Bloomsday

Agora, na volta da UTI (ver post abaixo) lembrei que hoje é o Bloomsday.

Desesperado para unir-me à comemoração, faço meio que uma transcrição — com muitíssimas alterações — do texto da Wikipedia.

O Bloomsday é um feriado comemorado em 16 de junho na Irlanda em homenagem ao livro Ulisses, de James Joyce. É o único feriado em todo o mundo que um país dedica a um livro de ficção, excetuando-se a Bíblia.

O Bloomsday é festejado pelos amantes da literatura em qualquer lugar ou língua. Trata-se de uma iniciativa dos leitores de Ulisses e admiradores da literatura de Joyce. Anualmente, eles relembram os acontecimentos vividos pelos personagens de Ulisses por dezenove ruas da cidade de Dublin.

James Joyce

Ulisses relata a “odisséia” do personagem Leopold Bloom durante 16 horas do dia 16 de junho de 1904. Há controvérsias sobre quando o Bloomsday começou a ser comemorado. Alguns especialistas indicam 1925, três anos após o lançamento do livro, a década de 1940, depois da morte de James Joyce, enquanto a hipótese mais aceita indica é que foi em 1954, na data do quinquagésimo aniversário do dia retratado em Ulisses.

Joyce escolheu o dia 16 de junho para ser imortalizado em sua obra porque foi nesse dia que manteve relações sexuais com sua futura companheira Nora Barnacle, à época uma jovem virgem de vinte anos, apesar de a imprensa irlandesa publicar que nesse dia eles apenas “caminharam juntos” pela primeira vez. Na verdade, Nora teve medo de completar o coito e o masturbou “com os olhos de uma santa”, como Joyce relatou em uma carta em que relembrou o acontecido.

James Joyce Piano

É sempre bom lembrar aos tementes a Joyce que Ulisses não é apenas aquele livro de erudição quase inalcançável que afasta algumas pessoas, o romance também é divertidíssimo e perfeitamente compreensível. As minúcias e a complexa teia de referências são importantes, mas podem permanecer semi-entendidas sem esfacelamento de sua essência. Prova de que o mais puro ludus nem sempre está associado à compreensão cabal.

Hoje é o dia de comemorar o duro, engraçado, divertido, pornográfico, sexual e erudito livro de Joyce. Lembremos de Leopold Bloom, de sua mulher Molly, de Stephen Dedalus e de Buck Mulligan. (Lembro agora do final absolutamente arrepiante de Ulisses.) Era isso.

P.S.- O Odisséia Literária, de Leandro Oliveira, faz, como sempre, a comemoração mais completa e adequada.

Thanks, Mr. Roth

Philip Roth Douglashealeyap4601Michel Laub escreve e repete que Austerlitz, de W. G. Sebald (1944-2001) é o lançamento de ficção do ano, mas não sei não. No dia 20 de junho chega Fantasma sai de cena (Exit Ghost), romance de Philip Roth (1933) que marca a despedida de seu personagem e alter ego Nathan Zuckerman. Qualquer livro de Roth é um acontecimento pois trata-se de um dos romancistas mais importantes em atividade — talvez o mais importante –, só que este Fantasma adquire contornos especiais que vão além da despedida de um personagem que o acompanha desde 1979 ou nove romances.

É que a obra serve de epitáfio (expressão da Bravo) para a geração de escritores intelectuais cujos livros pautavam o debate cultural americano e que foram substituídos, como no mundo inteiro, por nenhuns. Esta geração possui ainda vivos Gore Vidal e John Updike e perdeu recentemente o imenso Saul Bellow e o nem tanto Norman Mailer. O romance vai direto ao ponto ao perguntar sobre quando houve a separação entre tais escritores e seu país. Roth apresenta um Zuckerman aos 71 anos, lutando contra uma incontinência urinária resultante da retirada da próstata e impotente, vivendo num mundo incompreensível, afastado de si e que dele prescinde. Amy Bellette, outra personagem de Roth que está em vários romances, diagnostica a cultura de fácil digestão e o culto à celebridade como culpados, mas parece que Roth não aceita apenas esta conclusão “simples” e avança sobre o jornalismo cultural e sobre a própria geração de grandes escritores, que não soube enfrentar a nova situação e que, de certa forma, tornou-se vítima dela ao manter-se deslocada e crítica.

Sabemos que os romances que analisam quaisquer decadências possuem indiscutível charme. Dei-me conta disso desde a leitura de Os Buddenbrook há mais de 30 anos. As grandes obras literárias raramente são otimistas ou felizes e até na vida pessoal há certo encanto quando vemos, por exemplo, os amigos de nossa ex esforçando-se para nos olhar bem e quem nos acompanha para depois irem embora como se não nos conhecessem. A decadência é um olhar de conhecimento, desconfiança e nostalgia ao passado e de rejeição ao presente que quase todo literato adora. E é tanto o retrato da decadência metafórica quanto da física (de Zuckerman) e cultural (dos EUA) que espero ler no novo romance de Philip Roth.

O título deste post justifica-se por outros dois que escrevi sob a categoria de “O Fracasso da Literatura” e que foram recebidos com agrado por alguns e com maior ou menor hostilidade, por outros. As acusações de que estaria ficando velho por referir-me repetidamente à decadência das artes em geral são respondidas melhor por jovens ratos de biblioteca, pelos adolescentes que têm discotecas semelhantes a que eu tinha há mais de 30 anos e pelas meninas freqüentadoras das estandes de clássicos das vídeolocadoras — tão lindas, efusivas e desfrutáveis –, que me perguntam se há alguém melhor do que Bergman e Antonioni, porque já viram e sabem de cor as obras destes. Elas às vezes me chamam de “tio”… Viram? Adoro a decadência. Inclusive a minha.

Enquanto os psicanalistas se divertem

Marcos era um analista de sistemas que se interessava por arte. Gostava de ouvir música até tarde da noite e a solidão destes momentos levava-o a produzir pequenos textos que não mostrava a ninguém. Na verdade, eles se constituíam de anotações que muitas vezes acabavam em meio a uma frase ou ficavam só no título. Fazia com maior empenho listas de filmes ou músicas e lia, lia muito. Era um apaixonado que ia pouco a pouco sendo reconhecido pelos amigos como um catálogo ambulante. Parecia feliz. Sua mulher era uma advogada que repassara seus clientes para tornar-se exclusivamente professora universitária. Ela estudava muito e, contrariamente ao marido, produzia bastante na área do Direito de Família, área na qual era respeitada, apesar da juventude. Os dois tinham interesses em comum, iam a muitos concertos, filmes e freqüentemente liam os mesmo livros.

Após o jantar, Marcos estava lavando os pratos para a pia — sempre gostara de lavar a louça — quando o telefone tocou. Pensou que sua mulher o atenderia e continuou cuidando dos restos do jantar. Ouviu-a atender e logo foi chamado:

— Telefone para você!

Roberson queria falar com ele. Achou estranho, pois o conhecia somente dos aniversários e festas que a família de Álvaro, um amigo comum, promovia. Roberson era um psicanalista de quem todos pareciam gostar.

— Marcos, acabo de falar com o Álvaro e ele me indicou teu nome para uma atividade que nossa Associação fará daqui a três semanas.
— Associação? — perguntou Marcos.
— Sim, a APRJ, Associação Psicanalítica do Rio de Janeiro.
— Hum, e do que se trata?

Roberson explicou-lhe ser responsável por um dos cursos da associação e que estava preparando uma aula especial de fim de semestre. A aula agregaria literatura, cinema e música. “As coisas, enfim, de que gostamos”, disse, rindo. Partiria do romance Noturno Indiano de Antonio Tabucchi, que estava sendo lido pelos alunos, passaria pelo filme homônimo de Alain Corneau e acabaria na análise da música do filme, principalmente na que o diretor utilizara na cena do hospital. Veio imediatamente à mente de Marcos uma cena dilacerante, inflamada e direcionada por Schubert. O psicanalista desejava um apoio externo, sobretudo para a parte musical. Acrescentou que o evento todo era algo a ser encarado como diversão.

— O Quinteto de Schubert… — externou vagamente Marcos.
— Exatamente. Vejo que você conhece o filme. O Álvaro me falou que você era o cara.

Era uma pessoa delicada e gentil; o que Roberson não sabia é que, apesar de Marcos nunca ter lido o livro de Tabucchi, este filme fora-lhe muito marcante, com suas cenas lentas mostrando o desolação do português Xavier a vagar sem destino pela Índia.

— Não sei…
— É sim. É bom que você leia o livro, mas sua maior participação, acho, será na parte musical. O filme nem precisa rever, nós vamos passar.

Enquanto lembrava-se com saudades das cenas finais passadas em Goa e sem necessitar de maior avaliação, aceitou e agradeceu o convite. Feliz, comentou o assunto com Lúcia, que não entendeu nada.

— Mas por que você? Não há músicos que possam comentar? — perguntou ela com voz um tom acima do habitual.
— Não sei, só sei que foi um músico, o Álvaro, quem me indicou.
— Estranho.
— Talvez eles pensem que eu possa contribuir com a história do Quinteto. E vou falar pouco; afinal, a aula é do Roberson — completou Marcos, conjeturando sobre os motivos que tornaram Lúcia agressiva.

Encontrar o livro de Tabucchi foi fácil. Lê-lo foi ótimo, rever o filme foi novamente emocionante e estudar sobre as circunstâncias da composição de Schubert ensinou-o sobre fatos que desconhecia. A presença do Quinteto no filme não era casual. Reviu diversas vezes a cena do hospital e foi aos poucos compreendendo as intenções de Corneau, construídas sobre a base de Tabucchi e catalisadas por uma das músicas mais tristes jamais compostas: o adágio do Quinteto de Cordas D. 956. Ou seja, dentro do espírito anunciado por Roberson, Marcos estava divertindo-se e a oposição de sua mulher — que o via para lá e para cá com o livro e o VHS do filme — não o preocupava.

Poucos dias antes da aula, Lúcia entregou-lhe um pequeno gravador e um livro de Adorno sobre música. Queria que ele gravasse a palestra que daria, pois “precisava ouvir”; desejava também que ele lesse algo decente sobre música. Marcos riu.

— Adorno fala sobre o Quinteto? — perguntou.
— Acho que não, mas é importante você ler isto. – Marcos viu que várias páginas estavam marcadas com pedaços coloridos de papel, cada um simbolizando um tópico.
— Lúcia, é uma coisa informal. Nem merece o nome de palestra, vamos só conversar. E estas coisas coloridas não dizem muito a um daltônico; por exemplo, qual é a diferença entre este e este papel? Estas cores representam alguma notação?

Em resposta, ela abriu o livro e começou a ler em voz alta um dos trechos indicados. Marcos reconheceu “Bach defendido contra seus admiradores”, um texto que nunca lera mas do qual já tinha ouvido falar. Era brilhante, porém inútil para o que ele faria. Enquanto ela seguia, ele estendeu o braço para o teclado do computador, entrou no Google e fez a consulta “Adorno jazz Casagrande”. Chegou ao blog de Tiago Casagrande e leu em voz alta, interrompendo-a: O objeto do jazz é a produção mecânica de um momento regressivo, um simbolismo da castração. O sujeito que se expressa (pelo jazz), expressa precisamente isto: não sou nada, sou sujo, e mereço qualquer coisa que façam comigo. Potencialmente este sujeito já se tornou um daqueles russos acusados de um crime e que, embora inocente, desde o inicio colabora com seu perseguidor e é incapaz de encontrar um castigo severo o bastante.

— Eu estou lendo algo que acho importante para você e você me vem com esta merda?
— Escrita por Theodor Adorno.

Ela ficou desconcertada.

— Bom, eu queria te ajudar e detestaria que você, como marido de uma pessoa pública, me envergonhasse.
— Pessoa pública?
— Sim, sou conhecida e não quero uma palhaçada.

No dia seguinte, ela apenas pediu para que ele gravasse a palestra.

Na aula, cerca de vinte pessoas viram Roberson apresentá-lo antes de falar sobre o livro de Tabucchi e anunciar o filme que veriam. Depois do filme, Roberson fez um curto discurso sobre o que fora visto e abriu espaço para Marcos explicar a música de Schubert, esclarecer as circunstâncias de sua composição, fazer analogias entre as três obras e entrar, com todos, num debate gentil, bem humorado e interessado, em que surgiam observações inteligentes, principalmente a respeito do livro. Em meio às argumentações, inteiramente à vontade, Marcos pensou: “Isto aqui é puro fun. É ótimo”.

Ao final, provocou protestos por não poder jantar com a turma em função de um compromisso. Era mentira e ele ignorava o motivo da recusa. Despediram-se. Já em casa, entregou o gravador para Lúcia e foi comer alguma coisa. Ainda estava na cozinha quando ela saiu do quarto reclamando que não conseguia entender nada do que fora dito por ele ou por ninguém. Ele abriu os braços, pondo a culpa no aparelho. Parabenizava-se por tê-lo enrolado cuidadosamente num lenço, deixando-o no bolso de trás das calças jeans.

Mahler e o Gordão da H8

Mahler e o Gordão da H8

Em 2003, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) apresentou a Sinfonia Nº 2 de Mahler, “Ressurreição”. É uma obra para 200 músicos, entre instrumentistas e coral. O pequeno palco do Teatro da Ospa não comportava adequadamente toda esta gente mas… o que fazer? Além disto, a Ospa não dispunha de músicos suficientes para executar a obra — que exige 10 trompas, 8 contrabaixos, 8 trompetes, 6 trombones, 4 percussionistas, enorme coral, etc. — mas o que fazer senão ir buscar músicos nas orquestras de São Leopoldo, Caxias e Blumenau? O que não dava era ficar sem a Ressurreição! Todo este lindo e idealista esforço foi recompensado pela lotação completa do teatro — o que provava, pela undécima vez, que o público não quer ouvir somente musiquinhas ligeiras e indulgentes.

Mahler foi o maior regente de seu tempo e tudo o que ele não tinha era indulgência para com seus músicos e público. Compunha música belíssima e de complexidade acima da média. A orquestra ora é tratada convencionalmente (tocando em grupos de instrumentos), ora os músicos são pinçados individualmente ou em pequenos grupos para executar solos nada triviais. Este contraste entre orquestra normal e orquestra rarefeita é fundamental na música de Mahler e é um suplício para o músico despreparado, desatento ou nervoso. Numa palavra, Mahler é difícil, mas vale o esforço.

Chegamos ao Teatro e fomos para nossos lugares. Todos os amigos que encontrei estavam felizes com a perspectiva daquilo que aconteceria nos 90 minutos seguintes. Sentamos no mezanino: meu filho Bernardo no I10, eu no I12, Claudia no I14 e nossa amiga Daniela no I16. Quando a música começou, o Gordão que estava sentado à nossa frente, no H8, começou uma luta contra seu guarda-chuva. Não sabia onde colocá-lo, e ele e sua esposa Gordona, sentada no H6, começaram a conjeturar em voz alta qual era o melhor lugar para a geringonça, enquanto a mesma batia nas cadeiras, fazendo concorrência com a percussão mahleriana. O trabuco, após ser colocado entre duas cadeiras da fila em frente (!), repousou. Já a dupla, não. Acho admirável que um casal ainda tenha assunto depois de 30 anos de casados, mas não seria melhor procurar um restaurante para conversar? O Bernardo, que tinha 12 anos, começou a me cochichar:

— É a baleia falante…

E, depois de alguns minutos:

— Pai, tu sabias que as baleias podem cantar? Ainda bem que estas só conversam.

Algumas crianças têm um limiar de irritação bem alto, é o caso dele. O mesmo não se pode dizer da Claudia, que, à minha esquerda, lançava olhares furibundos para o Gordão. Já eu apenas suspirava audivelmente a cada reinício de conversa. Porém, a música era tão bela que nossa alegria foi retornando e o ódio ao Gordão foi se transformando em ironia. Numa das inúmeras pausas que Mahler impõe à orquestra, o Gordão perguntou intrigado à Gordona:

— Ué, parou?

A certamente impagável resposta da Gordona foi abafada pela orquestra. Uma pena!; mas, em determinado momento, aconteceram coisas que desestabilizaram o Gordão. Para que vocês entendam, é necessária uma explicação: os dois últimos movimentos da sinfonia propõem-se a fazer uma representação exterior (se bem que, como Mahler dizia, tudo era representação interior…) de nada menos que o Dia do Juízo Final e da Ressurreição dos mortos. Para tanto, o autor manda alguns instrumentistas (trompetes, trompas, percussão) para fora do palco. Enquanto saíam, o Gordão observava:

— Ué, não tão gostando? Já vão embora?

Mahler

Não, meu caro amigo. É que de lá, dos bastidores, eles iniciarão um conflito fantasmagórico com a orquestra que está no palco. Quando a orquestra do palco executar o suave tema da redenção, dos bastidores virá o som das trompas e da percussão executando o que Mahler disse representar “as vozes daqueles que clamam inutilmente no deserto”. Este trecho fez com que o Gordão levasse seu corpo para a frente, a fim de observar bem o fenômeno. Falou para sua mulher que não sabia quem estava tocando. OK. Só que logo depois começou a marcha dos ressuscitados no Juízo Final. Em meio a este tema, as trompas e os trompetes que estão lá atrás nos bastidores — representando agora a enorme multidão de almas penadas –, enchem o ar com seus apelos vindos de todos os lados do palco. Aquilo foi demais para o Gordão. Ele se virou indignado para a Gordona e afirmou:

— Não é possível! Tem gente ensaiando lá fora! No meio do concerto!

Não foi possível conter o Bernardo. Mesmo tapando a boca com a mão, todos os que estavam perto ouviram sua risada.

Apesar disto, foi uma noite inesquecível. A OSPA, naquela noite com Isaac Karabitchevsky, esteve muito bem. Tanto que guardei os ingressos com um recadinho atrás: “Bela noite. Não esquecer do Gordão da H8 e de sua Gordinha da H6”.

Permanência

A Sérgio Gonçalves

Aos que permanecem sobram as culpas,
esquecem que
todas as decisões são solitárias.

Solitária é
a decisão de pousar as mãos
e não escrever.

Solitária é
a decisão de erguer-se todos os dias
e trabalhar.

Solitária é
a decisão do que ouve
de não ouvir.

(Solidária é
a decisão de ensinar
e aprender.)

Solitária é
a decisão de chegar ao clímax
e descansar.

Solitário é o fim.

Solitários,
decidimos que o formigueiro,
pisoteado e destruído,

seja reconstruído.
Por cada um de nós,
solitariamente.

O Tcheco

Era uma manhã ensolarada no centro antigo de Verona, na Itália. Estávamos, eu e algumas amigas, na parada de ônibus. Íamos para a estação pegar o trem com destino a Padova. Tinha 20 anos, havia chegado do Brasil há pouco tempo e não conhecia bem a língua. Fazia cursos durante a semana e aproveitava para viajar em fins de semana como aquele.

Foi quando um homem elegante de uns 40 anos, de óculos escuros como nós todas naquela manhã luminosa, me abordou. Estranhamente, segurou meu braço — será que é o costume daqui? — e me pediu para lhe informar quando chegasse o ônibus para Porta Vescovo. Pensei logo tratar-se de uma desajeitada abordagem galante; não gostei, fiquei um pouco irritada. Afinal, será que ele mesmo não poderia ler? Sabia que os europeus adoravam brasileiras e eu – mesmo sendo de origem italiana – tenho a tal pele olivastra, aquele tom moreno claro que eles amam. Era o Dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro, e minha avó, devota do santo, tinha-me feito prometer que iria em seu santuário no dia da festa. Eu, diga-se de passagem, tinha ido para a Itália me recuperar de uma grande desilusão amorosa e estava arredia a qualquer contato com o sexo oposto. Mas por que aquele homem bonito iria me pedir logo aquilo? Por que não entabulou outro tipo de conversação? Tratei de me afastar.

Aproximei-me de uma de minhas colegas e disse:

— Que coisa estranha…
Lui è cieco (pronuncia-se tcheco) – respondeu-me Ornella.

E daí? Grande coisa, pensei comigo, ele é tcheco, eu sou brasileira. Será que os tchecos — mesmo os que falam um italiano perfeito — são idiotas? Que preconceito contra os europeus do leste…! O que dirão de mim, uma brasileira? Será que o fato do tcheco ter sido alfabetizado em cirílico o atrapalharia com o alfabeto ocidental? Porém, para ter aquele italiano sem sotaque, não teria ele antes aprendido a ler? Quando o ônibus aguardado chegou à parada, Ornella indicou-lhe delicadamente.

Fiquei pensando naquilo e questionei minhas amigas se elas achavam que uma pessoa que fala perfeitamente o italiano, mesmo sendo um tcheco, não poderia lê-lo. Elas me olharam desconcertadas e depois explodiram em risadas.

Só depois soube que Cieco era cego e não tcheco.

Esta história foi escrita a pedido da Tchela e publicada em 2003 no Repórter Saci, um site dedicado à inclusão social e digital de deficientes físicos. A história e as circunstâncias são reais.

O Poste de Vapor, de Ferenc Molnár

O escritor não sabe quando aprende.
FERENC MOLNÁR

É estranha a trajetória do húngaro Ferenc Molnár (1878-1952). Autor de crônicas em jornais húngaros, de livros infanto-juvenis — é dele o clássico Os Meninos da Rua Paulo –, de peças de teatro em sua maioria muito bem escritas mas sentimentalóides, acabou emigrando para os Estados Unidos onde tornou-se requisitado dramaturgo, principalmente para a Broadway. Várias de suas histórias cômicas foram passadas para o cinema em filmes de Henry King, Billy Wilder, Michael Curtiz e outros. Não era somente popular, mas um escritor respeitado. Imaginem que este autor da Broadway recebeu adaptações de Arthur Miller para rádio e o teatro e Tom Stoppard fez o mesmo modernamente. Molnár é um raro caso de sucesso popular e literário.

Mas isto ocorria separadamente, obra a obra: há um posfácio neste O Poste de Vapor que nos explica que Molnár produziu às vezes “para a literatura” e outras vezes “para o mercado” — expressões minhas. Concordo com o autor do posfácio: certamente, este livro pertence à parte literária de sua obra. O narrador é um jovem jornalista que descreve as loucuras de certo falso capitão, seu colega numa estação de águas termais, localizada na bela ilha Margarida, que fica entre Buda e Pest, no rio Danúbio.

As inverdades e loucuras do capitão dos hussardos, em si muito engraçadas, são apenas o primeiro plano de uma demonstração da inconseqüência de muitas atitudes — boas ou maldosas — e do oportunismo de outras. Não é um livro otimista ou que promova bons sentimentos ou de final feliz, mas é curiosamente sedutor e agradável. Vá entender.

A trégua, de Mario Benedetti

Eis um excelente escritor. Muito pouco lido no Brasil, o velhinho Mario Benedetti está às vésperas de completar 88 anos. É um poeta, romancista, cronista e ensaísta uruguaio. A trégua é o diário de Martín Santomé, um viúvo de quase cinquenta anos, pai de três filhos, que vive há mais de vinte entre a criação dos filhos, o trabalho de contabilista e casos de uma noite com mulheres quaisquer. É um sujeito apagado e deprimido, um bom funcionário que detesta seu trabalho, mas que o faz bem; um pai que, com os filhos crescidos, recebe deles a indiferença e o desejo de distância. Tudo muda lentamente com a entrada de Laura Avellaneda como sua funcionária no escritório. Jovem, tímida, contida e muito inteligente, ela proporcionará uma trégua à vida de Santomé.

Dito assim, parece uma história como tantas outras, mas não é, não da maneira como o faz Benedetti. Fino observador, ele conta a história com o exato grau de minúcia, explorando principalmente a insegurança do viúvo em sua relação com uma mulher vinte e dois anos mais nova. É quase um estudo da solidão, da felicidade e do passar do tempo em forma de ficção. Vale a pena ler este pequeno romance com mais de cem edições em espanhol.

Minha única estranheza foi a forma como Benedetti refere-se ao homossexualismo antes do episódio do politicamente correto. Não é agressivo, porém não é nada compassivo. Compreende-se, o romance é de 1960.

Soube que a editora Alfaguara traduziu mais dois livros de Benedetti: El Buzón del Tiempo, lançado como Correio do Tempo, e Primavera con una Esquina Rota (ainda sem título). Mas fiquemos antes com A trégua. Indico fortemente.

Incompletos, de Albano Martins Ribeiro (Branco Leone)

IncompletosEu acho mais simpático e engraçado Branco Leone, mas o outro nome também está adequado; afinal, meu avô chamava-se Manoel Martins Ribeiro, nascido em São João do Loure, Portugal.

De todos os autores que apareceram através dos blogs, Albano-Branco é o que mais gosto. E não li poucos. Vamos começar pelo título do livro. Fico na dúvida se Incompletos é uma referência aos personagens do livro — sempre em busca do outro (em alguns casos em fuga) –, ou se aponta para a estrutura voluntariamente fragmentária dos contos. É um belo título. E um belo livro. Os contos são curtos, parecem instantâneos de um fotógrafo muito indiscreto. São muito bem escritas “cristalizações do fugidio” amoroso, como diria Erico Verissimo, contadas na voz característica do autor, entre a bem-humorada indulgência e a absoluta crueza. A única coisa que me perturbou na coletânea foi a história da qual gostei mais. (sexta à noite, no purgatório) é a maior narrativa do volume – 28 páginas -, a mais fragmentária e a que me causou a estranha sensação de pertencer a algo maior, que não nos foi dado a conhecer… Queria mais, parece haver mais. Haverá? Talvez seja porque a mim, o sarcástico narrador deste conto fez lembrar o extraordinário narrador da obra-prima Homo Faber, de Max Frisch. Mas isso é problema meu. Tiago Casagrande, ao comentar o livro, escreveu que Incompletos era um livro rarefeito, daqueles que nos deixam com mais dúvidas que esclarecimentos. Perfeito. Quem quiser verdades estabelecidas que vá a outro quintal, quem quiser o prazer da leitura que venha aqui.

O excelente livro é da editora Os Viralata.

Música perdida, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Lv MusicapQuando Música perdida fez a final da Copa de Literatura Brasileira contra Um defeito de cor tive absoluta certeza de que o vencedor seria o elogiado livro de Ana Maria Gonçalves. Ora, Ana surgiu nos blogs, Um defeito de cor recebera críticas favoráveis de todo gênero e os julgadores, seus pares, acabariam por escolhê-la, mas não foi o que aconteceu. O vencedor foi Música perdida. Tive então outra certeza: a de que se tratava de um livro superior, de uma obra cuja premiação era inexorável. E, burro que sou, enganei-me novamente.

Assis Brasil adota seu habitual tom manso para contar a história do Maestro Mendanha. No início, tudo me interessava. O personagem principal e suas circunstâncias eram muito sedutoras, principalmente para alguém que, como eu, ama e convive diariamente com a música erudita. Tanto foi assim que foi um pouco complicado inferir o que estava me incomodando no romance. Só quando o autor apresentou Pilar é que ficou clara a planura e a débil construção dos personagens. Assis Brasil nega-se a invadir suas psicologias, preferindo sinalizar acontecimentos e transições com simbolos factuais que são tão claros, mas tão notórios, que funcionam como deselegantes semáforos. Três mortes casuais ocorridas num mesmo dia – recurso estranho para uma narrativa tão tradicional – e uma enorme culpa fazem o personagem fugir de Vila Rica para uma guerra no sul, mas ele, internamente, não parece padecer grande sofrimento simplesmente porque Assis Brasil não o descreve. O livro é todo feito de narrativas de fatos, parecendo mais um roteiro cinematográfico escrito em linguagem literária. Para acabar com meu humor, o autor dedicou-se a estragar o final de minha tarde de domingo – a hora do suicídio – adotando um tom grandiloqüente em seu gran finale, equívoco que ele já havia cometido no patético final feliz de Concerto Campestre.

Pretendo ler Um defeito de cor assim que o obtiver de volta. A empregada lá de casa o pegou para ler. Ela escolhe seus livros e costuma ter bom gosto: antes leu Lolita.

Shostakovich – Vida, Música, Tempo (de Lauro Machado Coelho)

Foi uma surpresa descobrir a existência deste calhamaço de 502 páginas, uma biografia do enorme compositor russo-soviético Dmitri Shostakovich (1906-1975). O que não foi absolutamente surpreendente é o fato da biografia ter sido escrita por Lauro Machado Coelho, autor de alentadas obras sobre ópera que têm preenchido o deserto de publicações do gênero com alguns bem-equipados oásis.

Este livro sobre Shostakovich é imprescidível a quem se interessa pelo autor. O volume de informações é inacreditável e fiquei de tal forma envolvido pelo livro que seria quase uma injustiça criticar o trabalho de Lauro, porém, em meio a tanta novidade, consegui vislumbrar o guichê de reclamações e pretendo fazer uso dele. O texto é muitas vezes descuidado. Tenho a impressão de que Lauro necessitava finalizá-lo no ano de 2006 – ano dos cem anos de nascimento de Shosta – e deixou passar alguns parágrafos que são quase anotações esparsas. Pressa, certamente. A editora poderia tê-lo alertado. Deve haver leitores profissionais na Prespectiva, não? Outro fato é que o autor claramente arrepende-se de ter sido tão anticomunista durante o texto e escreve um inteligente e equilibrado último capítulo – talvez o melhor do livro – chamado “O Caso Shostakovich”. É um curioso e necessário recuo. Afinal, Shostakovich utilizou o mais abstrato dos meios para dar o depoimento mais realista da história da música sobre sua contemporaneidade e há controvérsias por todo lado. Shostakovich não nos legou testemunhos confiáveis. Há momentos de descontrole e outros em que já vemos o LMC do último capítulo. Ou seja, carece de revisão.

Agora, só um louco ousaria criticar o que realmente importa: a detalhada cronologia, a notável descrição das obras, a palavra de um indiscutível conhecedor, as valiosas opiniões de um excelente ouvinte. Também elogio a diagramação do livro, que nos deixa duas boas colunas para que façamos anotações e possamos discutir com o autor e suas fontes… Coisa que adoro fazer.

Vocês sabiam que L&PM lançou em pocket a tradução de Lauro Machado Coelho dos poemas de Anna Akhmátova – Poesia: 1912-1964? Pois é, é bom lê-los.

Quando as pernas (todas) e os decotes (nem todos) desaparecem

Tom Jobim cantava as águas de março que fechariam nossos verões. Eu mentiria se as cantasse em Porto Alegre, pois março e abril foram quentes e parcos em chuvas. Foi uma seqüência de dias lindos, os tais dias lindos do mais puro azul que Drummond dizia acontecerem na segunda metade de abril.

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

TOM JOBIM em Águas de Março – Grande autor, péssimo meteorologista.

Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos. E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE em Os Dias Lindos – Grande autor, razoável meteorologista

Drummond tem razão, o estatuto do calor está abolido, mas no segundo dia de maio caiu o mundo em forma de chuva. Dirão vocês que não importa, que Drummond é um dos picos da evolução humana e que a culpa deve ser do aquecimento global. OK, sou simpático a qualquer argumentação que enalteça o itabirano, porém lamento dizer que minha contestação aos dias lindos vai além. Saúdo-os ao mesmo tempo que lamento as perdas.

Hoje fui ao centro da cidade. Acostumei-me a caminhar pelas ruas quentes vendo as pernas e decotes das gaúchas. Ficava feliz com a crescente e elegante ousadia daquelas que mostram sua boa forma, suas belas formas, seus bronzeados e seus seios remodelados ou originais. Também apreciava a classe das mulheres que exibiam o que tinham de melhor, escondendo sob panos coloridos o indesejável, o inevitável, o irremediável ou o inexorável. Sou um admirador das artes femininas. Só que hoje o panorama era outro. Os decotes estavam mais fechados, as pernas haviam quase sumido e o colorido das roupas tendiam à diluição. Viram? O dia lindo e seus dezoito graus matinais derrubaram a libido do caminhante.

Mas quem viverá seu qüinquagésimo inverno nesta cidade, sabe que este é um fenômeno sazonal e logo nós, os homens, estas criaturas tão visuais para com o outro sexo, iremos nos readaptar. Ficaremos excitados apenas com um belo rosto e pelo prenúncio de um tornozelo. Conheço alguns que enlouquecerão por um mero salto alto. Pior, há os que abraçarão suas mulheres e amigas apenas para sentirem o aroma do perfume que acompanhará o ar expulso de suas peles pelo abraço. Voltaremos a adivinhar as formas sob as roupas e teremos vontade de levar em nossos carros as mulheres encolhidas nas paradas de ônibus. (Tratar-se-á da mais desinteressada e solidária gentileza.)

Drummond esquece-se de dizer que os dias lindos são o prenúncio de uma época em que o espírito vencerá a observação, em que a cogitação precederá o fato, em que os cobertores serão os companheiros mais adequados a quaisquer primícias e que serão jogados longe apenas durante os clímax. Os dias lindos nos fazem lembrar que, daqui seis meses, haverá uma primavera onde as flores, os plátanos, os guapuruvus e as mulheres reapararecerão. Deslumbrantes.

Porém, o leitor atento que há dentro de mim bate em meu ombro a fim de chamar minha atenção. Diz ele que Drummond vivia no Rio de Janeiro, que lá as pernas e decotes nunca desaparecem, que este é um fenômeno gaúcho, subtropical e que não tenho razão em reclamar do poeta. Acabo esta crônica fazendo tamborilar os dedos da mão direita sobre a mesa. Um por um, repetidamente. É o movimento característico da contrariedade do vencido.

Ássia, de Ivan Turguêniev

Assia Ivan TurguenievComparar Dostoiévski e Tolstói sempre me pareceu coisa de amador. Os dois são tão diferentes que parecem trabalhar em faixa própria. Tolstói tem melhor texto, se o encararmos do ponto de vista clássico, e, de certa forma, é um escritor que aspira à imortalidade. Ele a obteve com folgas… Já Dostoiévski é mais escabelado e moderno, fazendo com que sua prosa dobre-se aos personagens. Eu, que não sou bobo, não faço escolhas e gosto de ambos. Porém, havia outros enormes escritores circulando pela Rússia czarista e havia um que trabalhava na faixa de Tolstói. Era Ivan Turguêniev. Escritor de grandes recursos, criou algumas novelas perfeitas e um romance idem: Pais e Filhos.

Tenho especial consideração pelas novelas, estas narrativas que ficam entre o conto e o romance, seja em tamanho, seja em alargamento de intenções. Grandes escritores se dedicaram ao gênero. Kafka escreveu A Metamorfose, A Colônia Penal e outras; Henry James tem obras-primas como A Volta do Parafuso, Os Amigos dos Amigos, A Vida Privada, O Altar dos Mortos, a insuperável A Fera na Selva, etc.; Isak Dinesen tem Os Sonhadores e outras; Heinrich von Kleist escreveu uma inesquecível: Michael Kolhaas; Tolstói tem seu trio de ferro: Sonata a Kreutzer , A Morte de Ivan Illich e A Felicidade Conjugal; Goethe tem Werther. Estes exemplos foram os primeiros a me ocorrer, há muitíssimos mais.

Voltemos a Turguêniev ou Turguenev, como queiram. Quando vi que a Cosac & Naify tinha lançado a novela Ássia, animei-me imediatamente – seria ela um outro O Primeiro Amor, seria ela outra grande novela de Turguêniev? Não, não é tão boa, mas estão lá todas as características que fizeram deste russo um escritor tão singular. Lá está a prosa impecável do russo e lá estão os aristocratas inúteis de sempre, porém o narrador de Ássia é, além de inútil, um covarde emasculado. Ássia é uma jovem que se apaixona por ele. Só que o narrador fica confuso no momento decisivo e deixa a moça pensar que ele não a ama.

Este tema é um clássico em várias literaturas. Inclusive Machado de Assis constrói um de seus melhores e mais importantes contos sobre o tema do momento decisivo – o Missa do Galo (que é muito melhor que Ássia, bem entendido). Só que Turguêniev não deseja apenas mostrar um desencontro fortuito entre dois amantes, mas uma “história moral de sua geração”. Talvez por isto tenha criado um narrador tão inerte e irritante. Esta aristocracia russa, cuja psicologia é tão bem descrita neste livro e em grande parte da obra de Tchékov, mereceu plenamente a revolução que a sepultou.

Não ignoro que na literatura russa do século XIX havia eslavófilos e europeístas. Eu passei intencionalmente por cima desta esta classificação, OK?

Confesso ser um privilegiado

Monica Salmaso 11. Ela é uma cantora musicista, se vocês entendem o que quero dizer: é que o termo cantora está tão perniciosamente ampliado por artistas performáticos, midiáticos e macaquéticos que talvez seja necessário explicar que ela é uma artista que singelamente entra no palco e canta. Só? Não, ela é a melhor. E é apaixonada (muito) pelo que faz e é simpática (muito) e é inteligente (muito) e é uma solidária antidiva (muito) que divide seus méritos com os músicos. Mônica Salmaso se apresentará hoje em Porto Alegre, fazendo soprar, pelo velho Teatro São Pedro, o melhor ar sonoro deste sábado. Eu, Carol e Bernardo – graças à Helen, que comprou os ingressos há quase vinte dias e ainda não recebeu ressarcimento… – estaremos lá. Um privilégio, sem dúvida. Na saída, um bar ou análogo com todos exibindo moralmente alguns centímetros a mais.

2. Ontem, participei como entrevistado de uma aula do Curso de Letras da PUC. Fui muito bem tratado pela turma do professor Charles Kiefer. Assuntos: literatura, blogs, internet e alguns temas inesperados — como o levantado por aquela bela moça sobre a vaidade de todo escritor-blogueiro, de todo escritor, de todo blogueiro… Falei por quase duas horas a 60 atentos alunos, mas minha vaidade despertada teria suportado outras três. Sou um privilegiado, n’est-ce pas? Resta-me agradecer à Simone Vey pelo convite.

Entrevista (Literatura de Mercado)

Abordagem Nº 2 ao fracasso da literatura.

Na próxima sexta-feira, se até lá não descobrirem que sou um embusteiro, uma turma do curso de Letras da PUC-RS fará uma entrevista comigo. Enviaram-me uma série de perguntas para me servir de roteiro e, acho, para que soubesse onde pisaria. Espero que sejam bonzinhos e não me retalhem. O assunto é a chamada “literatura de mercado” versus a “literatura artística”.

1) Qual a sua opinião sobre a literatura de mercado? Ela é literatura?

Antes de responder, acho que devo tentar definir o que é literatura. Na minha opinião, literatura é tudo que é lido como literatura por determinado grupo de pessoas. É aquilo que desperta a imaginação do leitor e lhe provoca emoções de índole literária, sentimental, matemática, lógica, de curiosidade, etc.

Eu, que adoro matemática e até fiz faculdade na área, acho alguns teoremas modelos de concisão e elegância. Para mim, são como poemas. Sei que o tipo de emoção causada por eles é semelhante à poética. Seria literatura? Sim, se forem lidos como tal.

Porém, de forma geral, literatura é a arte que usa a palavra como matéria-prima. Então, considero válida a literatura oral – afinal, foi início de tudo! – mas, para ser literatura, o texto tem que ser escrito com a intenção de provocar efeito estético. Talvez Paulo Coelho provoque efeito estético em seus leitores, certamente pessoas cujos modelos e exigências são muito limitados. Eu preferia dizer que não é literatura, mas, infelizmente, penso que seja, ao menos para aqueles a quem se destina. Mesmo Sidney Sheldon, que talvez escrevesse seus livros sob determinadas fórmulas comerciais, não preocupando-se com nenhum refinamento de forma ou conteúdo, talvez provoque emoção literária em gente idiotizada. A Bíblia também pode ser considerada literatura porque, para quem acredita ou vai acreditar, causa efeito estético, emoção… O que fazer? Tudo aqui, como aliás em qualquer campo do conhecimento, é complexo e depende da interação com o outro, com o receptor.

Mais: a literatura, em minha opinião, engloba tudo, de crônicas do dia-a-dia até a poesia mais diáfana, passando por obras de não-ficção cuja construção textual ultrapasse a simples função informativa. O raso ou o profundo dependem da qualidade do leitor.

2) Quais as razões do sucesso desse tipo de literatura?

Ora, o marketing estuda como chegar à boa vendagem e ao lucro. Eu não entendo de marketing, mas creio que o livro – capa, conteúdo, lançamento e divulgação – obedeça a um cuidadoso esquema pré-estabelecido. O marketing cria a ilusão de necessidade no consumidor. Confunde e funciona.

3) Por que Paulo Coelho é o escritor mais bem sucedido do país? Qual é o valor literário de sua obra? O que falta aos seus romances?

Eu não li Paul Rabbit, só trechos. O mundo me contra-indicou e sou um bom menino. Certa vez, vi o Prof. Cláudio Moreno lendo e indicando erros num trecho de um romance dele. Era uma prosa miserável, não preciso daquilo. Ah, enquanto cortava o cabelo, li numa Playboy que ele sabia como não sair numa fotografia, mesmo que tenha sido clicado. Ou seja, talvez o caso de Rabbit não seja literário, mas médico.

4) Acredita que a literatura de mercado tem como mérito a formação de novos leitores?

Apenas de forma casual. Eu e meus dois filhos, por exemplo, desde pequenos, sempre rejeitamos intuitivamente a literatura de má qualidade. As crianças logo identificaram o que não era bom. Então, não passamos por essa fase. Ao menos a nós, a literatura de mercado não formou.

5) A literatura menor pode ser uma forma de introduzir a população arredia à leitura a obras maiores?

Os livros conversam entre si. Um cita o outro. Talvez alguém chegue a algo maior através de Paulo Coelho, por exemplo, mas depende da sorte ou de si mesmo. Acho que nós temos a tendência a pensar que mandamos nos leitores, que ele tem que ser orientado, mas não é assim. É só mostrar ao leitores potenciais que existem coisas de todo tipo. Ele escolhe o que desejará ler e se desejará.

6) “A cada ano, morrem setenta leitores e apenas dois são substituídos. Eis um modo bem fácil de visualizar a questão”, Roth disse. Por “leitores” ele entende pessoas que lêem livros sérios regular e seriamente. A prova de que “a era literária chegou a seu final está por toda parte”, ele afirmou. “A prova é a cultura, a prova é a sociedade, a prova é a tela, a passagem da tela do cinema para a tela da televisão e para a do computador. Não temos muito tempo, nem muito espaço, e poucos hábitos mentais determinam o modo como as pessoas usam seu tempo livre. A literatura exige um hábito mental que desapareceu. Exige silêncio, algum tipo de isolamento e a concentração continuada na presença de um fator enigmático. É difícil apreender um romance maduro, inteligente, adulto. É difícil saber o que fazer da literatura. Por isso digo que dizem coisas estúpidas sobre ela, pois, a não ser que as pessoas sejam suficientemente educadas, elas não sabem o que fazer dela.”

REMNICK, David. Dentro da floresta: perfis e outros escritos da revista The New Yorker.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Muito apocalíptico este Sr. Remnick. Discordo dele. A boa literatura irá sim recuar, recuar, e virará coisa de especialistas e de gente inteligente, que se diverte com coisas mais complexas e que pode ouvir a música de um texto misturada a múltiplos significados, nem sempre claros. A sensibilidade não irá morrer, mesmo que a educação seja uma porcaria. E, quem conseguir se destacar como autor desta rarefeira confraria, até ganhará dinheiro, penso. Cresci ouvindo falar na morte do romance e do rock n`roll. Mas eles vivem de suas crises e estão aí. O mesmo, penso, ocorrerá com a literatura de arte.

7) Qual é a sua opinião sobre o público leitor sério existente no Brasil: ele está crescendo ou diminuindo? A criação de literatura de qualidade está fadada ao desaparecimento?

Não sei se cresce ou não, mas não desaparecerá. Só se pessoas como nós desaparecerem. E a gente se reproduz…

8. Existe literatura de mercado direcionada a grupos especiais, como indivíduos de um determinado sexo ou nível cultural?

Não sei.

9) Você gostaria de apresentar outra discussão sobre o tema literatura artística versus literatura de mercado?

Sim. A decadência é geral. O cinema é menos do que uma sombra do que foi no passado e nesta área é ainda mais complicado, pois há a intervenção direta de muita grana, de investimento pesado. Pensem que nos anos 70 tínhamos Bergman, Buñuel, Fellini, Visconti, Antonioni, Kurosawa, todos ativos; quem são seus análogos atuais? O cinema foi infantilizado a fim de buscar mais espectadores. Grandes investimentos, grandes lucros – é do capitalismo. O cinema hoje, principalmente o americano, não significa nada em termos de arte. Outra crise? A música brasileira tinha Tom, Chico, Milton, Gil, Edu Lobo, Caetano em pleno auge, no mesmo período. Olhe a cena de hoje: Guinga é um compositor quase secreto, Mônica Salmaso é uma cantora desconhecida. Voltando ao cinema, onde estão Hal Hartley e Kusturica? Estes mal conseguem fazer filmes e, quando conseguem, talvez não tenham distribuição… Ou seja, não adianta a literatura achar que é a única desgraçada, pois o marasmo e a vulgaridade grassam.

O OPS complica a vida dos blogueiros

Obs.: Assunto de Interesse Geral, seja você blogueiro ou não.

O Pensador Selvagem, recentemente adquirido pela Google, criou um novo método de nos avisar quando recebemos comentários em nossos blogs. Nada daqueles contadores e e-mails mal formatados. O novo produto alerta imediatamente o blogueiro da chegada de um comentário, esteja onde ele estiver. É o OPS, a New Comment Arrived! Trata-se de um microrreceptor que é inserido sob nossa pele – Under Your Skin, diz a propaganda, obviamente tendo ao fundo a música de Cole Porter. Quando chega um comentário, o receptor avisa o blogueiro através de uma leve descarga elétrica. Isto na Versão Básica, porque na Versão Plus são oferecidos mais recursos. Além de um exclusivo friso lateral no receptor, podemos configurar o equipamento para interpretar o conteúdo das mensagens. Os primeiros testes foram realizados no Brasil e revelaram-se um sucesso técnico. Junto com a Lulu, o Marconi, o Grijó e o Felipe (o Biajoni queria pôr o aparelho noutra região do corpo e foi rejeitado pelo colegiado de psiquiatras), participei da equipe de testes e hoje possuo um destes aparelhos fixado na axila. No começo, tudo funcionou à perfeição, principalmente porque nós e nossos leitores tínhamos ciclo biológico semelhante. Afinal, morávamos dentro do mesmo fuso horário e normalmente dormíamos e acordávamos aproximadamente juntos. Toda a equipe recebeu a Versão Plus do OPS, a New Comment Arrived! e, quando percebíamos um pequeno choque no sovaco, corríamos ao primeiro local info-incluído e abraçávamos o carinho do comentário simpático ou elogioso. Passamos a denominar este aviso de “choque amigo”. Porém, quando o choque era mais forte e longo, íamos furibundos responder à discordância ou ofensa. Tais descargas eram raras, pois os blogueiros costumam ser de natureza lhana. Os problemas começaram quando os blogueiros portugueses, afetivos e educados mas com fuso horário diferenciado, começaram a nos acordar em circunstâncias extremamente matinais. Isto nos impedia de completar nosso sono adequadamente; porém, como a maioria da equipe de testes era insone por natureza, só o de vida mais rotineira, eu, ficou incomodado. A crise só estourou quando um blogueiro de Goa começou a fazer repetidas visitações, sempre acompanhadas de comentários maldosos. Com seu disparatado horário indiano e suas observações de hostilidade e violência inauditas, sempre escritas num terrível português arrevesado, ele começou a torturar repetidamente toda a equipe de testes. A cada intervenção do homem de Goa, o aparelho fixado sob minha axila aplicava-me contundentes choques, proporcionais ao grau das ofensas presentes no comentário, demonstrando o perfeito funcionamento do OPS, a New Comment Arrived! Creio que vocês possam imaginar o grau de perturbação e os paroxismos de ódio assassino a que cheguei. Mas houve algo pior que fez tudo degringolar: foi o momento em que, avisados pelo homem de Goa, blogueiros dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, também conhecidos como PALOPs, descobriram o teste e começaram a nos dar choques em novos horários. Nosso desespero chegou a tal ponto que, transtornados, perdemos inteiramente a elegância e passamos a atacar os africanos com frases racistas. A combinação entre piadas de português e piadas de negros tornaram a experiência uma letal tour de force do politicamente incorreto. Se acrescentarmos a isto nosso cansaço, vocês podem imaginar o desvario geral. Apesar disto, o OPS confirmou o lançamento do produto e espera que um grande percentual de blogueiros o adote. Uma rede de hospitais psiquiátricos está fazendo a comercialização, instalação e manutenção dos receptores. Os mesmos oferecem, dentro do pacote promocional de lançamento, apoio médico baseado em Florais e Corais de Bach. Maiores detalhes aqui.

[Off Topic]: Meu ex-chefe e algoz, Tiago Casagrande me veio com essa brilhante citação de Thiago Gonçalves:

Os blogs são possibilidades incríveis de subversão da ordem posta. São ferramentas impressionantes na difusão de informações – e, preferencialmente, de conhecimento. Têm a chance de motivar mudanças estruturais em todo o aparato de produção dessas informações. E de fato têm feito isso; não são poucos os exemplos nesse sentido.

Se o que é anárquico, não-hierárquico, fluido, descentralizado, acessível, em suma, livre, ganhar correntes, deixa de ser o que é, e se transforma no que já existe – e não nos ajuda. O que põe as crises existenciais numa perspectiva tão profunda quanto um pires. Aqui, na blogosfera, tudo é possível.

Tem razão o moço.

Gosto literário se discute

Em 2003, respondi por escrito a um questionário cujo título era “Gosto literário se discute”. Sou um compulsivo respondedor de questionários e testes. Se, por exemplo, vejo em alguma revista um daqueles testes do tipo “Como está seu coração” ou “Descubra se você será traído por sua mulher?”, saio respondendo na hora. É claro que não resistiria a tal proposta, assim como não resisti a responder um teste sobre TPM numa revista Cláudia da minha mãe…

Não sei quem criou as perguntas a seguir.

Qual o livro que você mais relê?

“A Metamorfose”, de Franz Kafka.

E que livro relido ficou melhor?

“O Idiota”, de Dostoievski.

Dê exemplo de livros injustiçados que, apesar de muito bons, nunca foram devidamente louvados.

São tantos!:
– “Memorial de Aires”, de Machado de Assis;
“- Laços de Família” de Clarice Lispector,
– “Luzia-Homem”, de Domingos Olímpio;
– “Quatro-Olhos”, de Renato Pompeu;
– “Dona Guidinha do Poço”, de Manuel de Oliveira Paiva;
– toda a obra de Sergio Faraco e
– mais uns 100.

Cite um livro decepcionante, que frustrou suas melhores expectativas?

“Alta Fidelidade” de Nick Hornby, o filme sugeria algo melhor. Os últimos livros de Günther Grass e de João Gilberto Noll estão firmes nesta disputa.

E um livro surpreendente, isto é, bom e pelo qual você não dava nada?

“A Flor, a Carne, os Figos (sobre as mulheres)”, de Heloísa Pedroso de Moraes Feltes.

Há cenas marcantes na boa literatura. Cite duas de sua antologia pessoal.

Vou arrasar nessa: a cena em que Ivan Fiodoróvitch Karamazov conta a Parábola do Grande Inquisidor em “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoievski; e o diálogo entre Adrian Leverkühn e o diabo (Cap. 25) em “Doutor Fausto” de Thomas Mann. Há o famoso capítulo 8 deste livro, mas penso que este interesse mais a músicos e melômanos.

Há personagens tão fortes na literatura que ganham vida própria. Cite os que tiveram esta força na sua imaginação de leitor?

– Dom Quixote, em “Dom Quixote”;
– Sílvia, de “O Tempo e o Vento” (Parte III, “O Arquipélago”), de Erico Verissimo;
– Vania de “Tio Vania”, de Anton Tchekhov;
– Tristram Shandy, de “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy”, de Laurence Sterne;
– o narrador de “Opiniones de um Payaso” (trad. para o espanhol), de Heinrich Böll;
– Alejandra, de “Sobre Heróis e Tumbas”, de Ernesto Sábato;
– o Homo Faber, de Max Frisch;
– o Conselheiro Aires, do “Memorial de Aires”, de Machado de Assis;
– Anna de “O Carnê Dourado” de Doris Lessing;
– Lucien de Rubempré de “Ilusões Perdidas”, de Balzac;
– Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf; etc.

Qual o livro bom que lhe fez mal, de tão perturbador?

“Berlim Alexanderplatz”, de Alfred Döblin.

E qual o que lhe deu mais prazer e alegria

Foram tantos… Como foi pedido só um, vai lá: “Sete Novelas Fantásticas” de Isak Dinesen ou “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, escolha você!

E o que mais lhe fez pensar?

Um só? “Extinção” de Thomas Bernhardt.

Cite…

a) um livro meio chato, mas bom

“V.” de Thomas Pynchon.

b) um livro que você acha que deve ser muito bom mas que jamais leu

Apenas “Finnegans Wake”, de James Joyce.

c) um livro que não é um grande livro, apenas simpático

“Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago.

d) um livro difícil, mas indispensável

“Os Mímicos” de V.S. Naipaul.

e) um livro que começa muito bem e se perde

“Maus presságios” de Günther Grass.

f) um livro que começa mal e se encontra

“Brincando nos Campos do Senhor”, de Peter Mathiessen.

g) um livro que valha apenas por uma cena ou por um personagem, ainda que secundário

O olhar entre Sarah Woodruff e Charles Smithson em “A Mulher do Tenente Francês” de John Fowles.

Qual o início de livro mais arrebatador para você?

“A Metamorfose” de Franz Kafka.

De que livro você mudaria o final? Como?

“Crime e Castigo”. Eu deixaria Raskolnikov sem salvação.

Que livros ficariam muitos melhores se um pedaço fosse suprimido?

“Guerra e Paz”, que prescinde daquela longa tese no final (mais ou menos 50 páginas).

Que livros que não têm nada a ver com você, até contrariam algumas de suas convicções e que ainda assim você considera bons ou recomendáveis?

Eu odeio dizer que adoro os livros do fascista Céline: “Morte a Crédito”, “Viagem ao Fundo da Noite”, etc.

A literatura contemporânea é muito criticada. Cite livro (s), escrito (s) nos últimos dez anos, aqui ou no mundo, que mereça (m) a honraria de clássico (s) ou obra-prima (s).

– “O Avesso da Vida”, de Philip Roth;
– “As Confissões de Lúcio”, de Fernando Monteiro (*);
– “Afirma Pereira”, de Antonio Tabucchi;
– “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago;
– “As Horas”, de Michael Cunningham.

(*) Sou amigo de Fernando Monteiro, mas esta amizade só existe porque elogiei “Aspades, ETs, etc.”; ou seja, minha admiração por seus trabalhos antecede nosso contato.

Por falar em clássicos. Para que clássico brasileiro de qualquer época você escreveria um prefácio daqueles que incitam a leitura?

Para “Memorial de Aires”, de Machado de Assis. Tenho certeza de que seria muito convincente.

Cite um vício literário que considere abominável.

As explicações nos rodapés por parte dos autores.

E qual a virtude que mais preza na boa literatura?

Pensei muito e seria complicado de explicar, mas a virtude que mais prezo é uma certa serena ousadia encontrável em mestres como Anton Tchekhov.

De que livro você mais tirou lições para seu ofício?

Não sou escritor, mas, se fosse, diria que o mais “pedagógico” são os contos de Machado de Assis.

E que a frase ou verso que escolheria como epígrafe desta entrevista?

Ora, só pode ser….

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente na livrarias:
Preciso de todos.

Mundo Grande (Fragmento) – Carlos Drummond de Andrade

 -=-=-=-=-

 É sacanagem. Não conseguia sair da frente do rádio e fazer o que tinha para fazer. A Rádio da Universidade atrapalhou todo o meu dia programando a seguinte seqüência:

– J.S.Bach: Sonata em lá maior, BWV 1032, p/flauta e cravo obbligato – parece tão simples esta espetacular obra do pai de
– J.C.Bach: Sinfonia Concertante em lá maior, p/violino e cello – o Bach de Milão que criou o estilo galante, cujo maior mestre foi
– Mozart: Serenata nº 12, K. 388, em dó menor – cuja gentileza faz-nos lembrar os primeiros anos daquele jovem arrogante que reivindicava para si o título de
Tondichter (poeta dos sons) o qual chamava-se
– Beethoven: Quarteto de cordas nº 5, Op. 18, em lá maior – que nos lembra sempre espantosas obras de câmara e grandiosas sinfonias, o que nos trouxe
– Bernstein: Sinfonia nº 2, “A Idade da Angústia”, baseada em poema de Auden – sinfonia ab-so-lu-ta-men-te perfeita e que abriu espaço para um belo
– Programa Olinda Alessandrini – sobre a ignorada música erudita brasileira
.

É que às vezes eles resolvem que não servirão de música de fundo. Decidem que a gente tem que ouvi-los. Aí, não dá para trabalhar.

Da Pretensão Humana

É sempre da mais falsa das suposições que ficamos mais orgulhosos.
SAUL BELLOW

Alexandre chegou apressadamente a seu consultório antes do horário habitual. Sentou-se na confortável cadeira em que ouvia seus pacientes e pegou o telefone. Aguardando que sua respiração se apaziguasse, revisava mentalmente tudo o que desejava dizer a ela – àquela bela mulher que conhecera através de amigos na noite anterior. Limpou a garganta e discou. Tinha planejado uma postura que poderia ser assim descrita: seria gentil, agradável, carinhoso, inteligente, divertido, interessado e, dependendo do andamento da conversa, também picante. Era cedo, ela devia ainda estar em casa. Porém, a voz que tanto ansiava reencontrar chegou-lhe burocrática, pedindo-lhe para deixar um recado logo após o sinal. Tomado de agitação, procurou em seus pensamentos algo espirituoso. Depois de alguma confusão, finalizou a mensagem:

– Dora, se queres me conhecer melhor, ouve o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Sou eu, Alexandre. Um beijo.

Desligou o telefone sentindo-se um idiota. Permaneceu primeiramente avaliando aquele “Sou eu, Alexandre”. Dora pensaria que sua intenção seria a de dizer que o segundo movimento da Sétima descrevia a pérola de homem que ele era ou concluiria tratar-se apenas da assinatura final do recado? Ou, de forma mais benigna, será que Dora presumiria que o intento de Alexandre seria o de proporcionar-lhe uma lembrança agradável ou de fazer uma piada? Mas antes, ele dissera “…se queres me conhecer melhor, ouve…”. Como assim? Poderia alguém ser descrito por uma seqüência de notas musicais? E Beethoven retrataria alguém como Alexandre logo por aquelas notas? O que Dora pensaria? Tinham conversado bastante na noite anterior a respeito do concerto a que assistiam com amigos comuns. No intervalo, ela disse ser uma ouvinte contumaz de Beethoven, também declarou que, em sua opinião, faltava aos barrocos do concerto daquela noite o drama e as afirmativas curtas e repetidas de seu compositor predileto.

– Vim a este concerto por insistência da Carla e do João. Há meses fico em casa com meu filho. Sou uma descasada recente.

Alexandre ficara instantaneamente apaixonado, transtornado mesmo. Desejava aquela mulher linda e inteligente, queria ser admirado por ela, mas, sentado em sua sala, começava a desesperar-se com a evidente bobagem da mensagem que gravara. O que significava aquilo de comparar-se ao compositor que ela amava? Ontem, para agradar a Dora, ele tinha derramado todo o conhecimento musical que lembrava sobre o compositor alemão. Ao final do intervalo, trocaram seus telefones a pedido dele. Agora, ainda sentado, pôs a cabeça entre os joelhos e disse em voz baixa que até a megalomania tinha que ter seus pudores.

E Dora? Acreditaria que toda a perfeição daquele segundo movimento pudesse ser uma representação de Alexandre? Iria recusá-lo por pretensioso? Ficaria constrangida e oprimida? Fugiria por não ser-lhe digna? Faria piadas com os amigos? Ou será que pensaria que ele, romanticamente, ambicionava ombrear-se aos semideuses para ser-lhe digno?

– Burro, burro, burro – pensou Alexandre, caminhando pela sala.

Dora ligou dali a três dias. Alexandre procurou marcar um jantar, porém foram-lhe impostas tantas restrições de horário, fosse para um jantar, fosse para um almoço ou café… Enfim, ela parecia ter tantos compromissos – principalmente para cuidar de seu filho -, que ele entendeu tratar-se de uma negativa e despediram-se sem marcar um reencontro específico.

-=-=-=-=-

Dali a dias, durante a festa do Dia dos Pais, Alexandre, um pouco alcoolizado, perguntou a seu pai:

– Pai, se tu quisesses conquistar uma mulher e tivesses a idéia de sugerir uma música para ela ouvir, que música poderia te representar?
– Ora, meu filho, sugeriria que minha futura amada ouvisse uma música que a Maria Bethânia canta.
– Que música?
– Gostoso demais.

Sem dúvida, há megalomanias e megalomanias.

(Ou seria melhor chamá-lo “Da Humana Pretensão”?)