Cartas recém reveladas de Sylvia Plath citam abuso doméstico cometido por Ted Hughes

Cartas recém reveladas de Sylvia Plath citam abuso doméstico cometido por Ted Hughes

A correspondência inédita entre a poetisa e sua antiga terapeuta registra acusação de espancamento por parte do marido e o desejo explícito de que ela morresse.

Traduzido livremente do Guardian

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Numa carta dirigida a sua antiga terapeuta, Sylvia Plath (1932-1963) escreveu que seu marido, Ted Hughes (1930-1998), vencera. Isso dois dias antes de ela abortar o segundo filho do casal. Também escreveu que Hughes queria vê-la morta. É o que diz nas cartas de Plath. As duas acusações estão entre as revelações mais explosivas de uma correspondência inédita escrita durante um dos casamentos mais famosos e destrutivos da literatura.

Escritas entre 18 de fevereiro de 1960 e 4 de fevereiro de 1963, uma semana antes de sua morte, as cartas cobrem um período da vida de Plath que permaneceu até hoje desconhecido tanto para leitores como para estudiosos. A escritora norte-americana, que viveu estes anos na Inglaterra, era uma prolífica escritora de cartas e mantinha diários detalhados desde a idade de 11 anos. Porém, após sua morte, Hughes declarou que os diários de Plath daquela época foram perdidos, incluindo o último volume que, estranhamente, ele disse ter destruído para proteger seus filhos, Frieda e Nicholas.

Enviada sempre para a Dra. Ruth Barnhouse — o modelo para a Dra. Nolan na novela autobiográfica de Plath, A Redoma de Vidro, e que tratou o escritora nos EUA após sua primeira tentativa de suicídio em agosto de 1953 — a correspondência é entendida como os últimos textos sem censura escritos por Plath em seus meses finais, junto de algumas de suas poesias mais famosas, incluindo as da coletânea Ariel.

Assia Wevill
Assia Wevill

As nove cartas escritas após Plath descobrir a infidelidade de seu marido com sua amiga Assia Wevill em julho de 1962, formam o núcleo da coleção. Também estão incluídos registros médicos a partir de 1954.

O tratamento de Plath com Barnhouse terminou quando a poeta mudou-se para Inglaterra mas as duas seguiram uma amizade muito íntima que tem sido foco de estudo de scholars.  A correspondência revela uma intimidade tranquila e acolhedora, bem como um grande senso de humor.

Além de expor sua dor pela descoberta do adultério de Hughes, as passagens mais chocantes revelam a acusação de abuso físico (espancamento) sofrido por Plath pouco antes de abortar seu segundo filho em 1961. E na carta datada de 22 de setembro de 1962 — no mesmo mês em que os poetas se separaram — ela diz ter sido espancada por Ted. Vários dos poemas de Plath abordam o aborto, como Parliament Hill Fields.

A extensão do distanciamento do casal durante este período é revelada em outra carta da coleção, datada de 21 de outubro de 1962, em que Plath escreve para Barnhouse contando que Hughes lhe disse diretamente que a desejava ver morta. Embora Plath tivesse uma história de depressão e auto-agressão, e tivesse tentado se matar em 1953, ela apenas revelou tais episódios para Hughes após o casamento.

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As cartas foram escritas numa época em que Plath estava temendo por seu estado mental. Era o período da desintegração de um dos mais famosos casais literários do século XX. Hughes, nascido em Yorkshire, conhecera Plath enquanto ambos estudavam na Universidade de Cambridge em 1956. Hughes já era um poeta estabelecido e ela tinha ido a uma festa no dia 25 de fevereiro daquele ano com o desejo expresso de conhecê-lo. Quatro meses depois, eles se casaram e formaram rapidamente uma formidável e mutuamente benéfica parceria criativa que resultou na obra de Hughes, Hawk in the Rain, e na novela semi-autobiográfica de Plath, A Redoma de Vidro.

O fascínio público com o relacionamento era grande, ainda mais que a produção criativa de ambos se baseava em experiências de vida. Em outubro de 1962, Plath escreveu a maioria dos poemas que seriam incluídos em Ariel — publicado postumamente em 1965 — que inclui muitas referências e iconografias interpretadas como sendo sobre Hughes. Estes incluem as linhas em Daddy: “I made a model of you, / A man in black with a Meinkampf look / And a love of the rack and the screw” (“Eu fiz um modelo de você, / Um homem de preto com um olhar de Meinkampf / E um amor de cremalheira com parafuso”). Plath escreveu para sua mãe durante este período: “Eu estou escrevendo os melhores poemas da minha vida. Eles farão o meu nome”.

Décadas mais tarde, em Birthday Letters, de 1998, Hughes falou sobre seu tempo com Plath, sobre a tempestuosa ligação e as consequências da morte da mulher. O livro foi sua resposta final aos críticos feministas que, nos anos 70, acusaram Hughes a respeito do tratamento que dava a Plath. Durante esse tempo, ele foi várias vezes interrompido com gritos de “assassino” em suas leituras. A feminista norte-americana Robin Morgan publicou o poema The Arraignment, que começa com a frase “Eu acuso Ted Hughes”. Plath foi sepultada e na lápide lia-se Sylvia Plath Hughes, por insistência dele. Ela foi alvo de “vândalos” que removeram o sobrenome do marido, que sempre colocava o Hughes de volta.

Grave1Em sua coleção de 1998 Howls and Whispers, Ted citou uma das respostas de Barnhouse a Plath, em setembro de 1962, no poema de título: “And from your analyst: ‘Keep him out of your bed. Above all, keep him out of your bed’” (E se seu analista: Deixe-o fora da cama, deixe-o fora da cama). Em 2010, a aparente palavra final de Hughes sobre o relacionamento turbulento foi publicada sob a forma de seu poema Last Letter, que descreve o que aconteceu nos três dias antes de sua esposa morrer.

O nome de Hughes foi diversas vezes recolocado por ele na lápide de Plath
O nome de Hughes foi diversas vezes recolocado por ele na lápide de Plath

Bem, os estudiosos de Plath elogiaram a alta qualidade e as informações contidas nas cartas recém encontradas. Elas estão sendo publicadas em livro. O primeiro volume já saiu. O co-editor Peter K Steinberg disse: “É um incrível material que tinha ficado totalmente fora do radar”, Citando as poesias “sensacionais” que Plath escreveu em outubro de 1962: “É possível que Plath fizesse uma catarse ao escrever para a Dra. Barnhouse e que, ao fazê-lo, sentia-se livre para escrever aqueles poemas explosivos e duradouros”.

Andrew Wilson, autor de Mad Girl’s Love Song, sobre a vida de Plath antes de conhecer Hughes, disse que a correspondência com Barnhouse fornecem uma inestimável visão das origens de sua batalha contra a depressão. Elas formariam “o elo perdido” entre sua biografia e história literária. “Essas cartas parecem capazes de preencher certas lacunas de nosso conhecimento e lançam novas luzes sobre o casamento turbulento e controverso entre Plath e Hughes”, disse ele.

Por incrível que pareça, o arquivo chamou a atenção dos estudiosos da Plath após um vendedor de livros raros anunciá-lo on-line para venda.

Com todo o barulho provocado pela descoberta, Carol Hughes, a viúva do poeta, tratou de rebater: “As alegações feitas por Sylvia Plath em cartas inéditas para sua psiquiatra, sugerindo ter sido espancada por Ted Hughes, dias antes de ter abortado o segundo filho, são tão absurdas quanto chocantes para quem conhecia bem Ted”.

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The Square — A Arte da Discórdia, de Ruben Östlund

The Square — A Arte da Discórdia, de Ruben Östlund

Filmes existem de tudo quanto é jeito, mas é difícil encontrar um tão CONTEMPORÂNEO e PROVOCATIVO quanto o sueco The Square — A Arte da Discórdia, em cartaz em Porto Alegre desde a última quinta-feira. The Square recebeu a Palma de Ouro em 2017 e 6 importantes prêmios da Academia Europeia de Cinema — melhor filme, melhor diretor (Ruben Östlund), melhor ator (Claes Bang), melhor roteiro (Ruben Östlund), melhor direção de arte, etc.

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Christian é o respeitado curador de um museu de arte contemporânea. Homem divorciado e bom pai, é uma pessoa que dirige um carro elétrico e apoia boas causas. A sua próxima exposição do museu, O Quadrado, é uma instalação que pretende evocar o altruísmo em quem a vê, recordando nosso papel enquanto seres humanos responsáveis pelos nossos semelhantes. Mas às vezes é difícil viver à altura dos nossos ideais: uma resposta incauta de Christian ao roubo do seu telefone vai conduzi-lo a situações das quais ele se envergonha. Além disso, uma desastrada campanha de marketing feita pelo museu vai afrontar o senso comum e o bom gosto do publico.

O filme faz uma incursão às pessoas de bom senso, politicamente corretas, quando empurradas para fora do seu quadrado, expondo as rachaduras de um mundo indiferente e comprometido apenas com sua própria lógica e ego.

O museu de arte serve como excelente metáfora. Diz Östlund: “Visitei museus de arte em várias cidades e todos se parecem iguais. Perderam completamente a conexão com o mundo”. Esse vazio endinheirado tenta ganhar poder de choque nas redes sociais e no marketing. “Viralizou, viralizou”, gritam os caras da propaganda. Muito bonito e bem acabado, em alguns momentos o filme parece uma variação mais cômica de ‘A Grande Beleza’. Mas, enquanto este escolhe o caminho da poesia, o sueco opta pelo desconforto, ironia, destruição e bizarrice. A câmara parada manda o espectador dar ênfase a discursos que logo depois serão negados.

Já o surrealismo como forma de provocação é retirado das gavetas “buñuelianas” a fim de chocar, incomodar, debochar. Em um encontro romântico marcado por certa indiferença, um chimpanzé passeia pelo local. E o que dizer da cena pela qual The Square será sempre lembrado? A cena onde um “ser primitivo” irrompe para aterrorizar a fina nata da elite sueca num jantar. E de onde surgiu tal criatura e o seu ator? Do YouTube, claro!

Mas cabe muito mais dentro deste quadrado do que o descrito aqui.

P.S 1: Desculpem o texto grande. Queria fazer resenhas menores. É que vi o filme, li a respeito e, olha, se fosse razoável, escreveria mais dez parágrafos, inclusive contando porque me identifiquei com a narrativa em vários momentos. Um conselho: não provoque gente PC, alguns deles perdem (muito) o controle quando não se sentem confortáveis.

P.S. 2: Maldita memória. No final, a lógica e até algumas frases ficaram quase iguais ao que li no site português SapoMag.

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Sobre o País da Cocanha e a Pasárgada de Bandeira

Sobre o País da Cocanha e a Pasárgada de Bandeira

Quando a lenda surgiu ninguém sabe, tampouco a origem da palavra. A denominação aparece num poema jocoso, recolhido por volta de 1230. Mas há inúmeras referências muito antigas a esta terra de tantas maravilhas.

Há um país pra lá da Alemanha, abundante de todos os bens, ao qual chamamos Cocanha, onde cada um, sem nada fazer, pode ir viver quando quiser; e ter roupa sem precisar de dinheiro, sempre que quiser; sem suar, nem sofrer, tem-se o que quiser. Aqueles que amam o trabalho, renegam esse lugar. Molengas e preguiçosos ali são bem-vindos e, é certo, se sentirão muito bem entretidos. Acreditarão que estão no paraíso terrestre e, por nada, desejarão trocar de lugar. Não há onde estar melhor e sem sofrimento, tão somente para desfrutar, rir, beber e comer.

Tradição oral da Idade Média, esta Cocanha é um país obviamente mitológico. Nesta terra maravilhosa, não havia trabalho e o alimento era abundante. Todo qualquer produto era de graça, as casas eram feitas de cevada ou doces, o sexo podia ser obtido livremente, o clima era sempre agradável, o vinho nunca terminava e todos permaneciam jovens para sempre. Vivia-se entre dois rios, um de vinho e outro de leite, as colinas eram de queijo — aliás, o queijo chovia do céu — e leitões assados caminhavam pelo campo com uma faca espetada no lombo para facilitar.

Esta utopia — fantasia de fartura, ociosidade, juventude e liberdade — enraizou-se no imaginário de diversos povos ao longo da Idade Média.

O País da Cocanha, ou Cocagne, foi retratado pelo pintor Pieter Bruegel.

O País da Cocanha, de Pieter Brueghel
O País da Cocanha, de Pieter Bruegel

A lenda de Cocanha também representou um símbolo para a cultura hippie nos anos finais da década de 60, um lugar onde todos os desejos seriam instantaneamente gratificados.

E, bem, há uma Praia da Cocanha, em Caraguatatuba (SP).

E Manuel Bandeira criou Pasárgada

Na verdade, Pasárgada não tem nada a ver com espetacular poema de Bandeira. Pasárgada ou Pasárgadas (campo dos persas) foi uma cidade da antiga Pérsia, atualmente um sítio arqueológico na província de Fars, no Irã, situado 87 quilômetros a nordeste de Persépolis. Foi a primeira capital da Pérsia, no tempo de Ciro II, e coexistiu depois com outras, dado que era costume persa manter várias capitais em simultâneo, em função da vastidão do seu império: Persépolis, Ecbátana, Susa ou Sardes. É hoje um Patrimônio Mundial da Unesco.

Ruínas de Pasárgada, Patrimônio Mundial da UNESCO
Ruínas de Pasárgada, Patrimônio Mundial da UNESCO

Bandeira explica: Vou-me embora pra Pasárgada foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos. Foi num autor grego. Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!”. Senti na redondilha a primeira célula de um poema

Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira (do livro Libertinagem, 1930)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe – d’água.
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

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Feliz, pagando o IPTU na Porto Alegre de Marchezan

Feliz, pagando o IPTU na Porto Alegre de Marchezan
É assim que a Prefeitura vê o IPTU. Eu o vejo de outra forma.
É assim que a Prefeitura vê o IPTU. Eu o vejo de outra forma.

Porto Alegre… Que Porto Alegre, meu filho? Ninguém nas ruas, lojas vazias, com poucos funcionários e quem fugiu para a praia fugiu acompanhadíssimo de uma multidão. Óbvio, os verdadeiros fugitivos estão aqui, são os que ficaram na cidade, como eu.

Porto Alegre… Que Porto Alegre, meu filho? O perfeito-prefake Marchezan só chora, não cria nada, não mantém nada, há buracos crescentes aqui na porta do Sul21 onde me encontro, os parques estão se transformando em florestas, chorando por uma poda. E as notícias da prefeitura só chegam na forma de novos filhos e namoradas do alcaide playboy.

Vejam a foto que fez o Mauro Scheuer Messina, sócio da Ladeira Livros, do nosso buraco preferido de nossa querida Rua da Ladeira. Ele existe há seis meses, uma maravilha:

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Porto Alegre… Que Porto Alegre, meu filho? Fui até a farmácia e peguei fila nenhuma. Depois, fui ao Mercado Público, na banca 38, puxei uma ficha e o cara gritou o meu número imediatamente. Fui a uma eletrônica e toda a estrutura da loja estava disponível para mim. Meu almoço daqui uma hora virá certamente voando em tapetes. Todos os serviços estão funcionando com rapidez, na contramão do prefeito.

Então, fui ao banco pagar o IPTU com desconto. Era a data final para isso para dar dinheiro para a prefeitura permanecer paralisada, apenas gerando notícias para as colunas sociais.

Fui ao Banrisul. Putz, toda Porto Alegre estava lá. Como fiz 60 anos, agora entro na fila preferencial. Vi o povo lá sentado e quase só havia cabeças brancas como a minha. Acho que as famílias mandam seus velhos para os bancos, só pode. A caixa, uma mulher de seus 40 anos, bastante bonita, estava irritada, furibunda, puta. Apresentei o IPTU com medo que ela rasgasse o papel. Não repassei o dinheiro, esperei que ela o pedisse. Quando alguém está irritado, melhor não bancar o muito autônomo. Então ela pediu a grana e foi completando:

— Hoje só recebo IPTU, que merda.

O outro caixa olhou para ela, mas não ousou responder, muito menos eu.

— Sou uma idiota. Quem mandou esquecer em casa? Perdi a por… do desconto do idiota do prefeito — sim, amigos, ela disse “por…”, sem completar o palavrão. Já o “idiota” saiu claro, com gosto. Era o último dia para ganhar um desconto que não era tão grande assim.

— Essa merda estragou meu dia — completou.

Ia dizer pra ela que acho que se consegue emitir pela internet, mas não ousei.

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Roda Gigante, de Woody Allen / Uma Nova Amiga, de François Ozon / A Ovelha Negra, de Grímur Hákonarson

Roda Gigante, de Woody Allen / Uma Nova Amiga, de François Ozon / A Ovelha Negra, de Grímur Hákonarson

26113815_10210763220932742_1278277484641029906_nDepois de vários filmes sem me agradar, acabei gostando bastante de Roda Gigante, de Woody Allen. Um filme bem ao estilo das peças de O’Neill dos anos 50 — , época em que produção é ambientada –, cheio de personagens sem rumo, decadentes e trágicos. Aliás, o filme bem que poderia passar no Telecine Cult em preto e branco. Não fosse pela presença de atores atuais, enganaria bem. Impressionante trabalho de Kate Winslet e do fotógrafo Vittorio Storaro. O filme tem fotografia deslumbrante. Ah, não há nenhuma piada do filme. 100% joke free. É claro que Allen não é Tennessee Williams, nem Eugene O’Neill ou Elia Kazan. Se fosse, teria mais cuidado na construção dos personagens, mas mesmo assim o filme permanece em pé. Explico: algumas coisas são meio gratuitas, mas só notei na saída.

02UmaNovaAmigaVimos na TV um filme de François Ozon que, creio, não foi para os cinemas, mas deveria. Uma Nova Amiga não é tão bom quanto Dentro de Casa ou Frantz, mas é uma joia. David é um cara que perde a mulher. Após a morte, uma amiga do casal desfeito vai visitá-lo, encontra a porta aberta e dá de cara com o sujeito vestido de mulher com a filhinha ainda bebê. A ex saberia e aprovaria. O roteiro de Ozon complica tudo: a gente sabe que não tem nada a ver, mas associa o ato ao luto — o marido deprimido que usa as roupas da mulher para se sentir mais próximo dela, para transmitir à filha pequena a sensação de ainda ter uma mãe, blá, blá, blá. O travestimento seria prova de amor. Só que, é claro… Vejam o filme porque vale a pena. Estava gratuito no Now até 31/12…

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Tragédia é pouco para caracterizar o bom filme islandês A Ovelha Negra, de Grímur Hákonarson. Na Islândia tem mais ovelhas do que seres humanos. Muito mais. O animal é fundamental para o país. Um dia, após ser derrotado pelo irmão no concurso anual do melhor ovelha de sua região e por pura vingança, Gummi decide investigar o animal vencedor. Detalhe: os irmãos são inimigos mortais que não se falam há 40 anos. Ele desconfia que o bicho tenha uma doença contagiosa. Quando a suposição se confirma e todas as fazendas das redondezas são obrigadas a matar suas ovelhas, coisas que não devo contar acontecem. Vale a pena ver. A Elena viu muitas coisas bíblicas no filme, porém, como eu sou ignorante… Bem, está no Now, lá nos ‘Cults independentes’.

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Vida besta e ótima de findi

Vida besta e ótima de findi
Festa: a gente gosta. Elena Romanov e Milton Ribeiro | Foto: Ricardo Branco
Festa: a gente gosta. Elena Romanov e Milton Ribeiro | Foto: Ricardo Branco

Num fim de semana em que houve uma super treta nas redes — na verdade uma confusão de nossa época burra e infantilóide, que confunde a babaquice de um cara com abuso –, ficamos bastante em casa, só saindo para o supermercado e para uma bela festa de fim de ano em casa de amigos. Começamos indo ao cinema assistir o último filme de Woody Allen lá na quinta-feira, mas depois foi isso mesmo, para alegria do gato Wassily, que teve sempre companhia. Não que ele demonstre, claro; afinal, é um gato crasso, cheio de si e com pouca disposição para se preocupar com os outros.

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Ontem, enquanto víamos o excelente A Ovelha Negra no Now (Cult Independentes), ele subiu numa cadeira para observar de perto nossa musa Elena, que parou o filme para fotografá-lo.

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Sou um chato que não aprova interrupções, mas não posso nada contra o amor que liga gato e dona.

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Durante a pausa, pensei que este ano começará em janeiro, com o julgamento de Lula, e não depois do Carnaval. Estarei de férias durante o julgamento, o que talvez me salve de grande irritação. Não que morra de amores pelo ex-presidente, mas por tratar-se de um julgamento político ou travestido de técnico.

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Bem, então voltamos para nosso filme que, aliás, já era o chatinho iraniano Táxi Teerã. Fico com pena do cineasta censurado por 20 anos, mas Isto não É um Filme, também de Jafar Panahi, na época em prisão domiciliar, é bem melhor.

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Resoluções de Ano Novo

Resoluções de Ano Novo

Ler mais livros.

R1 Ler mais livros

Ficar mais tempo com a família.

R2 Ficar mais tempo com a família

Respeitar a autoridade.

R3 Respeitar a autoridade

Comer coisas saudáveis.

R4 Comer coisas saudáveis

Esquecer os inimigos.

R5 Esquecer os inimigos

Ser um pouquinho mais fashion.

R6 Ficar na moda

E mais educado.

R7 Ser mais educado

Exorcizar os demônios internos e dizer menos palavrões.

R8 Exorcizar os demônios internos

Ter mais empatia. (Retrato de Adão, Arcimboldo, 1578)

R9 Ter mais empatia Portrait of Adam, Arcimboldo, 1578

Ser adequado à mesa. (Bosch?)

R10 Ser educado à mesa Last Judgment, Stanford Museum, 15th c

Largar os vícios. (Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias).

R11 Largar os vícios Hieronymus Bosch, Garden of Earthly Delights

Ser carinhoso.

R12 Ser carinhoso

Andar mais de Uber e Cabify. (A puta da Babilônia, século XV).

R13 Andar mais de Uber The Whore of Babylon

Jamais esquecer de dar recados. (Hieronymus Bosch, A Tentação de Santo Antônio).

R15 Jamais esquecer de dar recados The Devil's Messenger - Ice skating [Hieronymus Bosch, Temptation of St. Anthony]

Não perder tanto tempo no Facebook

R14 Não perder tanto tempo no Facebook

Um 2018 com excelente música, grandes filmes, livros ótimos e paixões intensas. E, naturalmente, com uma outra realidade política. (A última frase foi roubada de Enéas de Souza).

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Star Wars: cinemas estão alertando sobre uma cena silenciosa do filme

Star Wars: cinemas estão alertando sobre uma cena silenciosa do filme

Ah, se esta plateia assistisse a um filme de Tarkovski ou Bergman…

Uma cena especifica está gerando controvérsias e diversos cinemas pelo mundo estão colocando avisos alertando que a tomada não é um erro da projeção, mas sim uma opção do diretor. É que são 10 segundos em silêncio!!! 10 segundos sem som. Imaginem! Sem bombas, explosões ou música!

É um sinal claro de incompreensão e de decadência do público vedor (gostaram?) de filmes. Houve um cineasta — quem terá sido? — que disse que, a partir do começo dos anos 80, os grandes estúdios, em busca de agradar o maior número possível de espectadores de todas as faixas etárias, passaram a privilegiar roteiros que não ultrapassassem a capacidade mental de alguém com 12 anos de idade. Então, criaram seu público. Parabéns.

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Bicampeã mundial de xadrez recusa-se a usar veste islâmica e não vai defender seus títulos na Arábia Saudita

Bicampeã mundial de xadrez recusa-se a usar veste islâmica e não vai defender seus títulos na Arábia Saudita

Parte da esquerda — trincheira à qual pertenço — adora o Islã, que dá guarida para a misoginia, a homofobia, o assassinato de apóstatas e as pseudociências. Não entendo. Entendo é a ucraniana Anna Muzychuk, bicampeã do mundo de xadrez. Ela não irá defender seus títulos no campeonato mundial feminino que tem lugar na Arábia Saudita.

Mulher vestindo abaya.
Mulher vestindo abaya.

Em  publicação na sua página de Facebook, Anna escreveu que prefere defender a igualdade de gênero e ser fiel aos seus princípios: “Não quero jogar pelas regras de outros, não quero usar abaya [veste islâmica para as mulheres que na Arábia Saudita é obrigatória], não quero ter de andar acompanhada para sair e, no geral, não quero me sentir uma criatura secundária”.

“Estou preparada para me erguer pelos meus princípios e não ir a um evento onde, em cinco dias, deveria ganhar mais do que ganho numa dezena de eventos juntos”, explicou Muzychuk, acrescentando que “tudo isto é irritante, mas o mais perturbador é que quase ninguém se preocupa”, acrescentou.

Em fevereiro deste ano, a campeã norte-americana Nazi Paikidze recusou-se a participar no mundial feminino no Irã, devido à obrigatoriedade do uso de um véu na cabeça. Nessa competição, Anna Muzychuk participou e aceitou utilizar o véu, algo que considerou “mais do que suficiente”.

Numa outra publicação na sua página pessoal, em novembro, Anna Muzychuk justificou a decisão: “Primeiro o Irã, depois a Arábia Saudita. Pergunto-me onde será organizado o próximo campeonato mundial feminino. Apesar do prêmio recorde, não irei jogar em Riad. Usar abaya o tempo todo? Tudo tem o seu limite”, escreveu.

Do Facebook da enxadrista.
Do Facebook da enxadrista.

Com informações da esquerda.net

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Os diferentes, mas nem tanto, natais dos sem fé

Os diferentes, mas nem tanto, natais dos sem fé

Para os de ateus e agnósticos, ver o Natal como um simples feriado seria apenas mais uma alteração num evento que já foi pagão, que depois tornou-se religioso por obra da Igreja Católica, que recebeu um Papai Noel chamado Nicolau – um bispo nascido na Turquia em 284 d.C que deixava saquinhos com moedas próximos às chaminés das casas – e que ganhou o vermelho e branco da Coca Cola em 1931, durante uma bem-sucedida campanha publicitária. Segundo o IBGE, o número brasileiros que declararam não ter religião no último censo, incluindo os ateus, cresceu de 1% nos anos 70 para 7,3% em 2010. O fenômeno é mundial. A American Physical Society fez uma pesquisa na Austrália, Áustria, Canadá, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia, Suíça e República Tcheca. Destes, os tchecos revelaram-se os mais religiosos, com 60%. O menor número foi encontrado na Holanda. A entidade projetou as tendências no país para 2050, chegando à conclusão de que 70% dos holandeses não terão religião na metade do século XXI. Nos Estados Unidos, o número daqueles que se identificam como cristãos teve uma queda de 10% nos últimos 20 anos, passando de 86 para 76%.

O Sul21 procurou saber como é a comemoração da data para estas pessoas. Afinal, é praticamente impossível passar ao largo da face comercial do Natal. A engenheira Rachel Zanini afirma que, para ela, o Natal foi por muitos anos apenas “decoração e gastronomia” e que nunca contestou o significado da data por viver numa família extremamente católica. A partir do momento em que pode desenvolver uma crítica interna, começou a se incomodar com os excessos religiosos da família e com os comerciais da sociedade, além da obrigatoriedade da comemoração. “Até o salão de beleza onde fui hoje estava decorado com as cores da Coca-Cola. Serviam espumante… Tudo isso pelo nascimento de Jesus?”. Vou à festa da família, mas não compro presentes e só desejo boas festas e bom feriado aos amigos.

A dona de casa italiana Bruna Schiavone diz que, quando saiu do norte da Itália, nos anos 90, as festas eram bem diferentes. “Lá na Itália, a festividade está mais americanizada, mas no meu tempo as crianças comemoravam o Dia de Santa Lucia. Essa festa não é a mesma do Natal, nem na mesma data. As crianças recebiam doces de presente – antigamente ganhavam laranjas como desejo de saúde e necessidade de vitamina C para o inverno –, estes eram os presentes. No dia 25, havia um almoço e fim. Nada de vigília ou troca de presentes. Hoje, vejo a data como uma oportunidade de reunir a família. Não monto pinheirinhos em casa nem deixo a casa com cara de Natal”.

Foto: Ramiro Furquim / Sul21

O mesmo faz Francisco Marshall. “No passado, como família germânica tradicional, cantávamos o “noite feliz”, comíamos peru e mais aquele monte de guloseimas. Hoje, reunimos a família e eu estou proibido de fazer piadas sobre religião por causa dos mais velhos. Porém, como ateu programático, às vezes aproveito a deixa… No ano passado, como meu aniversário fica próximo, fiz a festa em 25 de dezembro”. E os presentes? “Neste ano, só presentes dos adultos paras crianças. Não se toca no nome de Jesus Cristo, nem para o bem nem para o mal. Ou seja, é quase um ágape pagão, mas não se cogita passar em branco ou ficar em casa vendo filme. Há o peso da tradição na família”. Marshall explica que normalmente há discussões sobre ateísmo nas reuniões familiares, mas que estas cessam no final do ano. “A convivência é mais importante, mesmo que o ateísmo predomine, o que é o nosso caso”.

O presidente da ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos), Daniel Sottomaior, comemora tranquilamente e não se incomoda com a data. “A origem da festa não guarda o menor traço de cristianismo: é o Solis Invictus, o Solstício de inverno. Tenho uma filha de 7 anos que adora o 25 de dezembro. Nossa árvore é uma árvore de Newtal, referência a Isaac Newton, que nasceu nesta data e que descobriu a Lei da Gravidade. Ela tem maçãs, luzes e debaixo dela, um volume dos Principia (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural) do autor. Os outros simbolismos – perus, renas, presentes, árvores, Roberto Carlos – , nada disso nasceu com o Natal. Estamos apenas retomando uma data pagã que foi roubada pela igreja”.

Sottomaior: “Nossa árvore é uma árvore de Newtal, referência a Isaac Newton”. Reprodução/Flickr

A fala de Sottomaior encontra eco nos livros de história. A história do Natal começa, na verdade, pelo menos 7 mil anos antes do nascimento de Jesus. No hemisfério norte, o solstício de inverno era comemorado por marcar a noite mais longa do ano. No dia seguinte, ela seria paulatinamente mais curta, encaminhando o final do período ruim para as lavouras. Então, no solstício de inverno era festejada a melhoria das perspectivas. Era um tempo em que o homem deixava de ser caçador errante e começava a dominar a agricultura; então a volta dos dias mais longos significava a certeza de novas colheitas no ano seguinte. Na Mesopotâmia a celebração era enorme, com mais de dez dias de festa. Já os gregos cultuavam Dionísio no solstício, o deus do vinho e do prazer. Na China, as homenagens representavam a harmonia da natureza. Os povos antigos que habitavam a atual Grã-Bretanha criaram Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano. Então, em 221 d.C., o historiador cristão Sextus Julius Africanus propôs à Igreja a fixação do nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro. Aceita a proposta, a partir do século IV o Solis Invictus começou sua mutação. Ficou convencionado que Jesus nascera em 25 de dezembro e que as celebrações eram em sua honra.

Rickli: “Em alguns anos, em vez de usar pinheiros, enfeitávamos bananeiras de Natal”.

Mas voltemos a nossos personagens. Ralf Rickli, pedagogo e escritor, trabalhou por anos em comunidades carentes em São Paulo. “Nunca fiz proselitismo ateísta, mas explicava a meus alunos sobre a subjugação da cultura local em relação à do norte. Então, rejeitava os símbolos europeus, temperados, em favor de uma simbologia tropical. Em alguns anos, em vez de usar pinheiros, enfeitávamos bananeiras de Natal. Nossa celebração subversiva sempre foi um sucesso absoluto!. No passado, todos os anos eu pagava pontualmente o imposto familiar, que é o de ir à festa sem nenhuma vontade. Ficava quietinho. Minha mãe foi professora de escola dominical presbiteriana, sabe como é”. Hoje trabalhando em Vitória (ES), Ralf costuma passar o Natal sozinho. Diz que não se deprime, mas que se fosse convidado por alguém legal, iria se divertir com os amigos.

Cláudio Costa: “Muitas vezes a irritação vem da necessidade do cumprimento de um ritual ou até da necessidade de abraçar um familiar que lhe é desafeto”.

Por falar em depressão, Claudio Costa, psiquiatra e psicanalista mineiro, afirma que há efetivamente pessoas que se sentem excluídas de um fenômeno do qual gostariam de participar com alegria. “Isso ocorre independente de convicções religiosas. Em situações de festa, de alegria obrigatória e com hora marcada, muitos sentem desconforto por não se identificarem com a alegria. Sentem a situação com um beco sem saída. Quem não consegue ter uma crítica lúcida sobre a festa e liberar a sociedade das culpas, sente-se atingido. Muitas vezes a irritação vem da necessidade do cumprimento de um ritual ou até da necessidade de abraçar um familiar que lhe é desafeto. Porém, ao mesmo tempo que se irritam, essas pessoas “não conseguem não ir” e a consciência de que está cumprindo uma obrigação desagradável é causa de aborrecimento.

Estes são apenas alguns depoimentos que colhemos. A impressão geral que ficamos é de que os entrevistados – todos ateus declarados – veem a festa como uma ocasião para reunir a família, dar presentes para as crianças e refletir um pouco, o que está longe de ser negativo. Uma entrevistada que não deseja se identificar faz questão de expor uma restrição: “Olha, tudo bem, mas acho que perdemos alguma qualidade e liberdade que as celebrações pagãs deviam ter, sei lá”.

Publicado em 25 de dezembro de 2011 no Sul21.

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Alguma coisa sobre Mozart

wolfgang-amadeus-mozartWolfgang Amadeus Mozart nasceu em 27 de janeiro de 1756 em Salzburgo que, na época, tinha por volta de 10.000 habitantes. Salzburgo localiza-se numa das rotas em que se entrecruzavam os trajetos germânicos e italianos. Por isso, recebia influências dos dois lados e isto significa muito em termos de Mozart, um compositor que se estabeleceu e uniu as duas maiores tradições musicais europeias. O menino Wolfgang nasceu em uma família unida e amorosa. Seu pai, Leopold, era compositor. Tratava-se de uma criança emotiva e terna; queria aprender tudo, mostrando predileção pela matemática e pela música. Seu maior passatempo era o de inventar e contar histórias para si mesmo. Ao seis anos, ao começar sua educação musical em família, logo demonstrou que podia executar e compor pequenas peças ao cravo da mesma forma com que inventava histórias. O mundo perdeu um contador de histórias e ganhou um músico imenso a também nos contar histórias. A família não deu muita atenção ao compositor, mas resolveu que o pequeno virtuose poderia gerar dinheiro, tornando-se uma glória tanto familiar quanto para a corte do príncipe-arcebispo de Salzburgo. Sempre vigiado pelo pai e tendo um porto seguro em sua cidade natal, o menino-prodígio viajará loucamente (ver as viagens que fez aos 10 anos, em 1766, por exemplo) dando concertos por toda a Europa.

Para que os menos musicais pudessem reconhecer o virtuosismo do garoto, faziam-no realizar bobagens de cão amestrado, tal como tocar por cima de um pano que cobria o teclado ou com os olhos vendados. Era afagado, bem pago e sentava-se no colo de príncipes e arquiduquesas. Porém, isto foi antes dos dois grandes encontros. O primeiro encontro que mudaria Mozart foi com Johann Christian Bach, filho de Johann Sebastian e criador do estilo que foi inteiramente adotado e hiperdesenvolvido por Mozart. Mozart ouviu-o tocar em Londres e a impressão ficou-lhe para sempre. Mesmo. Se algum desavisado ouve casualmente alguma obra de Johann Christian, diz na hora: “É Mozart”. Ouvindo com mais atenção, sentirá tratar-se de um Mozart fraquinho, sem aquela imaginação pululante. Como Johann Christian fora o “Bach de Milão” antes de ser “o de Londres”, trouxe modelos italianos ao compositor. A face germânica de Mozart parace ter vindo de seu amado Haydn, a quem dedicou vários quartetos de cordas e a quem admirava desmedidamente. Tal admiração era recíproca e tão famosa e bem humorada que há bom anedotário a respeito.

O que as pessoas normalmente não sabem é que Mozart não foi um compositor tão precoce. Foi um virtuose precoce, mas perderia, em termos de precocidade para, por exemplo, Mendelssohn. Não há, na obra de Mozart pré-1781, algo como o bom Concerto para Violino em ré menor de Mendelssohn, composto aos 14 anos de idade. Poucas obras-primas mozartianas foram compostas antes disso. Suas primeiras obras de mestre foram o Divertimento K. 287, o Concerto para Flauta e Harpa K. 299, a Sinfonia Concertante para Violino e Viola K. 364, a Gran Partita, para conjunto de sopros K. 361, a Missa da Coroação K. 317 e a estranhíssima e espetacular Posthorn-Serenade, K. 320; e estas foram todas compostas todas depois de Mozart completar 20 anos. Vejam como a precocidade tem pouco a ver com as alturas que podem ser alcançadas na maturidade: afinal, poucos ousariam ir além nesta comparação entre as obras completas do genial Mozart e do muito competente Mendelssohn…

Em 1781, aos 25 anos, Mozart explodiu. Nestes 10 anos e meio – Wolfgang morreu aos 35 anos – escreveu quase tudo o que ouvimos hoje e, puxa vida, não é pouca coisa. São dezenas de óperas, concertos, sinfonias e música de câmara de melhor qualidade. É algo inacreditável e é realmente complicado apontar uma ou outra deixando tantas obras de lado.

Há um fato que me deixa contrariado na abordagem que as pessoas fazem a ele: muitos falam de Mozart como de um compositor sempre gentil e delicado, representando-o como um lago tranquilo e eternamente ensolarado onde os patinhos nadam alegres, sem sequer desejar bicar e comer os peixes que passam despreocupados por baixo de suas barrigas sempre cheias e felizes. Também estes peixes não desejam nada, apenas aspiram a uma vida feliz entre seus amigos patinhos e os peixes menores, tão lindinhos, que estão ali para o deleite de todos e assim por diante… O mesmo valeria para sua carreira, onde ele seria uma eterna criança, sempre ingênua e injustiçada, sofrendo nas mãos de poderosos e de colegas invejosos. Não é nada disso. Talvez seja necessária alguma vivência para identificar, mas há em Mozart todo um mundo de expressões sem as quais seria impossível a sua música adequar-se tão bem aos sentimentos pungentes exigidos por um Don Giovanni ou por La Clemenza di Tito e à comicidade das óperas bufas O Rapto do Serralho, As Bodas de Fígaro, A Flauta Mágica e Così fan tutte. E há toda uma música de concerto e obras de câmara autenticamente agressivas e desesperadas. É ocioso pensar que quem alcança expressar todos os matizes dos sentimentos humanos seja um palhaço bobinho e talentoso. Mozart tinha experiência de tudo o que produzia. Não era infantil, não era uma porcelana ou um santo intocável, era alguém deste mundo.

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Mas por que Mozart morreu na miséria? Ora, porque tornou-se um artista absolutamente fiel a si mesmo, dando as costas ao gosto vigente na Viena de seu tempo. A partir de 1784, vieram uma sucessão de obras-primas que fez o conservador público vienense torcer seus nobres narizes. Os Concertos para piano em fá, em ré menor K. 466 e em dó maior K. 467, o em mi bemol K. 482, em lá maior K. 488, e em dó menor K. 491, o em dó maior K. 503, a Sinfonia Praga K. 543, os dois Quartetos com piano K. 478 e 493, os dois Quintetos para Cordas K. 515 e 516, o trio Kegelstatt K. 498 e a Missa em dó menor K. 427, assinalaram em dois anos a plena maturidade do Mozart-compositor que teve como resposta a hostilidade de seu público. José II, por ocasião da representação de O Rapto do Serralho (Die Entführung aus dem Serail) observou: “Notas demais, meu caro Mozart”; e obteve a resposta que nunca sairia da boca de um cortesão, mas sim de um artista absolutamente seguro de sua obra: “Nenhuma só a mais, Majestade”.

O público passou a ignorá-lo e apenas retornou ao final de 1791, dois meses antes de sua morte, quando da estréia do espetacular sucesso de A Fláuta Mágica (Die Zauberflöte). Notem que esta ópera estreou em um pequeno teatro de bairro popular em Viena com o nome de Mozart bem pequeno, para não chamar a atenção – aquele mesmo Mozart que já fora o homem mais famoso de Viena teve seu nome mostrado em letras pequenas, sob o nome garrafal do libretista Schikaneder. O sucesso foi avassalador, mas tardio. Restou-lhe tempo apenas para terminar o belíssimo Concerto para Clarinete, K. 622 e de, ironicamente, tentar terminar um Réquiem K. 626, que não escrevia para si mesmo — conforme as lendas românticas gostam de mentir –, mas por encomenda um certo Conde Franz von Walsegg, cujo contrato nada tem de misterioso e que pode ser examinado em Salzburgo. Porém, sabemos que o destino infeliz deste gênio é um convite aos que gostam de romancear tudo. Eu também gosto, mas só quando o assunto é ficção…

Espero com este post ter feito uma pequena incursão amorosa e boêmia na vida e obra de Mozart. Além da memória, utilizei-me de alguns livros e CDs, principalmente da fenomenal História da Música Ocidental de Jean & Brigitte Massin.

Observação final: Este modesto post é dedicado ao maior mozartiano que conheci. É dedicado a meu pai, morto em 1993. Ele fez com que a trilha sonora de minha infância fossem os concertos para piano de Mozart, suas serenatas para sopros e a Posthorn. Conheço tudinho, nota por nota. Ele nunca parava de falar em Mozart, Beethoven e Chopin — Mozart em primeiríssimo lugar, sempre –, assim como hoje posso passar horas falando Bach, Bartók, Beethoven e Brahms. (Não me provoquem!).

(Quando mostraram o Quarteto das Dissonâncias para Haydn, ele disse que era um equívoco, que aquilo não podia ser. Então, lhe disseram: “Mas é de Mozart”. E o velho respondeu: “Bem, neste caso, trata-se de um erro de minha parte. Eu é que não entendi.”).

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Dez fotos de Nova Iorque à noite

Dez fotos de Nova Iorque à noite

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Sete coisas surpreendentes sobre Beethoven que talvez você não saiba

Sete coisas surpreendentes sobre Beethoven que talvez você não saiba

Fazer o quê? Deixei passar o aniversário de Beethoven neste fim de semana. Então, deixo tardiamente aqui uma lista de curiosidades. Aqui tem informação mais, digamos, sistematizada.

1. Nós não sabemos exatamente o dia em que ele nasceu

Não existe um registro confiável da data de nascimento de Beethoven. Seu aniversário geralmente é celebrado em 17 de dezembro, data do seu batismo católico (que sobrevive nos registros paroquiais). A maioria dos estudiosos acredita que o compositor nasceu ou 15 de dezembro ou, mais provavelmente, em 16 de dezembro de 1770. Porém, sabemos que para a História vale o que está escrito, ou seja, 17 de dezembro.

2. Seu primeiro Concerto para Piano não foi o primeiro

Embora tenha sido o primeiro Concerto que publicou, o Concerto para Piano Nº 1 de Beethoven foi, de fato, o 3º. Seu 2º fora escrito uma década antes, entre 1787 e 1789. O compositor rejeitou a peça. Ele também completou um concerto de piano, o 1º., em 1784, aos 14 anos, mas apenas parte do manuscrito para esta peça sobrevive.

3. Ele era um horror em matemática

Apesar da complexidade matemática de suas composições, Beethoven sempre lutou com os números. Ele deixou a escola aos 11 anos, depois de aprender soma e subtração, mas antes de aprender a multiplicar e dividir. Como resultado, ele tinha dificuldade de acompanhar as próprias finanças. Em uma carta de 1801, ele se descreveu como “um homem de negócios incompetente, que não sabe fazer contas”.

Beethoven dando um rolê surdo pelos arredores de Viena
Beethoven dando um rolê surdo pelos arredores de Viena

4. As pessoas odiaram os maravilhosos Últimos Quartetos

As obras-primas experimentais tardias de Beethoven chocaram e confundiram seus contemporâneos. O compositor Louis Spohr descreveu os quartetos de cordas como “horrores indecifráveis e não corrigidos”. No entanto, para Beethoven, foram tentativas de se conectar com o divino. No topo do manuscrito para o Op.132, ele descreveu a peça como uma “Sagrada canção de ação de graças de um convalescente para a divindade”.

5. Ele pode ter tocado uma vez para Mozart

Em 1787, Beethoven fez sua primeira visita a Viena, onde Mozart estava morando. De acordo com o biógrafo do século XIX, Otto Jahn, o nervoso jovem de 17 anos foi apresentado a Mozart e tocou para ele a seu pedido. Mozart tinha 21 anos e já era muito famoso. “Mozart, considerando a peça que ele interpretou uma obra de exibição estudada, foi frio em suas expressões de admiração”, escreve Jahn. “Beethoven, notando isso, implorou um tema para improvisação e, inspirado pela presença do mestre que ele tanto reverenciava, tocou para desta vez chamar a atenção de Mozart, que disse: “Anotem o nome dele”.

6. A surdez não foi o pior dos seus problemas

Ao longo de sua vida, Beethoven teve hepatite, icterícia, colite, várias doenças de pele, febre reumática e cirrose. Antes de morrer, em 1827, aos 56 anos, 25 quilos de água foram retirados de seu abdômen. Apesar da dor da operação sem anestesia, Beethoven manteve o senso de humor, dizem.

7. Suas últimas palavras provavelmente não foram as que a lenda conta

Muitas pessoas acreditam que as últimas palavras de Beethoven foram “Vou ouvir música no céu”, mas há poucas evidências históricas disso. Pouco depois de sua morte, a crença popular dizia que suas últimas palavras tinham sido plaudite, amici, commedia finita est (“Aplaudam, meus amigos, a comédia acabou”), frase tradicional final da commedia dell arte italiana. Mas seu amigo íntimo, Anselm Hüttenbrenner, que esteve presente na sua morte, refutou o boato. Mas o relato mais confiável diz algo também extraordinário. Ao saber que seu editor lhe enviara uma caixa de vinho tinto, ele teria dito: “Uma pena, uma pena mesmo, muito tarde”.

Roubado, de forma muito alterada, do Telegraph

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Dez fotos de Tim Walker

Dez fotos de Tim Walker

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Lucky, de John Carroll Lynch (****)

Lucky, de John Carroll Lynch (****)

Lucky é o primeiro filme protagonizado pelo notável Harry Dean Stanton. Sim, ele teve que chegar aos 91 anos para consegui-lo. É um filme extraordinário realizado em torno da figura da lendário figura do ator, mas cujo tema é o fim, a morte e o medo de um velho ateu sozinho, mas não solitário. Veterano de mais de 60 anos de filmes memoráveis — o filme onde ele chegou mais próximo de ser protagonista talvez tenha sido Paris, Texas, de Wim Wenders –, Stanton finalmente ganha um papel digno de suas qualidades.

lucky-movie-sxswLucky vive numa casa afastada em uma cidade do Arizona. Toda gente o conhece. Ele segue uma rigorosa rotina diária: faz exercícios ao acordar, bebe um copo de leite gelado, vai à cidade, faz palavras cruzadas numa lanchonete, toma seu álcool e vai jogar conversa fora num bar à noite com amigos. Uma manhã, depois do seu amigo Howard (o cineasta David Lynch, aqui como ator) ter comunicado a fuga de seu cágado de estimação, Lucky cai sozinho em casa. Vai ao médico e este lhe diz que ele não tem doença nenhuma e que não vale a pena nem parar de fumar. Está velho e, aos 91 anos, tanto faz. Lucky entende tudo: está velho e a queda é o primeiro aviso de que irá morrer logo.

Muito inteligente a forma com que o cineasta John Carroll Lynch demonstra como tudo o que Lucky ouve a respeito da vida repercute em suas ações. Ele está ainda aprendendo. Mas como ele encara a perspectiva da morte? Rói as unhas de tanta angústia? Chora? Coloca protetores por toda a casa para não cair? Adere a uma religião? Não, ele passa reto por isso tudo. Mas, compra uma caixa de grilos e a coloca perto da da janela. Quer ouvi-los antes de dormir.

E apenas segue sua vida de ateu em paz consigo mesmo e com o mundo. Com um humor cáustico e seco — típico de Jim Jarmusch –, Carrol Lynch constrói uma história da melhor poesia, a maior homenagem que poderia receber Stanton que faleceu em setembro passado, aos 91 anos, dias antes da estreia do filme.

Um filme a ser visto, Lucky é todo feito de mosaicos preciosos.

 

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Mulheres Divinas, de Petra Biondina Volpe (***)

Mulheres Divinas, de Petra Biondina Volpe (***)

1971. No início de Mulheres Divinas, uma série de cenas mostram a efervescência daquela época. Correrias, ruas conflagradas, bombas, manifestações, gritos, cabelos longos, Woodstock, surgimento dos Panteras Negras, protestos estudantis, revolução sexual, feminismo. Corta. Então somos levados a uma aldeia no interior da Suíça. É o mesmo ano, mas ali parece que ninguém sabe de nada. Tudo está silencioso. Uma dona de casa aspira tranquilamente o tapete da sala de sua residência. Dois pés masculinos se erguem automaticamente para que o aspirador passe. O homem lê seu jornal.

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Ali vive Nora — seu nome não deve ser uma casualidade, lembrem-se de Casa de Bonecas, de Ibsen — com seu marido, dois filhos e o sogro. Ela pensa em trabalhar fora, mas o marido proíbe. Ele pode proibi-la, a lei permite. Ao mesmo tempo, aproxima-se a data de um referendo onde será decidido se as mulheres devem ou não ter direito ao voto. Só os homens votam, claro. E Nora, de forma inusitada, torna-se a líder feminista do local. Uma líder insegura e sem jeito para a coisa.

Mulheres Divinas não é lá muito profundo e muitos personagens parecem ter saído de um manual, mas o filme de Petra Biondina Volpe tira sua força do grupo de atrizes, da fluidez narrativa e do fato de partir de histórias pessoais bem comuns e, infelizmente, ainda existentes. A viagem das militantes a Zurique, onde participam de manifestações e de um curso para descobrir o próprio corpo são excelentes e repercutem no restante do filme. A parte final é previsível, mas a gente torce para que aquilo mesmo ocorra.

A tradução do título no Brasil não poderia ser mais estúpida. De A Ordem Divina tornou-se Mulheres Divinas. É que muitos homens invocam deus para que tudo permaneça como está. OK.

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Lumière! A aventura começa, de Thierry Frémaux (****)

Lumière! A aventura começa, de Thierry Frémaux (****)

Este é um documentário fundamental para qualquer cinéfilo. Lumière! A aventura começa traz uma montagem comentada de 108 dos 1422 filmes que constituem o legado de Louis e Auguste Lumière. Alguns são realmente deslumbrantes, agora restaurados em 4k.

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O primeiro filme dos Irmãos Lumière mostra a multidão de operários saindo da fábrica da família em 1895. Todos fingem — ou tentam fingir — que não veem a câmera. Este primeiro filme chegou dizendo de cara que o cinema servia para mostrar quem somos. E desde então os filmes vêm conversando com a gente. Eles falam conosco em salas escuras e contam nossa história.

É curioso que os Lumière tenham inventado tudo: a técnica de como registrar movimentos em filme, a arte cinematográfica e a sala de cinema. Foram os inventores do cinema e os primeiros cineastas. E dos bons. Foram também os primeiros a apresentarem um filme numa sala escura e os primeiros a cobrarem ingresso (1 franco).

Com tom professoral, o documentário de Frémaux esmiúça tudo sem se tornar chato, pelo contrário. As composições das cenas, os travellings, o cinema de ficção, o documentário, a comédia, o remake. Muita coisa já está ali. Cada filme tem 50 segundos — era o que cabia nas películas da época — e a câmera ficava parada no chão ou dentro de um carro ou trem em movimento.

E eles fizeram experiências, experiências, experiências e descobertas. Eram técnicos e artistas. Há filmes realmente lindos, outros são antecipatórios. Os irmãos Lumière e sua equipe vão concebendo e entendendo algumas funções narrativas presentes até hoje.

A coisa é fascinante para quem gosta de cinema.

Cena de "A Aldeia de Namo" (Vietname), dos Irmãos Lumière
Cena de “A Aldeia de Namo” (Vietname), dos Irmãos Lumière

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Bom dia, Renato (com os melhores lances da decisão de ontem)

Bom dia, Renato (com os melhores lances da decisão de ontem)

Samuel Sganzerla (*)

Pois é, Renato! Não deu! A gente sabia que era extremamente difícil. E entramos em campo pensando isso mesmo, sabendo que o impossível precisava acontecer para sermos campeões mundiais pela segunda vez. Sou um gremista apaixonado, mas sou bastante realista.

Kannemann foi uma das grandes afirmações gremistas | gremio.net
Kannemann foi uma das grandes afirmações gremistas | gremio.net

Ontem lembrei no meu Facebook que, nas oito primeiras participações no Mundial de Clubes, apenas duas equipes bateram o Real Madrid: o lendário Peñarol de 1966 e o fantástico Boca Juniors de 2000. É a filosofia do clube Merengue: vencer sempre, ganhar tudo que for possível. Era um pentacampeão mundial que enfrentávamos.

De fato, Renato, muitos têm dito que o Grêmio poderia ter ousado mais, arriscado mais. Talvez nessa postura estivesse a nossa chance, mas acredito que nela teria espaço para a goleada que não levamos. A nossa estratégia foi pensada para fazer o que todo clube sul-americano tem feito para tentar ganhar de um europeu: jogar por uma bola.

Desde a década de 90, começou-se a perceber a dificuldade que a diferença de orçamento impunha em campo (quando você Gareth Bale saindo do banco, fica evidente como o mundo é desigual). Isso tudo se acentuou ao longo dos anos seguintes, claro. Mas tem algo que piorou bastante na era pós-Guardiola.

Não só porque o técnico catalão revolucionou o mundo da bola, a ponto de todos correrem atrás dos europeus mais uma vez. É que os anos 2010 têm sido o retrato dessa desigualdade, como se vê a cada edição do Mundial de Clubes, demandando cada vez mais recursos para começar a pensar em montar um time vencedor.

O Corinthians campeão de 2012 foi a grande exceção. Venceu um Chelsea que ganhou a Liga dos Campeões na base de uma versão inglesa do CATENACCIO (o que não tira os méritos dos paulistas, obviamente). Mas a regra foi os sul-americanos levando uma SURRA desde o início da década. O melhor desempenho SUDACA de um não campeão nessa década foi o nosso ontem.

Evidentemente, Renato, que, como gremista, vão dizer que minha análise é enviesada. Mas o amor pelo Tricolor é parte da paixão pelo futebol que eu acompanho com afinco desde que me conheço por gente. Faz anos que venho dizendo isso tudo. Por isso não me abati com o resultado de ontem.

Claro, falemos do Grêmio. Geromel e Kannemann foram gigantescos. Que absurdo o que esses dois jogaram. Marcelo Grohe também foi muito bem. É outro que merece todas as honras. Luan, nossa referência técnica, deixou a desejar. Mesmo sendo difícil tentar articular jogadas contra um time que parece ter 18 em campo. Barrios foi decepcionante. Acho que sua carreira chegou ao fim mesmo.

Tivemos apenas uma finalização no jogo, de bola parada. Ironicamente, porque foi também numa falta que saiu o gol que nos tirou a chance do título (barreira não pode abrir, Luan e Barrios!). Mesmo sendo parado pela nossa zaga, Cristiano Ronaldo sempre aparece para mostrar porque foi o a melhor do mundo pela quinta vez neste 2017. No fim do jogo, senti falta do bom e velho CHUVEIRINHO na área, mas a verdade, Renato, é que parece que o Grêmio não tinha espaço nem para isso.

No final, fica de positivo a boa postura defensiva do time, especialmente no primeiro tempo. Para o futuro, fica a esperança de logo voltarmos ao Mundial de Clubes, em busca do Bicampeonato, mas numa realidade que nos permita olhar e ver que é possível (mesmo que com uma seleção internacional do outro lado).

De toda forma, Renato, a recente conquista do Tricampeonato da Libertadores nos deixou de sangue doce para o confronto de ontem. Por óbvio, hoje é dia de aguentar um pouco de corneta dos amigos – só observando a regra de não discutir futebol com quem equipara Kroos a Deco ou Modric a Giuly, claro (aqueles, quando muito, poderiam ser comparados a Magath ou Wuttke). Questão de bom senso intelectual.

O que importa, Renato, é que foram dois anos fantásticos, que a imensa e ensandecida Nação Tricolor só tem a te agradecer. Por favor, renova mais uns anos com a gente, que 2018 já está aí. Vem a Recopa. Tem a busca pelo hexa da Copa do Brasil. Tem o Brasileirão, que podemos levar a sério desta vez. E tem a busca pelo Tetra da América, obviamente.

Que venha o próximo ano! Que venham as próximas alegrias!

Saudações Tricolores!

E segue o baile…

(*) Advogado, palpiteiro, caxiense radicado na capital e GREMISTA de quatro costados.

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Minha camisa do Zidane, ou não

Minha camisa do Zidane, ou não

Thomaz Santos (*)

Sempre fui fã de jogadores elegantes, daqueles que pareciam dominar uma bola sem esforço e seguiam a jogada com olhos abertos e cabeça erguida. Caras como Dennis Bergkamp e Juan Román Riquelme, por exemplo, sempre me encantaram, pelo ar de simplicidade que davam a uma jogada que eu jamais conseguiria realizar ao vivo (talvez nem no videogame). Em suma, sempre admirei os jogadores elegantes por ser eu próprio uma mistura de um troll e de um visigodo com a bola nos pés, dono de um jogo tão elegante quanto uma briga de rua entre bêbados.

Um voleio mágico de Zidane numa final de Champions aí.
Um voleio mágico de Zidane numa final de Champions aí.

Mas, de todos os jogadores considerados elegantes no futebol (e são muitos), nenhum me encantou tanto quanto Zinedine Yazid Zidane, a quem um dia nunca chamarei pessoalmente de Zizou, embora quisesse. Depois de vê-lo destroçar a Seleção Brasileira na final da Copa de 1998 juntamente com seus companheiros franceses, passei a acompanhar mais de perto a carreira dele, sobretudo a partir da sua ida para o Real Madrid. Embora nutrisse uma paixão já um tanto antiga pelo FC Barcelona (desde meados dos anos 1990, graças a Romário e Ronaldo, entre outros, e a minha mãe, que frequentemente viajava para um congresso internacional de hepatologia em Barcelona e me trazia lembranças blaugranas), passei a torcer pelo time merengue, mas apenas e tão-somente quando Zizou estivesse em campo.

Com o tempo, obter uma camisa do craque francês tornou-se um desejo, quase uma obsessão. Percebendo isso, minha (então) namorada (e hoje esposa), viu que eu havia me encantado com uma camisa branca do Real Madrid que havia encontrado em uma loja de material esportivo de Porto Alegre, pois ela estava estampada com o nome “Zidane” sobre o número 5 às suas costas. Era a camisa da temporada 2005-2006, que seria a última dele como jogador profissional. Ou seja, uma camisa já histórica.

Pois bem, no meu aniversário de 25 anos, fiquei feliz ao ver que o pacote era da loja em questão e que seu conteúdo era uma camisa. Ao abrir o pacote, esbocei um enorme sorriso, que ficou só no esboço quando vi que no verso da camisa não constava qualquer estampa. Ante a chocante descoberta, minha companheira disse que havia algo errado, pois ela mesma tinha pego a camisa do varal e levado para o caixa. Quando fomos à loja para trocar o item, descobrimos que o vendedor havia passado a camisa errada a ela, inclusive mais barata que a originalmente escolhida (na hora a atendente do caixa deve ter dado a entender a minha amada que o preço menor que o original seria devido a um desconto pelo pagamento à vista), e que a minha tão sonhada camiseta do Zidane já sido vendida.

Vendo minha tristeza quase infantil, com beiço e tudo, minha querida companheira perguntou se não havia outra camisa com nome e número de jogador dos Merengues para me dar. Não tinha a 7, do Raúl, capitão e ídolo maior daquela geração dos Galácticos? Talvez a 10, que já fora do Figo mas que àquela altura devia ser do Robinho? Quem sabe a 9, do Ronaldo, que também jogaria sua última temporada em Madri? Nenhuma dessas: a única que a loja tinha disponível era a de David Beckham, com o anódino número 23 às costas. Pensei que podia ser pior, podia ser a do Helguera ou, ainda mais triste, a do Gravesen.

Enfim, admirado que estava com o esforço da minha digníssima, aceitei a camisa do craque (?) inglês, que tenho até hoje, embora o branco original do seu tecido esteja hoje mais perto de um cinza, em parte devido à inadvertida e frequente decisão de lavar roupas brancas e pretas ao mesmo tempo na máquina. Sim, sou um péssimo dono de casa, quase tão ruim quanto sou jogador de futebol. Talvez até pior, devo ser algo como um Gravesen do lar.

Assim, obtive minha camisa que era para ser do Zidane mas acabou sendo do Beckham. E será com essa camisa que torcerei para o time hoje treinado por um dos meus maiores ídolos esportivos na final do Mundial de Clubes da FIFA contra o time que mais detesto na face da Terra, treinado por alguém que suporto menos ainda. Sou colorado e secador, sem vergonha nem pudor.

As estatísticas esportivas e demais dados jornalísticos frios podem desmentir o que vou escrever, mas é possível que Zizou seja o primeiro homem na história do futebol a conquistar títulos nacionais, continentais e mundiais como jogador e técnico pela mesma equipe. Só espero que ele não permita que o Renato seja o próximo dessa lista. Que ela seja, portanto, apenas o vice.

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(*) Thomaz Santos é bacharel em Direito (UFRGS), mestre em Relações Internacionais (UnB), doutor em Direito (UFSM) e professor adjunto do curso de Relações Internacionais da UFSM.

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De Tarquinio Merula, Ciaccona, com Il Giardino Armonico

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