Bom Carnaval, Odair Hellmann

Bom Carnaval, Odair Hellmann

Vi atentamente as duas últimas partidas que o Inter fez com os chamados titulares. Na semana passada, contra o Boavista, uma atuação comprometedora; na última quinta, contra o bom São José, uma partida que promete boas coisas. Qual Inter veremos em 2018?

Odair: equilíbrio instável | Foto: Ricardo Duarte
Odair: equilíbrio instável | Foto: Ricardo Duarte

É muito cedo para garantir qual será, das duas versões, a que veremos mais em 2018, mas creio que tu, Odair, encontraste um caminho para sair do maldito 4-2-3-1, esquema inadequado ao grupo de jogadores disponível. Espero nunca mais ver nem a linha de 3 e muito menos Edenílson nela, pela esquerda.

A entrada de Patrick e a colocação de Edenílson no lado onde ele não fica “torto” teve efeito extraordinário. D`Alessandro ganhou um companheiro na armação (Patrick) e pode desfilar sua categoria sem ter que ir buscar a bola junto aos zagueiros e volantes. Apesar de ser um jogador em grande forma aos 36 anos, não dá para pedir que ele corra por dois. Edenílson saiu do estado de choque de ter que atuar como meia esquerda e Pottker foi o mais efetivo do jogo, fazendo dois gols e grandes jogadas.

A linha ofensiva de 4 ficou com Pottker, Edenílson, Patrick e Dale, este com maior liberdade para passear, com Dourado atrás e Damião na frente.

Aliás, Damião está pedindo uma reavaliação. Sai sempre aplaudido após não fazer absolutamente NADA. Não creio que Roger seja o cara para substituí-lo. Preferiria mil vezes ver ali o movediço e oportunista Nico López, que perderia dois gols por jogo e faria outros tantos.

Acho, Odair, que o otimismo que vejo nos colorados é consistente, mas sabemos que foi apenas um jogo e que muitas vezes a coisa se perde em derrotas idiotas. Espero que tu regues cuidosamente esta vasinho e cuides bem de tudo para que o entrosamento possa crescer. Sim, sei que há jogos eliminatórios da Copa do Brasil que podem desestabilizar tudo nas próximas semanas, por isso é que usei a analogia de mau gosto da plantinha… Pois sei que basta um pisão e tchau.

Confiamos em ti.

P.S. — Nossa direção… Desesperada atrás de Rithely, jogador reserva de Patrick no Sport, descobriu o titular estava sem contrato e trouxe o cara que não queria. Pois Patrick é a surpresa positiva do ano. A patetice desta vez deu certo, parece.

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O louco no espelho, de Lúcio Humberto Saretta

O louco no espelho, de Lúcio Humberto Saretta

O louco o espelho SarettaEste é um bom livro de crônicas sobre futebol e boxe — muito mais sobre futebol –, misturados com música e cerveja. Na verdade, Saretta nem fala muito de cerveja, mas dá vontade de ler O louco no espelho bebendo geladas num bar e, bem, eu li o livro dentro de um avião. Pena, porque tudo parece uma longa e agradável conversa. O cronista deriva de um assunto para outro até dentro de um mesmo texto, o que reforça o tom de conversação. As crônicas não estão ordenadas por temas nem cronologicamente, outro mérito do livro.

Saretta parece saber tudo de futebol, podendo escrever tanto sobre o artilheiro do Vasco da Gama nos anos 20 quanto sobre fatos mais recentes como a sequência de técnicos gaúchos na Seleção Brasileira. Para quem gosta do esporte e até para quem não gosta, vale muito a pena a leitura. Um fato que chama atenção no livro é o de o autor apresentar vários argumentos contrários ao boxe como esporte, mas sucumbir cabalmente ao fascínio daquele espetáculo. “Meu trabalho é machucar as pessoas”, diz o grande Sugar Ray Robinson, citado por Saretta.

O autor fala dos grandes, mas seus melhores textos são sobre os fracassados, viciados, bêbados, esquecidos, doentes ou azarados. A maioria dos textos são sobre coisas que não funcionaram. Heleno de Freitas, Jake LaMotta e Syd Barrett surgem como as grandes figuras que efetivamente foram nos textos de O louco no espelho.

Apesar da última observação, trata-se de um livro extremamente agradável e fluido, ideal para as férias. Eu curti e recomendo.

Lúcio Humberto Saretta aguardando para autografar alguma coisa
Lúcio Humberto Saretta aguardando para autografar outros de seus livros

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Mulher de Porto Pim, de Antonio Tabucchi

Mulher de Porto Pim, de Antonio Tabucchi

022148Quando finalmente os espanhóis conseguiram desembarcar nos Açores, em 1581, a invasão foi rapidamente rechaçada. Os açorianos aguardaram o exército espanhol sair dos navios e lhes lançaram manadas de touros enfurecidos morro abaixo, o que matou boa parte dos homens, fazendo o restante voltar às pressas e borrados para os navios. Até aqui, nada demais além dos touros, é claro. Mas só até aqui, quando lhes direi que, entre os que se salvaram, estavam Miguel de Cervantes e Lope de Vega, que recordou aquela ‘selvageria’ em seus poemas.

Antonio Tabucchi, em Mulher de Porto Pim (adaptado)

Este é um livrinho lá dos anos 80 escrito por Antonio Tabucchi, o escritor italiano mais português que já existiu. Apaixonado por Portugal, por Pessoa, Antero, pela cidade de Lisboa e que tais; tradutor de literatura portuguesa para o italiano, autor de vários e deliciosos pequenos livros — verdadeiros azulejos portugueses plenos de arte e poesia, formando um belíssimo mosaico –, Tabucchi escreveu seus últimos livros direto em português, pois não fazia mais sentido escrever em italiano. Teve também o bom gosto de casar-se com uma portuguesa. (Ah, as lisboetas!).

Neste Mulher de Porto Pim, sua lusofonia chegou ao ponto de levá-lo ao arquipélago de Açores a fim de lá pesquisar ficções, provavelmente do gênero baleeiro. Deu mais ou menos certo. O fato é que Tabucchi acabou foi fazendo uma bela crônica de suas andanças pelas ilhas e escreveu um conto bastante bom — Mulher de Porto Pim. Tudo isso entremeado de notícias históricas das ilhas.

É um livrinho delicioso de menos de 100 páginas. Como não amar Açores? No século XIX, principalmente à noite, os navegantes costumavam bater nas ilhas rochosas e naufragar. Então, os açorianos recolhiam os restos dos navios, pegavam suas proas por inteiro, cortavam-nas e construíam suas casas com elas. Explico: as casas eram triangulares, duas paredes eram a proa original e a terceira era a pedra do morro onde a proa era encostada. As janelas eram escotilhas e tudo, mas tudo lembrava o navio de onde fora retirada a casa. Dois viajantes ingleses que estiveram nas ilhas em 1839 ficaram atônitos com a beleza de algumas casas. Tudo — lanternas, assentos, mesas e até camas — quase tudo tinha sido retirado do mar. E as proas estavam lá enormes, pintadas de cores variadas…

Claro que o povo vive da pesca de baleias e todos os peixes e de seus rebanhos. Devia ser o máximo morar em uma proa…

Bem, eu curti muito a crônica de Tabucchi. Recomendo!

Tabucchi em algum lugar lusófono
Tabucchi em algum local lusófono

 Livro comprado na Ladeira Livros.

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Arte, sempre acertando em cheio no futuro

Arte, sempre acertando em cheio no futuro

O Idelber Avelar não apenas nos traz a charge, como o título do post e a seguinte descrição: “Uma impressionante charge dos anos 1920 imagina o que aconteceria se inventassem um telefone de bolso”.

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Boa tarde, Odair (com os lances do fiasco de ontem)

Boa tarde, Odair (com os lances do fiasco de ontem)

Olha, Papito Odair, há certamente um alucinógeno nas águas poluídas do Guaíba. Todo técnico que assume o Inter sofre de inomináveis confusões, começa a agir estranhamente, passa por delírios. Jamais poderei entender o motivo que te levou a repetir ontem a fracassada experiência de Caxias, escalando um volante como meia de armação. O posicionamento do Edenilson, que de volante pela direita e lateral direito foi escalado — PELA SEGUNDA VEZ — como armador pela esquerda, é sinal inequívoco de loucura. O moço Juan, de 21 anos, foi o melhor em campo no ultimo jogo contra o Avenida jogando como MEIA. E ontem pagou o alto preço de ver, do banco, um volante avançado e improvisado em seu lugar.

Edenilson: todo torto do lado esquerdo | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional
Edenilson: o mega destro todo torto pelo lado esquerdo | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

É claro que isto acarretou criatividade e lances tão surpreendentes quanto observar uma fila de formigas de longe, sentado em uma cadeira de praia.

Não pretendo perder muito tempo contigo porque desse jeito serás uma figura efêmera no comando do time. Além do mais, estou em férias.

Antes de terminar, digo-te que medalhões que jogam mal devem curtir um período de suas vidas no banco. É o caso de Damião. Ontem, perdeste uma linda oportunidade de testar Pottker como homem mais avançado com Nico mais atrás. Mas deixaste o medalhão no time, mesmo que ele erre todos os fundamentos: passes, chutes, cabeçadas, etc. Ninguém deseja queimar o bom Damião, o que não dá é para ele tentar a recuperação jogando.

De quebra, ainda foste vaiado por não escalar Nico. Mereceste. E ainda nem descobriste que o esquema 4231 não serve para nosso elenco.

Eu decididamente ignoro os motivos dos treinadores do Inter jamais fazerem o mais simples. Em vez de colocar todo mundo que está em boa fase em sua posição de origem, primeiro testam suas invenções malucas. Quando talvez pretendam fazer as coisas pela via do bom senso, já estarão demitidos.

Depois, entra um novo técnico, cheira o alucinógeno do Guaíba e começa um novo leque de invenções.

Abaixo, a mediocridade de ontem.

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As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez

As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez

As coisas que perdemos no fogoAs coisas que perdemos no fogo entrou para a lista de melhores livros de 2017 do Sul21. Dizem alguns amigos que a literatura argentina é, disparada, a melhor do mundo. E isso aconteceria há várias décadas.

Pois bem, este livro de Mariana é um exemplo que dá força a tal afirmativa. As coisas não é um livro de peso filosófico e muito menos erudito. Trata-se de contos magnificamente bem escritos (traduzidos por José Geraldo Couto) que oscilam entre a crítica social e o puro terror a la Stephen King. E é originalíssimo. E um belo exemplo de que a literatura popular também deve ser boa.

São doze contos, alguns realmente espetaculares. Outros têm o mérito de mostrar o mais desbragado terror misturado à realidade contemporânea da América Latina. Mariana Enriquez foi uma adolescente “leitora de Stephen King, das irmãs Brontë, de Ray Bradbury e de escritores de terror avulsos, surripiados entre nas livrarias de livros usados – além das histórias de fantasmas contadas pela avó, cheias de religiosidade misturada com superstições e criaturas assustadoras“. Não há melhor descrição para o que lemos. Apenas acrescentaria que os personagens vivem realidades muito próximas da nossa aqui no Brasil, o que torna tudo muito familiar, apesar do humor tipicamente platino.

O livro abre com o melhor conto do volume, O Menino Sujo, onde se tem um leque de temas bem construídos. A incapacidade para ajudar, a pobreza, um país sem direção, um auto-retrato da autora — ela mesma sub-editora do Página/12 e que se acha muito provocadora, bacana e rebelde, quando é apenas impotente.

A qualidade não cai. Em Teia de Aranha temos um retrato de macho realmente repugnante, Pablito clavó um clavito: uma evocação do Baixinho Orelhudo é absolutamente assustador, Sob a Água Negra traz uma juíza visitando uma favela e As coisas que perdemos no fogo é surreal. Todos são arrebatadores.

Como disse, o ambiente é 100% latino-americano. Há a nossa noção difusa de moral, as pessoas que se preocupam com os pobres batem de cabeça nas mais incríveis impossibilidades, a pobreza faz tudo para isolar-se e todos parecem estar (e viver como) loucos. Neste livro não há nenhum final feliz e quando não estamos falando de nosso continente, ouvimos a banda tocar a marcha do macabro, do bizarro e do apavorante.

Um livro sombrio, contemporâneo e muito, muito bom.

Recomendo.

Mariana Enriquez
Mariana Enriquez

Livro comprado na Bamboletras.

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O Conto da Aia, de Margaret Atwood

O Conto da Aia, de Margaret Atwood

O Conto da Aia, de Margaret AtwoodNa área das distopias, creio que este foi o melhor romance que li. Não é pouca coisa. Para não irritar os admiradores de clássicos como 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Nós e outros, não pretendo entrar em comparações, apenas elogiarei o livro de Atwood.

É curioso. Assisti Margaret Atwood palestrar em uma Flip lá por 2004 ou 2005. Achei-a muito fraca e desisti de lê-la. A única coisa que lembro de sua palestra foi o fato de ela ter reclamado de seu agente literário, que lhe obrigava a uma rotina de festivais que nem sempre eram em locais com a paisagem e o ambiente de Paraty. Ela apontou o dedo para o sujeito e disse que pretendia se rebelar. Ela falava muito sério, pouca gente riu da irritada intervenção.

Rebelar-se é praticamente impossível na república teocrática e totalitária de Gilead. O livro é de 1985, mas recentemente voltou à moda, impulsionado pela eleição de Donald Trump e pela, dizem, excelente série televisiva homônima, The Handmaid’s Tale. E, como é um livro que trata basicamente de mulheres que são divididas em categorias, Atwood têm sido muito entrevistada e… Bem, tem decepcionado algumas de suas mais ardentes admiradoras que hoje participam do #MeToo não por defender abusos, mas a presunção da inocência dos acusados. É uma democrata clássica, alguém de moralidade e ética à antiga.

Mas vamos lá, sempre sem spoilers. Nas primeiras 150 páginas, o leitor não entende plenamente o funcionamento de Gilead. Atwood mostra-se uma mestra em jogar informações que vão nos deixando curiosos. Nem se importa de criar um conflito. Até que faz um balanço na página 173. Sim, um balanço.

As mulheres de Gilead são divididas em categorias, cada qual com uma função de Estado muito específica. Offred é uma Aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar depois que uma catástrofe nuclear tornou estéril um grande número de pessoas. As Aias são as mulheres não estéreis, que ainda podem engravidar. São úteros de duas pernas, receptáculos sagrados.

Elas são entregues a um Comandante que é casado com uma Esposa (outra categoria). Tais casais fazem parte de um escalão superior de governo. As Aias são obrigadas a fazerem sexo periodicamente com os Comandantes, sob o olhar de suas Esposas, até engravidarem. Depois de darem à luz, elas amamentam a criança por alguns meses. Ela e a criança são propriedade do casal. Elas têm nomes como Offred, que significa “of Fred” (“de Fred”) ou “pertencente ao homem chamado Fred”. Assim, ao longo da vida, uma aia pode ter vários donos e, portanto, vários nomes: Ofglen, Ofcharles, Ofwarren…

Após a bela introdução, a história toma direção e força assustadoras, mesmo que Atwood recorra a flashbacks. O livro é triste e atualíssimo, obrigando-nos a pensamentos pouco ortodoxos sobre liberdade, direitos, sanidade, poder, abuso e fragilidade.

Lê-lo é para quem tem estômago forte. O livro é violento, desconfortável, perturba mesmo. Publicado em 1985, o romance tem um pé na Revolução Islâmica de 1979, que transformou o Irã em uma república islâmica teocrática, e outro pé na Argentina, no roubo de bebês de presos políticos por parte de militares. Sem ser panfletário nem de leitura leve, O Conto da Aia é uma distopia que, anos depois de seu lançamento, voltou a ser lida e, certa ou erradamente, assimilada por uma nova geração de leitores.

Recomendo fortemente.

Atrás dessa carinha de santa tem um cérebro que vou lhes contar...
Atrás dessa carinha de santa tem um cérebro que vou lhes contar…

Livro comprado na Bamboletras.

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Boa tarde, Odair (com os melhores lances de Caxias 2 x 1 Inter)

Boa tarde, Odair (com os melhores lances de Caxias 2 x 1 Inter)

Odair Hellmann pensou que estivesse livre de nossa insistente coluna dedicada aos treinadores do Inter, mas estava redondamente enganado. Este blogueiro está de férias, não viu muito de Inter 1 x 0 Veranópolis, mas viu NH 0 x 3 Inter e o jogo de ontem. Estamos bem informados.

Foto: Ricardo Duarte
2018 ainda é uma criança, mas Pottker já aponta como destaque | Foto: Ricardo Duarte

Ontem à noite, os colorados começaram a ver que a vida em 2018 não será aquele mamão com açúcar que os grandes times que vêm da segunda divisão parecem encontrar cá fora. Quando vi que Edenílson estava escalado o lugar de Camilo, tomei meu primeiro susto tático do ano. Três volantes??? Uma retranca contra o Caxias??? Só que a coisa era ainda pior: Edenílson jogou como se fosse Camilo. Ora, isso é realmente o samba do afro-descendente com problemas mentais.

Mesmo assim, fomos superiores ao Caxias. Perdemos o jogo de em função do preparo físico, que pesou muito no segundo tempo, e pelo fato de Danilo Fernandes negar-se a sair do gol. “Sou goleiro, do gol eu não saio”, não disse Danilo para nossa reportagem. Mas aposto que é assim que pensa.

Também temos um problema de formação de grupo. Odair escalou um volante no lugar de Camilo, mas há que considerar que os reservas para a posição de meia-armador são Fernandinho — um menino de 20 anos que ainda não estreou — e Juan — outro menino de 21 que está sempre no banco mas nunca entra.

Ou seja, é uma posição que é FUNDAMENTAL e para a qual estamos MUITO MAL SERVIDOS. Os titulares são Dale e Camilo. Dale fará 37 anos em abril, Camilo fará 32 em março. Não serão nunca mais atletas em seus auges físicos. Precisaríamos de mais gente pronta para a posição. Edenílson não é o cara para jogar ali.

Quando ao resto, nem vou falar da ruindade de Winck, mas falaria da ruindade de Dourado, que iniciou o ano muito, mas muito mal. (Desculpe, Dourado, mas Charles, contra o NH, jogou muito mais do que tu estás fazendo ). E Damião? Segue se esforçando muito e perdendo gols como um louco. Fundamento nenhum funciona, uma vergonha.

Na parte positiva, Pottker está mais solto e é o destaque do time. Largou a vida de auxiliar de lateral direito, passando a incomodar os adversários lá na frente. Iago também é um grata surpresa. E tem 20 anos, a mesma idade de Fernandinho e Juan…

Outro fato que nos deixa felizes é a saída de bola sem chutões. Parece um sonho ver o Inter saindo de trás, tocando a bola. Mesmo com a derrota de ontem, fiquei feliz de ver o time sem ejacular precocemente.

Nossa próxima partida será sábado, às 16h30, no Beira-Rio, contra o terrível Avenida. Estamos na 3ª colocação, que é muito melhor do que estar em 11º.

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Moradores aproveitam buraco de meses e plantam uma árvore no meio da rua da Ladeira

Moradores aproveitam buraco de meses e plantam uma árvore no meio da rua da Ladeira

A tranquila Rua Gen. Câmara — que deveria ser chamada de Rua da Ladeira, pois todo mundo a conhece assim em Porto Alegre –, recebeu hoje um ornamento, uma árvore. O detalhe é que ela foi plantada no meio da rua, num desses buracos que o prefeito Marchezan faz frutificar pela cidade.

Eu apoio toda e qualquer política de reflorestamento e sustentabilidade. A árvore plantada na frente da Ladeira Livros certamente ajudará no combate ao aquecimento global. Trabalho nesta rua. Ela é mesmo muito quente.

Aliás, sobre a árvore: que frutifique! Vamos cuidar dela com amor. Afinal, como diz Gilberto Gil:

A gente cuida, a gente olha
A gente deixa o sol bater
Pra crescer, pra crescer
A rosa do amor tem sempre que crescer
A rosa do amor não vai despetalar
Pra quem cuida bem da rosa
Pra quem sabe cultivar

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Elis 36 / 36

Elis 36 / 36

36 anos sem Elis, morta aos 36 anos. Na época de Elis, devia ser mais fácil de compor. O cara pegava o violão, imaginava a voz de Elis e a canção já saía muito melhor, tenho certeza.

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Um grande momento em Porto Alegre: o show de Guinga e Dudu Sperb

Um grande momento em Porto Alegre: o show de Guinga e Dudu Sperb
Foto de Norberto Flach em seu perfil do Facebook. A legenda era mais do que justa: "Esperando o mestre.".
Foto de Norberto Flach em seu perfil do Facebook. A legenda era justa: “Esperando o mestre.”.

Ontem, fomos assistir ao show, violão e voz, de Guinga e Dudu Sperb no StudioClio. É uma parceria que está iniciando e que pode render muito. Guinga é um tremendo compositor e instrumentista e Dudu é um afinadíssimo cantor de bela voz, que cabe bem no espírito da música de Guinga. O que se pode fazer é o elogio máximo. Houve muito de musicalidade, delicadeza e acordes pouco ouvidos nestas plagas. Segundo o que pude entender, a dupla tinha ensaiado no próprio dia de ontem e mesmo assim o entendimento foi excelente. Assim, fica possível sobreviver ao calor de Porto Alegre. A gente quase morre durante o dia e à noite consegue lembrar dos motivos para tanto esforço.

Houve momentos de grande eletricidade no ar. Quando Dudu cantou Você Você (Canção Edipiana), parceria de Guinga e Chico Buarque, a plateia foi muito cuidadosa antes de aplaudir, porque estaria desmanchando um momento autenticamente mágico. Outros momentos desses foi Nonsense e a aula particular de Tom Jobim que Guinga nos deu ao mostrar a falsa simplicidade de Água de Beber.

Como disse meu amigo Marcelo Barbanti, a música brasileira precisa ser mais valorizada. Salve Chico Buarque de Holanda, salve Guinga (…) salve Antonio Carlos Jobim e tantos outros geniais compositores brasileiros. Pobre do país que vira as costas para as suas mais belas canções e coloca porcarias em pedestais.

Espero que a nova parceria frutifique.

Foto: Norberto Flach
Foto: Norberto Flach

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Após 10 anos, única maestrina do Irã foi finalmente autorizada a reger

Após 10 anos, única maestrina do Irã foi finalmente autorizada a reger

Nozhat Amiri

O 33º Festival Fayr de Música Internacional do Irã está em andamento na capital do país, Teerã. Enquanto a cidade hospeda mais de 30 orquestras de todo o mundo, a primeira e única regente mulher do Irã subiu ao palco deixando o público atônito.

Nozhat Amiri tornou-se a primeira mulher a liderar a Orquestra Nacional do Irã, executando peças compostas por importantes músicos do país, como Hossein Dehlavi, Homayun Khorram e Morteza Hannaneh.

Nozhat Amiri diz que deve tudo ao apoio que recebeu do marido e aos amigos que acreditavam na sua capacidade. Amiri é mestre em música e regência pela Universidade de Teerã e aguardou 10 anos por este momento. É a única iraniana com tal formação.

Veja um trecho abaixo:

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Laços, de Domenico Starnone

Laços, de Domenico Starnone

Laços D StarnoneUm tremendo livro que figurou entre os dez melhores do ano passado no Guia21. Que grande final! Na vida real, o autor Domenico Starnone é o marido de Anita Raja, a tradutora que estaria por trás do pseudônimo Elena Ferrante. Outros dizem, em hipótese mais inverossímil, que ele seria Elena Ferrante… Bem, se uma autora ou autor deseja permanecer anônimo, devemos respeitar tal opção, penso. E meu objetivo aqui é outro: é o de comentar rapidamente o excelente romance que é Laços.

Aldo e Vanda formam uma família convencional com seus dois filhos Sandro e Anna. Ele é professor e dramaturgo, ela é dona de casa. O livro é narrado em primeira pessoa por três vozes, as de Vanda, Aldo e Anna. O personagem principal é Aldo, o homem que abandona Vanda e a família por uma mulher mais jovem, Lidia. As consequências disso são analisadas em detalhe por Starnone, dentro de um romance sintético, de linguagem ágil e paradoxalmente densa. Não estarei dando um spoiler ao dizer que o casal se reconcilia logo no início do romance, após um hiato de anos. O que interessa aqui é o processo e vou passar longe do que há para se descobrir apenas nas duas últimas páginas. Tem toda a razão o crítico e escritor Carlos André Moreira ao dizer que a reconciliação de ambos é uma paródia rançosa. Que durará décadas. Na reconciliação, ensina Aldo, é preciso dizer “bem menos do que calamos”. Pelo visto no romance, muitíssimo menos. O adultério cometido por Aldo é bastante comum, banal, mas a narrativa do desmoronamento é envolvente. Ao fundo, há certeza de que a felicidade é frágil e de que os laços, esses são bem mais fortes.

Cada mudança de voz narrativa funciona como um furacão. Boa parte do que está organizado e coerente numa voz é desmanchado pela próxima. E a entrada em cena da voz da filha vem com o poder de uma muito eficiente máquina de demolição.

É claro que muita gente está fazendo comparações entre Laços e Dias de Abandono, de Ferrante. Mas vamos deixar pra lá.

Quando você comprar este romance da editora Todavia, procure esquecer o mau prefácio de Jhumpa Lahiri. Talvez seja melhor pulá-lo de vez. Já a tradução de Maurício Santana Dias é ótima.

Recomendo fortemente!

Elena Ferrante... Não, espera, Domenico Starnone.
Elena Ferrante… Não, espera, Domenico Starnone.

Livro comprado na Bamboletras.

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A Maldição da Nona (não confundir com avó em italiano, que é nonna)

A Maldição da Nona (não confundir com avó em italiano, que é nonna)
Cena do filme 'O Sétimo Selo': será que Bergman contou seis também?
Cena do filme ‘O Sétimo Selo’: será que Bergman contou seis também?

Mozart escreveu 40 sinfonias (a 37 não existe); Haydn, 104; Brahms escreveu apenas 4 e Shostakovitch pretendia produzir 24, mas ficou em 15. Porém, seis dos maiores sinfonistas de toda a história da música compuseram 9 e logo morreram, forjando o mito de que a nona, ou a décima, é fatal. Vejam a lista abaixo e surpreendam-se com o tamanho da coisa… É como se a morte sempre entrasse em campo quando o imortal pretendesse chegar ao número dez. Aviso: não sou numerologista e não dou a menor importância a este tipo de — creio! — crendices.

Beethoven-Musica-classica.jpgLudwig van Beethoven (1770-1827) está em qualquer seleção de maiores sinfonistas. Se alguém o deixar de fora, merecerá internação. Beethoven fez da 9ª Sinfonia seu testamento musical. Com problemas de saúde cada vez mais notórios, o compositor teve tempo de preparar sua despedida com a maior de suas sinfonias. Ele inaugura nosso sortilégio e, se o leitor não tiver muita intimidade com o mestre, dê preferência à audição das sinfonias Nº 3, 5, 7, 8 e 9. Claro que ele não caiu morto fulminado por um raio logo após fechar o manuscrito da Nona, depois dela ele ainda escreveu algumas de suas maiores obras, os últimos Quartetos de Cordas. Mas a décima ficou em menos do que um rascunho.

franz-schubertFranz Schubert (1797-1828) morreu um ano depois, logo após escrever a sua nona. A curiosidade é que sua oitava sinfonia é conhecida como a Inacabada. E estamos certos em chamá-la assim, pois Schubert abandonou-a ao compor os temas que utilizaria na última. A Sinfonia Nº 9 também é conhecida, com total merecimento, por “A Grande”. Também vale a pena ouvir, além das citadas Nº 8 e 9, a 4 e a 5. Todos pensam que Schubert morreu de sífilis. Nada disso. Morreu de tifo, após ingerir um vulgar peixe contaminado. Ou seja, uma droga de um peixe podre ceifou Schubert durante seus anos mais produtivos. Espero que, se o inferno existir, este peixe esteja lá queimando. Até agora.

brucknerAnton Bruckner (1824-1896) é outro dos grandes sinfonistas indiscutíveis. Ele praticamente só se dedicou a este gênero. Além delas, compôs apenas 3 Missas, 1 Te Deum e pouquíssimas obras de câmara. Seus contemporâneos o consideravam quase como uma criança idiota e a opinião a este respeito é tão unânime que deve ser verdade. Porém, se você continuar a chamá-lo de burro após ouvi-lo, ficarei desconfiado. Sim, de você. Deve tratar-se do idiota mais profundo que se tem notícia, o que prova que a inteligência musical sobrevive mesmo em um cérebro limitado. Há duas curiosidades a seu respeito. A primeira é que Bruckner, já agonizando, quis que seu Te Deum fosse acrescentado como último movimento de sua 9ª. Não foi atendido; era um evidente absurdo. A segunda é que ele possui uma sinfonia Nº 0 e outra 00. É que após a publicação das primeiras sinfonias, apareceram aquelas que o compositor escrevera antes, mas que tinha escondido por vergonha. São excelentes e para não demonstrar uma possível involução em seu estilo, denominou-as Zero e Zero-Zero. Mas, apesar de todos esses zeros, não sobreviveu à décima. Indico fortemente as sinfonias Nº 4 (Romântica), 5 (que possui um adágio estarrecedor de tão belo), 7 e 9 (ambas espantosas).

mahlerGustav Mahler (1860-1911) é o caso mais explícito de medo à 9ª. Contrariamente a Bruckner, era um intelectual e regente respeitadíssimo na Viena da virada do século. Mahler tinha grande temor de escrever sua nona sinfonia e dizia isto a todos. Sabia que a décima o mataria… Quando compôs a oitava (Sinfonia dos Mil), resolveu fazer uma pausa e atacou “A Canção da Terra” (Das Lied von der Erde), que talvez seja sua maior obra, mas que, cá para nós, é uma sinfonia camuflada de ciclo de canções. Com isto, pensou ter enganado o capeta. Só então escreveu sua nona e, por uma distração do diabo, conseguiu até escrever o primeiro movimento da décima, só que… Morreu sem compor os outros movimentos. Outros caras a completaram. Estes sim deviam morrer. Suas melhores sinfonias são todas.

DvorakMenor que os citados, há Antonín Dvorak (1841-1904). Foi um compositor mediano que escreveu lindos quartetos de cordas e que deve ser muito elogiado na presença de checos. Eles se ofendem facilmente. E as sinfonias? Ele compôs nove sinfonias muito parecidas. Todas com quatro movimentos: o primeiro movimento possui 3 temas; o segundo movimento geralmente é um adagio; o terceiro movimento é uma dança ou fuga que copia Beethoven; o quarto movimento é livre, mas melhor seria se não existisse. Deveria ter morrido antes, mas ficou por aí até terminar a nona. Deixou um número surpreendente de obras inacabadas. Sorte nossa. E dele, pois morreu rico e famoso. Sentiram que eu não gosto muito do moço, né? Mas OK, admito que a  8ª e a 9ª são bem legais.

spohrLouis (ou Ludwig) Spohr (1784-1859) escreveu nove sinfonias e deixou a décima pela metade. Achava mais seguro escrever concertos para violino, tanto que escreveu dezesseis. Há um — o oitavo — que é bastante revolucionário, escrito em apenas um movimento, para gáudio de Jasha Heifetz. Sua nona sinfonia é programática e tem um nome incrivelmente original: As Estações. Enquanto vocês decidem se ele plagiou Vivaldi ou Haydn, vou dizendo que Spohr foi um bom compositor, apesar de minhas ironias.

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Por isto, aconselhamos a todos os candidatos a compositores eruditos que se depararem com este texto: evitem o gênero ou utilizem-o com parcimônia. Está provado: a décima pode matar.

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Mas confiram o comentário de Filipe Salles:

Caro Milton, devo objetar de sua conclusão, se me permitir, pelos seguintes argumentos: Destes compositores que vc mencionou, apenas Beethoven e Spohr realmente escreveram 9 sinfonias completas (e talvez Mahler, dependendo da interpretação). Schubert deixou sua 7a. sinfonia apenas em esboço melódico, tendo orquestrado uma parte muito pequena dela. Ele próprio se esqueceu desta obra e muitos musicólogos não a consideram no rol da numeração canônica. Há uns 15 anos atrás a Sony lançou uma série com ninguém menos que Giulini regendo, tendo a capa a indicação “Schubert: Symphony no.7 (8)” e também “Symphony no.8 (9)”, apenas para saberem que se tratava apenas de uma questão numérica. No caso de Bruckner, como você mesmo diz, ele escreveu 11 sinfonias, sendo as 2 primeiras rejeitadas por serem obras de juventude. Uma sinfonia em Fá maior não tem numeração e a famosa Número Zero é a “die Nullte”, a nula, que na verdade foi escrita entre a Primeira e a Segunda. Bruckner não aguentou as críticas feitas à ela e riscou na partitura autógrafa a numeração “2”, substituindo pelo 0, acrescentando que ela “não contava”. Mas ambas estão completas e foram editadas, de forma que também é só uma questão de posição dos números. O caso de Dvórak é mais esquisito: apenas suas 5 últimas sinfonias foram publicadas em vida, e as demais só vieram à tona a partir de 1917, quando o musicólogo Otakar Sourek reestabeleceu a ordem por data de composição. A sua Primeira Sinfonia, antes tida como a que hoje é a Sexta, foi recusada num concurso e Dvórak, irritado, disse que a tinha destruído (assim como sua segunda), e só foi executada em 1936, depois de encontrarem os manuscritos originais. Lembro-me até hoje de um disco LP, ainda na era monaural, em que Furtwängler executava a Sinfonia no.5, “Do Novo Mundo”. Ou seja, não poderia haver uma maldição da Nona se ele na época tinha certeza que sua série ia só até a 5a.

No caso de Mahler, depende de considerar ou não o Das Lied von der Erde uma sinfonia, e com certeza na época em que ele estava escrevendo sua Nona, só sabia dos casos de Beethoven e Bruckner, pois a 7a.Sinfonia de Schubert não havia sido completada e as de Dvórak se encerravam na 5a.

No caso de Spohr… Bem, outro dia ouvi suas sinfonias nos. 4 e 5 e achei-as extremamente tediosas, de maneira que não me interessei mais pelas coisas dele.

Um abraço!

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Duas propagandas da Gradiente que seriam motivo de escândalo hoje

Duas propagandas da Gradiente que seriam motivo de escândalo hoje

Ontem, publiquei as duas imagens abaixo no meu perfil do Facebook. Vieram tantas pessoas comentar que acho melhor salvar as propagandas aqui. Ambas são dos anos 70 e são reais.

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Parte do texto diz: “A melhor maneira de combater o sistema é estar por dentro dele. Comece sua luta comprando um conjunto de som da gradiente. Os amplificadores […] são produzidos por um grupo de capitalistas extremamente lúcidos. Que sabe que a procura só é boa quando a oferta é muito boa. Por isso, há mais de 12 anos eles produzem equipamentos de som que oferecem o máximo de fidelidade que um contestador pode exigir (você ouve o Dylan gravado ao vivo como quem está vendo ao vivo; o Belchior gravado como quem está no estúdio). E oferecem também uma rede de revendedores com os melhores planos de pagamento do mundo ocidental. Compre […] para ouvir com perfeição as denúncias graves, médias ou agudas dos seus cantores de protesto preferidos. Quem sabe até você acaba chegando à conclusão de que a sociedade de consumo não é tão ruim assim.”

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Como disse um amaigo no Face, “Não parecem Dina Sfat e Zé Rodrix?”.

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O recital de Homero Velho e Liliana Michelsen no StudioClio

O recital de Homero Velho e Liliana Michelsen no StudioClio
Foto: Chico Marshall
Foto: Chico Marshall

Sexta-feira (12) à noite, eu e Elena fomos assistir ao recital do barítono Homero Velho e da pianista Liliana Michelsen no StudioClio. O repertório foi o belíssimo ciclo de canções Dichterliebe (amor de poeta), de Robert Schumann, sobre poemas de Heinrich Heine, e o nem tanto La bonne chanson, de Gabriel Fauré, sobre poemas de Paul Verlaine.

Conforme sublinhou o próprio Homero, o recital deixou clara a diferença jamais negada de estilos entre música francesa e alemã. Bem, meu gosto é totalmente tedesco, ainda mais quando a comparação é com a música francesa.

Gostos à parte, o recital mostrou dois músicos entrosados — e eu creio que eles fizeram poucos ensaios prévios, pois Homero chegara a Porto Alegre no dia anterior –, de grande capacidade expressiva e belos fraseados. Eu já conhecia o timbre da voz de Homero do Don Giovanni que ele fez com a Ospa no inverno do ano passado, mas ouvi-lo numa sala pequena e com a qualidade acústica que temos no Clio foi um renovado e ampliado prazer. A voz do cara é mesmo um espanto. Tanto que quase gostei do Fauré. Quase.

Liliana acompanhou o altíssimo nível de Homero e Chico Marshall destacou-se como o bardo leitor dos poemas em português.

Vocês, meus sete leitores, conhecem Schumann, mas talvez não conheçam a poesia de Heine. Heine foi um satírico e dramaturgo genial. Até foi alvo de uns dois ou três textos elogiosos neste blog. Sua poesia romântica deve ser linda em alemão, porém em português certamente perde muito. Chico sofreu… Robert Frost escreveu que “a poesia é o que se perde na tradução”, corolário repetido recentemente no Paterson de Jim Jarmusch: “Ler um poema traduzido é como tomar banho de capa de chuva”. A poesia romântica de Heine é descabelada, ainda mais que o coitado do poeta não tem resposta da amada que casa com outro e deixa o moço sozinho com suas dores. Ou seja, a poesia é de matar, mas, com sua música, Schumann garantiu sua chegada a nossos dias. Só não precisavam traduzir, pelamor.

Le bonne chanson é um ciclo de nove canções. A desgraça de Fauré foi semelhante a do poeta criado por Heine. Olha só: boa parte do ciclo foi composta nos verões de 1892 e 1893 enquanto Fauré permanecia em Bougival como hóspede do banqueiro Sigismond Bardac e de sua esposa, a soprano Emma Bardac. Claro que Fauré estava apaixonado por ela, que acabou casando com Debussy… Fauré escrevia todos os dias e Bardac experimentava cantar, talvez pensando em Debussy. Acabou que Le bonne chanson foi dedicado a Emma e que Fauré acabou a obra aparentemente sem comer ninguém.

Saint-Saëns ouviu o ciclo e declarou que Fauré tinha ficado louco. Não é para tanto, mas entendo Camile. Por outro lado, Proust assistiu a estreia privada e adorou. Isso que ele nem ouviu Homero Velho e Liliana Michelsen. Duvido que tenha sido melhor.

Foto: Chico Marshall
Foto: Chico Marshall

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O motivo pelo qual Jorge Luis Borges não ganhou o Nobel em 1967

O motivo pelo qual Jorge Luis Borges não ganhou o Nobel em 1967

Tolstói não levou o Nobel, nem Proust, Joyce e Greene. Jorge Luis Borges não ganhou o Nobel, nem Nabokov, Virginia Woolf e Drummond. Mas todo ano são abertos os arquivos do prêmio de 50 anos atrás e descobrem-se coisas.

Jorge Luis Borges

Agora descobriu-se as razões, certamente esdrúxulas, que tiraram o prêmio de Borges em 1967. Estava decidido que o vencedor seria um latino-americano. Então Borges era franco-favorito, só que perdeu a láurea para o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. Os motivos? Ora, o então presidente do comitê do Nobel, Anders Osterling, achava o escritor “demasiado exclusivo ou artificial em sua engenhosa miniatura”.

A sumidade também barrou outros autores importantes. Um ano antes, em 1966, havia eliminado Samuel Beckett. Achava-o “niilista e pessimista”, fora do que considerava “o espírito da Academia”. Beckett acabou virando o jogo e recebeu o prêmio em 1969. O mesmo não aconteceu com Borges, morto em 1986 sem o Nobel.

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Algumas observações sobre The Beatles: Eight Days A Week – The Touring Years, de Ron Howard

Algumas observações sobre The Beatles: Eight Days A Week – The Touring Years, de Ron Howard

Eu e Elena vimos o excelente documentário The Beatles: Eight Days A Week – The Touring Years. É tudo bom demais, mas estranhei 4 coisas:

(1) não foi citado o fato do baterista daquelas maratonas de Hamburgo ter sido Pete Best. Ringo Starr apenas entrou no grupo quando da primeira gravação, por exigência de George Martin;

(2) a morte de Brian Epstein poderia também ter sido referida no final dos Touring Years;

(3) a entronização de Sgt. Pepper’s como o maior dos discos quando há tantos outros do mesmo nível para a gente discutir pelo resto da vida e

(4) a ausência da cena abaixo no longo capítulo dos “escândalos gerados por Lennon”.

Beatles The Touring Years

Explico:

Lá em 1963, os Beatles se apresentaram para a família real britânica num show chamado Royal Variety Performance. Era um evento beneficente que ocorria todo ano. Havia 19 atrações. Entre elas, Marlene Dietrich e Maurice Chevalier. Os Beatles fizeram o sétimo espetáculo, o mais aguardado. A noitada aconteceu no Prince of Wales Theatre. Num camarote, a rainha mãe, a princesa Margaret e mais alguns aristocratas.

Livres da gritaria das fãs, eles tocaram três canções. Antes da última, John Lennon se chegou ao microfone, deu boa noite e falou: “Para nosso último número, eu queria pedir a ajuda de vocês. As pessoas nos assentos baratos podem bater palmas. O resto de vocês pode apenas sacudir as joias (just rattle your jewelry)”.

E emendou um sorriso matreiro até entrar na contagem de Twist and Shout. No dia seguinte, não se falava em outra coisa que não nos novos heróis da classe trabalhadora.

Vejam a partir dos 53 segundos.

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O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (nova tradução de Irineu Franco Perpetuo)

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (nova tradução de Irineu Franco Perpetuo)

O Mestre e MargaridaComo também aconteceu com o Ulysses de Joyce, este é o terceiro O Mestre e Margarida que leio. Ambos os livros têm três traduções no Brasil — na verdade, O Mestre tem quatro, mas uma é do inglês.

A primeira leitura foi feita em uma edição da Ars Poetica com tradução direta do russo por Konstantin G. Asryantz, Eu não indico, pois achei o texto truncado, nada fluido. Se não me engano, era uma edição de 1992 (não possuo mais o exemplar).

A segunda, igualmente do russo, era de Zoia Prestes e saiu pela Alfaguara em 2009. Já era bem melhor, mais ainda não de todo satisfatória.

Esta terceira tradução, de Irineu Franco Perpétuo (Editora 34) é excelente, sem dúvida, a melhor de todas. Porém, ainda houve outra tradução que desconheço, feita a partir do inglês. Ela foi publicada em 1975, pela Nova Fronteira, e em 1985, pela Abril Cultural. É de Mário Salviano Silva.

Importante informar que o texto utilizado por Irineu foi aquele estabelecido pela mais recente edição crítica russa. Acontece que Bulgákov jamais publicou seu livro em vida, tendo deixado várias versões dele. Os atuais estudos buscaram chegar o mais próximo possível do que seria o desejo do escritor.

Abaixo, republico um artigo que escrevi recentemente para o Guia21 a respeito de Bulgákov e sua obra-prima, quando dos cem anos da Revolução Russa, mas eu já tinha publicado outro artigo aqui no blog em minha antologia pessoal de 50 maiores livros.

Foi muito prazeroso percorrer as 408 páginas da nova edição. São 32 capítulos e um epílogo. 28 deles e mais o epílogo se passam basicamente em Moscou e 4 em Jerusalém — consistindo no fragmento do romance do Mestre. Então, vamos ao texto que não seria possível sem o auxílio de minha Elena Romanov.

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Stálin tinha real interesse por arte, costumando ir a concertos, óperas e peças de teatro. Foi ele, pessoalmente, quem assistiu, reprovou e fez proibir uma ópera de Shostakovich, por exemplo. Também assistiu quinze vezes — não é exagero — à peça Os Dias dos Turbin, de Mikhail Bulgákov. Simplesmente adorou. Stálin também costumava telefonar de madrugada para assessores e outras pessoas quaisquer com quem tivesse assuntos a tratar. Sofria de insônia e, com sua fama, é claro que assustava quem recebia as ligações. Telefonou uma vez para Bulgákov após este lhe enviar quase uma centena de cartas pedindo permissão para emigrar. A lenda diz que foram várias ligações, mas uma aconteceu com certeza.

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O conteúdo desta ligação é bem conhecido. Bulgákov ficou com medo e teve receio de insistir quando Stálin disse que preferia que ele permanecesse na URSS. O líder prometeu-lhe um emprego em um teatro, o que acabou acontecendo. Assim ele encontrou trabalho no Teatro da Juventude de Trabalho de Moscou (TRAM), e depois no Teatro de Arte de Moscou. Neste século, o dramaturgo espanhol Juan Mayorga escreveu uma peça que começa com o famoso telefonema de Stálin para Bulgákov, chamada Cartas de Amor para Stálin.

Anos depois da conhecida ligação, Bulgákov tentou se tornar um escritor “soviético”, dento dos padrões do realismo socialista. Em 1939, ele começou a trabalhar em uma peça laudatória ao líder. Mas Stálin, ao ler os esboços, parece não ter ficado satisfeito e, sem falar com o autor, indiretamente proibiu Bulgákov de terminá-la, não permitindo o acesso do escritor e de sua esposa aos arquivos em Batumi, cidade georgeana onde Stálin iniciou sua vida política. A peça era cheia de clichês socialistas, nada era vivo. E o Secretário-Geral sabia como Bulgákov podia escrever.

Nós também. Bulgákov morreu em 1940 e sua maior obra, O Mestre e Margarida, veio a público somente em 1966-67. Ou seja, ela permaneceu desconhecida de seus contemporâneos. Mas ele já tinha publicado peças de teatro e outras obras em prosa, como as extraordinárias novelas Os Ovos Fatais e Um Coração de Cachorro. Sua arte é de absoluto virtuosismo. Se o campo onde se sente melhor é o da sátira corrosiva, ele também sabia descrever cenários bíblicos, como fez em partes de O Mestre.

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Mikhail Bulgákov (1891-1940) nasceu em Kiev, na Ucrânia, que era então parte do Império Russo. Ele foi o primeiro filho de Afanasiy Bulgákov, professor da Academia Teológica de Kiev. Seus avôs eram clérigos da Igreja Ortodoxa Russa. No início da Primeira Guerra Mundial, voluntário na Cruz Vermelha, foi imediatamente enviado para o front, onde foi gravemente ferido em duas ocasiões. Em 1916, formou-se médico na Universidade de Kiev e depois, junto com seus irmãos, alistou-se no Exército Branco.

Após a Guerra Civil, com a derrota dos brancos e a ascensão do poder dos soviéticos, sua família emigrou para o exílio em Paris.  Apesar de sua situação relativamente privilegiada durante os primeiros anos da Revolução, Bulgákov viu-se impedido de emigrar da Rússia devido a um insistente tifo. Nunca mais viu sua família.

As lesões da guerra tiveram graves efeitos sobre sua saúde. Para aliviar sua dor crônica, especialmente no abdômen, foi-lhe administrada morfina. Ficou viciado, mas parou de injetá-la em 1918. O livro Morfina, publicado em 1926, atesta a situação do escritor durante esses anos. Em 1919, ele decidiu trocar a medicina pela literatura.

Elena Shílovskaya
Elena Shilovskaya

Em 1932, Bulgákov casou-se com Elena Shilovskaya, que seria a inspiração do personagem Margarida de sua novela mais famosa. Durante a última década de sua vida, Bulgákov trabalhou em O Mestre e Margarida, além de escrever peças, fazer revisões, traduções e dramatizações de romances. Alguns foram para o palco, outros não foram publicados e ainda outros foram destruídos.

20171021-tenorPara quem hoje lê Bulgákov, o fato do escritor não apoiar o regime comunista é apenas uma informação complementar. O que interessa é que ele foi o mais brilhante dos gozadores, dos zombeteiros. O autor ria da burocracia e dos governantes. Porém, como dissemos acima, Stálin adorava de uma de suas peças. Não obstante o amor do chefe, o escritor suportou grande assédio da NKVD, que chegou a procurá-lo em casa e prendeu-o em mais de uma ocasião.

Muitas evidências sobreviveram sobre a atitude do escritor em relação ao poder soviético na década de 1920.  Entre eles há artigos na imprensa branca e materiais de interrogatórios. Porém, curiosamente, os brancos o criticavam por ser pró-revolução e os revolucionários pelo motivo contrário. Para os comunistas, sua arte era um “brancovanguardismo” e ele seria um “reacionário social”; para os brancos, ele seria apenas um vendido. É curiosa a posição de admiração de Stálin, apesar da polêmica. Muitos escritores que não apoiaram a liderança de Stálin foram presos. Bulgákov não.

Bulgákov morreu de um problema renal em 1940, aos 49 anos.

Dois assessores do diabo numa escultura em Moscou: o gato Behemoth e Korovin com seu monóculo quebrado
Dois assessores do diabo numa escultura em Moscou: o gato Behemoth e Koroviev com seu monóculo quebrado

Em vida, Bulgákov ficou conhecido principalmente pelas obras com as quais contribuiu para o Teatro de Arte de Moscou de Konstantín Stanislavski. Foram muitas comédias e adaptações de romances para o teatro, casos, por exemplo, de Dom Quixote e Almas Mortas. Bulgákov também escreveu uma comédia grotesca fazendo com que Ivan, o Terrível, aparecesse em Moscou na década de trinta. Um sucesso.

20171020-um-coracao-de-cachorro-e-outras-novelas-mikhail-a-bulgakovEm meados de 1920, Bulgákov conheceu os livros de H.G. Wells e, profundamente influenciado, escreveu várias histórias com elementos de ficção científica. Um exemplo é a extraordinária novela Um Coração de Cachorro, onde Bulgákov critica abertamente — e com impressionante cinismo e ironia — a primeira década do poder soviético. Outro é a hilariante Os Ovos Fatais.

Morfina merece menção especial. Trata-se do diário de um companheiro do protagonista, o médico Poliakov. É uma crônica da autodestruição, escrita em termos perturbadores. Ele escreve no início do livro: “Eu não posso ajudar a louvar quem primeiro extraiu a morfina das cabeças das papoulas”. No mais, é uma história clínica escrita por um mestre. “Como viciado, eu declararia que o ser humano só pode funcionar normalmente após uma injeção de morfina, mas eu era médico”.

A grande obra-prima

A novela satírica O Mestre e Margarida, escrita para a gaveta, sem chances ou tentativas de publicação durante sua vida e que foi publicada por sua esposa vinte e seis anos após a morte do escritor, certamente lhe garante a imortalidade literária. Por muitos anos, o livro só pôde ser obtido na União Soviética como samizdat, antes de sua aparição por capítulos na revista Moskva. É o grande romance do período soviético e que contribuiu para criar várias expressões do dia a dia russo. É que um manuscrito do Mestre, destruído, constitui um elemento importante da trama e, de fato, Bulgákov teve que reescrever o romance após ter queimado o próprio manuscrito.

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Sabem aqueles livros que valem por cada palavra? Que é engraçado, profundo, social, histórico, existencial e grudento? Pois O Mestre e Margarida satisfaz todas as condições acima. A influência do livro pode ser medida pelo reflexo da obra não somente na cultura russa, mas na mundial. O livro Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, tem clara e confessa influência de Bulgákov; a letra da canção Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, foi escrita logo após Mick Jagger ter lido o livro, assim como Pilate, do Pearl Jam, e Love and Destroy da Franz Ferdinand, a qual é baseada no voo de Margarida sobre Moscou. Mas nem só a literatura e o rock homenageiam Bulgákov: o compositor alemão York Höller compôs a ópera Der Meister und Margarita, que foi apresentada em 1989 na ópera de Paris e lançada em CD em 2000.

O romance começou a ser escrito em 1928. Em 1930, o primeiro manuscrito foi queimado pelo autor após ver censurada outra novela de sua autoria. O trabalho foi recomeçado em 1931 e finalizado em 1936. Sem perspectiva alguma de publicação, Bulgákov dedicou-se a revisar e revisar. Veio uma nova versão em 1937 e ainda outra em 1940, ano de sua morte. Na época, apenas sua mulher sabia da existência do romance.

Uma versão modificada e com cortes da censura foi publicada na revista Moscou entre 1966 e 1967, enquanto o samizdat publicava a versão integral. Em livro, a URSS só pôde ler a versão integral em 1973 e, em 1989, a pesquisadora Lidiya Yanovskaya fez uma nova edição — a que lemos atualmente — baseada em manuscritos do autor.

Uma amiga russa me escreve por e-mail: “Eu tinha uma colega de quarto que lia apenas O Mestre e Margarida. Ela terminava e voltava ao início. E dava gargalhadas e mais gargalhadas. Na Rússia o livro foi tão lido que surgiram expressões coloquiais inspiradas por ele. A frase dita por Woland ‘Manuscritos não ardem’ é usada quando uma coisa não pode ou não será destruída. Outra é ‘Ánnuchka já derramou o óleo’, para dizer que o cenário de uma tragédia está montado”.

As cenas de Pôncio Pilatos, a do teatro, a do belíssimo voo de Margarida e a do baile são citadas aqui e ali com enorme admiração. E a fama é justa.

A ação do romance ocorre em duas frentes, alternadamente: a da chegada do diabo a Moscou e a da história de Pôncio Pilatos e Jesus, com destaque para o primeiro. O estilo do romance varia espetacularmente. Os capítulos que se passam em Moscou têm ritmo vivo e tom de farsa, enquanto os capítulos de Jerusalém estão escritos em forma clássica e naturalista. Em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Koroviev — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno Azazello e a bruxa Hella, sempre nua.

Arte: Elena Martynyuk
Arte: Elena Martynyuk

Moscou surge como um caos: é uma cidade atolada em denúncias e na burocracia, as pessoas simplesmente somem e há comitês para tudo. No livro, o principal comitê é uma certa Massolit (abreviatura para sociedade moscovita de literatura, que também pode ser interpretada como literatura para as massas) onde escritores lutam por apartamentos e férias melhores. Há também toda uma incrível burocracia, tão incompreensível quanto as descritas por Kafka, mas que formam uma atordoante série de cenas hilariantes.

Naquela Moscou o diabo está em casa e podem deixar tudo com ele, pois Woland e sua trupe demonstram notável criatividade para atrapalhar, alterar, sumir e assombrar. O escritor Bulgákov responde sempre à altura das cenas criadas. A cena do teatro onde é distribuído dinheiro e a do baile — há ecos dos bailes dos romances de Tolstói — são simplesmente inesquecíveis. Falei em Tolstói, mas a base de criação de Bulgákov é outro cômico ucraniano: Gógol.

O livro pode ser lido como uma comédia de humor negro, como alegoria místico-religiosa, como sátira à Rússia soviética ou como crítica à superficialidade das pessoas. Há mais pontos bem característicos: Bulgákov jamais demonstra nostalgia da Rússia czarista — apenas da religião — e Woland não está em oposição direta a Deus. Ele é como um ser que pune os maus e a covardia — é frequente no livro a menção de que a covardia é a pior das fraquezas. E as punições de Woland são criativas, desconcertantes.

Em 2006, o Museu Bulgákov, em Moscou, foi vandalizado por fundamentalistas. O museu fica no antigo apartamento de Bulgákov, ricamente descrito no romance e local dos mais diabólicos absurdos. Os fundamentalistas alegavam que O Mestre e Margarida era um romance satanista.

Mikhail e sua Margarida
Mikhail e sua Margarida

Nas imagens finais de O Mestre, Mikhail Bulgákov dá uma dura avaliação do mundo que encontrou. Ele seria infernal e sem esperança. Era óbvio que as tentativas de se tornar parte do mundo soviético falharam. Ele não entendia aquele novo idioma.

~ Curiosidades ~

A venda da alma

Sabe-se que Bulgákov foi muitas vezes ao Bolshoi para ver e ouvir a ópera Fausto, de Charles Gounod. Esta ópera sempre o animava, ele voltava feliz para casa. Mas, um dia, Bulgákov voltou do teatro em estado muito sombrio. Ele tinha começado a escrever sua peça sobre Stálin, Batumi. Bulgákov reconheceu-se na imagem de Fausto. Como escrevemos acima, a peça jamais foi concluída por ter sido indiretamente reprovada por Stálin.

Personagem desaparecido

Em 1937, nos 100 anos de aniversário da morte de Pushkin, vários autores apresentaram peças dedicadas ao poeta. Entre elas, havia uma de Bulgákov. Alexander Pushkin distinguia-se das obras de outros autores pela ausência do personagem principal. Bulgákov acreditava que a aparição do homenageado no palco tornaria tudo vulgar e insípido. Sua peça foi considerada a melhor daquele ano.

Tesouro

No romance A Guarda Branca, Bulgákov descreveu com bastante precisão a casa em que morara em Kiev. Lá, haveria um tesouro. Os novos proprietários da casa quase a derrubaram, quebrando paredes ao tentar encontrar o dinheiro descrito no romance. É óbvio que não encontraram nada e ainda ficaram irritados com o escritor.

História de Woland

Woland recebeu seu nome a partir do Fausto de Goethe. No Fausto, ele é citado apenas uma vez, quando Mefistófeles pede para que espíritos malignos abram espaço pois “O nobre Woland está chegando!” Em outros Faustos ele aparece como Faland ou Phaland. A primeira edição de O Mestre continha uma descrição detalhada (15 páginas manuscritas) de Woland. Esta descrição está perdida. Além disso, na versão inicial, Woland era chamado Astaroth (um dos demônios mais altos do inferno, de acordo com a demonologia ocidental). Mais tarde, Bulgákov o substituiu.

O protótipo de Behemoth

Em russo, diz-se Begemot. O ultrafamoso assistente de Woland tinha um protótipo real, só que este não era um gato, mas um cachorro: o grande cão preto de Bulgákov chamava-se Behemoth. Esse cachorro era muito inteligente. Uma vez, quando Bulgákov estava comemorando o Ano Novo com sua esposa, logo após o relógio de parede dar doze badaladas, o cachorro também latiu 12 vezes, embora ninguém lhe tivesse ensinado.

Escultura de Behemoth em Kiev | Wikimedia Commons
Escultura de Behemoth em Kiev | Wikimedia Commons

Memória

Desde os primeiros anos de vida, Bulgákov demonstrou possuir uma memória excepcional. Lia muito. Diz a lenda que ele leu tantas vezes o romance Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, que o sabia de cor.

Coleção

Bulgákov tinha todos os ingressos de teatro — peças, ópera e concertos — a que compareceu.

Crítica soviética

O escritor também colecionava, coladas em um álbum, recortes de jornais e revistas com críticas de suas obras. Dava ênfase às mais devastadoramente hostis. De acordo com Bulgákov, ali havia 298 críticas negativas e apenas 3 elogiosas.

Defesa de Stanislavski

A primeira produção no Teatro de Arte de Moscou de Os Dias dos Turbin foi garantida por Konstantín Stanislavski. Ele simplesmente afirmou que, se a peça fosse banida, fecharia o teatro.

Stálin e Os Dias dos Turbin

Stálin gostava muito da peça e assistiu-a pelo menos 15 vezes, aplaudindo com entusiasmo desde o camarote destinado a membros do governo. Oito vezes ele desceu para falar com os artistas após a peça, a fim de incentivar a necessidade da luta política na literatura.

Uma das últimas fotos. Mikhail Bulgákov, com sua esposa Elena Shilovskaya
Uma das últimas fotos. Mikhail Bulgákov, com sua esposa Elena Shilovskaya

(*) Com pesquisa de Elena Romanov

Livro comprado na Bamboletras.

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O texto completo do manifesto “Cem artistas francesas contra o puritanismo sexual de Hollywood”

O texto completo do manifesto “Cem artistas francesas contra o puritanismo sexual de Hollywood”

Fui dar uma olhada na repercussão. O primeiro comentário chamava Catherine Deneuve de senil. Caí fora.

Alguns trechos antes do texto completo.

“é a característica do puritanismo pedir emprestado, em nome do bem chamado bem geral, os argumentos da proteção das mulheres e sua emancipação para melhor vinculá-los ao status de vítimas eternas”

“Hoje somos alertadas para admitir que o desejo sexual é, por natureza, ofensivo e selvagem,”

“somos lúcidas o suficiente para não confundir uma investida inconveniente com um estupro.”

“Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além das denúncias dos abusos de poder, adquire uma face de ódio aos homens e sua sexualidade”

Esta “ânsia de enviar “porcos” ao matadouro”, apenas por terem tocado um joelho, tentado roubar um beijo” ou “falar de coisas ‘íntimas’ em um jantar profissional”.

As mulheres, segundo elas, podem “lutar pela igualdade salarial, mas não devem traumatizar-se por causa de importunadores no metrô, mesmo se isso é considerado um delito. As mulheres deveriam ver isso como a expressão de uma grande miséria sexual.”

O texto completo:

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DEFENDEMOS A LIBERDADE DE IMPORTUNAR, INDISPENSÁVEL À LIBERDADE SEXUAL

Em texto publicado no “Le Monde”, um coletivo de 100 mulheres, incluindo Catherine Millet, Ingrid Caven e Catherine Deneuve, afirma sua rejeição a um certo feminismo que expressa um “ódio aos homens”.

“Na sequência do caso de Weinstein, houve uma consciência legítima da violência sexual contra as mulheres, particularmente no local de trabalho onde alguns homens abusam do seu poder. Ela era necessária. Mas essa libertação do discurso torna hoje o seu oposto: somos intimadas a falar corretamente, silenciar o que incomoda e aquelas que se recusam a cumprir tais injunções são consideradas traidoras, cúmplices!

“Mas é característico do puritanismo pedir emprestado, em nome de um suposto bem geral, os argumentos da proteção das mulheres e sua emancipação para melhor vinculá-las ao status de vítimas eternas, coitadinhas sob a influência dos falocratas demoníacos, como nos bons velhos tempos da feitiçaria.

Delações e acusações

“De fato, #metoo iniciou na imprensa e nas redes sociais uma campanha de denúncia e acusação pública de indivíduos que, sem ter a oportunidade de responder ou se defenderem, foram colocados exatamente no mesmo nível que os agressores sexuais. Esta justiça expeditiva já tem suas vítimas, homens impedidos do exercício de sua profissão, obrigados a demitir-se, etc., quando seu único erro foi terem tocado um joelho, tentado roubar um beijo, falado sobre coisas “íntimas” em um jantar de negócios ou enviado mensagens sexualmente explícitas para uma mulher com a qual a atração não era recíproca.

“Essa febre de enviar “porcos” ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a se emancipar, na verdade serve aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários e daqueles que acreditam, em nome de uma concepção substancial do bem e da moral vitoriana que o acompanha, que as mulheres são seres “à parte”, crianças com rosto de adulto, exigindo proteção.

“Diante disso, os homens são convocados a vencer sua culpa e encontrar, no fundo de sua consciência retrospectiva, um “comportamento mal colocado” que eles poderiam ter tido dez, vinte ou trinta anos atrás, e dos quais eles deveriam se arrepender. É a confissão pública, a incursão de promotores autoproclamados na esfera privada, que instaura um certo clima de sociedade totalitária.

“A onda purificatória parece não ter limites. Aqui, censuramos um nu de Egon Schiele em um cartaz; ali pedimos a remoção de uma pintura de Balthus de um museu com base em que seria uma apologia à pedofilia; na confusão do homem e da obra, pedimos a proibição da retrospectiva Roman Polanski na Cinémathèque e obtemos o adiamento daquela dedicada a Jean-Claude Brisseau. Uma acadêmica considera o filme de Michelangelo Antonioni Blow Up “misógino” e “inaceitável”. À luz deste revisionismo, John Ford (The Prisoner of the Desert), e até mesmo Nicolas Poussin (The Abduction of the Sabines) não estão numa situação melhor.

“Alguns editores já estão pedindo a algumas de nós que façamos nossos personagens masculinos menos “sexistas”, que falemos sobre sexualidade e amor com menos desmedida ou ainda que deixemos o “trauma sofrido pelas personagens femininas” mais óbvio! À beira do ridículo, um projeto de lei na Suécia quer impor um consentimento explicitamente notificado a qualquer candidato para relações sexuais! Só mais um esforço e dois adultos que quiserem dormir juntos deverão preencher via um “App” em seu telefone celular um documento em que as práticas que eles aceitam e aquelas que eles recusam serão devidamente listados.

Indispensável liberdade de ofender

“Ruwen Ogien defendeu uma liberdade de ofender indispensável à criação artística. Do mesmo modo, defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual. Somos hoje suficientemente conscientes para para admitir que a pulsão sexual é por natureza ofensiva e selvagem, mas também somos suficientemente clarividentes para não confundir paquera desajeitada e assédio sexual.

“Acima de tudo, temos consciência que a pessoa humana não é monolítica: uma mulher pode, no mesmo dia, liderar uma equipe profissional e gostar de ser o objeto sexual de um homem, sem ser uma “vagabunda” ou uma vil cúmplice do patriarcado. Ela pode cuidar para que seu salário seja igual ao de um homem, mas não se sentir traumatizada para sempre por um esfregador no metrô, mesmo que isso seja considerado um delito. Ela pode até mesmo considerar isso como a expressão de uma grande miséria sexual, como um não-evento.

“Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além da denúncia de abusos de poder, toma forma de ódio aos homens e à sexualidade. Acreditamos que a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar. E consideramos que é preciso saber responder a essa liberdade de importunar de outra forma que se encerrando no papel de presa.

“Para aquelas de nós que escolhemos ter filhos, sentimos que é mais sensato criar nossas filhas de modo que sejam suficientemente informadas e conscientes para viver suas vidas sem se deixar intimidar ou culpabilizar.

“Os acidentes que podem tocar o corpo de uma mulher não atingem necessariamente sua dignidade e não devem, por mais difíceis que possam ser, necessariamente torná-la uma vítima perpétua. Porque não somos redutíveis ao nosso corpo. Nossa liberdade interior é inviolável. E essa liberdade que estimamos não vem sem riscos ou responsabilidades.”

As redatoras deste texto são: Sarah Chiche (escritora, psicóloga clínica e psicanalista), Catherine Millet (crítica de arte, escritora), Catherine Robbe-Grillet (atriz e escritora), Peggy Sastre (autora, jornalista e tradutora), Abnousse Shalmani (escritora e jornalista).

Assinam também: Kathy Alliou (curadora), Marie-Laure Bernadac (curadora geral honorária), Stephanie Blake (autora de livros infantis), Ingrid Caven (atriz e cantora), Catherine Deneuve (atriz), Gloria Friedmann (artista visual), Cécile Guilbert (escritora), Brigitte Jaques-Wajeman (diretora), Claudine Junien (geneticista), Brigitte Lahaie (atriz e apresentadora de rádio), Elisabeth Lévy (editora-chefe da Causeur), Joëlle Losfeld (editora) Sophie de Menthon (presidente do movimento ETHIC), Marie Sellier (autora, presidente da Société des gens de lettres).

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