Tchékhov – 150 anos

Na última sexta-feira, 29 de janeiro, comemorou-se os 150 anos de nascimento de Anton Pavlovich Tchékhov. Eu sabia da data, mas talvez a morte de J. D. Salinger tenha me atrapalhado e deixei-a passar em branco. Hoje, seus biógrafos sempre citam a viagem à Sacalina como o verdadeiro divisor de águas entre o Tchékhov leve e o pesado, o brincalhão e o sério e — por que não dizer? — o sadio e o doente. O que faz uma pessoa de saúde não muito boa sair de Moscou a 21 de abril, atravessar toda a Sibéria até o mar do Japão, para chegar a Aleksandrovsk (na ilha de Sacalina) somente no dia 11 de julho? Estes quase três meses de viagem quase acabaram com a saúde do escritor. Apesar disso, ficou cinco meses na ilha de Sacalina, entrevistando 10.000 pessoas entre moradores e detentos — explico: Sacalina servia, assim como regiões da Sibéria, como local de desterro para criminosos, comuns ou “políticos”. Dentre estes, havia um grande amigo seu, Vladimir Korolenko. Voltou por Vladivostok e ainda foi ao Sri Lanka, no sul da Índia. A 8 de Dezembro regressou a Moscou. Sim, este ano, li uma biografia de Tchékhov e as datas já não fechavam muito bem. As versões para sua morte também não fecham. A esposa contou assim; o médico, assado; até Raymond Carver escreveu sua versão. Em comum, apenas o fato do escritor agonizante ter pedido uma champanhe.

Suas origens são humildes, o pai era um servo que conseguiu comprar a liberdade. Nasceu pobre e morreu rico, principalmente em função das peças teatrais. Foi uma pessoa extraordinariamente ativa e solidária. Era médico — exerceu a profissão por uma década — , escreveu imensa obra, desenvolveu campanhas de prevenção à disseminação do cólera, financiou pessoalmente a construção de escolas em aldeias, não gostava muito de intelectuais passadistas (apesar de admirar Tolstói) e ensinou a como escrever um conto através de técnicas até hoje repassadas pelas “oficinas literárias”. Tudo isso em apenas 44 anos, quando morreu de tuberculose.

No ano passado, revi A Gaivota e não vou resistir a copiar a bela capa da última edição brasileira, com o escritor ao centro e sua mulher Olga Knipper à direita.

Em 2004, escrevi o texto a seguir em homenagem aos 100 anos de morte de Tchékhov:

Quando era menor, meu filho Bernardo às vezes perguntava: “Pai, qual é o teu escritor preferido?”. Minha resposta era que meu escritor preferido eram uns 100 caras. Quando ele insistia citava algo por volta de 10. Quem? Acho que Cervantes, Dostoiévski, Balzac, Kafka, George Eliot, Machado, Döblin, Stendhal, Virginia Woolf, Sterne, Thomas Mann, Tchekhov, mais ou menos isto. Mas, se meu inquisidor fosse implacabilíssimo como Fernando Monteiro em suas listas (vocês deveriam ler a RASCUNHO, repito!) e me ordenasse escolher um e somente um, eu – talvez estranhamente – escolheria Anton Pavlovitch Tchekhov.

Acho que gosto se discute sim. Em meu caso com Tchekhov, creio saber parcialmente de onde vem meu fascínio por suas histórias e peças de teatro. Estou consciente de algumas coisas que aprovo nele: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações (ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui), a imaginação para criar cenas e situações significantes, uma visão um pouco diferente do amor – o qual é visto sem muitas ilusões – e a total falta de preconceitos que o permite transitar por toda a sociedade russa do século XIX. Talvez ele não fale a todos da forma como fala a mim. Sei que Dostoiévski, Mann, Cervantes, etc. são melhores, porém insisto: Tchekhov é o meu escolhido. É também uma questão de convivência agradável, preferimos ficar com alguém cuja presença e essência nos seja amiga.

Era o verão de 1978, tinha 20 anos e passava férias na casa de minha irmã, que fazia pós-graduação no Rio de Janeiro. Lembro do dia: manhã chuvosa, temperatura amena, não ia dar praia. Voltei para a cama e peguei O Beijo e Outras Histórias. Pensava que, tendo lido quase todos os livros de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e Turguênev traduzidos na época, me restava conhecer aquele Tchekhov. Amava os russos e, naqueles anos, também os soviéticos… Então, comecei a ler O Beijo – uma boa história – indo depois para o conto da cachorrinha Kaschtanka. Gostei. Almocei no centro e, quando passeava pela Cinelândia, resolvi entrar na Biblioteca Nacional e pedir para ver o que eles tinham de meu novo escritor. Eles trouxeram poucos livros, mas, dentre eles, estava O Beijo.

Peguei o livro e continuei a lê-lo na BN. Passei a uma história que estava no final do livro: Enfermaria Nº 6. Em minha vida, li-a umas 4 vezes, a última deve fazer uns 15 anos. Talvez tenha sido minha maior experiência literária. Fiquei estupefato com a quantidade de humanidade que me era repassada, com a economia do autor, com a poesia condensada de sua prosa. Ali não havia teses a defender, nem grande enredo, mas havia uma sinceridade, uma nitidez nos personagens que me causou enorme impressão. Continuei a ler as histórias de trás para diante e conheci a irônica Uma História Enfadonha, na qual descobri que Tchekhov podia criar diálogos tão bons quanto os de Jane Austen. Voltei para a casa diferente.

Tchekhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

“Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…”

Tchekhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe críticas violentas, que o acusavam de “mau gosto” e de utilizar “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”

Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz outras observações sobre Tchekhov:

“No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchekhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.”

“Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchekhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.”

“O desconcertante é que Tchekhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.”

E, mais desconcertante: “Para Tchekhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.”

Tchekhov: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.”

Há muitos livros de Tchekhov que indicaria. Tenho 22 na minha frente. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: acho que As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. A novela Enfermaria Nº6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam se reunir a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

Os melhores livros são as duas traduções de Bóris Schnaidermann:

A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editora 34. 1999 Trad. de Bóris Schnaidermann ou
Contos. Civilização Brasileira. 1959.
(O segundo é o mesmo livro reeditado e revisado por Schnaidermann 40 anos depois. Mas quem encontrar a edição de 59 num sebo pode comprá-lo de olhos fechados. As duas versões são espetaculares.)

Outros livros que indico:
Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
Histórias Imortais. Cultrix. 1959. Trad.de Tatiana Belinky.

Filmes:
Há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchekhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.

Em vida, Anton Tchekhov já era conhecido, respeitado e até popular, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstoi disse: “Creio que Tchekhov criou novas – absolutamente novas – formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchekhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar Anton Tchekhov, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstoi não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchekhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

“Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ – estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.”
Olga Knipper, esposa de Anton Tchekhov.

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado acima ocorreu. Tchekhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha.

Adendo: E-mail de Fernando Monteiro:

Você tem toda a razão sobre Tchekov: ele tem uma “redondez”, uma satisfação tão total e plena do que esperamos encontrar num escritor… que mereceria, sim, ser o escolhido, entre todos, como o preferido de um leitor super-exigente.

Das histórias de AT, eu gosto especialmente de “A Estepe”, uma novela relativamente curta e genial, que narra a viagem de uma criança como uma metáfora (a novela toda) da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê.

Assim é que o meninozinho russo (o próprio Anton, é claro) viaja — e a travessia da estepe vasta, com todos os seus incidentes, se torna o núcleo mesmo da impressão estranha da novela, como naquele filme (Olhos Negros) de Michalkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”…

Creio até que Nikita Michalkov faz uma alusão mais ou menos direta à novela, porque o argumento de “Olchie Chiorne” foi criado a partir da fusão duas narrativas clássicas de AT.
Para mim, Tchekov é o Machado de Assis da pátria de Dostoiévsky.

Bom final de semana!
Fernando

Morre J. D. Salinger aos 91 anos

O escritor J.D. Salinger morreu aos 91 anos em sua casa em New Hampshire, nos EUA. Recluso há muitos anos, o escritor não dava entrevistas desde 1980 nem se deixava fotografar. O seu livro mais conhecido é O Apanhador no Campo de Centeio (1951). Salinger tinha 32 anos quando da publicação. O personagem principal do livro, o adolescente Holden Caulfield se tornou símbolo da geração de jovens do pós-guerra. A obra foi um sucesso mundial, mas não só este romance é conhecido. Meus filhos leram toda a sua obra para o colégio (Leonardo da Vinci, Porto Alegre).

O anúncio da morte foi feito pelo filho do autor, a partir de um comunicado emitido pelo representante literário de Salinger, nesta quinta-feira. Salinger completou 91 anos no último dia 1º. Ele estava sem publicar um trabalho havia mais de 40 anos. Paradoxalmente, ele declarou em 1974, numa de suas poucas entrevistas:

Amo escrever, mas só escrevo para mim mesmo e para meu prazer.

Na minha opinião, Salinger foi um gênio e foi uma alegria revisitar toda sua curta obra com meus filhos. Dia desses, estávamos discutindo o conto Um dia perfeito para os peixes-banana. Fico triste com sua morte, mesmo sendo ele uma vítima da Síndrome de Bartleby. Muitíssimos escritores sucumbiram na tentativa de imitá-lo. Normal.

R.I.P., Jerome and See More Glass.

Diagnóstico de Alma Welt

Engraçado, meus sete leitores gostam mesmo de um mistério. Telefonemas, e-mails, comentários até hoje, réplicas… Tudo para descobrir a identidade de Alma Welt. E em verdade vos digo: Alma Welt existiu, assim como existem Lúcia Welt e o pesquisador Jungmar Jensen.

Anton Tchékhov existiu também. E quem duvida da realidade de Gurov e de sua dama do cachorrinho Ana Serguêievna? Thomas Mann esteve entre nós, mas confesso que Adrian Leverkühn me é muito mais consistente e presente, até por ter feito um pacto com o Demônio. O Demônio também existe e não serei eu a duvidar de Fausto. Aquele foi criado pela religião, este por uma lenda popular, o que é a mesma coisa. E o que dizer de Deus, tão presente em nossas vidas?

Um de nossos leitores foi bastante fundo, pois trabalhou como inspetor de polícia na cidade onde Alma Welt escreveu grande parte de sua obra e suicidou-se. Por vício de profissão e equipado de boas práticas e autoironia, encafifou com o caso: imaginem que ele pesquisou sobre todas as mortes e suicídios recentes de Rosário do Sul. Mais: entrou em contato com a Associação dos Poetas Rosarienses. Um de seus membros declarou estar “consternado por desconhecer a pessoa e a obra de Alma Welt e mais ainda por ela nunca ter feito parte dos quadros da instituição”. Desta e de muitas outras formas, meu leitor garante que nada daquilo ocorreu, nem a morte daquele pobre e torturado padre citado na fortuna crítica e biográfica da grande Alma. Sua única preocupação é um elegante deboche: ele gostaria de saber se dialoga com um homem ou com uma mulher. Por quê? Ora, é que estava despedindo-se de Lúcia Welt com beijos e se esta fosse um homem tal atitude poderia, em suas palavras, “arruinar minha reputação”.

Pois eu me contraponho e ataco a Jorge Lima perguntando-lhe se foram documentados os terríveis crimes ocorridos nas cidades gaúchas de Boa Ventura e Santa Fé. Por exemplo, o jornalista e advogado Dr. Alcides Viana foi morto numa madrugada por um certo Fagundes ao sair da casa de sua noiva. Onde soube disso? Ah, foi no romance Porteira Fechada, de Cyro Martins, mas e daí? Alcides não representa a imprensa idealista com colhões? E toda aquela mortantade que houve por dois séculos em Santa Fé? Ou alguém aí vai dizer que nosso escritor maior mentiu e que, por exemplo, Ana Terra e Rodrigo Cambará jamais existiram? ERA SÓ O QUE FALTAVA PARA ACABAR DE VEZ COM NOSSO ESTADO!!! Não basta a Yeda?

Então, mesmo que o número IP de Jungmar Jensen e Lúcia Welt fossem iguais em alguns momentos — apesar do cuidado que deus tinha de usar IPs variáveis — , a gente deve contribuir para que a existência e a essência da Alma Welt se espraie pelo pampa como a de Erico e de Cyro.

E digo mais, tive um caso com Lúcia Welt, sua irmã. Vi in loquo as extraordinárias pinturas de Guilherme de Faria tendo Alma Welt como modelo. Pratiquei maravilhosos intercursos em salas com paredes lotadas de Almas que nos observavam, arfantes e apaixonados. Amei Lúcia Welt sabendo que nela encontraria algo dos restos de sua irmã. E, contrariamente a nosso inspetor, encontrei não apenas a mesma carne e o mesmo sangue, como os inestimáveis papéis amarelados de Alma, todos rabiscados de sonetos.

O Pranto de Alma Welt, de Guilherme de Faria

Lúcia Welt, a irmã de Alma, responde

Nosso blog tem a honra de abrir espaço para para a irmã de Alma Welt, Lúcia Welt. Dentro da maior civilidade, ela veio não apenas prestar esclarecimentos sobre a existência de sua irmã. como explicar as lamentáveis circunstâncias de sua morte. Ontem, houve fortes questionamentos a este respeito por parte de nosso leitor Jorge Lima, inspetor real de polícia ora envolvido informalmente num caso a meu ver ficcional, assim como, em tom irônico e compreensivo, de Luís A. Farinatti, professor do Departamento de História da UFSM, especialista em história agrária, da família e social do Brasil Império.

Prezado Milton Ribeiro

Eu sou Lucia, irmã da saudosa Alma, Poetisa maior do Pampa, e gostaria de esclarecer algumas coisas sobre o “mistério Alma Welt”, já que é o que está se tornando a sua trágica e prematura morte, aos 35 anos , no auge de seu talento e beleza.

1°- Meus avós, Joachim e Frida Welt, agricultores alemães imigrados dos Sudetos da Tchecoslováquia antes da segunda grande guerra, depois de décadas na região de Blumenau SC compraram uma estância pampiana no extremo sul do país e foram pioneiros na plantação de um vinhedo no Pampa, de que agora há muitos outros exemplos.

2°- Por razões que por enquanto não devo esclarecer, a cidade do Rosário do Sul foi usada apenas como uma referência deliberadamente falsa, pois eu não quis que identificassem a verdadeira cidade mais próxima da região de nossa estância. Assim também o citado delegado Benotti é um nome falso (por razões de segurança) de uma pessoa real, de outra cidade.

3°- Um comentador referiu-se ao nosso poço da cascata (onde Alma se afogou) como uma “cachoeira”. Nem Alma nem eu nunca nos referimos a essa cascatinha como “cachoeira”. E ela em si, não é “perigosa”. Há um riacho aqui na nossa estância que depois de uma pequenina cascata de três lances forma um “poço” (laguinho) mais fundo onde Alma se afogou colocando um laço em seu pecoço e a ponta da corda de 150cm a uma pedra de mais ou menos 40cm de diâmetro que a arrastou para o fundo quando ela a deixou cair do alto de uma pedra mais alta da margem que fica perto do centro do “poço” .

4°- Devo protestar quanto à tua afirmação de que as obras da Alma não chegam a ser obras-primas. É claro que nem tudo é e nem poderia ser, mas se mergulhares nesse mundo de textos, verás que há muitas, sim, muitas obra-primas. E o conjunto forma um todo monumental, conquanto sejam obras de caráter intimista (contradição em termos, eu sei) e confessional. Mas o encanto da obra da Alma é justamente que ela consegue transcender o mero personalismo e, mormente os sonetos, permite uma leitura no plano simbólico universal. Ela seria o que Keats chamava de “egotista sublime” (ele se referia ao seu contemporâneo Wordsworth) um tipo de poeta de que temos inúmeros exemplos, sendo o maior o grande Walt Whitman, embora também Florbela Espanca.

5°- O famoso artista plástico e tambem escritor e poeta cordelista Guilherme de Faria (66), descobriu a Alma e sua obra literária em 2001, em seu ateliê de pintora na região dos Jardins, onde ela morou e trabalhou entre 1999 e 2005. Ela chamava esse período de seu “auto -exílio paulistano” motivado pela dor da morte do nosso Vati (papai), que era um médico que não se dedicou à medicina, e era um pianista clássico amador de grande talento e hablidade, mas que só tocava para a família. Quanto ao mestre Guilherme, não fez somente gravuras, mas muitos retratos dela em pintura a óleo sobre tela (vide seu blog), bem como magníficos desenhos a pincel e nanquim que captam de maneira magnífica o belíssimo perfil de minha irmã, e outros, o seu corpo inteiro, quase sempre nu. Até hoje ele está na sua “fase Alma Welt”, pois ele a amou e a considera a sua “última e definitiva Musa” (como ele diz).

Se precisarem de mais esclarecimentos, estarei à disposição com prazer, aqui, se me permites, ou no meu blog. Digo isso porque vejo que trataram Alma com respeito, principalmente por sua obra, que realmente está acima de dúvidas e controvérsias. Estou grata.

Abraços a ti e aos que amam ou respeitam a Alma.

Lucia W

Quem acredita em Alma Welt (1972-2007)?

Já aprendi — com Lacan, veja só! — que o significado do que se diz é dado por quem escuta e não por quem fala. Freud, muito antes, já descobrira que a chave da interpretação está com o analisando, não com o analista. Este, quando não atrapalha, oferece a escuta e… aí o analisando diz e exclama: — “Eu sabia!”. Assim vivemos: num mundo imaginário onde até mesmo a imagem de si mesmo é constructo imaginário! Por isso acredito piamente em TUDO que você escreve – o que é a mesma coisa que dizer: “não acredito em NADA disso”.

Comentário do Dr. Cláudio Costa ao post A Autocensura, de meu blog anterior (fora do ar)

Alma Welt foi uma grande escritora gaúcha nascida em Novo Hamburgo (RS) em 8 de janeiro de 1972. Belíssima, prolífica e talentosa, suicidou-se em 20 de janeiro de 2007 na fazenda onde vivia no interior gaúcho — mais exatamente na Estância Sta. Gertrudes, em Rosário do Sul. Ela não se deixava fotografar e dela só há gravuras, todas feitas por Guilherme de Faria.

Até hoje, seus dois biógrafos, a irmã Lúcia Welt e Guilherme, publicam na internet textos inéditos da imensa obra de Alma. Seu único livro publicado foi Contos da Alma (Editora Palavras e Gestos, 2004), o qual foi saudado por José Mindlin como uma obra admirável. O célebre bibliófilo procurou Alma sem sucesso. Eu não fiz uma contagem dos sonetos (fala-se em 700), contos, romances e textos vários de Alma Welt que encontrei na rede, mas posso dizer que não é pouca coisa. Mais: não é pouca coisa e há coisas de muito boa qualidade, como vários dos Sonetos Pampianos e dos Metafísicos. Alma Welt foi uma espécie de estrela do site Recanto das Letras até ser expulsa postumamente, fato tão inédito quanto sua imensa obra. O motivo teriam sido as circunstâncias de sua morte, “demasiado romanesca”. Estranhamente, o site abriga milhares de escritores com os nomes e codinomes mais esquisitos, como Miss Pain, flash e Menina Sol, mas não pode abrigar a obra da cultíssima Alma nem ter seu protetor Guilherme (de) Faria entre seus membros.

Não, não há indícios de plágio ou outro crime de qualquer natureza. O material é todo original, o único senão é a profunda desconfiança de que Alma Welt jamais tenha existido. Só que Alma Welt, ficcional ou não, existiu e existe. Tem obra própria, biografia e seus textos seguem aparecendo aqui e ali.

Minha amiga Vera Medeiros é professora da Unipampa em Bagé (RS). Ela existe, tanto que escorregou ontem em seu banheiro bageense, tendo realizado um spaccata involuntário (ou espacato ou espacate, como queiram), peripécia de que não se orgulha, mas da qual é lembrada sempre que tenta caminhar…. Mas tergiverso… Graduada em Letras pela UFRGS, é mestre e doutora em Literatura Brasileira. Em seu mestrado e doutorado, dedicou-se ao estudo da obra da escritora Clarice Lispector que, supomos, tenha efetivamente existido. Um de seus alunos fez um trabalho sobre Alma Welt. Vera, que escorrega mas não é exatamente uma desequilibrada, ficou desconfiada. Welt, Alma Welt? Welt significa “mundo” em alemão e Alma é um nome de mulher. E é alma. Vera me disse: “Não, ela não existiu; mas a obra dela, provavelmente escrita por Guilherme de Faria, está aí e há coisas interessantes. Vou te mostrar.” E mostrou.

Vida e Obra de Alma Welt

Sonetos Metafísicos de Alma Welt

Sonetos de Mistérios da Alma (de Alma Welt )

Contos da Alma (de Alma Welt)

Romances de Alma Welt

O espaço da irmã da Alma

Guilherme de Faria

O Caso Alma Welt

E eu, com um sorriso irônico, pergunto àqueles que dentre meus sete leitores clicaram nos links acima: você acredita em Alma Welt?

O silêncio da intelectualidade gaúcha

Só a indiferença é livre. O que tem caráter distintivo nunca é livre; traz a marca do próprio selo; é condicionado e comprometido.

THOMAS MANN

Ironicamente, no dia de Finados, o RS Urgente publicou um post sobre o silêncio da intelectualidade gaúcha. O post era mais do que simples, apenas reproduzia um comentário do leitor Franklin Cunha:

O que mais nos impressiona nessa cortina de silêncio em torno das denúncias de crimes do atual governo, é a absoluta ausência de manifestações da intelectualidade gaúcha. Descrevem o pôr-do-sol, os ipês floridos, a feira do livro, as festas gauchescas, preocupam-se com os monumentos públicos, como se todas essas “monstruosidades” geradas no Piratini, não existissem. Não podemos acreditar que todos eles foram cooptados pelas benesses do poder.

Sim, simples, mas provocativo na medida certa e mais do que suficiente para gerar um bom debate. Quero começar definindo o que entendo por intelectualidade. São os moços dos cadernos de cultura, são as pequenas celebridades que gostam de tentar reflexões inteligentes sobre costumes, política internacional, escritores, arte em geral, sociologia, antropologia e o diabo. São aqueles que acorrem aos jornais para dar sua interpretação dos fatos, os que preveem, os oráculos que escrevem hoje para poderem dizer “eu avisei” amanhã. E são os bons escritores, ensaístas e articulistas que produzem essa coisa intangível que chamamos cultura ou conhecimento. Ou seja, minha concepção da palavra é pré-Gramsci e pré-antiga.

Há tais pessoas por aqui e em todo lugar.

Em primeiro lugar, esta intelectualidade parece traumatizada com um fato que começou em meados do século XX e que hoje mostra cada vez mais seus resultados: a pouca importância que os intelectuais passaram a ter. Em tempos nem tão remotos, escritores e artistas eram convidados pelo poder para participarem não apenas de regabofes mas para grudarem suas grifes neles. Apenas para seguir a senda de palavras iniciadas por “gr”, diria que Graham Greene, por exemplo, era habitué de vários primeiros-ministros ingleses e presidentes americanos quando o encontro era internacional. Greene foi uma das últimas celebridades do gênero “escritor famoso que trata de política internacional em seus livros”. Lembro que, certa vez, pediu para ser apresentado a Augusto Pinochet apenas para ter o prazer de negar-lhe um cumprimento. Foi o que fez. Só que hoje há um problema: a literatura fracassou e não cria mais celebridades, sejam planetárias, sejam no microcosmo brasileiro. A importância do escritor e do artista diminuiu.

Em segundo lugar, Swift era um gênio e sempre teve razão ao chamar de Laputa a terra dos intelectuais em Gulliver. Em geral, sempre estivemos — e já que as ofensas serão duras, passo a dar a cara ao tapa –- à venda. Greene não, porém muitos outros sim. Olhem para o Brasil. E olhem para o habitual. Adoro Drummond, mas o que ele fazia com Capanema durante o Estado Novo? Ah, compreendo, eram amigos de infância… Deixo a palavra ao poeta Fernando Monteiro, que não habita Laputa.

Nossos parnasianos, condoreiros, simbolistas,
modernistas, praxistas e taxidermistas
da poesia do pantanal depois da lama seca
descobrem de novo o Brasil de Cabral,
trabalham para Capanema e não faz mal,
tomam remédio para dor de cabeça
e vão dormir em Pasárgada,
onde são mais que amigos do rei
de espadas dos jogos de cartas
marcadas da carreira literária
do acadêmico Getúlio Vargas

Os poetas brasileiros não morrem em revoluções.
Quando elas acontecem, os bardos nacionais
preferem segurar os empregos.
Na Revolução de 30 não morreu um só Dante
de Cascadura para contar como é descer ao inferno.
Todos eles aspiram ao céu de palmas abertas
soltando as batatas quentes na corrida
dos mil metros para ocupar ministérios,
secretarias da cultura e bibliotecas nacionais
reservadas para os insistentes em Poesia Sempre
(palmas para eles com uma só mão no ar rarefeito
da imortalidade a cacete, chá e simpatia
de casca dos bóias-quentes).

(Trecho do poema Vi uma foto de Anna Akhmátova)

Não é um exagero. É a razão. Estamos sempre prontos a aderir, mesmo que seja a um Getúlio Vargas. Exemplos há aos montes. Lembram quem foi o autor de Zélia, uma paixão? Pois é, foi o incensado autor de Encontro Marcado, Fernando Sabino.

Mas voltemos ao Rio Grande. O que quero dizer é que a LIC (Lei de Incentivo à Cultura) tornaram os autores ainda mais dependentes e putos. Quem falará mal de Yeda Crusius se sabe que ela toma chás com bolachas acompanhada da Secretária da Cultura Mônica Leal? Tal fato serve de pretexto para quem já não tem lá muita disposição para tratar de temas espinhosos. Não posso protestar porque meu projeto está nas mãos deles… Aqui temos um raro e débil protesto onde a governadora é tratada com um respeito, digamos, patético.

Secretária Mônica Leal (acima, à direita)

Em terceiro lugar, há a pequena grande imprensa gaúcha. Não há nenhuma disposição nela para abraçar vozes dissonantes. Obviamente, tal fato não libera nossos gloriosos produtores de cultura de seus compromissos éticos, mas afirmo que a maioria deles conta com a divulgação de seus trabalhos por nosso órgão maior, nem que este muitas vezes acabe apontando para seus rabos. A justificativa aqui é a de que, Pô, fiz uma catilinária contra a situação, mas eles jogaram no lixo… O onipresente e sorridente Luís Augusto Fischer, que trabalhou Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre durante a gestão de Tarso Genro, parece estar desobrigado de qualquer comentário sobre o Estado e lembro apenas de ter lido uns muxoxos quando vimos o acervo de Erico Verissimo seguir para o Rio de Janeiro.

Nada justifica o silêncio. A única exceção que vejo é vergonhosa para a esquerda gaúcha. Trata-se do professor e escritor Juremir Machado da Silva. Juremir é uma das pessoas mais afastadas da esquerda que conheço, porém é o único ter coragem de ironizar o estado das coisas. O resto fica tipo assim, entende?

Vi uma foto de Anna Akhmátova, de Fernando Monteiro

Fiquei desconcertado quando recebi, ontem, Vi uma foto de Anna Akhmátova. O livro veio num envelope branco com a caligrafia e a caneta preta inconfundíveis do grande recifense Fernando Monteiro. Meu desconcerto deveu-se ao fato de ser um poema de 85 páginas. Um poema desses editado? Coisa rara. Li quase todo o livro caminhando pela calçada da Av. Cavalhada, enquanto refazia o conhecido trecho até o correio e no ir e vir de meu calvário como trabalhador comunitário, por culpa de meu carro estar parado na frente de uma moto no ano de 2004. O resto do livro, li no “trabalho”.

Vi uma foto de Anna Akhmátova,
numa oferta de segunda mão
em livraria de terceira
fechando as portas também baratas
em liquidação de quarta despedida
dos leitores de páginas impressas
à tinta das antigas tipografias
condenadas aos museus,
setor dos tipos móveis de Gutemberg
que não mais importa.

Setembro se derramava lá fora,
estação de sol sobre a fonte
de águas espargidas em torno da lua
de Vênus nativa molhando a ponta
tímida de dedos de mármore.
Pensei naqueles de Clarice criança,
subindo e descendo escadas
da casa entre movelarias e sebos,
vinda da Ucrânia para o coração
deste bairro de esquecidos
textos em hebraico e iídiche
de emigrantes deslocados.

Logo que cheguei ao trabalho — normalmente eu vou lá para trabalhar de verdade! –, após cumprimentar as freiras do colégio de meu descontentamento, voltei a ler o pequeno grande volume, ouvindo os sons das rezas de uma missa, aquele lastimável lenga-lenga da crendice que evidentemente grassa na instituição onde presto serviços. A mim, parece uma melopéia árabe. Mas gosto de lá, sou muito bem tratado. Aquele som acompanhava adequadamente a tristeza e absurdo da vida de Anna e formava um curioso painel de sonoro quando da entrada dos poetas brasileiros.

Nossos épicos sem dentes, nossos líricos
sem lenços, nossos Valérys de cemitérios,
nossos engenheiros de versos, juízes
e usineiros sonetistas de paraquedas,
nossos cantores das palmeiras e da pedra
no caminho de quem ia cantar palmas
mais altas do que as primeiras,
os vates caindo no rio de penas
dos cães banguelas, os nossos poetas
emplumados no lugar daqueles,
são imortalizados precocemente,
antes da colheita do tempo.

Nossos trovadores, menestréis, poetinhas
e poetões se dedicam ao vício secreto
de deslustrar poemas dos concorrentes
ao posto de Príncipe dos Poetas brasileiros.

Nossos parnasianos, condoreiros, simbolistas,
modernistas, praxistas e taxidermistas
da poesia do pantanal depois da lama seca
descobrem de novo o Brasil de Cabral,
trabalham para Capanema e não faz mal,
tomam remédio para dor de cabeça
e vão dormir em Pasárgada,
onde são mais que amigos do rei
de espadas dos jogos de cartas
marcadas da carreira literária
do acadêmico Getúlio Vargas

Os poetas brasileiros não morrem em revoluções.
Quando elas acontecem, os bardos nacionais
preferem segurar os empregos.
Na Revolução de 30 não morreu um só Dante
de Cascadura para contar como é descer ao inferno.
Todos eles aspiram ao céu de palmas abertas
soltando as batatas quentes na corrida
dos mil metros para ocupar ministérios,
secretarias da cultura e bibliotecas nacionais
reservadas para os insistentes em Poesia Sempre
(palmas para eles com uma só mão no ar rarefeito
da imortalidade a cacete, chá e simpatia
de casca dos bóias-quentes).

E Fernando vai um pouco mais adiante neste filme:

Não, Fernando não é alguém indulgente nesta terra de mesuras gentis entre escritores e governantes.

Nenhuma Revolução pode ser gentil
quando começa ou termina
por cortar cabeças à nacional
maneira de Ivan, o Terrível

A cantoria das freiras recrudece e eu posso ler mais um pouco. Em minha mente, como pano de fundo, há a comparação de múltiplos exemplos entre a pouca combatividade de nossos escritores e a dos russos. Anna Akhmátova (1889-1966) tinha a extraordinária poesia íntima, grande patriotismo e combatividade — poderia utilizar também a gasta palavra feminismo, mas não, direi em seu lugar que ela nunca deixou de ver o mundo atráves de uma posição inteiramente feminina, sendo tal fato apenas um viés de sua originalidade.

Vi essa mulher, com meus olhos cegos.
Vi sua vontade de morrer,
um lenço diáfano de gaze
sobrevoando as pombas cansadas

Há a introdução de um violão na missa. As freiras ficam animadas. O poema de Fernando começa a me entusiasmar.

Você já viu a neve?
E o que vem a ser essa interrupção da carícia
em progressão indecente no ventre
de uma russa morta?

O poema me toma por completo e o trabalho fica esquecido num canto. Jogo o corpo para trás em postura de 100% não-trabalho. A freira do violão erra lastimavelmente… Depois dizem que o legislador, autor da punição, é sábio. Aposto que ele não previu tortura musical. Tenho sorte de consolar-me com o livro.

Ela não tem medo,
a mulher da foto do volume
que eu levo debaixo do braço
e da chuva para longe do cais,
rumo aos subúrbios do esquecimento
onde se pode dormir e, talvez,
sonhar, ó príncipe sem consolo!

Ela lê Shakespeare em russo,
Ofélia armada de audácia misturada
à suportação de indizíveis sofrimentos:
já deixou que um comissário do povo
a sodomizasse, e agora tenta se preparar
para não vomitar quando chegar a hora
de chupar o oficial de plantão.

Vi tudo isso na foto.

Como estarei de aniversário amanhã (ou hoje, 19 de agosto), penso em como seria bom se ganhasse a biografia de Anna ou mais de seus poemas, mas ninguém irá adivinhar isso. Volto ao poema e leio estes versos aterradores de Anna, citados por Fernando já na página 43.

“Há dezessete meses que eu grito
chamando-te para casa.
És meu filho e meu terror”.

Reflito que não saberei a avaliar a real grandeza do que estou lendo, que não saberei escrever um post a respeito. Penso sobre minha incapacidade poética e em como, paradoxalmente, estou apaixonado, grudado, dentro do poema. Penso que raras tive tanto prazer e curiosidade com um livro aberto à minha frente.

Ela me contou tantas histórias
de transgressores, de ladrões das estepes!
Penso que seu seio, então, já arfava
ao alcance da minha mão.
Penso no banho.
Penso na água aquecida, nos sais,
nas lavandas francesas da Rússia
voltada para o Ocidente da língua
na qual Pais e Filhos está escrito
tão elegantemente:
somos nós?

Mês passado, uma freira apareceu para falar comigo vestindo as roupas de sempre, mas com chinelinhos vermelhos adornados por distintivos do Inter. Eu garanti a ela que aquilo a fazia superior espiritualmente a qualquer outra irmã. Ela riu muito. Aliás, ri sempre que me vê. Esta é a parte boa, porém o sofrimento de Anna, da Rússia, das mulheres e da cultura ocidental me parece agora incompatível com aquele desafinado Deus pra lá, Jesus pra cá. Céus, que cantoria diabólica!

Não, não somos nós, Mãezinha
Rússia, que mais próxima está do Fiodor jogador,
do estuprador da criança de Moscou,
aquele mendigo santo que foi procurar
o pior castigo, a suprema humilhação,
a confissão do seu crime
a ninguém menos que o belo, o rico,
o aclamado Ivan Sergueivitch,
nascido no seio de uma família de alta classe de Oröl
e falecido em Bougival, nas proximidades da cidade iluminada…

Penso na liberdade do autor em buscar, viver e amar Anna Akhmátova. Volto sobre suas páginas e começo a procurar todos os versos que começam por “Vi uma foto…”. São muitos e o ritmo deles passa a sobrepujar por completo a música da missa. Sigo lendo. Acaba meu horário, bato meu ponto e volto para casa como vim, a pé. Lembro que uma vez, lendo um jornal na rua, dei de cabeça num poste. Mais exatamente num parafuso que saia do poste. Tinha uns vinte anos. Trinta e dois anos depois, lembro do inesperado sangue que pingou sobre a folha de jornal. Isto sou eu?

Vi uma foto de Anna Akhmátova…
e não a prova de que o céu a perdoou.

Fernando resolveu ter um caso com Anna. Na verdade, desde o momento em que, naquela livraria de setembro, vira sua foto, apaixonara-se por seu olhar e decidira seu Réquiem paralelo. Saiu-lhe belíssimo. Como não se apaixonar por ela, ainda mais que sei o que daquele sujeito e que não está no poema de Fernando:

Ele gostava de três coisas neste mundo:
o coro das vésperas, pavões brancos
e mapas da América já bem gastos.
Não gostava de crianças chorando,
nem de chá com geléia de framboesa
e nem de mulheres histéricas
…e eu era a mulher dele.

Dona de uma poesia simples na aparência e sem o peso de palavras desnecessárias, Anna é uma narradora que tem em Fernando um equivalente masculino. É curioso notar o quanto Anna é feminina e pessoal, ao passo que Fernando é masculino e dedicado a ela. Também está cioso de ser simples e de encontrar as imagens inusitadas e significantes que habitam a poesia de Anna.

Quando Anna começou a usar
o verbo assim corroendo
o que antes fora belo,
triste e selvagem (um passo de afronta
envolto em delicadeza),
e havia sido lícito para nós;
quando tudo foi sendo minado
no cerne da carne que se permite
um instante de incerteza,
uma quebra da quebra da interdição
posta de lado como se abandona
um pente sobre uma penteadeira;
quando isso se anunciou
na forma do pretérito,
na hesitação tardia demais,
eu me desesperei contra ela,
não podia suportar a agulha no fogo,
o gelo na cama, a mudança do tanto
que já havia mudado no nosso amor
desviado para mais do que “sensualidade”,
“luxúria”, “emoções sem freio”,
suas palavras contaminadas do veto,
desconfiadas da nossa conjunção
condenada do modo mais severo,
enquanto tudo era leve na forma
de voltarmos a ser árvore e fruto
das noites geladas de dezembro.

Chego em casa e finalizo a leitura.

Eu já estou morto e este poema é a minha alma
profana vagando em busca da amada Mãe
amante de todas as Rússias que em todos os lugares
caminham para o esquecimento nos verdes túmulos
que há muito deixaram de ser verdes
como verdes eram as aves
pelas quais pergunta o poema:
todos os pássaros cujo piar nublado
eu escutei nascendo na dobra
de uma manhã do passado,
estarão mortos?

Afirmações radicais e caso notável

1. Elisabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy são o maior casal da literatura e os diálogos de Jane Austen são tão perfeitos e significativos quanto os de Tchékhov.

2. Carro Clonado. Resolvo dar uma olhada em nossas multas de trânsito e descubro que estou limpo, limpo até demais. O site do DETRAN do Rio Grande do Sul diz que meu carro está em um depósito da cidade de Esteio (RS), vítima de um acidente. Olho pela janela e vejo o carro inteirinho ali embaixo, quieto, passivo, aguardando minhas ordens. Ligo para a cidade de Esteio e relato-lhes o fato. A resposta do atendente é simples: seu carro foi clonado, isto é, roubaram um carro com as mesmas características do seu e colocaram uma placa igual à sua nele. Para completar, o ladrão envolveu-se em um acidente. Pergunto-lhe sobre o que devo fazer e ele me diz que é para eu registrar uma ocorrência. Enquanto isto, fico andando por aí com um carro que está teoricamente detido em poder de perigosos meliantes. Eu, no caso. Interessante. Se eu for preso, mostrem este blog para os carcereiros, tá?

3. Sou um chocólatra incondicional. Como um lobo em relação a suas vítimas, posso sentir o cheiro de chocolate há quilômetros de distância. Tal percepção só aumenta quando sei que estou um pouco acima do peso ideal. E a Bárbara fica passando na minha frente com… Peraí, vou chamá-la.

4. Gozado, vi num sebo um livro do grandíssimo escritor alemão Heinrich Böll, O Anjo Silencioso. Não conhecia este. Casa Sem Dono e Opiniões de um Palhaço, ambos lidos em edições espanholas, funcionam como grandes clássicos dentro de minha tantas vezes equivocada cabeça. Nem é Páscoa e vejo Böll ser acometido de ressurreição. Folheio uns livros de Graham Greene: um enorme narrador e cronista do século passado. Houve tempo em que havia católicos relevantes. E Greene era popular. O preconceito de alguns gosta de colocar quaisquer escritores muito lidos como menores. Greene não cabe neste modelo. Dia virá em que todos elogiarão as maravilhosas novelas “sem-Maigret” de Georges Simenon, outro escritor excessivamente lido… O gato, Sangue na neve, O homem que via o trem passar… O Charlles Campos — comentarista habitual deste blog — citou-os como obras-primas. É uma afirmação radical e totalmente verdadeira.

5. Não, hoje eu não estou moderado. Cadê o chocolate que tava aqui, caralho?

O Crime e Castigo da Lya que leu mas não entendeu

O leitor André Luiz Zambom resolveu me dar uma alegria: pediu que eu lesse a última crônica de Lya Luft na Veja. Eu sou um cara obediente e logo fui à banca comprar a coisa. O título da crônica é Crime e Castigo e este fato indignou o André. Pus-me a caminhar pela rua enquanto lia Lya. Nossa, que falta de horizontes e informação, que bisonhice. Lya fala da forma mais simples que se possa imaginar sobre “nossa sociedade enferma”. Atira para todos os lados sem fixar-se em nenhum: nossas crianças não recebem educação de boa qualidade, formamos criminosos ou inúteis, os pais não lhes dão limites e são dominados pelos primeiros, os professores são cheios de falsas teorias e parecem existir apenas para enfiar ideologias nas cabeças dos pobrezinhos dos alunos, as ruas são locais de descontrolada criminalidade e há que mudar tantas leis quanto possível, precisamos de autoridade e de punições justas.

Em um momento, a autora perde aquele tom messiânico que a auto-ajuda lhe deu e parece gritar com o leitor: “Antes de mais nada, é dever mudar as leis — e não é possível que não se possa mudar uma lei, duas leis, muitas leis. Hoje, logo, agora!”. Ela tem objeções que não acabam mais, só não consegue propor nada.

É um texto indigente demais para merecer uma das melhores grifes de São Petersburgo, trata-se de uma mera exposição de lugares-comuns, é de chorar de ruim. Pretendo chegar à Raskólnikov, mas primeiro seria adequado dar uns raquetaços nos argumentos da Lya que lia e até se informava, uma dia. Lya, tu que carregas o nome do grande Celso Pedro Luft devias saber isto: aquilo que reprime o crime não é o tamanho da punição, mas a INFABILIDADE da pena, ou seja, uma justiça de braço longo e correto. A atividade criminal é tão apreciada em nosso país não pela inexistência de leis, mas pela forma obtusa, eletiva e errática com que são aplicadas. Quanto aos professores e pais: será que antes — quando os alunos eram punidos, ameaçados e até apanhavam — era melhor? Sobre a sociedade enferma: houve acaso alguma época em que ela foi considerada sã? “Sociedade enferma” é um daqueles truísmos que querem silenciar o debate. Ora, essas expressões são tão úteis quanto dizer que o governo X “não fez nada” (assim como o Y e Z), que os todos os governantes estão lá para se locupletar, que os negros agridem e roubam, que os judeus só roubam, etc. São coisas do mais baixo senso comum, ficam ridículas num texto.

Eu ainda acho que uma revista de circulação nacional devia se preocupar com a qualidade do conteúdo e chamar à razão os articulistas que espalhassem — “avalizassem” talvez fosse um verbo melhor — as tolices do senso comum. Mas, sei, é pedir demais para a Veja, cujo maior produto de venda é a confirmação das impressões que assaltam as mentes dos brasileiros médios, principalmente as paranóicas.

Crime e Castigo… Todos os alentados volumes de Dostoievski deveriam se revoltar e cair na cabeça da Lya sem ley. O que tem a ver uma das mais belas histórias inventadas por um ser humano com o lastimável texto de Lya Auto-Ajuda? Vejamos. O livro trata do estudante Rodion Raskólnikov. Ele é paupérrimo como o texto de Lya e, tal como ela, tem a certeza de que é um ser extraordinário. Acontece com muitos, só que Raskonikov age. Cheio de teorias confusas sobre a superioridade de uns sobre os outros, acha-se no direito de utilizar quaisquer meios para cumprir seu destino de grande homem. Tem sempre em mente o nome de Napoleão, cuja biografia seria a comprovação de que é preciso agachar-se, chafurdar na lama e mesmo matar com a finalidade de tomar o poder — o dinheiro, no caso de Raskolnikov. E ele resolve tomá-lo de uma agiota, uma velhinha que além de inútil ainda era um câncer social. Para fazer este trabalho de corrigir Deus, faz-lhe uma visita acompanhado de um machado, porém a coisa começou a se complicar quando a sobrinha Lisavieta chegou repentinamente e viu a tia caída num mar de sangue enquanto Raskolnikov pegava a grana. O que fazer senão matar também Lisavieta? E pimba nela também!

As motivações de Raskólnikov nada têm a ver com aquelas explicadas por Lya, mas e o Castigo do título? O Castigo é o mais curioso. O investigador Porfiri Pietróvitch tem diversas entrevistas com Rodion, que se compromete a cada conversa. Porfiri sabe perfeitamente que Rodion é o assassino, mas nega-se a prendê-lo. Na verdade, ele passa a admirar o pobre estudante e faz questão que ele se entregue. Diz-lhe várias vezes: “Estou esperando você na delegacia com a confissão dos assassinatos; não me faça prejudicá-lo. Sua pena será MENOR se você se entregar”. Bem, aqui a analogia da Lya Louca Por Punições se desmancha inteiramente. Assim como os professores e pais tentam compreender seus filhos, Porfiri vai com consideração e — por que não dizer? — amor à humanidade deste rapaz inteligente e cheio de febres e confusão. A pena é inevitável, o erro é irreparável e Raskolnikov irá para a Sibéria, mas o que Porfiri quer e aposta é em dobrar o estudante, dando-lhe de presente uma pena do tamanho que um ser humano pode suportar e não um castigo perpétuo. Há no livro tudo o que falta à crônica de Lya: compreensão, amor e respeito pelo ser humano. Piedade. Fica claro que o Castigo que Porfiri impõe a Raskolnikov é o de dobrar-se e admitir o erro, saindo do episódio como um homem melhor, sem as teorias alucinadas que justificaram o ato de matar (“Se não há Deus, tudo é permitido”). Tudo isso ocorre em diversos diálogos de fantástica qualidade e ironia. Eles são de compreensão bastante simples para qualquer leitor, apesar do subtexto.

(Estou passando por cima de personagens importantes como Sônia, Svidrigáilov, Lújin e outros para ficar só com o cerne da história).

Agora, eu pergunto: será que Lya Luft — a que diz “que só tudo piora” (não que eu ache que “tudo só melhora”) — não prejudica e confunde ao exigir Autoridade, Punições e Leis mais fortes, atribuindo a seu texto a grife de um marco de nossa cultura? Será que o castigo inteligente e interessado de Porfiri Pietróvitch serviria para a Valquíria da Vingança? Claro que não! O que há naquela crônica é um pensamento superficial acompanhado de um substrato de profunda ignorância. Pobre do Brasil que tem Lya Luft escrevendo para milhares, talvez milhões, de leitores. É de chorar.

..oOo..

A Valquíria Punitiva finaliza seu texto assim…

Muito crime, pouco castigo, castigo excessivo ou brando demais, leis antiquadas ou insuficientes, e chegamos aonde chegamos: os cidadãos reféns dentro de casa ou ratos assustados na rua, a bandidagem no controle; pais com medos dos filhos… usw.

… e tira fotos assim:

Quando o discípulo revela o mestre

A meu amigo Luiz Blasi, que adora David Oistrakh

Otto Maria Carpeaux foi um intelectual muito importante na vida cultural brasileira do século passado. Foi respeitadíssimo e com merecimento. Não apenas foi o autor de uma imensa História da Literatura Ocidental em 8 volumes, como foi importante crítico literário. Escreveu também livros de crônicas, foi colunista em revistas, enfim, teve a popularidade possível a quem de dedica seriamente à cultura; ou seja, quase nenhuma. Carpeaux tinha algo de incomum: uma infalível sensibilidade para identificar já na estreia quem se tornaria destaque literário em nosso país. Mas tantos méritos lhe davam crédito para cometer erros imensos e raros em outros lugares, principalmente na tal História da Literatura. A forma como descartou alguns escritores — como, por exemplo, Laurence Sterne — certamente lhe causa problemas póstumos.

Lá pelo final dos anos 50, Carpeaux escreveu uma Nova História da Música. É um livro utilíssimo para quem está começando a gostar de música erudita, pois traz um vasto painel cronológico da evolução da música desde a época medieval, mas é curioso como as pessoas que avançam no conhecimento do assunto, passam a rejeitar o livro como se fosse um mero Eu e a Música. E com razão. Em sua história da música, ele foi bastante agressivo com alguns compositores que detestava e muito indulgente com quem adorava. (Neste minuto, penso que minha devoção à Bach e Bartók deve-se em boa parte a ele). Sua avaliação de Tchaikovski é simples. Em mais ou menos duas páginas, Carpeaux detona o famoso russo. Tchaikovski era mau orquestrador, desrespeitava algumas convenções, “jogava fora” temas de uma forma meio incompreensível — por que Tchai não retoma o motivo das quatro notas iniciais de seu Concerto Nº 1 para Piano e Orquestra?, aquilo é um achado!

E nos anos 70 eu era um adolescente e lia Carpeaux. Por inexperiência, assumia todos os seus gostos. Como Carpeaux escrevia maravilhosamente e era inteligente, sedutor, radical na medida certa e sofisticado para a época, a leitura da Nova História parecia uma forma de criar uma ponte sobre minha vasta insegurança. Obviamente, assumi seu desprezo por Tchaikovski.

Muitas águas passaram e, anos depois, me apaixonei pela música de Shostakovich. Quem acompanha meu blog talvez lembre da série que escrevi em 2006, ano do centenário de Shosta. (A propósito, um dia juntei tudo aquilo, deu 36 folhas A4…).  Bem, mas digo isso apenas para deixar claro que eu tenho suficiente vivência com a obra de Shosta para reouvir com atenção algumas obras de Tchaikovski e cair do cavalo.

Pois hoje sei que o compositor Dmitri Shostakovich, tal como o conhecemos, não existiria sem Piotr Tchaikovski. Pois as ideias que aparecem prontas em Shosta nasceram em Tchai. Pois Shosta só pode ser tão, mas tão emocional, colorido e maluco porque Tchai fez quase o mesmo antes. Pois Tchai era o aval para Shosta ser tão expressivo e exagerado, principalmente nas Sinfonias.

Relendo muitas entrevistas de Shostakovich, li o que antes pensara ser mera manifestação de ufanismo: ele conhecia minuciosamente a obra de Tchaikovski. Grande parte daquilo que Shosta desenvolveu em suas sinfonias estão em Tchai, nas sinfonias e Abertura de Romeu e Julieta. Há ali todo um Shostakovich a ser amadurecido, ali está a alma russa e as melodias russas segundo Shostakovich. Resultado: não falo mais mal de Tchaikovski. Passou a ser, da noite para o dia, um compositor fundamental… Confiram! Ouçam a Abertura Romeu e Julieta e digam-me se não há nela um Shosta mais meloso, mais delicado. Hein? Hein? Nunca o amor de Shosta por Tchai foi tão tangível para mim antes de ouvir a citada Abertura. É um tapa na cara, é estupefaciente.

Abaixo, mostro um dos melhores vídeos de todo o YouTube. Trata-se de uma gravação do Concerto Nº 1 para Violino e Orquestra de Shostakovich. O violinista é David Oistrakh, a quem o concerto é dedicado. Há várias versões no YouTube. A que escolhi está completa, mas o que me interessa mostrar começa aos 4 minutos do vídeo abaixo (o 3º de cinco). É o terceiro movimento do concerto e seu segundo movimento lento. Começa altamente dramático e, aos seis minutos, torna-se perfeitamente tchaikovskiano,

e abaixo (1min50) começará a longa cadenza do mesmo movimento, notem a inversão em relação ao habitual: o movimento que começa arrebatado termina tristíssimo. Puro Shostakovich em continuidade a Tchai.

E aqui começa o típico finale de Shostakovich. Espetacular e emocionado como aquele Capricho Italiano.

Este concerto, como já disse, foi dedicado a David Oistrakh, o violinista desta gravação que vocês viram, se viram. Existe o registro do telefonema que Oistrakh fez para Shosta logo após a estreia. O tom da conversa é de amizade formal, respeitosa. O compositor diz que o concerto foi melhorado. David começa a se desculpar por ter acelerado aqui e ali, faz algumas perguntas, nota-se que está constrangido, que entendeu a resposta de Shostakovich como uma ironia e que aceitará a reprimenda. Ouve Shosta dizer:

— O concerto é teu, estava tudo certo, cada andamento. Eu não sabia que era tão bom, sabe? Você iluminou a partitura, ouvi coisas que não imaginara.
— Mas não incluí nada, Dmitri…
— Claro que não, David. Eu fiquei muito feliz, você entendeu a música melhor do que eu.

E deve ser verdade. Shostakovich foi um tremendo compositor, mas sabemos que o um grande executante pode fazer por uma música. Quem ouviu o vídeo pode comprovar.

(A gravação desta conversa — que transcrevi de memória sujeita a chuvas e trovoadas — é o último som que se ouve no filme de Alesandr Sokurov, dedicado a Shostakovich, Sonata para Viola).

Então, o título do post se manteve: Shosta revelou Tchai para mim e talvez para outros e Oistrakh revelou o Concerto para Violino e Orquestra a Shostakovich. Não, eu não revelei nada de Carpeaux.

A um Escritor que Amo

Quando o li pela primeira vez, foi por exigência do colégio. Tinha 14 anos e foi uma revelação. Nunca antes me deparara com nenhuma atividade que me interessasse de verdade. Não queria ser médico ou engenheiro – tinha eu 14 anos de idade… – mas poderia ser aquilo. Escreveria livros! A partir daquele, comecei a procurar outros do mesmo autor e notei como ele frequentemente citava músicas. Ora, meu pai era um homem de muitos discos, então era fácil conhecer as coisas de Beethoven, Mozart, Brahms e Bach de que ele falava. Depois, conheci Herbert Caro, que — amigo de Erico — fez-me uma relação verbal das músicas que ele ouvia repetidamente em casa, enquanto escrevia ou nos intervalos. Sabe-se hoje que Erico Verissimo deixou por escrito a recomendação de que, se quisessem lembrá-lo no futuro, não precisariam fazer grandes homenagens e discursos, bastaria reunir seus amigos e leitores “numa noite, qualquer noite” e tocar um “dos últimos quartetos de Beethoven, algumas sonatas de Mozart e qualquer coisa do velho Bach. E o resto – que diabo! – o resto é silêncio.”

Ontem à noite, fui a um concerto em homenagem aos 100 anos de nascimento de Erico Verissimo – ele nasceu em 17 de dezembro de 1905. Executou-se um quarteto de Mozart, outro de Beethoven e o esplêndido Op. 25 de Brahms. Foram apresentados por membros do Salzburg Chamber Soloists Ensemble. O fundador e regente desta orquestra é um portoalegrense chamado Lavard Skou-Larsen. Lavard é um violinista filho de mãe brasileira e pai dinamarquês e, mesmo morando desde os 4 anos em Viena, conhece a obra de Erico por influência de sua mãe. O concerto foi espetacular, com destaque para a violoncelista – e mulher de Lavard – Adriane Savytzky, para a pianista israelense Revital Hachamoff e para o entusiasmo, tesão e alegria de todos. Não houve discursos. Com fotos de Erico por todo o lado, ouvimos música. A empresa patrocinadora fez das suas apresentando um vídeo institucional, mas sabemos que sem patrocínio não tem concerto. Se todas as homenagens a Erico forem deste porte, teremos um grande final de ano em Porto Alegre.

Erico viajava muito ao exterior e costumava dizer aos que não conheciam Porto Alegre: “Moro numa cidade que tem Orquestra Sinfônica”. Para ele, isto demonstraria inequivocamente nosso tamanho, civilidade e humanismo. Tinha razão. Espero que a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre não esqueça dele.

P.S.- Esta pequena crônica foi escrita em abril de 2005. Sim, a Ospa homenageou Erico no concerto do dia 13 de setembro de 2005. O programa não foi um horror, mas também não incluiu nada que o escritor especialmente admirasse: começou com a Abertura da ópera “Fosca” de Carlos Gomes, depois veio o Concerto para Piano e Orquestra em lá menor de Schumann e finalizou com a Sinfonia nº 4 em ré menor, também de Schumann. Poderiam ter lido trechos de seus livros, apresentando as músicas depois, mas como são uns béocios, perderam a oportunidade. Uma pena.

A ignorância de Paulo Francis

Quando Paulo Francis (1930-1997) morreu, em fevereiro de 1997, provavelmente devido a um erro médico, morria com ele uma de minhas maiores diversões, que era a de procurar erros em sua coluna Diário da Corte. Todo domingo de manhã, tomava café tentando identificar seus chutes e comemorava cada bola para fora cantando os primeiros compassos da música de abertura para o futebol no Canal 100 (“Na Cadência do Samba”, de Luís Bandeira, depois rebatizada para “Que Bonito É”). Hoje minha memória já não é aquela de antes dos 40 anos e esqueço muitas coisas, mas os artigos do jornalista, cheio de referências culturais equivocadas, faziam a alegria de quem era um catálogo ambulante como eu. Fui um adolescente que lia muito e decorava as coisas sem desejá-lo, conhecia bem as obras de muitos autores que Francis citava, assim como também coisas perfeitamente inúteis: a lista de ganhadores do Nobel, o nome de cidades do interior da Mongólia ou a população de Mossoró no último censo…

Não pretendo falar sobre suas participações na TV. Via pouco os jornais onde ele fazia comentários e lembro mais de sua cara de batata inglesa ao lado de Lucas Mendes no Manhattan Connection, comentando as coisas de Nova Iorque com alguma indulgência, atacando nossas jequices e procurando polêmica, quesito em que foi um mestre. Ainda ouço seu sotaque e sua forma de falar muito própria, que continha em si boa dose de riso. A morte de Francis, ocorrida dois ou três dias após uma gravação do Manhattan, foi estranha. Quase todas as pessoas sabem que dificuldades para respirar e dores no ombro que irradiam para o braço esquerdo são prenúncio de infarto. Francis sentia exatamente estas dores há cinco dias, mas elas foram tratadas por seu médico e amigo particular, Jesus Cheddar, com uma injeção para minorar a dor.

Não simpatizava nem um pouco com Paulo Francis, mas reconheço nele um excelente cronista. Tinha texto irresistível e suas provocações — muitas vezes racistas e gratuitas — eram cuidadosa e sutilmente bombásticas. O que gostava mesmo em Francis — nascido Franz Paulo Trannin Heilborn –, era de encontrar seus incontáveis erros. Acreditava ser quase um solitário nesta arte até que, na semana passada, ganhei de presente o livro Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis de Fernando Jorge. O livro, de 1996, traz 502 páginas recheadas não apenas de equívocos espetaculares, mas – pasmem – de plágios! O livro tem o subtítulo O Mergulho da Ignorância no Poço da Estupidez… Waaal, não cheguemos a tanto. O subtítulo mostra bem o que é o livro: o estilo de Fernando Jorge é permanentemente furibundo contra Francis, o que, se por vezes lhe dá um jeito de Céline ou de Bernhard, por outras fica tão exagerado que torna-se cômico. Fico pensando na incoerência que é não conferir o que escrevia ao mesmo tempo que esmerava-se em copiar… E Fernando Jorge comprova cópias e mais cópias num tempo em que ainda não existia o Ctlr C – Ctrl V. Pô, dava trabalho copiar!

O que me interessa no livro é a constatação do quanto perdi em meu “ludus”. Muito mais importante do que ler absurdos como o fato de que Jane Austen era lésbica (não era) ou de rir sobre o fato de que Beethoven ficara indignado com Mozart em 1770 (ano de nascimento do primeiro) é a percepção de seus plágios. Com incrível erudição e minúcia, Fernando Jorge organiza o livro em seções chamadas, por exemplo, de:

— A Vida de um Plagiário (págs. 1 a 108);
— Os Plágios Intermináveis de Paulo Francis (págs. 109 a 210);
— As Intermináveis Informações Erradas de Paulo Francis (págs. 211 a 294);
— Os Erros Monumentais de Paulo Francis no Campo da Literatura (págs. 329 a 358);
— Os Impressionantes Erros do Paulo Francis no Campo da História (págs. 359 a 418).

Sim, Fernando Jorge é o rei dos superlativos.

Voltando a mim e a minha diversão, informo a vocês que fui um adolescente apaixonado pela literatura inglesa e russa. Francis o era igualmente, só que, não conferirindo o que escrevia, cometia equívocos engraçadíssimos como o já citado sobre Jane Austen — que pode ser um ataque inconsequente — ou, por exemplo, sobre o fato de Charlotte e Emily Brontë serem gêmeas (Charlotte nasceu em 1816. Emily em 1818…) ou ainda — o melhor de tudo — escrevia frases tão inconsistentes como “Poucos Escritores se interessam por animais, D.H. Lawrence é um dos raros. Seus poemas sobre bichos são extraordinários.”… Ora, ainda hoje, posso citar mais de 20 escritores iguais ou maiores que o citado David Herbert e que escreveram poemas, contos ou romances sobre e com bichos. Só na querida literatura de língua inglesa de Francis há Edgar Allan Poe, Melville, Jack London, Mark Twain, Steinbeck, Bellow, Lewis Carrol (!), Rudyard Kipling (!), George Orwell (!), T.S. Elliot (o único escritor que me fez gostar de gatos), Oscar Wilde, etc. só para citar os primeiros que me ocorrem. E este gênero de afirmativas era feito a cada coluna.

Em minha opinião, além da truculência, há um grande problema no livro de Fernando Jorge. Ele não explora um notável filão: o da música erudita. Era o que mais me deixava feliz. O terreno ultraperigoso da música erudita não permite amadorismos; aqui não tem jeito, ou percorremos um longo e prazeroso aprendizado ou é melhor não se aventurar a escrever a respeito. São necessários anos de vivência auditiva — e de outras vivências — antes de partir para os comentários ambiciosos. Por isto, há tantos comentários “poéticos”, que fazem referências a sentimentos sugeridos pela música e que não conseguem estabelecer vínculos com outras obras. Porém, o que não faltava a Francis era coragem. Seus comentários sobre as sinfonias de Haydn me causavam, machadianamente, frouxos de riso. Há uma pequena obra sensacional de Peter Gammond traduzida no Brasil. Este livro, O Manual do Blefador de Música Erudita ensina-nos, em apenas 100 páginas, a simular profundos conhecimentos de música erudita. É engraçadíssimo e Francis deveria lê-lo para não relacionar Haydn à angustia, coisa que gostava de fazer. Francis, durante um período, dedicou-se, sabe-se lá porque motivo, às sinfonias de Haydn. Era uma pândega. Cito Gammond de memória: “Haydn seria tão grande quanto Mozart se não tivesse sido tão irremediavelmente feliz… Só no final de sua vida, ao ser obrigado a cumprir prazos para entregar suas últimas sinfonias ao empresário e violinista Salomon, é que notamos aquela pitadinha de drama que lhe faltava. Mesmo assim, é quase nada. Suas Missas e Oratórios, por exemplo, são festas de cabo a rabo. Qualquer tristeza dura pouco. Nunca esquecer que ele viveu muito e foi professor de Mozart e Beethoven”.

Realmente, não detesto a “bicha amarga” (*), como Caetano Veloso o chamou. Sinto sua falta. Comparados com ele, os Mainardi e os Reinaldo de Azevedo da vida são um saco, pois para arriscar-se e chocar é preciso ter talento. Ator medíocre transformado em temido crítico teatral, romancista médio transfigurado em leonino crítico literário, Francis era notável provocador e hábil “parodista”.

O livro: Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis, de Fernando Jorge. Geração Editorial, 1996, 502 páginas. Acaba de sair uma nova edição.

(*) A propósito, Hélio Fernandes, que foi amigo-inimigo de Francis por longos anos, revela: “Paulo Francis adora falar em sexo, mas deveria ser a última pessoa a falar a respeito porque nesta matéria ele é rigosamente invicto, nunca praticou sexo nem de um lado nem de outro. Ele é o que se chamava na Segunda Guerra de não-beligerante”. Pô, o Caetano também não acerta uma!

Machado de Assis

Hoje, faz cem anos que Machado de Assis morreu em sua casa, no bairro de Cosme Velho, Rio de Janeiro.

Aos que lerem os artigos dos cadernos de cultura, reforço o alerta antecipado por Sérgio Rodrigues neste post: o risco de enfado é grande.

Aproveite a noite para (re)começar um de seus cinco últimos romances ou para a leitura de um conto. Creio que Machado não ficaria incomodado se a leitura fosse acompanhada de um espumante.

Feira do Livro de Porto Alegre: Charles Kiefer é o patrono

Sem dúvida, a melhor escolha. Os outros quatro da lista final eram Carlos Urbim, Jane Tutikian, José Clemente Pozenato e Juremir Machado da Silva. Num estado que se ufana de ter muitos autores, mesmo que a esmagadora maioria nunca devesse ter escrito uma linha e nem tenha a compreensão interna dos motivos que os levam a nos torturar com seus escritos, Kiefer é uma cara de trinta livros de vários gêneros, que escreve muito bem e que tem uma oficina de literatura onde se empenha-se e incentiva a formação de novos autores.

Enfim, voltamos a ter um escritor de ampla cultura como patrono. (Já tivemos outro assim? Não lembro, mas espero que sim!) Além de sua produção literária, Charles Kiefer é um sujeito que pode sair por aí falando sobre Shostakovich e Tchékhov, Raymond Carver e Guimarães Rosa, sempre com fluência, amor pelas coisas e vontade que as pessoas se juntem a ele. Uma pessoa rara e uma escolha mais ainda, pois ele — um cara de esquerda e dono de humor bastante ácido — não me parece ser dado à compra de simpatias representativas de canais competentes. Uma boa surpresa.

Bloomsday

Agora, na volta da UTI (ver post abaixo) lembrei que hoje é o Bloomsday.

Desesperado para unir-me à comemoração, faço meio que uma transcrição — com muitíssimas alterações — do texto da Wikipedia.

O Bloomsday é um feriado comemorado em 16 de junho na Irlanda em homenagem ao livro Ulisses, de James Joyce. É o único feriado em todo o mundo que um país dedica a um livro de ficção, excetuando-se a Bíblia.

O Bloomsday é festejado pelos amantes da literatura em qualquer lugar ou língua. Trata-se de uma iniciativa dos leitores de Ulisses e admiradores da literatura de Joyce. Anualmente, eles relembram os acontecimentos vividos pelos personagens de Ulisses por dezenove ruas da cidade de Dublin.

James Joyce

Ulisses relata a “odisséia” do personagem Leopold Bloom durante 16 horas do dia 16 de junho de 1904. Há controvérsias sobre quando o Bloomsday começou a ser comemorado. Alguns especialistas indicam 1925, três anos após o lançamento do livro, a década de 1940, depois da morte de James Joyce, enquanto a hipótese mais aceita indica é que foi em 1954, na data do quinquagésimo aniversário do dia retratado em Ulisses.

Joyce escolheu o dia 16 de junho para ser imortalizado em sua obra porque foi nesse dia que manteve relações sexuais com sua futura companheira Nora Barnacle, à época uma jovem virgem de vinte anos, apesar de a imprensa irlandesa publicar que nesse dia eles apenas “caminharam juntos” pela primeira vez. Na verdade, Nora teve medo de completar o coito e o masturbou “com os olhos de uma santa”, como Joyce relatou em uma carta em que relembrou o acontecido.

James Joyce Piano

É sempre bom lembrar aos tementes a Joyce que Ulisses não é apenas aquele livro de erudição quase inalcançável que afasta algumas pessoas, o romance também é divertidíssimo e perfeitamente compreensível. As minúcias e a complexa teia de referências são importantes, mas podem permanecer semi-entendidas sem esfacelamento de sua essência. Prova de que o mais puro ludus nem sempre está associado à compreensão cabal.

Hoje é o dia de comemorar o duro, engraçado, divertido, pornográfico, sexual e erudito livro de Joyce. Lembremos de Leopold Bloom, de sua mulher Molly, de Stephen Dedalus e de Buck Mulligan. (Lembro agora do final absolutamente arrepiante de Ulisses.) Era isso.

P.S.- O Odisséia Literária, de Leandro Oliveira, faz, como sempre, a comemoração mais completa e adequada.

Thanks, Mr. Roth

Philip Roth Douglashealeyap4601Michel Laub escreve e repete que Austerlitz, de W. G. Sebald (1944-2001) é o lançamento de ficção do ano, mas não sei não. No dia 20 de junho chega Fantasma sai de cena (Exit Ghost), romance de Philip Roth (1933) que marca a despedida de seu personagem e alter ego Nathan Zuckerman. Qualquer livro de Roth é um acontecimento pois trata-se de um dos romancistas mais importantes em atividade — talvez o mais importante –, só que este Fantasma adquire contornos especiais que vão além da despedida de um personagem que o acompanha desde 1979 ou nove romances.

É que a obra serve de epitáfio (expressão da Bravo) para a geração de escritores intelectuais cujos livros pautavam o debate cultural americano e que foram substituídos, como no mundo inteiro, por nenhuns. Esta geração possui ainda vivos Gore Vidal e John Updike e perdeu recentemente o imenso Saul Bellow e o nem tanto Norman Mailer. O romance vai direto ao ponto ao perguntar sobre quando houve a separação entre tais escritores e seu país. Roth apresenta um Zuckerman aos 71 anos, lutando contra uma incontinência urinária resultante da retirada da próstata e impotente, vivendo num mundo incompreensível, afastado de si e que dele prescinde. Amy Bellette, outra personagem de Roth que está em vários romances, diagnostica a cultura de fácil digestão e o culto à celebridade como culpados, mas parece que Roth não aceita apenas esta conclusão “simples” e avança sobre o jornalismo cultural e sobre a própria geração de grandes escritores, que não soube enfrentar a nova situação e que, de certa forma, tornou-se vítima dela ao manter-se deslocada e crítica.

Sabemos que os romances que analisam quaisquer decadências possuem indiscutível charme. Dei-me conta disso desde a leitura de Os Buddenbrook há mais de 30 anos. As grandes obras literárias raramente são otimistas ou felizes e até na vida pessoal há certo encanto quando vemos, por exemplo, os amigos de nossa ex esforçando-se para nos olhar bem e quem nos acompanha para depois irem embora como se não nos conhecessem. A decadência é um olhar de conhecimento, desconfiança e nostalgia ao passado e de rejeição ao presente que quase todo literato adora. E é tanto o retrato da decadência metafórica quanto da física (de Zuckerman) e cultural (dos EUA) que espero ler no novo romance de Philip Roth.

O título deste post justifica-se por outros dois que escrevi sob a categoria de “O Fracasso da Literatura” e que foram recebidos com agrado por alguns e com maior ou menor hostilidade, por outros. As acusações de que estaria ficando velho por referir-me repetidamente à decadência das artes em geral são respondidas melhor por jovens ratos de biblioteca, pelos adolescentes que têm discotecas semelhantes a que eu tinha há mais de 30 anos e pelas meninas freqüentadoras das estandes de clássicos das vídeolocadoras — tão lindas, efusivas e desfrutáveis –, que me perguntam se há alguém melhor do que Bergman e Antonioni, porque já viram e sabem de cor as obras destes. Elas às vezes me chamam de “tio”… Viram? Adoro a decadência. Inclusive a minha.

Gosto literário se discute

Em 2003, respondi por escrito a um questionário cujo título era “Gosto literário se discute”. Sou um compulsivo respondedor de questionários e testes. Se, por exemplo, vejo em alguma revista um daqueles testes do tipo “Como está seu coração” ou “Descubra se você será traído por sua mulher?”, saio respondendo na hora. É claro que não resistiria a tal proposta, assim como não resisti a responder um teste sobre TPM numa revista Cláudia da minha mãe…

Não sei quem criou as perguntas a seguir.

Qual o livro que você mais relê?

“A Metamorfose”, de Franz Kafka.

E que livro relido ficou melhor?

“O Idiota”, de Dostoievski.

Dê exemplo de livros injustiçados que, apesar de muito bons, nunca foram devidamente louvados.

São tantos!:
– “Memorial de Aires”, de Machado de Assis;
“- Laços de Família” de Clarice Lispector,
– “Luzia-Homem”, de Domingos Olímpio;
– “Quatro-Olhos”, de Renato Pompeu;
– “Dona Guidinha do Poço”, de Manuel de Oliveira Paiva;
– toda a obra de Sergio Faraco e
– mais uns 100.

Cite um livro decepcionante, que frustrou suas melhores expectativas?

“Alta Fidelidade” de Nick Hornby, o filme sugeria algo melhor. Os últimos livros de Günther Grass e de João Gilberto Noll estão firmes nesta disputa.

E um livro surpreendente, isto é, bom e pelo qual você não dava nada?

“A Flor, a Carne, os Figos (sobre as mulheres)”, de Heloísa Pedroso de Moraes Feltes.

Há cenas marcantes na boa literatura. Cite duas de sua antologia pessoal.

Vou arrasar nessa: a cena em que Ivan Fiodoróvitch Karamazov conta a Parábola do Grande Inquisidor em “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoievski; e o diálogo entre Adrian Leverkühn e o diabo (Cap. 25) em “Doutor Fausto” de Thomas Mann. Há o famoso capítulo 8 deste livro, mas penso que este interesse mais a músicos e melômanos.

Há personagens tão fortes na literatura que ganham vida própria. Cite os que tiveram esta força na sua imaginação de leitor?

– Dom Quixote, em “Dom Quixote”;
– Sílvia, de “O Tempo e o Vento” (Parte III, “O Arquipélago”), de Erico Verissimo;
– Vania de “Tio Vania”, de Anton Tchekhov;
– Tristram Shandy, de “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy”, de Laurence Sterne;
– o narrador de “Opiniones de um Payaso” (trad. para o espanhol), de Heinrich Böll;
– Alejandra, de “Sobre Heróis e Tumbas”, de Ernesto Sábato;
– o Homo Faber, de Max Frisch;
– o Conselheiro Aires, do “Memorial de Aires”, de Machado de Assis;
– Anna de “O Carnê Dourado” de Doris Lessing;
– Lucien de Rubempré de “Ilusões Perdidas”, de Balzac;
– Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf; etc.

Qual o livro bom que lhe fez mal, de tão perturbador?

“Berlim Alexanderplatz”, de Alfred Döblin.

E qual o que lhe deu mais prazer e alegria

Foram tantos… Como foi pedido só um, vai lá: “Sete Novelas Fantásticas” de Isak Dinesen ou “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, escolha você!

E o que mais lhe fez pensar?

Um só? “Extinção” de Thomas Bernhardt.

Cite…

a) um livro meio chato, mas bom

“V.” de Thomas Pynchon.

b) um livro que você acha que deve ser muito bom mas que jamais leu

Apenas “Finnegans Wake”, de James Joyce.

c) um livro que não é um grande livro, apenas simpático

“Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago.

d) um livro difícil, mas indispensável

“Os Mímicos” de V.S. Naipaul.

e) um livro que começa muito bem e se perde

“Maus presságios” de Günther Grass.

f) um livro que começa mal e se encontra

“Brincando nos Campos do Senhor”, de Peter Mathiessen.

g) um livro que valha apenas por uma cena ou por um personagem, ainda que secundário

O olhar entre Sarah Woodruff e Charles Smithson em “A Mulher do Tenente Francês” de John Fowles.

Qual o início de livro mais arrebatador para você?

“A Metamorfose” de Franz Kafka.

De que livro você mudaria o final? Como?

“Crime e Castigo”. Eu deixaria Raskolnikov sem salvação.

Que livros ficariam muitos melhores se um pedaço fosse suprimido?

“Guerra e Paz”, que prescinde daquela longa tese no final (mais ou menos 50 páginas).

Que livros que não têm nada a ver com você, até contrariam algumas de suas convicções e que ainda assim você considera bons ou recomendáveis?

Eu odeio dizer que adoro os livros do fascista Céline: “Morte a Crédito”, “Viagem ao Fundo da Noite”, etc.

A literatura contemporânea é muito criticada. Cite livro (s), escrito (s) nos últimos dez anos, aqui ou no mundo, que mereça (m) a honraria de clássico (s) ou obra-prima (s).

– “O Avesso da Vida”, de Philip Roth;
– “As Confissões de Lúcio”, de Fernando Monteiro (*);
– “Afirma Pereira”, de Antonio Tabucchi;
– “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago;
– “As Horas”, de Michael Cunningham.

(*) Sou amigo de Fernando Monteiro, mas esta amizade só existe porque elogiei “Aspades, ETs, etc.”; ou seja, minha admiração por seus trabalhos antecede nosso contato.

Por falar em clássicos. Para que clássico brasileiro de qualquer época você escreveria um prefácio daqueles que incitam a leitura?

Para “Memorial de Aires”, de Machado de Assis. Tenho certeza de que seria muito convincente.

Cite um vício literário que considere abominável.

As explicações nos rodapés por parte dos autores.

E qual a virtude que mais preza na boa literatura?

Pensei muito e seria complicado de explicar, mas a virtude que mais prezo é uma certa serena ousadia encontrável em mestres como Anton Tchekhov.

De que livro você mais tirou lições para seu ofício?

Não sou escritor, mas, se fosse, diria que o mais “pedagógico” são os contos de Machado de Assis.

E que a frase ou verso que escolheria como epígrafe desta entrevista?

Ora, só pode ser….

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente na livrarias:
Preciso de todos.

Mundo Grande (Fragmento) – Carlos Drummond de Andrade

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 É sacanagem. Não conseguia sair da frente do rádio e fazer o que tinha para fazer. A Rádio da Universidade atrapalhou todo o meu dia programando a seguinte seqüência:

– J.S.Bach: Sonata em lá maior, BWV 1032, p/flauta e cravo obbligato – parece tão simples esta espetacular obra do pai de
– J.C.Bach: Sinfonia Concertante em lá maior, p/violino e cello – o Bach de Milão que criou o estilo galante, cujo maior mestre foi
– Mozart: Serenata nº 12, K. 388, em dó menor – cuja gentileza faz-nos lembrar os primeiros anos daquele jovem arrogante que reivindicava para si o título de
Tondichter (poeta dos sons) o qual chamava-se
– Beethoven: Quarteto de cordas nº 5, Op. 18, em lá maior – que nos lembra sempre espantosas obras de câmara e grandiosas sinfonias, o que nos trouxe
– Bernstein: Sinfonia nº 2, “A Idade da Angústia”, baseada em poema de Auden – sinfonia ab-so-lu-ta-men-te perfeita e que abriu espaço para um belo
– Programa Olinda Alessandrini – sobre a ignorada música erudita brasileira
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É que às vezes eles resolvem que não servirão de música de fundo. Decidem que a gente tem que ouvi-los. Aí, não dá para trabalhar.

Milton Ribeiro entrevista P.Q.P. Bach

A fim de inaugurar este espaço, convidamos o Sr. P.Q.P. Bach para uma entrevista. P.Q.P. é o fundador do blog coletivo homônino que bate repetidos recordes de audiência divulgando algo bastante impopular: a música erudita. Foi complicado conseguir que ele se aproximasse de nosso microfone, pois teme o assédio da imprensa internacional sobre si. Já os brasileiros, com sua indiferença ao tipo de música que PQP ama, não são tão temidos. Mesmo assim, suas exigências foram extremas. Além do grupo chinês de ursos pandas equilibristas, ele fez absoluta questão de sua voz fosse filtrada, transformando-se em outra coisa – ou, melhor dizendo, transformando-se numa coisa.

Deu certo e a voz do filho do mestre manteve apenas o carregado sotaque tedesco, mantendo-se razoavelmente digna. Porém, o filtro tornou minha voz inteiramente gay. Se tal voz não exprime minha verdadeira opção, o fato de colocar à disposição o podcast demonstra a falta de preconceitos que norteia as atitudes deste autor. Também o filtro incluiu um certo ruído que não conseguimos retirar e que dá um colorido especial à grande entrevista.

P.Q.P. Bach fala sobre música, sobre seus parceiros de blog, reclama dos wagnerianos, das perguntas e, ao final responde ao famigerado Questionário Proust.

Ouça a entrevista na íntegra clicando abaixo (aproximadamente 20 minutos):

Milton Ribeiro entrevista P.Q.P. Bach