Simbiosis, escultura em mármore de autoria de Pascale Archambault, vencedora do Primer Festival de Escultura de Guatemala “Guatemala Inmortal” de 2007, do qual participaram 256 artistas de 56 países.
O Conselho e o Pátio: um não tem nada a ver com o outro, mas seria melhor se tivesse
A única chance para Giovanni Luigi permanecer como presidente do SC Internacional está em vencer as eleições para o Biênio 2013-14 no primeiro turno, ou seja, no Conselho. Ele tem apenas uma bala e seu tiro — perigosíssimo, letal — será desferido na reunião do dia 8 de novembro. Nesta data, os 346 conselheiros do Clube devem optar por uma das candidaturas a presidente. Avançarão ao segundo turno duas das chapas mais votadas, desde que obtenham mais de 25% dos votos. E nisto resumem-se as chances do presidente picolé de chuchu, alguém que não empolga ninguém, mas que possui o Conselho Deliberativo do clube na mão. Assim como Odone tem no Grêmio.
Mais sobre o maravilhoso Luigi e a situação do clube: aqui.
Para ultrapassar a cláusula de barreira, os citados 25%, são necessários 87 votos no Conselho. Em princípio, Giovanni Luigi teria aproximadamente 180 votos, Luiz Antonio Lopes, 60, e a Convergência Colorada, com seu candidato indefinido entre Sandro Farias e João Patrício Herrmann, 65. Acontece que Luiz Antonio Lopes tem o apoio de Vitorio Piffero, ex-presidente e ex-aliado de Luigi, que deve retirar votos do Banana. É possível que, deste modo, Lopes chegue ao segundo turno para disputar a presidência..
O Conselho
Pois, meus amigos, o Conselho muitas vezes não está preocupado com o futebol. Conheço muitos conselheiros. Há aqueles que vão aos jogos e sofrem com o marasmo cotidiano do clube — são o que chamo de conselheiros-torcedores — e aqueles que estão lá por serem políticos, jornalistas conhecidos ou pequenas celebridades da cidade — são os conselheiros-modinha. Estes são amigos de um amigo de Fernando Carvalho ou de outro membro menos notório da diretoria atual ou das anteriores. Foram convidados ao cargo por serem conhecidos, por serem ricos empresários ou por serem membros de diretorias de outras entidades; enfim, por suas relações extra-clube. Aceitaram concorrer por vaidade, vício, ou para ganhar mais um pontinho junto a sei lá quem. Pois, não sei por quê, é bacana ser Conselheiro, mas mesmo que não se saiba nada sobre futebol.
Estas figuras decorativas fazem o recheio dos sete (7) (!) movimentos que apoiam o futebolisticamente derrotado Luigi e podem levá-lo à vitória no primeiro turno. Um conselheiro-torcedor me disse que ontem (22/10) Luigi tinha votos suficientes para prescindir do segundo turno, o do pátio, o dos sócios, o dos torcedores que se escabelam com a realidade do clube.
Então, nos resta desejar que um dos dois adversários do presidente alcancem os tais 25%. Se alcançar, será o novo presidente do clube, pois Luigi perderá no pátio, assim como aconteceu com Odone no Grêmio.
O fundamental
Mas o mais importante desta eleição é o que ocorrerá no dia 15 de dezembro. Esta é a data não apenas para a realização do segundo turno das eleições presidenciais — se houver — mas para, FUNDAMENTALMENTE, o associado optar por uma chapa do Conselho. Este, num mundo ideal, deveria ser renovado com inteligência e maior critério por parte dos sócios.
Há 346 conselheiros. 300 são eleitos e 46 são ex-presidentes e membros do Conselho por mais de 30 anos. A gestão dos eleitos é de quatro anos e, a cada dois anos, a metade é renovada. Ou seja, no próximo dia 15 de dezembro, haverá a renovação de 150 conselheiros. Para que o clube fique mais arejado é necessário diluir a base aliada do Banana. Para quê? Ora, a fim de que tenhamos uma gestão menos amadora. A propósito, hoje a Convergência Colorada lança seu Plano de Gestão 2013/2014. É um evento aberto, qualquer um pode ir lá e conferir. Será às 20h, no auditório do Edel Trade Center (Av. Loureiro da Silva, 2001), em Porto Alegre. Logo após o lançamento ele estará no ar no site.
Sim, apoio a Convergência e convido a todos os interessados no Inter a se informarem sobre ela e os outros movimentos do clube. Depois, informados, decidam, ora! Por favor, chega de votar nas figurinhas mais simpáticas da cidade.
120 anos depois, a Cavalleria Rusticana retornou ao Theatro São Pedro em grande estilo

Em 17 de maio de 1890 estreava a Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni no Teatro Costanzi de Roma. Na mesma data nascia o Verismo musical italiano e, assim como na literatura, também na ópera a arte passava a imitar a vida, fugindo dos modelos históricos e míticos e mergulhando no cotidiano.
A violinista da OSPA, Elena Romanov, fez-me notar que, em 1892, apenas dois anos após a estréia na Itália, a Cavalleria já chegava ao Theatro São Pedro com a grande Companhia Lírica Italiana de Poltronieri e Bernardi. Achei interessante lembrar ao apreciadores da lírica que, no século XIX, era usual companhias profissionais de ópera italiana se deslocarem de navio para a América Latina iniciando seu circuito pelo Teatro da Paz de Belém, de 1869, descendo em direção ao Teatro de Santa Isabel de Recife, de 1850, Theatro São Pedro de Porto Alegre, de 1858 e Theatro Sete de Abril de Pelotas, de 1834. Depois seguiam para o Uruguai e Argentina. Em 1890, ainda não existiam o o Theatro Pedro II e o Municipal de São Paulo, o Teatro Amazonas, o Theatro Municipal do Rio e o Theatro José de Alencar de Fortaleza, entre outros.
Em 2012, durante este final de semana, no Theatro São Pedro, passados 120 anos, voltamos a ouvir a história de Turiddu Macca, um camponês siciliano que, ao retornar do serviço militar, encontra Lola, sua namorada, casada com Alfio, um rico caixeiro-viajante. Tomado pelo ciúme, ele seduz a jovem Santuzza e a usa para provocar a antiga namorada. Lola cai na armadilha e torna-se sua amante. Santuzza, ao descobrir a traição, denuncia os amantes para Alfio, que, para lavar sua honra, desafia Turiddu para um duelo que se conclui com a morte deste.
Foram 55 minutos de tensão e drama enriquecidos pela Ospa (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), coro e solistas.
O maestro Enrique Ricci transpirava segurança e carisma e, mesmo no espaço reduzido do pequeno teatro, o qual impedia movimentos de palco e limitava a atuação cênica, soube extrair interpretações emocionantes.
A orquestra e o coro estavam claramente seduzidos pelo maestro e havia congraçamento, integração, vontade. Quem estava na plateia sentia a música chegando como ondas, via-se as pessoas sendo transportadas pela obra. Eu mesmo, com a visão periférica, buscava meus vizinhos de platéia e via respirações, mãos e pernas que vibravam em sincronia com os acontecimentos do palco. A orquestra se transformou em praça e o coro sinfônico – com suas vozes treinadas pelo maestro Manfredo Schimiedt – foi o povo da Sicília, com sua religiosidade, alegria e drama.
A soprano Cláudia Riccitelli, foi uma apaixonada Santuzza, hipnotizando o público com uma expressividade sanguínea que a ajudou a superar as dificuldades do papel. A mezzo Luciane Bottona, destacou-se com uma mamma Lucia de ótima atuação cênica, voz segura, bem projetada e de lindo timbre. O barítono Sebastião Teixeira, apresentou um Alfio impecável com belos e sonoros graves. O tenor Richard Bauer, foi um bom Turiddu, destacando-se no dueto com Santuzza. A soprano Elisa Lopes encarnou satisfatoriamente a provocante Lola.
Momento memorável, casa lotada em todas as récitas, merecia mais e mais réplicas.

China, maio de 1949

Acho sempre muito curioso quando as pessoas dizem que os antigos regimes comunistas matavam muito. Ah, matavam mesmo, não sou louco de negar. Eram tão democráticos e modernos quanto os regimes que vinham substituir, apesar de terem outra feição econômica. Acima, um militante comunista é executado por um policial nas ruas de Xangai, sob o olhar de soldados do Kuomintang (“Partido Nacionalista Chinês”). Dias depois, vocês sabem, as tropas de Mao controlariam a cidade e começariam outras mortes. Outra mania da época era a de retocar fotos, salientando contornos; às vezes retirando pessoas que caíam em desgraça.
A migração dos cinemas de Porto Alegre (Parte 2 – alguns bairros)
No dia 27 de maio, há pouco mais de uma semana, publicamos A migração dos cinemas de Porto Alegre (Parte 1 – Centro). Ali, explicávamos que não houve o fim dos cinemas, mas uma migração deles em direção aos shoppings, Casas de Cultura, Sindicatos, etc. Tanto foi assim que o ano de 2011 marcou um novo recorde de vendas de ingressos.
Repetimos aqui que pretendemos fazer uma matéria apocalíptica, mas que um pouco de nostalgia é inevitável. Afinal, estamos mostrando como estão hoje alguns locais onde antes havia cinemas. Nossa coleção de cinemas do Centro da cidade revelou-se incompleta e nesta Parte 2 não esgotaremos os cinemas de bairro.
As fotos antigas foram retiradas de diversos, sites, blogs e do Facebook. Normalmente não são informados os autores destas fotos.
.oOo.
O lento ocaso do Astor é das coisas mais tristes para a paisagem de nossa cidade. Localizado na Avenida Benjamin Constant, 1891, bairro Floresta, foi inaugurado em 6 de outubro de 1923. Abaixo, seu aspecto nos anos 20, em foto retirada daqui.
Foi reformado em 1963, ganhando o nome de Astor. A sala de 1.395 lugares fechou em 1994, década da foto abaixo.
Em 2007, o fotógrafo Diego de Leão Pufal fez belas fotos do que sobrou de sua fachada.
Hoje, o Astor é um estacionamento.

.oOo.
Logo adiante, ainda na Benjamim, no nº 1773, temos o Presidente. Ele foi inaugurado em 15 de novembro de 1958 pelo filme A Mais Bela Mulher do Mundo, com Gina Lollobrigida.
Atualmente abriga o Centro de Avivamento para as Nações, uma igreja evangélica. Não é primeira igreja a alugar o prédio do velho Cine Teatro.

.oOo.
Em 1928, foi aberto o Rosário, Av. Benjamin Constant, nº 305.
Este velho cinema de 1.180 lugares foi simplesmente pulverizado.

.oOo.
No bairro Floresta, havia o Cine Theatro Ypiranga. Ficava na Cristóvão Colombo, 772. A sala tinha 1.159 cadeiras.
Transformou-se em garagem.

.oOo.
Um importante cinema de Porto Alegre era o Vogue. A primeira sessão foi O Velho e o Mar, em 1º de agosto de 1959. Ficava na Av. Independência, nº 640 , no bairro Independência. Nos anos 70, mudou de nome para Cinema 1 – Sala Vogue. Durante anos, esta foi a sala dos filmes de arte em Porto Alegre. A foto abaixo, que anuncia O Gato, de Julien Bouin, é de 1971.
A foto abaixo, do filme Fanny e Alexandre, de Ingmar Bergman, é de 1982. Aqui, ele já é o Cinema 1.
Hoje, em lugar de Bergman, é um buffet livre / buffet kilo.

.oOo.
Se o Vogue era cult, o que dizer da dupla Baltimore e Bristol? Os pranteados Baltimore e Bristol ficavam na Av. Osvaldo Aranha, nos números 1048 e 1058. O Baltimore nasceu em 3 de setembro de 1931. Em 1970, foi inaugurado o Mini Baltimore, no piso superior. Esta sala passou a se chamar Cine Bristol em 1º de maio de 1975.
A foto mais embaixo mostra a platéia do Baltimore e foi publicada na Revista do Globo em fevereiro de 1950.
Depois, a enorme sala do Baltimore, foi dividida em três cinemas menores. O Bristol permaneceu. As lotações das 4 salas de cinema eram: Baltimore 1, seiscentos lugares; Baltimore 2, duzentos e sessenta e quatro lugares; Baltimore 3, ex-Bristol, cento e oitenta e quatro lugares e Baltimore 4, com cento e trinta e oito lugares. Em 2000, a última sala de cinema deixou de funcionar.
No inicio de 2003, o prédio foi demolido, ficando apenas a fachada. A foto abaixo é de maio de 2003 quando restava apenas a fachada do prédio; essa fachada acabou desabando no Natal do mesmo ano.
No local será construído centro comercial com dezesseis andares que ocupará toda a extensão do Baltimore e do não menos lendário Bar do João. Tanto o cinema quanto o bar representaram, por muito tempo, a cena cultural não apenas do Bom Fim, mas de boa parte dos porto-alegrenses. Hoje é um canteiro de obras.

.oOo.
Ah, as matinês do velho Rio Branco da Av. Protásio Alves.
Todas as famílias levavam seus filhos para ver filmes de entretenimento aos sábados, domingos e feriados à tarde. À noite, a coisa mudava.
Hoje, o Rio Branco é mais um dos pulverizados.

.oOo.
É uma dificuldade conseguir fotos do grande, enorme Cinema Coral na 24 de outubro.
As fotos encontradas já são de sua decadência.
Hoje, o velho cinema é um Centro de Eventos.

.oOo.
O Avenida é muito antigo. Foi inaugurado como América em 1923. Porém, uma ventania ocorrida durante uma exibição do filme mudo O Barqueiro do Volga (1926) deixou a sala bastante danificada, além de um morto e 5 feridos. Provavelmente, a foto abaixo retrate o prédio do cinema após a ventania, pois vê-se que há peças de madeira sustentando as paredes. O novo prédio do Cine Avenida foi inaugurado em 6 de junho de 1929.
O preferido da elite porto-alegrense anunciava suas atracções no jornal.
E hoje, após ter se dividido em Avenida 1 e 2 e de passar um período como bingo, procura compradores.

.oOo.
O velho ABC parecia o modelo para o túnel do seriado O Túnel do Tempo. Tanto que seu melhor lugar era na primeira fila. No início, era chamado cinema Garibaldi. Foi inaugurado no dia 8 de dezembro de 1914 na rua Venâncio Aires, nº 77, bairro Cidade Baixa. Foi reinaugurado em 1º de janeiro de 1969 com o nome de ABC. Fechou definitivamente suas portas no dia 10 de julho de 1994.
Hoje, é uma galeria de lojas.

.oOo.
O cinema Castelo, na av. Azenha, nº 666, no bairro Azenha, foi inaugurado no dia 27 de abril de 1939. Funcionou por cerca de 40 anos, fechando em 1979. Era um imenso cinema. Teve dias gloriosos ao sediar os eventos e programas da Rádio Farroupilha. Destaque absoluto para shows de uma jovem cantora: Elis Regina. Depois, por mais de duas décadas, passou somente filmes B.
O prédio pintado e adornado pela parada de ônibus no meio da Azenha.
Hoje, há um prédio de apartamentos no local.

.oOo.
A casa abaixo foi destruída para dar lugar ao cinema Roma, inaugurado em 24 de setembro de 1960. Não encontramos fotos desta época.
Hoje está fechado, disponível para aluguel ou venda.

.oOo.
O dia 6 de setembro de 1948 marcou a inauguração do cinema Ritz, na Av. Protásio Alves, nº 2557, no bairro Petrópolis. O Ritz fechou em1994 e o prédio foi demolido em 2002…
… dando lugar a um edifício sem maior personalidade.

.oOo.
Em 11 de setembro de 1960, tivemos a inauguração do cinema Atlas em um prédio localizado na esquina da av. Protásio Alves e rua Alcides Cruz, no bairro Petrópolis. A foto abaixo mostra a esquina em julho de 1997.
O Atlas era muito bonito por dentro, com escadarias que levavam ao mezanino.
É mais um cinema que foi substituído por um edifício.

.oOo.
Utilizamos várias fontes, as principais estão listadas abaixo:
http://cinemasportoalegre.blogspot.com.br/
http://www.carlosadib.com.br/poa_fatos.html
http://lealevalerosa.blogspot.com.br/2010/05/outros-angulos-de-porto-alegre.html
http://ronaldofotografia.blogspot.com.br/
Ana Cristina Cesar aos 60
Publicado em 3 de junho de 2012 no Sul21.
Quando Ana Cristina Cesar cometeu suicídio em 1983, aos 31 anos, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, na rua Tonelero, em Copacabana, foi um pranto geral no mundo das letras. Era compreensível. Tratava-se de um raríssimo e precioso talento emergente na acanhada literatura e poesia brasileiras, era parte importante do futuro. Muito culta e bonita, Ana, nascida há 60 anos, em 2 de junho de 1952, recebeu as mais surpreendentes homenagens post mortem. Além dos obituários e do lamento de seus leitores, apareceu uma fila de ex-namorados e conhecidos escrevendo enlouquecidas colunas. Pessoas que conviveram com ela, que a viram uma ou outra vez, que beberam algo em sua companhia, que a beijaram ou ficaram com ela, muita gente desejou registrar o quanto gostava e admirava Ana C. Porém, o que mais estarrecia eram os citados namorados. Inacreditáveis, pareciam dispostos a uma competição de visceralidade e mau gosto, da qual estava livre Marcos Augusto Gonçalves e outros poucos. Desejavam comprovar sua (ou uma) intimidade com detalhes e mais detalhes. Tal fato é tanto mais espantoso quando comparado com a enorme elegância da poetisa.
Sinto ciúmes desse cigarro que você fuma
Tão distraidamente.
Tudo foi muito rápido para Ana Cristina Cesar. Aos seis anos, antes mesmo de ser alfabetizada, ditava poemas para sua mãe escrever. Em 1969, aos 17 anos, foi para Londres num intercâmbio, voltando apaixonada pela literatura de língua inglesa, e principalmente pelas obras de Katherine Mansfield, Sylvia Plath e Emily Dickinson. Aos 19, começou a cursar Letras na PUC-RJ, além de traduzir e escrever. Tornou-se uma espécie de musa da geração mimeógrafo, que distribuía poesia em folhas de ofício grampeadas, saídas das máquinas das universidades. Logo Ana começou a ser publicada pelos jornais alternativos e revistas e para depois aparecer em edições independentes. Seus livros, sempre pequenos, tinham o poder de multiplicar-se e podiam ser encontrados não somente no Rio de Janeiro. Enquanto isso, a autora fazia mestrado em comunicação na UFRJ e em tradução na Inglaterra. No ano de 1980, publicou o livro de crítica Literatura não é documento e, em 1982, A teus pés (1982), que reunia três livros independentes anteriormente publicados: Luvas de pelica, Correspondência completa e Cenas de Abril. A teus pés, publicado pela Brasiliense em 1982, é, na verdade, uma série de fragmentos que misturam poesia, cartas e diários em linguagem confessional. É leitura obrigatória em diversos concursos vestibulares pelo país.
Percebo que o lance de notações tipo agendinha tem a ver com certa briga entre fora e dentro, registro e psicologia, cenografia e interioridade. Registrar com um muxoxo de quem não pudesse derramar. Mas para não ficar neo-realista só vale se a tensão passar. Tem mais aí? Ai, um batonzinho.
Ana teve outros volumes publicados após sua morte em 1983. Há Critica e tradução, um volume de 464 páginas lançado pela Ática em 1999 e que é outra reunião de livros menores — Escritos no Rio, Escritos da Inglaterra e Literatura não é documento — e que inclui uma tradução anotada do célebre conto Bliss, de Katherine Mansfield. Sobre traduções, ela escreveu:
A entrelinha quer dizer: tem aqui escrito uma coisa, tem aqui escrito outra, e o autor está insinuando uma terceira. Não tem insinuação nenhuma, não. (…) Eu acho que, no meu texto e acho que em poesia em geral, não existe entrelinha. (…) Existe a linha mesmo, o verso mesmo. O que é uma entrelinha? Você está buscando o quê? O que não está ali?
Apesar do fato de a palavra “marginal” parecer adequar-se muito pouco a esta mulher do século XIX, disfarçada em século XX, o periférico acompanha-a mesmo, hoje, 29 anos após sua morte. Ao lado dos estudos acadêmicos e livros a ela dedicados, além dos artigos publicados em revistas e jornais, uma consulta ao Google fará com que nos deparemos com algo muito mais forte e vivo: um número anormal de blogs que ora lhe são dedicados inteiramente ou com posts onde ela é citada com devoção. Nestes posts, o lado confessional de sua literatura é explorado nos mínimos detalhes.
Noite de Natal
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera(A teus pés, pág. 62)
Ana Cristina, ou Ana C., como é mais conhecida, não deixou bilhete de despedida. Deixou poesias. Sabe-se pouco dos motivos que a levaram ao suicídio. Ela recém voltara de Londres, estava deprimida, tentara matar-se dias antes afogando-se no mar, em episódio mal descrito pelos biógrafos, até chegar ao ato final no apartamento dos pais. Enquanto sua literatura desenha uma rarefeita fronteira entre o ficcional e o autobiográfico, suas fotos mostram uma moça muito sorridente. Quem conheceu Ana, fala de uma pessoa de poucas palavras, mas de expressão clara, cristalina. Heloísa Buarque de Hollanda foi uma das primeiras ensaístas a reconhecer o valor de seus trabalhos, “eles possuem um traço diferente, extremamente pessoal, que não dá para classificar de modo nenhum como marginália ou algo parecido”.
Enquanto leio meus textos se fazem descobertos. É difícil escondê-los no meio dessas letras. Então me nutro das tetas dos poetas pensados no meu seio”. (Ana Cristina Cesar, Inéditos e Dispersos).
Seus leitores procuram textos que se relacionem com seu suicídio. Mas qualquer certeza a esse respeito é fantasia. Ana desenvolveu alguns de seus melhores trabalhos ao traduzir as poesias de Sylvia Plath (1932-1963), outra poetisa, outra suicida. Um destino muito igual numa idade muito igual o dessas duas mulheres que não conseguiram viver, mas expressaram sua dor da forma mais pura possível.
Soneto
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou euQue uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimentoFingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana CristinaE que se diz ser alguém
É um fenômeno maior
Ou é um lapso sutil?
Ainda provocando paixões por seus textos e poemas, esta filha da poesia marginal dos anos 70 traz e atualiza dois gêneros usualmente considerados literatura menor: a carta e o diário. São retalhos nostálgicos — quase sempre sucintos, sem beletrismo e adjetivação — que usam o coloquial, mas também exploram de forma muito original a interação entre o sujeito lírico e seu leitor implícito.
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.

Inéditos e Dispersos é outra coletânea que a Brasiliense publicou no início dos 80. Há passagens esplêndidas, mas o livro é muito irregular, deixando claras a limpeza de suas gavetas e papéis. Até bilhetes foram publicados. Ana certamente cortaria muita coisa deste livro.
Ao lado dos textos que estão sendo publicados neste fim de semana nos jornais e sites, está marcada para o próximo dia 6 de junho, às 20h, o Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, uma homenagem a Ana Cristina Cesar. Ana 60 Cesar será um bate-papo entre o poeta Armando Freitas Filho, que foi grande amigo de Ana C., e a escritora e professora de teoria crítica da cultura da UFRJ Heloisa Buarque de Hollanda, de quem a homenageada foi aluna. O evento, aberto ao público, será gratuito, com distribuição de senhas a partir das 19h.
Olho muito tempo o corpo de um poema
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
Ausência
Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade – Com o pensamento em Ana Cristina)
Mujica, estoy listo para ser uruguayo
Enchi o saco de ser gaúcho y ahora estoy listo para ser uruguayo. Como escreveu o Samir Oliveira, colega do Sul21, as razões são múltiplas. Não, não queremos essa bobagem de meramente se separar do Brasil, queremos é ser anexados, queremos ser regidos por leis uruguaias e ter Mujica como presidente. Bem, chega de tanta euforia, vamos às razões:
— Senado uruguaio aprovou hoje a descriminalização do aborto.
— Nosso Presidente José Mujica já afirmou que irá sancionar a lei.
— O Mesmo Presidente enviará para nosso Congresso uma proposta de regularização do plantio e comércio de maconha pelo estado.
— Este é o Mesmo Presidente que circula por Montevidéu em um fusca, dispensando aparato de segurança e que vive tranquilamente em uma chácara com sua mulher.
— Como se não bastasse, doa mais da metade de seu salário.
Queremos ser o vigésimo departamento do Uruguay (com ípsilon). A ser periferia de Sâo Paulo, preferimos ser de Montevidéu.
Foi bom ter sido gaúcho. Agora quero mais.
#GovernaEuMujica
Com Samir Oliveira e Igor Natusch.
O salto supersônico de Baumgartner
O salto foi de uma altura de 39.045 metros, uma paisagem realmente vertiginosa (desculpem, desculpem). Felix Baumgartner, 43 anos, saiu de dentro de uma cápsula que fora içada por um imenso balão. De lá, ele saltou e acelerou até chegar a 1.342,8 km/h, ultrapassado a velocidade do som, batendo os recordes anteriores. O salto supersônico de Baumgartner é sensacional.
Drops
Enquanto Serra fala pejorativamente no kit-gay do Haddad — na verdade falando sobre o kit anti-homofobia, criado durante a gestão de Haddad no Ministério da Educação com a finalidade de combater a discriminação sexual nas escolas públicas –, enquanto Malafaia é personagem principal da campanha, fico pensando se estas distorções religiosas baseadas na desinformação resolvem alguma coisa. Será que Serra vai subir nas pesquisas? Espero que não. São Paulo não deve ter quase problemas, né?
.oOo.
Gostaria que houvesse um IDH que pudesse medir as câmaras de vereadores recém eleitas. Podiam falar com com o Amartya Sen… A de Porto Alegre não recomenda muito. Tenho pena da Melchionna, do Ruas, da Cavedon, do Sgarbossa.
.oOo.
Poucos sabem aqui, mas eu gosto de tênis tanto quanto de futebol. Ontem, saiu o novo ranking. Roger Federer está com 12.165 pontos contra 11.970 de Novak Djokovic nas últimas 52 semanas. São apenas 165 pontos de diferença, mas há um detalhe que beneficia o sérvio. Em 2012, Nole somou 11.410 pontos, contra 9.255 do suíço. São 2.155 de vantagem, com apenas três torneios restando no calendário: Basileia (500), Paris (1.000) e ATP Finals (1.500). Isto é, Federer tem muitos pontos a defender e provavelmente deixará de ser o número 1 nas próximas semanas. Mas isto é daquelas probabilidades das quais a gente duvida. Federer sempre tira um coelho da cartola, mesmo que Nole esteja voando.
.oOo.
O Inter? Mas por que deveria falar dele? Gente, o ano acabou. Agora são as eleições. Fim.
.oOo.
Na segunda quinzena de novembro, vou tirar férias com uma missão: a de arrumar os livros em casa. Não consigo encontrar nada. 15 dias para fazer tudo. A partir de hoje, tenho 30 dias para planejar a colocação das estantes e coisa e tal. Estou com férias em atraso, completando dois anos. (Mas, após uma procura insana, acabei encontrando o livro que queria emprestar para a Natália Otto, se ela ainda estiver interessada. De que vale uma biblioteca se não encontramos nada nela?)
.oOo.
Brasil enfrenta o Japão neste momento. Escuta, alguém dá bola pra seleção do Mano?
Um resuminho de "A Privataria Tucana", de Amaury Ribeiro Jr. Bom saber.
O PHES sob o julgamento dos deuses
Clique AQUI para ver a criação da Caminhante. Para quem não sabe PHES é a seção Porque hoje é sábado.
Gustav Mahler, Sinfonia Nº 2 / Dudamel · SBSOV · NYCGB · BBC Proms 2011
Maurice Ravel, La Valse
Testar permanentemente Sua consistência
O livro das coisas santas, de Carlos Mota de Oliveira
Este livro me foi enviado pelo poeta e amigo Fernando Monteiro com o seguinte recado: “Vosmicê vai adorar este anticlericalíssimo livro!”. E gostei mesmo. E dei risadas ou sorri dentro dos ônibus onde o li. O livro das coisas santas (Editora Fenda, Lisboa, 1995) tem apenas 150 páginas, mas há nele 258 capítulos, um dedicado a cada Papa. Como já tivemos 265 Papas, há um pequeno capítulo para praticamente cada um deles. Os capítulos consistem de trechos escritos pelos Santos Padres, ou depoimentos ou pequenas histórias que caracterizam o Bobão da vez. Há sequências absolutamente hilariantes, absurdos difíceis de se acreditar, mas que, quando fazemos uma breve conferência nas Histórias dos Papas disponíveis na rede, ficamos sabendo que o português Carlos Mota de Oliveira não está mentindo, apenas descrevendo as ações do santo homem sob uma perspectiva mais real. Homens como nós, há papas para todos os gostos. Austeros, sexualmente ativíssimos, violentos, assassinos, guerreiros, santos, gays como Martinho IV (1281-1285), simplesmente doidos varridos, os Papas são sempre engraçados. Como o seríssimo Papa Paulo VI (1963-1978), ao explicar a uma alegre delegação de padres africanos que lhe chegaram de Angola para uma visita, que ser um sacerdote é não ser um chocolate. “O sacerdote, mesmo os africanos, devem ser escutados pela congregação, nunca saboreados”.
Livro ideal para dar de presente àquele seu amigo católico. Faça-o já. Há seis exemplares disponíveis na Estante Virtual. A capa é maravilhosa ao demonstrar já de cara a irresistível pedofilia dos castos homens da igreja.
A verdadeira carta de Einstein sobre Deus é leiloada no eBay, mas é bom saber seu conteúdo
Tirado daqui, ó. Só não coloquei as fotos das cartas a serem leiloadas.
Um ano antes de morrer, o célebre físico Albert Einstein escreveu, em 24 de março de 1954, uma carta ao filósofo judeu Eric B. Gutkind, expressando sua visão sobre o povo judeu, as religiões e a existência de Deus. O documento estará em leilão no eBay de 8 a 18 de outubro, com lance inicial de US$ 3 milhões (mais de R$ 6 milhões).
“Estamos excitados por oferecer a uma pessoa ou organização a oportunidade de possuir um dos documentos mais intrigantes do século 20″, disse Eric Gazin, presidente da Auction House (agência que está cuidando da venda), em entrevista ao LiveScience. “Esta carta pessoal de Einstein representa um nexo entre ciência, teologia, razão e cultura”.
Einstein x Deus e as religiões
A carta era uma resposta do físico ao livro de Gutkind “Choose Life: The Biblical Call to Revolt” (“Escolha a Vida: A Chamada Bíblica à Revolta”), no qual o filósofo sustentava a ideia de que os judeus eram um povo de “alma incorruptível”. “A alma do povo judeu nunca foi uma alma de massas. A alma de Israel não poderia ser hipnotizada; nunca sucumbiu a ataques hipnóticos (…). A alma de Israel é incorruptível”, escreveu.
Einstein não concordava:
Para mim, a religião judaica é, da mesma forma que todas as outras, uma incarnação das superstições mais infantis. E o povo judeu, ao qual eu pertenço com boa vontade, e que tem uma mentalidade com a qual tenho uma afinidade profunda, não tem, para mim, uma qualidade que o difere de qualquer outro povo. Até onde minha experiência vai, ele também não é melhor que outros grupos humanos, embora esteja protegido dos piores cânceres por falta de poder. Fora isso, não consigo ver nada de ‘escolhido’ sobre ele.
No final de sua vida, Einstein se mostrou contrário às religiões. Mas ele acreditava em Deus? Não exatamente, como se lê em uma carta escrita em 24 de março daquele mesmo ano:
Foi, é claro, uma mentira o que você leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que foi repetida de forma sistemática. Eu não acredito em um Deus pessoal, nunca neguei isso, mas expressei de forma clara. Se algo em mim pode ser chamado de religioso, é minha ilimitada admiração pela estrutura do mundo que nossa ciência é capaz de revelar.
Na carta a Gutkind, Einstein disse que a palavra “Deus” nada mais era do que “a expressão e produto da fraqueza humana, e a Bíblia, uma coleção de honoráveis, porém primitivas lendas que eram no entanto bastante infantis”.
Comentário de Milton Ribeiro:
Trá-lá-lá!
Ospa: o melhor concerto de 2012? Acho que sim

Bom repertório, bom maestro, bom solista e uma orquestra inspirada fizeram ontem à noite um dos melhores concertos de 2012, talvez o melhor de todos. Foi o conserto do concerto, se me entendem. Chovia muito e a Assembleia Legislativa ficou com pouco mais da metade de suas dependências ocupadas, apesar do ingresso gratuito.
A primeira obra foi o famoso Concerto para Violino, Op. 64, de Felix Mendelssohn. É uma obra em três movimentos interligados que recebeu eficiente interpretação do solista nipo-germânico Koh Gabriel Kameda, sobre o qual tínhamos especial curiosidade. Afinal, o cara toca num Stradivarius de 1727. Kameda é um excelente violinista, as notas estão todas lá, mas acho que ele pecou na interpretação um pouco dura demais. Aquilo prejudica até o som privilegiado de seu violino. Meu entusiasmo por ele é limitado, mas tenho que dizer que o aplaudi muito. É que a memória do concerto de Mendelssohn ficou prejudicada pelo que veio depois e que foi muito, mas muito maior.
Ah, Kameda e a Ospa deram um bis com Oblivion de Astor Piazzolla. Engraçado, aqui Kameda perdeu a contenção, fazendo exatamente o que dele se esperava no Concerto. Enfim, coisas.
Tenho uma relação especial com a Sinfonia Nº 9 de Franz Schubert, apresentada após o intervalo. No dia 10 de dezembro de 1993, encontrei meu pai à noite num supermercado. Como sempre fazia com ele – e ele comigo – vim sorrateiramente por trás e fingi dar-lhe um encontrão. Depois, conversamos umas bobagens e nos despedimos. No dia seguinte, às 6h, ele estava estirado no banheiro de casa, morto, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Meio perdido, andei pela sala e resolvi abrir o CD Player para ver o que estava ali dentro. A última música que ele tinha ouvido fora a Sinfonia Nº 9, A Grande, de Schubert, com Claudio Abbado e a Chamber Orchestra of Europe. Nos dias posteriores, ouvi loucamente aquela música belíssima. Conheço-a em detalhes, claro. Qualquer psicólogo de farmácia dirá que eu tentei trazê-lo de volta através da Sinfonia, mas que ela não era tão grande assim. Mas, enfim, o concerto…
Ou o regente Pedro Calderón deu total liberdade ou foi muito bem compreendido pelos músicos. Isto era visível pela felicidade de todos. As cordas estiveram perfeitas numa obra longa em que elas trabalham o tempo inteiro.
O primeiro movimento inicia com um solo de trompa que foi executado na medida por Israel Oliveira. Todo o Andante – Allegro ma non Troppo recebeu a seriedade que merece, mas Calderón parecia ter a clara intenção de nos mostrar que seu Schubert era o dos lieder, o das canções. O segundo movimento (Andante con Moto)tem importante participação das madeiras e das flautas – destaques sempre e sempre para Viktória Tatour e Klaus Volkmann – e foi talvez o grande momento da noite. Há ali um tema puxado pelos segundos violinos que depois é “cantado” por toda a orquestra. Sim, ele foi “cantado” por todos os instrumentos como poucas vezes ouvi. Era pura felicidade dentro de uma melodia que nos remete novamente às canções schubertianas. Quem esteve lá ouviu. No Allegro Vivace que fecha a nona com algumas curtas referências a sua irmã de Beethoven, o entusiasmo de todos era tamanho que a batuta de Calderón acabou saltando de sua mão, voando sobre a cabeça dos spallas Omar Aguirre e Emerson Kretschmer, caindo atrás deles. Calderón seguiu o baile. Este Calderón – um argentino que deve ser octogenário — podia vir mais vezes, não? Ninguém vai se incomodar.
Foi maravilhoso. Gosto de observar a plateia na saída de shows, filmes e concertos. Ela saiu nas nuvens, vinda de um mundo absolutamente feliz. Estavam sem medo da chuva, também. Notei uma mulher que saiu à rua com total naturalidade e uma sombrinha na mão. Achei graça. Como prestar atenção a um mero guarda-chuva depois daquilo?
Programa
Felix Mendelssohn: Concerto para Violino, Op. 64
Bis: Astor Piazzolla: Oblivion
Franz Schubert: Sinfonia nº 9
Solista: Koh Gabriel Kameda
Regência: Pedro Calderón
Anotações sobre sexo no Ulysses de Joyce (terceira parte de três)
Com importantes mudanças e uma vontade incrível de ampliar a parte do monólogo de Molly. Mas, por enquanto, deixemos assim.
Primeira parte: Anotações sobre sexo no Ulysses de Joyce (Primeira parte de três, quatro ou mais)
Segunda parte: Anotações sobre sexo no Ulysses de Joyce (Segunda parte de três ou quatro)
Os monólogos interiores de Ulysses ainda eram uma novidade na época do lançamento do livro. Na verdade, o stream of consciousness não foi uma invenção de Joyce e sim do francês Édouard Dujardin, cujo livro Os loureiros estão cortados foi lançado pela editora porto-alegrense Brejo, em 2005, com prefácio explicativo de Donaldo Schüller. O monólogo interior permite ao leitor de Joyce, fazer o contraste entre a riqueza da vida imaginativa de um indivíduo contra o fundo da pobreza de suas relações sociais. Quando comparados com a vida interior dos personagens, os diálogos de Ulysses não são grandemente satisfatórios. Leopold Bloom não perdoa as traições de Molly verbalmente, porém sabemos detalhadamente, por seu íntimo, que ela está perdoada. Os personagens do Ulysses são enorme, imensamente fluentes em seus interiores, mas não são nada articulados verbalmente. Vão embora sem dizer o que têm em mente e é apenas na solidão que alcançam suas verdadeiras vozes. O que dizer do monólogo final de Molly Bloom? Ali ela expõe-se de uma forma muito transgressora — não está sozinha enquanto o marido dorme ao lado? — , tem fantasias que surpreendem mesmo um século depois. Joyce, escrevendo de dentro dos pensamentos do cérebro de Molly, constrói o gozo feminino com primeiro com liberdade e depois com humor, celebrando como nunca antes o desejo da mulher numa época em que a psicanálise ainda não o fazia.
Os encontros, como o de Bloom com Gerty MacDowell, são em geral sem palavras, conduzidos pelo corpo. Há muitas frases pela metade. Por exemplo, após masturbar-se na praia, Bloom escreve na areia “sou um”. O casamento com Molly também serve para ilustrar a falta de articulação. É uma ligação silenciosa de duas pessoas que compartilham uma casa, uma cama, quem sabe amor, mas não uma vida.

E Bloom, como dissemos, comporta-se estranhamente para um homem da virada do século. Arruma a cama, limpa o lençol, tem sentimentos de empatia para com uma mulher grávida, preocupa-se com a filha, morre de saudades do filho, têm fantasias de que está grávido. Mais: Bloom sente-se inconformado e invejoso pela centralidade da mulher no processo dar à luz. Seis semanas antes de seu filho Rudy nascer, é visto comprando uma lata de alimento infantil, o que prova para seus amigos que ele não é bem um homem. Pior: eles dizem que ele, uma vez por mês, fica com dor de cabeça “como uma franguinha com as regras”. Também como talvez uma mulher fizesse, ele evita que Gerty o veja de perfil, quer que ela o veja em seu melhor ângulo. Depois Gerty faz o mesmo.
Ulysses borra a distinção entre os sexos. No episódio “Penélope”, o leitor entra nos pensamentos de Molly enquanto ela se encontra na cama ao lado de Bloom, ao final do dia. O monólogo revela a promiscuidade de Molly, suas lembranças de relacionamentos anteriores e memórias de sua família. Quando lembra da amamentação de Milly, ela fala que algumas vezes amamentou simultaneamente também a Bloom: “Eu pedi para chupar meus seios, ele disse que o que saía era doce e mais espesso do que o das vacas”. Enquanto muitos acharam e ainda acham isso o cúmulo da pornografia, talvez seja melhor relacionar a cena à sugestão de que a mulher pode ser uma provedora familiar ou que pode rebaixar o homem a uma posição infantil. Nas duas hipóteses, o texto de Joyce subverte a masculinidade.
Em seu ensaio prévio à última edição do Ulysses, Declan Kiberd afirma que na verdade, Bloom e sua esposa comportam-se como verdadeiros andróginos. Eles seriam “encarnações das palavras de Freud de que mulheres dominadoras e viris são atraídas e atraentes para os homens femininos”. A sensibilidade associada à feminilidade e a agressividade associada à masculinidade não funcionam para o casal. No entanto, as qualidades femininas de Bloom e as dominadoras de Molly não garantem uma vida sexual em comum e a impressão que fica é de uma incompatibilidade confortável para ambos. No monólogo, Molly exibe suas características masculinas na recapitulação de seu primeiro encontro sexual com Bloom em Howth Head, em consonância com que já sabíamos de Bloom: “Ela me beijou. Fui beijado. Estava à sua mercê e ela arrumou meu cabelo. Beijado. Ela me beijou.” (A simbologia adquire mais força quando ele recorda que Molly, em seu primeiro encontro, mastigou um pedaço de bolo e, beijando-o, colocou-o quente e mastigado em sua boca), como se fosse uma mamãe pássaro.


Bloom não deseja impedir o adultério de Molly com Blazes Boylan. Ele chega a imaginar uma cena na qual entrega sua esposa a Boylan. Essencialmente, ele permite a infidelidade da esposa para que ela possa experimentar o prazer enquanto ele procura a sua própria e particular satisfação com as mulheres de Dublin.
Em Ulysses, Joyce tenta descrever outras situações da sexualidade humana, ainda não presentes em romances. Joyce não julga nem demonstra desejo de advogar como acertadas, entre aspas, determinadas práticas ou condutas sexuais, mas revela a inconsistência dos comportamentos estereotipados de gênero, ao mesmo tempo que coloca o desejo no centro de muitas, muitíssimas de nossas ações.
Além de contradizer a sociedade, Joyce igualmente contradiz a religião. A masturbação de Bloom é justaposta a um serviço religioso, claramente a fim de comentar as restrições que a religião coloca sobre as expressões sexuais pessoais. Descrevendo o Bloom onanista, com o serviço religioso ocorrendo em background, Joyce faz várias citações bíblicas, transformando Gerty num piedoso emblema de uma Virgem Maria de natureza libidinosa, que incita Bloom. Joyce parece fazer piada com a possibilidade da religião dominar o desejo carnal, apresentando a concupiscência como um componente óbvio e intrínseco a toda a existência humana. E segue desafiando modelos quando Bloom se envolve em encontros voyeuristas durante sua jornada em Dublin.
Joyce conhecia e respeitava Freud, porém Ulysses não necessariamente se encaixa nas obras dos psicanalistas da época. A incorporação da sexualidade pelo Ulysses exemplifica principalmente um não-conformismo. Durante todo aquele 16 de junho, os protagonistas do Ulysses tiveram que enfrentar muitas coisas. Porém, quando focamos uma lente crítica sobre as representações de sexo no romance, podemos notar como Joyce foi cuidadoso ao construir e apresentar os apetites sexuais de cada personagem. Ao usar o sexo como uma ligação entre seus personagens e leitores, James Joyce foi capaz de criar representações universais formadas por muitas camadas. Notem como o romance é finalizado com o orgásmico “sim” de Molly, algo que é final e evidentemente muito afirmativo. Foi certamente a primeira vez que tivemos acesso a tamanha interioridade. O recurso narrativo do fluxo de consciência, despregado das limitações dialogais, demonstra claramente cada identidade.
Segundo Álvaro Lins citado em artigo do escritor Franklin Cunha, Joyce foi “um revelador do caos num mundo em desordem”. Consciência e subconsciência, angelitude e animalidade, idéias e instintos, natureza física e natureza psíquica, é o ser humano sempre por inteiro que Joyce busca apresentar em sua obra. No imenso mar joyceânico nenhuma concepção é ignorada, elas estão no livro e nas mentes dos personagens bem como estão as realidades que as representam. Segundo Edmund Wilson, Joyce, a partir desses eventos,” edificou um quadro espantosamente vivo e fiel do mundo cotidiano, o qual possibilita uma devassa e um acompanhamento das variações e complexidades de tal mundo, como nunca foi feito antes.
Estilisticamente pantagruélico, Joyce, em Ulysses, não apenas constrói o romance moderno como o ameaça com um catálogo aparentemente interminável de temas e estilos. E, dentro deste amplo cenário, invoca Eros como metáfora universal da condição humana.
Nada de choro, o fim-de-semana não foi tão ruim assim
Pensem como esta eleição foi boa:
1. Haroldo de Souza está fora da câmara dos vereadores de Porto Alegre.
2. O Brasinha também.
3. Mônica Leal idem, mas acabará certamente em alguma secretaria.
4. Outra boa notícia é que Tarsila Crusius não emplacou.
5. Os jogadores de futebol que estrearam na política também não foram eleitos.
6. A Universal ficou de fora com Russomanno.
7. O vereador mais votado de Florianópolis é gay.
8. E, hoje, no Chile, estudantes anunciaram uma greve e convocaram manifestação nacional — Me gustan los estudiantes. Chances de ver novamente Camila Vallejo, mesmo ela não sendo mais a presidente da Fech? Saudades.
9. Bem lembrado, Lennon: e o Chávez ganhou!
Os primórdios do gonzo em Diário de um Jornalista Bêbado
Publicado em 2 de junho de 2012 no Sul21.

O filme Diário de um Jornalista Bêbado reúne algumas importantes celebridades. A primeira é o autor do livro que deu origem ao filme, Hunter S. Thompson (1937-2005). Thompson não é apenas o autor do livro The Rum Diary, mas também um dos jornalistas que criou o gonzo. O jornalismo gonzo é um estilo de narrativa jornalística ou cinematográfica onde o autor abandona a objetividade ou o distanciamento, misturando-se à ação, argumentação ou enredo. Além de Thompson, o diretor Bruce Robinson é uma dupla ou tripla celebridade. Diretor de cinema de mão cheia, roteirista e dramaturgo de sucesso, Robinson também é ator – muitos devem lembrar-se dele como o ator principal do clássico A História de Adèle H., de François Truffaut. Como artista de múltiplos talentos, Robinson é competente porém bissexto em tudo o que faz, tanto que dirigiu apenas quatro filmes nos últimos 25 anos. E a terceira celebridade é o ator que encarna Thompson, Johnny Depp, que dispensa apresentações e que acumula em si o fato de ter sido amigo pessoal do jornalista. Em 1998, Depp atuou na adaptação de outro livro de Thompson, Medo e delírio (Fear end loathing in Las Vegas), lisérgico filme de Terry Gilliam.

Para além do jornalista e escritor, Thompson ficou conhecido pelo consumo intensivo de bebidas alcoólicas, LSD, mescalina e cocaína, entre outras substâncias. Também era sobejamente conhecido seu amor às armas de fogo, 0 ódio a Richard Nixon e o constante combate ao autoritarismo. Sofrendo graves problemas de saúde, cometeu suicídio em 2005, aos 67 anos.
O termo “gonzo” foi criado por Bill Cardoso, repórter do Boston Sunday Globe, para se referir a um artigo de Thompson. Segundo Cardoso, a palavra seria uma gíria irlandesa do sul de Boston para designar o último homem em pé após uma bebedeira generalizada. Por exemplo, a reportagem Fear and Loathing in Las Vegas — lançado em livro no Brasil em 1984 como Las Vegas na Cabeça – , era planejado como uma matéria sobre uma corrida no deserto, a Mint 400, que fora encomendada pela revista Rolling Stone. Porém Thompson gastou todo o dinheiro com drogas e álcool, fez dívidas, destruiu quartos e fugiu sem pagar. Em lugar da matéria que deveria escrever — sobre um evento esportivo — , o resultado foi a descrição de um ambiente, digamos, bastante distorcido pelo original ponto de vista do autor.

O jornalismo gonzo costuma favorecer o estilo em detrimento da realidade a fim de alcançar outro tipo de precisão, ou de imprecisão, permeada pelas experiências pessoais e as emoções do autor, fornecendo um contexto parcial — apesar de profundo — do evento ou tema que está sendo coberto. O equilíbrio e equidistância da edição são deixadas de lado em favor de uma abordagem participativa. A personalidade e a opinião do autor interagem com o tema e o uso de citações, sarcasmo, humor e palavrões é comum.
Thompson baseou seus trabalhos no conceito de William Faulkner de que “a ficção é frequentemente o melhor fato”. Apesar de Thompson não ter criado ficção, ele sempre fazia uso da sátira e do exagero em seus textos. O termo “gonzo” também é muitas vezes utilizado pejorativamente para descrever uma espécie de fluxo de consciência nada joyceano, regido menos pela erudição do que pelo álcool e as drogas. Na verdade, o New Journalism proposto por Thompson é uma radicalização do já existente jornalismo literário, uma abordagem que se utiliza da literatura, da arte e do humor negro a fim de afrontar o senso comum americano.
Tom Wolfe afirmou em entrevista que a cena jornalística entre os anos 60 e 70 estava cheia de literatos em busca de escrever “o grande romance”. O emprego numa redação era algo passageiro, algo que lhes daria inspiração para este texto seminal. Wolfe descreve aquele ambiente como “um enxame de fantasias fervendo, proliferando no húmus do ego da América”. Foi neste contexto que prosperou o talento de Thompson.

Obviamente, as tentativas de Thompson seriam ignoradas se ele fosse um escritor menor. Não era o caso. De escrita exagerada e sempre imerso no ambiente da notícia, Thompson era dotado de uma visão artística dos fatos que se aliava a um notável talento descritivo. Recorria muitas vezes às hipérboles, como dissemos. Thompson costumava fazer-se acompanhar não de um fotógrafo, mas de um ilustrador. Uma lente seria realista demais. Então, o desenhista Ralph Steadman dava-lhe um gênero de apoio que nenhum fotógrafo obteria, o de adaptar-se perfeitamente ao texto, vendo os acontecimentos sob a perspectiva dos exageros e da literatura do autor. Seus textos giravam basicamente sobre sexo, drogas, política e esportes – raramente saía deste quarteto – e habitualmente eram iniciados por uma citação literária, fruto de uma memória digna de outro grande jornalista que consumia toneladas de álcool, Christopher Hitchens. Ele também não recusava as aspas e travessões para explicitar diálogos. Como um romance.
O filme de Bruce Robinson é consistente e bastante fiel ao livro e à personalidade de Thompson. Paul Kemp é evidentemente um alter ego do autor. Assim como Kemp, Thompson foi a Porto Rico no começo dos anos 60 para trabalhar como jornalista num periódico que logo fechou. De início é complicado ver em Johnny Depp, de 48 anos, um jovem jornalista de menos de 30 anos, mas sua atuação é tão convincente que esquecemos rapidamente do fato. Vendo vídeos de Thompson no YouTube, notamos o quanto não são casuais os tiques nervosos de Deep no filme de Robinson. Deep era efetivamente íntimo do jornalista, tanto que foi ele quem incentivou a publicação de The Rum Diary, escrito nos anos 60 e só publicado em 1998.
A história é simples: Paul Kemp candidata-se a uma vaga num jornal de San Juan, Porto Rico. Sempre bêbado e provavelmente com o mercado fechado para ele nos EUA, Kemp é admitido, recebendo a missão de escrever a coluna de horóscopo. Então, é convidado por um investidor americano para auxiliar em um grande e abusivo empreendimento imobiliário. Ele escreveria textos que levariam a opinião pública a simpatizar com a mega-construção. Assim, ele passa a viver entre o trabalho, o frila, a péssima moradia que arranja, o interesse na mulher do investidor e o rum, principalmente o último. Várias cenas com seus colegas Sala e Moberg (Michael Rispoli e Giovanni Ribisi) são hilariantes, tanto pelas bebedeiras quanto pelas situações em que se metem. Como trata-se de um texto de juventude, Thompson ainda gira em torno do rum, sem experimentar as drogas presentes em Medo e Delírio, livro posterior e filme mais antigo.

Mas há uma cena que liga Medo e Delírio ao Diário. É quando Kemp experimenta ácido e, sob sua influência, vê o amigo Sala sob um formato delirante e engraçadíssimo. Se Medo e Delírio levava isso ao extremo, Diário de um Jornalista Bêbado encaminha o gonzo com maior sutileza, mas nunca sem defini-lo ou demonstrá-lo.










































