Melancolia, de Lars von Trier

Vi duas vezes Melancolia, de Lars von Trier. A primeira foi logo na pré-estreia, na primeira sessão do filme em Porto Alegre. Eu não podia deixar de fazer isso. Lars von Trier, Emir Kusturica, Peter Greenaway, Abbas Kiarostami, Roman Polanski e talvez Alexander Sokurov ainda mantêm viva aquela curiosidade que no passado tinha cada lançamento de Bergman, Truffaut, Tarkovski ou Antonioni. Destes, dos modernos, apenas von Trier, Kiarostami e Polanski têm vida comercial em cinema. Os outros estão em DVD e olhe lá.

Ontem, ao sair do cinema, depois de ver o filme pela segunda vez, minha mulher pôs em palavras minha opinião. Ela disse que achara Melancolia mais simples e inferior a Anticristo. Estou de acordo. Mas a produção cinematográfica de nosso tempo é tão lastimável que não me surpreendo com as loas que tecem à Melancolia como obra-prima e candidato a “filme do ano”.

A ação do filme centra-se menos no fim do mundo — o planeta chamado Melancolia aproxima-se da Terra e os cientistas são cétidos sobre se Melancolia vai passar ou bater…  — , mas na relação entre as irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). O início é muito bonito plasticamente — momento em que lembramos da deslumbrante abertura de Anticristo. São dez minutos com a música de Wagner (Tristão e Isolda) que terminam com o maior dos spoilers: o choque entre Melancolia e a Terra. Ou seja, já de saída somos informados do provável final. Quem vê o filme pela segunda vez nota claramente a simbologia da abertura. Justine, vestida de noiva, tenta avançar mas está amarrada pelas pernas. Claire, charfurdando, leva o filho no colo para não se sabe onde, nem ela. Justine constrói com o sobrinho a “proteção” para o fim do mundo. Novamente Justine, de vestido de casamento, é levada pelas águas. Os planetas chocam-se.

Como ocorre com tantos bons filmes (lembrar de voltar a este assunto), Melancolia está dividido em duas partes. Estas têm os nomes das irmãs. Na primeira, Justine casa-se numa cerimônia de opereta. Poucas vezes vi uma depressão ser tão bem caracterizada. Justine não quer casar, não parece interessada, está de saco cheio de tudo, da vida, do chefe, do futuro marido e parece apenas dar importância ao pai brincalhão (John Hurt) e à irmã. Neste trecho do filme há muito que observar. É notável como retorna ali, perfeitamente reconhecível, o cineasta que criou o Dogma 95. A câmera está na mão de alguém nervoso, os cortes ocorrem com frequência e em momentos pouco habituais, as crises são resumidas por von Trier em “apresentação da situação” e “consequência”. Neste modo cinematográfico de mostrar os fatos, as falas nunca são longas. E como rende!

A narrativa aproxima-se do clássico na segunda parte. É quando Claire, que ama a vida, desespera-se. Justine, pelo contrário, parece conformada e ciente de tudo o que ocorrerá. Porém, seu bom senso e inteligência é complementado por desconcertante passividade, a mesma utilizada para entrar na fria de sua festa de casamento. Ela sabe de seu destino. E sabe que nada pode fazer a respeito. Cética, fatalista e paralisada, faz uma adivinhação surpreendente e, transformada em oráculo (Respondendo a meu filho Bernardo: acho que o número de feijões adivinhado apenas quer dizer “eu sei tudo”), revela para a irmã a verdade fatal: “a humanidade é má, a Terra não merece existir, não há deus, nem vida em outro planeta, esqueça”. Quando Claire balbucia uma reclamação sobre o futuro de Leo, seu filho, Justine não responde.

À medida que von Trier envelhece, fica cada vez mais claras suas influências: Tarkovski e Strindberg. Se Anticristo é dedicado a Andrei Tarkovski e é tão próximo a O Espelho (1975), Melancolia parece vir de Solaris (1972). Lá também a ficção científica foi utilizada para cogitar e interrogar o humano e a humanidade. Como nos filmes do russo, o olhar dos personagens para o céu e o para que não entendem reflete um mergulho em suas interioridades. Muitos, como o marido de Claire (Kiefer Sutherland), não suportam conviver com ela. É Tarkovski e não é; trata-se é uma continuidade. Uma vez, com entrevistadores mais inteligentes que os de Cannes, Trier disse algo mais ou menos assim: “Tarkovski é um deus real para mim. Quando eu vi O Espelho, Stalker e Andrei Rublev, mesmo num televisor pequeno, fiquei em êxtase. Se você quiser falar sobre religião, eu te respondo que minha relação religiosa é com Tarkovski. Ele viu o meu primeiro filme e o odiou… Mas eu me sinto muito próximo a ele”. O deus de Trier é punitivo…

Não estou com pressa de terminar hoje. Ontem, publicamos no Sul21 uma entrevista que fiz com o escritor Charles Kiefer e vejam só. Na entrevista também havia uma questão de troca identidade e revelação da verdade do leito de morte da mãe. Quando a mãe de Trier morreu, ela lhe contou que seu pai não era o judeu Trier, mas Fritz Michael Hartmann, de família católica alemã. Vários de seus novos parentes eram renomados músicos, etc. Após quatro encontros nada felizes, o alemão recusou-se seguir mantendo contato com o filho. Isso não explicaria a entrevista de Cannes, quando ele se disse “nazista” e não judeu? E como fazer para não olhar para a melancolia e Melancolia, quando ela aparece como uma enorma esfera pronta a nos aniquilar?

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Pô…

… eu não entendo. Por que o Milton está sempre com preguiça de fazer o Porque hoje é sábado?

— Não sei.

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O que fazer no fim de semana em Porto Alegre?

Cinema, shows, música, etc. No Sul21.

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Carta na Mesa – Edição 117 – 04/08/2011

Gravação: Estúdio de Rádio da Fabico/UFRGS, 04/08/2011
Duração: 33’16”
Mesa: Vicente Fonseca, Milton Ribeiro e Igor Natusch.
Técnica: Neudimar da Rocha
Principais tópicos abordados: Queda de Julinho Camargo e o eterno retorno de Celso Roth ao Grêmio; Fluminense x Internacional.

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24 Letras por Segundo — Aguardo vocês amanhã (4), no GNC Moinhos

Tive o privilégio de ter sido convidado para integrar o time deste curioso livro. A ideia é simples. Cada um de nós deveria criar um conto dentro do estilo de um diretor de cinema que fosse de nossa preferência. De cara eu escolhi Bergman, mas me pediram para me limitar aos vivos. Optei primeiro por Kusturica, porém rapidamente enviei outro e-mail perguntando se alguém já havia reservado Polanski. Tinha certeza que não o “ganharia”, mas o polaquinho tarado caiu no meu colo.

A história nasceu de um comentário-conto do Marcos Nunes, feito aqui no blog. Usei duas ou três fases dele, as iniciais; depois a coisa torna-se incontrolavelmente outra. Tive preocupação em citar vários filmes de Roman Polanski e isso foi o que me deu mais trabalho, juntar tudo sem quebras, deixando algum estranhamento pelo caminho. O ambiente era para ser o de O Inquilino (1976), filme que vi nos anos 70 e nunca mais… É o meu preferido dentre a filmografia do diretor. Trouxe alguma coisa da notória vida pessoal do cineasta — como não? — mas lembro de ter citado de passagem O Inquilino, O Bebê de Rosemary, Lua de fel, Chinatown, Frantic e Repulsa ao Sexo, além de passar por Sharon Tate e Charles Manson. Relendo hoje o texto, acho que poderia ter enviado ao Rodrigo Rosp a versão ampliada, mas lembro que me deixei seduzir pela alta velocidade da versão mais curta. Enfim.


Abaixo copio o post e as imagens do Samir Machado de Machado (<— VALE MUITO UMA VISITA E ESTE BLOG GENIAL)  a respeito do livro, que ficou muito bonito. Clique nas imagens para ampliá-las.

24 Letras por Segundo
Autores
: vários
Design da capa
: Samir Machado de Machado
Projeto gráfico interno
: Guilherme Smee
Editora
: Não Editora

O novo livro da Não Editora, a ser lançado na primeira semana de agosto, é uma coletânea de dezessete autores (este que aqui escreve incluso) em que cada conto é escrito ao estilo de um cineasta da preferência do autor.

A maior dificuldade encontrada na elaboração do projeto foi encontrar um ponto do qual se pudesse criar algo original a partir de um tema não só batido, como cheio de referências óbvias – pipoca, poltronas de cinema, rolos de filme, claquetes, todos os objetos pertencentes ao imaginário do cinema já foram suficientemente explorados em inúmeras propostas.

A solução encontrada veio quase por acaso: ocorre que, para toda uma geração, a experiência cinéfila se deu menos pela sala de cinema e mais pelo videocassete, para o qual há uma gama de referências pouco exploradas, do universo de uma locadora de VHS – as etiquetas de categoria, os rasgos na capa, os logos de som MONO e advertências de direito autoral, que nos levaram no sentido de fazer uma capa como se fosse uma caixa de VHS.

A idéia acabou explorada também no projeto gráfico do miolo, criado pelo Guilherme Smee: chuviscos, quadros de ajuste de imagem, pedidos para rebobinar a fita, páginas de abertura para cada conto simulando a tela de abertura de um filme ao estilo do diretor trabalho em questão, além de “fichas” reunindo informações do autor e do diretor homenageado que remetem às antigas fichas de video que algumas locadoras colavam no verso das caixinhas.

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Desbatizamento com a finalidade de ter o nome retirado dos anais (ui!) do Vaticano

Uma ajudinha para quem quiser fazer isso. É perfeitamente válido. Conheço alguns que fizeram. O requerimento, datado, deve ser endereçado ao padre atual da paróquia.

~o~

CARTA DE DESBATIZADO

Senhor Padre.

Tendo sido batizado na Igreja ……………………………………………… será do meu agrado possuir no registro de batismos relacionado ao meu nome a seguinte menção: Renunciou a seu batismo por carta datada de ………………………..

De fato, minhas convicções filosóficas não correspondem àquelas das pessoas que, de boa fé, acharam que deviam me batizar.

Será assim a perfeita expressão da verdade, evitando a inverdade que poderia fazer crer, vendo meu nome nestes registros, que faço parte da comunidade católica.

Assim, meus escrúpulos e os seus serão preservados, e vossos registros livres de qualquer ambiguidade.

Note que, legalmente, a igreja não pode recusar um requerimento de desbatismo, porque seria possível recurso legal contra, não importa que seita.

Aguardando vossa confirmação escrita, vos peço que aceite a expressão de meus distintos sentimentos.

Data: … /…/…

________________________________
assinatura

Ops... Escapou.
Nossa Senhora!

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A edição desta semana do programa Carta na Mesa avec Milton Ribeiro

Em última e desesperada tentativa de agradar à Caminhante e ao Charlles Campos e de finalmente parar de escrever sobre futebol neste espaço, talvez passe a participar de um programa gravado em áudio sobre futebol. Fui convidado a retornar sempre, imaginem. Então, em vez de escrever, agora FALARIA SOBRE FUTEBOL. A primeira experiência, na edição 116 do Carta na Mesa, pode ser baixada e ouvida no link abaixo. Aprendam aê…

Download

Gravação: Estúdio de Rádio da Fabico/UFRGS, 01/08/2011

Duração: 45’55”

Mesa: Vicente Fonseca, Felipe Prestes, Milton Ribeiro e Igor Natusch.

Técnica: Eloí Lopes

Principais tópicos abordados: crise do Grêmio; Inter 0 x 0 Atlético/GO; Santos 4 x 5 Flamengo.

E já mudaram… Agora são duas edições semanais!

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As bibliotecas e livrarias são lugares divertidos…

… os e-leitores nem imaginam quanto. Não tenho a menor vontade de comprar um Kindle.

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Ragna Schirmer interpretando Händel e Mozart

Ah, pois é. O PQP Bach acaba de postar esta tremenda pianista alemã tocando as Suítes para Teclado de Händel. E, além de deixar disponíveis os CDS, deixou este vídeo dos dois primeiros movimentos da primeira suíte do autor de O Messias.

De sobremesa, mostro para vocês o movimento central do Concerto para Piano K. 467 de Mozart com a mesma Ragna Schirmer com a Orquestra da MDR (Mitteldeutscher Rundfunk) — poderia traduzir para Orquestra da Rádio da Alemanha Central? — , sob a regência de Fabio Luisi.

Bom domingo para todos! Ontem, o Grêmio já deu seu fiasco. Estamos no aguardo de uma vitória desfalcada do colorado agora à tarde.

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Janáček – Concertino para piano, 2 violinos, viola, clarinete, trompa e fagote

O esplêndido Concertino de Leoš Janáček (1854-1928) que assisti ser tocado no ano passado por integrantes da OSESP recebe no vídeo abaixo uma boa interpretação, porém de som baixo. Mas dá para notar a qualidade desta música que gruda no ouvido.

Tal como o compositor, os músicos da gravação são checos, não?

Igor Ardašev – piano
P. Franců e V. Vostrá — violin,
D. Kalvodová — viola,
I. Venyš — clarinet,
M. Petrák — bassoon,
O. Vrabec — french horn

Gravado durante o XXXV Festival International de Música “Janáčkův máj”, no Janáček´s Conservatory Concert Hall, Ostrava no dia 2 de junho de 2010.

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Porque hoje é sábado, Camila Vallejo

EMBALAGEM E CONTEÚDO. Camila Antonia Amaranta Vallejo Dowling ou simplesmente Camila Vallejo (Santiago, 28 de abril de 1988) é uma estudante de geografía e dirigente estudantil chilena. Militante da Juventude Comunista do Chile, é a atual presidente da Federação de Estudantes da Universidad do Chile (FECh), sendo a segunda mulher a ocupar o cargo.

Quando eu digo que as mulheres de esquerda são mais inteligentes, bonitas, decididas, tesudas e que, fundamentalmente, trepam melhor, bem, eu não estou sendo folclórico.

Me gustan los estudiantes

que marchan sobre la ruina.

Con las banderas en alto

va toda la estudiantina:

son químicos y doctores,

cirujanos y dentistas.

Caramba y zamba la cosa

¡vivan los especialistas!

Me gustan los estudiantes

que van al laboratorio,

descubren lo que se esconde

adentro del confesorio.

Ya tienen un gran carrito

que llegó hasta el Purgatorio

Caramba y zamba la cosa

¡los libros explicatorios!

Me gustan los estudiantes

que con muy clara elocuencia

a la bolsa negra sacra

le bajó las indulgencias.

Porque, ¿hasta cuándo nos dura, señores, la penitencia?

Trecho da letra de Me Gustan Los Estudiantes, de Violeta Parra.

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Recomendamos Melancolia para o fim de semana

No Sul21. Esqueça a tola polêmica que cercou o cineasta Lars von Trier no último Festival de Cannes, pois Melancolia é um imenso filme.

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Um avanço na solução do mistério de Alma Welt?

O curador, responsável pelo espólio ou autor da fascinante personagem Alma Welt volta a atacar repetidamente, desta vez no Facebook. O ataque é dos mais, digamos, doces. Ele vem através de mais e mais poemas da singular obra desta autora que certamente jamais existiu, apesar de ter biografia e  livro publicado. Anos atrás, um dos comentaristas deste blog — um policial — chegou a investigar as mortes ocorridas na região do estado onde teria vivido Alma Welt. Nada. Se a coisa ainda pudesse piorar, diria que em alguns poemas e textos noto um tom gauchesco meio forçado, talvez pelo fato do autor ser paulista. Guilherme de Faria é um talentoso desenhista e gravurista. É também um poeta extremamente prolífico — tem obra literária própria e os escritos de Alma Welt não param de surgir. De modo algum considero Guilherme uma fraude, de modo algum o censuro. Alma Welt é uma verdade ficcional, uma personagem que sai do papel ou das teclas para ganhar vida própria. Eu adoro Alma Welt e seus sonetos de moça de fazenda que mal dá-se conta da modernidade. Ela existe da mesma forma que Ivan Karamázov existiu ou da mesma forma que Dostoiévski existiu para mim. Eu acredito que Guilherme acredita em Alma Welt, sua musa, assim como sei que Ivan tem existência ficcional real e que Dostoiévski teve epilepsia e vísceras palpáveis e respirou um ar mais limpo do que disponível em nossos dias e é uma lenda.

Ontem, depois de muito tempo, Guilherme veio bater papo comigo no Facebook. Ele, um sujeito que já deu mostras de brilhantismo em outras oportunidades, sei lá por que quase confessou a inexistência / existência de Alma.

— Olá Milton! Pelo jeito, você afinal “acredita em Alma Welt”… Grande abraço!

— Hum… Não. :¬))) Eu acredito em Guilherme de Faria.

— Oba! Pra mim já tá bom… Sinal de apreço… Obrigadíssimo, Milton! Mas, sabe, quanto a mim, o engraçado é que eu acredito mesmo na Alma Welt…

— Eu acredito que acreditas em Alma Welt, mas eu acredito em ti!

— Milton, isso é a coisa mais lisonjeira (no melhor sentido) que já ouvi de alguém. Melhor que isso só quando você disse num comentário: “Eu amo Alma Welt”… É sinal de que eu não estive enganado este tempo todo, e a Alma tinha (e tem) mesmo o que dizer, e encanta gente informada e culta. Aliás, eu não posso me queixar, ela só tem me dado alegrias, com um retorno magnífico na Internet. Só falta que o mundo oficial da cultura (será que isso existe?) a reconheça e consagre…

Olha, eu gostaria de entrevistar o Guilherme de Faria. Julgo que suas ironias e o jogo de espelhos da irrealidade manipulada por ele, todas as histórias que ele maneja tão bem, todas as irritações burras que teve de suportar, tudo isso é muito complicado e bonito. A citação que coloco no início do primeiro post abaixo (link abaixo) dá a chave de toda leitura: inverto as frases — “num mundo imaginário onde até mesmo a imagem de si mesmo é constructo imaginário, o significado do que se diz é dado por quem escuta e não por quem fala”.

Notem como o cara é brincalhão: o tíitulo da gravura-tríptica vertical que está ao final deste post é A Verdadeira Estória de Sherazade

(Eu tenho um romance quase pronto. Minha personagem principal foi visitada por Alma Welt, que lhe leu dois sonetos. É uma de minhas cenas preferidas).

Sobre o assunto:

Quem acredita em Alma Welt (1972-2007)?
Lúcia Welt, a irmã de Alma, responde
Diagnóstico de Alma Welt

Há não muito tempo dei-me conta de que somente eu vi e convivi com a grande poetisa Alma Welt, e isso por um tempo limitado de dois anos, mais ou menos. Foi um imenso privilégio ter amado e sido amado por ela, que além de poetisa de gênio foi a mais bela mulher que meus olhos puderam ver nesta vida. Recentemente, percebendo isso, comecei a pesquisar e descobri, perplexo, que nunca ninguém, fora a sua irmã Lucia e os seus empregados da Estância Sta. Gertrudes, jamais a viu pessoalmente ou qualquer foto da poetisa (não existe na Internet, no Google ou em qualquer lugar sequer uma só foto da Musa, nem mesmo no casarão pampiano). Começo a suspeitar que  Alma Welt viveu num universo paralelo que só teve seu ponto de contato, com o nosso, em mim. Sei que isso pode parecer fantasioso, fantástico mesmo, mas é a única explicação que me ocorre. Vejam vocês: após a morte da Poetisa eu viajei ao Pampa e visitei a estância e os lugares sagrados da grande artista, monitorado pela sua irmã Lucia, pelo Galdério e pela Matilde, fiéis serviçais que ainda a choravam, desolados com a tragédia de sua morte prematura aos 35 anos, no auge de sua beleza e talento. Rôdo como sempre não estava lá, disseram que voltara a jogar pelos cassinos do mundo, rodando no seu carro esporte. Fiquei imensamente comovido com tudo que vi e ouvi, as lembranças, os objetos e vestidos da minha musa, e pela transbordante Arca da Alma, tesouro que fotografei no sótão do casarão. Entretanto, depois disso nunca encontrei ninguém que conhecesse a família Welt, lá no Sul, aqui ou alhures. Nem mesmo em Rosário do Sul, Alegrete (onde ela teria sido internada duas vezes numa Clínica), em Santana do Livramento ou fora do Pampa, em Novo Hamburgo, onde ela viveu até os oito anos antes de mudar-se para estância e o vinhedo de seus avós. Ninguém nunca a viu ou à sua família nem soube deles a partir de 2001 em São Paulo, e até começarem as postagens na Internet a partir de 2006 no Recanto das Letras, depois nos blogs abertos pela Lucia, atualmente em número de 48 para abrigar a imensa obra da Poetisa do Pampa. Um mistério! Somente a teoria recente da Física dos Onze Universos Paralelos poderia explicar isso. Entrementes conclamo eventuais testemunhas da passagem da Musa pelo nosso mundo, que entrem em contato comigo e se possível me tragam uma ou mais fotos, para eu conferir. De antemão agradeço quaisquer subsídios que levem ao esclarecimento deste grande Mistério… (GUILHERME DE FARIA)

A pena do perdigão (de Alma Welt)
(158)

“Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.” (Luiz Vaz de Camões)

Um dia, colhendo na campina
As flores pra fazer lindo buquê
Eu vi no ar uma ave de rapina
Que vinha descendo num piquê (1)

E parecia vir em minha direção
Mas virei-me para logo ver o alvo:
Um velho triste e cansado perdigão
De perdida pena e meio calvo.

E lembrei-me do soneto de Camões,
Inteiro, antes de vê-lo apanhado
Pois não pude salvar o desasado

Pois que quando o coração já sossobrou
Estamos à mercê dos gaviões
Que virão buscar o que sobrou…

(1) Casta de tecidos feito de dois panos aplicados um sobre o outro e unidos por pontos cujas linhas formam desenhos.

Nota da editora:

Este curioso e pouco citado poema auto-satírico de Camões, escrito a partir de um mote maldoso que lhe lançaram (ele andava sendo apelidado na côrte, de “perdigão”, a ave de vôo curto) num momento de profunda dor e decepção amorosa, tem sua primeira quadra assim:

“Perdigão perdeu a pena” (o mote)
Não há mal que lhe não venha.

Quis subir a alta torre
Mas achou-se desasado
E se vendo depenado
De puro penado morre…

Perdigão perdeu a pena
não há mal que lhe não venha.

…………………….
Alma era profunda admiradora de Camões,
que ela considerava o seu mestre direto no soneto
(Lucia Welt)

SONETOS PAMPIANOS DE ALMA WELT (postagem XXXV)

O que é a Verdade? (de Alma Welt)
350

“…a Verdade é a Beleza, a Beleza é a Verdade,
isto é tudo o que há para saber.”
(John Keats, em Ode a uma urna grega)

Olhar a vida, o mundo e o de dentro
É a prerrogativa do poeta
Mas simultaneamente, como esteta,
Pois que a Beleza está no centro

De tudo, pois que ela é a Verdade,
Como escreveu Keats no poema
Da urna grega, que logo virou lema
E responde à pergunta sem idade

Que Pilatos teria formulado
Num momento ao Cristo aprisionado,
Deixando-nos, a muitos, sem ação

Pois o Mestre calou-se sabiamente
Legando aos poetas a missão
De reconstruí-la lentamente…

(sem data)

A verdadeira estória de Sherazaade – Guilherme de Faria (2011)

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A Ospa ontem

Atualizado às 17h15 (negritos).

Tem sido um bom concerto após o outro. Não ter maestro titular foi um grande acerto. A relação músicos x maestro x governo não desgasta e há alternância de repertório. Só lastimei o público. Com a qualidade da orquestra, os ótimos programas e os preços módicos, era para ter sala cheia. Sinceramente, será que merecemos uma sala de concertos?

Foi concerto com coreografia. O maestro carioca comandava com a ginga e não com a baqueta. Um dos trompistas (Israel Oliveira)– o belo mulato sentado mais a frente do qual desconheço o nome — chacoalhava alegremente sua trompa, e até o Vladimir Romanov, com toda sua fleuma bielorussa, por vezes não resistia e balançava a perna. Me diverti muitissimo!

~o~

Intervenção do “editor” do blog:

O programa de ontem foi o seguinte:

H. Villa-Lobos – Bachianas Brasileira nº 8
F. Mignone – Concertino para Fagote
H. Villa-Lobos – Choros nº 6
F. Mignone – Dança da Chico Rei e da Rainha Ginga

Solista: Alexandre Silverio – fagote
Regente: Roberto Duarte

Acho que todos estão se dando conta de que a ausência de um regente titular está fazendo a orquestra render muito mais. Como disse a Jussara Musse, a relação é “rápida e sem desgastes, de puro amor”. O cara vem, trabalha, dá uns beijos, mostra o que tem de melhor, sem precisar ouvir reclamações sobre não ter levado o lixo para a rua. Muito melhor, né? Não gosto muito da Bachiana nº 8, há melhores, mas a partir do Concertino de Mignone a coisa tomou um rumo tal que levou realmente a pequena (por quê?) plateia ao entusiasmo. O Choros nº 6 foi o ponto alto do concerto e a Dança final era bem o que se esperava de um finale de concerto, daqueles que faz o público feliz e agradecido.

Grande presença de Alexandre Silverio e, principalmente, do excelente Roberto Duarte no comando.

 

 

 

 

Roberto Duarte

 

 

 

 

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E esse vídeo agora?

Seguindo na linha inaugurada pelo Farinatti, a Audi curva-se ao futebol do colorado…

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Inter x Barcelona em Munique: o Farinatti facilita, resumindo as coisas

Todo desfalcado — não importa, ainda mais que o adversário está na mesma unglückliche Situation — , o Inter hoje estreia na Copa Audi, em Munique, contra o Barcelona. Com notável poder de síntese, meu amigo Guto resume as coisas num alemão que desvenda a beleza e o ecletismo da língua de Goethe, Mann e Kafka. Lassen Sie uns in ihnen gehen!, ou seja, “vamos pra dentro deles!” (ou eles pra dentro de nós, muito mais wahrscheinlich, que quer dizer “provável”).

S.C. Internacional ist ein brasilianer fussball-klub. 2010 und 2006 gewannen sie die Copa Libertadores, 2006 den Weltpokal und 2008 die Copa Sudemericana, und mtomelliorkeogremio ist. 1975, 76 und 79 gewannen sie der Campeonato Brasileiro. Und auch 2005, aber robbaden fur Corinthians war. Dieser Fussball-team nie haben disputiat die Second Division, alkontrar de Gremio ke zweimal rebaschadd war. Jetzt einige Turbulenzen akontcen, aber sie verbringen, und Inter kontinuiat sie vitoriasenda.

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Amy Winehouse morreu jovem, deixando para trás um bonito cadáver

Publicado originalmente no Sul21 na tarde do último sábado. Escrito meio às pressas enquanto ouvia Frank e Back to Black.

Viva muito, morra jovem e deixe para trás um bonito cadáver
(“Live fast, die young and leave a good-looking corpse”)
JAMES DEAN

Amy Winehouse, encontrada morta neste sábado em Londres, aos 27 anos | Foto: Divulgação

A polícia britânica ainda não divulgou a causa da morte de Amy Winehouse, ocorrida neste sábado à tarde (23), em Londres. O corpo da cantora de 27 anos foi encontrado em seu apartamento após o serviço de emergência ter sido chamado por volta do meio-dia (horário de Brasília). A polícia de Camden Square emitiu comunicado confirmando a morte. “Fomos chamados devido à descoberta de uma mulher morta. Era a cantora Amy Winehouse. As circunstâncias serão investigadas”, encerrava a mensagem.

A carreira de Amy Winehouse foi marcada tanto pelo estupendo sucesso de público e crítica como por uma série de escândalos e polêmicas. Boa cantora, boas músicas, mas a mídia e o mundo revelavam-se mais interessados em seus porres e problemas. Seu nome está mais ligado às drogas do que a seu indiscutível talento; seu público queria tanto os blues, o soul, quanto os vexames. E ela dava motivos a todos, alternando performances espetaculares com shows onde era vaiada, como o ocorrido numa recente apresentação em Belgrado, na Sérvia: o público não entendia o que ela cantava e nem ela parecia dar-se conta do que fazia ali seu grupo de músicos. Aparentemente, estava totalmente alcoolizada.

Amy Winehouse era dona de uma voz poderosa, bela, e de uma maneira negra de cantar. O velho blues e a Motown eram suas maiores influências. Discretamente antiquada, old-fashioned girl, dava preferência aos instrumentos acústicos e aos arranjos que destacassem sua bela voz. Por vezes, também, soava como uma cantora dos cabarés de antigamente.

O terceiro CD da cantora estava sendo produzido desde 2008 e nunca foi concluído. Amy compôs algumas canções, mas estas foram rejeitadas pelos produtores. Ela chamou Mark Ronson para “tentar salvar o disco”, mas os dois não chegaram nem a se reunir. Canções perfeitas como Rehab, Back to Black, Wake up alone e Love Is a Losing Game ficarão sem sucessoras.

A morte de Amy Winehouse aos 27 anos, vem colocá-la no indesejado e ilustre Clube 27, o dos grandes artistas mortos nesta idade. É fenômeno comum os ícones da cultura pop serem reavaliados para cima quando morrem, tornando-se eternos no imaginário popular. Mesmo que sejam famosos e talentosos em vida, se morrerem jovens e, sobretudo, de causa trágica e misteriosa (overdose, suicídio, homicídio ou acidente), tornam-se objetos de culto e de programas e filmes onde se pranteia sua memória. Porém, como disse Virginia Woolf na introdução de Orlando (1928): “Há outros que, embora talvez igualmente ilustres e importantes, ainda estão vivos e, por essa razão, são menos formidáveis”.

Se circunscrevermos as mortes do chamado “Clube 27”, teremos um time realmente considerável. Tudo parece ter começado em 3 de julho de 1969 com a morte de Brian Jones, guitarrista dos Rolling Stones. No ano seguinte, foi a vez de Jimi Hendrix (18/9) e Janis Joplin (4/10). Mais um ano e, em 1971, morre o líder do The Doors, Jim Morrison em 3 de julho. Estava formado o “Clube 27” pelo simples fato de todo o quarteto ter morrido num período curto com a mesma idade.

(Na música erudita há famosa Maldição da Nona Sinfonia. Vários compositores morreram logo após finalizarem suas Nonas: Beethoven, Mahler, Schubert, Bruckner, Dvorak e Spohr. Mahler escreveu antes A Canção da Terra procurando fugir da 9ª. Não deu certo.).

Quando Kurt Cobain suicidou-se em 1994, também aos 27 anos, muito falou-se que ele teria confidenciado a amigos que ele desejava unir-se ao Clube. Ainda no rol dos que teriam manifestado vontade de obter uma carteirinha estão o espantoso artista plástico Jean-Michel Basquiat, morto em 1988, e, para voltar aos músicos, o legendário guitarrista de blues Robert Johnson, morto em 1938. Se Johnson morreu bem antes, ao menos manteve a coincidência de talento e de um fim por drogas, caso do quarteto e de Basquiat. Afinal, a estricnina colocada em seu uísque por um dono de bar enciumado de sua mulher também é droga. Ou não?

E James Dean, autor da clássica frase que nos aconselhava a morrermos jovens, foi ainda mais apressado, falecendo aos 24 anos.

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Porque hoje é sábado não foi ao ar

Reclamem para a CEEE, que nos deixou sem luz desde às 22h até a madrugada. Aliás, essa Companhia é minha inimiga pessoal. Estávamos vendo Por um punhado de dólares e ela desligou a luz assim no mais, sem vento, chuva, nada. Só diversão.

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O mais genial dos chargistas: El Roto

Todas as charges foram copiadas do El País da Espanha. El Roto é Andrés Rábago (1947) e tem 15 livros só de seus trabalhos gráfico.

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Fotos extraordinárias

Duas fotos de presente para vocês, meus sete leitores. Hoje, às 19h30 estarei no StudioClio para a segunda rodada do Sport Club Literatura. Bom programa. Haverá literatura e Corujas por lá.

Durante a filmagem de Shining, Jack Nicholson aparece em primeiro plano, enquanto Stankey Kubrick e sua filha observam
Para variar, uma bela imagem religiosa

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