Origem, de Thomas Bernhard

Origem, de Thomas Bernhard

Origem reúne 5 pequenos livros — trata-se de relatos autobiográficos de mais ou menos 100 paginas cada um —  que Thomas Bernhard publicou  entre 1975 e 1982: são eles Uma criança, A causa, O porão, A respiração e O frio. Bernhard publicou-os fora de ordem cronológica mas, neste volume de 501 páginas, a Companhia das Letras reuniu todos os textos em ordem cronológica. O resultado é estupendo e forma uma bela autobiografia da juventude do autor, desde a infância até seus quase 20 anos de idade.

Este período foi marcado por  extremas dificuldades — Bernhard nasceu em 1931 e cresceu, portanto, durante a guerra e depois. Também jamais conheceu seu pai e teve uma relação conflituosa com a mãe. Foi criado pelo avô anarquista, seu mestre para toda a vida.

Não existe escritor que una com maior brilhantismo mau humor, ranzinice, inteligência e talento como Bernhard. Ninguém odeia como Bernhard. Ele odiava sua Áustria natal, odiava seus professores, seu médicos e achava que a quase totalidade da humanidade era perfeitamente imbecil. Só que tinha enormes fatias de razão e sabia como ninguém expressar seu ódio e repugnância. Ele tinha vergonha de Salzburgo e de seu país — e explica tudo em detalhes. “Minha existência sempre perturbou, o tempo todo. Sempre perturbei e sempre irritei as pessoas. Tudo que escrevo, tudo que faço é perturbação e irritação. Minha vida inteira nada mais é do que perturbação e irritação ininterruptas. Porque chamo a atenção para fatos perturbadores e irritantes. Existem aqueles que deixam os outros em paz e aqueles que perturbam e irritam, categoria à qual pertenço”, escreveu o escritor em Origem.

Cada um dos cinco relatos têm apenas um parágrafo de mais ou menos 100 páginas, mas são facílimos de ler. Extremamente musical, ele faz repetições pontuais que jamais fazem com que a gente se perca. Ele avança e retorna, avança e retorna com extrema habilidade.

O primeiro relato — Uma criança — é sobre sua infância e é algo lindo desde a decisão de Thomas em fazer uma viagem logo que aprende a equilibrar-se sobre uma bicicleta. A causa trata do internato e seu justificado ódio a Salzburgo. O porão é o extraordinário relato de quando Thomas desistiu de ir à escola, descobrindo o comércio e a música. A respiração e O frio são sobre as doenças que o acometeram na adolescência — Bernhard é realmente um sobrevivente.

Origem é espetacularmente bem escrito e mostra lindamente a formação de um ser humano não somente literário, mas principalmente musical. Explico: Bernhard descobriu seu grande talento musical durante a adolescência. Se não fossem seus combalidos pulmões, seria um barítono e sua formação com a professora de canto Maria Keldorfer e seu marido Theodor W. Werner está descrita em trechos inesquecíveis.

Recomendo muito!

Thomas Bernhard (1931-1989)

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O oitavo pecado capital, o que foi retirado: a Melancolia

O oitavo pecado capital, o que foi retirado: a Melancolia

Os sete pecados capitais já foram oito. O oitavo era a Melancolia, entendida no sentido da tristeza profunda, aquela que pode acabar em suicídio, atentando contra a “obra de Deus”. Ou seja, tal melancolia não seria a tristeza comum e inevitável que todos sentem. É a doença da depressão, do isolamento extremo, da tristeza que parece, à pessoa que a sente, sem fim.

Em sua palestra no Fronteiras do Pensamento de 2018, o escritor José Eduardo Agualusa citou o fato da retirada da Melancolia como um dos pecados. Depois, ele entrou em considerações mais literárias sobre a criação e a cura através da literatura. A melancolia, vista como um pecado, é polêmica mesmo, pois ela não depende de um ato, mas de uma condição, de uma postura pessoal, digamos. Não é uma ação, mas uma vivência.

Ela foi colocada como pecado por ser uma insatisfação profunda que, segundo a igreja, surge da percepção errada de que falta sentido à vida. Isso atacaria a religião. Também seria uma forma de não aceitarmos a realidade, de não estarmos contentes com o que temos.

Melancholia, de Albrecht Dürer, séc. XV | Wikimedia Commons
Melancholia, de Albrecht Dürer, séc. XV | Wikimedia Commons

Após uma discussão de séculos, foi o Papa Gregório I quem atualizou a lista de pecados. Na época da criação dos oito pecados, os mais graves eram os mais egocêntricos. Portanto, o orgulho e a vaidade seriam os piores de todos. Logo depois viria a melancolia, pois confundia-se algo que hoje consideramos doença com a “característica extrema” de voltar-se para si mesmo.

A palavra melancolia tem origem grega e significa “bílis negra”. Victor Hugo escreveu que “a melancolia é a felicidade de estar triste”. Não o entendo. Ele devia estar se referindo àquela tristeza leve que nos acomete, não ao estado de paralisia que associamos à depressão.

Depois, a melancolia foi substituída pela preguiça. E o orgulho e a vaidade juntaram-se no pecado da soberba.

Então, ficaram os atuais Soberba, Avareza, Luxúria, Inveja, Gula, Ira e Preguiça.

Melancolia – por Albert György. O trabalho está em Genebra.

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Bamboletras recomenda um verdadeiro suco de Brasil

Bamboletras recomenda um verdadeiro suco de Brasil

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Três excelentes livros!

O primeiro da lista fala sobre a pandemia e o que virá e é o livro que mais vendemos atualmente na Bamboletras. Sim, Abrão Slavutzky e Edson Souza são best-sellers!

O segundo vem de Ruy Castro falando novamente sobre o Rio antigo, tema sobre o qual Ruy é irresistível.

E o terceiro é a deliciosa biografia de nada menos do que João Gilberto escrita pelo especialista Zuza Homem de Mello.

É mole?

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Imaginar o Amanhã, de Abrão Slavutzky e Edson Luiz André de Souza (Diadorim, 216 páginas, R$ 55,00)

Ainda falta muito? Todos nós já fizemos essa pergunta. Na infância, obrigados a suportar provações de toda espécie e, ao longo da vida, quando percorremos longos caminhos e estradas desconhecidas, e o cansaço e a impaciência nos abatem. Nos quase dois anos da pandemia do coronavírus, essa pergunta, ou pelo menos o sentimento de angústia que ela contém, se fez presente em cada um de nós. Para grande parte dos brasileiros, a passagem dilacerante do tempo teve como agravante o estarrecimento diante da indiferença do presidente do país à tragédia vivida pela população, cuja expressão mais dolorida são os quase 600 mil mortos pela Covid 19 contabilizados até agora. Drama ao qual se somaram o desemprego, a crise econômica e a carestia generalizada dos bens de primeira necessidade. Privadas da rotina e relacionamentos cotidianos, as pessoas tiveram nas redes sociais sua principal companhia no mundo pandêmico, marcado pelo isolamento, pelo medo, pelo luto e… pela esperança. Sim, a esperança foi imprescindível para nos mantermos lúcidos ou pelo menos humanos nestes tempos. Que nada mais é do que uma parte do eterno labirinto que enreda nossa existência. Neste livro, os autores se propuseram a imaginar o amanhã que será de todos nós.

As Vozes da Metrópole, de Ruy Castro (Cia. das Letras, 464 páginas, R$ 79,90)

As vozes da metrópole joga luz sobre a produção literária, poética e jornalística dos escritores que foram protagonistas e testemunhas dos anos loucos cariocas. Cenário de Metrópole à beira-mar, o Rio dos anos 20 estava em ebulição e já era moderno na arquitetura, na música, nas artes plásticas, no pensamento, nos costumes – e, é claro, na literatura. Dividido em frases, crônicas, reportagens, trechos de romances, poemas e provocações, o livro reúne cerca de quarenta autores, desde os mais conhecidos, como Murilo Mendes, Lima Barreto e João do Rio, até nomes que tiveram edições restritas ou que estão fora de circulação há décadas, a exemplo de Adelino Magalhães, Mercedes Dantas e Romeu de Avellar. Eis aqui uma amostra irresistível do que foi feito num Rio que mudou a história – organizada por quem conhece a cidade como ninguém.

Amoroso — Uma biografia de João Gilberto, de Zuza Homem de Mello (Cia. das Letras, 344 páginas, 89,90)

Já não restam superlativos para caracterizar a música de João Gilberto. Com sua voz e seu violão inigualáveis, o criador da bossa nova foi reverenciado no mundo inteiro – até nos deixar, aos 88 anos, em julho de 2019. Escrito pelo produtor e pesquisador musical Zuza Homem de Mello, Amoroso é a primeira biografia dedicada ao baiano de Juazeiro. Personagem tão apaixonante quanto idiossincrático, João Gilberto é aqui retratado pelo prisma de sua arte. De Salvador a Tóquio, passando por Nova York, Rio de Janeiro e Cidade do México, somos levados aos estúdios, teatros, bares, clubes e festivais por onde João circulou, e conhecemos os compositores, arranjadores, instrumentistas, produtores, jornalistas, técnicos de som e empresários que cruzaram seu caminho. Melômano de conhecimento enciclopédico, o autor reconstrói a trajetória musical de seu amigo e ídolo em prosa leve e alegre, elegante e precisa – como ensinou João.

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Pai

Hoje faz 28 anos do falecimento de meu pai. Acho que foi o primeiro dia tão-somente triste, o primeiro dia 100% e absolutamente triste de minha vida. Fui acordado pela notícia. Ele tinha 30 anos a mais do que eu. Então, fico pensando se pode ser verdade que tenho apenas mais dois anos.

Hoje, dentro de minha cabeça, Clara Nunes está cantando uma canção de Chico Buarque chamada Umas e Outras que lá pelas tantas diz: “Cruzes, que vida comprida / Pra que tanta vida, pra gente desanimar”.

É, os dias 10 e 11 de dezembro nunca mais foram os mesmos após 1993.

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Porque a Livraria Bamboletras é bem frequentada

Porque a Livraria Bamboletras é bem frequentada
Eu, Milton Ribeiro, e Olívio Dutra.

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Porque era ela, porque era eu, de Clara Corleone

Este é o segundo livro e primeiro romance de Clara Corleone. Primeiro vieram as excelentes crônicas de O homem infelizmente tem que acabar. Este Porque era ela, porque era eu tem todo o jeito de história real, mas, sabe-se lá, talvez seja apenas uma realidade ficcional. Uma das personagens principais — chamada Clara Corleone — e passa por um conflito interno entre feminismo e estilo de vida. Afinal, ela aceita de ser a “amante”, a “outra”, de um homem. Sim, é uma crise, mas o é leve, bem humorado e é novamente escrito na prosa afiada e fluida de Clara.

Pois não é um tratado feminista ou filosófico. O conflito de que falei é perfeitamente encoberto por conversas jogadas fora, mil detalhes, garrafas de cerveja, por descrições de encontros entre amigas, entre amantes, em bares e em camas, tudo com a autora no controle. A história é contada pela Clara personagem. por um lado, e por Clarissa, de outro. No início do romance, a autora nos confunde sobre quem está narrando.

Quase todo mundo já lançou olhares ou se apaixonou ou ficou com alguém “comprometido”, creio eu. E é simplificar muito as coisas considerar a(o) amante um(a) mera vilã. Porém, para além do desejo, pegar um cara casado é uma opção ética. Neste caso, ela se une a ele no desrespeito que tem pela esposa, correto? Ela se une a ele e não à outra… Uma mulher que faz isto não estaria sendo machista? O feminismo não deveria ser também uma construção de apoio mútuo entre mulheres? É saudável uma relação que aniquila outra?

Mas a gente se diverte muito lendo Porque era ela… Há uma visão real e colorida da contemporaneidade do bairro Bom Fim e adjacências de Porto Alegre. É onde moro e é uma maravilha poder ir ao Miau da Cabral e pensar se podemos mesmo levantar (vá ler o livro). É uma delícia entrar na Lancheria do Parque pensando nas conversas e no aconselhamento entre as mulheres nas mesas. Aliás, anteontem, fui na Lancheria com a Elena quando repentinamente surgiu Clara Corleone herself na nossa frente.

A cena final do livro é realmente muito boa. Não há facadas, gritos e nem canos fumegantes. Ninguém arranca os cabelos. Há elegância.

Leia!

P.S. 1 — Clara leu esta resenha e esclareceu que só 10% daquilo ali aconteceu de fato.

P.S. 2 — O título do livro foi inspirado pela canção de Chico Buarque que, por sua vez, a trouxe de Montaigne, conforme está bem explicado aqui.

Clara na festa em que recebeu o Prêmio Jacarandá de “Aurora do Ano” | Foto de Bruna Paulin

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Bamboletras recomenda uma mineira e um monte de gaúcho(a)s

Bamboletras recomenda uma mineira e um monte de gaúcho(a)s

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Um livro da mineira Carla Madeira, autora do excelente Tudo é rio, outro que marca o retorno de Martha Medeiros à poesia e uma antologia tocada à base de talento e algum álcool, pensamos. Estas são as recomendações da Bamboletras nesta segunda newsletter de dezembro.

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Véspera, de Carla Madeira (Record, 280 páginas, R$ 49,90)

Em Véspera, o leitor se depara com dois tempos narrativos. O tempo passado traz Custódia e seus dois filhos gêmeos, Caim e Abel, assim batizados pelo pai à revelia da genitora. Um salto temporal coloca Vedina, mulher de Abel, no papel de protagonista, logo de cara cometendo um ato que provavelmente só uma pessoa numa situação emocional limítrofe faria: ela abandona seu carro com o filho do casal dentro, deixado à própria sorte. O arrependimento se dá rapidamente, só que, quando ela volta, o garoto não está mais lá. A autora conta: “A questão central é: como uma pessoa pode chegar a tal extremo? Como essa mãe chegou a ponto de abandonar o filho?”. Para tentar responder, Carla optou por esse cruzamento temporal exatamente para mostrar a ‘véspera’ do acontecimento. “Vou lá atrás, na história dos gêmeos Caim e Abel. Falo do nascimento dos meninos, do motivo de terem recebido esses nomes, etc.”.

Horas Íntimas — Master Class Santa Sede para Vinícius de Moraes, antologia organizada por Rubem Penz (Santa Sede, 240 páginas, R$ 40,00)

Este é o oitavo livro nascido no ambiente da Master Class Santa Sede, um seleto grupo de cronistas de botequim que se reúne em Porto Alegre. Nele, há crônicas e poesias. Pedro Gonzaga diz: “Poucos mestres do gênero ensinarão tão fortemente a arte da conversa, a coloquialidade do português brasileiro e moderno, a leveza profunda de quem olha para a vida como um fenômeno passageiro e fatal, mas ao mesmo tempo permanente e esperançoso. Por essas e outras razões, parece-me difícil imaginar um autor mais versátil como fonte de inspiração para uma antologia de crônicas. (…) Mais uma vez Rubem Penz consegue produzir o espaço em que a celebração de clássicos e a energia da novidade se encontram”.

Noite em Claro Noite Adentro, de Martha Medeiros (L&PM, 144 páginas, 39,90)

A rebeldia, a ousadia, a inconformidade estão neste livro, mas temperadas pela maturidade, pelas frustrações, pelo cansaço de quem já viu muita coisa na vida e não se abala por pouco. A primeira incursão de Martha Medeiros na literatura foi com o livro de poesias Strip Tease, publicado em 1985. O livro ganhou a admiração de Millôr Fernandes e Caio Fernando Abreu. Seguiram-se vários best-sellers. Cartas extraviadas e outros poemas foi lançado em 2001 e desde então Martha não publicou mais versos, dedicando-se às crônicas e às narrativas em prosa. Agora, ela retorna à escrita poética, com as 51 composições deste volume. Além disso, este volume traz a novela Noite em claro, publicada em 2012 mas pouco conhecida do público. Um livro leve, delicioso, para matar a saudade da poeta e que fará o deleite dos fãs da autora.

Carla Madeira | Foto: Versatille

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O calendário do futebol brasileiro para 2022

Por Tiago Luz

O calendário do futebol brasileiro para 2022 é o seguinte:

– Férias 2021/22: 10/12/21 a 08/01/22 (30 dias)
– Pré-Temporada: 09/01 a 25/01 (17 dias)
– Campeonatos Estaduais: 26/01 a 03/04 (16 datas) <— Céus, pra quê?!
– Copa do Brasil: 23/02 a 19/10 (14 datas)
– Série A: 10/04 a 13/11 (38 datas)

A Copa do Mundo iniciará no dia 21/11/2022, apenas oito dias após o fim do calendário nacional da primeira divisão. Em 2018, a seleção brasileira fez um período de preparação de quase um mês, 27 dias. Se o mesmo for feito em 2022, isso significa que haverá uma sobreposição de dezenove dias, quase três semanas, entre a preparação e o Campeonato Brasileiro.

Ou seja, na melhor das hipóteses, se tudo correr maravilhosamente bem, vários times perderão jogadores para seleções nas últimas três semanas do Brasileiro.

Quando, daqui a um ano, seu dirigente favorito do seu clube do coração reclamar de desfalques, lembre-se de perguntar qual foi a posição dele em relação a esse calendário. Já adianto que, muito provavelmente, foi de concordância.

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Hoje é o Dia do Samba, sabiam?

A histórica imagem de Eurico Dantas, de 1976, no Palácio do Samba, onde Cartola — indignado com a proibição da ditadura da realização de um ensaio da Mangueira na Rua Visconde de Niterói — senta na frente de uma viatura da polícia. Viva o samba!

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Os mais vendidos de novembro na Bamboletras

Os mais vendidos de novembro na Bamboletras

1. Imaginar o Amanhã, de Abrão Slavutzky e Edson Luiz André de Souza (Diadorim)
2. Lula: Biografia – Volume 1, de Fernando Morais (Companhia das Letras)
3. Aquarela Brasileira (Volume 1), de Juarez Fonseca (Diadorim)
4. Mas em que mundo tu vive?, de José Falero (Todavia)
5. Anos de Chumbo e outros contos, de Chico Buarque (Companhia das Letras)
6. Santa Sede: Outros Presentes (Volume 12), de Rubem Penz, Org. (Santa Sede Editorial)
7. Os Supridores, de José Falero (Todavia)
8. Drogas para Adultos, de Carl Hart (Zahar)
9. Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo, de Eliane Brum (Companhia das Letras)
10. Um Preço Muito Alto, de Carl Hart (Zahar)

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Sobre Renato e os treinadores brasileiros, por Idelber Avelar

Sobre Renato e os treinadores brasileiros, por Idelber Avelar

Ontem ficou provado: qualquer treinador europeu mediano dá um baile em treinadores brasileiros considerados de ponta.

Pelo terceiro ano consecutivo, a Copa Libertadores foi conquistada por um treinador europeu, ambos — Jesus em 2019, Abel em 2020 e 2021 — oriundos de um país que talvez nem se classifique para a Copa, que é periférico no futebol europeu.

O plantel do Flamengo é muito superior ao do Palmeiras, não é pouco, não. E, com a exceção de uns quinze minutos durante o segundo tempo, depois do gol do Gabriel, a sensação que se teve o jogo todo é que o Palmeiras tinha o controle completo da peleja.

No banco do Flamengo, você tinha a cena patética do lateral Filipe Luís, que tinha saído contundido, explicando coisas ao Renato, porque o técnico do Flamengo é tão capaz de ler a disposição tática de uma partida como eu de ler aramaico.

Foi bom para o futebol o resultado de ontem, porque a pior coisa que pode nos acontecer como país é recompensar gente que estimula a ignorância, que alardeia a inutilidade do estudo. Porra, nós temos os piores índices do mundo em leitura, matemática e ciências, e vamos usar uma posição de destaque e poder — como é a de um treinador de clube grande — para estimular as pessoas a não estudarem? O sujeito que faz isso é um criminoso.

O Renato Gaúcho faz isso o tempo todo. Ele acha que, por ter sido boleiro, não precisa estudar. Vai perder o Brasileirão choramingando por um calendário que foi ruim do mesmo jeito para o virtual campeão (que tem tantos jogadores convocados em datas FIFA como o time dele), perdeu a Copa do Brasil levando goleada e nó tático de um clube médio em casa, e perdeu a Libertadores levando outro nó tático do mesmo portuga que já lhe havia aplicado um quando ele treinava o Grêmio.

Isso vindo do fanfarrão que levou 5 x 0 do Flamengo de Jesus e respondeu que se ele tivesse um time de 200 milhões, ele também ganharia tudo. O plantel do Flamengo é hoje avaliado em 700 milhões e ele conseguiu não ganhar nada. Alguém imagina a Alemanha contratando o Felipão de técnico depois do 7 x 1? Não, né? Foi isso o que o Flamengo fez.

Em condições normais de temperatura e pressão, eu torço contra o Flamengo e contra o Cruzeiro, mas os títulos do Flamengo de 2019 não me incomodaram em nada. Fiquei feliz, inclusive. É isso o que a galera mais fanaticamente clubista precisa entender quando comenta aqui: eu amo futebol, futebol bem jogado, e o Brasil precisa desesperadamente de alguns Jorge Jesus por aqui.

Ontem, sim, impunha-se torcer pelo Palmeiras. O Abel Ferreira não é nenhum Guardiola, mas para esta terra de cegos, o olho dele já tá bom demais. Ele estuda, trabalha, respeita os outros.

Agora, o time grande que contratar o fanfarrão do Renato Gaúcho merece uma zica de 100 anos. Merece o mesmo destino que merecerá o Brasil se reeleger Bolsonaro.

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Bamboletras recomenda Gerbase e os últimos Eliane Brum e Coetzee

Bamboletras recomenda Gerbase e os últimos Eliane Brum e Coetzee

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Nossas sugestões sempre trazem bons livros, mas raramente foram tão variadas. Um romance gaúcho que tende ao fantástico, um documento incontornável sobre a devastação amazônica e mais contos de Coetzee. Pô, tudo heterogêneo, tendo por ligação a alta qualidade!

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Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo, de Eliane Brum (Cia. das Letras, 448 páginas, R$ 69,90)

Eliane Brum mescla relato pessoal e investigação jornalística para escrever um livro de denúncia e em defesa da Amazônia, lugar que adotou como casa e de cuja luta pela sobrevivência participa ativamente. Escritora, jornalista e documentarista, Eliane Brum faz um mergulho profundo nas múltiplas realidades da maior floresta tropical do planeta. Com quase 35 anos de experiência como repórter, há mais de vinte ela percorre diferentes Amazônias. Em 2017, adotou a floresta como casa ao se mudar de São Paulo para Altamira, epicentro de destruição e uma das mais violentas cidades do Brasil desde que a hidrelétrica de Belo Monte foi implantada. A partir de rigorosa pesquisa, Brum denuncia a escalada de devastação que leva a floresta aceleradamente a um ponto de não retorno. E vai mais além ao refletir sobre o impacto das ações da minoria dominante que levaram o mundo ao colapso climático e à sexta extinção em massa de espécies. Neste percurso às vezes fascinante, às vezes aterrador, a autora cruza com vários seres da floresta e mostra como raça, classe e gênero estão implicados no destino da Amazônia e do planeta.

Contos Morais, de J. M. Coetzee (Cia. das Letras, 152 páginas, R$ 54,90)

Sete contos sobre o desejo. Ou sobre como lidamos com o desejo dentro dos limites da nossa cultura. Nesta surpreendente incursão pela forma breve, o prêmio Nobel J. M. Coetzee nos apresenta um conjunto de narrativas de brilho perturbador. Num dos textos, uma mulher se sente diariamente ameaçada por um cão. Em outro, uma escritora só encontra conforto ao cuidar de gatos abandonados. O título Contos morais poderia remeter a um diálogo com uma convenção da fábula clássica: o uso de bichos em histórias que enfatizam aspectos virtuosos da conduta humana. Como se trata de J. M. Coetzee, no entanto, nada é previsível. Para quem conhece a obra deste autor, a um só tempo fácil e difícil, moderna e pós-moderna, não é surpresa que a ideia de moralidade seja subvertida por uma ironia constante, feita de contradições presentes inclusive no estilo da escrita. Assim, se a linguagem é transparente e direta, a complexidade das ideias que expressa gera um curto-circuito nas certezas de quem lê. Os contos aqui não oferecem nenhuma lição. Das contradições entre natureza e cultura, Coetzee faz uma obra sobre todos nós.

O Caderno dos Sonhos de Hugo Drummond, de Carlos Gerbase (Diadorim, 136 páginas, R$ 49,00)

Neste romance de Gerbase, Hugo, um jovem cineasta do interior do Rio Grande do Sul, há pouco premiado em importante festival na França, vem a Porto Alegre para apresentar o projeto de seu novo longa-metragem num encontro internacional de produtores. O evento acontece num prédio que, cem anos atrás, foi o hotel mais luxuoso da cidade. Desde sua chegada, Hugo é envolvido por uma atmosfera surreal e conhece personagens tão solícitos quanto estranhos: uma recepcionista que parece ter saído de um filme de espionagem dos anos 1960, um produtor cinematográfico, que muda de aparência de acordo com o restaurante que frequenta, e sua bela e misteriosa secretária. Por três dias, Hugo tenta seguir a programação do encontro, mas uma série de eventos bizarros, acompanhados de sonhos perturbadores, levam-no a questionar o que pretende filmar no futuro e que destino dar à própria vida.

Eliane Brum entrevistando na Amazônia

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Uma parte importante da Cartilha do Rebaixamento

Uma parte importante da Cartilha do Rebaixamento

Está sendo um mau ano para o Inter… E um ano muito feliz para os colorados! Arerê!

Bem, a lista abaixo não é algo casual. Vejam as coincidências.

Muitos técnicos utilizados
Argel
Falcão
Roth
Lisca
Renato
Tiago Nunes
Felipão
Mancini

Muitos goleiros utilizados (a maioria péssima)
Danilo Fernandes
Lomba
Jacsson
Chapecó
Brenno
Vanderlei
Paulo Victor

Ruindades sul-americanas contratadas a peso de ouro
Nico Lopez
Campaz

Jovens lunáticos
Jean Pierre
Valdívia

Capitães de seleções ruins
Villasanti
Seijas

Centroavantes estrangeiros ruins
Ariel
Churín

Influencers de baixo nível
Baldasso
Farid

SWAT de dirigentes defasados
Fernando Carvalho
Denis Abraão

E Douglas Costa…

Mas numa coisa o coirmão está inovando: vai ser o primeiro rebaixamento de um grande com salário em dia e superávit financeiro. Uma verdadeira façanha.

Um resumo das chances do Grêmio, para os colorados torcerem corretamente…:

Se o Bahia e o Juventude — os dois, AMBOS — ganharem somente uma das 4 partidas que lhes faltam, ficariam com 43.

Se o Grêmio ganhar do São Paulo e do Atlético MG e empatar com o Corinthians, faria os mesmos 43 pontos e escaparia pelo critério do número de vitórias.

É o jeito mais lógico, apesar de improvável.

Jogos que faltam para o trio:
Grêmio: SP (c), Corinthians (f) e Atl-MG (c)
Juventude: Bragantino (c), Fortaleza (f), SP (f) e Corinthians (c)
Bahia: Atl-GO (f), Atl-MG (c), Flu (c) e Fortaleza (f)

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Meu casaco verde (ou bege)

Meu casaco verde (ou bege)

Eu tenho um velho casaco de inverno. Tenho mais de um, mas agora refiro-me àquele que é verde ou bege — pois sou daltônico e não sei bem a cor dele. Deve ter uns 30 anos ou mais e sempre foi meu. Já está um pouco puído, claro, mas o que posso fazer se uso minhas coisas por anos sem estragá-las? Por exemplo, meu toca-discos é de 1982 e nunca foi parar no conserto.

No ano passado achei que o casaco estava sujo demais e o levei numa lavanderia próxima da livraria, na Venâncio Aires. Os punhos estavam encardidos e ele tinha umas manchas que provavelmente vinham de algum encarquilhado almoço de inverno, talvez no Tuim.

Quando fui buscar meu casaco limpo, o velho senhor dono da lavanderia olhou o resultado e não gostou, porque as manchas ainda estavam ali. Eu disse que queria meu casaco daquele jeito mesmo, mas ele respondeu que de modo algum — ele o lavaria novamente.

Voltei uma semana depois. O dono examinou o casaco e novamente não gostou. As manchas tinham diminuído, mas não totalmente. Insistiam em aparecer.

Ele me pediu desculpas e repetiu que não me entregaria a roupa naquele estado. Eu sorri e combinei de voltar na outra semana.

Quando voltei, ele estava feliz. Tinha conseguido um belo resultado. Ele me mostrou o casaco e realmente estava muito bom, perfeito não fosse o uso.

Três dias depois, voltei com outras roupas para serem lavadas. Não eram tão lendárias quanto o casaco verde (ou bege), só que eu queria pagar mais alguma coisa para aquele senhor tão cuidadoso.

A porta estava fechada. A lavanderia tinha um papel afixado na porta. Eles tinham fechado para sempre.

Falei com os vizinhos e soube que foi por causa da pandemia. O velho senhor não conseguira manter a empresa.

Voltei pra casa com as roupas na sacola.

Eu com o tal casaco | Foto de Bárbara Jardim Ribeiro

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E Tenório leva o Jabuti

E Tenório leva o Jabuti

Soube agora que Jeferson Tenório recebeu o Jabuti de melhor romance por esta verdadeira obra-prima que é O Avesso da Pele. Muito, mas muito merecido!

Parabéns ao Jeferson, que é um amigo e cliente da Livraria Bamboletras! Te mete!

Fico imensamente feliz pelo prêmio e também pelo que eu disse a ele em nosso penúltimo encontro. Estou acertando.

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Como disse um amigo

Os mesmos que cobram título ou vaga direta na Libertadores, apostavam que o Inter seria rebaixado.

Nossa realidade, que eles fingem não saber (ou esqueceram), é a manutenção na Série A, uma Sula de bônus e a continuidade da reestruturação do Clube.

É isso. Nosso time é apenas um pouco melhor do que o Grêmio. Talvez nem isso. Talvez seja apenas administrado por gente mais normal.

Não fosse o Grêmio, estaríamos na maior crise.

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Bamboletras recomenda Lula, Tobias e Confinada

Bamboletras recomenda Lula, Tobias e Confinada

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Olá!

Três livros brasileiros de primeira linha!

A biografia de Lula — que não é dirigida exclusivamente a fãs e eleitores do ex-presidente –, um livro de contos do excelente Tobias Carvalho e o fenômeno Confinada, obra brasileira teve a maior pré-venda de todos os tempos no país. Puxa, são 3 grandes razões para vocês nos visitarem, nos ligarem, nos mandarem um Whats, entrarem no nosso site…

Boa semana com boas leituras!

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Lula — Biografia (Volume 1), de Fernando Morais (Cia. das Letras, 416 páginas, R$ 74,90)

A primeira – e aguardada – biografia de vulto de Luiz Inácio Lula da Silva. Para além de juízos ou paixões, Lula está entre as maiores figuras políticas da história brasileira. Único presidente do país com origens operárias, e campo magnético de um partido profundamente original em suas raízes, exerceu seu poder carismático e sua influência de modo mais duradouro que qualquer outro homem público no período republicano, salvo talvez Getúlio Vargas – com quem também compartilha a virulência dos adversários. Desde 2011, Fernando Morais ganhou acesso direto, franco e frequente a Lula. A essas dezenas de horas de depoimentos, somou o faro de repórter e a prosa cativante para compor projeto biográfico que traz um painel do personagem em toda sua grandeza e complexidade. Em narrativa que faz uso de recuos e avanços cronológicos para manter um ritmo eletrizante, neste primeiro volume Morais vai da infância de Lula até a anulação de suas condenações, em 2021 – passando pelo novo sindicalismo, as greves do ABC, a fundação do PT e a primeira campanha eleitoral.

Visão Noturna, de Tobias Carvalho (Todavia, 112 páginas, R$ 54,90)

Um quarteto de contos que transitam entre o terror e o drama familiar, a investigação científica e o suspense. Qual é a diferença entre sonho e memória, vigília e imaginação? Tobias Carvalho transforma essas perguntas em um campo de muitas possibilidades. Estas quatro histórias ao mesmo tempo sutis e vertiginosas falam do efeito dos sonhos na vida de quatro pessoas. São personagens que encontram nos sonhos um caminho para os labirintos da memória e para as promessas do futuro, para seus dilemas e desejos. Visão Noturna é um livro incomum, menos interessado no que significam os sonhos do que em como eles se entrelaçam à vida de todos, conduzindo e impelindo narrativas, ora mostrando-se sem nada ocultar, ora mantendo-se obscuros.

Confinada, de Leandro Assis e Triscila Oliveira (Todavia, 128 páginas, R$ 74,90)

Fran é uma influenciadora com milhões de seguidores. Sua vida diante da câmera é uma sucessão de frases de efeito, dicas de saúde e cenários paradisíacos. Para ela, a pandemia de Covid-19 é uma oportunidade de “fazer um balanço”, “buscar novos desafios” e “crescer”. Das três trabalhadoras domésticas que são funcionárias de Fran, apenas Ju, que é mãe da Drica e gosta de tirar fotos em seu tempo livre, aceita passar a quarentena com ela — as outras são mandadas para casa com metade do salário. Em nome do sustento da família, Ju inicia uma dura convivência com Fran, que se revela mais alienada, e sobretudo cruel, do que ela poderia supor. A partir da postura crítica de Ju e de seu olhar incisivo para as desigualdades que compõem a sociedade brasileira, Confinada vai escancarar as bases dessa crueldade. Na relação entre Ju e Fran, revela-se, a cada episódio, o racismo e o ódio de classe, bem como os interesses econômicos que alimentam a injustiça e os privilégios da branquitude. Combinando crítica social, humor e drama, e trazendo para o centro a vida real de milhões de pessoas, Confinada é um marco dos quadrinhos e um retrato único da pandemia e do Brasil.

Fernando Morais

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Sobre a Amazon

Sobre a Amazon

Por Nanni Rios

Em primeiro lugar, o que importa é ler, mas para tanto é importante manter a cadeia do livro ativa. Esta cadeia envolve um monte de profissionais que têm de ser pagos. São capistas, diagramadores, autores, tradutores, revisores, editores, etc. Ou seja, há muita gente envolvida e cada um deles recebe uma remuneração. Em geral, a remuneração é justa. Afinal, é um sistema que está profissionalizado.

No momento em que a gente compra na Amazon, está alimentando uma empresa que não paga impostos aqui. Ou seja, o dinheiro que a gente paga para a Amazon jamais reverterá em ganhos para o país e a cidade, jamais tapará o buraco da tua rua, não comprará vacinas nem escolas. Deste modo, o dinheiro que vc põe na Amazon não retorna para vc. Ele vai todo para a Lua… Ou para o Bezos.

Para o Bezos mesmo!, gerando uma acumulação indecente de riqueza. Comprar na Amazon é exatamente o contrário da distribuição de renda.

E os trabalhadores da Amazon? Vocês viram o filme Você não estava lá, de Ken Loach? É a história de um entregador da Amazon, com tudo o que ele(s) sofre(m). São jornadas exaustivas para gerar mais dinheiro para o Bezos. O filme é muito triste. O cara não tem vida, não tem tempo para nada e a vida familiar é uma treta só. É uma exploração, sem direitos trabalhistas ou dignidade. Comprar na Amazon é financiar isto.

Mas, como se não bastasse, a empresa tem o objetivo explícito de quebrar a concorrência em volta dela para que ela possa ditar o preço. É estratégia. Então, à medida em que as livrarias pequenas perdem vendas para a Amazon, a sociedade perde, assim como a bibliodiversidade. E a Amazon tem como estratégia quebrar todos estes pequenos locais — que proporcionam encontros só possíveis nelas — para que ela possa, no futuro, ditar as regras.

E mais: ela já exerce enorme pressão sobre as editoras. Ou seja, sobre a cadeia do livro e todos os envolvidos no processo. Para muitas editoras, a Amazon já é o principal canal de vendas e então ela já pode impor a condição que quiser. Ela pede o desconto que quiser, paga quando quiser e muitas vezes tem exclusividade na venda.

Esses pontos são apenas o começo da tragédia que a Amazon representa. É demoníaco.

Porém, ela não pode fazer o que faz no Brasil em todos países do mundo. Países mais avançados têm regulação financeira. Há países que não permitem o dumping, que é vender abaixo do preço de custo para provocar a quebra da concorrência. Em vários países, isto é crime contra o sistema financeiro. Na França, por exemplo, a Amazon não pode dar mais de 10% de desconto num livro até 12 meses após seu lançamento.

Eu pago meus impostos
Você paga seus impostos
Nós pagamos nossos impostos
A Amazon paga zero!

Pela #JustiçaFiscal
Tributar os ultra-ricos e as multinacionais

 

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Thomas Bernhard — no livro Origem, no capítulo A Causa

Thomas Bernhard — no livro Origem, no capítulo A Causa

Assim como no período nacional-socialista a maioria dos alunos era versada em nacional-socialismo, agora era escolada pelos pais no catolicismo; quanto a mim, eu não era uma coisa nem outra, já que os avós junto dos quais cresci nunca, jamais foram acometidos por nenhuma dessas duas doenças intrinsecamente malignas. Alertado com frequência por meu avô para que não me deixasse de forma alguma impressionar nem por uma estupidez (a nacional-socialista) nem por outra (a católica), nunca corri sequer o risco de incorrer numa tal fraqueza de caráter e de espírito, nem na nacional-socialista, nem na católica, ainda que isso fosse dificílimo na atmosfera tão corroída e envenenada por ambas como a de Salzburgo.

A bela Salzburgo

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Gene Tierney

Gene Tierney

Publicado no perfil do Facebook de Gusthavo Stern-Ew

A mulher mais linda da história do cinema segundo o poderoso produtor Darryl F. Zanuck. Talvez ele tenha razão. Ao lado dela somente Ava Gardner, Sophia Loren, Hedy Lamarr e Elizabeth Taylor. Para o cineasta Martin Scorsese, Gene Tierney é uma das atrizes mais subestimadas do cinema norte-americano. E a sua história daria um filme de sucesso. De origem irlandesa, inglesa e judaica sefardita, Gene atuou em 37 filmes. Nascida numa família rica da Costa Leste, seu pai era um magnata. Educada nas escolas de maior prestígio do país, inclusive na Suíça. Desde cedo, demonstra interesse pela carreira de atriz, representando muitas vezes para os pais e amigos. Aos 17 anos, em uma visita aos estúdios da Warner Bros., causa sensação com sua beleza, e o diretor Anatole Litvak diz a sua mãe: “Ela deveria fazer cinema”. Fez um teste, pouco depois, mas o pai recusou o contrato. Se a filha queria representar, deveria fazê-lo “num teatro a sério”. Depois de dois anos na Europa, ela voltou aos Estados Unidos. Em 1938 se apresentou na Broadway em “What a Life!” e ao mesmo tempo em “The Primerose Path” (1938). Seus papéis subsequentes, em “Mrs O’Brian Entertains” (1939) e “Ring Two” (1939), recebem elogios dos críticos novaiorquinos. Richard Watts escreve: “Não vejo razão para a senhorita Tierney não ter uma longa e interessante carreira teatral, isto é, se o cinema não a sequestrar”. Figura voluptuosa, voz profunda e sensual, a atriz ganha destaque de pronto por sua beleza e, rapidamente, dá o salto para o cinema quando o produtor da 20th Century-Fox, Darryl F. Zanuck, a vê no palco e a levou para Hollywood, onde estreou em 1940 no western “A Volta de Frank James / The Returno f Frank James”, ao lado de Henry Fonda e dirigida por Fritz Lang. No ano seguinte, atua em cinco filmes, dando início a uma carreira de sucesso. Em 1943, com a sofisticada comédia “O Diabo Disse Não”, tem a crítica a seus pés e se torna uma das estrelas mais bem pagas de Hollywood. O ano de 1944, no entanto, foi o de sua consagração. O ano de “Laura”, onde faz o papel de uma mulher enigmática cobiçada por três homens. Lançado no dia 11 de outubro de 1944, em uma première em Nova York, a estréia no Brasil se dá em 29 de janeiro de 1945.

O filme intriga os críticos com sua mistura de estilos (noir, psicodrama, melodrama e thriller). Leva o Oscar de Melhor Fotografia e é indicado para outras quatro categorias: Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Clifton Webb), Melhor Roteiro e Melhor Direção de Arte. A atriz teve sua única indicação ao Oscar pela excelente atuação em “Amar Foi Minha Ruína”, de 1945, perdendo a estatueta para Joan Crawford por “Alma em Suplício / Mildred Pierce”. Elegante e boa intérprete, Tierney é dirigida por excelentes diretores: Lubitsch, John Ford, Preminger, Joseph L. Mankiewicz, Jules Dassin, Josef von Sternberg, entre outros. Casou-se em junho de 1941 com um famoso figurinista francês, Oleg Cassini, de quem se divorcia em fevereiro de 1952. Durante uma apresentação na Hollywood Canteen, grávida, é abraçada por uma fã que, sem que soubesse, era portadora de rubéola. Através desse incidente sua filha nasce com graves problemas e seu casamento acaba. Daria nasce prematura, exigindo uma transfusão de sangue completa, além de surda, parcialmente cega e com retardo mental. Isso, como era de se esperar, prejudica sua vida emocional. De uma breve reconciliação com o marido, nasceu uma segunda filha, Christina. Abandonada, ferida e desencantada, a bela e famosa atriz jogou-se de cabeça numa vida desregrada, marcada por múltiplos amantes, dentre os quais o então senador John F. Kennedy, o milionário Howard Hughes e os atores Spencer Tracy e Tyrone Power. Ao conhecer o príncipe Ali Khan, ex-marido de Rita Hayworth, apaixonou-se perdidamente. Rita já havia sofrido bastante nas mãos do príncipe, que apesar de rico, vivia às custas dela. Enamorada, Gene planejava casar-se, mas Khan não queria compromisso. Quando começou a pressioná-lo, ele se afasta. Sentindo-se humilhada e louca de amor, começa a desenvolver os primeiros sintomas da cruel depressão que iria lhe acompanhar por toda a vida.

Convidada para estrelar o clássico de aventura “Mogambo” (1953), termina sendo substituída por Grace Kelly, que recebe uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel de Linda Nordley. Com suspeita de esquizofrenia e depressão suicida, inconformada com o fracasso de seus relacionamentos, Tierney é internada em 1957 em uma instituição psiquiátrica, de onde só sai três anos depois. Segundo a própria atriz, esteve “às portas da loucura”. Passa por diversos tratamentos de choque. Tais fatos fizem com que não participasse de nenhum filme no período de 1955 a 1961. Em 1959, ainda frágil, aceita o papel principal na comédia “ Holiday for Lovers” (1959). No entanto, devido a um colapso nervoso, é forçada a deixar a produção da Fox, sendo substituída por Jane Wyman, e é novamente internada. Em busca de uma vida tranquila, Tierney casou-se em 1960 com um barão do petróleo texano, W. Howard Lee, ex-marido de Hedy Lamarr, com quem vive até a morte deste em fevereiro de 1981. Durante o casamento sofre um aborto espontâneo. Em 1962, retorna às telas no magnífico drama político “Tempestade Sobre Washington”, de Otto Preminger, aparecendo ainda em três outros filmes e alguns episódios de séries de TV, sendo o último, “Escrúpulos / Scruples”, em 1980. Em 1979 a atriz escreve sua autobiografia, onde fala abertamente sobre sua vida pessoal, doença mental e carreira. Gene foi uma republicana convicta e uma forte defensora de Richard Nixon e Ronald Reagan. Tierney faleceu vitima de enfisema em 6 de novembro de 1991, em Houston, 13 dias antes de seu 71º aniversário.

Gene Tierney (1920-1991)

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