Falcão já vai tarde

Sou a pessoa menos indicada para chorar a saída de Falcão. Na verdade, fui contra sua entrada desde o primeiro momento. Em minha opinião, sua coleção de fracassos pregressos o condenava. E, com efeito, desde a saída de Celso Roth, o time pouco evoluiu: a dinâmica não funcionava em campo; a defesa só excepcionalmente não falhava; Bolívar e seus asseclas permaneceram como os intocados donos do vestiário; as substituições eram muito confusas — lembram da entrada de Ricardo Goulart para “virar” o jogo contra o Peñarol? — ; o horrendo, verdadeiramente funesto Nei era incontestável; o time jogava uma bem e duas mal; os jovens só entravam no time à fórceps — lembram que Falcão acusou Oscar de não ter massa muscular dias poucos antes de ele tornar-se fundamental, etc. Falcão, amigos, estava perdido e a fraca atuação contra o São Paulo é emblemática.

O gesto mais comum de Falcão como técnico

É óbvio que o presidente que o contratou é o mesmo que agora o demite com estardalhaço. Se havia incompetência à beira do gramado, havia também e há ainda nos gabinetes. O regime do clube é presidencialista e nunca Giovanni Luigi deveria ter permitido a entrada como treinador de alguém que agredia suas concepções, fossem elas quais fossem. O que sei que elas nunca foram lá muito fortes… Ou seja, se houve incompetência de um, houve o mesmo do outro lado, que confiou o futebol a um homem que… Bem, eu não deixaria meu cachorro para o diretor de futebol Roberto Siegmann cuidar. Agora, Luigi demite os dois e, aparentemente, pretende retomar o vestiário. Bem , mas se quiser tirar o poder de alguns antigos líderes, só fazendo uma limpeza geral. Eu duvido.

Talvez seja pedir demais, mas eu aconselharia profissionalismo à diretoria do Inter. Falcão sempre me pareceu um diletante bem intencionado, um comentarista que desceu ao campo, uma aposta na mística de um ídolo, nunca alguém capaz de alterar e treinar um time taticamente. Sou muito mais um Diego Aguirre ou mesmo Dunga, que tem comando de vestiário e é muito mais divertido com a imprensa. Só a perspectiva de respostas atravessadas e as possíveis brigas com os repórteres de determinadas emissoras já me animam.

Caiu Falcão. Falta cair Bolívar e sua turma de titulares por decreto. Se Luigi reconquistar o vestiário e a disputa por titularidade, se houver o acesso dos jogadores mais jovens, ele pode virar o jogo. Não torço contra Luigi apenas por achá-lo tolo. Porém, se Fernandão for um gerente de futebol — se for mesmo contratado — apoiado na liderança de Bolívar, podemos esquecer.

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Mudança II

Relativamente ao post Mudança, o Ivo Moreno Neto completa (estou a 50 metros da esquina com a Riachuelo):

Entra à esquerda na Riachuelo tem o café do Cultural, outro Beco, Livraria Isasul, Livraria Mosaico, Martins Livreiro, Livraria Solaris, Livraria Vozes, Instituto Histórico Geografico, duas livrarias jurídicas, Kantô – comida japonesa , Casa do Estudante, 2 butecos, uma lotérica, e deve ter uns dois puteiros discretos, familiares, nos andares de cima.

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Reações de um torcedor do River

Este vídeo foi visto no YouTube por 5.400.000 vezes até agora. Eu assisti este jogo ao vivo. É Belgrano 2 x 0 River, primeira partida das duas que levou o River à Série B argentina. Talvez alguns brasileiros — principalmente os colorados, santistas, são-paulinos, flamenguistas e cruzeirenses — não saibam o que significa isso. Aliás, nem os outros sabem, pois o que ocorreu foi muito maior do que uma simples queda. Estamos na Argentina e uma ida à segundona do River ou do Boca é mais ou menos como Grêmio ou Inter, Cruzeiro ou Atlético-MG caírem para a segunda divisão DE SEUS ESTADOS, tal é o tamanho de suas torcidas. Esta é a analogia mais perfeita.

O jogo foi assim, para quem quiser entender o desespero do torcedor: na metade do primeiro tempo. Um pênalti que ninguém viu. Depois, no replay todos enxergam com estapafúrdia clareza um jogador do River desviando a bola com a mão num escanteio. Um gesto totalmente sem sentido. O Belgrano bate o pênalti, 1 a 0. No segundo tempo, logo de cara, mas um gol do Belgrano. Passam 10 minutos e torcedores do River invadem o gramado — o homem na cadeira congela, paralisado, vejam. Mas os hinchas não agridem seus jogadores. Apenas pedem mais garra, talvez num dos momentos mais patéticos que vi num jogo de futebol.

No segundo jogo, 4 dias depois, os mesmo times empatam em 1 a 1 e o River cai para a segundona. As imediações do Monumental de Nuñez, estádio do River, são destruídas. Sob um frio de 0º, os bombeiros jogam jatos d`água nos torcedores a fim de acalmá-los. Imaginem que eles já tinham feito isso dentro do estádio, logo após a queda. Hoje, los hinchas de River fazem uma campanha para que o time não use a camisa oficial do clube na segunda divisão e sim outra, com uma faixa preta no lugar da habitual vermelha.

Divirtam-se.

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Mudança

O estranho em tudo isso é que nunca dei muita importância à localização de meu trabalho, sempre pegava minhas coisas, ia e fim. Mas agora é impossível ignorar. O Sul21 mudou-se para a Rua da Ladeira, também conhecida por seu nome oficial, Rua Gen. Câmara. Ficamos entre a Rua da Praia, de nome oficial Rua dos Andradas, e a Riachuelo.

Neste trajeto em subida, encontramos muitas atrações:

1. À direita, o Bar e Choperia Tuim (desde 1941).

2. Depois, ainda à direita, o sebo Ladeira Livros.

3. Atravessando a rua, o sebo Nova Roma.

4. Voltando ao lado direito da rua, um pequeno restaurante chamado Gramado Gold. Serve almoço ao custo de R$ 8,90 e, ao menos ontem, um café espresso aguado. Vão melhorar, espero.

5. No mesmo lado, o sebo Beco dos Livros.

6. Bem na frente, do outro lado da rua, claro, o prédio do Sul21.

7. Adiante, ao lado, o Cine Bancários.

8. Ainda à esquerda, o sebo Dante, que ou está em reformas ou está fechando.

9. Voltando ao lado direito, O sebo Estação Cultura e,

10. do outro lado, a Biblioteca Pública do Estado.

Nada a reclamar.

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Dickens, rest (and laugh) in peace

A obra de Charles Dickens está agonizando. Não a vejo mais por aí e não posso afirmar que esteja estar preocupado com o fato. Mas acho que dois de seus livros são muito bons: o livro de estreia Pickwick Papers e um dos últimos de sua enorme obra, Grandes Esperanças. Mas ele é mais conhecido pelo xaroposo Oliver Twist e pelo bom David Copperfield.

Seus livros demonstram a longa decadência de uma verve cômica para dar lugar à pieguice. Se os Pickwick Papers podiam rivalizar com Swift e Fielding, Dickens foi pouco a pouco aderindo às lágrimas até ficar um tio chato que chora por cada tristeza social e pessoal vitorianas. A exceção é o esplêndido e simbólico Great Expectations.

Hoje me acordei com um nome na cabeça: Samuel Weller. Li os Pickwick na casa da praia de meus pais, lá em 1972-3, tinha 15 ou 16 anos. A lembrança que tenho desta personagem é a melhor possível. Ignoro se era mesmo tão engraçado. Dando uma pesquisada rápida na Wikipedia, dou de cara com esta frase: A recepção do público a Pickwick não foi calorosa desde o início. Só quando aparece a personagem de Sam Weller, o criado de Pickwick e que acompanha as aventuras do seu amo ao jeito de um Sancho Pança ao lado de Dom Quixote, é que as vendas sobem de 400 exemplares para 40 000!

Lembro que há uma cena de caçada no livro na qual, durante a leitura, eu dava gragalhadas que me impediam de ler o livro. Tenho a impressão de que isto nunca voltou a acontecer, mesmo que eu tenha a maior admiração pelo escritos cômicos de muita gente, desde Sterne, Swift e Fielding até John Kennedy Toole, LF Verissimo e Cláudia Tajes.

Menos mal que tenho (ou tive) outros companheiros de leitura que também admiram o incrível mordomo do chefe do Clube Pickwick. Quando colocamos Sam Weller no Google Images, damos de cara com um monte de canecos de cerveja, bibelôs e pratos representando o personagem. Não sei que valor terá em antiquários.

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Música pra ouvir sentado, com Arthur de Faria e Seu Conjunto

No último sábado, fui assistir ao show de lançamento do CD Música pra ouvir sentado, de Arthur de Faria e Seu Conjunto lá no simpático e adequadíssimo Teatro de Arena. Arthur é um sopro de boas ideias num mundo povoado pela mesmice onde quase todos desejam ser mais e mais iguais àquilo que vende. Consciente de que não vai vender mesmo, segue impávido em faixa própria. Não que sua trajetória ignore o que vai no mundo — até muito pelo contrário, pois Arthur costuma povoar sua obra de referências — , o que ele ignora é o que vai na moda. Ele e o Seu Conjunto tocam milongas, habaneras, tangos, blues, chamanés, modinhas, etc., sempre com referenciais autênticos, quero dizer, de raiz.

Então, entramos eu e meus amigos e tudo começou às mil maravilhas com uma baita interpretação de Fables of Faubus de Charlie Mingus. Quando entraram as músicas de Arthur a qualidade musical foi mantida, o que não é pouca coisa. Como minha mulher tinha entrado com uma garrafa de vinho no bolso do casacão, passamos a nos divertir a valer com um show de alto nível. Era uma sucessão de boas músicas e arranjos quando algumas coisinhas lá depois da oitava música começaram a me incomodar. A primeiro problema é que os arranjos costumeiramente levavam a momentos bizarros de confusão. Não, não chega a ser de confusão, mas são momentos de impasse, como se a coisa não pudesse arredondar. É algo como está colocado carinhosa e jocosamente AQUI1 e AQUI2 relativamente à Beethoven.

Tudo bem, não sou conservador e minhas caixas de som suportam com tranquilidade dias e dias de dissonâncias e estranhezas, mas o esquema heterogêneo de cada música, com suas variações de ritmo, levava de alguma forma àqueles impasses…  Tá bom, isso a gente tira de letra. Mas e a invariabilidade timbrística?

Penso que aqui a coisa fique um pouco mais grave. O septeto inteiro participa de todos os temas. Sempre há, de uma forma ou de outra, a participação de todos. É claro que eles tocam em grupos, mas nos clímax sempre tocam todos. Então, por exemplo, há um fagote tocando blues. Mesmo que este seja pilotado pelo esplêndido Adolfo Almeida Jr., é pedir demais que o fagote seja eliminado do blues? Não dá, fica um blues feio, o sofrimento e seriedade implícitos do blues ganha um tom circense. Não é crime deixar um músico parado no palco, certo? Já na Valsa para Karina, escrita pelo mesmo Marcão Acosta, o fagote é fundamental, assim como em Solostrágicos, onde o Adolfo dá uma aula.

Quando cheguei em casa, fui ouvir o CD que comprara no final do show e a impressão repetiu-se. Após a faixa 10, uma ultraincorreta releitura de Prenda Minha, começo a cansar do timbre.

Ô, Arthur. Deixa os caras descansarem um pouco, tira alguns do palco de vez em quando! Varia o timbre!

Sim, eu sei que gastei mais espaço para criticar do que para elogiar um excelente show, é que o compadrio enche o mundo de baba e estou de saco cheio disso.

Além disso, ouvir Octávio Dutra, grande compositor porto-alegrende dos anos 10 e 20 do século passado, após anos de injusta geladeira e ignorância, é manter contato com a arqueologia de uma cidade que esquece de si mesmo. Onde mais?

Saímos felicíssimos do concerto. E não foi pela bebida, é que tinha sido ótimo mesmo. É muito bom ver gente que mora à distância de um grito, tocando boa música bem e com tesão. E quase que este que vos fala não coube em si de satisfação quando soube que o excelente saxofonista Sérgio Karam é um de seus sete leitores. Então talvez haja oito ou nove entre nós. Espero que ele não largue este blog após minhas restrições de fã.

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Grande Sabine

Um Quinteto para Clarinete de Mozart, outro de Brahms. No clarinete, a grande Sabine Meyer. Por que grande? Ora, grande e revolucionária: na Orquestra Filarmônica de Berlim, onde causou tumulto por ser a primeira integrante feminina, tendo ganho duas vezes concursos em “audições cegas” (onde é colocada uma tela de modo que o avaliador ouve, mas não vê o executante).

Via

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A rejeição à senilidade ou Clint, eu te amo

“É preciso estar faminto e curioso com a vida para que a sua mente não seja levada a um estado de senilidade. Olho para o trabalho de Manoel Oliveira, que tem 103 anos e ainda parece um homem de 60. Quando o encontrei em um evento, anos atrás, tive vontade de perguntar: ‘Qual a sua dieta, senhor? Que uísque o senhor bebe?”.

“O corpo se queixa, às vezes as costas doem, mas não me sinto muito diferente hoje em termos de energia para trabalhar do que há 40 anos, quando rodei o meu primeiro filme. Sinto que ainda tenho muito a fazer”. E sumariza seu eterno engajamento com a vida. “Se você desfruta do que está fazendo e continua aprendendo, permanece vivo. Os anos não significam nada. É preciso estar ativo, ocupado. Não estou pronto para sentar perto de um rio, com uma cerveja na mão, pensando no passado. Ainda há muito por conquistar”.

“Quando você envelhece, pode tornar-se introvertido e ficar nostálgico por coisas que fez ou não durante a vida ou tentar crescer e tornar-se um ser humano melhor. Sempre estive aberto à mudança e em sincronia com a evolução do mundo. Penso que os 60 e 70 podem ser os melhores anos desde que você mude ou evolua. Quando você alcança essa idade, aprendeu tanto e sua perspectiva se aprofundou tanto que somente um bobo não se beneficiaria desse conhecimento”.

Clint Eastwood, na revista Alfa de julho

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Como diz o samba em homenagem: "Vinícius, velho, saravá!"

O poeta Vinícius de Moraes

Há 31 anos, num 9 de julho, morria o poeta Vinícius de Moraes. O poetinha – apelido dado por Tom Jobim – era um boêmio, fumante, amante dos bons uísques e das mulheres. Casou-se nove vezes. Apesar disso, teve tempo de criar obra literária, musical e teatral. Foi parceiro de toda uma geração de grandes músicos brasileiros como o citado Tom, além de Chico Buarque, Toquinho, Baden Powell, Carlos Lyra, Edu Lobo e João Gilberto, dentre outros.

Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes nasceu em 1913 no Rio de Janeiro, na Gávea, filho de um funcionário da prefeitura e de uma dona de casa que era também pianista amadora. Em 1930, ingressou na Faculdade de Direito do Catete, hoje integrada à UERJ. Na chamada “Faculdade do Catete”, conheceu o romancista Otavio Faria, que o incentivou na vocação literária. Vinícius de Moraes graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933, aos 20 anos. Após um período na Inglaterra, fez concurso para o Ministério das Relações Exteriores. Na primeira vez foi reprovado, mas na segunda tentativa acabou aprovado, sendo enviado para Los Angeles como vice-cônsul.

Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Depois, Vinícius de Moraes atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde costumava realizar animados encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda. A carreira de diplomata fui subitamente interrompida pelo AI-5, através de uma aposentadoria compulsória. O motivo alegado foi a boemia. Em entrevista, o presidente João Figueiredo explicou as causas da demissão: “O Vinícius diz que muita gente do Itamaraty foi cassada por motivos políticos, por corrupção ou por pederastia. É verdade. Mas no caso dele foi vagabundagem mesmo. Eu era o chefe do Serviço Nacional de Informações, o SNI, e recebíamos constantemente informes de que ele, servindo no consulado brasileiro de Montevidéu e ganhando 6 000 dólares por mês, não aparecia por lá havia três meses. Consultamos o Ministério das Relações Exteriores, que nos confirmou a acusação. Checamos e verificamos que ele não saía dos botequins do Rio de Janeiro, tocando violão, se apresentando por aí, com copo de uísque na mão. Nem pestanejamos. Mandamos brasa.”

Hoje, ninguém se incomoda com seu mau comportamento funcional. Afinal, o ganho cultural foi muito mais importante.

Vinícius de Moraes é conhecido pelo grande público muito mais por sua música e por seu trabalho como letrista do que por sua obra literária. Porém, estes estão de tal forma interligados com a vida do autor que certamente não é muito inteligente separá-los. Nos anos 40, Vinícius era um poeta lírico de linguagem simples que muitas vezes enveredava pelo social. Os poemas desta época certamente não lhe garantiriam nenhuma “imortalidade”e ele era mais conhecido por sua atuação como jornalista e crítico de cinema.

O manuscrito de “Soneto da Separação”

Só em 1953 o poeta começou a abrir espaço para o letrista e músico. Naquele ano, Aracy de Almeida gravou “Quando Tu Passas Por Mim”, primeiro samba de sua autoria. Escrito com Antônio Maria, o samba marcava, na vida pessoal do poeta, mais um fim de casamento. No ano seguinte, Aracy de Almeida voltou a gravar outra música com letra de Vinícius.

Em 1954, foi publicada sua coletânea Antologia Poética, ao mesmo tempo em que finalizava sua peça teatral Orfeu da Conceição, premiada no concurso associado ao IV Centenário de São Paulo, cidade por ele apelidada de “o túmulo do samba”. Dois anos depois, quando andava atrás de alguém para musicar a peça, um amigo indicou-lhe um jovem pianista e arranjador chamado Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, de 29 anos. O encontro entre Vinícius e Tom, entre Tom e Vinícius, deveria ser saudado com fanfarras não fosse a bossa nova tão avessa a estas barulheiras. Ali nascia uma das mais fecundas parcerias da música brasileira, uma que a marcaria definitivamente. Os dois compuseram a trilha sonora para Orfeu e seguiram compondo uma vertiginosa sucessão de clássicos que acabaram na criação da bossa nova juntamente com João Gilberto. Se Todos Fossem Iguais A Você, Eu e Você, A Felicidade, Chega de Saudade, Eu sei que vou te amar, Garota de Ipanema, Insensatez, entre outras belas canções canônicas.

A pedra fundamental da bossa nova veio com o LP Canção do Amor Demais, gravado por Elizeth Cardoso. Além da faixa-título, o LP trazia ainda com outras músicas da parceria, como Luciana, Estrada Branca, Outra Vez e a indiscutível Chega de Saudade, em interpretações vocais intimistas, bastante estranhas ao comum da época — o da voz empostada e do berro. No ano seguinte, era lançado o LP João Gilberto que trazia como música de abertura a mesma Chega de saudade gravada por Elizeth e abria definitivamente o período da bossa nova. Aliás, é importante dizer que a famosa batida do violão de João Gilberto já se fazia presente no disco de Elizeth.

Tom e Vinícius

Mas Vinícius ainda teria outras participações fundamentais na história da MPB. Em 1965, o “I Festival Nacional de Música Popular Brasileira” (da extinta TV Excelsior) consagrou Arrastão (composta em parceria com Edu Lobo) como vencedora. O segundo lugar foi a Valsa do Amor que Não Vem , do mesmo Vinícius com Baden Powell, defendida por Elizeth Cardoso.

Em 1966, uma nova parceria com Baden Powell gerou “Os Afro-Sambas”, uma brilhante coleção de canções de influência africana que recebeu sua maior homenagem há poucos anos, com a regravação feita por Mônica Salmaso e Paulo Bellinati. No mesmo ano, lançou o livro de crônicas Para uma menina com uma flor.

Entre um parceiro e outro, eram criadas uma série de obras-primas da MPB. Samba da Bênção, com Baden; Marcha da Quarta-feira de Cinzas, com Carlos Lyra; Valsinha e Gente Humilde, com Chico Buarque; a lista é imensa.

Toquinho e Vinícius

Depois de 1970, foi a vez de encetar outra longa parceria, talvez a mais duradoura e prolífica delas, aquela com o violonista e compositor Toquinho. Formavam uma dupla bem diferente em qualidade das atuais. Também era diversos na postura: Toquinho empunhava um violão e Vinícius um copo de uísque. O primeiro LP já trazia Na Tonga da Mironga do Kabuletê, Testamento, Tarde em Itapoã, Morena Flor e A Rosa Desfolhada. Em 1972, eles lançaram o álbum São Demais os Perigos Dessa Vida, contendo — além da faixa-título — grandes canções como Cotidiano nº 2, Para Viver Um Grande Amor e Regra três.

Em 1979, participou de leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), a convite do líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. Voltando de viagem à Europa, sofreu um derrame cerebral no avião. Perderam-se, na ocasião, os originais de Roteiro lírico e sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

No dia 17 de abril de 1980, é operado para a instalação de um dreno cerebral. Morre na manhã de 9 de julho, de edema pulmonar, em sua casa na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher.

O poetinha em 1977

A poesia de Vinícius, seja na música ou nos livros de poesia, transpira paixão. Paixão pela mulher, paixão pelo divino, paixão pelo prazer transitório e pela dignidade humana. Outra palavra fundamental de seu léxico é a busca. Busca da religião que logrou encontrar na África, busca das inumeráveis musas — mulheres reais ou inventadas — e a busca do perdão para tantas infidelidades. Poeta entre o viril e o terno, entre o metafísico e o carnal, fez de sua poesia um local de encontros e de despedidas. Morreu como uma reeencarnação de Dioniso. Era o rei das festas, o mais saudado, o poeta do fumo, das religioões afro-brasileiras num tempo em que isso era quase escandaloso, da irresponsabilidade, da insânia e, sobretudo, da intoxicação — através do amado uísque — que une o bebedor com a deidade. E, para nossa alegria, ainda deixou-nos uma grande obra que, se não chega a ser a de um Drummond, a de um João Cabral, a de um Murilo ou a de uma Cecília, chegou mais facilmente ao coração do povo através da música. Vinícius, velho, saravá!

~o~

O dia da criação

Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente

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Porque hoje é sábado, Vinícius de Moraes

Ora, porque hoje é sábado e ele morreu, O Dia da Criação, poema que inspira esta série.

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Bons costumes

Com a colaboração de Natal Antonini, um Angeli genial.

Enquanto isso na marcha do orgulho gay…


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Pra lavar a alma

Gustav Mahler

Lamento muito não ter podido escrever anteontem à noite, ainda sob o calor (sim, calor) do concerto, mas faço-o agora. Terça-feira, a OSPA apresentou a primeira sinfonia de Mahler sob a regência de Ira Levin no Salão de Atos da UFRGS. Olha, a tese de que é melhor para a orquestra não ter um regente titular torna-se cada vez mais vencedora. O concerto foi esplêndido e tudo o que aconteceu estava refletido nas caras de felicidade dos músicos logo após o titânico desempenho. A única coisa a lamentar foi o pequeno público. O gaúcho — e a tendência parece acentuar-se nas novas gerações — se borra ao menor friozinho, desistindo das poucas boas oportunidades culturais que a cidade oferece. Será que trocam Mahler pela TV? Céus…

Falar sobre Mahler falo outra hora. O momento é de saudar a orquestra que, animada, levou a sinfonia forma muito satisfatória e entusiasmada. Mahler é um problema: ele propõe grandes e súbitas alterações de humor. Passa do sublime à bandinha, da expansão ao intimismo, do desespero e da tragédia à mais pura alegria. Tudo em segundos. Não sei como Alma aguentava… Como se não bastasse, aprecia orquestrações rarefeitas, premiando muitos instrumentistas com solos que se alternam em ritmo que, se para nossos olhos já parece variado e rápido, imagina para quem tem de interpretar. Por mais paradoxal que pareça, ele dá um tratamento camarístico a suas enormes orquestras, fazendo-as tocar em pequenos grupos. Ou seja, nunca uma sinfonia sua é de execução trivial.

Por mais estranho que pareça, a puramente instrumental Sinfonia Nº 1 de Mahler é programática. Sim, o nada modesto compositor baseou seu programa no romance Titã, de Jean Paul. A história é a da tomada de consciência, por parte de uma criança, da fragilidade da condição humana e de sua morbidez atávica. Não é nada casual que o terceiro movimento — interpretado magnificamente pelo primeiro contrabaixista da orquestra (Walter Schinke?) — seja composto sobre a canção infantil francesa Frère Jacques.

Ira Levin

Então, quando a OSPA tira tudo isso de letra, apenas reafirma o que sabemos: a orquestra tem um bom grupo de músicos merecedores de uma sede, de novos concursos, de nosso respeito, gratidão e o resto da ladainha espero que meus sete leitores já tenham decorado.

P.S. — Ah, o regente Ira Levin? Podia vir mais vezes, não? Além de ser muito competente e de ter demonstrado domínio do repertório, é uma pessoa respeitosa e solidária. Como sei? Vou contar um segredo de concertos para vocês. Notem o momento dos aplausos. Se o cara primeiro destaca os músicos e, na hora de ser saudado pelo público, desce de sua bancadinha para receber o aplauso no mesmo nível do restante da orquestra, demonstra (1) não ter complexo de deus e (2) considerar que é um do time. Ira Levin, mesmo sendo um nanico, recebeu a saudação entusiasmada dos poucos e bons que lá estiveram bem ao lado do spalla.

P.P.S. – Peço-lhes desculpas pela nota rápida escrita sobre a perna. Deve conter erros. Corrijam!

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Com tempo para intermediários

Uma amiga minha que é psicóloga está querendo ler Dostoiévski. Tem mais de 30 anos e não direi seu nome pelo simples fato de que discordo de sua abordagem… Ela começou por ler o livro de Bakhtin sobre Dostô, Problemas da Poética de Dostoiévski, e depois lerá Tolstói ou Dostoiévski: um Ensaio Sobre o Velho Criticismo, de George Steiner. O que não entendo é porque não vai direto ao assunto. Lê os criticos depois, porra!

:¬))

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Pobre do homem que perde dois filhos numa só semana

Ele perdeu a paternidade do menino e do real numa só semana. Olha, pobre FHC. Espero que lhe deem mais uns títulos acadêmicos para que não morra de desgosto.

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Beleza

Esse céu me encanta. A rugosidade das águas é algo muito sensual. E o que dizer da árvore? Muito bonita, não?

Clique na imagem para ampliar.


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Há 50 anos, morria o escritor norte-americano Ernest Hemingway

Publicado no último sábado no Sul21.

No dia 2 de julho de 1961, exatamente há 50 anos, Ernest Hemingway acordou, levantou-se silenciosamente deixando a mulher Mary dormindo e dirigiu-se ao recinto onde estavam guardadas suas armas. Pegou uma espingarda que usava para caçar pombos e, encostando o céu da boca no cano da arma, puxou o gatilho. Trinta anos antes, o pai do escritor, o médico Clarence Edmonds Hemingway, tinha se suicidado em seu consultório com a velha pistola Smith & Wesson do avô.

O suicídio é um tema recorrente na obra e na vida de Hemingway: aparece frequentemente em livros e cartas da mesma forma como aparecia nas conversas com amigos. A saúde e as finanças foram os motivos para o suicídio do pai. No caso de Ernest, os motivos foram a depressão e a série de enfermidades, como a hipertensão, o diabetes e a perda de memória. Anos antes, sua mãe, Grace, uma professora de canto amante da ópera que atormentava tanto o marido quanto o filho, enviou-lhe pelo correio a pistola com a qual o seu pai havia se matado. Hemingway interpretou o pacote como uma sugestão, não admitindo que aquilo pudesse ser uma simples lembrança.

Robert Jordan, personagem principal do romance Por quem os sinos dobram, conjeturando a respeito do pouco valor dado à vida durante a Guerra Civil Espanhola, evocou a lendária figura de seu avô, soldado na guerra civil americana. Como Hemingway faria, os pensamentos de Jordan acabam adquirindo a direção trágica da figura do pai, que se suicidou com a pistola do avô. No romance Ter ou não ter, o protagonista Richard Gordon fala do suicídio com as seguintes palavras: “Outros seguiram a tradição indígena da Colt ou da Smith & Wesson, instrumentos bem fabricados que, com o apertar de um dedo, fazem cessar a insônia, acabam com os remorsos, curam o câncer, evitam as falências ou abrem uma saída a situações intoleráveis. São admiráveis instrumentos americanos, fáceis de levar, de resultado seguro, bem projetados para por fim ao sonho americano quando este se transforma em pesadelo, e cujo único inconveniente é a porcaria que deixam para a família limpar”.

Hemingway treinando seu estilo de boxeur

Indo em direção do autor, é claro que a rede de referências que lemos na obra de Hemingway não é nada aleatória: é inequívoco que trata-se de um escritor cuja obra está inteiramente ligada a suas vivências. Ele foi correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola e o resultado foi Por Quem os Sinos Dobram. Antes viajara para a Europa em 1918 em plena Primeira Guerra Mundial e resultado foi Adeus às Armas — também apaixonou-se pela enfermeira Agnes Von Kurowsky, que o inspirou na criação da protagonista do mesmo romance, a inglesa Catherine Barkley. Paris é uma Festa foca-se em sua vida em Paris como um dos principais membros da “Geração Perdida” junto com Ezra Pound (1885–1972), Scott Fitzgerald (1896–1940), a esposa Zelda (1900-1948) e Gertrude Stein (1874–1940), a criadora da expressão.

Ernest Hemingway nos anos 20 e o ator Corey Stoll, que vive o escritor no filme de Woody Allen Midnight in Paris (Montagem: Relookage)

O inteligentemente nostálgico último filme de Woody Allen, Meia-Noite em Paris, traz todos estes intelectuais circulando por Paris, se bem lembro, de Pound. A postura caricatural do ator Corey Stoll serve muito bem para caracterizar Hemingway como uma espécie de intelectual de ação, sempre pronto para aventuras e para o enfrentramento.

Mas temos mais comprovações da ligação quase jornalístiva entre a vida e a obra de Hemingway: na Espanha produz Morte à Tarde sobre as touradas; as caçadas na África Central são contadas em As Verdes Colinas da África (1935); de suas experiências como pescador em Cuba, surge seu último romance publicado em vida, o notável O Velho e o Mar, que lhe rendeu o Pulitzer. Scott Fitzgerald, consciente que o amigo inspirava-se na vida real, brincava: “Você vai precisar de uma mulher ou de uma viagem exótica a cada livro?”. Então não é de surpreender que ele escrevesse tanto sobre o suicídio que cometeria.

Hemingway era um escritor profundamente original ao recusar certo beletrismo que passou a grassar na primeira metade do século XX. Gostava de frases e parágrafos curtos, de ir direto ao assunto e de frases afirmativas. Também era um furioso revisor de si mesmo e certamente não aprovaria a publicação dos três romances que “ganhou” post mortem.

Cena do filme Por quem os sinos dobram

Apesar das qualidades de Por quem os sinos dobram e do grande filme de Sam Wood com uma estonteante Ingrid Bergman (OK, há Gary Cooper para quem o preferir), muitas escolas brasileiras mantém O Velho e o Mar entre suas leituras obrigatórias. O pescador Santiago, que pesca e traz um peixe descomunal do alto mar sem no entanto lograr protegê-lo do ataque dos tubarões, é análoga ao desalento do Robert Jordan. Se lá Jordan demonstra a gratuidade da vida, aqui Santiago chega à praia vitorioso por ter pescado o maior peixe já visto, mas trazendo apenas um esqueleto sem carne para comprovação. Após o feito, os outros pescadores passam a respeitar e auxilar o velho. Talvez tenha sido o que faltou à Hemingway naquela manhã de 2 de julho de 1961.

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Porque hoje é sábado, Maria (cheia de graça) Sharapova

Maria, na foto abaixo, pareces estar no confessionário…

Já eu, venho aqui confessar meu medo

O medo de que tu jamais voltasses

a disputar uma final de Grand Slam

Sentimos tua falta

— e como! — porém hoje pela manhã

voltas a disputar uma final em Wimbledon

após sete anos de ausência

Maria,

a Kvitova não ousará te vencer

Quando todos aqueles que amam as mulheres e suas formas

te verem entrando cheia de graça na quadra

a torcida será tua — e mesmo teu gritos insuportáveis

soarão como orquestrações de Rimsky-Korsakov

como contos de Tchékhov

como filmes de Tarkovsky

e, como ratinhos de Palov,

te perseguiremos com os olhos

no aguardo de tua felicidade.

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Pô, Marina, desculpa, mas não sou teu Amor

Ontem à tarde. Toca meu telefone celular. Número desconhecido. Atendo.

— Amor, é a Marina. Me liga.

Ela não dá tempo para eu responder. Não ligo de volta, é claro. Afinal, até onde sei, não conheço nenhuma Marina para chamar de minha, também não lembro de alguém que me chame de Amor. Acho de mau gosto esses substitutos do nome da pessoa.

Passa uns 10 minutos. Ela liga novamente.

— Eduardo, por que tu não me ligaste?

— Ora, Marina, não te liguei porque sou o Milton, não o Eduardo.

— Para de brincadeira, cara, tô reconhecendo tua voz. Tu é o Eduardo.

— Não, não sou, sou o Milton.

Naquele momento, já me perturbava o ambiente do Sul21. Todos propondo que eu admitisse ser o Edu e que marcasse um encontro com a moça. Tinha gente já se propondo a ir.

— Amor, não faz isso comigo. Isso é baixaria. Olha que eu te procurar onde tu estás.

— Pode vir, Marina. Tu não sabes onde eu, o Milton, trabalha. Venha AGORA.

— Que brincadeira de mau gosto, cara, tchau.

Passam mais uns 10 minutos e estou num daqueles curtos interregnos que fazemos no trabalho para tomar um café, conversar ou ir ao banheiro. No caso eu estava cagando. Nova ligação, mas agora de um fixo. Atendo e já logo dizendo

— Milton Ribeiro.

Voz compreensiva, carinhosa, carente.

— Amor, Edu, por que tu estás fazendo isso comigo?

(Começo a rir).

Voz subitamente possessa.

— Olha, eu não vou mais ligar, tá? Essa é a última vez. Não vou mais te procurar.

E desliga.

Ô, Edu, Amor, seu filha-da-puta olho-do-cu, tu é um puto de dar o meu número pra Marina, hein? Por que não escolheste outro pra fugir dela, caralho?

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Minha Mãe, Um Réquiem Alemão e a Crônica de um concerto não visto

Minha Mãe, Um Réquiem Alemão e a Crônica de um concerto não visto

Minha mãe está internada na CTI (UTI) do Hospital Moinhos de Vento. Está com insuficiência respiratória aos quase 84 anos. Entubada, com respirador artificial, o prognóstico do médico e a cara de minha irmã — que também é médica — não são das coisas mais animadoras. Para completar, o horário noturno de visitação é o pior possível: das 20 às 21 horas. Então, o resultado é que ontem saí do hospital às 20h40.

O concerto da OSPA que ocorria quase no mesmo horário não era nada trivial. Era um programa de só uma obra, mas esta é das coisas que mais amo neste mundo e das quais tenho umas dez gravações: o notável Um Réquiem Alemão, de Johannes Brahms, aquele mesmo que é chamado pelos tolos de O Réquiem Ateu, como se falar pouco de deus o tornasse ateu. (Ateu sou eu, Brahms não era). Só que, como disse, eram 20h40, o concerto começava às 20h30 e eu estava longe do local onde ele já iniciara.

Comecei a dirigir para casa pensando que talvez eu não quisesse ir por superstição ou quisesse ir para quebrá-la. Afinal, este Réquiem existe por um só motivo: a morte da mãe do compositor em fevereiro de 1865. O Réquiem de Brahms, escrito entre 1865 e 1868, tem várias curiosidades: é composto de sete movimentos, que juntos resultam em algo entre 65 a 75 minutos, tornando-o a mais longa composição de Brahms. Há mais: Um Réquiem Alemão é música sacra, mas não é litúrgica e, ao contrário de uma tradição musical de séculos, não é cantado em latim e sim em língua alemã, de onde vem seu título Ein deutsches Requiem ou Um Réquiem Alemão. Pois aquela bosta que me caracteriza de projetar um problema onde ele não está, naquele dilema desesperado entre ir ou não ir a um concerto em andamento acabou por furar um bloqueio longamente preparado e meu pragmatismo começou a desabar lentamente.

Enquanto os carros e as pessoas na rua perdiam seus contornos e algo quente descia pelo meu rosto, resolvi comer alguma coisa. Com a mulher viajando, a vizinha namorando e a Babi na mãe dela, estava condenado a comer mal se fosse para casa. E da forma mais imbecil possível comecei a procurar um lugar e a juntar na cabeça as informações que sabia para escrever um texto sobre o concerto não assistido. Sabem vocês que a primeira referência ao Réquiem está em uma carta de 1865 que Brahms escreveu para Clara Schumann, viúva de Robert? Escreveu que pretendia desenvolver uma peça a ser “uma espécie de Réquiem alemão”. Depois, Brahms teria dito ao diretor de música na Catedral de Bremen, que teria de bom grado chamado o trabalho de Um Réquiem Humano. Mais adiante, vocês verão que este sujeito de Bremen era um cagão pior do que eu.

Embora as Missas de Réquiem na liturgia católica comecem com orações pelos mortos, o de Brahms centra-se na vida, começando com o texto “Bem-aventurados são aqueles que suportam a dor, porque serão consolados”. O tema do conforto aos que ficam repete-se em todos os movimentos seguintes, exceto o final, e era exatamente isso o que furara meu bloqueio. Simplesmente não deveria ter pensado. Acho que consigo passar longos dias só agindo. Ao menos tenho esta impressão.

Em seu Réquiem, Brahms omitiu propositalmente qualquer dogma cristão. Até pelo fato da ideia de deus ser visto sempre como fonte de consolo, a simpatia pelo humano persiste por todo o tempo, o que não significa dizer que o Réquiem seja ateu, apesar de sua contenção religiosa, longe daquele hábito de rasgar-se musicalmente pelo criador. De qualquer forma, a enigmática escolha dos textos fica para os musicólogos decifrarem. Quando o diretor da Catedral de Bremen expressou sua preocupação com isso, Brahms recusou-se a adicionar o movimento que lhe fora sugerido: “A morte redentora do Senhor, etc.” (João 3 : 16). E, por incrível que pareça, em Bremen, o citado diretor obrou finalizar o Réquiem por uma ária do Messias de Handel, — ??? — “I know that my redeemer liveth”. Tudo para satisfazer o clero. Um total abuso.

Sem encontrar um local para comer e pensando pouco, acabei voltando para o hospital, indo a um restaurante que há ali. Caro. Já tinha acabado o horário de entrar na CTI. Comi muito lentamente, refazendo várias vezes o texto sobre Brahms, imaginando que a OSPA já estaria finalizando o concerto. Sei que quando a música exige, a OSPA cresce. Certamente deveria ter atravessado a cidade furando todos sinais para que visse ao menos um pedaço.

Meus pensamentos giravam sobre como o Réquiem fora inicialmente detestado. Wagner mandou bala contra ele, mas temos que lhe dar o mérito da coerência e Wagner: ele erra quase sempre e sempre com farta documentação. Na verdade, estava apenas puto com o título “Alemão”. Nada mais “Alemão” do que ele, o que Brahms estava pensando? A reavaliação do Réquiem veio através de Schoenberg e seu brilhante ensaio Brahms the progressive. Então, a história da percepção a Brahms  descreveu um círculo completo: a partir da década de 1860, seu trabalho passou a ser visto como “moderno” e “difícil”. As depreciações do inimigo Wagner o tornaram “clássico” e “‘acadêmico” em 1880. E, em meados do século XX, o homem voltou a ser moderno e denso. Agora, é eterno.

Fui embora do restaurante e do hospital de novo pensando na Dra. Maria Luiza. E em mim — pois assim como o homem de Bremen cometera um abuso, era um total abuso uma pessoa tentar agir como se não fosse um mamífero, fingindo preocupar-se apenas com o operacional. E fui finalmente para casa, onde fiquei sozinho.

~o~

Abaixo, o Réquiem de Brahms:

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Sugestões para os clássicos dela?

— Pai, quem é o responsável pela minha educação?

— Acho que eu sou o responsável. Tu tem 16 anos e mora comigo. Mas, pera aí, como a guarda é compartilhada, acho que a tua mãe está junto nessa.

— Tu é quem me enche o saco para estudar, essas coisas. Então é tu o responsável.

— Tá bom, sou, quero ser. E daí?

— É que eu quero saber aquilo que tu sabe e a gente poderia começar pelo cinema.

— Como?

— Tu me mostraria todos os melhores filmes, os clássicos. Aquilo que a gente não pode parar em pé sem conhecer.

E assim, há três semanas, começamos nosso Projeto Clássicos aqui em casa. Um filme canônico por semana. Iniciamos por Cidadão Kane, de Orson Welles; depois veio A Bela da Tarde, de Luis Buñuel, e, aproveitando que estava em cartaz nos cinemas aqui de Porto Alegre, Um Dia Muito Especial, de Ettore Scola. Estou gostando muitode fazer esta revisão cinematográfica. Não reclamo nem um pouco, pois é uma grande chance de rever filmes queridos (ou detestados, também — afinal, haverá Pasolini).

Kane fez enorme sucesso junto a minha filha. Ela gostou de Um dia e A Bela, apesar de ela ter adorado o filme, causou-lhe grande surpresa, simplesmente porque o filme não era 100% compreensível e ela está acostumada a ver motivos para tudo. Afinal, o cinema moderno, negando a própria vida, adora explicar. Por exemplo, a caixinha do chinês de A Bela, da qual saía aquele barulho de mosca…

— Pai, o que é aquilo? E o que são aquelas cenas meio malucas que interrompem a narrativa a qualquer momento? Algumas parecem sonho ou imaginação, outras não.

Como é que eu explico que a gente não precisa entender tudo? Falo sobre o surrealismo de Buñuel? Ou deixo rolar?

Bem, meu sete leitores: vocês têm sugestões para os próximos filmes? Estava pensando em voltar ao cinema americano dos anos 50 ou ir para um clássico político. Bergman, o ataque à Tarkovsky ou à nouvelle vague eu deixaria para depois. Mas alguns de vocês terão excelentes sugestões, sei disso. Ah, não esquecer de meu amado Altman.

Voltando ao Buñuel…

Todos nos bastidores sabiam que Séverine era apenas uma personagem de A Bela da Tarde. Entretanto, quando o roteiro pediu que fosse jogado excremento nela, ninguém quis fazê-lo, e Buñuel teve que assumir a tarefa. Todos sabiam que se tratava de iogurte de chocolate, mas a atriz vestida com aquela personagem era Catherine Deneuve.

KROHN, Bill; DUNCAN, Paul (ed.) Luis Buñuel. Filmografia Completa. Köln: Taschen, 2005. P. 152.

Engraçado, eu também fiquei pensando: “Porra, estão jogando cocô na Catherine Deneuve, a mulher que estreou o Porque Hoje é Sábado”!!!

As cenas paralelas à narrativa: um pouco de excremento para Deneuve em A Bela da Tarde
OK, digam-me JÁ o que tem na caixinha?

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