O Sorriso do Vampiro (por Ernani Ssó)

O Sorriso do Vampiro (por Ernani Ssó)

Ou o humor na obra de Dalton Trevisan

Ernani Ssó

Sem busto de vampiro na pracinha

Quando o Márcio Renato dos Santos, curador da FLIBI (Festa Literária da Biblioteca Pública do Paraná), me ligou pra perguntar se eu topava falar sobre o humor na obra do Dalton Trevisan, eu disse sim no mesmo segundo. Foi uma irresponsabilidade, claro. Eu gosto de humor e reli muito o Dalton, mas não sou um especialista em nada, apenas alguém com curiosidade. É bem provável que as pessoas que me ouviram podiam trocar de lugar comigo com grande vantagem.

Mas eu sinto que tenho uma dívida com o Dalton. Não só eu, o Brasil também tem, e como tem. Mas vamos deixar o Brasil pra lá, eu só pago as minhas dívidas e de preferência as que não envolvem dinheiro.

Os críticos reconheceram que o Dalton é um grande escritor, claro. Todos nós sabemos disso. Mas, veja, reconheceram e em seguida saíram de fininho. Fora o Ivan Lessa, não lembro de ninguém que festejasse o Dalton. Até autores de segunda são festejados no Brasil, ou Bananão, para os íntimos. Será porque ninguém tem coragem de botar busto de vampiro na pracinha?

O diabo é que o Dalton é mais profundo, mais preciso e com maior domínio técnico que todos esses concorrentes a miss simpatia que enchem jornais e academias, ou que se dedicam mais à divulgação do que a escrever.

Bem, me desculpem a empolgação, ou não desculpem, porque é mais do que justificada. E como não consegui falar nem um terço do que anotei, volto ao assunto, espero que um pouco menos confuso.

Falta de humor

Vocês não sei, mas eu deploro a falta de humor na literatura brasileira. Sim, sempre se fala no humor do Machado, ou do José Cândido de Carvalho ou do Campos de Carvalho. Mas mesmo os que se dizem machadianos ou cantam sua admiração por Campos de Carvalho, na hora de escrever assumem um arzinho de sobriedade senhorial. Quem é o herdeiro do deboche brincalhão de José Cândido de Carvalho? Eu não conheço. No máximo vi a linguagem que José Cândido criou ser chupada pelo Dias Gomes na novela O bem-amado. Até um humorista como Millôr Fernandes dizia que humor não é pra rir, mas fazer pensar. Ele parece se defendendo da velha acusação do Aristóteles de que a comédia é menor, que a tragédia é que está com tudo.

Parece que se confunde seriedade com cara fechada, com solenidade. É óbvio, qualquer um pode ser raso ou mesmo idiota com a cara mais solene do mundo e enganar os trouxas. E qualquer um pode ser profundo e risonho ao mesmo tempo, vide o Oscar Wilde, o exemplo mais caindo de maduro. É como dizia Cortázar: como se Cervantes fosse solene, carajo! Ou alguém tem coragem de dizer, ainda hoje, que o Quixote não é sério, que não trata de uma das grandes misérias humanas, o desajuste entre a realidade e nossos desejos? Melhor ainda: trata de um modo exemplar, que continua fazendo sentido e sendo divertido quinhentos anos depois. Os sérios profissionais têm de engolir que o primeiro e talvez mais importante romance seja um romance cômico.

Há quem atribua a pose de seriedade e a linguagem empolada de grande parte da literatura brasileira à nossa tradição bacharelesca. Pode ser, não? Começamos com muitos advogados, muitos deles de classe média, ou mérdia, como dizia o João Antônio. A primeira coisa que o cara fazia – ainda faz, na verdade – era esfregar na cara da patuleia o seu anel, sem jamais desconfiar da sua cafonice. Eu sou doutor. Olha com quem está falando – aí o chorrilho de palavras difíceis, pretensamente bonitas, com surtos gramaticoides cabeludos. Exagero meu? Leia as “poesias” de Ayres Britto, pra sentir o gostinho.

O humor apareceu muito mais na crônica, me parece. Um gênero considerado menor, pra jornal, pra consumo de gente que nem lê livro. Pode ser que isso tenha contribuído pra que alguns autores escrevessem com mais naturalidade. Se você senta pra escrever com o peso de fazer grande literatura, de desbancar Dante e Goethe, talvez embatuque, não? Veja o Cervantes, que se saiu melhor justamente quando sentou pra escrever um livro sem ambição, uma mera sátira aos romances de cavalaria. O certo é que temos grandes cronistas, mas, o nível desses cronistas a mim, pelo menos, parece maior que de nossos ficcionistas. Digo isso de um modo geral, bem entendido. Eu gostaria muito de ler um romancista do nível do Rubem Braga, pra começo de conversa.

Fomos mais felizes na música popular, não? Nossa música tem relevância internacional, coisa que não acontece de jeito nenhum com nossa literatura. Nossa música popular, também de um modo geral, escapou da maldição do doutor. Veja a quantidade e a qualidade de grandes letristas cheios de humor: Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Aldir Blanc – seria tão bom que muitos dos nossos poetas tivessem o talento deles. Mas até o baixo clero se mostra humorado. Pra não ir mais longe, o Erasmo Carlos, no começo da Jovem Guarda, era muito bem-humorado.

O caso do Chico é estranho. Com letras geniais, muitas cheias de humor, na hora que sentou pra escrever romances, em geral ficou chato, sem bossa nenhuma. Deve ser praga dos imortais da academia.

O humor, como tudo, tem vários níveis. O que o Renato Aragão faz é humor. Mas, não vamos esquecer – porque faz bem ao coração e ao fígado –, o que Jorge Luis Borges e Julio Cortázar fizeram também é humor. Se você cortar o humor da obra deles, vai fazer um estrago e tanto. O humor está inclusive na visão de mundo deles. Mas quem pensa neles como humoristas? Mal se pensa neles como escritores com senso de humor.

Eu até gosto de comédias que são apenas comédias. Mas, desde o começo – gosto que se acentuou com os anos –, prefiro a comédia dramática, ou a tragicomédia. É um gênero complicado, porque misturar dois elementos de climas tão diferentes, tipo mocotó com limonada, exige pulso muito firme, muito tato, muito faro pra equilibrar tudo. Mas me parece que é o gênero que está mais próximo dessa mixórdia que chamam de – pra agravar, em maiúscula muitas vezes – vida.

Aristóteles dizia que a tragédia é superior à comédia porque a comédia não tem a dor. Podemos inverter a frase: a tragédia é inferior porque não tem o riso ou o ridículo. Eis o ponto: a tragicomédia tem tudo.

Acho que é aí que o Dalton Trevisan se enquadra.

O humor do Dalton

O humor dele é pouco explícito e é, praticamente sempre, negro, ou ironia gótica, como disse a crítica Barbara A. Bannon. Por falar nisso, há um achado que considero genial no conto “Três irmãos”, em O rei da terra: “Logo está lavando as mãos e abrindo os armários – não é o espelho o melhor esconderijo de um fantasma?”.

Vocês sabem, há humor pra se gargalhar, pra rir, pra sorrir, às vezes apenas mentalmente, e há um humor tão duro, tão cortante, que nossa reação talvez seja o silêncio ou uma exclamação de espanto. Há no Dalton de tudo um pouco, mas, claro, o predomínio é de Jack, o Estripador, disfarçado de palhaço. Outra coisa amarga: os heróis dele são tão escrotos que não dá pra gente torcer por eles.

Meu exemplo favorito, pra ilustrar essa quizumba, é de um conto chamado “Barata leprosa”, que acho que li no Pasquim e nunca encontrei em livro, que me lembre. Trata-se de um suspiro de absoluta solidão: “Ah, se eu tivesse uma dessas mulheres de plástico, como eu a faria feliz!”

Às vezes a coisa está na linguagem. Mas com o Dalton nunca é apenas a linguagem, as palavras estão a serviço sempre, nunca por elas mesmas. A dor mais banal, com um pequeno toque de mão, se revela patética, sem falar que traça a estreiteza do universo da personagem, como nesse lamento de incompreensão de uma mãe tirada das páginas de A trombeta do anjo vingador: “Era cruel com o velho por amor ao filho? Como podia o filho não ficar ao seu lado? Se não era ela, quem enchia de água o filtro? Sempre lavando e chorando, varrendo e rezando, quem sabia fritar o ovo dos dois lados?”

Como disse, talvez na maioria dos casos seja mais ironia que humor. Isso acontece com Machado também. Só que no Machado isso é notado e cantado em prosa e verso. Pelo menos hoje em dia. Daqui a cem anos, por motivos de força maior, não terei como saber o que aconteceu, mas tenho minhas dúvidas de que haverá muitos interessados em ter vampiro como modelo. Quem tem jugular, tem medo.

Cortes e recortes

Há uma observação do Stevenson, num ensaio, que me parece de uma sensatez luminosa. Se você pede pra um menino contar seu dia, ele não vai dizer que ao se levantar desabotoou seis botões do pijama, deu quinze passos até o banheiro, abotoou tantos outros botões da camisa, tomou sete goles de café com leite, mastigou vinte vezes o pão com manteiga e desceu vinte e dois degraus pra sair de casa. Ele vai separar os fatos significativos, apenas. Daí que não interessa o acúmulo de descrições e detalhamentos, embora muitos escritores insistam, por pura tara ou tomado de uma espécie de êxtase.

O Dalton, entre dezenas de fatos e de detalhes, separa só os que interessam, quer dizer, aqueles que ilustrarão a ausência do resto, porque os silêncios, as lacunas são parte integrante do texto. Pra isso é preciso ter ótimo olho e precisa, também, ter vivido um pouquinho, não? Sem ter vivido e pensado no que se viveu não se tem a menor ideia do que importa.

O fato de Trevisan ser econômico ao extremo, de apostar em detalhes às vezes ínfimos, exige muito do leitor. De modo que é preciso reler – e reler como um Nero Wolfe examinando o depoimento de um suspeito. A cada releitura, nos damos conta do quanto deixamos escapar. A cada releitura, o Dalton se revela melhor do que pensávamos.

Vejamos um trechinho do dia a dia de um viúvo em Desgracida: “De volta à Pensão Bom Pastor com um jornal, às vezes uma revista. Um pouco de jornal, daí o rádio, logo me chateio. Mais jornal, suspiro, os pequenos anúncios, gemido. No fim começo a falar sozinho. Sabe que faz bem?”.

Deu pra notar? Ele recorta com tesourinha uns cacos de realidade e os cola numa ordem e com uma precisão perfeitas, quero dizer, de um modo que o efeito é cem vezes mais poderoso do que um acúmulo de cenas ou descrição de três páginas de lágrimas e lamúrias. É isso o que o humor e a poesia fazem quando são humor e poesia pra valer.

Acho esse trecho exemplar. Repito, o Dalton é o verdadeiro gigolô das palavras. Ele bate nelas pra mostrar quem é que manda no pedaço. No texto dele, as palavras nunca estão lá pra se exibirem apenas. Estão sempre em função da expressão. Elas são sempre meio, nunca fim.

Por falar nisso, li em algum lugar que o estilo do Dalton é antiliterário. Não entendi no primeiro segundo. Tive de lembrar que o pessoal acha Iracema, do José de Alencar, literatura. Bom, é literatura, no mau sentido do termo.

Pequenos fatos, pequenas observações

Há muitos exemplos de humor em pequenos fatos, ou em observações de passagem. Vejamos alguns.

No conto “Morte na praça”, há uma ceninha em duas frases: “à passagem do morto as lojas iam fechando as portas. Os homens revezavam-se nas alças do caixão: o cemitério perto, mas o defunto pesado.”

Detalhes realistas, simples. Primeiro, o fechamento das lojas indica um costume da época, talvez um respeito convencional, todo mundo se conhece na cidadezinha. Depois, a troca nas alças do caixão. Até aí, tudo normal, o leitor pode pensar várias coisas, até que os homens se revezam pra todos terem oportunidade de carregar o morto. Mas quando Dalton nota que o cemitério é perto e o defunto pesado, temos algo cômico. Ele não se deixa contaminar pela solenidade da situação. Na verdade ele premeditou a coisa. Veja, se ele diz apenas que o cemitério é longe ou que o defunto é pesado, não tem graça. Se diz que o cemitério é longe e o defunto pesado, força a barra, a graça diminui. Mas ao contrastar a distância e o peso, ele faz a formulação perfeita.

Lembrem do Mario Quintana falando do mistério da comicidade. Se você vê um perneta descendo a ladeira, qual a graça? Mas se você vê três pernetas descendo a ladeira? Há inumeráveis detalhes nos contos que provam que esse mistério não é nada misterioso para o Dalton.

Há quase a mesma piada no conto “Uma coroa para Ritinha”, do volume Abismos de rosas. Quase, porque aqui o cômico é melancólico, poético até. Vejamos: “Ali do cemitério poderiam ir todas para o bordel das normalistas. Disputavam uma alça do caixão, a da frente reservada para ele, que abria o cortejo. Como é que, tão leve nos seus braços, pesava tanto no caixão?”

Vocês lembram do conto “O caniço barbudo”, do livro Frufru Rataplã Dolores? O herói é todo doente, apaixonado pela mãe e, claro, tem ódio do pai. Quando o velho morre, o herói “Renova sempre a assinatura do jornal preferido do pai. Despreza as notícias de terremoto, ataque terrorista, inundação diluviana. O interesse antes nos pequenos anúncios que no fim do mundo”.

Talvez se possa dizer que o Dalton também despreza terremotos, ataques terroristas, inundações diluvianas. Que o negócio dele, como escritor, são os pequenos anúncios. Ele lida com os dramas cotidianos, muito particulares. Naturalmente que esses dramas valem em qualquer canto do mundo. Ele trabalha com uma lupa, nunca olha de longe, os movimentos das tropas não interessam, ele quer saber por que certo soldado manca. Ele é o ás do detalhe preciso, mas que muitas vezes parece banal. Quando digo preciso quero dizer que através dele temos o resto, a pessoa toda e, se somos chegados a somar dois mais dois, essa pessoa dentro do dito contexto maior. O mundo indo para o brejo e o camarada se queixando de que o sapato aperta o calo no joanete. Como se vê, é um retrato aterrorizante do bípede implume – o egoísmo, a irrelevância, a burrice extrema.

Se lermos com cuidado uns dez dos melhores contos do Dalton, compreenderemos mais facilmente o que acontece no país hoje do que lendo todo o jornalismo da grande imprensa. Mais, compreenderemos inclusive a calhordice da grande imprensa com seus eminentes colunistas chapas-brancas. Não conheço obra que tenha mais gente canalha ou burra ou maluca. Ou gente com tudo isso e mais alguns novos predicados.

No conto “O segredo do noivo”, do livro O rei da terra, temos um rapaz atormentado por um drama que só podemos supor. Ele quer mostrar pra noiva o que o atormenta, como quem deseja mostrar um objeto que precisa de distância e discrição. Ela não aceita, prefere casar e resolver tudo depois. Ele avisa: se você não for minha, não será de ninguém. A insinuação, claro, é que ela “não pode” ser dele.

Bom, na noite antes do casamento temos a seguinte cena: “Não dormiu aquela noite, a família ouviu que João andava pelo quarto. Três tentativas ele fez e nem uma deu certo: prendeu um fio no teto, amarrou na ponta um lápis vermelho e com a força do pensamento queria girá-lo. Com a mesma ordem dos olhos encarniçou-se por apagar a chama de uma vela. A terceira é muito triste para contar”.

Esse fecho é perfeito – e muito engraçado. Mas qual seria essa triste terceira tentativa? Alguém aí tem um palpite? Tremo só em pensar no que um psicanalista diria. Talvez, pra começo de conversa, que o lápis vermelho é um símbolo fálico. Afinal, tem forma cilíndrica e é vermelho, não? Fazer girar o lápis com o pensamento seria a vontade de fazer o pingolim se levantar? E apagar a chama da vela? Apagar o desejo pelas mulheres e tocar a vida? Mas a terceira tentativa ainda é mistério.

Pelo menos um exemplo de humor direto, brincalhão. No conto “Vozes no retrato” (na versão mais recente, não a de Desastres de amor:

“Com arte feiticeira desencantara um retrato de João.

“– Credo! Olhos fatais de Dom Pedro Primeiro”.

De volta ao grotesco. No conto “A gorda do Tiki Bar”. Primeira linha, a ironia direta: “Cambaleou na luz negra do inferninho: quanto mais escuro, mais lindas rainhas”. Mais adiante, ainda na mesma linha: “Credo, bem. Mais tarado que o meu marido”. Por fim, isto: “Nu, de meia preta e relógio de pulso. Ela surgiu balouçante na pontinha do pé, encheu todo o quarto. Se não a esperasse, teria gritado de susto”. Parece que estamos numa daquelas comédias do cinema italiano da década de 70, quando os índices relativos do ar eram carregados de sarcasmo.

O vampiro de Curitiba

Vamos falar do conto “Vampiro de Curitiba”? Talvez seja inevitável, deve ter gente esperando, vão me cobrar se não falo. Quem sabe o Dalton, com uma obra tão extensa, sinta algum ressentimento por esse conto, que recebe um destaque que em muitos momentos ele pode sentir como imerecido. Ou, nessas alturas, pode ter se resignado, não? Tanto que aceitou ser chamado de Vampiro de Curitiba, confundindo a imagem do escritor – que jamais deu moleza pro sentimentalismo, segundo muitos o principal fator de sucesso – com a do tarado escroto.

Seja como for, o fato é que esse conto se destaca, mas, veja, não porque o Dalton não tenha muitos outros contos tão bons quanto esse ou melhores. Literatura não é concurso de miss, onde se mede a beleza com fita métrica, o que, em minha opinião, é uma ofensa às mulheres em geral e à Fanny Ardant em particular.

Não gosto muito de comparar autores ou livros. Não acho que seja justo. Cada autor, cada livro têm suas intenções, mexem com coisas secretas e profundas que às vezes mal transparecem, enfim, são aventuras diferentes. Depois tem a pessoa que avalia, com suas manias e miopias – mais importante, com seus segredos que às vezes não confessa nem a si mesma mas que o texto pode despertar. Ao comparar dois autores o que mais aparece somos nós mesmos. Eu, faço questão de reconhecer, gosto de coisas diferentes conforme a época, ou até o dia. Ou gosto das mesmas coisas de modo diferente, conforme o tempo.

Acho que o que faz a diferença nesse conto é que ele nos dá um personagem – e nos dá de corpo inteiro, em poucas páginas. Só isso já é imenso. Mas isso é feito num conto que nem tem enredo, não tem história. É só um cara divagando enquanto olha as mulheres na rua.

Quem encarna na gente é o personagem. É que nem o Quixote, que em seguida não precisou mais do Cervantes. Até o Rocinante logo não precisou do Cervantes. Eles, o Nelsinho, o Quixote e o Rocinante andam por aí sozinhos, independentes. Como no caso do Cervantes, muita gente que não leu o Dalton já ouviu falar do vampiro de Curitiba.

Acho que isso acontece, primeiro, porque o Dalton acertou no retrato, que é feito menos de fatos do que de um modo de falar e de ver o mundo. Segundo, porque esse sujeito, em toda a sua escrotidão, encontra eco na gente ou em nossa memória, em nossa experiência.

Vejamos isso melhor. Quando Nelsinho vê na rua uma mulher com o marido, pensa: “Disfarce, vem o marido, raça de cornudo. Atrai o pobre rapaz que se deite com a mulher. Contenta-se em espiar ao lado da cama – acho que ficaria inibido. No fundo, herói de bons sentimentos”.

Essa observação me lembra outro personagem de um conto de que não lembro o nome. O sujeito diz: “velho sujo também tem sentimentos”. Talvez nossa identificação, maior ou menor, com o vampiro de Curitiba seja o reverso disso: boas pessoas também têm sentimentos sujos.

Outra coisa: esse conto é cheio de energia, é contagiante e engraçado. Pelo menos eu acho engraçado. O que não dá pra negar é que é extremamente irônico. E a ironia às vezes se volta contra o próprio personagem, que por alguns segundos parece se dar conta da própria loucura.

Nelsinho se define nas primeiras frases: “Veja, a boquinha dela está pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz”.

O sexo é o caminho da felicidade mas é um perigo mortal. Pobres mulheres. Porque Nelsinho atribui a felicidade e a dor a elas, felicidade e dor inseparáveis. Curitiba está menos no mapa do Brasil do que no Velho Testamento, a meio caminho entre Sodoma e Gomorra. Nelsinho não pensa que tem parte ativa no negócio. Até o fato de ele ser um canalha, oco de pau podre cheio de aranhas e escorpiões, é devido à existência das mulheres.

Em outros contos isso é levado ao delírio. O sexo trazendo embutida a punição pelo prazer. Lembrem-se de personagens transando com as mulheres mais horrorosas. O velho sujo, em nome dos seus sentimentos, tem de se punir. É uma doença monstruosa.

Há outra coisa presente em todo o devaneio do vampiro. A boquinha dela está pedindo beijo, certo? Mas onde o sinal disso? Pro Nelsinho o fato de essa boquinha existir e ser bonita é prova de que está pedindo beijo.

Mesmo que isso fosse verdade, pede pra quem? Nelsinho jamais pensa que uma mulher pode ter desejo e esse desejo ser legítimo e natural – e, note-se, com endereço específico. É sempre uma safadeza, um pecado. Se o desejo é por ele, é porque ele é poderoso, nada menos.

Não é exatamente assim que pensam os que dividem as mulheres entre as que merecem ou não merecem ser estupradas? Frase, aliás, que poderia ter sido dita por Nelsinho.

O estupro pode ser apenas o exercício da lei do mais forte, lei tão onipresente quanto a lei da gravidade. Mas em muitos casos também é punição. Pela lógica do vampiro, mulher nenhuma tem o direito de ser bonita, de querer ser vista e de não ter interesse pela maioria dos homens ou ter, que Deus atalhe, por outras mulheres. E se se entregar a muitos homens, é a pior das putas, merece a morte do mesmo jeito. Enfim, nas mãos do vampiro, mulher nenhuma tem escolha nunca. Ou é a Virgem Maria ou a puta da Babilônia.

Peço paciência: vamos pensar no óbvio ululante.

Por que uma mulher não pode ser vaidosa? Por que ela não pode desejar ser admirada? E, ao mesmo tempo, dar apenas pra quem ela quer dar? Só porque ela é bonita e vaidosa tem de pagar pedágio pra todo marmanjo que aparecer?

Os homens também não são vaidosos? Também não querem ser admirados por todas as mulheres? Mas, ao mesmo tempo, não querem ser agarrados por todas, só pelas que acham bonitas e interessantes, não é mesmo?

Olha, estou mastigando isso tudo porque conheço muita gente que acha que o Dalton está ultrapassado, que fala de um mundo que não existe mais, que Curitiba não está mais entre Sodoma e Gomorra apesar do esforço dos fundamentalistas evangélicos. Esse mundo poderia dizer, como Mark Twain, que sua morte foi um tanto quanto exagerada.

Há algumas semanas li, não lembro se no El País ou no UOL, as seguintes manchetes: “A cada 4 minutos, uma mulher é espancada”; “A cada 4 horas, uma menina com menos de 13 anos é estuprada”.

Nelsinho continua em ação. Sem bigodinho, mas é ele, talvez fazendo o tipo lenhador. Sem dente de ouro, agora com dente de porcelana, mas é ele.

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Bom dia, Marcelo Medeiros

Bom dia, Marcelo Medeiros

Eu não esperava a vaga direta para a Libertadores. Mesmo. Bem, depois falo sobre isso.

Para 2020, o Inter deve ser pensado, repensado e, talvez, dispensado. Inclusive tu, Marcelo. É claro que tu não vais renunciar, então digo que talvez eu — ou a torcida — vá dispensar o clube em 2020. Alguns farão política contra ti, claro. Eu não sou candidato a nada, mas te digo que estou cansado de nosso futebol.

É demais. Tu estás finalizando três anos de gestão e, OK, subiste em 2017 da segunda para a primeira divisão. Só isso e  mérito nenhum. Afinal, até hoje, todos os grandes subiram no primeiro ano. Tua administração foi tão opaca que conseguiste subir sem brilho, na segunda colocação.

Tua administração é um mero balcão de maus negócios. Para quem foi boa a contratação de Natanael, por exemplo? Ele recebe 280 mil por mês em três anos de contrato. Jogava na Bulgária, imaginem. Sua estreia foi tão ridícula que ele nunca mais voltou a entrar em campo. É reserva do desastroso Uendel. Quem ganhou com esta contratação obscura, que provocou gozações do pessoal do Athlético-PR, onde ele atuava antes de ir para a Bulgária? Quem ganhou?

E Natanael não é o único. Há Parede — este joga mal e sempre, vocês dizem que vão contratá-lo… –, Bruno Silva, Tréllez, Rithely, etc. Negócios, apenas negócios, sem futebol.

E o pior é que temos bons meninos na base. Gostaria que se tivesse com eles a mesma paciência que temos com o Parede, Edenílson, Patrick, Uendel, que estão comprometendo o time há muito tempo.

Peglow — faz gols todo dia nos times da CBF –, Netto, José Aldo, Sarrafiore, a gente mal os conhece. E vocês contratando gente meia boca.

Como disse lá no início, eu não esperava a vaga direta para a Libertadores. Mesmo. Espero a baga na pré. O Fortaleza não pode mais encostar na gente, mas o Goiás, sim.

Sobre perder para o São Paulo no Morumbi; eu já esperava. Incrível como Zé Ricardo conseguiu esculhambar a única coisa que funcionava no nosso time, a defesa. Ontem, dava risadas com as patacoadas de Moledo e Cuesta.

Esta tua administração, Marcelo Medeiros… Demitir Odair sem um plano B engatilhado…

Guerrero na derrota de ontem à noite, uma das poucas boas contratações de um time que joga dinheiro pela janela | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

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O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

Uma das maiores tragédias da minha vida é já ter lido os Pickwick Papers — não posso voltar atrás e ler pela primeira vez.

Fernando Pessoa

Dickens é uma das felicidades da vida, uma das razões para se ter medo da morte.

Charlles Campos

Dias atrás, após mais uma leitura de notícias absurdas de Brasília, com participação especial atuação de ministros como Ernesto Araújo, Abraham Weintraub, Damares Alves, presidente e filhos, etc., lembrei de um livro cômico muito fora de moda que li na juventude, As Aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens (1812-1870).

The Posthumous Papers of the Pickwick Club (mais conhecido em países de língua inglesa como The Pickwick Papers) foi escrito por Dickens entre 1836 e 1837. Na verdade, foi publicado em 20 partes mensais entre abril de 1836 a novembro de 1837, sob o pseudônimo de Boz. Ele apresenta nomes diversos tanto no Brasil quanto em Portugal, com variações como As Aventuras do Sr. Pickwick, Os Cadernos de Pickwick, Documentos de Pickwick, Os Papéis de Pickwick e Documentos do Clube Pickwick.

O romance narra as aventuras de um grupo de estudos científicos, o Clube Pickwick, composto pelo líder Mr. Pickwick (uma espécie de Quixote) e seus três pupilos: Mr. Tupman (o celibatário sempre apaixonado), Mr. Snodgrass (o poeta) e Mr. Winkle (o esportista). Financiados pelo clube, eles viajam pela Inglaterra — com particular ênfase no interior do país — fazendo descobertas e observando o desenvolvimento da ciência, assim como analisam as diversas variações no comportamento humano.

Mas todos são muito burros e suas conclusões são inacreditavelmente cômicas. Eu morria de rir lendo o livro. Não posso dizer que faça o mesmo lendo o que dizem Ernesto Araújo e Weintraub, mas a idiotia está tão presente que, se morasse longe do Brasil, riria deles.

O livro foi fundamental na carreira de Dickens. Ele obteve enorme êxito literário e reconhecimento popular durante a publicação do livro. Há um personagem sensacional, o criado do Sr. Pickwick, Samuel Weller. Sua entrada no romance teve efeito devastador, foi um êxito instantâneo. Sua inserção no quinto capítulo da narrativa fez com que as vendas mensais explodissem. Imaginem que foram vendidos 400 do número 4 e, após o surgimento de Weller, as vendas cresceram de tal modo que chegaram a ser impressos 400.000 exemplares dos últimos números.

Thomas Carlyle, numa carta ao primeiro biógrafo de Dickens, conta o desconsolo de certo padre que, depois de prestar conforto espiritual a um enfermo, suspirou: “Bom, o que interessa é que daqui a dez dias sai mais um número dos Pickwick Papers, graças a Deus.”

Outro dos personagens do livro, o gordo Joe, foi utilizado posteriormente para caracterizar uma patologia alcunhada como síndrome de Pickwick (ou A Síndrome da Hipoventilação Alveolar da Obesidade), posto que Joe descreve fielmente um quadro da doença: obesidade e sonolência excessiva, acompanhadas de demais sintomas.

O livro tem muita crítica social. Quem está lá? Notem o que há em comum com o Brasil de hoje:

— A religião e os falsos pregadores, ou pregadores corrompidos.

— Os advogados e o atravancamento na execução da justiça, a distorção de leis e possíveis processos de corrupção.

— A magistratura corrente à época, que concede poder a cidadãos apenas voltados aos próprios interesses da classe.

— Os políticos e sua conduta desonesta, bem como o eleitorado irresponsável.

— O jornalismo sem compromisso com a verdade, o respeito e a imparcialidade.

— A sociedade burguesa, com sua hipocrisia e conduta interesseira.

— A corrupção do sistema carcerário de devedores e a falta de assistência ao cidadão mantido em regime fechado (muitos presos pobres morriam de fome e frio nas prisões, enquanto sistema jurídico permitia brechas que auxiliavam apenas os devedores ricos).

— O sistema de justiça, que desfavorecia o devedor trabalhador.

— O novo estado das relações entre patrão x empregado, motivado pelo advento da burguesia e da revolução industrial.

A tudo isso junta-se um turbilhão de boas piadas, ridicularizando a sociedade e entendendo como “naturais” as diferenças sociais. Weller (ou Veller) é inteligentíssimo — tem soluções fáceis para quase tudo — e portanto sabe da burrice do Clube Pickwick, mas como é o criado… Além disso, há uma pesada crítica ao espírito cientificista da época. Os personagens principais, embora abertos aos procedimentos racionais da ciência, demonstravam grande inabilidade para situações que exigiam praticidade e que protagonizam a maior parte dos episódios cômicos do livro.

Ainda me lembro da surpresa de que Dickens poderia me fazer rir alto, e foi isso que me fez amá-lo.

Pickwick é desigual e heterogêneo, mas genial. Como diz Chesterton, “Em Pickwick, Dickens não escreveu exatamente literatura, escreveu mitologia”.

Texto parcialmente copiado (adaptado) de fontes diversas.

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Do que o Inter precisa para ir à Libertadores 2020

Do que o Inter precisa para ir à Libertadores 2020

O Flamengo é o campeão do Brasileiro de 2019 e, como também venceu a Libertadores deste ano, o que lhe garante classificação automática para o ano seguinte, criou mais uma vaga para esta competição neste ano. O mesmo fez o Athlético-PR: como venceu a Copa do Brasil e está em quinto lugar no Brasileiro, ele também criou mais uma vaga.

Então, estes dois competentes clubes fizeram o G-6 transformar-se em G-8, ou seja, teremos 8 times brasileiros na Libertadores de 2020 — 6 com vagas diretas e 2 na escorregadia pré-Libertadores.

O Inter está em sétimo lugar. Vejamos.

1 Flamengo 87 pts, 27 v
2 Santos 71 pts, 21 v
3 Palmeiras 68 pts, 19 v
4 Grêmio 62 pts, 18 v
5 Athletico-PR 60 pts, 17 v
6 São Paulo 57 pts, 15 v
7 Internacional 54 pts, 15 v
8 Corinthians 53 pts, 13 v
9 Fortaleza 49 pts, 14 v
10 Goiás 49 pts, 14 v
11 Bahia 48 pts, 12 v

Para não ir à Libertadores 2020, o Inter teria que perder duas posições, caindo para o 9º lugar.

Todos jogam mais duas partidas. O Inter contra o São Paulo — observem a colocação dos são-paulinos, se os vencermos quarta-feira assumimos o 6º lugar com 16 vitórias contra 15 e podemos incrivelmente pegar uma vaga direta — e contra o Atlético-MG na última rodada, domingo.

O São Paulo pega o Inter (C) e o CSA (F). Este resultado garante uma vaga, no mínimo, na pré-Libertadores.

O Corinthians pega o Ceará (F) e o Flu (C).

O Fortaleza pega o Flu (F) e o Bahia (C).

O Goiás pega o Palmeiras (F) e o Grêmio (C).

E o Bahia, com chances quase nulas, pega o Vasco (C) e o Fortaleza (F).

Ou seja, como Goiás e Fortaleza estão a 5 pontos de distância, está difícil cair fora da pré-Libertadores. E se empatarmos em pontos com o Corinthians, estaremos na frente em razão do menor número de vitórias dos paulistas. Já para a vaga direta, os sites de estatísticas dão entre 18 e 24% de chances.

Então, é melhor a diretoria reformular o time para 2020, pois estamos MUITO MAL.

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Bundamolismo

Só discordo do termo “acadelamento” porque tem raiz machista. As cachorras (cadelas) costumam ser mais corajosas do que os cachorros.

Mas, de resto, a administração de Marcelo Medeiros é uma montanha de equívocos. Tudo começa na tal “Ação entre amigos” comandada por Fernando Carvalho e segue.

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Morre Mariss Jansons

Morre Mariss Jansons

Aos 76 anos, Mariss Jansons morreu na noite passada em sua casa em São Petersburgo. Ele tinha problemas cardíacos há bastante tempo.

Este ano, sua saúde tinha se deteriorado dramaticamente.

Mariss foi um sensacional regente. Filho do maestro letão Arvid Jansons e Araida, uma judia, Mariss permaneceu escondido durante sua infância na Riga ocupada pelos nazistas. Durante os anos em que Arvid foi vice-diretor da Filarmônica de Leningrado, Mariss memorizava o que ouvia.

Mariss foi autorizado a partir para o País de Gales na década de 1970, onde um impressionante ciclo de Tchaikovski foi transmitido na televisão nacional, e para Oslo, onde se tornou o diretor de sua orquestra em 1979.

Em 1996, Mariss sofreu um ataque cardíaco quase fatal enquanto dirigia La Bohème em Oslo. Somente a presença de um médico de ágil e a proximidade de um hospital salvaram sua vida.

No ano seguinte, tornou-se diretor musical em Pittsburgh, revitalizando a orquestra por mais de meia década até se cansar dos vôos transatlânticos. Desde 2002, dirigiu a Orquestra Sinfônica da Rádio da Baviera, mantendo seu status de melhor século na Alemanha, atrás apenas da Filarmônica de Berlim.

Ao mesmo tempo, ele ocupou a posição de maestro titular no Concertgebouw de Amsterdã entre 2004 e 2014. Suas gravações incluem leituras absolutamente magistrais das sinfonias de Mahler e Shostakovich.

Ele deixa uma filha, Ilona, ​​de seu primeiro casamento, e sua segunda esposa, Irina, que sempre o acompanhava.

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Somos nós que estamos implantando o fascismo

Somos nós que estamos implantando o fascismo

Por Valéria Brandini (*), antropóloga.

É o povo que está elegendo o fascismo. Se não fosse esse militarzinho bunda suja, seria outro. Pesquiso o brasileiro há 25 anos. Já fiz pesquisas presenciais de norte a sul do País e atesto que o brasileiro médio “é isso aí”.

Quando a tendência da diversidade chegou, ela veio “de fora para dentro”, é uma tendência mundial, pegou a parte mais desenvolvida da sociedade, que não deve chegar a 5% – não falo de nível econômico, falo de nível cultural – e pegou o pink money da comunidade LGBTQ. Mas quem estuda tendências socioculturais sabe que uma coisa é a tendência que vem de fora, e outra coisa é sua assimilação de acordo com os valores e tendências emergentes de um grupo, ou povo.

Pois bem, há uns 7 anos entrevistei grupos de jovens homens que diziam que “não dá pra namorar hoje em dia porque só tem puta”, e grupos de jovens mulheres que “queriam casar virgem, porque a mulherada hoje não se respeita”, que acham que “não dá pra trabalhar e ser mãe e esposa ao mesmo tempo”. Isso é o brasileiro médio – homens e mulheres machistas, racistas e homofóbicos.

Entrevistei adolescentes que diziam ter medo de ir em baladas, pois “os caras não aceitam quando você não quer ficar com eles e te agridem”. Entrevistei jovens homossexuais de periferia que disseram que “tirando os Jardins (SP), ser gay na periferia é correr ameaça de espancamento e morte todo dia.

O brasileiro médio nunca foi “bonzinho”, como dizia Kate Lyra nos quadros de humor dos anos 80. O brasileiro médio “odeia viado”, odeia pobre — mesmo quando é pobre — não odeia “a pobreza”, odeia “o pobre”, divide as mulheres entre as putas e as mulheres pra casar, é racista e de um “racismo cordial” nojento, pois diz que tem amigo negro, mas não se importa que a polícia mate jovens negros inocentes. As mulheres são AS grandes machistas, pois o machismo feminino é o que forma homens e mulheres machistas na socialização primária das crianças e elas NAO QUEREM se libertar dos padrões coercitivos do machismo, elas querem manter esses padrões, pois acreditam que nele elas tem privilégios (mesmo tomando porrada de machista e com um índice altíssimo de feminicídio — vivem uma eterna síndrome de Estocolmo) — já no feminismo, teriam que ser responsáveis por suas próprias vidas, teriam que ter autonomia existencial e isso é novo e assustador.

A candidatura de B17 rompeu o lacre do reacionarismo e o protofascismo que orienta o ethos do brasileiro médio, mas que com a tendência mundial de apoio à diversidade, ficava reprimida. Democracia é isso, senhoras e senhores e infelizmente o povo brasileiro “é isso”.

Nós aqui que achamos uma abominação o machismo, homofobia e racismo do PSL, nós que lutamos contra Bolsonaro e sua ideologia de extrema-direita, sua apologia à tortura, seu desmerecimento às mulheres, seu ódio aos LGBTQ e sua depreciação dos negros, somos a minoria numa elite cultural que não representa o brasileiro médio — e não digo isso com orgulho, mas com pesar —, pois somos o que o brasileiro médio não quer.

Então, se você, como eu, acredita nos valores da diversidade, na busca por equanimidade para os excluídos, como base da cidadania, busque inspirar e influenciar os valores da igualdade por onde passar. Use o conhecimento como ferramenta para desconstruir mitos discriminatórios, use o conhecimento como forma de mostrar a realidade do Outro para aqueles fechados em suas bolhas, pois a empatia é o caminho para que estas pessoas entendam que você precisa lutar por quem não tem condições de lutar por si na sociedade. Não fique apenas na tentativa de convencimento de voto. O trabalho para inspirar é trabalho de uma vida inteira, não de uma eleição — e só ele causa mudanças profundas. Não tente “convencer”, mostre o conhecimento, desconstrua os preconceitos pelo conhecimento e deixe que escolham o caminho a seguir. Se 1 em 10 pessoas se inspirar, você venceu.

E aprenda a mandar à merda quem precisa ser mandado à merda, sem medo de que não gostem de você, pois nada é mais precioso do que a integridade, e integridade é ser inteiro no que você acredita.

A antropóloga Valéria Brandini | Foto: valeriabrandini.com

.oOo.

(*) Valeria Brandini é antropóloga graduada pela Unicamp, especialista em Multimeios (Comunicação e Interdisciplinaridade), Mestre em Publicidade e Propaganda pela ECA – USP, Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA – USP em Convênio com a Universitá La Sapienza (Roma) e Central Saint Martin’S School Of Fashion (Londres) e Pós Doutoranda em Antropologia Empresarial pela Unicamp.

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Essa gente, de Chico Buarque

Essa gente, de Chico Buarque

Não li todos os livros de Chico Buarque, mas penso que, com alguma margem de segurança, possa dizer que este é seu melhor, ao lado de Budapeste. Manuel Duarte — notem a semelhança sonora com Chico Buarque — é um escritor que gosta de caminhar pelo Leblon, cuja grande obra foi escrita no passado e ainda é muito respeitada.

O livro é escrito em pequenos capítulos como se formassem um diário. São escritos, é claro, na primeira pessoa, só que por vários personagens. (Há uma voz misteriosa que narra em terceira pessoa).  Essa gente é duro, muito carioca e inclui fatos muito recentes. Imaginem que o diário finda em 25 de setembro de 2019. Duarte é autor de diversos livros, dentre eles um sucesso estrondoso — O Eunuco do Paço Real -, mas hoje produz pouco e está na pindaíba. Tem duas ex, uma tradutora e uma decoradora que depois se especializou em procurar homens ricos e liberais do ponto de vista sexual. Com a primeira mulher, tem um filho pré-adolescente com o qual mal conversa.

Enquanto escreve um novo livro e espera pela reedição do Eunuco, Duarte anda atrás de dinheiro e de mulheres. Das suas ex e de Rebekka, uma holandesa, mulher de um salva-vidas muito considerado no morro. O autor não parece muito apaixonado por seus personagens, parece mais fixado e estarrecido pelas circunstâncias, pela conformidade das pessoas em relação à vida que levam, pela comédia que é ignorar o que se passa. É um livro que mostra o espancamento de um mendigo, o bullying sofrido por uma criança em razão de ser filho de “gente de esquerda”, a humilhação de porteiros, tudo coisa normal. É um triste cenário de decadência moral com gente preocupada em salvar sua pele em primeiro plano. É uma realidade estranha, violenta e trágica. O final é especialmente enigmático. Chico nos deixa com o pincel na mão para pintarmos o que se quisermos. E a gente só pensa em tinta preta e em vermelho sangue.

Chico Buarque: retrato do Rio de Janeiro e do Brasil | Foto: Divulgação

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Bolsonaro apresenta seu novo partido explicitamente fascista

Bolsonaro apresenta seu novo partido explicitamente fascista

A apresentação da logomarca do partido completamente feita de balas, veio algumas horas após o anúncio de que o número com o qual será apresentado nas pesquisas é 38, conforme o calibre da famosa pistola (“fácil de lembrar”).

Do Il Manifesto
Tradução do blogueiro

Impossível esquecer o lançamento do novo partido de Bolsonaro, Aliança pelo Brasil, nascido da costela (ainda) mais fascista do Partido Social Liberal (Psl), a força política com a qual ele chegou à presidência do Brasil e de onde saiu por discordâncias cada vez mais graves com o presidente Luciano Bivar. Esta é a décima troca de partido de Bolsonazi, como seus muitos o chamam.

Bolsonazi presidirá o partido e o primeiro vice-presidente será o primogênito Flávio, o 01, super enrolado na justiça. Na primeira convenção nacional da Aliança pelo Brasil, que aconteceu na quinta-feira em um hotel da capital, nenhum dos ingredientes estava faltando: insultos a jornalistas por militantes com camisetas elogiando o torturador da ditadura de Brilhante Ustra, referências a Deus e religião, piadas sexuais e slogans anticomunistas (“Nossa bandeira nunca será vermelha”). E, acima de tudo, a apresentação de uma foto com o nome do partido totalmente feito de balas, seguiu dali algumas horas após o anúncio de que o número com o qual será apresentado nas urnas é 38, como o calibre da famosa pistola (“fácil de lembrar”).

Uma escolha na linha da missão de “lutar incansavelmente para garantir a todos os brasileiros o direito inalienável de portar uma arma”. Missão que acompanhará a luta para restaurar a Deus seu lugar “na vida, na história e na alma dos brasileiros”, banir qualquer traço de comunismo e “globalismo” e curar “o flagelo ideológico” da “ideologia de gênero”. Para a estreia real do partido, talvez seja necessário esperar um pouco mais, pois é necessário coletar 500 mil assinaturas em pelo menos nove estados da federação e aguardar o aval do tribunal eleitoral. Uma empresa que dificilmente pode ser realizada a tempo de participar das eleições municipais de 2020.

Entretanto, já está sendo debatida a “orientação explicitamente fascista” da nova força política, sobre a qual enfatiza, por exemplo, o líder do PT na Câmara dos Deputados, Paulo Pimenta, que não hesita em descrevê-lo como o “partido da milícia”, em referência aos laços claros do clã Bolsonaro com as milícias paramilitares do Rio de Janeiro envolvidas no assassinato de Marielle Franco, pela qual o filho Carlos está sob investigação, o 02.

E, em matéria de fascismo, houve também o anúncio de um ato solene em homenagem a Pinochet pela Assembleia Legislativa do estado de São Paulo, encomendado por Frederico d’Avila, deputado estadual do PSL próximo a Aliança pelo Brasil, e marcado para 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, essa coisa inútil. É difícil, no entanto, que o evento ocorra: o presidente da Alesp, Cauê Macris, já declarou que vai impedi-lo.

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A mesma carta marcada (observações de Marcos Nunes sobre o filme Coringa)

A mesma carta marcada (observações de Marcos Nunes sobre o filme Coringa)

A MESMA CARTA MARCADA, por Marcos Nunes

Fiquei bastante surpreso com o fato de algumas pessoas de minhas relações terem visto – e gostado – de CORINGA. Me obriguei, assim, a vê-lo, ainda que deteste o subgênero “filmes baseados em histórias em quadrinhos com super-heróis”, basicamente porque super-heróis são apenas uma expressão de cultura de massas, que se utiliza da fórmula das soluções mágicas para mascarar a impotência de seus consumidores, inserindo-os em um universo demagógico onde ele tem voz e poder.

Lamento, mas não gostei mesmo do filme, ainda que ele seja diferente dos demais desse subgênero, tanto na construção do roteiro quanto das personagens, além da linguagem cinematográfica que o aproxima mais de filmes realistas como Midnight Cowboy ou hiper-realistas como Taxi Driver e sua violência gráfica. Arthur, o Joker da vez, me pareceu uma fusão de Ratso (de Midnight Cowboy) com Travis (de Taxi Driver).

O tipo esquizo-paranoide que é associado ao cidadão comum, suas mazelas, fracassos e acentuado grau de sociopatia, não me pareceu representar a revolta dos pobres esquecidos pelo capitalismo financeiro versus os ricos que abdicaram de qualquer pretensão a um mundo mais justo e gozam com a multiplicação das injustiças.

Ele me parece mais um… bolsomínion, alheio à política, imerso no ressentimento e, em dado instante, também adepto da solução violenta como expressão de sua potência íntima relegada à marginalidade por um sistema injusto.

Arthur, cuja fisionomia muitas vezes lembra a do vigarista-em-chefe ora no poder, também não sabe de nada, sequer da própria vida e de seu passado. Supostamente a mãe foi vítima de uma trama de ocultação de paternidade sob responsabilidade do vilão da história, o pai de Bruce Wayne (que virá a ser o “Batman”, coisa mais ridícula, um bilionário ocupado em fazer justiça com as próprias mãos para o bem de uma sociedade conflagrada justo pela desigualdade crescente de renda e poder…).

Mas tudo pode ser apenas projeção de mentes paranoicas, mergulhadas no delírio persecutório. Mas também pode não ser.

Nisso entra o discurso subliminar acerca da ignorância, despolitização, incapacidade técnica e fracasso social em que mergulhou a maioria dos habitantes de Gotham City, que passam a cultuar o “assassino do metrô” por ele ter liquidado com três agentes do mercado financeiro (coisa, aliás, bem inverossímil: três corretores do mercado financeiro na madrugada, viajando pelo infecto e perigoso metrô da cidade…).

Isso lembra o que? Exatamente: o revanchismo do pobre que, ao invés de mudar sua condição pela razão e compreensão do jogo político e social de um universo financeirizado, toma para si a figura de um assassino que potencializa suas realizações, dá expressão aos desejos de vingança e às soluções mágicas da violência, da fé cega e faca amolada, que significariam, para essa massa, a fuga do sistema, vitória sobre ele, conquista de força pessoal e coletiva.

Mas tudo que se produz a partir desse herói imerso em complexo de inferioridade é o caos, a anarquia.

Me pareceu que a conclusão do filme é óbvia: dar poder ao povo significará caos irremediável. A miséria que existe é responsabilidade apenas dos próprios miseráveis, mentalmente incapazes e psicologicamente destruídos por uma fusão de ignorância total e desejos irrealizáveis.

Ao imergir na cultura das massas, chega-se à conclusão que o mais perigoso para a sociedade é render-se à demagogia da assimilação dos conceitos do homem comum para melhor feitura e conclusão de um Estado capaz de atender a todos, não apenas àqueles que, em termos darwinistas sociais mais bem dotados, tomam o poder nas mãos, e isso é posto como absolutamente legítimo.

O que é a falta de poder do Coringa se não inadaptabilidade social derivada de males psicológicos derivados não dos conflitos de classe e poder, mas apenas de relações afetivas instáveis e marcadas pelo pendor à esquizofrenia?

Me parece bem estranho que pessoas “de esquerda” tomem o Coringa como símbolo para uma revolta consequente das massas. O que o filme apresenta é justo o posto: ressentidos cuja arma revolucionária é apenas a violência direcionada genericamente aos “ricos”, sem que compreendam qualquer coisa acerca do tecido social construído por determinado modo de produção.

O Coringa representa, isso sim, os bolsomínions, o cara ignorante, violento, preconceituoso, que emerge das massas como expressão do obscurantismo essencial das mentes imersas nas piores patologias. A massa o acolhe como herói, um homem antissistema, despolitizado, que vence como símbolo da estupidez coletiva empoderada.

Funciona, assim, como um aviso contra lideranças políticas “populistas”. E nesse balaio cabe, prioritariamente, quaisquer lideranças políticas de esquerda, jamais os tecnocratas do liberalismo econômico.

Funciona como imagens reveladoras da degradação dos povos, sob única responsabilidade… deles mesmos. São as cartas marcadas de sempre: ou o povo é conduzido por déspotas esclarecidos, ou cria um despotismo próprio, o fascismo, elegendo um líder carismático e pondo-o a serviço de sua irracionalidade patológica.

Não serve como expressão de revolta legítima contra um sistema político e econômico que condena as massas à pobreza e à miséria, mas o inverso: como tal revolta apenas expõe uma massa de ressentidos cuja fúria leva tão somente à perseguição, tortura e morte dos inimigos, designados apenas como “os ricos”.

Diante disso, “chama o Batman”.

E isso é muito pouco. E certamente demais para ter ganho um Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza.

 

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O homem infelizmente tem que acabar, de Clara Corleone

O homem infelizmente tem que acabar, de Clara Corleone

Se minhas resenhas são exemplos de jornalismo gonzo, esta talvez bata meus recordes no estilo. Eu conheço Clara Corleone faz algum tempo. Leio seus textos nas redes sociais e gosto deles. Certa vez, tivemos uma dessas tretas de internet — tenho problemas reais com textos que possam levar a linchamentos virtuais — e certamente seríamos inimigozinhos se Clara não fosse tão generosa ao iniciar um papo meio bobo inbox, semanas após a confusão. Agradeço muito a ela, que tem a enorme sabedoria de não cultivar bobagens, pois eu exagerei feio na crítica. Mas fazer o quê? Ela me mostrou o caminho e eu fui. O cômico é que algumas pessoas arregalam os olhos quando digo que estamos de boas, que conversamos, que já tive a honra de participar do sarau literário que ela mantém, que uma de suas irmãs trabalhou na Bamboletras, etc. Bem, espero que ela tenha notado que não sou totalmente escroto…

O homem infelizmente tem que acabar é uma coletânea revisada das melhores crônicas de Clara. A primeira questão seria examinar se os textos suportariam a passagem para o formato livro ou se tornariam um saco vazio. Não, o papel lhes caiu muito bem.

Os temas são conhecidos de quem a lê: o sexo — início (abordagem), meio (convivência) e fim (separações) –, o feminismo, as diversas formas de assédio, o medo, o amor, com sua poesia e sacanagem, o machismo circundante e a sorte de ter uma família calorosa e sensacional, tudo pontuado com muita música e sarcasmo.

Clara não faz grandes teses, mas dá exemplos e exemplos a respeito de como (sobre)vive uma mulher solteira e sexualmente ativa numa cidade como Porto Alegre. Olha, não é fácil, não há paz nem para passear com as cachorras no bairro Bom Fim. Eu nunca assobiei ou chamei mulher de gostosa na rua, mas é óbvio que me reconheci em algumas posturas de machismo mais sutil. Só que também comemorei. Não sou 100% tosco.

Mas sabe o que é bom mesmo no livro? A autora. Ela é uma jovem na primeira metade dos 30 anos que gosta do melhor cinema, da melhor música brasileira e que sabe misturar sua enorme cultura e bom gosto em narrativas do dia a dia. Como deve ter uma jukebox em permanente funcionamento na cabeça, Clara também tem o costume de surpreender, integrando perfeitamente letras de canções em meio aos textos. O bom humor é onipresente e ele torna a crítica mais potente. Clara não tem nada do estereótipo da feminista mal-humorada — provavelmente criado por nós, homens — e está rindo e nos ridicularizando, mesmo que aprecie nosso instrumental. E os textos poéticos sobre o amor são excelentes.

Como não sou um leitor em busca de teses e penso que a ficção e os casos bem contados arranham mais a realidade do que os ensaios, gostei muito de O homem infelizmente tem que acabar. O título? Ora, leia o livro que você entenderá. Tem que acabar mesmo.

Clara Corleone em seu sarau no von Teese | Foto: Carolina Disegna

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Imagens cruzadas durante ‘O Messias’ de Händel na Igreja das Dores

Imagens cruzadas durante ‘O Messias’ de Händel na Igreja das Dores

Eu estava assistindo ao Messias de Händel na Igreja das Dores com uma série de amigos. Quando olhei para trás, vi Elena sentada na lateral do confessionário ao lado de Jonatha Arruda.

Foto: Milton Ribeiro

Ela me viu.

Foto: Milton Ribeiro

Ao meu lado, a Cláu Paranhos me fotografava com Marisa Monte — na verdade Marina Vilaça — em primeiro plano.

Foto: Cláu Paranhos

O Jonatha também fotografou a mim e à Elena.

Foto: Jonatha Arruda

Na nossa frente, estava o Mateus Rosada, mais conhecido pelo apelido de Bisnaga.

Foto: Elena Romanov

Ele é um talentoso arquiteto e desenhista e, enquanto ouvia  música, registrava a Igreja.

Desenho de Mateus Rosada

E, no celular da Lia Maria de Medeiros, apareceu isto…

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Saiba porque a obra-prima de Scorsese ficará apenas duas semanas em Porto Alegre

Saiba porque a obra-prima de Scorsese ficará apenas duas semanas em Porto Alegre

A Netflix não se importa muito com o antigo modelo de negócios cinematográfico, ela quer é ver seus assinantes felizes e adimplentes. Então, com produção da Netflix, ao custo de US$ 159 milhões, O Irlandês terá somente 2 semanas em cartaz nos cinemas — li em vários lugares que seria apenas uma, mas o Guion confirma duas. Em Porto Alegre, como disse, ele está no Guion Cinemas com exclusividade porque as grandes redes não aceitaram as exigências da Netflix.

E isso ocorrerá no mundo todo. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas 65 salas exibirão o filme. No Brasil, serão 19 salas espalhadas por 15 cidades a partir do dia 14 de novembro. E fim. É claro que a Netflix está mais interessada em promover seu streaming do que as salas de cinema trabalhadas pelas produtoras tradicionais. Mas também está de olho nos prêmios como o Oscar. Então, temos uma pequena chance na tela grande.

O Irlandês narra mais uma uma saga de Scorsese sobre o crime organizado nos Estados Unidos pós-guerra. Contado através da perspectiva do veterano da Segunda Guerra Mundial Frank Sheeran, um assassino profissional que trabalhou ao lado de algumas das personalidades mais marcantes do século 20, o filme aborda o desaparecimento do lendário líder sindical Jimmy Hoffa – e se transforma em uma jornada pelos corredores do crime organizado, com seus mecanismos, leis, rivalidades e associações políticas.

O filme é baseado no livro O Irlandês: Os Crimes de Frank Sheeran a Serviço da Máfia, de Charles Brandt. O livro tem um sugestivo título original: I Heard You Paint Houses, que é uma expressão do submundo do crime dos Estados Unidos, que significa “pintar casas”, melhor dizendo, significa matar, uma gíria derivada do sangue que espirra dos corpos e das cabeças nas paredes contra as quais os mortos se chocam após o impacto dos tiros.

Scorsese fez seus filmes recentes, incluindo O Lobo de Wall Street e O Aviador, na Paramount. Se tivesse feito O Irlandês em um estúdio tradicional de Hollywood, tudo teria transcorrido normalmente, e seria provável que ele aparecesse em um cinema perto de você. Mas a Paramount não se interessou, por causa do orçamento robusto de um filme que abrange décadas.

A Netflix foi a única empresa disposta a assumir o risco do projeto — um filme com ritmo lento de três horas e meia de duração, que conta a história de como o crime organizado se interligou ao movimento trabalhista e ao governo nos Estados Unidos ao longo do século passado.

“A Netflix está recusando uma quantia significativa de dinheiro”, disse irritado John Fithian, presidente da Associação Nacional de Proprietários de Cinemas. “Pense em Os Infiltrados, de 2006. O filme arrecadou US$ 300 milhões em todo o mundo. Garantiu o Oscar de melhor diretor a Scorsese. Ganhou a estatueta de melhor filme. Ficou muito tempo nos cinemas e rendeu uma tonelada de dinheiro. Por que a Netflix não gostaria de gerar receita com isso antes de ir para o streaming? Ele ainda ficaria exclusivo na Netflix”. Ué, mas a Paramount quis esses 300 milhões, né? E quem aceitou investir tem suas regras, não?

Então, como a Netflix quer atrair mais e mais assinantes, daqui a alguns dias o único lugar em que você poderá vê-lo é em casa. Paciência. Pois é claro que o lugar dele é mas telonas.

Mais uma coisa: dizem que a grande cena do filme ocorre só aos 45 min do segundo tempo.

Foto: Divulgação

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Lula vai percorrer o Brasil

Lula vai percorrer o Brasil. Vai falar com líderes internacionais. Vai às praias sujas de petróleo do nordeste (um absurdo que Boçalnato nem foi olhar!). Vai falar sobre o desmonte do estado patrocinado por Paulo Guedes. Vai mostrar o plano de Guedes para nos tornar uma colônia dos EUA — o cara é um singelo baba-ovo anos 70. Vai falar da estagnação econômica. Vai comparar. Vai mostrar, com sua oratória brilhante — e não sou lulista –, que Boçal é burro demais. Vai ver Macron e dar beijos em Cristina e Alberto Fernandez. Se a Frente Ampla ganhar no Uruguai, ele vai visitar.

E nós vamos nos foder com este Congresso de baixo nível que os boçalnaristas colocaram lá. (Religião e direita é o mesmo que intolerância e autoritarismo). E a tendência é uma grande explosão. Mas eu vou parar de me preocupar e amar a bomba, porque os estúpidos eleitores de Boçalnato merecem isso mesmo.

E eu vou dizer que prefiro o 6 x 5 ao 7 x 1 deles, bando de trouxas amantes de milicianos. E meu sonho de Pollyanna é que seja instalada inteligência artificial nos eleitores do Bozo. E que, enquanto eles não receberem esse acréscimo, que fiquem quietos, dormindo, sonhando com o AI-5. E fim.

P.S. — E os boçalnaristas nem poderão reclamar muito do STF, pois este colegiado é que está garantindo a não prisão dos filhos de Bolso — que são os verdadeiros Irmãos Petralha. Quem leu Tio Patinhas na infância sabe disso.

P. P. S. — E quem mandou matar Marielle?

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Atrás do balcão da Bamboletras (XVIII)

Atrás do balcão da Bamboletras (XVIII)

Eu estava vindo para a Livraria num Uber. Eu e o motorista, um negro, vínhamos falando mal do Inter e ofendendo severamente nossa diretoria. Eles merecem. Bah, merecem muito, mas isso não interessa.

No meio do papo, eu, por algum motivo, falei no livro “Liga da Canela Preta”, de José Antônio dos Santos para a Editora Diadorim. E contei um pouco da história da liga dos negros, enquanto o sujeito arregalava os olhos.

— MAS EU NÃO CONHECIA ISSO!!! Ah, não. Eu preciso ler este livro HOJE.
— Olha, tem na minha livraria e nós estamos indo pra lá.
— Então vou estacionar e comprar o livro. Depois volto pro trabalho.

Quando saímos do carro ele disse:

— Tu sabe que o negro não conhece a própria história, né?

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A parte hipócrita da imprensa gaúcha

A combativa imprensa gaúcha diz que o Estado está falido, que é necessário um pouco de sacrifício e aguentar o parcelamento de salários há anos sem reajuste…

Então, para ter uma graninha a mais, o Leitinho cobra o IPVA em janeiro sem parcelamento e a mesma imprensa diz que é um absurdo, que não pode ficar assim!

E o governador — do alto de suas inabaláveis convicções — recua…

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Um abuso (ou quase)

Meu pai era um dentista de conversa leve e cômica. Mesmo quando se irritava era leve. Jamais sairia falando sobre ABUSO. E ele era engraçado. Mesmo sério era engraçado. Quando minha irmã, aos 15 anos, disse que estava namorando, ele respondeu “Mas é platônico, não?”. Isso tornou-se uma clássica piada familiar. Mas eu estava dizendo que ele tangenciava e evitava os papos mais difíceis e que por isso não falaria sobre abuso.

Porém, na noite em que eu — tinha uns 8 anos (1965) — estava passeando com o cachorro e depois saí numa fuga a toda velocidade porque um sujeito sentado numa mesa de bar primeiro puxou conversa, depois acariciou minhas pernas e pegou na minha mão, algo me disse que devia falar com ele. Entrei em casa ofegante e contei o acontecido. Ele me olhou com a maior calma e perguntou:

— Foi só isso?
— Foi.
— Mão nas pernas e depois na tua mão?
— Sim.
— Tu reconheceria o sujeito?
— Reconheceria.
— Então, se a gente cruzar com ele, me mostra.
— Mostro.

E ele me olhou fixamente.

— E nunca mais chega perto ou fala com esse cara.

Meses depois, eu mostrei o cidadão para o pai.

— Mas ele é meu cliente! Incrível.

Um tempo depois ele me disse que o tal cliente tinha marcado hora.

— Vou falar com ele.

Com o sujeito de boca aberta, meu pai disse que tinha um filho que levava nosso cãozinho para fazer xixi na rua, às vezes à noite, que eu devia passar perto do bar tal. E que…

— Essa cárie está muito infectada. Acho que vai doer. Muito. Demais.

Meu pai ria dizendo que o sujeito suava e suava. E que sumiu depois desta consulta.

(Só eu, ele e minha mãe soubemos dessa história. Nada de escândalos).

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Ser pedestre em Porto Alegre

Ser pedestre em Porto Alegre

Tudo pelo carro nesta Porto Alegre de merda.

Tente atravessar a João Pessoa na altura da República. As sinaleiras para pedestre não são sincronizadas e há quatro pistas. Duas para carros e duas para ônibus. É complicado de atravessar e até de entender. Tem gente que vai e volta correndo… Um perigo.

Ah, é exceção? Então tente atravessar a Borges na altura do Centro Administrativo, no pé da elevada. São 3 pistas que se leva 5 minutos para atravessar. É claro que todo mundo faz a travessia correndo, quando dá uma folga.

E experimente caminhar pela perimetral vindo da ex-Medicina em direção à Procergs pelo lado direito da rua. Há a pista dos carros, que é laaaaarga, e a calçada, que é dividida entre uma pista para ciclovia e outra caminhantes formando uma trança sem fim. Parece feita para que os ciclistas nos atropelem.

Mas o carro… Ah, este tem metros e metros. São outras 4 lindas pistas.

Tudo pelo carro.

E há locais onde a gente atravessa é dá de cara com uma grade…

Foto: Youtube

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Comentário de Eduardo Canto:

Difícil ser pedestre, difícil ser ciclista. Ainda na gestão do Fortunati, foram criadas calçadovias, como a da Restinga, que simplesmente transformou calçadas em ciclovias. Tiraram o pedestre pra botar o ciclista. E com isso se fomenta a guerra entre pedestre e ciclista, pois ai de quem mexer com os carros. O mesmo ocorre em frente ao Barra Shopping. Um pouquinho depois do Centro de Treinamento do Grêmio, termina a calçada e fica só ciclovia. Sobre as sinaleiras, eu já filmei mais de 8 minutos de espera da sinaleira para pedestres e ciclistas no cruzamento da Beira-Rio com Ipiranga, ali ao lado do Dilúvio e do Guaíba. Ou seja, são sistemas feitos para serem burlados. Quer mais? Ciclocoisa da Ipiranga: tem alguns semáforos com 3 tempos para conversão de carros da Ipiranga para pontes que levam ao norte. O ciclista chega, aperta o botão e tem que esperar o novo ciclo para que tenha 10 ou 12 segundos para atravessar. Se chegar e apertar o botão mesmo antes da hora em que o semáforo abriria para ele, ele tem que esperar o novo ciclo. Quando vendi o carro e comecei a pedalar, eu ficava de trouxa no sinal esperando, até me dar conta de que este SISTEMA PENALIZA QUEM NÃO USA CARRO. E agora, eu atravesso quando dá. Mas pior mesmo do que esse descaso dos gestores público-privados (prefeitos a serviço das empresas financiadoras de campanha) é o comportamento de boa parte dos motoristas: odeiam o ciclista, como se ele fosse apenas um pé de chinelo que não tem carro porque é pobre (e aí se fosse?!) e não conseguem enxergar a quantidade de gente que já não entope as ruas com carros para andar de bike. E mais ainda, a quantidade de gente que só não faz o mesmo porque tem medo de ser atropelada. Estamos muito atrasados. Assim como fomos o último país a abolir, pelo menos oficialmente, a escravidão, seremos o último a abandonar o conceito de que ter carro é imprescindível para a felicidade. E, claro, seremos os últimos a termos consciência de classe, que é a raiz de todos esses problemas. Logo nós, um dos países mais lindos desse planeta…

Ah, sim, e quem tem carro e berra é ouvido: a gritaria sobre a ameaça de não parcelamento do IPVA foi ouvida no dia seguinte e o Leitinho, o governador das empresas, já abriu as pernocas.

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Bom dia, Zé Ricardo (com os lances de Inter 1 x 1 Athlético)

Bom dia, Zé Ricardo (com os lances de Inter 1 x 1 Athlético)

Para usar um termo que está na moda, o Inter é tóxico, faz mal. Na verdade, a diretoria e seu guru Fernando Carvalho fazem mal. Pois só uma pressão de cima justifica certas escalações. Pô, Patrick a esta hora? Ele só poderia jogar na lateral esquerda, naquele lugar para onde temos Natanael, Uendel, Zeca Oktoberfest, etc.

Já pensaram em somar os salários deles? Acho que dava um, digamos, Filipe Luís + um guri da base na reserva. E se somássemos os salários de Sóbis, Trellez e Parede? Acho que teríamos um bom reserva pro Guerrero. E se pegássemos o Bruno Silva e o Rithely? Bem, não me digam que estas contratações eram loteria, que poderiam dar certo. Quem apostava em Sóbis (há anos não faz um bom jogo), Trellez (idem) e Parede (reserva no Ypiranga), quem conhecia Natanael ou acreditava em Uendel? Ninguém. A margem de erro das contratações pode baixar sim.

Lindoso: um dos poucos acertos da diretoria | Foto: Ricardo Duarte

Ontem jogamos muito, mas muito mal. O primeiro tempo foi de rara pobreza. A saída de bola estava um caos. Lindoso simplesmente deixou de circular entre os dois zagueiros para fazer a saída de bola — ordem de Zé Ricardo? Como consequência, Moledo e Cuesta passaram a dar chutões, no que foram auxiliados por Lomba. Já disse, o Inter é tóxico. Uma providência singela — pedir para que Lindoso fosse uma opção segura de passe — não foi tomada.

Só que Lindoso fez um golaço, mas Zeca Oktoberfest providenciou o empate do, falemos sério, fraco time do Athlético-PR. Os curitibanos jogaram muito mal, se esforçaram para perder, mas nós não sabemos ganhar.

Jogamos 12 pontos contra o Athlético-PR e ganhamos 1. O time deles tem Wellington Martins de volante e capitão. E mais não digo.

No segundo tempo, pressionamos bastante. Perdemos gols e até um pênalti batido por Guerrero. Não sei o que houve com Nico, mas o gol perdido por ele no final da partida — coisa bem comum — foi diferente: Nico queria o gol bonito, não o gol, se me entendem.

E assim seguimos para o Gre-Nal. Estamos prontos para tomar nova goleada. Algo há naquele vestiário, certamente insatisfação, brigas, má gestão. Cada vez fica mais complicado pagar a mensalidade para ver tanta confusão espirrando para dentro do campo.

PS: o Inter teve 6 pênaltis a seu favor em 2019. Errou 4. Devemos treinar muito este e outros fundamentos…

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Lembrete nada a ver (sobre Roma)

Lembrete nada a ver (sobre Roma)

Se um dia voltar à Roma, vou de tênis novos. Uma vez, no caminho para Londres, eu e minha filha fizemos uma Roma louca em um dia. Chegamos de manhã e saímos à noite.

Pegamos o ônibus em Fiumicino e fomos até um terminal bem bagunçado no centro. Lembro de uma palavra: termini (?). Bem, todos devem ser termini. Caminhamos como loucos.

Pantheon, Fontana di Trevi, Piazza Navona, Piazza di Spagna, imediações do Coliseo, algumas igrejas, um museu (Bárbara, qual foi?) e sei lá mais o quê. Tudo a pé, em um dia de louca infantaria. Lembro que comemos em um beco e a coisa era barata e maravilhosa. E também, burramente, na frente do Pantheon.

Lembro que quase todas as pessoas e garçons que nos identificavam como brasileiros perguntavam sobre a Boate Kiss, cujo incêndio tinha ocorrido uns dias antes.

É a última lembrança que tenho de Roma. Adorei quando fui pela penúltima (e primeira) vez e me perdi na cidade histórica. Isso eu quero que aconteça novamente. Deve ser fácil.

Em Roma, as estações de metrô ficam tão afastadas uma da outra que a cidade histórica deve ser vista a pé mesmo, acho eu.

A Bárbara inteira, o Coliseu nem tanto.

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