Woody Allen, o cineasta proscrito

Woody Allen, o cineasta proscrito
Luis Grañena

Por Rubén Amón no El País
Mal traduzido por mim

As alegações de abuso que teriam sido cometidos contra sua filha fizeram com que o diretor ficasse impedido de trabalhar. San Sebastian salvou-o. O cinema de Woody Allen (83 anos) está exposto à dialética do erotismo e da morte. Nela, há o sexo como remédio ou antídoto para o niilismo, mas também abriga superstições e premonições. Nenhuma tão evidente quanto a alegoria do exílio que Dirigindo no Escuro (2002) transfere, do cineasta incompreendido nos EUA e idolatrado na Europa.

A começar pela Espanha, cuja devoção ao iconoclasmo de Allen foi reconhecida no Prêmio Príncipe das Astúrias (2002), no monumento de bronze que foi erguido em Oviedo, na participação na produção de vários filmes — a produtora Mediapro é um aliado usual — e no salva-vidas recém lançado pelo município de San Sebastián.

É nesta cidade que Allen está filmando seu 51º primeiro filme. As estrelas são Christoph Waltz e Elena Anaya. E é uma comédia romântica — outra comédia romântica — cujo enredo de promiscuidades não requer muita imaginação: ela tem um caso com um brilhante diretor de cinema francês. E ele se apaixona por um residente espanhol bonito na cidade. A cidade é San Sebastián, que reagiu com entusiasmo geral, mas lá também houve movimentos de repulsa. Pois há estranhos escrúpulos éticos de um partido que apoia certos atos terroristas, mas que abomina o cineasta pervertido.

Allen foi submetido a um processo de extermínio nos Estados Unidos. O movimento MeToo, o puritanismo e o oportunismo comercial da indústria americana condenaram o autor de Crimes e Pecados — seu filme nuclear — a uma sentença de morte civil. Nenhuma conclusão judicial atribui a ele ter cometido crime de abuso sexual contra Dylan Farrow, sua filha adotiva, mas as declarações que ela fez à mídia estabeleceram uma verdade metajudicial ou parajurídica. Os próprios irmãos de Dylan negaram e negam suas acusações, mas… E esta duvidosa verdade transformou Allen em uma espécie de leproso, um fora da lei. Isso impede seus projetos nos EUA. Imaginem que ele não encontrou nenhum editor disposto a publicar suas memórias — todo o seu trabalho é implícita ou explicitamente autobiográfico –, que a Amazon sequestrou seu último filme, que deveria distribuir — rompendo um contrato que garantia 4 filmes a Allen… Acabou sendo processada pelo cineasta. Allen também não conseguiu recursos financeiros para manter o costume de lançar um filme anual. Houve até mesmo atores e atrizes que renunciaram a trabalhar sob seu comando, de modo que o monstro adquiriu proporções excessivas. Seus filmes foram expostos a um processo de revisão, na medida em que Manhattan, Dia de Chuva em Nova York ou Igual a Tudo na Vida foram destruídos em autópsias exemplares para demonstrar a recorrência com a qual Woody Allen estabelecia relações com jovens nos filmes. Seu relacionamento com Soon-Yi — filha adotiva de Mia Farrow, atriz que foi parceira de Allen por 12 anos, portanto, enteada do diretor — veio à luz quando ela tinha 22 anos e ele tinha 56. Eles estão casados a quase 30 anos.

O movimento inquisitorial confundiu realidade e ficção, pessoa e trabalho. O fogo justiceiro puniu a imoralidade. Allen é um cineasta superlativo que cultiva todos os gêneros — o thriller angustiante, a ficção científica, a comédia, o musical … — e que organizou seu próprio universo no caos. É fácil reconhecê-lo. Como música de fundo, vamos colocar uma cortina de jazz, vamos expor, em branco sobre preto, em letras Windsor os nomes de Charles H. Joffe, de Stephen Tenenbaum, vamos juntar um filme com o anterior e com o seguinte, numa espécie de itinerário lúcido, sarcástico e pessimista que explora a fronteira existencial.

Não é verdade que Woody Allen repita o mesmo filme repetidas vezes. Acontece que todos emanam da mesma personalidade e da mesma ingenuidade. E das mesmas obsessões: sexo, niilismo, humor negro, psicanálise, amor sem correspondência, sexo, hipocondria, sexo, retaliação ao rabino, sexo e medo da morte. É por isso que faz sentido evocar sua resposta à imprensa quando um colega lhe perguntou há alguns anos o que ele achava da morte. A resposta foi reflexo da alegoria metafísica de Você Vai Conhecer O Homem Dos Seus Sonhos.

— O que eu penso da morte?” Bem, eu sou totalmente contra isso.

Tive a oportunidade de conversar com Allen. Identifiquei seu olhar de espanto sobre a armação dos óculos. Reconheci a voz dos filmes. E ele confirmou a impressão de um caráter cativante, nervoso e consciente de que ele não poderia mais aparecer como antigalã em seus filmes. É por isso que ele tem reencarnou em Joaquin Phoenix por alguns anos, ou em Colin Firth, Owen Wilson e Josh Brolin. E resistindo a completar 85 anos. Como ele resistiu em pegar seus quatro Oscars. Foi uma reação preventiva, uma rejeição premonitória de vingança contra aquilo que a indústria americana iria organizar. E uma maneira de preparar seu exílio cultural. Allen nasceu na cidade menos americana da América. Ele cresceu em cinemas de bairro embalados no balanço do neo-realismo italiano. Eu nunca desistiria de Manhattan, mas Manhattan desistiu dele.

Foto: Divulgação

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Os compositores

Bach é Bach
Handel, um Bach mais religioso
Mozart, um Handel mais jovem e bonito
Beethoven, um Mozart angustiado
Chopin, um Beethoven sem angústia
Tchaikovsky, Chopin mais orquestra
Debussy, um Tchaikovsky descontraído
Ravel, Debussy mais jazz
Gershwin, Ravel e ainda mais jazz
Joplin, Gershwin mas mais jazz
Stravinsky, Joplin atonal
Ives, Stravinsky e mais bagunça
Cage, Ives menos a música

(claro que foi feito por norte-americanos)

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Um pouco sobre a Missa Glagolítica, de Leoš Janáček

Um pouco sobre a Missa Glagolítica, de Leoš Janáček

Uma obra religiosa escrita por um ateu, uma obra inspirada pelo amor não consumado a uma mulher casada e uma obra para homenagear a cultura eslava. Este é o resumo do que é a extraordinária Missa Glagolítica do tcheco Leoš Janáček. Mas não vamos ficar apenas no resumo. Vamos adiante.

Alexandre Pushkin foi o escritor que, para além de seus grandes méritos literários, recebeu o crédito de ter ampliado significativamente o vocabulário do idioma, normatizando várias expressões populares e codificando o russo literário. Sabemos da importância que o idioma tem para a identidade e cultura de um povo, da parte fundamental que ele ocupa em sua autoafirmação e independência.

A Morávia do compositor Leoš Janáček foi, por quase toda sua vida, dominada por estrangeiros. Até a Primeira Guerra Mundial, em 1918, por exemplo, existia o Império Austro-Húngaro, que ia do centro da Europa até a fronteira com a Ucrânia. Então, finalmente, o povo tcheco pôde celebrar sua independência… Mas esta valeu apenas até 1938, quando os nazistas resolveram anexar o país. Depois veio a URSS.

Ou seja, a região da República Tcheca foi, até a queda do Muro de Berlim, em 1989, uma região constantemente esmagada pelas potências ocidentais de um lado e pela Rússia de outro.

Em 1926, Janáček, resolveu comemorar a efêmera independência de seu país escrevendo uma Missa. Mas não com uma Missa comum: optou, como ato de afirmação étnica, por uma missa cantada na antiga língua litúrgica eslava, o eslavônico. Por isso o nome da obra – “Missa Glagolítica”, ou seja, missa numa língua escrita no alfabeto glagolítico, antecessor do cirílico.

A Missa Glagolítica (Mša glagolskaja) foi apresentada pela primeira vez em 26 de junho de 1926 em Praga.

A opção do ateu Janáček por escrever uma missa de tintas étnicas é muito simbólica. Janáček apoiava o pan-eslavismo e a obra era um modo de celebrar a identidade e a cultura eslava. Não é uma mera Missa nacionalista tcheca, ela celebra todo o patrimônio pan-eslavo, usando a língua litúrgica que foi utilizada em diversos países eslavos.

Esta gravação deverá aparecer no PQP Bach nos próximos dias.

Fora as cinco seções tradicionais da missa -– aqui com títulos em eslavônico: o “Credo” virou “Veruju”, o “Gloria” virou “Slava” e assim por diante — Janáček adicionou uma introdução orquestral e, perto do final, um sensacional solo de órgão seguido de um poslúdio sinfônico curiosamente chamado de “Intrada”, sei lá para onde, mas dá para imaginar.

A linguagem musical de Janáček não costuma ser delicada, mas é de originalidade, beleza e modernidade impressionantes. Os ritmos da Glagolítica refletem tanto a aspereza da língua antiga quanto a bagagem folclórica. A orquestração e o uso da voz humana são absolutamente pessoais e convincentes. E o drama da expressão – como na passagem da crucificação de Cristo, na qual o órgão assume papel fundamental – demonstra a vocação de Janáček para o teatro.

A música começa e termina com fanfarras. Há ainda muitos trechos de grande originalidade rítmica — principalmente para ouvidos treinados para formas diferentes –, além de memoráveis passagens para solistas e coro, e o famoso solo de órgão do qual falaremos mais a seguir.

Milan Kundera escreveu: “A Missa Glagolítica é uma orgia, não uma missa”. Vamos a mais um pouco de história: o pai de Kundera — um pianista e musicólogo que faleceu em 1971 — trabalhou com Janáček e ajudou o compositor nos ensaios para a estreia. Ela é uma das várias obras, justamente as melhores de Janáček, que é marcada por dois fatos que o motivaram muito no final da vida: a independência de seu país obtida em 1918 e, bem, seu enorme amor por Kamila Stösslová, uma mulher casada e 40 mais jovem que jamais compartilhou deste sentimento amoroso, mas que jamais afastou-se dele. Sim, os dois mantiveram por anos uma profunda amizade. Janáček parecia não se incomodar muito e mantinha suas juras de amor mesmo sem a contrapartida física.

Então, a musa Kamila Stösslová ocupa um lugar incomum na história da música. Leoš Janáček, ao conhecê-la em 1917 na Morávia, apaixonou-se profundamente, apesar de ambos serem casados ​​e do fato de que ele sera quase quarenta anos mais velho. Ela influenciou profundamente o compositor em sua última década de vida. Kamila estava morando em Luhačovice (Morávia) com seu marido, David Stössel, e seus dois filhos, Rudolf e Otto. David estava no exército e até ajudou Janáček na obtenção de alimentos no tempo de guerra. Provavelmente o serviço militar de Stössel só deixava que ele passasse poucos dias em Luhačovice, dando a Janácek a chance de caminhar e conversar com Kamila durante o resto do tempo. Ele a conheceu em 3 de julho de 1917. Cinco dias depois, já escrevia apaixonadamente sobre ela em seu diário. Uma correspondência cerrada entre a dupla começou em 24 de julho.

Kamila devia ser muito inspiradora, apesar de impedir que o sexo se concretizasse. Foi para ela que Janáček criou várias mulheres de suas óperas, a Katya de Katya Kabanová, a raposa de A Pequena Raposa Astuta e Emilia Marty de O Caso Makropulos. Outros trabalhos que foram inspirados por sua paixão foram O Diário de Um Desaparecido, a Missa Glagolítica, a Sinfonietta e o Quarteto de Cordas No. 2 (Cartas Íntimas), ou seja, suas obras mais importantes. Na dedicatória das Cartas Íntimas, Janáček escreveu: “A música descreverá o medo que sinto de você”.

Como já disse, o ateu Janáček era um entusiasta do “pan-eslavismo”, movimento que valorizava mais as línguas eslavas do que o latim e as germânicas. Kundera tem razão em chamar a Glagolítica de orgia, pois há tanta música feliz, dançante e efusiva, que nem parece que estamos celebrando uma Missa, não obstante a participação do órgão. Ah, o ateísmo é libertador! Tudo na Glagolítica é moderno e original. O soprano solista parece uma guerreira, o baixo parece ter saído direto de um culto da Igreja Ortodoxa. Talvez seja a mais bela Missa do século XX, talvez melhor que a de Bernstein, que também é um espanto.

Voltando ao pai de Kundera, Ludvík: ele escreveu, numa crônica de 1927, que a Glagolítica fora “escrita por um velho homem religioso”. Janáček não parece ter gostado muito: “Não sou nem velho nem religioso”. Toma, Ludovico!

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O alfabeto glagolítico (glagólitsa nas línguas eslavas) é o mais antigo dos alfabetos eslavos que se conhece. Foi criado por São Cirilo e São Metódio por volta de 862-863 para traduzir a Bíblia e outros textos para as línguas eslavas. O nome vem da palavra glagola, que em búlgaro antigo significa palavra. Já glagolati significa falar e pode-se dizer, um tanto poeticamente, que glagolítico são “símbolos que falam”.

O alfabeto glagolítico original constava de 41 letras, embora a quantidade tenha variado levemente com os séculos. Das 41 letras glagolíticas originais, 24 são derivadas, provavelmente, de grafemas do grego medieval, os quais receberam um desenho mais ornamental.

Os caracteres restantes são de origem desconhecida. Acredita-se que alguns podem ter vindo de caracteres hebraicos e samaritanos, que Cirilo teria aprendido em suas viagens.

O nome “Glagolítico” é em checo hlaholice, em eslovaco hlaholika, em polaco głagolica, em russo, macedónio e búlgaro глаго́лица (transliterado glagólitsa), em croata glagoljica, em ucraniano глаголиця (transliterado hlaholytsia), em bielorrusso глаголіца (transliterado hlaholitsa), em esloveno glagolica, etc.

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Agora, um caso com o órgão presente nesta Missa. Ao folhear o livro Tudo tem a ver, de Arthur Nestrovski, dei de cara com um artigo que descreve o pânico de um organista que fugiu por medo de tocar o famoso movimento solo da Glagolítica. Isso dois ou três dias antes do concerto da Osesp. Nestrovski narra seu desespero e a brilhante solução, obtida quase que por sorte. Ah, querem spoilers? Nada disso, comprem o livro — que é bom demais, com ensaios sobre literatura, música popular e erudita.

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Bom dia, Odair (com os lances de Inter 2 x 0 Nacional)

Bom dia, Odair (com os lances de Inter 2 x 0 Nacional)

O Inter fez uma boa apresentação contra o Nacional de Montevidéu e classificou-se para as quartas-de-final das Libertadores 2019. Agora, o adversário será o Flamengo, que eliminou o Emelec nos pênaltis para avançar. O jogo de ida, no Maracanã, será disputado entre os dias 20 e 22 de agosto. A volta será no Beira-Rio, entre os dias 27 e 29. Estaremos lá, imagina se não.

Dessa vez vencemos pelo placar de 2 a 0 — gols de Rodrigo Moledo e Paolo Guerrero –, com direito a bom futebol e algumas jogadas incríveis. Vejam algumas abaixo:

Além disso, a partida também marcou o recorde de público do Beira-Rio após sua remodelação, levando um total de 48.530 pessoas ao Estádio.

Deste modo, o Inter manteve a invencibilidade no torneio. Líder do seu grupo na primeira fase, vencemos as duas partidas das oitavas de final. Ao todo, são 6 vitórias, dois empates e nenhuma derrota, com 13 gols marcados e 6 sofridos.

O placar foi modestíssimo no primeiro tempo: 1 x 0, gol de Moledo. Perdemos muitos gols. Outros foram anulados. No segundo tempo, o time diminuiu um pouco o ritmo, mas nunca permitiu que o Nacional criasse chances de gols. O gol de Guerrero saiu só nos descontos, num contra-ataque, passe de Sóbis.

Acabou. Sóbis passa e Guerrero marca | Ricardo Duarte / SCI

Foi uma atuação afirmativa, mas não Odair-free. A substituição de Nico López por Sóbis foi incompreensível, pois deixou o ataque mais lento. Nico jogou muito. Todas as jogadas de ataque passavam por ele. O restante dos jogadores atuaram muito bem, com exceção de Patrick, o desligado.

Guerrero é um menino de 35 anos. Dale um garoto de 38. Moledo e Cuesta estão seguríssimos. Lindoso jogou muito, mas saiu lesionado e, bem, ficamos preocupados para o jogo do dia 7 contra o Cruzeiro, no Mineirão, pela Copa do Brasil. Afinal, Dourado está machucado e o time já não terá Dale, expulso contra o Palmeiras. Edenílson passa por excelente fase. É um time muito empolgado, animado mesmo. E o que dizer de Bruno, de quem ninguém esperava nada? Mas as personalidades do time são Dale e Guerrero.

Querem saber? Já estou com saudades de Dale | Ricardo Duarte / SCI

Se não podemos falar ainda em títulos, uma coisa podemos dizer: é um Inter renascido e participante de disputas importantes. Voltamos a ser players. Após a parada da Copa América, tínhamos 7 jogos decisivos em três semanas. Estes poderiam significar o final do ano futebolístico para nós. Em três competições. E estamos vivos nas três com certa tranquilidade.

E olho no árbitro contra o Flamengo. Se contra o Palmeiras já tivemos VAR contra nós, imaginem contra o time da Globo.

E vejam o que escreveu Gustavo Dariva Machado no Facebook:

O calendário que vem aí não vai ser fácil:

Agosto:
07 – Cruzeiro x Inter
14 – Secar ida Grêmio x Athletico
20 – Secar ida Grêmio x Palmeiras
21 – Flamengo x Inter
27 – Secar volta Palmeiras x Grêmio
28 – Inter x Flamengo

Setembro:
04 – Inter x Cruzeiro + secar volta Athletico x Grêmio
11 – 1ª final da CB (torcer ou secar ou ainda Gre-Nal)
18 – 2ª final da CB (torcer ou secar ou ainda Gre-Nal)

Fora os jogos do Brasileiro…

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O Mistério de Henri Pick, de Rémi Bezançon

O Mistério de Henri Pick, de Rémi Bezançon

Um competentíssimo thriller literário. Simplesmente delicioso. Vamos lá, sem spoilers e sem mais palavras em inglês.

A França é decididamente outro país e, assim como na Alemanha, tem programas de crítica literária na TV. Sim, e são muito vistos, pois muita gente lê livros nesses países. Na história do filme, um crítico de literatura perde tudo — programa na televisão, emprego, mulher, respeito — por duvidar da autoria de um livro de grande sucesso, atribuído a um pizzaiolo de quem ninguém tinha notícia de ter escrito uma linha sequer na vida.

O Mistério de Henri Pick foi adaptado do romance de David Foenkinos, que foi traduzido em vários idiomas. O filme começa com uma editora que encontra um extraordinário original em uma biblioteca de livros rejeitados por outros editores. A tal biblioteca é uma bizarrice, claro. E, jovem e ambiciosa, decide publicá-lo. O romance se torna um enorme sucesso.

A viúva do autor, Henri Pick, declara que seu falecido marido “nunca escreveu nada além de listas de compras”, mas que, afinal, não imaginava o que ele fazia tantas horas sozinho em determinado aposento da pizzaria. O que encontram no aposento? Ora, entre um monte de outros cacarecos, uma máquina de escrever. Suspeitando de uma farsa, o citado crítico literário decide investigar, com o esperado combate e inesperada ajuda da filha de Henri Pick. Ele quer descobrir quem escreveu o livro e desmontar a farsa que, como consequência, destruiu sua vida. Sua postura, é claro, vai contra a jovem editora responsável pela façanha de descobrir Pick.

O excelente Fabrice Luchini, no papel do crítico obcecado Jean-Michel Rouche, faz o papel principal.

Gostei demais do filme, do elenco, do suspense, da trilha. A trama é permanentemente surpreendente e interessante. Também são demonstradas a importância do marketing na literatura e as habilidades de certos críticos. O desenlace é daqueles bons e enganadores. Minha mulher, supercraque em descobrir quem é quem em filmes de suspense, errou. O autor não era quem ela pensava. Acontece, Elena.

O Mistério de Henri Pick  está em cartaz no Guion Cinemas — convenhamos, a TV ou o computador de casa só devem ser utilizados quando vemos um filme pela segunda vez, né?

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A Avoada e o Distraído, de Vanessa Silla e Cláudio Levitan

A Avoada e o Distraído, de Vanessa Silla e Cláudio Levitan

Este é um livro decididamente desprogramado. Escrito a quatro mãos, cada autor escrevia um capítulo e passava ao outro, que não podia mexer no que não era seu, apenas deveria dar seguimento à história. É claro que, em algo escrito desta forma, há viradas súbitas, momentos em que notamos pequenas sacanagens feitas um para o outro, mas também vemos as deixas. Ah, os autores também não deveriam conversar um com o outro a respeito do texto. E assim foi feito durante os 80 capítulos do livro.

Vanessa Silla parece gostar de tecnologia, então vamos lá. Como se fosse um caso de inteligência artificial, um autor vai aprendendo com o outro o que cada um deseja contar e as narrativas vão se aproximando até chegarem a um belíssimo final. Realmente, aqui temos um final bonito e raro. Que não será contado por mim, é claro.

Porém, durante a narrativa, acontecem coisas verdadeiramente inacreditáveis, malucas mesmo. Tudo começa na Casapueblo. O que é o local? Ora, a Casapueblo é uma espécie de casa-escultura que fica em numa bela encosta de Punta Ballena, a 15 minutos de carro de Punta Del Este, no alto de um morro. Obra do pintor e escultor uruguaio Carlos Páez Villaró, foi construída em pedra e é imensa e meio doida. Lá há um Club Hotel e é possível visitar o ateliê do artista, assim como salas que expõem e vendem obras de arte, etc. No final de tarde acontece a Cerimônia do Sol, quando são recitados poemas de Villaró. Sua arquitetura parece privilegiar o acaso ou o imprevisível, certamente.

Que coincidência, não?

Bem, como disse antes, tudo começa na Casapueblo. Depois, a coisa decola em vários sentidos. Vai para Roma, Tel-Aviv, Cisjordânia e acaba — sem spoilers de nossa parte — novamente na Casapueblo. A atividade profissional de Bartolomeu é altamente duvidosa. Já a de Sirena é quase o mesmo. E os autores dão vazão a várias e divertidas livres-associações. O estilo avoado de Silla me pareceu uma verdadeira tempestade emocional (um abraço, Bion!), já o do distraído Levitan é mais formal. Silla arrisca-se mais em seu fluxo de ideias, Levitan puxa mais o freio. Silla é a futurista, Levitan, o passadista. Mas eles se entendem e o resultado é que li o livro (Class, 169 páginas, R$ 40) em um dia, sinal de que grudou e agradou.

Eles estarão na Bamboletras na quinta-feira (01/08), às 19h,  para um bate-papo sobre a experiência de escrever a quatro mãos, o livro, etc.

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Transiberiana, de Zizo Asnis

Transiberiana, de Zizo Asnis

Transiberiana é um bom livro, mas deve ser encarado como a visão parcial de um brasileiro sobre o que ele pensava haver de ainda soviético na Rússia de 2015. Sou casado com uma bielorrussa muito inteligente, ligada e nada ufanista de seu país. Ou seja, sou casado com uma soviética. Pois bem, ela conseguiu discordar — para melhor ou pior — de quase tudo o que ele escreveu sobre o país. E ela saiu de lá fugindo da pobreza para se estabelecer com seu violino primeiramente na Amazonas Filarmônica, em Manaus, em 1999. Sabe bem o que é soviético e o que não é.

Porém, para mim, foi interessante ler o livro de um viajante brasileiro sobre aquelas paragens exóticas. Deu para aprender bastante sobre as sensações e atrações da viagem pela terceira mais longa ferrovia do mundo — as duas maiores também se utilizam de parte da Transiberiana. E também sobre as relações humanas naquela região do mundo. Sim, invejei o viajante e comi o livro rapidamente, com o maior interesse.

Mas preferia que ele tivesse ficado mais nas diferenças, na paisagem, nos acontecimentos da viagem e nos exotismos do que na parte política. As observações de Asnis sobre a política das regiões visitadas são bem simplistas e, nestes tempos de trevas bolsonaristas, tecer comparações — muitas vezes igualando nazismo e comunismo — é pecado capital.

Pois se é claro que Stálin era um psicopata que tornou a URSS uma ditadura sanguinária, há diferenças muito importantes entre nazismo e stalinismo.

Parêntese: lembro da patética Ana Maria Braga entrevistando Petkovic… Ele disse que não era tão ruim viver na Iugoslávia de Tito. Ana foi pra cima, perguntando se não era horrível não ter liberdade nem direito de voto e ouviu o sérvio dizer com calma que todo mundo tinha um emprego e ninguém passava fome. Fim do parêntese. Ou não. Além disso, a Revolução Russa trouxe importantes conquistas sociais. Para evitar novas revoltas de trabalhadores, criaram-se em todo o mundo as garantias de direitos mínimos à população como educação, alimentação e moradia. Não foi bondade do capitalismo… Lembram de como era antes, no século XIX?

Esse negócio de demonizar gratuitamente a esquerda pode ser moda no Brasil, mas nenhum historiador leva isso à sério. Deste modo, o singelo papo sobre a “falta de liberdade” constante no livro é muito guerra fria e isto meio que me tirou o tesão. Imagino a dificuldade de Asnis para confessar que as belas estações do metrô de Moscou foram construídas em 1935, 38, 43, 50, 52, 53… Ou seja, são estações construídas sob Stálin para a população da capital… Sim, a realidade é muito mais complexa do que qualquer simplismo tipo guerra fria. Mas esse meu papo de isentão é chato, né?

Bem, mesmo com restrições às interpretações do autor, o livro vale a pena. Gostei especialmente das descrições dos trens de seu funcionamento, dos contatos sociais estabelecidos durante a viagem e das partes da Mongólia e do Baical.

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Bom dia, Odair Hellmann (com os principais lances de Nacional 0 x 1 Inter)

Bom dia, Odair Hellmann (com os principais lances de Nacional 0 x 1 Inter)

Erro de passe no meio de campo do Nacional, Patrick rouba a bola e avança até entregá-la na esquerda a Wellington Silva que costura lindamente para o meio e passa a Guerrero, que marca.

Isso é centroavante. O peruano teve duas chances — uma no primeiro tempo, outra no segundo — e marcou um gol.

Ontem à noite, Odair foi fundamental. Mudou de postura. Foi corajoso durante o jogo, não se intimidou com o estádio cheio e fez substituições que mostravam vontade de vencer. E venceu. Na verdade, o Odair medroso não foi a Montevidéu. Imaginem que tirou Rodrigo Lindoso para colocar Nonato, Nico para colocar Sóbis e D’Alessandro para colocar o ofensivo Wellington Silva. E foi um grande dia, não, Odair Hellmann?

Bruno mostra um carão de feliz apos o gol de Guerrero | Ricardo Duarte / SCI

Apesar de ter sido uma péssima noite para brasileiros. O Flamengo foi a Guayaquil e tomou de 2 a 0 do Emelec. Já o E o Athletico Paranaense recebeu o Boca Juniors e perdeu 1 a 0 no final do jogo.

Com a vitória, o Inter joga por empate no Beira-Rio, na próxima quarta-feira, para chegar às quartas de final da Libertadores.

O time não jogou bonito nem bem, jogou como se joga Libertadores, respondendo à marcação com marcação, pontapé com pontapé, chegada forte com chegada forte.

Numa linda entrevista concedida ao SporTV no início deste ano, Rafael Sóbis disse que a Libertadores era diferente de qualquer outro campeonato: o vencedor normalmente não é o melhor, mas quem sabe jogar melhor Libertadores. Ou seja, às vezes se ganha no grito e na coragem mesmo.

E ontem, a gente ganhou assim. E, como disse um narrador uruguaio ao narrar o gol de Guerrero aos 45 do segundo tempo: Todas las cosas que me ocurren no son apropiadas para los niños ecuchar… Sim, a Libertadores é cruel.

Uendel: mantê-lo no time é pisada na Bola | Ricardo Duarte / SCI

O único senão é manter Uendel no time. Ele é um furo atrás e uma inutilidade na frente. Como Natanael não impressiona, talvez devamos ter Bruno e Zeca nas laterais.

O Inter volta ao Brasileirão no sábado, contra o Ceará, provavelmente com time misto. Bem, os dois tempos finais do confronto serão disputados na próxima quarta-feira (31/07), no Beira-Rio, em confronto marcado para às 19h15.

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A Trilogia de Nova York, de Paul Auster

A Trilogia de Nova York, de Paul Auster

Ao finalizar a leitura deste livro, fiquei  com um sentimento de incompletude que não chegava a ser desagradável. As histórias são mais ou menos estruturadas como as de detetive, mas não tem aquele final explicativo. Bem, como o próprio título diz e a capa mostra, A Trilogia de Nova York divide-se em três novelas, Cidade de vidro, Fantasmas e O quarto fechado. Já escrevi que o estilo é o das histórias de detetives. Há sempre algo a ser desvendado, mas talvez você é quem deva escolher o final de cada uma delas. Há mistérios, escritores metidos a detetives, escritores famosos, escritores anônimos, jogos intrincados de intrigas, desaparecimentos e mortes. Há também confusões na identidade e no caráter de cada personagem, tudo isso pelas ruas de Nova York e um pouco por Paris.

O central aqui é o estilo, a construção dos personagens e a linguagem. É a elegância e a notável construção da intriga que nos faz grudar no livro. Isso vale muito mais do que o destino dos personagens descritos nas três histórias.

Em Cidade de vidro, há insistentes telefonemas para uma certa agência de detetives Auster. O sujeito do outro lado da linha procura por Paul Auster. Só que os telefonemas chegam ao apartamento de Daniel Quinn, um escritor de livros de detetives. Quinn escreve sob o pseudônimo de William Wilson (como vai você, Edgar Allan Poe?) e seu detetive chama-se Max Work. Leu bem? Pois é, e tudo vai se misturar. Aparentemente sem ter nada melhor para fazer, Quinn acaba mentindo que é Auster e, mesmo sem ter nenhuma experiência na função, parte para uma estranha investigação. Ele vai atrás de Stillman, um scholar doido varrido que anos antes mantivera seu filho Peter em cativeiro, fechado em um apartamento como um Kaspar Hauser moderno. No meio da história, Quinn conhece o próprio Auster, que tem uma bela esposa e um filho. Quinn perdera esposa e filho em um acidente. Ou seja, tudo é espelho.

Já em Fantasmas, Blue é contratado para seguir White a pedido de Black. Claro que há um Brown, um Gray e um Green na história que é a piorzinha das três boas novelas.

Na melhor, O quarto fechado, um autor de artigos sobre literatura recebe o espólio literário completo do inédito escritor Fanshawe, um talentoso amigo de infância que inesperadamente some às vésperas do nascimento do filho. Ele casa com a mulher do escritor, assume o filho e começa a publicação das obras de Fanshawe, que acaba famoso. Mas não pensem que tudo será um mar de rosas. O final extraordinariamente belo. E aberto.

Mas vejam bem: o narrador de O quarto fechado esbarra em Paris com um tal Peter Stillman — personagem de Cidade de vidro –, Fanshawe adotou o nome de Henry Dark, outro personagem da mesma novela; o mesmo Fanshawe tem um caderno vermelho decisivo e em Cidade de vidro há também um caderno vermelho. Já em Fantasmas, todo mundo têm cadernos. Ou seja, Auster abusa dos espelhamentos desde o primeiro momento e aumenta a dose na última novela.

Paul Auster é fascinado pelo acaso e pelas ficções populares de detetives. Ele dá a impressão de construir suas histórias sem saber exatamente para onde seus personagens vão levá-lo. Usa paralelismos e simetrias absolutamente intrigantes. E o que menos importa é o desfecho, o que interessa é a forma que com que tudo parece se dissolver.

Recomendo muito.

Paul Auster. Ou Quinn. Ou seria Fanshawe?

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Compositores sendo pais

Compositores sendo pais

Shostakovich sendo pai.

Bartók sendo pai.

Bernstein sendo pai e avô.

Mahler sendo pai.

Prokofiev sendo pai.

Messiaen sendo pai.

Stravinsky sendo pai.

Sibelius sendo pai.

Stockhausen sendo pai e recordista.

Schoenberg sendo pai.

Dvořák sendo pai.

Debussy sendo pai.

Rachmaninov sendo pai.

Penderecki sendo pai.

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Bom dia, Odair Hellmann (com os lances do favor de Inter 1 x 1 Grêmio)

Bom dia, Odair Hellmann (com os lances do favor de Inter 1 x 1 Grêmio)

Odair, foste brilhante enganando o Renato. Em vez de usar o esquema de dentro de casa, aplicaste o esquema das partidas de fora de casa! Vencias o primeiro tempo. Então, recuaste. O resto é o de sempre. A gente está há meses vendo tu recuares fora de casa para dar espaço ao adversário até ele empatar ou virar. Tu és o medroso burro, aquele que vence menos do que poderia.

Ah, se eu fosse o Sarrafiore, pediria para sair do clube. Ser reserva de Parede que era reserva no Ypiranga de Erechim é demais. Odair, eu ouvi tu dizeres na entrevista após o jogo que colocaste o Parede para dar velocidade ao lado direito… E deste. Parede perdia a bola e fazia bobagens velozmente. Tão velozmente que deveria ser entregador de pizzas.

O “veloz” Parede prepara um contra-ataque para o Grêmio | Foto: Ricardo Duarte / SCI

Klaus e Parede não podem ser escalados. Esperto é aquele treinador do Ypiranga. E Klaus, aquele galalau de 2m que observou a cabeçada de Luan? Ele é zagueiro ou cientista?

Por outro lado, Cuesta foi disparado o melhor em campo.

Mas há mais Odair… Por que Sóbis foi retirado de onde estava (bem) para dar lugar a Pedro Lucas? Erraste em tudo, meu caro.

Cuesta: ah, se todos fossem iguais a você… | Foto: Ricardo Duarte / SCI

Mesmo com reservas era um jogo simples, para ganhar. Depois do primeiro tempo, era só fechar o caixão, mas tu quiseste argumentar com o moribundo assim como fizeste com o Vasco.

De qualquer maneira, o Grêmio deixa de ser o maior rival do Inter no sul do Brasil. Os empates chegam aos número de 134 contra 131 vitórias do dito imortal. O Inter venceu 156 jogos. Esse Empate é um adversário duríssimo!

Agora, tudo é Libertadores. Até porque só fazemos besteiras no Brasileiro. Na quarta (24), vamos a Montevidéu enfrentar o Nacional pelas oitavas de final da Libertadores. O Nacional é tão ruim quanto o Libertad, vamos ver o que o medo do Odair vai criar até quarta-feira. Pelo Brasileirão, o próximo jogo é contra o Ceará, sábado (27), no Gigante. No dia 31, haverá o jogo de volta contra o Nacional no Beira-Rio.

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Fiori Gigliotti e as ondas curtas

Fiori Gigliotti e as ondas curtas

Para o palmeirense Guilherme Conte

Li que na Noruega não apenas o AM foi extinto como o FM já foi substituído pela Web. Ou seja, eles já estão no pós-FM. No Brasil, as rádios usam bastante a Web e as redes sociais como forma de interação com os ouvintes. Acho tudo isso curioso — aqui, o rádio não está morrendo — e analisar este e aquele fato é bom material para TCCs e teses na área da comunicação.

Nasci em 1957 e cansei de ver meu pai nas ondas curtas, acompanhando o que acontecia em Buenos Aires em termos de tangos. Ele ouvia a Radio Rivadavia, que ainda existe. Também ouvíamos os principais jogos de Rio e São Paulo nas ondas curtas. Então, as vozes de narradores como Jorge Curi e Fiori Gigliotti costumavam invadir as peças do Ap. 11 do Nº 1891 da Av. João Pessoa em Porto Alegre. Quem ainda transmite em ondas curtas?

Quase ninguém, acho. Curi tinha uma voz imponente e era da Rádio Globo. À noite e quando caía a tarde a recepção das ondas curtas melhorava bastante e os jogos no Rio começavam eram às 17h. Bom. Lembro que meu pai oscilava entre o Vasco e o Botafogo do final dos anos 60. Como não lembrar daquele time sensacional com o meio-de-campo de Carlos Roberto e Gérson e o ataque com Rogério, Jairzinho, Roberto e Paulo Caju?

Mas de quem gostava mesmo era do palmeirense Fiori Gigliotti, que era da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Meu pai era santista, eu, palmeirense. Desnecessário escrever aqui os nomes que orbitavam o Divino Ademir de Guia, todo mundo da minha geração sabe. E bastaria lembrar do meu time de botão.

Eu ligava o rádio sempre no começo do jogo. Fazia parte do ritual ouvir Fiori dizer Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo. Quando ele ia dar o tempo decorrido de uma partida, vinha o bordão E o tempo paaaassa, torcida brasileira! Quando o goleiro tomava um gol era Agora não adianta chorar! Quando o gol era bonito, ele falava Uma beleeeeza de gol! E quando o jogo estava em aberto, encruado, brigado? Aguenta, coração! Havia também o Crepúsculo do jogo, que era finalizado com um Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo!

Mas estes eram apenas os bordões. A narração de Fiori era verdadeiramente esparramada por adjetivos criativos. Seu vocabulário era respeitável e o curioso é que ele não apostava nada no humor e muito no lirismo. É isso: suas narrações eram líricas como até hoje fazem alguns jornais argentinos que tratam o futebol como se fosse um drama, uma ópera ou um tango. Ouvir Fiori era boa prosa e o menino que eu era ouvia tudo o que ele dizia com interesse muito maior do que o que tinha ao acompanhar os narradores gaúchos que descreviam as peripécias de um time muito mais interessante e enormemente digno de dramalhões: o desgraçado Inter dos anos 60.

Fiori Gigliotti (1928-2006)

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Bom dia, Odair (com os lances de Inter 1[5] x 0[4] Palmeiras)

Bom dia, Odair (com os lances de Inter 1[5] x 0[4] Palmeiras)

Foi um jogão. Caminhei 5,5 Km de minha casa até o Beira-Rio a fim de aproveitar o ambiente e para manter alguma coisa parecida com forma física. O Beira-Rio estava lindo, mas não lotado. Começou o jogo e só dava Palmeiras, que parecia que ia nos cozinhar os 90 minutos. Mas logo passamos a dominar o jogo, empilhando chances de gol perdidas.

Weverton pegava tudo no gol do Palmeiras, enquanto Felipe Melo mandava no juiz. Não sofríamos com ataques perigosos do Palmeiras, só que não fazíamos gols até o momento em que Patrick acertou um chute que encobriu o bom goleiro palmeirense. 1 x 0 no final do primeiro tempo.

Patrick e Uendel comemoram o gol do Inter | Foto: Ricardo Duarte / SCI

Na minha opinião, Patrick estava jogando mal, porém não pensem que vou reclamar dele. Aliás, os construtores da vitória foram D`Alessandro, Lindoso — a melhor contratação do Inter em 2019 — e Edenílson, além da dupla de zaga Moledo e Cuesta. (A propósito, Moledo ensinou a todos como Felipe Melo deve ser tratado).

Lindoso, a melhor contratação do clube em 2019. Até Marcos Rocha se surpreende | Foto: Ricardo Duarte / SCI

Nico López foi obrigado a uma partida tática. Encheu o saco de Marcos Rocha de tal forma que o lateral do Palmeiras jamais criou jogadas pelo lado direito. Não fez nada pelo ataque do Inter, só incomodou e evitou que Rocha viesse junto com Dudu contra o fraco Uendel. Foi útil.

Aliás, os laterais. Uendel simplesmente não dá mais. Bruno foi um pouco melhor, mas seu futebol é apenas singelo. Acho que Heitor e Erik — e talvez Natanael — vão engolir não somente os dois como Zeca junto.

Mas estava 1 x 0 e o Inter iniciou o segundo tempo forçando o jogo, mas sem chutes a gol. Nico quase marcou em dois chutes após cruzamento da esquerda para que víssemos mais duas grandes defesas de Weverton.

Jogo fora de casa e Felipão pensou como o Odair quando fora do Beira-Rio… A minha defesa é intransponível, então vou esperar… Então tomou um gol e não soube o que fazer.

Então, veio o crime. Naquela pressão de final de jogo, de cruzamentos alucinados e sequências de escanteios, Cuesta marcou de cabeça. O argentino não é catimbeiro, jamais foi expulso, joga de terno e gravata, é leal e cabeceou com a habitual correção e tranquilidade. Só que Felipe Melo MANDOU o juiz olhar o VAR e a alguém lá de cima disse que Cuesta empurrara Felipe. O juiz, incrível, também viu o que não acontecera. Olha, não, ninguém nada nunca aconteceu falta.

Para pasmo e desespero nosso na arquibancada, o gol foi anulado. E fomos para os pênaltis.

Deu para sofrer? Sim, mas nunca estivemos atrás. Tivemos um match point nos pés de Patrick — estava 4 x 3 para nós e o Pantera fazia nossa 5ª cobrança. Porém, nervoso, ele chutou muito mal. E William empatou logo depois. Na primeira série de cobranças alternadas, Nonato marcou e Moisés chutou no travessão. Vitória!

Odair? Olha, ele foi bem, mas manteve Uendel. E não anula as numerosas cagadas em outros jogos. E por que o time joga tão mal fora de casa? Se temos que elogiar Odair, devemos também ressaltar nosso papel como torcedor. Contribuímos muito!

O Cruzeiro será o adversário na fase seguinte da Copa do Brasil, nos dias 7 e 14 de agosto, com os mandos de campo sendo definidos em sorteio na próxima segunda (22). Agora, tem Gre-Nal no Beira-Rio. Acho que vamos com os reservas, mas soy contra. Por mim, fingia que ia com os reservas mas botava titulares. Sem Dale porque temos que cuidar bem de nosso bom velhinho.

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Ontem, O Empresário, de Mozart

Ontem, O Empresário, de Mozart

Ontem à noite, assistimos a uma pocket ópera que talvez tenha sido o mais estimulante, bonito, eufônico e engraçado espetáculo que vimos em 2019 em Porto Alegre. Com quatro das melhores vozes da cidade — por ordem alfabética, Daniel GermanoElisa LopesFranciscco Amaral e Raquel Helen Fortes, com o pianista Daniel Benitz, todo mundo sob a direção de Flávio Leite –, vimos ‘O Empresário’, de Mozart. A opereta foi escrita para participar de uma competição musical, em 1786, no Palácio de Schönbrunn, em Viena. O tema era o mundo dos cantores líricos.

Deste modo, mini-ópera trata das confusões de um empresário às voltas com duas primadonas vaidosas, estressadas e enlouquecidas para obter papéis de destaque em uma produção musical. Ninguém mais apropriado do que Mozart para fazer um retrato fiel e pertinente do meio operístico. A ação, em sua parte falada, foi trazida para os dias de hoje em concepção do Flávio Leite. A música é de altíssima qualidade com árias muito difíceis que foram levadas com arrebatador virtuosismo por parte dos cantores. Uma delícia ver estes grandes cantores exercitarem um insuspeitado — e imenso — talento cômico. Divertimo-nos um monte!

Estive lá graças à Elena, que viu o anúncio e sentenciou: nisso aqui a gente tem que ir! Guardei lugar pra ela, que teve que sair correndo de uma aula que estava ministrando para chegar à tempo.

Rimos muito e estamos cantarolando as árias até agora.

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Um Homem Fiel, de Louis Garrel

Um Homem Fiel, de Louis Garrel

“Estou grávida!”, diz Marianne (Laetitia Casta) ao namorado Abel (Louis Garrel), com quem vive. Ele sorri surpreso e ouve a mulher completar: “Mas o filho não é seu. É de Paul. Vamos nos casar. Seria bom se você pudesse tirar as coisas da casa até o fim do mês. Pode ser?”. Assim inicia Um Homem Fiel. Eles falam com calma, como se combinassem o que comprar no supermercado.  O tal Paul, o pai, é o melhor amigo de Abel.

Nove anos depois, já viúva, Marianne volta para Abel. Porém, o que parece um recomeço logo se mostra bem mais complicado. O filho de Marianne é algo sinistro, imaginativo e manipulador. E o que teria realmente acontecido com Paul? Como morreu? Haveria a participação de Marianne na morte?

Como diretor de cinema, Louis Garrel mostra que compartilha os mesmos interesses de seu pai, Philippe Garrel, mas lhes dá tratamento totalmente diferente. Um Homem Fiel é uma história de amor em que um jovem faz parte de um triângulo amoroso sobre o qual não nenhum controle. No entanto, o filme tem mais elegância do que angústia, é mais blasé do que sofrido. E mistura estilos.

(Este filme foi visto no Guion Cinemas — convenhamos, a TV ou o computador de casa só devem ser utilizados quando vemos um filme pela segunda vez, né?)

Tudo começa com um tiro em Paris no estilo de Beijos Roubados (1968), de Truffaut. Como na história de Antoine Doinel, o protagonista de O Homem Fiel também deve escolher entre uma mulher madura velha e uma jovem. A madura é a belíssima Marianne (Laetitia Casta, mulher de Garrel na vida real), amor autêntico de sua vida, que desde a primeira cena manda no relacionamento. Durante o filme, ouvimos três vozes narrativas diferentes, mudando de Abel para Marianne e desta para Eva (Lily-Rose Depp), uma amiga da família que era apaixonada por Abel desde a adolescência.

Quando ele retorna para Marianne, nove anos depois de ter sido abandonado por ela, Eva decide que é o momento certo para tentar algo com Abel. O resultado é uma dança em que Marianne e Eva jogam Abel de um lado para outro como se ele fosse um brinquedinho.

O famoso romancista e roteirista francês Jean-Claude Carrière (O Charme Discreto da Burguesia, Cyrano de Bergerac), divide o roteiro com Garrel em um filme de humor contido e de sagacidade. É a primeira obra de Carrière a usar narração em off.

A verdadeira estrela do filme é o jovem Joseph Engel, que interpreta o filho de Marianne. Suas declarações ambíguas e caráter extrovertido causam consternação e problemas a todos que o cercam, inclusive aos espectadores. Garrel faz um ótimo trabalho, misturando elementos de comédia, drama e thriller, mas o filme é um pouco plano, perdendo a oportunidade de explorar com mais profundidade o modo como as pessoas usam o amor como forma de controle.

Recomendo.

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Bom dia, Odair Roth ou O medo de perder tira a vontade de ganhar

Bom dia, Odair Roth ou O medo de perder tira a vontade de ganhar

“O Inter escalar reservas contra o Athletico-PR torna a vaga contra o Palmeiras OBRIGAÇÃO na Copa do Brasil. 40 dias sem jogar e teve atleta que não queria entrar em campo hoje porque “Ain, foi pesado no Allianz”. Com essa gandaia do vestiário é fácil ter “grupo na mão”.

Alexandre Ernst (ligeiramente adaptado)

Antes de falar de nosso fiasco de ontem, faço questão de dizer que o Pathético Paranaense é uma instituição execrável. Eles não deixam a torcida adversário permanecer identificados por camisetas no seu estádio, apoiaram Bolsonaro como clube e ainda têm o patrocínio da Havan. É um clube que não precisaria existir.

Então foi uma palhaçada tipicamente paranaense: os torcedores do Inter não tiveram local específico. Há alguma coisa naquele estado. Quase todo mundo é conservador ou burro da pior espécie. Há raras exceções, claro.

Não que sejamos muito melhores. Só Grêmio e Inter pouparam seus jogadores nesta rodada. Somos zelosos para que nada de realmente bom nos aconteça. Nada.

Foi uma derrota dos reservas do Inter. A postura foi a mesma dos titulares. Faz um ano que não ganhamos fora de casa no Brasileiro. Ruindade? Também, mas principalmente erros de postura de nosso treinador medroso, que sempre coloca seu time atrás da tal linha da bola, como se nunca mais fosse recuperá-la.

Até o talentoso Sarrafiore, que fez boas jogadas de armação no primeiro tempo, foi defender no segundo. Creio que, ao jogar futebol, estava desobedecendo a Odair, um treinador que não quer ganhar nada, desejando somente preservar seu cargo e salário.

Sarrafiore jogando bola. No segundo tempo, Odair mandou-o parar com isso | Foto: Ricardo Duarte / SCI

O medo de perder tira a vontade de ganhar. E tomamos aquele golzinho maroto de sempre. “Há apenas uma bola em jogo, então você precisa ficar com ela”, dizia Cruyff. Mas o Inter a entrega para o adversário e passa a marcá-lo. e sempre tem uma bolinha que entra. Contra-ataques? Não, não temos mais fôlego depois de tanta marcação.

Não suporto mais os bananas Odair e Mello.

Derrota. Objetivo cumprido e Patrick novamente titular. Que maravilha.

O que fizeram nas entrevistas foi defender um planejamento que dispõe demitir-se do maior Campeonato do país, o qual não ganhamos há 40 anos e que leva à Libertadores.

Analisar um jogo de reservas? Para quê?

O Inter é o quinto colocado No Brasileiro, com 16 pontos, e volta a jogar pelo campeonato nacional diante do Grêmio, no próximo sábado (20), às 19h, no Beira-Rio. Antes, na quarta-feira (17), às 21h30, decide contra o Palmeiras, também no nosso estádio. Com tanta folga e gandaia, ganhar é obrigação.

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Inocência Roubada, de Andréa Bescond e Éric Métayer

Inocência Roubada, de Andréa Bescond e Éric Métayer

O filme chama-se Les Chatouilles (As Cócegas) no original. O título no Brasil? Inocência Roubada, claro.

Bem, mas passemos por cima disso.

Les Chatouilles (As Cócegas) foi escrito e dirigido por Andréa Bescond e Éric Métayer. Trata-se da adaptação para o cinema da peça de ambos The Chatouilles ou La Danse de la colère (As Cócegas ou A Dança do Ódio), vencedora de vários prêmios na França. A história é inspirada no drama da infância e da vida de Andréa Bescond — Odette, no filme –, vítima de violência sexual durante a infância. Na peça original, Bescond fazia todos os papéis. Aqui não, mas o filme guarda um pouco desta característica mantendo, por vezes, mais de uma Odette em cena.

Inocência Roubada está em cartaz no Guion Cinemas — convenhamos, a TV ou o computador de casa só devem ser utilizados quando vemos um filme pela segunda vez, né?

Foto: Divulgação

Claro que é uma história autobiográfica comovente, que nos deixa tensos e indignados. A característica do filme é bater sempre forte, é enérgico que trata a questão sem delicadeza. Mas isto não é uma crítica, pois reflete à perfeição a forma encontrada por Bescond para sobreviver — ficar permanentemente em estado raivoso. O filme mostra o começo de sua vida como dançarina com menos de dez anos de idade, alternado-se com os episódios de estupros de que ela foi vítima. O estuprador era o melhor amigo de seus pais. Um dia, já adulta, Odette cruza pela porta de uma psicóloga e inicia uma terapia para melhorar ou salvar sua vida.

A atuação de Odette/Andréa é agitada e boa, mas o destaque vai para o elenco de apoio. A ótima Karin Viard faz a mãe que não quer ver nada e que não acredita nos estupros. As cenas da mãe acusando a filha de divulgar publicamente fatos que perturbam seu cotidiano — ou seja, sendo extremamente prejudicial, incompreensiva e egoísta — são extremamente violentas e uma resposta dela, enigmática, provavelmente inventada, não tem nenhuma ressonância na história: “Você não sabe o que eu mesmo experimentei “, diz ela, às lágrimas. Viard é tão boa atriz que chega a ser tóxica em sua atuação cega à própria abjeção. Clovis Cornillac faz o pai e Pierre Deladonchamps, o estuprador pedófilo. Carole Franck faz uma terapeuta relutante que hesita em assumir um caso tão pesado.

Demora muito tempo para Odette revelar a seus pais o que aconteceu com ela. Enquanto seu pai mergulha numa penitência impossível, a mãe, como dissemos, rejeita os fatos, recusando-se ver sua filha como vítima, adotando o discurso que aquilo foi há muito tempo.

O assunto é da hora. Bescond e Métayer dão um bom empurrão para que as línguas se soltem ainda mais numa época onde parte das realidades da pedofilia aparecem em plena luz do dia. A pedofilia nos horroriza e requer retrospectiva e reflexão. Visualmente, somos movidos pela energia da dançarina em seu desejo de expulsar o passado. O filme, apesar de obviamente não mostrar nada explícito, criou-me desconforto.

A atriz principal e codiretora Andréa Bescond com Éric Métayer | Foto: Divulgação

O fio da história ziguezagueia entre a infância e a vida adulta, embarca em sonhos e fantasias com a clara intenção de aliviar o peso sobre o público. Mas, como na vida real, a memória e a dor das feridas recebidas recuperam o controle da história. Esta é a força de Inocência Roubada: mostrar a dor em torno da performance instintiva de Andréa Bescond.

O espectador às vezes tem a impressão de participar de um acerto de contas que não lhe diz respeito. Mas é um grito é um grito é um grito que deve ser ouvido.

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O pranto dos livros, por Antonio Candido

O pranto dos livros, por Antonio Candido

Texto de 17 de janeiro de 1997, extraído de um dos quase cem cadernos deixados pelo autor de Formação da Literatura Brasileira.

“Por isso, porque os recolheu pelo que eram, os livros choram o amigo que atrasava pagamentos de aluguel para comprá-los, que roubava horas ao trabalho para procurá-los, onde quer que fosse. (…) O amigo que, não sendo Fênix, não renascerá das cinzas a que está sendo reduzido, ao contrário deles, que de algum modo viverão para sempre.” | Foto: Wilton Junior / AE

Morto, fechado no caixão, espero a vez de ser cremado. O mundo não existe mais para mim, mas continua sem mim. O tempo não se altera por causa da minha morte, as pessoas continuam a trabalhar e a passear, os amigos misturam alguma tristeza com as preocupações da hora e lembram de mim apenas por intervalos. Quando um encontra o outro começa o ritual do “veja só”, “que pena”, “ele estava bem quando o vi a última vez”, “também, já tinha idade”, “enfim, é o destino de todos”.

Os jornais darão notícias misturadas de acertos e erros e haverá informações desencontradas, inclusive dúvida quanto à naturalidade. Era mineiro? Era carioca? Era paulista? É verdade que estudou na França? Ou foi na Suíça? O pai era rico? Publicou muitos livros de pequena tiragem, na maioria esgotados. Teve importância como crítico durante alguns anos, mas estava superado havia tempo. Inclusive por seus ex-assistentes Fulano e Beltrano. Os alunos gostavam das aulas dele, porque tinha dotes de comunicador. Mas o que tinha de mais saliente era certa amenidade de convívio, pois sabia ser agradável com pobres e ricos. Isso, quando se conseguia encontrá-lo, porque era esquivo e preferia ficar só, principalmente mais para o fim da vida. Uns dizem que era estrangeirado, outros, que pecava por nacionalismo. Era de esquerda, mas meio incoerente e tolerante demais. Militava pouco e no PT funcionou sobretudo como medalhão. Aliás, há quem diga que teve jeito de medalhão desde moço. Muito convencional. Mas é verdade que fugia da publicidade, recusava prêmios e medalhas quando podia e não gostava de homenagens. Contraditório, como toda a gente. O fato é que havia em torno dele muita onda, e chegou-se a inventar que era uma “unanimidade nacional”. No entanto, foi sempre atacado, em artigos, livros, declarações, e contra ele havia setores de má vontade, como é normal. Enfim, morreu. Já não era sem tempo e que a terra lhe seja leve.

Mas o que foi leve não foi a terra pesada, estímulo dos devaneios da vontade. Foi o fogo sutil, levíssimo, que consumiu a minha roupa, a minha calva, os meus sapatos, as minhas carnes insossas e os meus ossos frágeis. Graças a ele fui virando rapidamente cinza, posta a seguir num saquinho de plástico com o meu nome, a data da morte e a da cremação. Enquanto isso, havia outros seres que pensavam em mim com uma tristeza de amigos mudos: os livros.

De vários cantos, de vários modos, a minha carcaça que evitou a decomposição por meio da combustão suscita o pesar dos milhares de livros que foram meus e de meus pais, que conheciam o tato da minha mão, o cuidado do meu zelo, a atenção com que os limpava, mudava de lugar, encadernava, folheava, doava em blocos para serviço de outros. Livros que ficavam em nossa casa ou se espalhavam pelo mundo, na Faculdade de Poços, na de Araraquara, na Católica do Rio, na Unicamp, na USP, na Casa de Cultura de Santa Rita, na ex-Economia e Humanismo, além dos que foram furtados e sabe Deus onde estão – todos sentindo pena do amigo se desfazer em mero pó e lembrando os tempos em que viviam com ele, anos e anos a fio. Então, dos recantos onde estão, em estantes de ferro e de madeira, fechadas ou abertas, bem ou maltratados, usados ou esquecidos, eles hão de chorar lágrimas invisíveis de papel e de tinta, de cartonagem e percalina, de couro de porco e pelica, de couro da Rússia e marroquim, de pergaminho e pano. Será o pranto mudo dos livros pelo amigo pulverizado que os amou desde menino, que passou a vida tratando deles, escolhendo para eles o lugar certo, removendo-os, defendendo-os dos bichos e até os lendo. Não todos, porque uma vida não bastaria para isso e muitos estavam além da sua compreensão; mas milhares deles. Na verdade, ele os queria mais do que como simples leitura. Queria-os como esperança de saber, como companhia, como vista alegre, como pano de fundo da vida precária e sempre aquém. Por isso, porque os recolheu pelo que eram, os livros choram o amigo que atrasava pagamentos de aluguel para comprá-los, que roubava horas ao trabalho para procurá-los, onde quer que fosse: nas livrarias pequenas e grandes de Araraquara ou Catanduva, de Blumenau ou João Pessoa, de Nova York ou New Haven; nos sebos de São Paulo, do Rio, de Porto Alegre; nos buquinistas de Paris e nos alfarrabistas de Lisboa, por toda a parte onde houvesse papel impresso à venda. O amigo que, não sendo Fênix, não renascerá das cinzas a que está sendo reduzido, ao contrário deles, que de algum modo viverão para sempre.

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Dor e Glória, de Pedro Almodóvar

Dor e Glória, de Pedro Almodóvar

Gostei muito de Dor e Glória, último filme de Pedro Almodóvar, que vi no Guion Cinemas — convenhamos, a TV ou o computador de casa só devem ser utilizados quando vemos um filme pela segunda vez, né? — e recomendo. Autobiográfico e com linda atuação de Antonio Banderas no papel do cineasta, é um filme delicado e convincente sobre a infância, a pobreza, a glória, o desejo e a relação com a mãe. Jamais pensei que Banderas fosse tão bom ator. Ah, a influência dos diretores…

Dor e Glória coloca Pedro Almodóvar no divã para contar partes da vida de um melancólico diretor de cinema em razão das dores do envelhecimento que o impedem de poder trabalhar. Então, com dificuldades de vislumbrar o futuro, o cineasta revisita seu passado, literalmente e em imaginação, buscando algo que o motive.

Desta forma, é um filme de reencontros para o alter ego de Almodóvar, Salvador Mallo.  Vemos sua infância nos anos 60, vemos quando ele emigra com os pais para Paterna, o primeiro desejo, o primeiro amor adulto e a dor do fim desse amor.

Foto: Divulgação

Menos colorido e engraçado que outros filmes do diretor, Dor e Glória mostra uma pessoa na encruzilhada da aniquilação ou do retorno. É um trabalho bonito. Há  desejo, angústia, perdão, a iminência da morte e a falta de preparo diante dela. Obra low profile, que comove sem subir o tom, Dor e Glória é fala da impermanência e da inconstância, das sempre fugidias relações afetivas. E do que delas segue conosco.

O filme tem uma das mais belas representações da homossexualidade que vi até hoje. A atração do protagonista por homens é mostrada como sua própria identidade. Há os amores adultos, mostrados com clareza, e as sugestões do desejo do garoto pelo pintor adulto. Ah, a belíssima cena da febre, uma preciosidade!

O filme é contido, autoral e de diminuta trama romanesca, contrariamente ao habitual do cineasta.

Banderas, Cruz e Almodóvar este anos, em Cannes | Foto: Divulgação

Alguns reclamaram que este seria um Almodóvar acadêmico e acomodado. Jamais. Dor e Glória é uma obra ousada que, sem vaidades, celebra o passado e mostra a resistência da idade madura, ainda produzindo arte.

Almodóvar diz que nunca se drogou como Mallo. OK. E reclama que as partes fictícias ficaram mais fortes e verdadeiras do que as biográficas. Mas Dor e Glória é autoficção, claro. Ou seja, o cineasta é autor e personagem. O resultado poderia ser uma revisão dos dias de glória, como sugere o título, porém o roteiro concentra-se quase que exclusivamente no que vem após o sucesso: depois de ter filmado seus bem-sucedidos projetos, o que resta a um diretor que sente dores nas costas?

Destaque absoluto para a maravilhosa cena inicial, para a da febre e para a notável atuação de Antonio Banderas — jamais imaginaria que ele seria tão bom ator, um Almodóvar perfeito — e para a luminosíssima Penélope Cruz.

Recomendo muito.

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Bom dia, Odair (com os lances de Palmeiras 1 x 0 Inter)

Bom dia, Odair (com os lances de Palmeiras 1 x 0 Inter)

Durante a parada para a Copa América, tu, Odair, te ocupaste com bobagens. Toda a torcida que acompanhava as notícias comentava. A colocação de Patrick no lugar de D`Alessandro foi a principal delas. Tal atitude visava marcar mais na frente, pressionando na origem as jogadas do Palmeiras. A intenção principal era a de marcar melhor o bom lateral Marcos Rocha. Mas TODOS sabiam que a mudança apenas acentuaria nossa retranca no jogo de ontem.

Com isso, ficaríamos menos com a bola e sem os bons passes de Dale. E Guerrero chegaria da Copa América sabendo que teria que ficar sozinho lá na frente. Como eu também já tinha escrito nas redes sociais, tal ideia só funcionaria no papel. Não deu outra.

Que destino, Dale, ser preterido pelo péssimo Patrick! | Foto; Ricardo Duarte / SCI

Para coroar a brilhante ideia, foi Rocha quem cruzou para Zé Rafael cabecear livre em nossa área para marcar o 1 x 0. Estávamos ali pela metade da primeira etapa de jogo.

O gol surgiu onde? Bem no local onde deveria estar Patrick, Odair. Parabéns pela ideia e pela boa execução. Realmente, deu tudo como nós tínhamos previsto.

No intervalo, para piorar, começaram as substituições equivocadas. Como eu e toda a torcida sabíamos, Dale entrou,  mas não lugar do Patrick de contribuição zero, mas no de Nonato. Nenhum dos dois fazia boa partida, mas… Nonato é muito mais jogador.

Mesmo assim, com Dale, o Inter deu uma crescidinha, mas inútil. Houve um momento em que o Palmeias tinha chutado 12 vezes em nosso gol e nós só 2 no deles… E só Nico López levava perigo.

Então, o que tu fizeste, Odair? Ora, tiraste Nico López, é claro! E fizeste o time afundar de vez.

O Palmeiras é um time certinho. Um time de Felipão. Muita bola alta na área — especialidade do técnico — e muita marcação — outra especialidade dele. De resto, joga feio e grosso demais.

Dá para virar? Sim. Mas acho improvável contigo, Odair, fazendo tanta besteira no comando do time. Tu não ganhas nada e nem tentas. Só manténs o cargo. Não vou comentar a colocação do Parede aos 47 do segundo tempo, fazendo o jogo parar porque estávamos perdendo…

Em resumo, o Inter entrou em campo para enfrentar o Palmeiras no Allianz Parque com 4 volantes. Já no primeiro tempo tomou um gol. Com a bola, não tinha armação para atacar. Em um esquema que claramente daria errado, Odair tirou um dos volantes e colocou D’Alessandro. Nosso jogo era apático, horroroso. A segunda substituição foi patética: entrou  Sóbis no lugar de Nico Lopez. Derrota, claro.

Como disse o Julio Linden: “O problema também não é perder eventualmente um jogo para o Palmeiras em São Paulo. O problema é jogar cagado fora de casa e perder para Chapecoense e Vasco por jogar borrado, cagado, com espírito de time pequeno”. O nosso espírito habitual. Tu, Odair, és um medroso. Os Gre-Nais da final do Gauchão/19 foi assinatura com firma reconhecida por autenticidade.

É o que temos.

Nossa próxima partida será às 16h deste domingo (14/07) contra o Athletico Paranaense, na Arena da Baixada, em partida válida pela 10ª rodada do Brasileirão. Devemos ir com os reservas para perder mais uma fora de casa. Se o time  titular é a esculhambação que é, imaginem os reservas.

A decisão contra o Palmeiras, por sua vez, acontece na próxima quarta-feira (17/07), às 21h30.

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