Louis-Ferdinand Céline, os 120 anos do brilhante escritor antissemita

Louis-Ferdinand Céline, os 120 anos do brilhante escritor antissemita

Publicado pelo Sul21 em 1º de junho de 2014

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Céline: censura póstuma oficial

O fato de um escritor tão imenso quanto Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) ter sido um antissemita dos mais abjetos sempre foi, no mínimo, perturbador. Em 2011, quando completou 50 anos de morte, Céline recebeu uma curiosa “des-homenagem” oficial. O Ministro da Cultura da França, Frédéric Mitterrand, retirou o nome de Céline das Célébrations Nationales. O motivo era o de sempre: “o antissemitismo virulento” do escritor e seus desprezíveis panfletos. O Ministro afirmou que apesar de seu talento, “não se deve esquecer o homem que fez a apologia do assassinato de judeus durante a ocupação. Não é digno que a República o celebre”. Um intenso debate seguiu-se e o Ministro afirmou que a retirada consistia numa moção de repúdio.

O professor emérito da Sorbonne, Henri Godard, ficou indignado: “É uma forma de censura. É perfeitamente possível distinguir os dois Céline: o grande escritor e o antissemita. O ato não constitui numa reparação às vítimas do antissemitismo, só as transforma em culpadas involuntárias de um ato de censura a um excepcional escritor”. Frédéric Vitoux, da Academia Francesa e biógrafo de Celine, afirmou que remover o nome de Céline de um catálogo é tão bobo quanto o fato de Stalin ter apagado das fotos oficiais os líderes comunistas de quem não gostava. “Isso não contornará o fato de que Céline foi um escritor genial, traduzido inclusive em hebraico. O que fazer, devemos queimar a tradução hebraica de Viagem ao Fundo da Noite?”.

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O escritor viu seu asilo na Espanha de Franco impedido por de Gaulle.

Amado e odiado, Céline é uma glória das letras europeias. Em 1950, foi julgado e condenado pela Repú­blica Francesa a um ano de prisão e a pagar 50 mil francos de multa. O governo confiscou cerca da metade de seus bens. O escritor ficou proibido de votar e ser votado, de portar armas e pleitear cargos públicos e não podia trabalhar em jornais, escolas e bancos. Quando a Segunda Guerra acabou, Céline pediu asilo a Franco, mas de Gaulle impediu pessoalmente que o ditador espanhol o recebesse, dizendo a Franco que tal asilo atrapalharia as relações diplomáticas e comerciais entre os dois países.

Nesta semana, ao completar 120 anos de nascimento, as homenagens a Céline partiram mais dos países de língua inglesa do que da França. Mas por que Céline é importante? Porque, na primeira metade do século passado, numa época em que os escritores e compositores experimentalistas tornavam suas obras mais e mais impenetráveis, Céline renovava a literatura utilizando-se da língua falada. É claro que a expressividade de Céline era muito estilizada, tratava-se de uma linguagem fabricada, mas o gosto pelas expressões orais e populares faziam parte de seu projeto, mesmo que seus temas fossem tão pouco seculares quanto a morte e a guerra. Suas posições políticas e opiniões não se fazem presentes em seus romances, apenas nos panfletos.

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Amor às reticências. Um pontilhista como Seurat e Signac…

Seu primeiro romance foi o citado Viagem ao Fundo da Noite.  A “viagem” é a aventura que se vive até a morte certa. Seu segundo romance, chama-se Morte à Crédito.

Quando se abre um livro de Céline, em qualquer página, toma-se um susto. O escritor simplesmente adorava as reticências. Suas páginas estão cheias delas, ao lado de uma linguagem fácil e fluida, raivosa e debochada. “As reticências arejam a frase”, dizia. A impressão que se tem é a de que o escritor raramente finaliza suas frases… Ele mesmo brincava que era pontilhista como os pintores Seurat e Signac. Já os estudiosos de sua obra garantem que a linguagem simples era resultado de uma elaboração rigorosa. Ou seja, ela parece simples, porque calcada na linguagem oral, mas é finamente elaborada. A tradutora Rosa Freire d’Aguiar anota: “Desde seu romance de estreia, Viagem ao Fim da Noite, de 1932, Céline forjou uma língua própria, incorporando gírias, corruptelas e palavrões, criando onomatopeias, elipses, rimas e neologismos”.

Seu estilo é raivoso e requer estômago forte. Por exemplo, a descrição que ele faz de uma viagem de barco em Morte à Crédito (1936) é algo inacreditável. O barco começa a jogar de um lado para outro e Céline não recua ao descrever a verdadeira epidemia de vômito que acomete os participantes. Não é um escritor que evite descrições por pudor.

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Herói e inválido na Primeira Guerra Mundial.

Nascido em 1894 em Courbevoie, periferia de Paris, em uma família de classe média baixa, Céline recebeu uma instrução escolar convencional antes de se incorporar ao exército francês em 1912, durante a primeira Guerra Mundial. Por ter levado a cabo uma missão de reconhecimento arriscada no setor de Ypres (Flandres Ocidental), foi condecorado como Herói de Guerra. No conflito, sofreu ferimentos na cabeça que lhe deixaram um zumbido recorrente no ouvido. Foi declarado inválido de guerra.

Depois, em 1916, esteve em Camarões trabalhando numa empresa francesa de madeiras. Retornou à França no ano seguinte. Trabalhou também numa fábrica de automóveis, enquanto começava o curso de Medicina. Em 1919 casou-se com Edith Follet, filha do diretor da Escola de Medicina de Rennes. Em 1920 nasce a sua filha Colette e dois anos depois Céline recebe a licenciatura em Medicina, tendo por tese um trabalho sobre o médico Ignaz Philipp Semmelweis.

Semmelweis em 1858, tese lida até nossos dias
Semmelweis em 1858. A tese de Céline é lida ainda em nossos dias

Esta tese é pura literatura e está publicada no Brasil, em livro da Companhia das Letras. É um relato espantoso e envolvente sobre a perseguição sofrida por Semmelweis pelo simples fato de ele ter sido o médico que tentava introduzir o ato de lavar as mãos e a esterilização de instrumentos e utensílios antes de quaisquer operações cirúrgicas. As estatísticas mostravam que seus pacientes morriam menos, mas a novidade era tão incompreensível para a época que o húngaro Semmeweis (1818–1865) só podia estar brincando ao fazer pouco da habilidade de quem fazia os procedimentos sem lavar as mãos.

O húngaro constatou que, quando se obrigava os médicos obstetras a lavarem as mãos antes de se aproximarem das parturientes, a proporção de infecções caía de 30% para menos de 1%. Vítima da hostilidade e da zombaria dos círculos médicos, Semmelweis foi expulso do hospital, teve de deixar Viena e acabou não somente alijado do mundo científico como internado num hospício… Tornou-se o primeiro grande personagem de Céline. A repercussão da tese de Céline, que não continha nenhuma novidade, ultrapassou muito o campo da medicina.

A morte, portanto, está presente na obra de Céline desde sua tese. Na verdade a morte já estava em sua vida desde a Primeira Guerra Mundial. Céline disse que tinha matado uma dezena de pessoas no conflito e que aquilo o afetava. Talvez tenha sido para aliviar a própria dor que Céline começou a escrever, o que acabou dando origem ao seu primeiro e melhor romance: Viagem ao Fundo da Noite.

Viagem narra a história de Ferdinand Bardamu, que luta na Primeira Guerra Mundial, envolve-se em uma empreitada de colonização na África, trabalha na linha de montagem da Ford nos Estados Unidos e termina em um subúrbio pobre de Paris, trabalhando em um manicômio. O romance é um grande retrato da loucura, mas da loucura não de um homem só, mas de toda a sociedade. Os caminhos de Bardamu reproduzem a própria história da França no começo do século passado, ingressando numa guerra genocida onde ninguém poderia ganhar, num projeto colonial e numa industrialização desumana ao estilo norte-americano da época… Não é casual que pareça que estamos recontando a biografia de Céline. Assim como seu alter ego, o escritor não guardava boas lembranças de nenhuma de suas experiências.

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“O amor é o infinito ponto fora do alcance”

O romance é dividido em duas partes. A primeira refere-se à descoberta de um mundo onde a paz e o amor entre os povos parecem impossíveis — por todo lado há homens explorando-se uns aos outros.  A segunda parece um prolongamento íntimo do primeira, notavelmente bem escrito. Serve para confirmar que o amor é impossível. Aqui, Céline examina a vontade de dominação e dependência nas relações amorosas. O romance desloca-se do social para o particular a fim de demonstrar que, de forma geral, “o amor é o infinito ponto fora de alcance”.

Morte a Crédito é tão autobiográfico quanto Viagem, só que voltado à infância do escritor. Como Céline, o protagonista também é um médico que descreve suas experiências no subúrbio da capital francesa, atendendo pessoas pobres. Com acidez, o narrador demonstra sua descrença a respeito de tudo. (Talvez seja importante citar que Céline, como médico, era amado por seus pacientes, sendo considerado um modelo de bondade e dedicação). Porém, a descrição de seus pacientes e parentes — dos quais recebia quantias miseráveis — é tão ressentida e permeada pelo ódio que se torna hilária. Todavia, num certo ponto da narrativa há uma ruptura e recuamos no tempo, dirigindo-se para a infância do escritor. O leitor, então, é levado à casa de Céline e de sua família. A vida era complicada. O pai trabalhava numa empresa de seguros e é um homem sem perspectivas e energia. A mãe mantinha a lojinha da família, enquanto a avó vive da renda de alugueis que quase não recebe e os tios não possuem um emprego fixo. Ou seja, todos sofrem com a falta de dinheiro. A narrativa é primorosa na descrição dos sentimentos humanos envolvidos.

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Um médico e escritor obcecado pela catástrofe

Mas, ao lado destes romances e de Norte, há os panfletos. O primeiro é Mea Culpa, onde manifesta seu desencanto com o comunismo. Depois vieram os políticos… A pedido do autor, Bagatelas para um massacre, A Escola dos cadáveres e Bonitos os Panos nunca foram reeditados. Dos panfletos antissemitas, apenas o célebre Vão Navios Cheios de Fantasmas pode ser lido.

O ensaísta Dau Bastos frisa que Céline “fez da escrita uma briga só” e nota que “ele mostrou-se tão obcecado pela catástrofe que a ela submeteu seu próprio texto”. Já Simone de Beauvoir confessa que chegou a saber de cor algumas das páginas de Viagem ao Fundo da Noite. O universo de Céline, que nos fala de desastres e das ruínas humanas, foi desfeito após a Segunda Guerra. E ele terminou sua vida exercendo a profissão de médico e não a de escritor em Meudon, no ano de 1961, sentindo a medicina como sua verdadeira vocação e a escrita como um acidente.

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A Sala Sinfônica da Ospa, ontem, 05/11/2014, às 16h

A Sala Sinfônica da Ospa, ontem, 05/11/2014, às 16h

Pedi para o repórter fotográfico do Sul21, Ramiro Furquim, que, quando tivesse tempo, desse uma passadinha pelas obras da nova Sala Sinfônica da Ospa. Ele foi visitá-la ontem. Os moradores que aparecem nas fotos estão do lado de fora do espaço. Dentro, uma obra paralisada, árvores e grama. Ninguém estava trabalhando. O zelador disse que a obra estava embargada.

Isto não é uma reportagem. É um post de um blog que documenta a situação atual.

.oOo.

Acabo de receber o seguinte comentário, vindo do leitor Paulo Augusto (@pacdesouza):

O GOVERNO INFORMA
Atualizado em 09 SET, 2014
Foram encontradas divergências entre o que foi executado e o que estava previsto no projeto estrutural da obra. Em virtude dessa situação, a concretagem dos elementos estruturais não foi autorizada. A Simon Engenharia, empresa responsável pelo projeto estrutural, elaborou uma proposta técnica, com o objetivo de apresentar as soluções para as discrepâncias encontradas no levantamento topográfico. A previsão de conclusão dos serviços de reforço estrutural é até o dia 19/09.

Por Ramiro Furquim/Sul21
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Milton messiânico

Salomão
Salomão, meu colega do Eclesiastes

Milton Ribeiro ergue-se e diz, em tom bíblico:
(Milton, Capítulo 11, Versículos de 6 a 9).

Em verdade lhes digo que os ignorantes sempre querem ensinar, enquanto os sábios querem aprender. Os ignorantes falam, os sábios perguntam. Com as respostas, surgem novas perguntas e isso não acaba nunca.

Em verdade lhes digo que a ignorância gera certezas; a sabedoria, dúvidas.

Meu colega Salomão, o do poema Eclesiastes, dizia que “no acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza”. Eu discordo, acho que a sabedoria gera ceticismo, mas também não li o Eclesiastes inteiro para saber de seu exato contexto.

E sento-me para trabalhar, irmãos. Porque, se não o fizer, estarei fodido e mal pago.

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Uma resenha cheia de dedos: a Ospa, a Sinfonia Concertante de Mozart e a 3ª de Schumann

Uma resenha cheia de dedos: a Ospa, a Sinfonia Concertante de Mozart e a 3ª de Schumann
Um chocolatinho.
Um chocolatinho.

Além de eu gostar muito da obra, tenho uma ligação pessoal com a Sinfonia Concertante para Violino e Viola, K. 364, de Wolfgang Amadeus Mozart.

A primeira e mais simplória das ligações é a ex-tra-or-di-ná-ria obra-prima de Peter Greenaway Afogando em Números (Drowning by Numbers, 1988). A cada um dos afogamentos é tocado o segundo movimento (Andante). O filme é esplêndido. Sério: vi-o mais de cinco vezes. Até hoje tenho vontade de decorar as falas dos personagens.

A segunda é o fato de eu ter escrito uma novela tendo por tema a Sinfonia Concertante. O Violista — lá de 2006, 2007 — conta os dramas de um instrumentista antes de um importante concerto. Sei lá, é divertido.

Mas a mais profunda ligação deu-se depois, em 2012. No dia 19 de agosto, sempre um dia glorioso, ganhei de presente de aniversário uma interpretação do Andante em minha casa, executada por Elena Romanov (violino), Vladimir Romanov (viola) e Alexandre Constantino (piano). Fiquei comovidíssimo com o presente — ideia de Elena após ler a citada novelinha –, mas, no dia seguinte, tomei um susto ao lembrar que a peça refletia o impacto que teve, em Mozart, a morte de sua mãe. Explico duas coisas: (1) na época, minha mãe estava muito mal — faleceu em 31 de outubro daquele ano — e (2) absolutamente nada fazia prever que Elena se tornaria minha namorada. Eu era amigo de uma mulher linda e inteligente e gentil e de humor peculiar. Com intenções nulas, nada indicava um futuro com ela.

Então, voltando, digo-lhes, meus sete fiéis leitores, que a Sinfonia Concertante é uma peça que conheço profundamente. Para muitos, esta peça é o maior dos concertos para violino de Mozart, superando os cinco oficiais. E digo-lhes que não ouvi ainda gravação melhor do que a da dupla sueca Bernt Lysell e Nils-Erik Sparf, feita para a Bis. Se Mozart é o compositor da leveza e da ousadia, Lysell e Sparf acertaram em cheio no tom utilizado. Não é uma gravação pretensiosa e sem erros, é apenas muito musical.

O programa de ontem da Ospa tinha a Sinfonia concertante para violino e viola, de Mozart e a Sinfonia Nº 3, de Robert Schumann. Os dois solistas — Emerson Kretschmer (violino) e novamente Vladimir Romanov (viola) –, da Concertante não costumam postar-se diante do público, normalmente há um maestro entre eles e o povão. Um é spalla dos violinos e outro das violas na Ospa.

E, bem, sabem? Como direi?

É o seguinte: sinto-me impedido de elogiar ou detonar o Mozart de ontem. O violista é o ex-marido de minha namorada e qualquer posicionamento poderia ser interpretado MUITO criativamente. Tenho opinião, sim, mas preferiria enviar um sincero Cartão de Agradecimentos e a caixa de chocolate que ornamenta este post a ele. Afinal, ele foi um dos que provocou a virada mais feliz de minha vida. Como iria reclamar dele ou fazer-lhe um elogio que poderia soar protocolar como uma conversa entre dois embaixadores de nações inimigas? Não quero confusão. E mais não digo.

O primeiro movimento (Allegro maestoso) é lindíssimo e não chega a ser surpresa que George Balanchine tenha coreografado um famoso balé para esta música em que o papel dos solistas é mais de uma conversa entre si e não com a orquestra em geral. É interessante notar que a voz de Mozart seria a da viola. O compositor adorava tocar viola em quartetos de cordas, gostando de estar “no meio”, se me entendem.

A grande “ária” do Andante realça a diferença da sonoridade entre o som de violino e o da viola. É da beleza deslumbrante da peça: é como se o violino fizesse um lamento, sendo consolado pela viola. A alegria do 3º movimento faz-lhe intenso contraste. É um belo concerto e foi bem melhor do que a soporífera execução da Sinfonia Nº 3 de Robert Schumann.

Um músico da orquestra me disse que faltou a linha curva, a surpresa, a abertura de uma garrafa de champanhe. Também disse que a obra do marido de Clara Wieck parecia um carro 1.0 subindo lotado a Lucas de Oliveira. Concordo! Foi opaco, para dormir.

O programa:

Wolfgang Amadeus Mozart: Sinfonia concertante para violino e viola K. 364
Robert Schumann: Sinfonia n° 3

Regente: Tiago Flores
Solistas: Emerson Kretschmer (violino) e Vladimir Romanov (viola)

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Noites Brancas

Noites Brancas
Masaaki Miyazawa, Once Upon a White Night, September 15, 1981
Masaaki Miyazawa, Once Upon a White Night, September 15, 1981

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Bom dia, Abel Braga (veja os gols de Santos 1 x 2 Inter)

Bom dia, Abel Braga (veja os gols de Santos 1 x 2 Inter)
Abel Braga: o bom jogo merecia três pontos
Abel Braga: vitória sem convencer

Na semana passada, atrapalhado pelas eleições, deixei passar em branco nossa vitória contra o Bahia por 2 x 0 no Beira-Rio. Gostaria de dizer que Alan Patrick, a quem detesto como jogador de futebol, jogou muito bem. Todo o time esteve bem no primeiro tempo, depois foi aquilo de novo, mas o Bahia era fraco e ganhamos.

Já ontem, Abel, a sorte nos sorriu desavergonhadamente. Teu time até que jogou bem após o primeiro gol de Aránguiz — por sinal, belíssimo, com um passe embasbacante de D`Alessandro e conclusão perfeita do chileno –, mas depois caiu lamentavelmente. Para manter a tradição, tu enfiaste os pés pelas mãos: como o time sempre piora no segundo tempo, após tua preleção, tiraste o Dale (?) para colocar Wellington Paulista (?) como armador pelo lado direito, mesmo tendo Valdívia no banco. Tu és um brincalhão, né? Teu humor canhestro voltou a se manifestar quando retiraste Alan Patrick para colocar mais um volante, Bertotto, chamando o Santos para o nosso campo. O Peixe empatou e cansou de perder gols antes e depois do segundo gol de Aránguiz. Viste a cobrança dele? Craque, enfiou bem onde a barreira abriu.

O jogo de ontem poderia ter tido qualquer resultado. Nossa vitória foi pura loteria. É inacreditável que estejamos em terceiro lugar no Brasileiro. O nível técnico de nosso maior campeonato é 7 x 1 para a Alemanha.

É essa minha esperança para o Gre-Nal: a qualidade de nossos jogadores. Espero que Dale, Aránguiz, Alex e Nilmar façam a diferença. Pois nossa defesa perdeu todas as bolas altas e é claro que Felipão tratará de passar a tarde do próximo domingo erguendo bolas sobre a nossa área. Mas confio nos jogadores, Abel.

Sabes? Acho tu estás ficando meio doido. Aquelas declarações sobre ganhar do Santos após 100 anos não apontam exatamente na direção da sanidade mental. Se somarmos isso as substituições malucas…

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Porque hoje é sábado, Cecil Baldewyns ou Cecil B

Porque hoje é sábado, Cecil Baldewyns ou Cecil B

Seleção de fotos: Cristóvão Crochemore Restrepo

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Há espaço para tudo no mundo.

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A escolha do Cristóvão não fala diretamente a meus instintos

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mais primitivos, digamos assim. Mas fala aos mais sofisticados

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(na medida do possível para um Milton Ribeiro)

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e fazem pensar. São belos registros de um corpo que não parece ter nada

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de incomum, sarado, siliconado ou fotochopado.

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Uma vez, perguntaram para Monica Bellucci qual era o segredo de sua duradoura beleza.

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A resposta de grande deusa e patrona de nosso PHES foi sensacional:

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“Uso photoshop todo dia”.

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Pois nossos corpos são bem assim — comuns, marcados, carentes de perfeições.

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Mas como torna-se impecável e maravilhoso o corpo da pessoa que amamos

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movendo-se em nossos braços!

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Onde encontrar, em cada ser, o fragmento que dá raiz

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a nosso desejo?

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É isso que perguntaria hoje ao Cristóvão, se estivéssemos numa mesa de bar.

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Da coragem para não se dobrar: Jordi Savall recusa o Prêmio Nacional de Música da Espanha

Da coragem para não se dobrar: Jordi Savall recusa o Prêmio Nacional de Música da Espanha

O pioneiro da música antiga com instrumentos originais Jordi Savall não aprecia muito as políticas de cultura do governo espanhol e, na carta abaixo, acusou Madrid de “dramático desinteresse e incompetência na defesa e promoção das artes e de seus criadores”. O prêmio dava 30 mil euros e grande prestígio. Jordi, 73, não se vende.

Jordi-SAVALL30 de octubre de 2014

Sr. José Ignacio Wert
Ministro de Educación, Cultura y Deportes
Gobierno de España

Distinguido Sr. Wert,
Distinguidos Señores del Jurado del Premio Nacional de Música 2014,

Recibir la noticia de este importante premio me ha creado dos sentimientos profundamente contradictorios y totalmente incompatibles: primero, una gran alegría por un tardío reconocimiento a más de 40 años de dedicación apasionada y exigente a la difusión de la música como fuerza y lenguaje de civilización y de convivencia y, al mismo tiempo, una inmensa tristeza por sentir que no podía aceptarlo sin traicionar mis principios y mis convicciones más intimas.

Lamento tener que comunicarles pues, que no puedo aceptar esta distinción, ya que viene dada de la mano de la principal institución del estado español responsable, a mi entender, del dramático desinterés y de la grave incompetencia en la defensa y promoción del arte y de sus creadores. Una distinción que proviene de un Ministerio de Educación, Cultura y Deportes responsable también de mantener en el olvido una parte esencial de nuestra cultura, el patrimonio musical hispánico milenario, así como de menospreciar a la inmensa mayoría de músicos que con grandes sacrificios dedican sus vidas a mantenerlo vivo.

Es cierto que en algunas contadas ocasiones he podido beneficiarme, a lo largo de más de 40 años de actividad, de alguna colaboración institucional: la celebración del V Centenario del descubrimiento de América, las pequeñas ayudas a giras internacionales y recientemente las invitaciones del Centro Nacional de Difusión Musical a presentar nuestros proyectos en Madrid. Pero igual que la inmensa mayoría de músicos y conjuntos del país, he seguido adelante solo con mi esfuerzo personal sin contar jamás con una ayuda institucional estable a la producción y materialización de todos mis proyectos musicales. Demasiado tiempo en que las instancias del Ministerio de Educación, Cultura y Deportes que usted dirige continúan sin dar el impulso necesario a las diferentes disciplinas de la vida cultural del Estado español que luchan actualmente por sobrevivir sin un amparo institucional ni una ley de mecenazgo que las ayudaría, sin duda alguna, a financiarse y a afianzarse.

Vivimos en una grave crisis política, económica y cultural, a consecuencia de la cual una cuarta parte de los españoles está en situación de gran precariedad y más de la mitad de nuestros jóvenes no tiene ni tendrá posibilidad alguna de conseguir un trabajo que les asegure una vida mínimamente digna. La Cultura, el Arte, y especialmente la Música, son la base de la educación que nos permite realizarnos personalmente y, al mismo tiempo, estar presentes como entidad cultural, en un mundo cada vez más globalizado. Estoy profundamente convencido que el arte es útil a la sociedad, contribuyendo a la educación de los jóvenes, y a elevar y a fortalecer la dimensión humana y espiritual del ser humano. ¿Cuántos españoles han podido alguna vez en sus vidas, escuchar en vivo las sublimes músicas de Cristóbal de Morales, Francisco Guerrero o Tomás Luis de Victoria? Quizás algunos miles de privilegiados que han podido asistir a algún concierto de los poquísimos festivales que programan este tipo de música. Pero la inmensa mayoría, nunca podrá beneficiarse de la fabulosa energía espiritual que transmiten la divina belleza de estas músicas. ¿Podríamos imaginar un Museo del Prado en el cual todo el patrimonio antiguo no fuera accesible? Pues esto es lo que sucede con la música, ya que la música viva solo existe cuando un cantante la canta o un músico la toca, los músicos son los verdaderos museos vivientes del arte musical. Es gracias a ellos que podemos escuchar las Cantigas de Santa María de Alfonso X el Sabio, los Villancicos y Motetes de los siglos de Oro, los Tonos Humanos y Divinos del Barroco… Por ello es indispensable dar a los músicos un mínimo de apoyo institucional estable, ya que sin ellos nuestro patrimonio musical continuaría durmiendo el triste sueño del olvido y de la ignorancia.

La ignorancia y la amnesia son el fin de toda civilización, ya que sin educación no hay arte y sin memoria no hay justicia. No podemos permitir que la ignorancia y la falta de conciencia del valor de la cultura de los responsables de las más altas instancias del gobierno de España, erosionen impunemente el arduo trabajo de tantos músicos, actores, bailarines, cineastas, escritores y artistas plásticos que detentan el verdadero estandarte de la Cultura y que no merecen sin duda alguna el trato que padecen, pues son los verdaderos protagonistas de la identidad cultural de este país.

Por todo ello, y con profunda tristeza, le reitero mi renuncia al Premio Nacional de Música 2014, esperando que este sacrificio sea comprendido como un acto revulsivo en defensa de la dignidad de los artistas y pueda, quizás, servir de reflexión para imaginar y construir un futuro más esperanzador para nuestros jóvenes.

Creo, como decía Dostoyevski, que la Belleza salvará al mudo (sic), pero para ello es necesario poder vivir con dignidad y tener acceso a la Educación y a la Cultura.

Cordialmente le saluda,

Jordi Savall

via Norman Lebrecht

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Ellington, o nobre, inovador e prolífico duque do jazz

Ellington, o nobre, inovador e prolífico duque do jazz
Duke Ellington: escrevendo e escrevendo música.
Duke Ellington: escrevendo e escrevendo música.

Publicado em 24 de maio de 2014 no Sul21

Duke Ellington era um ser humano de grande elegância. Assistir a uma entrevista sua é encantar-se com pessoa de primeiríssima linha. Era fino e educado. Tanto que, aos 8 anos, recebeu o apelido de Duke, duque, em razão de suas boas maneiras. De uma família negra relativamente abastada de Washington, nasceu em 1899 e morreu em 24 de maio de 1974, há exatos 40 anos. Sua importância para o jazz e para a música em geral é notável. Compositor, arranjador, bandleader e pianista, Ellington gastou trinta páginas de sua autobiografia, Music is my mistress, simplesmente para relacionar suas composições. São duas mil, aproximadamente. E é provável que tenha perdido ou esquecido de várias, pois passou a vida escrevendo música, excelente música, seja no trem, no avião, no camarim, na cama e até em seu piano. Alguns dos temas eram executados apenas uma vez e logo abandonados para dar lugar a outros.

Ellington em concerto
Ellington em concerto

Duke Ellington redefiniu a forma, harmonia e melodia da música americana. Reconhecer uma composição — ou o estilo — de Duke Ellington é fácil. É música negra, muito bem escrita, quase sempre alegre e cheia de nuances, com um fator distintivo fundamental: ele explorava sonoridades novas, juntava instrumentos inusitados, obtendo resultados tão surpreendentes quanto os que alcançaram Ravel e Rimsky-Korsakov, outros mestres em escrever para orquestras de modo a desconcertar o ouvinte com sons insuspeitados. Sua grandeza fez com que tivesse obras encomendadas para o cinema, caso do clássico Anatomia de um Crime, de Otto Preminger, e para orquestras sinfônicas, caso de Arturo Toscanini, que lhe encomendou a Harlem Suite, retrato sinfônico do famoso bairro nova-iorquino.

Também era respeitado entre seus pares. Miles Davis, que sempre foi temido por suas opiniões sinceras sobre seus colegas, disse à Downbeat, quando do 75º aniversário do mestre, que “todos os músicos deveriam um dia se reunir e agradecer de joelhos a Duke”. Também o imenso Charles Mingus devia tanto a Duke , que tem uma dúzia de composições onde este é citado no título, apenas perdendo para as obras de militância dedicadas à causa negra nos Estados Unidos. Como bandleader, Ellington era um regente tranquilo que, após marcar os primeiros compassos, sentava-se ao piano deixando seu sempre incrível grupo de músicos se acharem em meio aos contrapontos que lhes propunha. Poucas vezes um autor experimental foi tão cultuado pelo público, crítica e colegas.

Duke, em 1948, junto com Benny Goodman, assiste a uma de suas grandes parceiras: Ella Fitzgerald
Duke, em 1948, junto com Benny Goodman, assiste a uma de suas grandes parceiras: Ella Fitzgerald

O pai de Duke era mordomo na Casa Branca e sua mãe o mimava ao extremo. Ele começou a estudar piano aos 7 anos, incentivado pela mãe que, mesmo nos períodos mais difíceis, mantinha suas aulas. Porém, não demostrou grande interesse pelo instrumento até os 13 anos, quando conheceu, em uma viagem com mamãe a Atlantic City, o pianista Harvey Brooks, que lhe ensinou alguns truques. Seu primeiro emprego, no entanto, não foi na música. Ele amava o baseball e, para poder ver seus ídolos, arrumou um emprego de vendedor de amendoim. Costumava dizer que esse emprego o ajudou a vencer a timidez, já que tinha de gritar para conseguir seus trocados.

Foto promocional com alguns de seus músicos
Foto promocional com alguns de seus músicos

Em Washington, dois pianistas o auxiliaram muito: Oliver “Doc” Peri e Louis Brown. Eles lhe ensinaram a ler partituras e aprimoraram sua técnica. Entrou para um sexteto chamado “The Washingtonians” que tocava músicas dançantes em bailes. Foi nesta época que começou a carreira de bandleader, quando os músicos do sexteto descobriram que o líder da banda, o banjonista Elmer Snowder, estava roubando dinheiro deles. Expulsaram-no e elegeram Duke o novo líder. Tinha 18 anos.

Um de seus ídolos foi o Fats Waller, que foi fundamental nos primeiros anos de Ellington em Nova Iorque. Com ele, Duke entrou em contato com novos estilos, diferentes do ragtime ouvido em Washington. Em 1923, ele e os “The Washingtonians” tocaram em vários clubes de Nova Iorque e viajaram pelo estado da Nova Inglaterra como uma banda de música de dança que escapava para o jazz, até que em 1927 tiveram a sua primeira oportunidade no gênero. E que oportunidade!

Duke-Ellington

Isto ocorreu quando Joe “King” Oliver exigiu mais dinheiro ao Cotton Club e o lugar de banda residente do clube foi oferecido à banda de Ellington. O Cotton Club era o clube do Harlem de maior nome — virou filme nas mãos de Francis Ford Coppola — e a “Duke Ellington and his Jungle Band” tornaram-se conhecidos em âmbito nacional, pois o rádio transmitia regularmente os shows.

Ali, Duke teve oportunidade de escrever música com total liberdade. Fazia experiências com a tonalidade, puxava os trompetes a notas muito agudas e buscava efeitos dos saxofones. Quando abandonou o Cotton Club, em 1931, já era uma das maiores estrelas negras da América, gravando regularmente para várias companhias discográficas e aparecendo em filmes.

Durante ensaio em Londres no ano de 1973 para um concerto na Abadia de Westminster
Durante ensaio em Londres no ano de 1973 para um concerto na Abadia de Westminster

Nos anos 40, a banda atingiu um pico criativo, enquanto Ellington escrevia para orquestra a várias vozes, isto é, deixando de lado a apresentação de temas em uníssono. Mesmo com a saída de músicos e a diminuição da popularidade do swing, Ellington continuou a encontrar espaço, novas formas e novos parceiros. Ele compunha frequentemente de forma similar à música clássica, como em Black, Brown and Beige (1943), e Such Sweet Thunder (1957), baseado em Shakespeare. Sua composição Diminuendo and Crescendo in Blue — e principalmente a célebre atuação de Paul Gonsalves em 1956 no Newport Jazz Festival – é inesquecível. Durante toda a sua vida escreveu música experimental, gravando não somente com sua especular orquestra — onde a maioria dos músicos permaneciam por décadas — mas como nomes como John Coltrane e Charlie Mingus.

Também compôs para filmes, o primeiro dos quais foi Black and Tan Fantasy (1929), e também para Anatomy of a Murder (1959) que contava com a participação de James Stewart, e onde Ellington apareceu como líder de orquestra, e ainda Paris Blues (1961), no qual Paul Newman e Sidney Poitier apareciam como músicos de jazz.

Louis Armstrong e Ellington se assustam com Paul Newman
Louis Armstrong e Ellington se assustam com Paul Newman

Apesar do seu trabalho posterior ser ofuscado pelo brilho da sua música do início dos anos 40, Ellington continuou a inovar — por exemplo com The Far East Suite (1966) e The Afro-Eurasian Eclipse (1971) — até ao fim da sua vida. Duke foi indicado ao Prêmio Pulitzer em 1965, mas foi não o recebeu, reagindo assim: “O destino tem sido gentil comigo. Não quer que eu seja famoso demasiado cedo”. Ele não precisava do Pulitzer. O que ele fez ao misturar o som de New Orleans, as inovações de Armstrong, os estilos pianísticos do Harlem, o blues, os materiais folclóricos dos negros e as técnicas europeias foi único.

As homenagens a Duke Ellington são inúmeras. Recebeu a medalha da Legião de Honra do governo francês, a Medalha Presidencial da Liberdade do presidente norte-americano, foi o primeiro músico de jazz a entrar para a Academia Real de Música de Estocolmo, e foi honoris causa em inúmeras universidades do mundo.

Mais sério, ouvindo Dizzy Gillespie
Mais sério, ouvindo Dizzy Gillespie

Duke Ellington faleceu a 24 de Maio de 1974 e foi enterrado no Woodlawn Cemetery, no Bronx em Nova Iorque. Um grande memorial a Duke Ellington criado pelo escultor Robert Graham foi-lhe erigido em 1997 no Central Park, Nova Iorque, próximo do cruzamento da Quinta Avenida com a 110th Street, uma intersecção chamada Duke Ellington Circle. Em Washington D.C. existe uma escola dedicada à sua honra e memória, a The Duke Ellington School of the Arts, onde se ensinam músicos promissores que desejam seguir carreira.

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Abaixo, alguns vídeos com Duke Ellington:

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Fontes consultadas:

— Gigantes do Jazz: volume de Duke Ellington com texto de Albert McCarthy
Duke Ellington (1899-1974), com texto de Fernando Jardim.
Wikipedia.
— Youtube.

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A polêmica em torno do “terrível” Airton Ortiz

A polêmica em torno do “terrível” Airton Ortiz

livro do sargentinhoNão sou amigo de Airton Ortiz. Conheci-o fazendo uma longa entrevista com ele e, mesmo que não ponha a mão no fogo por ninguém, digo-lhes o que penso: olha, ele deve ter apoiado a ditadura militar tanto quanto eu. Se meus 57 anos servem para alguma coisa, uma delas é conversar com uma pessoa por uma hora e saber mais ou menos quem ela é.

Mas, além da intuição, há fatos. Sua ex-editora, a Tchê, publicou todos os comunas escreventes no Rio Grande do Sul dos anos 80, em especial os ligados ao PRC e ao PCB. Por exemplo, ele publicou obras do futuro ex-governador Tarso Genro e do professor Otto Alcides Ohlweiler.

Só que, na mesma época, a Tchê de Ortiz publicou um livro do então sargento Marco Pollo Giordani, chamado Brasil Sempre. O homem era — ou é, pois ainda vive — um ex-integrante do DOI-CODI e o livro uma resposta ao Brasil Nunca Mais. A tese do livro é de um espetacular absurdo: o autor diz que não houve tortura no País durante o regime militar. A justificativa de Ortiz para publicar o livro é crível: ele me disse que a “obra” disponibilizava uma série de documentos secretos do exército que nós da esquerda queríamos colocar a mão e que só se ele fosse muito louco sonegaria aquelas informações.

Visto do ponto de vista de nossa contemporaneidade, a atitude de Ortiz realmente parece estranha. Mas não guarda nadíssimo em comum com, por exemplo, a Editora Revisão de Siegfried Ellwanger. Ontem, entrei no sebo Nova Roma aqui da Gen. Câmara e dei de cara com o livro do sargento. Olha são, mais de setecentas páginas lotadas de documentos e fotografias. Passei uma boa meia hora examinando o volume. Todo o pessoal da luta armada que era do conhecimento dos milicos está catalogada ali, além de uma série de fotos e documentos sobre aquilo que o autor denomina de Contra-Revolução de 1964. Dilma está lá, claro. Pensando retrospectivamente, acho que, na posição do Ortiz, também publicaria o livro em função de seu ineditismo. Isto na época, porque se é hoje aquilo é puro lixo direitista, nos anos 80 era informação desconhecida permeada por um texto repugnante.

Dizer que Ortiz publicou um livro que defende os torturadores é rigorosamente verdadeiro e descontextualizado. A fogueira das vaidades literárias pegou pesado contra ele. Juremir Machado da Silva levantou o assunto no Correio e Alfredo Aquino chutou na Zero Hora, dizendo que a Câmara Rio-Grandense do Livro “profere um insulto aos que foram agredidos com torturas, aos que foram assassinados e feridos pela ditadura militar”. OK, são opiniões. Ou inimizades.

Voltando ao Ortiz. Ele é um homem tranquilo que, quando falou sobre Porto Alegre, trouxe naturalmente à conversa exemplos positivos de Havana — ele escreveu um livro premiado sobre a cidade. É um sujeito que fala de como são enriquecedoras as viagens e o conhecimento da diversidade, de como a gente deve aprender sobre outras culturas, que chega a um país e aprende 300 palavras básicas a fim de ser bem aceito, que fala com admiração dos aspectos culturais da Índia, do Nepal e de regiões da África. Que diz que as viagens pulverizam o preconceito.

E esse cara é pró-repressão e milicos? Tá bom, vão nessa.

Obs.: Sobre as capas na imagem que abre o post. É a primeira edição da Tchê nos anos 80 e a segunda, custeada pelo próprio autor, recém lançada.

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Ospa na 5ª de Mahler: o homem ideal encontra a mulher fatal

Ospa na 5ª de Mahler: o homem ideal encontra a mulher fatal
Alma Mahler em 1899
Alma Mahler em 1899

A Quinta Sinfonia de Mahler foi composta num momento em que ocorria um rito de passagem na vida do compositor. Ele trabalhava de forma incessante na Ópera Real e da Filarmônica de Viena. Mahler era um workaholic (trabalhador compulsivo). A exaustão levou-o a ser hospitalizado em 1901. A Sinfonia surgiu na virada de 1901 para 1902 — foi revisada algumas vezes, em 1904, 1905, 1907 e 1909 — e estreada em 18 de outubro de 1904, em Colônia, Alemanha, sob a regência do próprio autor.

Mas voltemos a 1901. No final daquele ano, Mahler se apaixonara pela linda e brilhante Alma Schindler (1879-1964), futura Frau Mahler, de 19 anos e 19 anos mais jovem que ele. Como o sofredor profissional que era, Mahler sofria pela possibilidade de encontrar e talvez perder a felicidade. Todo essa explicação é fundamental, pois o que se ouve nos 5 movimentos que tomam os aproximadamente 75 minutos de música da Quinta é uma caminhada das trevas para a luz. Inicia com uma Marcha Fúnebre, passa por um momento de valsa e alegria no terceiro movimento, traz um poema de amor à Alma no quarto movimento — o famoso Adagietto — e termina em festa.

Mahler escreveu para Alma: — “O quanto eu te amo, meu sol! Não posso expressar em palavras meu desejo e meu amor”.

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Talentosa pianista amadora, Alma Mahler deve ter sido mesmo um espanto de mulher, uma verdadeira femme-fatale. Vamos a uma rápida contabilidade: antes de Mahler, Alma já tinha sido namorada de Gustav Klimt. Depois da Morte de Mahler, em 1911, foi esposa ou teve longos casos com Walter Gropius (arquiteto da Bauhaus), com o pintor Oskar Kokoschka e com o escritor Franz Werfel, entre outros. Devia ser uma mulher absolutamente fascinante, ela não apenas casava ou namorava, mas recebia homenagens. Poucas mulheres podem mostrar obras de arte a ela dedicadas pelos maiores artistas do país. No seu acervo, Alma podia mostrar pinturas de Kokoschka e Klimt, composições de Gustav Mahler, manuscritos de Franz Werfel e cartas de amor de Gropius. Imaginem que Kokoschka mandou fazer uma boneca em tamanho real, reproduzindo fielmente Alma em seus íntimos detalhes… Gropius também descreveu quentes noites de amor com ela… Mas seu grande amor parece ter sido Mahler. E ele lhe escreveu o Adagietto.

(Um amigo que leu a autobiografia de Alma Mahler informa: “Gropius mandava cartas com esperma dele dentro para Alma Mahler quando servia na Primeira Guerra Mundial”).

(Em faixa não amorosa, Alban Berg compôs um belíssimo réquiem sob a dolorosa morte de Manon Gropius, a filha de Alma e Walter Gropius, uma jovem de apenas 18 anos, amiga da família Berg. OK, não foi dedicado a Alma, mas “À Memória de um Anjo”).

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A Quinta é uma tremenda sinfonia, mas também é um castigo para os músicos. Longa e complicada, mata as cordas e exige bastante dos numerosos metais. Mahler também costuma tratar grupos de instrumentos como solistas, alternando instrumentações rarefeitas para tonitruantes tutti. Curioso, alguns músicos saíram decepcionados do concerto, apontando os erros que cometeram, mas para o público ficou lindo. E me incluo de forma entusiasmada entre eles. As falhas técnicas foram sobrepujadas de longe pela emoção. A Ospa foi convincente e o grande herói foi Kiyotaka Teraoka. O Jaspion conseguiu.

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Céus, isso é genial. Bach nas alturas

Céus, isso é genial. Bach nas alturas

Ele é Francisco Vila e quero voar com ele.

via Norman Lebrecht

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Rússia larga na frente. Que lindo logotipo o da Copa 2018!

Rússia larga na frente. Que lindo logotipo o da Copa 2018!

Russia Copa do Mundo

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Porcarias, de Marie Darrieussecq

Porcarias, de Marie Darrieussecq
A capa de Porcarias
A capa de Porcarias

No original francês, é Truismes; em Portugal, é Estranhos Perfumes; em inglês, Pig Tales; e no Brasil recebeu o bom título de Porcarias.

Porcarias, livro de Marie Darrieussecq que ganhei de presente de minha filha, é apresentado como uma parábola. Parábola é uma “narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior”.

Um pouco mais nojento do que seus modelos clássicos — A Metamorfose, de Kafka, e A Revolução dos Bichos, de Orwell –, Porcarias é uma narrativa fluida e grudenta como poucas.

Sem entrar em detalhes, o livro conta a história de uma vendedora de perfumes que se deixa levar um tanto passivamente pela vida e que acaba por deixar que seus instintos primitivos a dominem, fazendo com que vá se transformando lenta e literalmente numa porca. O final é fantástico e triunfante: o que era crise deixou de ser, pois agora ela é uma porca completa.

O que o livro tem de sensacional é a narrativa crua e eficiente da solidão, da não-aceitação, da angústia e da inadaptação de alguém que vai perdendo a auto-estima até resolver que o estilo de vida da selva é o mais mais adequado para si. Dizendo isso fica clara a parábola, mas há mais. Porcarias é um bonito e cômico ataque tanto ao politicamente correto como ao culto da vida sã e dos corpos sarados.

Lá em 1997, a Folha de São Paulo entrevistou Marie Darrieussecq. É muito interessante.

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A mulher que virou leitoa

Por Maria Ignez Mena Barreto

A história de uma vendedora de perfumes que se transforma em leitoa é o grande acontecimento literário do ano na França. “Truismes” (Truísmos) é o primeiro romance de Marie Darrieussecq, 27, nascida em Bayonne, País Basco, ex-aluna de uma das instituições acadêmicas mais prestigiosas da França, a École Normale Supérieure, e professora da Universidade de Lille.

Com 204 mil exemplares vendidos na França, “Truismes” seduz o meio editorial internacional: os direitos já foram vendidos para os Estados Unidos (New Press), Alemanha (Hanser), Itália (Guanda), entre outros. No Brasil, será lançado no próximo mês pela Companhia das Letras.

Para coroar o êxito, o diretor Jean-Luc Godard já adquiriu os direitos de adaptação para o cinema e deve escrever o roteiro a quatro mãos com a jovem autora.

Com um título que brinca com a consonância de “true” (verdade, em inglês) e “truie” (leitoa, em francês), “Truismes” conta a história de uma vendedora que, para enriquecer seu patrão, dá aos clientes um tratamento especial em discretas cabines clandestinas. Sob o efeito dos cosméticos que ela recebe em agradecimento a cada balanço, seu corpo começa a sofrer uma lenta modificação: ela percebe seu peso aumentar, sua carne se tornar firme e rosa, seus pêlos endurecerem. A carreira de vendedora-modelo degringola com o surgimento de sintomas menos compatíveis com o comércio sexual: comportamentos alimentares estranhos, atitudes corporais tão inconvenientes quanto um cio suíno incontrolável e caprichoso. Oscilando entre sua aparência suína e humana, a heroína passa por guerras, epidemias, vai parar em um asilo de loucos e dali escapa para se meter num imbroglio de políticos fascistas.

Para falar sobre o romance e o trabalho de adaptação para o cinema, no qual trabalha com Godard, Darrieussecq recebeu a Folha em seu apartamento em Paris.

*

Folha – “Truismes” é seu primeiro romance publicado, mas não o primeiro que você escreve…

Marie Darrieussecq – Eu escrevo desde os seis anos, sempre escrevi histórias. Aos seis anos, evidentemente, eu escrevia contos, coisas assim. Com 15, comecei a querer fazer coisas mais elaboradas. “Truismes” é o sexto romance que termino, no qual eu pus um ponto final. Os outros são exercícios, não estão suficientemente maduros para a publicação. “Truismes” é o primeiro que atinge este nível.

Folha – Mas você já recebeu um prêmio literário…

Darrieussecq – Sim, um prêmio por uma novela, quando eu tinha 19 anos, o Prix du Jeune Écrivain (Prêmio do Jovem Escritor). Este prêmio me deu uma certa legitimidade, foi a partir daí que eu comecei a dizer que eu escrevia. Antes, eu não ousava, acho extremamente pretensioso escrever.

Folha – E um belo dia você enviou um manuscrito a um editor…

Darrieussecq – Foi formidável. Fui aceita por quatro editores. Com um primeiro livro, isso acontece uma vez em mil.

Folha – E por que você escolheu a P.O.L., a editora menor e menos conhecida do grande público?

Darrieussecq – Porque, para mim, ela encarna um espírito de independência que não encontro, necessariamente, nos outros editores. O trabalho dela é muito singular, ela edita as coisas de que gosta antes de se perguntar se o livro vai ser vendido ou não. E isto me agrada. Além disto, P.O.L. era a de menor estrutura, eu logo tive um bom contato humano com as pessoas que trabalham lá.

Folha – É verdade que você escreveu “Truismes” em três semanas?

Darrieussecq – Sim, é verdade. Sempre que escrevo, acontece a mesma coisa. Eu tenho uma ideia, que me vem de não sei onde, e começo a sonhar com ela. Eu comecei a sonhar com essa história de uma mulher que se transformava em leitoa. Eu não sabia absolutamente aonde essa história ia me levar, que significado ela tinha. Sonhei com esta ideia durante três meses. Depois, vieram as greves de dezembro de 1995 na França. A confusão em que Paris se transformou não me incomodava em nada, ao contrário. Eu fiquei completamente eufórica, passeando pelas ruas, indo de manifestação em manifestação, numa atmosfera excitante, inimaginável. Logo depois das greves, me veio a voz do personagem, e, quando tenho a voz, tenho tudo, a forma do livro, o estilo. A partir do momento em que encontrei o registro dessa voz, eu me lancei. A redação propriamente dita levou, de fato, seis semanas. Mas, antes, teve esse período de pelo menos três meses de maturação.

Folha – Você não tinha, então, um projeto, uma ideia clara sobre o que ia escrever?

Darrieussecq – Sabia que ia seguir uma transformação. Que haveria uma série de sintomas que eu deveria descrever. Eu não sabia exatamente quais, eles foram surgindo à medida em que fui escrevendo. E sabia que a história terminaria em uma floresta. Era tudo o que sabia. O resto foi aventura. Eu me colocava em uma situação e me perguntava: como ela vai sair dessa? o que eu faria em seu lugar? Esse, aliás, é, para mim, o prazer de escrever. Eu morro de tédio se souber com antecedência o que vai acontecer.

Folha – “Truismes” é a história de um personagem singular ou um perfil da mulher contemporânea?

Darrieussecq – Não, “Truismes” é a história de uma mulher específica. Não cabe a mim interpretá-la, transformá-la em símbolo do que quer que seja. Eu proponho uma história, cabe ao leitor atribuir a ela um sentido. Eu recebo uma quantidade estupenda de cartas. Os leitores vêem no livro coisas que me surpreendem.

Folha – Por exemplo…

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O estranho concurso da Ospa (Parte IV – A Banca)

O estranho concurso da Ospa (Parte IV – A Banca)

O crítico tem que educar o público; o artista tem que educar o crítico.
OSCAR WILDE

Verdade. Aprendi muito e me senti muito honrado ao receber diversos textos com opiniões de mestres a respeito de concursos para músicos em geral. Como o fluxo de informações não foi estancado pelo final de minhas publicações — ao contrário! — fico obrigado a elaborar um curto post a respeito das últimas manifestações. Alguns músicos, ao lerem as publicações anteriores e verem garantida a confidencialidade, acharam interessante meterem sua colher no assunto com uma franqueza aparentemente impossível de se usar num ambiente tão pontuado pelo compadrio como o gaúcho ou o brasileiro. (Isto ocorre não somente na música, os escritores também trocam elogios de forma baratíssima). Vi elogiada a minha “coragem” de colocar em discussão algo que não costuma ser tema em nosso ambiente. Grande coisa…

Outra conclusão a que chego é que a maioria dos músicos leram corretamente em minhas manifestações o mais profundo interesse em guindar a orquestra a um patamar artístico superior, fato que permaneceu obnubilado para alguns membros da orquestra que simplesmente não concebem tal interesse. Espero que minha atitude não lhes pareça por demais inusitada. Quero uma Ospa melhor — penso que ela seja deficiente — e acho que melhores músicos mudarão também o perfil cultural da cidade. Além disso, poderão também trabalhar como professores e aumentarão o número de recitais de música de câmara. Enfim, teriam o potencial de arejarem o ambiente musical da cidade, deixando-o mais rico e diverso.

Sigo achando o edital apressado e torto. Obviamente, não sou contra o concurso, mas que deveria ter sido feito antes, que a primeira parte deveria ter obras solo já que não tem piano, deveria ter prazos maiores, deveria ter uma abertura bem clara aos estrangeiros, e, bem… Já disse que tinha ficado muito decepcionado porque nenhum dos “comentaristas” que me mandaram suas opiniões haviam falado numa coisa que considerava fundamental, ou seja, a banca?

julgamento

Claro, já que ninguém falou nela, não devia ser tão importante e recolhi-me ao silêncio. Porém, na quinta e sexta-feira, eu recebi belas explicações sobre a composição de bancas e, se algumas pessoas da orquestra ficaram furibundas com meus posts anteriores, este irá deixá-los dez vezes mais contrariados. E só vou colocar trechos leves.

Um dos discursos é este: “O importante é garantir a entrada dos melhores músicos. A OSPA não tem em sua estrutura membros capazes de formar várias bancas completas de primeira linha. Há bons músicos somente aqui e ali. A sociedade não cobra suficientemente seus secretários de cultura e governadores para que pensem a OSPA como uma grande representante do RS em uma das esferas de produção cultural. A orquestra poderia ser excelente. A banca examinadora pode e deve ter músicos da orquestra, principalmente aqueles de primeira linha, porém os locais não devem jamais formar uma maioria. Isto somente funciona nas grandes orquestras internacionais — aquelas em que os próprios músicos cobram de si mesmos e de cada colega que apresente o seu melhor em cada ensaio e concerto. Não é o caso de Porto Alegre”.

E vem um velho músico aposentado e enfia o dedo ainda mais profundamente: “Acho que os erros de avaliação podem ocorrer não como um pacto combinado, mas como reflexo do referencial pobre dos membros da banca. A maioria não consegue detectar arte de alto nível porque não têm cultura de alto nível. Por isto, a banca deveria ter convidados incontestáveis que formassem maioria em relação aos locais ‘sem horizonte'”.

E outro: “Na Europa, por exemplo, o comum é que cada banca seja formada pelos spallas dos naipes junto com convidados e o regente titular. Os naipes devem assistir e, quando dois ou mais candidatos chegam no final com a pontuação igual, o naipe é perguntado sobre quem cabe melhor no grupo”.

Não lembro de ter lido detalhes sobre a formação da banca no edital. Só lembro do anúncio da banca para o dia 11 ou outro dia. Não se sabe quantos convidados haverá lá. Espero que vários. Se eu estiver errado, bastará explicar calmamente nos comentários. Não estou aceitando ofensas, OK?

Concluo a quarta parte com duas ou três afirmativas. (1) Se o salário da Ospa não é maravilhoso, há estabilidade, o que torna cada vaga objeto de cobiça. (2) Os candidatos serão numerosos e a banca, a ser anunciada em 11 de novembro  — se não me engano –, é fator CRUCIAL para o sucesso do concurso. Espero realmente que haja maioria de autoridades de fora para que não haja isto, tão comum em nossas instituições federais e estaduais — já trabalhei com estatais e sei como é. (3) Mantenho as posições que expus anteriormente. Não li nada que me convencesse cabalmente de que estou equivocado. (4) Com a (lamentável) vitória de Sartori, é provável que o diretor artístico esteja de malas prontas. Sua presença está prevista na banca?

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Violência

Violência

Sábado à noite, convidei o Carlos Latuff para comer uns coelhos na casa de um amigo e o cara se ofendeu, me chamou de insensível, etc. Veio aqui no Sul Vinte Um indagorinha e elaborou este protesto aí. Ora, Latuff.

Milton Ribeiro bárbaro
Milton Ribeiro, o huno

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Os gatos pretos tomarão as ruas das cidades gaúchas esta noite?

Os gatos pretos tomarão as ruas das cidades gaúchas esta noite?
Penélope Cruz
Penélope Cruz

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Isso é melhor que o piso do Sartori

Isso é melhor que o piso do Sartori

sorvete

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Concurso Público Ospa 2014 | Aviso aos candidatos estrangeiros?

Concurso Público Ospa 2014 | Aviso aos candidatos estrangeiros?
Mais 24h...
Mais 24h… | Foto: Antonieta Pinheiro

Não tive tempo de examinar, mas o adiamento foi somente por um dia útil. Pouca coisa. E não mudaram mais nada. Deram o aviso em inglês? Como avisar a quem já desistiu? De qualquer maneira, deve ser um aviso ao pessoal de fora. Abaixo, a nota da Ospa no Facebook. E vamos lá, gurizada! Pra cima com a viga!

Os candidatos estrangeiros que não possuem o nº de CPF (Cadastro de Pessoa Física) da Receita Federal do Brasil, deverão solicitar, pelo e-mail [email protected], número de CPF Fundatec.

Este CPF Fundatec não terá validade em território brasileiro como documentação e servirá apenas para a inscrição no Concurso Público da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.

O prazo de inscrições para o concurso foi prorrogado até o dia 27! Saiba mais: http://bit.ly/1z3Q8bx

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Nossa história, à venda: um castelo agoniza no pampa

Nossa história, à venda: um castelo agoniza no pampa
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A recepção | Foto: Milton Ribeiro (clique para ampliar)

Publicado em 18 de maio de 2014 no Sul21.

Logo na entrada, gravada nas lajes, lê-se a seguinte inscrição :

Bem-vindo à mansão que encerra
Dura lida e doce calma:
O arado que educa a terra;
O livro que amanha a alma.

Muito mais do que uma saudação, o verso deixa clara a ideologia de Joaquim Francisco de Assis Brasil. Trabalho e cultura, transpiração e conhecimento. O sonho do diplomata, político, advogado e escritor Joaquim Francisco de Assis Brasil, que transformou sua granja em uma moderna propriedade no campo, ornamentada por um castelo em estilo medieval, está à venda. Tombado desde 1999 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado, o Castelo de Pedras Altas precisa de urgente reforma. A progressiva degradação do prédio de 44 cômodos e 12 lareiras ameaça o acervo do castelo, que contém, além de inúmeras peças históricas, uma valiosa biblioteca de 8 mil volumes.

Foto: assisbrasil.org
Foto: assisbrasil.org (clique para ampliar)

O Castelo, construído em granito rosa entre 1904 e 1909, está sendo vendido a portas fechadas, isto é, com tudo dentro. O pacote inclui diversos móveis de madeira maciça importados dos Estados Unidos e França, mais estátuas, espadas, relógios — entre eles, um que pertenceu a Bento Gonçalves — piano e a biblioteca. A biblioteca é famosa: há clássicos em inglês, francês e latim. Dentre as raridades, os 22 volumes da Enciclopédia Francesa de Diderot e D’Alambert, publicada em 1751.

O estilo medieval da construção — algo estranho para a região — foi um presente de Assis Brasil para sua esposa Lídia de São Mamede, filha de um conde europeu e que residia em um local semelhante na Europa. Outra intenção do diplomata nascido em São Gabriel era a de provar que era possível ser homem do campo sem ser rude. Assis Brasil queria enobrecer o campo. Para enobrecê-lo, ele não apenas comprou livros, mas também introduziu no local (e no Brasil) os gados Jersey e Devon, a ovelha Karakul e o cavalo árabe.

Foto: Cecília Assis Brasil
Foto: Cecília Assis Brasil

Com sua granja, Assis Brasil tentava demonstrar o que havia aprendido no exterior. Tinha a tese — na época revolucionária — de que uma área pequena e bem trabalhada poderia produzir mais do que as tradicionais fazendas gaúchas, onde o gado era criado sem maiores cuidados. Havia uma estação de trem próxima ao castelo, hoje desativada. Ali embarcavam animais das raças devon, jersey, karakul, além da lã de ovelha, banha de porco, queijos, manteiga e frutas secas. 

No sonho de Assis Brasil, o trabalho caminharia junto com a educação. “O arado e o livro são ferramentas do progresso”, escreveu. Depois de trabalharem na terra, os trabalhadores poderiam estudar. O que Assis Brasil não previu foi que a fazenda poderia até sobreviver de sua produção, mas jamais sustentar um oneroso Castelo que se ressentiria das infiltrações naturais do clima úmido do Pampa. O Castelo tem aparência medieval, mas seu projeto trazia novidades exclusivas, como o fato de os banheiros ficarem dentro da fortaleza, numa época em que a lei mandava instalar sanitários fora das casas. As coisas antigas se degradam. Já quando morreu, em 1938, Assis Brasil deixou dívidas que fizeram com que a família se desfizesse de 130 hectares.

Pensado como saída, o turismo cultural não decolou. Lídia Costa Pereira de Assis Brasil, neta de Assis Brasil, recebia os visitantes cobrando-lhes um ingresso. Mostrava o castelo com sabedoria e amor, mas era uma guardiã tanto esclarecida quanto feroz. Ai de alguém que se desgarrasse do grupo ou que chegasse muito próximo dos livros, ai de alguém fizesse uma piada sobre a foto abaixo ser a última imagem de Santos Dumont vivo. “Assis Brasil jamais errou um tiro!”, ouvimos ela afirmar, irritada (este é um relato de experiência  pessoal).

Assis Brasil alveja Santos Dumont: adeus, maçã.
Assis Brasil alveja Santos Dumont: adeus, maçã | Foto: assisbrasil.org

O Castelo não é apenas um curioso exemplar arquitetônico, ele tem história. Ali, deu-se a assinatura do acordo de paz que encerrou a revolução gaúcha de 1923.  Em sua biblioteca foi assinada a paz de Pedras Altas entre as forças políticas que apoiavam Borges de Medeiros e suas enjoativas reeleições — foi presidente do estado entre 1898 e 1927 — e aquelas que se insurgiam contra o fato. A paz foi assinada em 14 de dezembro de 1923. A Revolução de 23 durou apenas 11 meses, mas assustou um estado onde — com suas degolas — estavam presentes as lembranças da guerra de 1893, o mais sangrento dos confrontos da história do Rio Grande. O recomeço de um confronto entre chimangos e maragatos preocupava o estado. O acordo impedia Borges de Medeiros de se recandidatar após concluir seu mandato. Deste modo, ele poderia finalmente tornar-se nome de avenidas em todo o estado.

Inspiração para o título desta matéria, o escritor e atual Secretário de Cultura Luiz Antônio Assis Brasil, primo de Lídia, escreveu a série de três romances Um Castelo no Pampa, formado por Perversas FamíliasPedra da Memória e Os Senhores do Século. Lá está, como um dos personagens principais, o velho Assis Brasil. A forma como ele é descrito nos romances deixou Lídia ressentida. Os dois se relacionam educadamente, como se fossem embaixadores de duas nações inimigas. Anos antes, quando esteve no Castelo, Assis Brasil teve acesso à biblioteca e examinou seu exemplar da Enciclopédia Francesa. “O livro está em perfeito estado, como se tivesse sido publicado neste ano”. Fica a dúvida se alguém, além do “velho” Assis Brasil, consultou aquela obra.

Foto: assisbrasil.org
Foto: assisbrasil.org

Antes dos 20 herdeiros decidirem-se pela venda, houve várias tentativas de captação de recursos para a restauração do castelo. Por intermédio da Lei Rouanet, o projeto foi aprovado em 2008 pelo Ministério da Cultura, mas não apareceram interessados. Segundo Lídia, nem todos os herdeiros concordaram em ceder a documentação necessária à captação da verba para o restauro. Por enquanto, a propriedade não está à venda para o público: “Por ser um patrimônio tombado, primeiro temos que oferecer ao município, ao estado e à União. Eles têm preferência. É o processo normal”, explica. O Castelo foi oferecido ao município de Pedras Altas, ao Estado e à União. Ninguém respondeu ainda. Os corretores de imóveis escolhidos pela família estão sendo orientados pelo Iphae (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do estado) e quem comprar a granja terá que continuar respeitando as regras do tombamento.

Lídia Assis Brasil diz que a falta de incentivos governamentais e de empresas para manter a estrutura foi o principal motivo que levou a família a tomar a decisão da venda. “São muitas as dificuldades para manter o edifício. Porém, pensar que o patrimônio e a história terão a oportunidade de serem preservados pelo novo proprietário é o que nos consola. De qualquer maneira, está sendo uma fase muito difícil”, revela.

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