo de violino na outra, e o único lugar que tinha para sentar era ao lado de minha mãe. Ela é o mais velho membro da Ospa. Tem 90 anos.
Sul21 — A senhora também é violinista?
D. Perly Skou Larsen — Sim, eu toquei no primeiro concerto da Ospa, em 1950. Eu sou daqui de Porto Alegre, estudei no Instituto de Belas Artes. Eu me formei bem na época em que o Komlós estava organizando a orquestra, quando ele estava convidando todo mundo que sabia tocar um pouquinho. O pai do Lavard veio mais tarde. Ele tocava conosco e dava aulas de violino, porque tinha uma formação musical muito sólida.
Lavard — Mas ele te conheceu na Ospa, ele chegou para tocar na Ospa?
D. Perly — Sim, foi contratado. Naquela época a Ospa recebeu uma porção de músicos da Europa. Não foi só ele. Isso tudo em meados de 1950 e 1960. Aí eu casei com Gunnar Skou Larsen, montamos até escolas de música em Porto Alegre.
Lavard e sua mãe, D. Perly, a mais antiga integrante da Ospa | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 — Como surgiu o violinista Lavard Skou Larsen?
Lavard — Acho que surgiu quando eu estava na barriga dela… Meu pai comprou meu primeiro violino quando eu era um embrião. (risos) Eu não tive escolha. Meu pai foi o primeiro músico de sua família. Meus avós eram camponeses na Dinamarca, gente bem simples. Ele tinha orgulho da profissão que o levara à Viena. E, logo com quatro anos de idade, eu comecei a arranhar o violino no método Suzuki, em que você aprende brincando. Ele tentou o mesmo com minha irmã, mas não obteve sucesso. No início eu era um pouco cabeça dura, não queria estudar, então ele me dava umas chicotadas com o arco. Depois disso eu tocava muito bem! (risos)
Sul21 — Além de apanhar com o arco, o que o guri Lavard fazia? Jogava bola?
Lavard — Brincava com os amigos, jogava bola… O meu pai era muito legal, todos os dias a gente tinha uma ou duas horas de estudo, mas depois, eram só brincadeiras. Ele me ensinou a paixão pela Fórmula 1, por exemplo, me levava às corridas lá na Áustria. Mas sabia educar muito bem, me fazia estudar seriamente. Éramos amigos.
Foto tirada por Gunnar Skou Larsen. Nela, o menino Lavard brinca com um pequeno violino. | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 — Vocês viviam entre a Europa e Porto Alegre então?
Lavard – Sim, nós fomos para a Europa em 1966. Eu tinha 4 anos. Meu pai desejava estudar regência e tinha planejado ficar alguns anos na Áustria, mas acabou contratado pela Camerata de Salzburg, o que fez com que ele permanecesse definitivamente. Minha mãe também começou a tocar lá. Depois, ele fundou sua própria orquestra de câmara. Voltamos algumas vezes a Porto Alegre, sempre por compromissos profissionais dele ou para visitarmos a família. Ele faleceu em 1975. Hoje eu venho seguidamente à cidade, uma vez por ano, mais ou menos, para ver minha mãe.
Sul21 – Onde tu estudaste, quem foram teus professores?
Lavard – Estudei basicamente fora. Comecei no Mozarteum de Salzburg logo após a morte do meu pai, em 1976. E tirei o diploma com 21 anos, era um dos mais jovens. Estudei com Sandor Végh, e depois fui spalla em várias orquestras. Também aperfeiçoei esta profissão de liderar e organizar orquestras. Eu gostava disso mais do que tocar como solista. Até hoje toco como solista, mas tem que estudar muito para ser bom (risos). Eu faço isso umas quatro ou cinco vezes por ano, mas o que gosto mesmo é de procurar realizar o meu conceito de música dentro de um grupo, para uma orquestra de câmara ou sinfônica.
“Uns pedem ordens; outros, conversas. Há que considerar todos.” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 — Tu sempre pretendeste reger?
Lavard — Não, isto veio depois. Acho que o maestro tem que saber muito bem como funciona uma orquestra por dentro. Eu tenho muita experiência de tocar em orquestra como spalla. Eu conheço os problemas e as manias dos músicos, sei da psicologia deles. Você tem de conhecer a essência do grupo. Eu não acredito muito nesses maestros que regem piano, que treinam só o gestual e que só eventualmente trabalham com uma orquestra. A orquestra é um gigante vivo na nossa frente. E eu comecei com isso já cedo, ganhei um prêmio aos 16 anos. Regi uma pequena orquestra na Áustria num concurso e ganhamos, eu e a orquestra, o primeiro prêmio. Mas foi em 2004, quando comecei na Orquestra de Neuss (a Deutsche Kammerakademie Neuss), que eu comecei a reger seriamente. Agora eu posso dizer que sou um maestro, que eu rejo mais do que toco.
Sul21 — É uma liderança natural ou é uma questão de postura adquirida, de atuação?
Lavard — Sem dúvida, você tem que ter um gene de liderança, e às vezes é necessário ser autoritário mesmo. A conversa com um é diferente da que se tem com outro. Um é mais sensível, outro é mais cerebral, outro talvez seja mais limitado. Uns pedem ordens; outros, conversas. Há que conhecer e considerar todos.
Lavard com o filho Laurits | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 –Tu te caracterizas como durão ou conciliador?
Lavard — Depende muito da orquestra. Quando não há disciplina ou estudo, eu sou muito duro. Quando há, eu sou aberto, acessível, tenho humor. Eu tive uma orquestra de músicos da Geórgia que estava residente na Alemanha. Fiquei lá dois anos… Foi insuportável, eu agi duramente e só deu rolo. Havia um grupo acomodado nas primeiras cadeiras que era mais velho e não tocava nada bem. E tinha um grupo excelente de jovens que pedia passagem. Estes me apoiavam. Foi um caso grave, houve até luta física entre eles. Os músicos das primeiras cadeiras não aceitavam a rotatividade que hoje em dia é normal. Eles não queriam saber disso, tinham uma formação meio soviética, mas eu fora contratado justamente para modernizar uma orquestra que era patrocinada pela Audi. Também não aceitavam críticas a seu modo de tocar, levavam tudo para o lado pessoal. Mas, feliz ou infelizmente, o maestro tem que ser o chefe. Quando eu entro numa orquestra, penso no tempo que permanecerei lá e como posso educá-la do jeito que quero. O som, o estilo e a forma de tocar são determinadas pelo maestro. É triste ver que os muitos maestros não têm essa obsessão de imprimirem suas assinaturas nas orquestras. Com toda a modéstia, eu posso dizer que imprimi meu estilo em Neuss e na Salzburg Chamber Soloists.
“Quando aparece alguém talentoso e com vontade de aprender, eu faço de tudo para mandá-lo para Salzburg”. | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 — Tu também tens importante atividade pedagógica, não?
Lavard — Sim. Dou aulas em Salzburg e algumas vezes convidei músicos daqui para completarem suas formações comigo no Mozarteum. Todos eles estão bem colocados em orquestras brasileiras. Quando aparece alguém talentoso e com vontade de aprender, eu faço de tudo para mandá-lo para Salzburg. O custo para brasileiros é de 570 euros por semestre. Nosso conservatório é muitíssimo superior à esmagadora maioria dos norte-americanos, onde se paga até 25 mil dólares por semestre.
Sul21 — Qual é tua orquestra dos sonhos?
Lavard — Eu acho que a melhor orquestra alemã que jamais existiu foi a Filarmônica de Munique, sob a direção de Sergiu Celibidache. O que eu gostava em Celibidache – e meu professor em Salzburg, Sandor Végh, também era assim – é que havia uma filosofia, um conceito por trás, eles faziam música para entender a vida. Para eles, a música não era só notas e beleza, era mais importante que a religião. Eles procuravam o significado daquilo que estava entre as notas, do que emergia delas. A estética da música de Celibidache era uma coisa filosófica, muito profunda. Fora isso, a técnica de montar uma orquestra, de afiná-la e de fazê-la entender a música e o que estava acontecendo, eram únicas, era uma coisa de uma inteligência cultural que poucos alcançam. Celibidache conseguia unir técnica, espiritualidade, agressividade, tudo. Especialmente a música de alguns grandes artistas — falo de Mozart, Bach, Schubert, Haydn, Beethoven — têm significados muito profundos. A partir deles você entende muitas coisas íntimas da alma, do espírito. São coisas que mexem contigo. Como disse Beethoven, não existe coisa igual à música. Nem a filosofia, nem a religião, nem a psicologia chega perto da música. A música realmente pode resolver coisas. E quem tomou a sério estas noções foram Sandor Végh e Celibidache.
“Uma gravação é como um retrato de uma pessoa. Você tem o retrato, mas não o prazer da presença”. | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 — Como entender os significados, vozes e intenções?
Lavard — Não é nem uma questão de compreender. Um repórter perguntou ao Celibidache o que era a tal transcendência de que ele tanto falava, e ele respondeu que não tem como explicar a palavra transcendência porque ela também é transcendental! (risos) Porque a música é uma coisa passageira, ela existe neste instante. Quando tu escutaste a nota, ela já é passado. Um quadro eu posso olhar o tempo inteiro, posso estudar, o pintor pode modificá-lo. A música não. Celibidache nunca quis fazer gravações de estúdio porque ele pensava a música a partir do momento espontâneo do concerto, dessa existência efêmera. Uma gravação é como um retrato de uma pessoa. Você tem o retrato, mas não o prazer da presença. Eu também não gosto muito de gravações, mas você aprende coisas quando grava, apesar de que nunca vai ser a mesma coisa do que um concerto ao vivo. Os concertos ao vivo são a música de verdade.
Sul21 — E o repertório dos sonhos?
Lavard — Bem, minhas especialidades são Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert. Também tenho muita afinidade com a música francesa e gosto muito de Brahms e Bruckner. O que eu não aprecio muito é a ópera, só suporto as de Wagner e Mozart e alguma coisa de Puccini. Rossini, Donizetti, etc., não gosto muito deles. Essas historinhas do cara que casou errado, do amor escondido, das mocinhas, dos disfarces, acho muito bagaceiras… Isso era coisa pra divertir o pessoal daquela época. Hoje em dia não faz sentido.
“Acredito que os manifestantes foram muitos sábios ao protestarem durante a Copa das Confederações. Meus amigos me perguntavam o motivo; afinal, para os europeus, somos o país do futebol.” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 — E o programa do teu concerto com a Ospa na próxima terça-feira?
Lavard — A primeira parte é Mozart, minha especialidade. Eu vou reger a Sinfonia Nº 38. Na segunda parte, eu vou reger e tocar o primeiro violino solo nas Metamorphosen, de Richard Strauss. É uma obra muito complicada, não sei se vai dar certo, mas vamos ver! É escrita para 23 solistas — 10 violinos, 5 violas, 5 violoncelos e 3 contrabaixos. Deixa eu te contar uma coisa: no dia 10 de abril de 1945, Strauss batizou a composição como Réquiem para Munique, porque ele era do Partido Nazista e estava escrevendo para os alemães que estavam sendo derrotados na Segunda Guerra Mundial. Strauss sofreu muito pelo fato dos alemães não terem conseguido se desenvolver depois da I Guerra Mundial. Sofreu mais ainda quando Hitler foi ladeira abaixo. Então ele escreveu um Réquiem. Só que, quando ele criou esse título, alguém mais esperto lhe disse que ninguém ia tocar a obra! (risos) Aí então ele botou Metamorphosen, que é uma coisa completamente objetiva, sem nenhum contexto político. Mas bem no final, nos últimos dez compassos, os contrabaixos tocam o motivo do segundo movimento de Eroica, de Beethoven. E aí o Strauss escreve “In Memoriam” na partitura. Neste ponto a gente percebe que o Réquiem original está escondido ali. E é uma peça maravilhosa, lindíssima, romântica ao mais alto e digno grau.
“Essas historinhas do cara que casou errado, do amor escondido, das mocinhas, dos disfarces, acho muito bagaceiras…” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 — Tu gostas muito de futebol, infelizmente és gremista… E a Sala Sinfônica da Ospa? Parece que há dinheiro para os estádios, já para a cultura…
Lavard — Sim, você é colorado, eu sei pelo Facebook (risos). Hoje em dia, o futebol está emburrecendo as pessoas. Isso acontece em todo o mundo. Parece que o futebol é a única coisa que importa. Você abre o noticiário e a primeira coisa é o futebol. Eu acho errado. O futebol tem que retornar ao seu lugar. E olha que eu adoro futebol! Aqui, por exemplo, só se fala e só se briga pela Copa. Por exemplo, a Ospa, que tem um enorme potencial e é uma instituição da cidade, ficou esquecida. Eu acho isso um escândalo. Eu acho que os músicos da orquestra têm razão em fazer greve e cancelar concertos, as condições que eles estavam quando eu regi, em 2011, naquela sala onde ensaiamos lá no Cais (o armazém A3), eram escandalosas. Eu sou brasileiro e fico indignado com este tratamento. Acredito que os manifestantes foram muitos sábios ao protestarem durante a Copa das Confederações. Meus amigos me perguntavam o motivo; afinal, para os europeus, somos o país do futebol. Eu tentava explicar que quem não tem o básico, talvez não deva pagar por algo caro como uma Copa do Mundo. Um povo sem cultura é um povo perdido. A cultura é a única coisa que nos mantêm vivos. A cultura é o catalisador para entender a vida, não interessa se é pintura, escultura, dança, música, teatro, poesia; a cultura é a coisa mais importante, mais importante do que a religião. A cultura leva a entender a vida e isso é fundamental. A música é a medicina da alma. A cidade tem que ter uma grande orquestra. Como disse o Erico Veríssimo, “eu tenho orgulho de morar numa cidade que tem uma orquestra sinfônica”. Isso tinha que estar bem grande em cima da Rua da Praia, tinha que escrever lá “Nós temos uma orquestra sinfônica e é a Ospa.”.
“Sendo maltratada, qualquer pessoa acaba sem vontade de trabalhar” | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 — Atualmente a gente passa pela Av. Independência e vê o prédio do ex-Teatro da Ospa sendo destruído. Sugiro-te nem passar lá, é deprimente. E a Ospa, hoje é jogada de um lado pra outro.
Lavard — Já passei por lá… Eu vejo nosso ensaio de hoje (9 de abril), na sala Elis Regina, como um bom passo, como uma perspectiva positiva no horizonte da Ospa. É uma sala muito boa, ótima. Faltam coisas fundamentais como o ar condicionado, mas é uma boa sala, muitas orquestras europeias não têm uma sala como aquela. Mas hoje devo ter perdido dois litros de suor ensaiando lá! Sendo maltratada, qualquer pessoa acaba sem vontade de trabalhar, é uma pena. Em São Paulo conseguiram montar uma ótima orquestra, com estrutura. É seguir o caminho.
Sul21 — Os políticos admiram a Ospa. Seus discursos são sublimes. Mas na prática tal admiração não se confirma.
Lavard — Tudo funcionava melhor na época em que havia maestros muito capazes e influentes, como Eleazar de Carvalho e David Machado, verdadeiras feras. Não quero dizer que isso seja bom, mas quando eles queriam uma coisa, brigavam, exigiam e conseguiam. Às vezes não adianta ser diplomático e democrático, às vezes o que resolve é o soco na mesa. Lamento dizer isso.
Abel, eu tinha previsto. Olha só o que eu escrevi ontem ao meio dia no Facebook, horas antes de Chapecoense 5 x 0 Inter:
… acho que os erros e a entrega da partida para o Cruzeiro, no último sábado, desmotivaram todo o grupo de jogadores. Se o jóquei é cagão, o cavalo sente.
Sim, se o jóquei demonstra hesitação e medo, o cavalo toma conta e faz o que quer. Por exemplo, em vez de saltar sobre o próximo obstáculo, vê a porteira aberta e dirige-se para a sombra onde gosta de descansar. Na minha opinião, Abel, tu não és apenas cagão, tu estás certamente brigado com o grupo de jogadores. Pois nada explica o que segue:
1. Alex, protagonista absoluto do time nos últimos jogos, fica no banco contra o Cruzeiro.
2. D`Alessandro é retirado ontem no intervalo para dar entrada a Valdívia. Enquanto isso, Alan Patrick, uma das piores contratações nos últimos anos, permanece em campo.
3. Alan Patrick é escalado no lugar de Valdívia no jogo de ontem.
4. Paulão é titular, enquanto Ernando é reserva.
5. Aránguiz, um dos melhores jogadores sul-americanos, é colocado repetidamente fora de sua posição.
É óbvio que Abel está brigado com Dale e Alex e, provavelmente, em vias de ter um desentendimento com Aránguiz. Num mundo ideal, Giovanni Luigi se demitiria neste minuto e, num mundo que deseja corrigir-se, Luigi acabaria o ano e sua risível gestão sem Abel. Pois não dá mais.
O que Abel faz com seus jogadores comprova o que diz meu amigo Miguel Galbarino: ele não sabe porque estava vencendo e agora também não sabe o motivo das derrotas. Acho que nós não somos mais favoritos para o G-4. Ficaremos na TV, vendo o Grêmio divertir-se na Libertadores 2015, enquanto recebemos o Gauchão em nossa cama, de pernas abertas.
Ah, parabéns à Chapecoense, que viu e se aproveitou de nossas óbvias fraquezas. Foi 5 x 0 e poderia ter sido ainda mais.
A implosão do Olímpicoestá confirmada para janeiro de 2015. Comprarei charutos e espumantes para assistir a demolição. Eu, Mato Grosso e o Joca estaremos lá. Deus dá o estádio conforme o torcedor.
Quando a saudosa maloca for pelos ares, eu e meus amigos lá estaremos brindando. Imagine o filme que faremos. Haverá a explosão e, após o som tonitruante, veremos o pó subir com a trilha sonora da música do Canal 100. Para garantir a seriedade e o respeito aos gremistas, faremos uma homenagem a Hélio Dourado. Somos gente de respeito.
Com a terraplanagem do Olímpico, as conquistas do Grêmio serão resgatadas das fitas VHS e de outros meios mais obsoletos para o digital. Afinal, alguém tem que respeitar a história do chamado imortal. Imortais também são o bullying e as piadas prontas com que o tricolor nos abastece. Obrigado, Grêmio!
Do jornalista e escritor Flávio Tavares, autor de vários bons livros e importante figura na luta contra a ditadura militar, ao receber o titulo de Cidadão de Porto Alegre (citação retirada de ZH):
Recebi (o título) como homenagem às posições independentes, destituídas de fanatismo, intemperança ou rancor que tento manter ao longo de 80 anos de vida. Ao agradecer, frisei que me esforço para ser aberto e sem preconceitos, mas sem ser neutro ou impassível. Não há neutralidade quando o crime nos espreita a cada dia, quando se cultiva o individualismo egoísta e se abandona a solidariedade. Menos ainda quando se degrada a vida no planeta.
No que faço ou escrevo, nos livros e artigos de jornal, nos amores e dores, busco guiar-me pela máxima de austeridade de São Josemaría Escrivá: “Não criemos necessidades. Aquele que menos necessita, mais tem”. Feito isto, a recompensa será a vida.
Tudo bem se São Josemaría Escrivá não fosse o fundador da Opus Dei. Destituído de fanatismo? Sei lá. Sigo gostando do Flávio do passado..
Fabio Armiliato: um cantor espetacular, mas só no chuveiro
Era uma noite de concerto da Ospa e já haviam me alertado que os ensaios de segunda e terça-feira tinham sido bons e que eu poderia elogiar alguns solos de inédita compreensão musical, mas, infelizmente, só posso comentar o que vi e ouvi, da forma como vi e ouvi. E, como a Elena estava em recuperação em casa, não fui, não vi nem ouvi. Mas vi um filme por indicação dela. Por ela e ele, fiquei em casa e ri, muito.
Para Roma, com amor é um filme de 2012 de Woody Allen que não tinha visto nos cinemas. É um exemplar que se destaca dos últimos filmes de Allen por ser extremamente engraçado. Nele, são contadas alternadamente quatro histórias. Numa delas, um casal americano, papéis de Woody Allen e Judy Davis, viaja para Roma a fim de conhecer a família do noivo de sua filha, cujo pai revela-se um extraordinário cantor de ópera, mas apenas quando sob o chuveiro. Outra história envolve um italiano comum, papel de Roberto Benigni, que se torna uma inexplicável celebridade. Um terceiro episódio retrata um arquiteto da Califórnia, Alec Baldwin, que visita a Itália com um grupo de amigos, vendo seu passado na pessoa de um rapaz que é seduzido por uma dessas mulheres que buscam, cheias de artifícios, a atenção sexual dos homens em torno. Por último, temos dois jovens recém-casados do interior da Itália. Tudo parece ir muito bem até que a moça se perde pela Roma histórica atrás de alguém que lhe arrume o cabelo. O filme foi um grande sucesso, tendo arrecadado 73 milhões de dólares.
Lembro que o filme irritou alguns italianos destituídos de uma das formas da inteligência, a auto-ironia. Bobagem. Talvez a mais hilariante das histórias seja a do produtor musical “à frente de seu tempo” Woody Allen. Ele resolve levar ao estrelato o cantor de banheiro. O conhecido tenor Fabio Armiliato vive este papel de forma absolutamente brilhante, trazendo para o filme todo o fanatismo dos italianos pela ópera, além da arte milenar dos cantores de chuveiro… Judy Davis está perfeita no papel da cética psiquiatra, esposa de Allen. Nesta história, aparece a primeira italiana típica: a indignada cuidadora do marido cantor e dos filhos. Na segunda história, Roberto Benigni é um burocrata sem graça, até que começa a ser perseguido pela praga romana dos paparazzi, presentes no cinema italiano desde Fellini. Nestas duas partes, temos mais dois arquétipos: a italianuda esbelta, peituda e gostosona e a que esposa que preserva seu casamento, não obstante… não obstante qualquer coisa. A mais internacional das histórias é a da moça cheia de artimanhas que conquista todos os homens que lhe aparecem pela frente. Voltamos à Itália na história do casal que se perde um do outro. É tão engraçada quanto a do cantor. Como muitas vezes ocorre, a mulher é muito mais esperta do que o homem, que casou virgem e que acaba envolvendo-se com uma prostituta vivida magnificamente pela mimética Penélope Cruz. A mulher do interior, coitada, provavelmente jamais será feliz com seu marido catolicão.
O filme é muito bom. Foi saudado tanto por minhas risadas quanto pelas da Elena, cuja cabeça encontrava-se no meu ombro.
Acho engraçado quando me chamam de petista. Sou filiado a um partido, mas ele tem mais letras. Então, sinto-me muito tranquilo para comentar que o súbito aparecimento de José Ivo Sartori na primeira colocação das eleições estaduais revela uma curiosa característica do anti-petismo do RS e no Brasil. O direitoso parece pensar mais ou menos assim: “Não interessa em quem eu voto, interessa apenas contra quem voto”. E atualmente o diabo é o PT. Não é surpresa que alguns candidatos apregoassem “Eu posso derrotar o PT”. Afinal, este é seu real objetivo, não o de nos governar ou legislar de forma a tornar melhores nossas vidas. Após as denúncias sobre as terras e o CC de Ana Amélia, os votos da direita voaram para a serra, onde estava o candidato mais próximo e não “de esquerda” nas pesquisas. Se as pesquisas dizem alguma coisa da realidade, a migração de votos deve ter tapado o sol em Caxias do Sul neste fim-de-semana.
Algo semelhante ocorreu após a derrocada de Marina. Seus votos sumiram e foram parar em Aécio.
Sartori, seu sorriso e sua polenta não parecem muito com Ana Amélia. Sartori parece mais com Germano Rigotto. Com ar de tiozão paz e amor, tem a pretensão de agradar a gregos e troianos, ou aos petistas e progressistas que amanheceram deprimidos hoje, após serem torpedeados por bem-endereçados peitos e coxas vindos das galeterias da serra. Leiam o que ele disse: “Não quero ser visto como inimigo dos eleitores de Tarso, mas também quero ser reconhecido pelos eleitores da Ana Amélia. Fizemos uma campanha limpa e propositiva. E não vamos entrar nessa de agredir esse ou aquele, agradar um ou outro. Vamos fazer uma campanha limpa. Os eleitores de Tarso não serão nossos inimigos”, repetiu.
O discurso de Sartori é esperto e demonstra bem o que é seu partido, o PMDB. O PMDB é um partido alongado e eclético, tolerante e atlético, que adere e corre ao lado de qualquer um, sempre com um sorriso nos lábios. É sem dúvida um terrível adversário para Tarso Genro, pois se metade dos eleitores de Ana Amélia aderirem a ele, o Sartori leva o estado. Na boa, tenho medo. Sempre espero o pior desses caras desconhecidos da direita e raramente me decepciono.
Pasmem, Lasier Martins é Senado de República | Foto: Luiz Munhoz
A eleição de Lasier Martins para o Senado Federal ficará marcada como uma das maiores máculas de nosso estado, de nosso estado tão politizado, politizadíssimo… Sem entrar em detalhes, afirmo que Lasier é simplesmente um ser humano de menor qualidade. Acho que o tratamento que ele deu àquele funcionário da PF basta para demonstrar o fato. Seu principal adversário, Olívio Dutra, era a melhor resposta do PT ao ex-comunicador da RBS, mas não era a melhor resposta ao anti-petismo. Diria que o Olívio era a melhor resposta do PT ao PT. Olívio sentia-se incomodado com os rumos do partido e apenas viu-se ressuscitado quando este notou claramente o perigo de perder a vaga de senador para Lasier, um bisonho e veterano comentarista político sem prévia experiência parlamentar A militância entusiasmou-se com o bigode, mas o anti-petismo permaneceu impermeável. Deste modo, quatro anos depois, Lasier repete Ana Amélia Lemos. Ambos comentaristas da repetidora da Globo no RS, ambos eleitos senadores.
A vitória de Lasier Martins passa por vários fatos que vão desde o antipetitsmo — que vota em qualquer um que possa derrotar o partido — até a falta de informação e cultura de nosso estado e do país. O problemático ex-centroavante Jardel dá entrevistas em que parece não saber bem sobre o que fala. Talvez já fosse assim quando jogador. Ele é um dos novos membros da Assembleia Legislativa de nosso estado, assim como Regina Becker, a fofa defensora dos animais. Seus 41 mil votos comprovam — contra os 36 mil de Pedro Ruas e os 23 mil de Fernanda Melchionna, apenas para dar exemplos –, que a informação e a educação política passam longe do RS. Acho estranho quando combatem minha tese de que o voto obrigatório é um erro, consistindo somente em mais uma obrigação banal para o cidadão brasileiro médio, que vai lá e faz bobagens. Se fosse facultativo, talvez tivéssemos o resultado das pessoas que se preocupam minimamente com política no estado e não a excrescência que vemos hoje, dia seguinte às eleições.
Por outro lado, o pasmo petista com sua baixa votação pode levar o partido a olhar seu próprio umbigo. O partido comunica-se mal com a sociedade. Por exemplo, faz sua publicidade sempre nos velhos jornais — cada vez menos lidos — que o combatem. A atitude reverente à RBS se parece com uma confissão de culpa. Trato mal o papai, mas lhe dou dinheiro. O PT nunca lançou mão de uma modesta arma que tinha: o de reduzir as verbas de publicidade para os grandes grupos de comunicação, destinando parte destas para os pequenos veículos. Nunca fez isso, seja em âmbito federal, seja em estadual. Outra coisa são seus quadros. Na Feira Ecológica da Redenção, ouvi uma conhecida candidata do partido garantir em voz altíssima a uma senhora idosa que “Era sim, cristã”. Ela tinha chegado à conclusão que ser cristã fazia alguma diferença, então largou o que parecia ser um bordão. Ora, se tivesse mais noção de seu papel, a candidata deveria contestar a importância do questionamento. Essas concessões e a indulgência do partido para com o senso comum desgastaram o PT. Conheço outra candidata do partido que nunca leu uma obra política, que é irremediavelmente desinformada e que foi colocada lá porque trabalha numa conhecida empresa de serviços. Obteve poucos votos, mas é trabalhadora, sorridente e um dia, para nossa infelicidade, acabará eleita.
Sim, essa lógica de pegar o comunicador, o vendedor de sorvetes ou de pneus mais conhecido pode funcionar, mas é uma mudança de rumos crucial para um partido baseado em ideologia. Tal fato só aumenta a burrice geral do estado.
Voltarei ao assunto, pois, na verdade, estou em pânico com os rumos estaduais.
A obsessão de bloquear todos os caminhos do oponente também significa multiplicar o número de bolas de que ele vai dispor.
Marcelo Bielsa
Abel, agora leia o que o Igor Natusch escreveu ontem em resposta a uma postagem minha no Facebook:
Hoje o Abel foi, para usar o termo técnico, cagão. E burro. O Inter não é um time veloz, isso até os vazamentos do Gigantinho sabem. Um time lento não pode jogar atrás contra um adversário mais forte, porque vai acabar sendo encaixotado; tem que jogar mais à frente, mantendo o controle da bola do meio do campo para frente, sempre o mais longe da própria meta quanto possível. No primeiro tempo, o Inter ficava com a bola na defesa e TROTAVA em direção ao ataque, carregando a bola ao invés de fazê-la rodar em campo – nada mais natural, já que o time todo estava atrás da linha da bola e inexistiam jogadores capazes de ocuparem posições ofensivas com rapidez. Foi só botar Alex e o time melhorou: teve a bola mais tempo, carregou o jogo de forma mais produtiva. Perder para o Cruzeiro fora de casa é normal, mas Abel dificultou as coisas para si mesmo.
Ora, toda a América Latina sabe a posição correta de Aránguiz — um dos maiores jogadores do continente — num time de futebol. Tu, Abel, não sabes e insistes num erro que, aliás, já tinha cometido e corrigido. Com a repetição do erro, isto é, com a colocação de três volantes, tu chamaste o Cruzeiro para o teu campo, “multiplicando o número de bolas à disposição” do adversário. Tu deste a bola para o melhor time do Brasileiro, Abel. Desculpe, mas que burrice.
O mais incrível é que fizeste uma substituição correta — a de Sacha, machucado, por Valdívia –, porém, de graça, pela mais pura covardia, colocaste o volante Willians em campo no lugar de Alex, que vinha sendo o protagonista de várias vitórias recentes do Inter. Incrível! Quase saí da frente da TV quando vi tua novidade. Tu és inventor, inventor, inventor, tolo, cagão e burro.
Quando Alex entrou em campo no intervalo no lugar de um dos volantes… Que coisa, né? O time começou a enfrentar o Cruzeiro de igual para igual, marcando um gol e podendo até empatar. Posso te resumir? Abel, tu és um bom técnico, sabes dar dinâmica a um time, mas fazes péssimas alterações antes e durante os jogos, quando tua fantasia e teus medos desenfreados remexem teus intestinos. Tu precisas de um auxiliar mais corajoso ou, como dizemos um tanto preconceituosamente aqui no RS, mais macho.
Cara, desculpe, mas tu é muito frouxo.
Como escreveu o Emilio Carlos Baino, “acho que o campeonato [a luta pelo título] acabou. Inter, São Paulo, Atlético-MG, Grêmio e Corinthians disputarão as vagas remanescentes para a Libertadores. Do Bahia para baixo, haverá luta sangrenta para o rebaixamento. O Cruzeiro está em outro patamar futebolístico”. E, para piorar, ainda há técnicos vice-líderes que têm medinho da Raposa. Aí acabou mesmo.
O escritor Bernardo Guimarães (1825-1884), nascido em Ouro Preto e cuja notável austeridade pode ser apreendida na foto abaixo, escreveu A Escrava Isaura. OK, mas comecemos a leitura de seu clássico poema Elixir do Pajé.
O ínclito Bernardo Guimarães
Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo,
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?
Ao mesmo tempo em que escrevia o citado romance e também O Seminarista, O Garimpeiro e O Ermitão de Muquém – todos romances medíocres filiados à vertente regionalista da ficção romântica brasileira -, Bernardo….
Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!
…criou uma obra poética dotada de dimensão crítico-humorística incomum em meio aos indianismos, arroubos de eloquência e subjetividades lacrimejantes do romântismo brasileiro. (Flora Sussekind).
Que é feito desses tempos gloriosos
em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo
tremendas cabeçadas?
O Elixir do Pajé, assim como o extraordinário A Origem do Mênstruo, só teve impressões clandestinas em folhetos de poucas páginas.
Qual hidra furiosa, o colo alçando,
co`a sanguinosa crista açoita os mares,
e sustos derramando
por terras e por mares,
aqui e além atira mortais botes,
dando co`a cauda horríveis piparotes,
assim tu, ó caralho,
erguendo o teu vermelho cabeçalho,
faminto e arquejante,
dando em vão rabanadas pelo espaço,
pedias um cabaço!
Um escritor da época, Artur Azevedo, nos revela que “de todos os livros de Bernardo Guimarães, o escrito mais popular é um poema obsceno intitulado Elixir do Pajé, que nunca foi impresso com o nome de seu autor. Porém é raro o mineiro que não o saiba de cor. Há na província um sem-número de cópias desse Elixir inútil e brejeiro.”
Um cabaço! Que era este o único esforço,
única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas
são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.
A edição oficial das “poesias completas” de Bernardo Guimarães pelo Instituto Nacional do Livro, com data de 1959, omite sem (ou com) pudor alguns de seus poemas e mantém uma atitude de incompreensão diante de sua veia satírica e humorística.
Quem extinguiu-te o entusiasmo?
Quem sepultou-te neste vil marasmo?
Acaso para teu tormento,
indefluxou-te algum esquentamento?
Ou em pívias estéreis te cansaste,
ficando reduzido a inútil traste?
Porventura do tempo a dextra irada
quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
e assim deixou-te pálido e pendente,
olhando para o solo,
bem como inútil lâmpada apagada
entre duas colunas pendurada?
Mas além de banir a produção satírica e humorística de Bernardo, os critérios românticos também não se ajustavam à sua lírica, nem sempre em consonância com os padrões da época.
Caralho sem tesão é fruta chocha,
sem gosto nem cherume,
linguiça com bolor, banana podre,
é lampião sem lume,
teta que não dá leite,
balão sem gás, candeia sem azeite.
Coube a Haroldo de Campos, em linhas sumárias mas decisivas, apontar de modo pioneiro a importância deste novo e ignorado Bernardo Guimarães.
Porém não é tempo ainda
de esmorecer,
pois que teu mal ainda pode
alívio ter.
…..
Terá Bernardo descoberto um Viagra indianista e romântico?
Eis um santo elixir miraculoso,
que vem de longes terras,
transpondo montes, serras,
e a mim chegou por modo misterioso.
…..
Com mais de cem anos de clandestinidade e antecipação, o Elixir impõem-se como a manifestação mais integral e debochada daquele indianismo às avessas que Haroldo de Campos teria visto em Oswald de Andrade.
Esse velho pajé de piça mole,
com uma gota desse feitiço,
sentiu de novo renascer os brios
de seu velho chouriço!
…..
No Elixir, uns dos alvos de Bernardo é o ritmo e a retórica de Gonçalves Dias em poemas como I-Juca-Pirama e Os Timbiras. E olha o ritmo do I-Juca-Pirama chegando aí, gente!!!
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea
da noite ou de dia,
fodendo se via
o velho pajé!
…..
E, na sátira ao indianismo, o índio vira sátiro.
Vassoura terrível
dos cus indianos
por anos e anos
fodendo passou,
levando de rojo
donzelas e putas,
no seio das grutas
fodendo acabou!
E com sua morte
milhares de gretas
fazendo punhetas
saudosas deixou…
José Veríssimo declarou que a metrificação de Bernardo é em geral mais rica, mais correta e mais variada que a de outros românticos. E completa dizendo que a forma é também mais clássica, mais simples, mais calma e mais fria. Sintam a calma do próximo trecho.
Feliz caralho meu, exulta, exulta!
Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos,
eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;
alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores,
já pródiga em favores
hoje novos triunfos de prepara,
graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!
Só em Oswald de Andrade (O Santeiro do Mangue) e Gregório de Matos, encontra-se algo próximo a esta grossa prosa de palavrões, erotismo satírico e escatológico, tramada em tão inventiva poesia antipoética.
Vinde, ó putas e donzelas,
vinde a mim abrir as vossas pernas
ao meu tremendo marzapo,
que a todas, feias ou belas,
com caralhadas eternas
porei as cricas em trapo…
Graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!
…..
Sem mais interrupções, deixo vocês com o final da epopeia.
Este elixir milagroso,
o maior mimo da terra,
em uma só gota encerra
quinze dias de tesão…
Do macróbio centenário
ao esquecido marzapo,
que já mole como um trapo,
nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia
que só com uma estocada
pôe a porta escancarada
do mais rebelde cabaço,
e pode um cento de fêmeas
foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço…
Desculpa, tive que interromper novamente. Quinze dias de tesão? O Cialis dá umas 6 horas, o Viagra menos!
Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!
Sim, faze que este caralho,
por sua santa influência,
a todos vença em potência,
e, com gloriosos abonos,
seja logo proclamado
vencedor de cem mil conos…
E seja em todas as rodas
d`hoje em diante respeitado
como herói de cem mil fodas,
por seus heróicos trabalhos,
eleito – rei dos caralhos!
Os fragmentos do Elixir aqui publicados foram copiados do livro “Poesia Erótica e Satírica” de Bernardo Guimarães (Imago, 1992). Esta edição tem organização e prefácio de Duda Machado, do qual roubei algumas interrupções que fiz ao clássico Elixir.
O concerto de ontem foi utilizado para homenagear os 119 anos do Correio do Povo. Se Juremir Machado da Silva teve o bom gosto de dar um discurso curto, a empresa responsável pelos espumantes servidos na porta do Salão de Atos da UFRGS poderia ter sido mais feliz. Havia muita gente rindo e reclamando da beberagem. Rindo porque a cavalo dado não se olha os dentes e reclamando porque, pô, caiu mal no estômago. Tão mal que quase não pude rir da citação laudatória de Juremir a Erico Verissimo, escritor com o qual ele contraiu conhecidos problemas póstumos.
O programa do concerto era o seguinte:
W. A. Mozart: Concerto para piano nº 22, K. 482
Johannes Brahms: Sinfonia nº 2, Op. 73
Regente e solista: Ira Levin
Tinha assistido o ensaio da Ospa na segunda-feira à noite. Nela, o concerto de Mozart já fora tocado de forma esplêndida pelo dublê de maestro e pianista Ira Levin. E ontem à noite, ele repetiu a dose, acrescentando ainda mais qualidade ao que fizera no dia anterior. A nova dosagem não foi excessiva, até tomaríamos mais dela, e serviu para que esquecêssemos um pouco o espumante da entrada. Mas houve emoção, e como!!! O pessoal do Salão de Atos resolveu brincar com a luz enquanto Levin esmerilhava na cadência do primeiro movimento. Como se estivéssemos numa versão de Mozart para motéis, a luz foi diminuiiiiiiiindo até que, no palco, víssemos apenas a silhueta de Levin ao piano — pois a orquestra já sumira antes, pudicamente. Depois, a luz retornou forte para voltar a diminuir lentamente mais umas duas ou três vezes. Ou seja, parecia que um casal estava regulando a luz para que esta servisse de catalisadora de prazeres ainda maiores. Olhei para o teto na expectativa de que surgissem espelhos, procurei preservativos e nada. Realmente, o serviço da noite não era de primeira qualidade.
Por falar em cadenzas, Ira Levin deve ter escrito suas próprias, pois estas eram longas, muito interessantes e originais, passando longe do padrão Paul Badura-Skoda, adotado pela maioria dos pianistas. O Concerto Nº 22 não é tão famoso quanto os dois que o antecederam (ele compôs o 20º, o 21º e o 22º de enfiada) possivelmente porque ele não possui os temas marcantes deles. Mozart não escreveu cadências para esses concertos ou, se as fez, foram perdidas. Não obstante as peripécias com a luz, a interpretação saiu pra lá de boa, com destaque para o solista e para a segurança do trompista Alexandre Ostrovski, tranquilo condutor de bons momentos da orquestra.
Após os aplausos ao concerto de Mozart, Levin não se fez de rogado e brilhou intensamente num bis complicado: São Francisco de Paula caminhando sobre as ondas, de Franz Liszt. Era adequado para a noite. Afinal, chovia. Ah, o piano estava sem tampa. Por quê?
Se a primeira sinfonia de Brahms — minha obra preferida no gênero — é uma obra tensa e poderosa, a segunda é uma leve pastoral. E como os críticos são chatos, meu deus! A primeira sinfonia de Brahms foi denominada por alguns destes incompreensivos senhores de “a décima de Beethoven” e a segunda foi comparada com a sexta, a Pastoral, também do mestre de Bonn. Para piorar, Brahms escreveu a composição no campo… Porém, na verdade, todas as sinfonias citadas têm pouco a ver. E, bem, com exceção de seu adágio, a 2ª de Brahms é cheia da contida e densa felicidade típica do compositor. Curiosamente, sua maior preocupação era a de que o terceiro movimento não fosse confundido nem dançado como uma valsa…
A Ospa foi pra cima de Brahms com entusiasmo. Comentei com alguns músicos como a orquestra “gritava” a fim de tentar “molhar” a acústica seca do Salão de Atos. Tal artifício deixou especialmente claro o baixo número de violoncelos da orquestra. Os caras me pareceram no limite, por assim dizer. E o papel do naipe era importantíssimo na apresentação de temas no primeiro e segundo movimentos. Mas é impossível reclamar do comportamento do sexteto de cellos. Eles fizeram, literalmente, chover, como comprovamos na saída do teatro. Outro destaque foi novamente o trompista Ostrovski, sempre afinado e espécie de dono da noite ao lado de Levin. Só o citado adágio me decepcionou. Achei chocha a abordagem. Em compensação, a curta coda deixou todo mundo feliz e louco para aplaudir com a presença de fanfarras que utilizam o segundo tema do movimento final.
Como inútil recado final, digo que a Ospa deveria marcar seus concertos a cada duas semanas, com os programas devidamente ensaiados sendo apresentados mais de uma vez. Nada de realmente artístico amadurece em uma semana.
E eu esclareço, pois sua filha não estava em casa:
— Elena NIET.
Isso parece tranquilizar dona Klara Zlatin, que diz:
— Hyys hsaidk ysgqa djdç oljkls çdlf oifdajdwql, OK?
— OK.
— OK.
— Pacá.
— Pacá.
Olha, acho que me saí super bem na minha primeira conversa com a sogra.
(*) O título deste post é uma modesta e inútil homenagem a um dos maiores romances da literatura de todos os tempos: “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann. Neste livro, há um esplêndido capítulo chamado “Hans Castorp faz uma tentativa de conversação em francês”. Nele, Hans tenta conversar com a bela russa Clawdia Chauchat, a qual costumava bater as portas do Sanatório Berghof com calculada violência… A foto acima é da personagem de Clawdia, vivida por Marie-France Pisier, no filme de Hans Geissendörfer. E o prêmio de maior legenda de foto vai para…
André Carrara: missão complicada levada a muito bom termo | Foto: Ospa
Domingo à noite, fomos até a Casa da Música para assistir ao recital do pianista André Carrara. Não era pouca coisa: ele interpretaria a Sonata Nº 29, Op. 106, “Hammerklavier”, de Beethoven, e os 4 Improvisos de Chopin. A chuva fraca daquele fim de tarde estava começando quando Carrara dava início aos primeiros acordes da maior Sonata de Beethoven, com mais de 40 minutos. O Hammerklavier é um problema musical. Pode parecer incrível, mas as Sonatas de Beethoven eram ainda tocadas em cravos na sua época, então, o compositor resolveu alertar que o Op. 106 era para pianoforte ou hammerklavier. A Sonata é considerada a composição mais difícil de Beethoven para piano. Em dificuldade, apenas rivaliza com as 33 Variações sobre um Tema de Diabelli. A sonata foi escrita em 1817-18, e nela surgem pela primeira vez vários dos estilos que se tornariam comuns no período tardio de Beethoven, o dos últimos quartetos: a reinvenção das formas tradicionais, como a forma sonata, um humor súbito e algo violento e as reutilização da fuga.
A disposição dos movimentos, com a troca do scherzo para a segunda posição e a colocação do adágio na terceira, é semelhante a da 9ª Sinfonia e não é absurdo pensar que a Sonata foi uma espécie de ensaio para esta Sinfonia, principalmente se pensarmos nos dois sonhadores adágios, tão longos e belos lá e cá. É uma de minhas peças preferidas, das que tenho a impressão de conhecer cada nota, e eu estava lá por ela, não por Chopin. André Carrara já tinha interpretado a hammer no Salão Mourisco, em Porto Alegre, e no Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro.
Quando começou o primeiro movimento, eu me senti muito feliz e confortado ouvindo a música ao lado de Elena com o som da tranquila chuva que caía lá fora. Sabia que Carrara estava passando extraordinário trabalho, e tinha absoluta certeza de que a posição burguesa de mero receptor pode funcionar muito bem com Chopin, mas que a hammer algum dá trabalho para o ouvinte. É como ler Joyce, requer esforço. Então, me aprumei na cadeira.
Gostei muito da forma como Carrara executou o centro emocional da obra: o belíssimo, longo e triste adágio que os pianistas levam entre 18 e 25 minutos tocando. A interpretação de Carrara foi muito madura. Não é uma peça para amadores. Alguém chamou este movimento de “a apoteose da dor, da tristeza profunda para a qual não há remédio e que não se exprime em desabafos apaixonados, mas no silêncio”. Ou seja, é uma música de grande profundidade que vem logo após um breve scherzo muito zombeteiro, sendo que a junção de ambos funciona como uma desconcertante interrogação. A fuga final recebeu tratamento de luxo de um concentradíssimo e muito musical André Carrara. Garanto-lhes, o moço está em boa forma.
Se não me engano, Nietzsche pediu uma orquestração para a Sonata. Ah, para quê?
Carrara tocou tudo de cor, incluindo os 4 Chopins no final do programa. Bem, eu tenho lá meus problemas com compositores que amam DEMAIS seus instrumentos. Então, por algum motivo, não consigo admirar gente como Chopin, Schumann e Rachmaninov. OK, é uma limitação minha, podem me atirar pedras! Apenas suportei o compositor polonês que a Elena adora e adorou novamente.
É elogiável a iniciativa da Casa da Música de aceitar uma proposta tão radical de programa, mas um Jimo Penetril cairia bem naquela banqueta barulhenta. Quase que eu me propus a ir no Zaffari do Shopping Total ali ao lado. Afinal, foi um tremendo recital.
Bem que o Abel podia entrar no lugar do Paulão, culpado pelo segundo gol do Coxa.
Abel, Cruzeiro x Inter jogarão no próximo sábado no Mineirão. Se o Inter ganhar (47 pontos em 25 jogos) passará a disputar a liderança com o Cruzeiro (53 pts). Porém, se empatar ou perder, poderá ver o trio de times que o perseguem — São Paulo, Atlético-MG e Grêmio (todos com 43 pts) se aproximarem. No próximo jogo, provavelmente saberemos se a luta será pelo título ou pela permanência no G-4. Faltam 13 rodadas para o final do Brasileiro e a coisa pode pegar fogo. O sempre ameaçador time dos árbitros está com 40 pontos, ao lado do Fluminense.
No Beira-Rio, tivemos um belo jogo de futebol. Mas isto não significa que teu time tenha sido brilhante, Abel; significa apenas que foi uma partida cheia de gols, falhas e que passou em grande parte aberto à vitória dos dois times. Para variar, tivemos bons e péssimos momentos. Vencíamos por 3 x 1 e o Coritiba metia tamanha pressão que parecia o Bayern e não o lanterna do Campeonato. Experimenta ter um apagão contra o Cruzeiro, Abel.
O que fez o Dida no primeiro gol, Abel? Que saída de gol, hein? E O D`Alessandro? Se não variar o canto , os goleiros vão começar a pegar seus pênaltis. Ontem foi por pouco e o gringo teve que usar o rebote.
Só o futuro dirá quem foi melhor, Sacha ou… O fato é que o filho da Xuxa está cada vez mais à vontade e hoje uma ausência sua provocaria grandes lamentações no Beira-Rio — coisa inimaginável dias atrás. Do mesmo modo, sentimos a falta do volante Wellington, dado que Willians agora apenas erra passes e comete faltas. Vai ser dura a ausência de Aránguiz, já convocado para o seleção chilena. O chileno não ficará à disposição para os jogos contra a Chapecoense, no dia 9, fora de casa, e contra o Fluminense, no dia 12, no estádio Beira-Rio. Maravilhas que só ocorrem porque a CBF não respeita as datas FIFA.
Então tá, Abel. Agora é só ganhar do Cruzeiro. Barbadinha, né? 🙂