A saga de uma linda fotografia

A saga de uma linda fotografia

Eu publiquei esta foto trazida por Vladimir Sinyavsky no Facebook. É uma foto de artistas plásticos bielorrussos tirada em Mogilev (Moguilhóv) em 1982. Nela, além do padrasto da Elena Romanov (agachado), que é pintor, estão a Elena — que é hoje minha mulher — aos 13 anos, e sua mãe, com o braço no ombro da filha. A foto é belíssima, e a repercussão foi incrível.

Foram centenas de curtidas e comentários. Muita gente achou a foto muito parecida com as dos grupos de rock da época:

Então, o amigo Igor Freiberger criou o que segue:


Sim, criou a capa dos Minsk Devils. Atentem para os nomes das faixas e para aquelas que foram censuradas — todas as que não eram instrumentais. Ah, o nome dos músicos são impagáveis.

E ontem, nós recebemos de outro amigo, o historiador Artur Barcelos, uma reportagem da Rolling Stone sobre o disco. Abaixo, a capa da revista feita por Leandro Boeira, com texto de “Iuri Bacelov” (Artur Barcelos, claro).

O mar é a floresta
A história da maior banda da metade do mundo

Edição especial da Rolling Stone.

Entre 1969 e 1975 uma Big Band eletrizou os países do Leste europeu. Por trás da Cortina de Ferro o rock folk dos Minsk Devils desafiava o ambiente cultural e político. Diziam que a Belarus (Беларусь) estava cercada pela Ucrânia, a Rússia, a Polônia, a Lituânia e a Letônia. Por isso uma de suas músicas mais famosas era “Quero ver o mar” (Я хачу ўбачыць мора), assim como Mopa foi o nome de seu primeiro disco.

Surpreendendo seu público, o segundo disco se chamou Floresta (Лес). Nele, a inspiração vinha das florestas de Belarus e suas lendas.

Apesar de se chamarem Minsk Devils, na verdade eram de Mogilev. Sua primeira Belarus Tour foi após o disco Mopa e se apresentaram em Brest, Grodno (Hrodna), Gomel (Homiel), Mogilev (Mahilyow) e Vitebsk (Viciebsk).

Com o sucesso o grupo decidiu viver em uma comunidade alternativa rural em Mogilev, onde foi feita a foto da capa dessa edição especial.

Cultivavam legumes e se especializaram em produzir o kvas, uma bebida de baixo teor alcoólico feita de pão preto maltado ou farinha de centeio. O kvass também pode ser combinado com vegetais fatiados, para formar uma sopa fria chamada okroshka. A panela nas mãos de Igor Piotr é uma homenagem a okroshka.
Depois do segundo disco eles fizeram a world Tour, que não foi além da estação de Tishovka em Mogilev. Uma discussão por causa do Denpr Mogilev, time local, levou ao fim da banda.

Nunca mais voltaram a se reunir. Com a volta da autonomia da Belarus em 1990 e o eterno e deplorável governo de Aleksandr Lukashenko não havia mais clima para um retorno.

Seus discos viraram raridades disputados em milhares de rublos em todo o leste e na Rússia. Os Minsk Devils viraram um ícone da liberdade na Belarus e até hoje se espera sua volta.

Iuri Barcelov – corresponde da Rolling Stone.

E esta foto? Seria o making of do grupo?

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~ ESCLARECIMENTO SOBRE A BAMBOLETRAS E A REFORMA DO NOVA OLARIA ~

Ontem surgiram notícias sobre a “destruição” do Nova Olaria, onde localiza-se a Livraria Bamboletras. Como creio saber mais a respeito do que a maioria das pessoas e para que as narrativas apocalípticas recuem um pouco, aqui vão as informações que possuo.

Marquei uma reunião com os administradores há uns 20 dias. Fui recebido numa sala de reuniões com toda a pompa, vieram 2 pessoas falar comigo.

As notícias:

1. Eles vão construir 3 torres aqui. Duas de “studios” (apartamentos JK, bem entendido) e uma de apartamentos maiores. Um prédio será no atual estacionamento, outro na ex-FADERGS e outro naquela Academia que fica na Lima e Silva e que a gente passa na frente quando vai para o Zaffari, saindo da Bamboletras.

2. O Nova Olaria (a partir de agora NO) será inteiramente reformado. Ficará o muro formado pela frente de todas as lojas e a parte de trás das mesmas. Isto é, só ficarão a parte da frente e a de trás das lojas nos dois lados. O meio será derrubado, assim como o maior problema do prédio: o teto. Neste item, concordo com os caras, o teto daqui está pedindo manutenção. Também o piso do meio será refeito e ficará da altura do piso das lojas, pois, realmente, hoje nada está preparado para a acessibilidade.

3. Isso começará lá pelo meio do ano que vem.

4. É óbvio que teremos que sair. A reforma deve demorar uns dois anos.

5. Eles me informaram que as novas lojas terão tamanhos iguais às atuais e querem que a Bamboletras volte após a reforma. Mostraram um estudo que demonstra que somos a mais importante a loja do NO, mais importante até que o Guion. Seríamos a principal âncora. Somos quem traz mais gente pra dentro do Shopping. Eles disseram que o NO tem afinidade com a cultura e que o cinema será derrubado e reconstruído logo depois, com ou sem o Guion. Que isso aqui só pode dar certo com a Bamboletras e o cinema. Fico feliz com as palavras, mas saibam que ainda estamos em crise — precisamos levantar a âncora e navegar melhor.

6. Mas mudei de assunto. Voltemos…

7. Disseram também que podem facilitar nosso aluguel em um prédio deles na Cidade Baixa até o retorno.

8. Claro que achei tudo isso uma merda. Duas mudanças é pra matar. Talvez fosse melhor apenas sair no primeiro semestre do ano que vem. Ou estamos tão grudados ao NO que seria melhor retornar? — esta é uma questão em aberto.

9. Afinal, eles fizeram uma pesquisa em POA perguntando sobre as palavras que ocorrem às pessoas quando pensam na Cidade Baixa. Entre as palavras mais citadas estava “Bamboletras”. Pode ser puxassaquismo, mas só pensei nisso agora. Ah, se a gente pudesse transformar nosso prestígio em $… Ah, se prestígio e boa curadoria pagasse contas…

10. Bem, as informações são estas. Pretendemos seguir, não obstante as obras e dificuldades. Somos teimosos e acreditamos no que fazemos. Boas livrarias são importantes. Passamos pela pandemia sem demitir nenhum funcionário — não adianta ser ideológico só no discurso, né? — e queremos seguir vivos. Estamos na luta e vocês não imaginam como. Apareçam. Como diria Drummond, precisamos de todos.

P.S. — Se alguém tiver sugestões, palpites. bons locais disponíveis para 2022, por favor, manifeste-se.

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Bamboletras recomenda uma viagem entre Buenos Aires e o sul do estado

Bamboletras recomenda uma viagem entre Buenos Aires e o sul do estado

A newsletter de quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Se você achou misterioso o nosso título, aqui vai a explicação. Nossa primeira sugestão é um livro da portenha María Gainza, que é uma tremenda escritora e crítica de arte. O segundo é de Céli Pinto, que fala de todas as mulheres, mas com foco nas de Bagé. Já o terceiro, de César Lascano, é um raro livro que gira sobre um time de futebol, o Brasil de Pelotas. E é tudo livro bom! Confira!

Abaixo, mais detalhes.

Boa semana com boas leituras!

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O nervo óptico, de María Gainza (Todavia, 144 páginas, R$ 54,90)

Deve haver alguma coisa na água de Buenos Aires… O que sai de escritor bom de lá! María Gainza é escritora e crítica de arte. Em O nervo óptico, livro de contos, sentimos a fina linha que percorre as histórias, um tênue fio que confunde as delicadas fronteiras entre a arte e a vida, a beleza e o êxtase, as retinas e o mundo. E como é gostoso quando um escritor faz a ligação entre o cotidiano e a arte, entre o banal e o transcendente. A autora nos faz repensar, nestas onze narrativas sagazes que articulam memória e ensaio, as muitas formas de ver uma obra de arte; e, mais do que isso, nos ensina que também somos inadvertidamente vistos pelas imagens, somos atravessados — invadidos por elas. Com perspicácia ensaística, ironia e um lirismo incidental, María Gainza aguça a própria vocação da arte: “escrevemos algo para contar outra coisa”.

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Tempos e Memórias — Vidas de Mulheres, de Céli Pinto (Zouk, 156 páginas, R$ 49,00)

Vejam só que boa ideia a da Céli Pinto. Este livro reúne 16 relatos de pessoas comuns, situadas em diferentes lugares da constelação social: donas de casa, escriturárias, professoras, faxineiras, dentistas. Têm em comum a idade superior aos 70 anos, a localidade de Bagé e o sexo feminino. São pessoas invisíveis na cena pública, pessoas sem expressão, a quem é dada a oportunidade de se exprimir. Essas mulheres idosas, que acreditam não terem nada para contar, ficam gratas pelo reconhecimento, falam muito, narram seu passado privilegiando a juventude, os pais e a infância, relegando a um segundo plano maridos e filhos, como se o casamento representasse uma cisão em suas vidas. Vidas anódinas cerceadas de restrições, constrangimentos e sujeições em razão do sexo. Neste exercício de história da vida cotidiana feminina na campanha rio-grandense do início do século XX, Céli Pinto lança um olhar crítico e às vezes enternecido de pesquisadora experiente.

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Contos da arquibancada, de César Lascano (Edição do autor, 158 páginas, R$ 49,90)

Vocês conhecem as paixões que movem o Brasil de Pelotas, o Xavante? Se não conhecem, digo que é algo como um vendaval daqueles bem fortes, pra derrubar mesmo. Agora imaginem um livro de ficção que traga a voz do torcedor raiz e que misture personagens e histórias reais a invenções sobre o clube de futebol mais carismático do mundo. Sim, do mundo, ou vocês queriam um torcedor raiz equilibrado? Contos Da Arquibancada é o primeiro livro do músico, compositor, escritor e torcedor apaixonado César Lascano. É um livro escrito por quem conhece o cimento e o grito do Bento Freitas.  Mais do que isso, Lascano traz doses lirismo e drama à história do clube, vistos a partir de seu ângulo mais autêntico.

María Gainza

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“Faça certas perguntas e recuse respondê-las”, George Saunders falando de contos

“Faça certas perguntas e recuse respondê-las”, George Saunders falando de contos

Do Lit Hub

Em seu novo conto The Mom of Bold Action, publicado na próxima edição da The New Yorker, George Saunders satiriza e humaniza (qual é a diferença, se a sátira é boa?) uma mãe que, depois que seu filho é empurrado por um homem sem-teto, faz “justiça” com suas próprias mãos. Em uma entrevista com Deborah Treisman, Saunders explicou por que ele abordou tal assunto — e como contos devem evitar respostas fáceis:

A história gira em torno da questão da justiça: que punição é justa quando um homem mais velho com problemas mentais empurra uma criança? Um empurrão por um empurrão? Um golpe na rótula para impedir mais empurrões? Deixando ele ir, por simpatia com os desafios que ele enfrentou na vida?

— Certo, essas são as perguntas que eu estava querendo que a história fizesse. Acho que o trabalho de um conto pode ser o de fazer exatamente isso — fazer certas perguntas e recusar-se a respondê-las, apoiando ambos os lados para que as perguntas se tornem mais complexas. O leitor é colocado na posição de ser rejeitado quando tenta chegar a alguma conclusão moral nítida. Acho que há valor nisso. Quando leio uma história que funciona assim, vejo como rapidamente, na vida real, desligo minha mente e decido cedo demais… Acho também importante lembrar que todos os excessos vêm de algum lugar. Qualquer ato irracional ou mau que observamos provavelmente pareceu razoável, até virtuoso, para a pessoa que o fez ou cometeu… Acho que qualquer um de nós poderia se tornar tal pessoa nas condições certas (erradas). Caso contrário, a história é apenas um monte de coisas imperdoáveis ​​sendo feitas por idiotas que não eram nada como nós. E não há para onde ir com isso.

Embora os personagens de Saunders sejam frequentemente cômicos, dogmáticos e limitados em seu pensamento, os ciclos de pensamento que os levam a agir de forma prejudicial são familiares, decorrentes de impulsos familiares e até mesmo razoáveis. “É de propósito; a fim de rejeitar uma bela conclusão moral”, como ele coloca. “O mais importante é tentar continuar a amá-los”, disse Saunders, “e uma forma de fazer isso é dar-lhes pensamentos, memórias e ações da minha própria vida”.

George Saunders (1958)

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Um sonho: a Lei Lang

​Uma Lei Lang no Brasil seria uma maravilha e salvaria as pequenas livrarias: na França, a também chamada de “Lei do Preço Fixo”, foi aprovada em 1981. Ela impõe limite a descontos dados por livrarias, com o objetivo de evitar a concorrência desleal. Entre 2013 e 2014, deputados e senadores aprovaram emenda que impede a Amazon de conceder descontos superiores a 5%, bem como o frete grátis.​.. Lá, o comércio deve respeitar o período de dois anos de lançamento do livro, oferecendo descontos máximos de 5% na venda ao consumidor final. Um sonho.

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Orelha para um livro de Marino Boeira (guardando textos)

Marino Boeira é o cara. Bem humorado, cultura vastíssima, professor universitário, ele é um elegante socialista que, já não acreditando na doce ilusão de uma sociedade sem classes, concordou em viver numa sociedade sem classe, mantendo a sua. Seu apelido é O Mestre, mas ele não é aquele que anda de régua em punho ameaçando e corrigindo tudo e todos, é antes o sujeito irônico e piadista, que nos ensina com graça.

O que é complicado de explicar é sua produção literária. Mesmo sendo cinéfilo e gourmet, mesmo sempre se mantendo atualizado com a bagaceirice política de nosso país, ele escreve muitos textos, um melhor do que o outro, publicando-os em vários veículos. É uma maravilha ler sua prosa limpa, ateia e radical, nada próxima de lacrações e cancelamentos e à léguas das trevas, das milícias e outros endireitamentos.

Curiosa fusão de despretensão e inteligência, a série “Aconteceu em” não é apenas um roteiro de viagem, mas pequenas narrações de alguém informado e politizado sobre as viagens que fez. Ficamos sabendo o que atraiu o Mestre em Havana, Bratislava, Cochabamba, Corumbá, Óbidos ou Paris. É interessante para quem conhece as cidades — quem não gosta de retornar às cidades que conheceu? — e para quem pretende visitá-las.

Qualquer lugar do mundo tem uma história para contar – e traços culturais específicos. Marino faz um peculiar apanhado do que viu em cada cidade. Não é o viajante festivo, praieiro ou consumista — e esqueça o ecoturismo, por favor –, mas pode-se dizer que ele não frequenta os locais habituais do circuito Elizabeth Arden.

Boa leitura!

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Abra e Leia (pré-venda)

Abra e Leia (pré-venda)

Pois bem, meus amigos, está nascendo!

A Editora Zouk largou na frente e começou a pré-venda do livro deste que vos escreve. Então, quem quiser garantir seu exemplar autografadinho — já aviso que minha letra é péssima –, basta ir lá no site de Zouk e fazer a compra, mas, sabem, acharia muito mais legal vocês comprarem na Bamboletras ou em alguma das nossas corajosas pequenas livrarias. Porém, agora, antes do lançamento, só tem na editora e na Livraria Bamboletras, OK?

O LINK para adquirir o livro.

(Faço questão de deixar claro que não sou o REPULSIVO Ministro da Educação. Sou um homônimo muito melhor).

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Tudo se copia, como diria Lavoisier…

Tudo se copia, como diria Lavoisier…

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Uma contribuição para os dicionários: o cu na língua portuguesa

Uma contribuição para os dicionários: o cu na língua portuguesa

Mas há muito mais:

— Só se tirar do cu com pauzinho (falta de recurso).
— Quem tem cu, tem medo.
— A boca fala, o cu paga.
— A língua é o rebenque do cu.
— No cu não vai nada? (quando quiserem te fazer alguém de otário).
— Cuzão (várias acepções).
— Pau no cu (várias acepções).
— Quem tem cu, tem medo.
— Cu cagado (pobre).
— Parece que nem senta em cima do cu (esnobe, sem noção).
— Não tem cu e quer ter sobrecu (pessoas que gastam demais ou que se consideram superiores).
— Cu de ferro (pessoas que estudam muito).
— Abaixo do cu do cachorro (pessoa muito chinelona).
— Cu de arrasto (cagalhão, bunda mole. baba ovo, baba egg, lambe saco, puxa saco, Bibo Nunes).
— Cu de boi (situação sem freio, sem limites).
— Tá com cu que é uma rosa (pessoa que está se ferrando a torto e a direito. Pessoa azarada ou com grande prejuízo).
— Não tem merda no cu pra cagar (é metido).
— Estar com o cu fazendo bico (estar de buxo cheio, comeu demais).
— Baita cu-de-boi (confusão).
— O bom e velho “vai toma no cu” (embora controverso ainda não perdeu a elegância).
— Ralar o cu no prego (trabalhar feito um condenado e ganhar uma ninharia).
— Cuiudo (sortudo).
— Não me fode o cu a beijos (não tenta me enrolar).
— Nem passando um arame farpado pelo cu (não faço de jeito nenhum).
— Tá com o cu que não passa nem sinal de wi-fi (a pessoa fez algo errado e agora está com medo das consequências).
— No cu, papagaio (vá se foder).
— Cu de bêbado não tem dono.
— Cu man (homem asqueroso).
— Não tem um cu que o periquito roa (é pobre — Amapá).
— Tá com o cu na reta (vai se envolver em alguma merda).

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Auto-ajuda

Auto-ajuda

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And I`m 64, birthday greetings, bottle of wine

And I`m 64, birthday greetings, bottle of wine

Então, neste dia 19 faço 64 anos. Estou perdendo cabelos como diz a canção dos Beatles, mas posso dizer que sou bem ativo e que até está saindo um livro meu. Estou lendo peças de Tchékhov onde todo mundo se considera velho aos 40, mas eu não. Estou vendo os meus amigos se aposentarem, mas eu nem penso nisso e nem fui à Previdência para ver se já posso fazer o mesmo. Gosto de trabalhar. Vou aguardar os 65.

Acho que fiz e faço bastante coisa. Fui por anos técnico de TI — larguei quando me neguei a pagar propina e a estatal administrada por um partido de direita processou a empresa onde trabalhava, aniquilando-a –, fui jornalista quando a profissão estava em decadência e agora sou livreiro. Como veem, atraio crises, contudo isto apenas ocorre no âmbito profissional.

Dinheiro tenho pouco, não tenho imóvel nem carro, só a livraria e um monte de coisas que enfiei dentro da cabeça, principalmente histórias, livros, músicas e filmes. Nunca tive por objetivo de acumular patrimônio, o que provavelmente tenha sido um erro.

Desgraça nenhuma. Sou feliz de forma quase indecente. Tenho amigos por todo o lado e alguns deles dizem que nunca lhes apresentei pessoas que não fossem absolutamente legais. E, fundamentalmente, tenho dois filhos maravilhosos e uma mulher que nem lhes conto. A Elena diz que sou alegre por culpa da infância feliz e cercada de carinho que tive. Bah, acho que tive muita sorte até aqui.

Também não reclamo do corpo. Tudo ainda funciona mais ou menos bem — consigo correr 6 Km em menos de 40 minutos, tá bom?

Espero seguir com a Bamboletras — a Amazon do foguete de piroca que não nos mate — e quero continuar me divertindo e não prejudicando ninguém. Minha vida não é silenciosa, aliás, é bem barulhenta e agitada, mas é boa. É isso, tenho 64 e hoje vou ouvir a faixa 2 do labo B do Sgt. Pepper`s pensando que comprei o disco (LP) nos anos 70 e muito conjeturei sobre o motivo pelo qual Paul McCartney escrevera uma letra sobre uma idade tão longínqua.

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Bamboletras recomenda um verdadeiro suco de Brasil

Bamboletras recomenda um verdadeiro suco de Brasil

A newsletter de quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Nesta semana, sugerimos três livros encharcados de Brasil. O primeiro tem o foco em nossa cultura, o segundo no racismo e na pobreza e o terceiro no aniquilamento e destruição que estamos vivendo. Ah, pois é, não fácil, mas há que seguir. E com os pés bem firmes no chão e no conhecimento.

Abaixo, mais detalhes.

Boa semana com boas leituras!

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Duas Formações, Uma História: das Ideias Fora do Lugar Ao Perspectivismo Ameríndio, de Luís Augusto Fischer (Arquipélago, 400 páginas, R$ 79,90)

Dedicado ao tema há quatro décadas, Luís Augusto Fischer oferece um novo jeito de contar a complexa história da literatura brasileira, criando um modelo que dê lugar aos autores contemporâneos, à canção, à tradução, às redes sociais, à voz indígena, ao feminismo, à diferença. Falando das virtudes e limitações dos modelos estabelecidos por nomes exemplares da crítica literária, recorrendo aos historiadores e antropólogos recentes, contando a história dos livros que até hoje tentaram abarcar a trajetória da literatura do Brasil, o autor mostra um caminho. Uma obra fundamental para quem conhece bem o jardim em que floresceram Machado e Rosa, e imperdível para quem quer conhecê-lo melhor.

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Casa de Alvenaria, Volume 1 (Osasco) e Volume 2 (Santana), de Carolina Maria de Jesus (Cia. das Letras, 224 e 512 páginas, R$ 39,90 e R$ 59,90)

Esta é a edição integral dos diários de Carolina Maria de Jesus e contém material inédito. O Volume 1 registra os meses em que a escritora morou em Osasco (SP), em 1960, após deixar a favela do Canindé. Através deste testemunho que borra as fronteiras dos gêneros literários, acompanhamos a recepção de Quarto de Despejo, as viagens de divulgação, o contato frequente com a imprensa e os políticos, o desenvolvimento de seu projeto literário e seu desejo de ser reconhecida como escritora. Dessa narrativa do cotidiano, entremeadas às contradições de seu tempo, emergem reflexões que permanecem atuais. O Volume 2 de Casa de Alvenaria inclui diários que se estendem até dezembro de 1963.  Através dele, acompanhamos a nova vida de Carolina, a movimentação em sua casa, as viagens e, sobretudo, a dificuldade de transpor as barreiras do racismo e a dificuldade para ser reconhecida como escritora. O livro inclui introdução de Conceição Evaristo e Vera Eunice de Jesus e pode ser lido independentemente do volume anterior.

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Discurso sobre a Metástase, de André Sant’Anna (Todavia, 216 páginas, R$ 64,90)

Uma coletânea de escritos que retrata a loucura e a tragédia da realidade brasileira, um país deixado em ruínas. Os aliados de Sant’Anna nessa missão são o humor absurdo e um trabalho de linguagem radical — as únicas ferramentas capazes de captar nossa grotesca realidade. No romance O paraíso é bem bacana (2006), vale lembrar, André parece ter dado o pontapé inicial na radicalização de sua linguagem literária — com muitas repetições, gírias, obsessões, ironia — ao contar a história do tímido jogador de futebol Mané, um menino que se explode feito homem-bomba e vai viver as mil e uma maravilhas que o título da obra sugere. Aqui, ele dobra a aposta, convencendo-nos de que somente a catarse gerada por uma comédia absurda, enfatizada por uma linguagem caricata e grotesca, será capaz de expressar o que sentimos em nosso país.

Luís Augusto Fischer | Foto: Tom Silveira

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Bom dia, Aguirre ou Futebol, futebol e (pouco) futebol

Bom dia, Aguirre ou Futebol, futebol e (pouco) futebol

O Inter venceu ontem à noite o Fluminense por 4 x 2, placar que não espelha a dificuldade do jogo, que estava 2 x 2 aos 90 minutos e que ficou 4 x 2 aos 93 e 95. Meio envergonhado com os olhares, o Inter está amamentando um recém-nascido espírito vencedor — o qual ontem não se abateu com o gol de empate do Flu aos 38 do segundo tempo.

Só os bons: Edenílson Cuesta e Bruno Méndez | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

Aguirre também está conseguindo que o time não pare de criar chances de gol. Antes criávamos e desperdiçávamos, agora criamos e fazemos. Durante a época de desenfreado despilfarro, a sombra do Z-4 aproximou-se e eu tinha receio de que o time desanimasse de vez. (Sabemos que os times grandes que caem passam por esta fase de nervosismo, perdendo gols incríveis a cada jogo). Mas o fato é que fizemos 8 gols  contra 2 times nada ruins.

Deste modo, Aguirre e o departamento de futebol tiveram o mérito de umedecer o chão, fazendo a poeira baixar, de acalmar os ânimos de quem estava deslumbrado com a janela de transferências e de deixar o grupo respirar. Tenho certeza de que em nosso sorriso de hoje há boa dose de alívio.

Cuesta voltou a fazer seu jogo de grandes acertos e algumas falhas. Dourado e Lindoso estão cobrindo direitinho os avanços do argentino — que ontem deu os passes para os dois gols de Edenílson. (Aliás, Ed jogou demais ontem e já é um dos goleadores do Covidão 2021). Yuri se encontrou. Taison começa e voar. Bruno Méndez é um verdadeiro achado. Daniel é outro acerto. Só Moisés e Patrick não conseguem acompanhar os outros. Por que tu não escalas Paulo Victor no lugar do Moisés, Aguirre?

E afastaram o Galhardo. Bom jogador, só que um baita de um chato, basta olhar pra cara dele para saber que adora azucrinar.

Estamos com 21 pontos em 16 jogos. É uma campanha fraca (44% de aproveitamento), mas é ascendente.

E la nave va. Ainda não sabemos claramente para onde vai, só que não é para o Z-4.

.oOo.

Há exatos 15 anos, eu, meu filho Bernardo e o amigo Milton Saad fomos juntos ao Beira-rio. Tinha chovido durante o dia, mas parou de chover ali pelas 17h, enquanto nos deslocávamos para o estádio a fim de ver o Inter ganhar nosso primeira Libertadores. Ficamos horas na fila, mas como valeu a pena!

Dois causos daquele dia:

~ 1 ~

Meu sobrinho Filipe — na época um adulto de 22 anos e que assistia o jogo em outro local do estádio — não suporta a tensão e resolve “ver” o final da partida fechado no banheiro. Entra no malcheiroso recinto com o rádio a todo volume. Como consequência, vê saírem das privadas e de todos os cantos pessoas gritando para ele desligar aquela porcaria. O banheiro estava lotado.

— Aqui ninguém ouve rádio, caralho! Se quiser ficar com a gente, desliga!

Filipe desligou. Todos ouviam o som do estádio, esperando os gritos da comemoração do título. Sim, é uma espécie de seita da qual ignoramos a existência. Eles ficaram ali parados, os nervos à flor da pele, aspirando à vitória e a inolvidável fragrância de um banheiro masculino de estádio de futebol. (Nada como saber usar crases).

~ 2 ~

Eu pergunto para o Bernardo, no finalzinho do jogo.

— Dado, quantos minutos?

Ele consulta o relógio.

— 42.

Depois de meia hora e de uns duzentos ataques do São Paulo, pergunto novamente:

— Dado, quantos minutos?

Ele consulta o relógio.

— 43.

— Não pode, merda! Tu não sabe nem controlar o tempo, bosta!

(Como se mede o “tempo emocional”?).

15 anos. Saudades daquele dia.

Sim, Tinga fez este gol bem na minha frente

.oOo.

O Grêmio está louco para cair. Dei gargalhadas com a entrevista de Felipão após a partida. Segundo o mestre, o Grêmio tinha perdido porque não se esforçava nem cometia faltas nos momentos fundamentais. Interessante. Ele vive nos anos 90.

Fico feliz de ter previsto as dificuldades tricolores. Quem lê minhas bobagens, sabe que eu escrevi que Geromel, Rafinha, Diego Souza e Maicon completariam 36 anos neste segundo semestre e não aguentariam as exigências físicas do Brasileiro. O Grêmio conseguiu substituir bem Rafinha, mas Diego e Maicon sumiram e Geromel está Geromal.

É claro que nós desejamos a terceira queda, só que esse Campaz que eles contrataram é muito bom e pode acertar o time e enterrar de vez Jean Pyerre — o bom jogador que parece não querer jogar. Acho que, para livrarem-se do Z-4, eles precisarão ganhar mais ou menos a metade dos pontos que disputarão a partir de agora. É simples, mas sabemos como é. Quando estamos mal, até peido descadeira.

O Inter estava caindo e reagiu. Eles deram uma broxada violenta, daquelas que o cara até para de se mexer. Que permaneçam assim.

Quem tem medo de Felipão? | Foto: Sergio Barzaghi / Gazeta Press

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Para onde vai o Inter?

Para onde vai o Inter?

Depois dos espetaculares vexames contra Vitória e Olímpia, espero que a goleada sobre o Flamengo dê alguma alegria a este time que tem medo de fazer gols. Sonho que possamos acabar o primeiro turno na primeira página da tabela. Este é meu primeiro e modesto desejo.  No segundo turno, jogando apenas o Brasileiro, talvez possamos chegar ao grupo da Libertadores para comemorar uma classificação e o descenso de outrem… Quem sabe? São desejos modestos, como diria Heine (*).

(*) Heine escreveu: Meus desejos são: uma cabana modesta, telhado de palha, uma boa cama, boa comida, leite e manteiga; em frente à janela, flores; em frente à porta, algumas belas árvores. E, se o bom Deus quiser me fazer completamente feliz, me permitirá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos nelas pendurados.

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A última ceia, com Milton Ribeiro. E com pastel

A última ceia, com Milton Ribeiro. E com pastel

Milton Ribeiro com pastel | Foto: Santiago Ortiz

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Jesus loirinho

Jesus loirinho

Até os Reis Magos ficaram espantodos…

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Um conselho para a vida

Um conselho para a vida

Aprenda com John Waters:

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Bamboletras recomenda Ney Matogrosso, Maria Rita Kehl e Hannah Arendt

Bamboletras recomenda Ney Matogrosso, Maria Rita Kehl e Hannah Arendt

A newsletter de quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

É complicado escrever uma apresentação para as sugestões desta semana. Se conseguimos traçar paralelos entre Maria Rita Kehl e Hannah Arendt, como fazer com Ney Matogrosso? O fato é que são três livros bem bons e diferentes. A única coisa em comum entre os três é o fato de que, pela primeira vez, não temos um livro de ficção entre nossas dicas.

Abaixo, mais detalhes.

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Ney Matogrosso — A Biografia, de Julio Maria (Cia. das Letras, 512 páginas, R$ 89,90)

Tendo como aliada apenas a própria intuição, Ney Matogrosso abriu um caminho único na música brasileira. Enfrentou a hostilidade do pai militar e os dogmas da Igreja católica, sobreviveu aos anos de chumbo e ao perigo da aids, manteve-se firme diante das críticas a seu “canto de mulher” e da vigilância das censuras. O jornalista Julio Maria passou cinco anos perseguindo os caminhos trilhados por Ney para contar a história de um dos personagens mais transformadores da cultura do país. Visitou a casa em que ele nasceu em Bela Vista do Mato Grosso do Sul, a vila militar em que viveu a conturbada adolescência com o pai em Campo Grande e o quartel da Aeronáutica que o abrigou como soldado no Rio de Janeiro. Encontrou um irmão mais velho do qual a família não tinha notícias, levantou documentos de agentes que o observaram durante a ditadura e localizou fatos raros da fase Secos & Molhados. Ney Matogrosso – A biografia vai às camadas mais profundas da história de Ney para contar a vida de um artista que pagou caro por defender seus direitos e sua vida artística.

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Ressentimento, de Maria Rita Kehl (Boitempo, 208 páginas, R$ 53,00)

Ressentimento, obra pioneira da psicanalista Maria Rita Kehl, ganha, em 2020, uma nova edição pela Boitempo, com um novo prefácio e projeto gráfico. O livro aborda a conceitualização do ressentimento a partir de quatro pontos de vista: a clínica psicanalítica, a filosofia de Nietzsche e Espinosa, a produção literária e o campo político. Como o ressentimento não é um conceito clássico da psicanálise, Maria Rita Kehl mobiliza tanto as suas observações clínicas quanto seus conhecimentos de outras áreas para definir e explicar a constelação afetiva que o forma. “Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer” – é desse modo que o ressentido se conduz a um beco sem saída: ao não assumir a responsabilidade sobre a própria situação, ele busca apenas uma vingança “imaginária e adiada”. Faz-se notar, assim, a atualidade do tema do ressentimento, presente nos conflitos sociais daqueles que não se veem como agentes da vida social e política. Apenas a partir da tomada de consciência da própria responsabilidade como sujeitos de nossas ações é possível abrir mão da passividade – e dos ganhos secundários – da posição ressentida.

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Pensar sem Corrimão — Compreender, de Hannah Arendt (Bazar do tempo, 640 páginas, R$ 92,00)

Pensadora da crise e do recomeço, Hannah Arendt (1906-1975) produziu uma obra incomparável sobre os acontecimentos do século XX e suas repercussões. Os textos reunidos neste livro atestam a sua capacidade em avaliar com rigor teórico e compromisso ético as principais questões de seu tempo, criando diagnósticos que se tornaram referência nos mais diversos campos das ciências humanas. Produzidos entre os anos 1950 e 1970, esses escritos, em grande parte inéditos, atravessam o período em que a Arendt escreveu suas obras mais importantes. Dessa forma, é visível o diálogo estabelecido entre as reflexões presentes nesta edição – em ensaios, aulas, estudos e entrevistas – e trabalhos como Origens do totalitarismo, Sobre a revolução e A condição humana. Na coletânea estão mais de quarenta textos com propósitos e estilos diferentes: projetos de pesquisa como o que a autora dedica a Marx, uma série de estudos sobre o significado das revoluções modernas, discursos como o de agradecimento pelo recebimento da Medalha Emerson-Thoreau, importante prêmio literário concedido pelo Academia Americana de Artes e Ciências, homenagens a amigos, como o filósofo Martin Heidegger e o poeta W. H. Auden, cartas e entrevistas que trazem detalhes da vida e a obra da autora.

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A nota amarela — seguida de Sobre a escrita — um ensaio à moda de Montaigne, de Gustavo Melo Czekster

A nota amarela — seguida de Sobre a escrita — um ensaio à moda de Montaigne, de Gustavo Melo Czekster

Esta será uma resenha estranha, escrita em formato gonzo. Gonzo é um estilo de texto jornalístico ou cinematográfico no qual o autor abandona qualquer pretensão de objetividade e se mistura com o que é contado.

Pois bem, o romance A Nota Amarela — primeira parte do livro de Czekster — é narrado pela violoncelista Jacqueline du Pré. Trata-se de seus pensamentos durante sua célebre interpretação do Concerto para Violoncelo de Elgar. Claro que tudo o que ela pensa foi criado e (muito) pesquisado por Czekster. Du Pré foi uma grande figura inglesa da música erudita. Linda, cheia de vida, verdadeiramente fulgurante, ela era recém casada com o pianista e regente Daniel Baremboim — até hoje uma figura referencial na área musical. Há um filme de uma interpretação de du Pré para este concerto que foi gravado em 1967 e que serviu de base para boa parte do trabalho. Eu conheço este filme há muitos anos. Acho que o vi pela primeira vez ainda adolescente em alguma TV Educativa e fiquei fascinado. Afinal, uma linda música, tocada com muita emoção por uma bela mulher, o que poderia haver de melhor? O fato é que jamais esqueci dele e tratava de rever o filme a cada reapresentação. Aqui está ele:

Uma vez, nos anos 80, levei uma moça muito bonita, graciosa e radical, pela qual estava me apaixonando, para ver a Ospa tocar este concerto. O programa finalizava com a Sinfonia Nº 9 de Schubert, a Grande. Não é que tenha dado errado, mas… O fato é que fiz enorme propaganda do concerto de Elgar e, no final, ouvi ela dizer que o inglês fora humilhado por Schubert e… Como é que eu tinha dito que detestava autores do século XX que escreviam como se estivessem no XIX se, já de cara, no primeiro concerto em que íamos juntos, eu elogiava um desses “horrores”? E me perguntou ironicamente qual era a obra de Rachmaninov que eu amava. Nenhuma, eu respondi, já perdendo o entusiasmo. Ela gostava da música moderna, divertia-se com Stockhausen, Xenakis, com a Segunda Escola de Viena, etc. Minha história com a moça não interessa, mas ela tinha razão. Costumo não gostar destes autores, contudo há exceções e uma delas é este concerto.

Elgar e sua batuta

Me deu vontade de bater nela com a enorme batuta de Elgar, mas acabamos passando uns bons seis meses juntos, não obstante meu gosto por aquela “vulgaridade”. Então, desde que soube que Czekster se dedicara a esmiuçar a famosa interpretação de du Pré, fiquei encantado e meio enciumado, porque o Concerto era meu e de Jacqueline e fim!

Mais: como se não bastasse, o livro de Czekster tinha outra característica perturbadora. Eu sou uma pessoa avessa a ler filósofos, não gosto. Também sou totalmente hostil a romances-ensaios como, por exemplo, O homem sem qualidades, de Robert Musil. (OK, estou aqui desfiando perigosamente alguns de meus vários desvios de caráter). Só que amo profundamente um filósofo e ele se chama Michel de Montaigne. A forma com que Montaigne aborda seus temas me deixa inteiramente envolvido. Além de possuir um texto maravilhoso, ele mistura histórias pessoais e observações sobre temas menores, partindo para conclusões que às vezes admite duvidosas. É um escritor glorioso. Para cúmulo, ainda tem muito humor e uma capacidade argumentativa absolutamente anormal. É agradável lê-lo. Ele conversa com o leitor como faz Machado. E Czekster escolheu-o para escrever um ensaio “à moda de”. É muita coisa em comum.

Desta forma, mesmo sem abrir o livro, mesmo observando de longe o volume, eu sabia que ele era para mim.

(Desculpe, Czekster, mas me senti como o personagem de A Vida do Outros, o capitão Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) que termina o filme dizendo “É para mim”).

Mas demorei uns dois meses para abrir A Nota Amarela. Olha, gostei demais.

Czekster dividiu a narrativa em 31 capítulos, que é aproximadamente o número de minutos de duração do Concerto. Numerou-os em ordem descendente, sublinhando os minutos faltantes da execução do mesmo — o autor não faz isso de forma arbitrária, tem suas razões. Como disse, o livro é escrito na primeira pessoa do singular e, no ensaio, o autor deixa claro que leu todos os livros e entrevistas disponíveis de du Pré. Eu li muito menos e é claro que as coisas batem. Jamais saberemos o quanto o texto é du Pré, mas eu creio que é muito. Para nossa sorte, Czekster não fala sobre a doença que vitimou a carreira da violoncelista e a própria. A carreira de du Pré foi curta em razão da esclerose múltipla, que a forçou deixar os palcos aos vinte e oito anos de idade. Ela viveu apenas 42 anos.

Em determinado momento, Jacqueline vê, na plateia, uma mulher com um lenço amarelo, e aquilo a perturba. Ela se pergunta o motivo disso, pensando até se em seu guarda-roupa esta cor aparece ou não. Até que ela lembra que seu professor de violoncelo, o grande William Pleeth, presente ao concerto, um dia lhe dissera que os chineses acreditavam que uma nota amarela seria “a partícula de som perfeito que deu origem ao Universo”. Ela seria a nota perfeita, aquela que o músico deveria alcançar ou se aproximar ao máximo. Porém, toda vez que ela sente que a tal supernota está iminente, sobrevém-lhe enorme angústia e medo.

Escrever sobre os pensamentos de um artista conhecido durante a execução de um concerto é um enorme desafio, uma verdadeira proeza. A coisa poderia ficar realmente chata com constantes referências a ensaios, acelerações, desacelerações, dificuldades técnicas, relação com o palco, olhares do maestro, erros, etc., mas Gustavo mostra-se realmente criativo e não nos entrega — para usar uma expressão da moda — mesmice. O livro é feérico e Jacqueline está dentro de um drama que envolve angústia, dores, digressões, autocrítica, crítica e até certo descolamento daquilo que está fazendo.

E o ensaio sobre a escrita é brilhante, belíssimo. E também quase um thriller. A questão pessoal — penso que real — confessada pelo autor “a la Montaigne” é absolutamente grave e angustiante. Daquelas coisas de fazer a gente engolir o livro.

Recomendo muito.

Gustavo Melo Czekster | Foto: Maia Rubim/Sul21

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A foto do fim de semana

A foto do fim de semana

O Gigante do Beira-Rio acordou justo contra o time de boçalnaristas mais fiéis ao vigarista-em-chefe. Grande notícia, grande gesto de Taison, aquele que é melhor que o Messi.

Taison, após marcar o terceiro do Inter em Flamengo 0 x 4 Inter, ontem, no Maracanã.

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