Minha querida filha Bárbara está de aniversário hoje. Comecei o dia fazendo uma visita a ela. Mas o 25 de setembro é também o aniversário de Shostakovich. Para quem conhece sua música, esta versão de Feliz Aniversário é hilariante. Quem não conhece não vai entender nada. Há trechos de dois quartetos. Bem, mas vocês descobrirão.
Uma Temporada no Escuro (Minha Luta 4), de Karl Ove Knausgård
É incrível como minha vida é regulada pelos livros. Uma série de livros mais ou menos insatisfatórios me deixaram triste. Então peguei o quarto volume da autobiografia do Knausgård e tudo melhorou. Textos bem escritos salvam, apesar de que este foi o livro mais fraco dos quatro que li da série Minha Luta.
A Noruega é um país muito diferente do Brasil, claro. Lá, um estudante de boas notas, que termina o curso secundário, pode tentar uma vaga para dar aulas para crianças em regiões remotas do país, ganhando um bom salário. Foi o que fez Knausgård. Aos 18 anos e já interessado em tornar-se escritor, ele foi mandado por um ano para Håfjord, no norte do país, onde o inverno é uma noite contínua e o verão é puro dia. Numa comunidade de pescadores com 250 habitantes e na cidade vizinha não muito maior, ele deu aulas, tomou frequentes bebedeiras, escreveu, cuidou para não manter relações sexuais com alunas — afinal, elas tinham apenas dois ou três anos a menos do que ele e eram uma grande atração –, escreveu, entrou em conflito com superiores, escreveu, tentou perder a virgindade inúmeras vezes com outras mulheres — sempre tendo que enfrentar uma vergonhosa ejaculação precoce –, escreveu, viveu e escreveu. O plano era o de ganhar dinheiro suficiente para passar o ano seguinte viajando e ter tempo livre para se dedicar à escrita em um local calmo. O plano deu certo.
Neste quarto volume, a narrativa permanece leve, franca, rápida e envolvente. Na verdade, Knausgård me faz sempre grudar no livro. Ele não se preocupa muito com a cronologia e, lá pela página 200, retorna dois anos em sua vida e permanece ali até a página 400, quando volta a Håfjord. O livro tem 495 páginas.
A história dos romances é a da vida do autor. Uma vida comum, mas narrada com tal maestria proustiana que torna-se espelho de nossa própria existência, com suas temporadas boas ou escuras. As quase quinhentas páginas são lidas como se fossem 100. Queremos saber mais de Karl Ove, porque a identificação com os seus medos, decisões erradas e contradições revelam um caráter humano. Ele parece nos mostrar o tamanho da vida, nem enorme nem desconsiderável, nem simples nem inviável.
A ideia da escuridão perpassa todo o volume — nas entrelinhas e literalmente. É uma metáfora de um momento da vida em que tudo parece decisivo, até pela imaturidade para se lidar com os problemas. E há sempre o pai, o pai. Knausgård sempre volta àquela figura violenta e opressiva que assombra sua vida. Neste volume, há a separação dos pais e primeiros sinais da devastação que a bebida faria, tão bem contada no primeiro volume, A Morte do Pai.
Minha Luta é um imenso painel — já li 2000 páginas nos 4 primeiros volumes — que mostra um homem buscando crescer e se desenvolver, livrando-se de culpas, vergonhas e da autoridade do pai, mas também é uma história sobre como a vida pode ser boa. É muito complicado não se identificar… Minha infância não teve nada em comum com a dele. Mas como temos sentimentos em comum! Quantas vezes ele fala de mim, mesmo vivendo uma realidade muito diferente!
Recomendo.

Bom dia, Odair (com os lances de Inter 1 x 0 Chapecoense)
O Inter entrou em campo contra a Chapecoense com o mesmo time que tinha perdido a decisão contra o Athlético-Havan. Odair disse que não queria substituir ninguém porque quem saísse acabaria apontado (ou sugerido) como culpado pela perda do título da última quarta-feira.
Isto é, a forma que ele escolheu para preservar seus atletas, o grupo e o apoio interno para manter-se no cargo foi torturando a torcida.
E torturou mesmo. Foi um jogo cruel.

Jogamos malíssimo, eram só ligações diretas, nada de armação ou cérebro. A coisa só melhorou com a entrada de Neílton jogando pelo meio, na linha de três que precede Guerrero. Aliás, pobre Guerrero, lutando sempre sozinho contra a zaga adversária.
Uendel e Bruno foram figuras ridículas, no que foram acompanhados por Patrick.
A torcida vaiou o time mesmo antes de ele entrar em campo. Os influencers remunerados e as pessoas sensíveis ficaram cho-ca-dos. Bem, não têm vivência suficiente ou conhecimento sobre o que é o futebol.
Então, para os tolinhos que reclamaram das vaias da torcida do Inter, sugiro a leitura do clássico do inglês Nick Hornby. Aqui vai uma palhinha, sobre as primeiras vezes que Hornby foi a um estádio:
O que mais me impressionou foi o quanto a maioria das pessoas à minha volta detestava, realmente detestava, estar ali. (…) [Nas plateias de que eu participara em outros tipo de eventos] eu nunca observara rostos contorcidos de fúria, desespero ou frustração. A diversão como sofrimento era uma ideia inteiramente nova para mim, e parecia ser algo que eu vinha aguardando.
(Nick Hornby, “Febre de Bola”)
Mas vencemos o jogo, apesar de dois gols injustamente anulados pelo VAR.
Vocês acham que agora eu vou comentar o VAR? Não, isso também todo mundo está falando. Falemos de outro fato, falemos sobre a cera.
Garanto que no jogo de ontem contra a Chapecoense e no de quarta-feira contra o Athlético-PR, em cada um deles, tivemos menos 10 minutos de bola rolando em razão da cera. Sem exagero, no jogo de quarta, o Wellington Martins estava rolando no chão aos 3 SEGUNDOS de jogo! A cada bola dividida, nas duas partidas, havia um Neymar sofrendo dores terríveis, entrada de médicos e do carro maca. Quando o jogador machucado pousava ao lado do gramado, logo erguia-se e pedia ao árbitro para voltar a campo, no que era atendido, claro. Também a cada falta, lateral ou tiro de meta eram perdidos preciosos segundos que, somados, devem dar mais do que os dez minutos de que falei. A Fifa dá muita atenção ao futebol europeu onde as equipes não fazem cera, mas não estabelece regras para nós.
Bem, estamos isolados em quarto lugar no Brasileiro, mas com uma enorme fila agarrada à nossa cola. Agora, na 21ª rodada, às 21h30 desta quarta-feira, 25, o Inter vai ao Rio de Janeiro enfrentar o líder Flamengo. Já no próximo final de semana, retornamos ao Beira-Rio para enfrentar, no domingo, 29, às 16h, o Palmeiras. Ao menos esses não fazem cera.
Quem você pensa que sou?, de Safy Nebbou
Eu e Elena acabamos de assistir ao excelente ‘Quem você pensa que sou?’, de Safy Nebbou.
Trata-se de uma história moderna onde o Facebook é utilizado para que se crie um perfil falso de uma jovem, só que a autora é uma Juliette Binoche cinquentona.
A partir desta premissa quase vulgar, o filme parte para nos falar de desejo, separações, frustrações e da proximidade da morte, tudo dentro do pacote de uma história que nos engana várias vezes. Fala também da invisibilidade de alguns problemas reais.
Grande atuação de Binoche como Claire / Clara e de Nicole Garcia como a psicanalista dela.
Recomendo.
O Triste Fim de Jair Messias Bolsonaro, por José Eduardo Agualusa
Jair acordou a meio da noite. Mandara colocar uma cama dentro do closet e era ali que dormia. Durante o dia tirava a cama, instalava uma secretária e recebia os filhos, os ministros e os assessores militares mais próximos. Alguns estranhavam. Entravam tensos e desconfiados no armário, esforçando-se para que os seus gestos não traíssem nenhum nervosismo. Interrogado a respeito pela Folha de São Paulo, o deputado Major Olimpio, que chegou a ser muito próximo de Jair, tentou brincar: “Não estou sabendo, mas não vou entrar em armário nenhum. Isso não é hétero.”
Michelle, que também se recusava a entrar no armário, fosse de dia ou de noite, optou por dormir num outro quarto do Palácio da Alvorada. Aliás, o edifício já não se chamava mais Palácio da Alvorada. Jair oficializara a mudança de nome: “Alvorada é coisa de comunista!” — Esbravejara: “Certamente foi ideia desse Niemeyer, um esquerdopata sem vergonha.”
O edifício passara então a chamar-se Palácio do Crepúsculo. O Presidente tinha certa dificuldade em pronunciar a palavra, umas vezes saía-lhe grupúsculo, outras prepúcio, mas achava-a sólida, máscula, marcial. Ninguém se opôs.
Naquela noite, pois, Jair Messias Bolsonaro despertou dentro de um closet, no Palácio do Crepúsculo, com uma gargalhada escura rompendo das sombras. Sentou-se na cama e com as mãos trêmulas procurou a glock 19, que sempre deixava sob o travesseiro.
— Largue a pistola, não vale a pena!
A voz era rouca, trocista, com um leve sotaque baiano. Jair segurou a glock com ambas as mãos, apontando-a para o intenso abismo à sua frente:
— Quem está aí?
Viu então surgir um imenso veado albino, com uma armação incandescente e uns largos olhos vermelhos, que se fixaram nos dele como uma condenação. Jair fechou os olhos. Malditos pesadelos. Vinha tendo pesadelos há meses, embora fosse a primeira vez que lhe aparecia um veado com os cornos em brasa. Voltou a abrir os olhos. O veado desaparecera. Agora estava um índio velho à sua frente, com os mesmos olhos vermelhos e acusadores:
— Porra! Quem é você?
— Tenho muitos nomes. — Disse o velho. — Mas pode me chamar Anhangá.
— Você não é real!
— Não?
— Não! É a porra de um sonho! Um sonho mau!
O índio sorriu. Era um sorriso bonito, porém nada tranquilizador. Havia tristeza nele. Mas também ira. Uma luz escura escapava-lhe pelas comissuras dos lábios:
— Em todo o caso, sou seu sonho mau. Vim para levar você.
— Levar para onde, ô paraíba? Não saio daqui, não vou para lugar nenhum.
— Vou levar você para a floresta.
— Já entendi. Michelle me explicou esse negócio dos pesadelos. Você é meu inconsciente querendo me sacanear. Quer saber mesmo o que acho da Amazónia?! Quero que aquela merda arda toda! Aquilo é só árvore inútil, não tem serventia. Mas no subsolo há muito nióbio. Você sabe o que é nióbio? Não sabe porque você é índio, e índio é burro, é preguiçoso. O pessoal faz cordãozinho de nióbio. As vantagens em relação ao ouro são as cores, e não tem reacção alérgica. Nióbio é muito mais valioso que o ouro…
O índio sacudiu a cabeça, e agora já não era um índio, não era um veado — era uma onça enfurecida, lançando-se contra o presidente:
— Acabou!
Anhangá colocou um laço no pescoço de Jair, e no instante seguinte estavam ambos sobre uma pedra larga, cercados pelo alto clamor da floresta em chamas. Jair ergueu-se, aterrorizado, os piscos olhos incrédulos, enquanto o incêndio avançava sobre a pedra:
— Você não pode me deixar aqui. Sou o presidente do Brasil!
— Era. — Rugiu Anhangá, e foi-se embora.
Na manhã seguinte, o ajudante de ordens entrou no closet e não encontrou o presidente. Não havia sinais dele. “Cheira a onça”, assegurou um capitão, que nascera e crescera numa fazenda do Pantanal. Ninguém o levou a sério. Ao saber do misterioso desaparecimento do marido, Michelle soltou um fundo suspiro de alívio. Os generais soltaram um fundo suspiro de alívio. Os políticos (quase todos) soltaram um fundo suspiro de alívio. Os artistas e escritores soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gramáticos e outros zeladores do idioma, na solidão dos respetivos escritórios, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os cientistas soltaram um fundo suspiro de alívio. Os grandes fazendeiros soltaram um fundo suspiro de alívio. Os pobres, nos morros do Rio de Janeiro, nas ruas cruéis de São Paulo, nas palafitas do Recife, soltaram um fundo suspiro de alívio. As mães de santo, nos terreiros, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gays, em toda a parte, soltaram um fundo suspiro de alívio. Os índios, nas florestas, soltaram um fundo suspiro de alívio. As aves, nas matas, e os peixes, nos rios e no mar, soltaram um fundo suspiro de alívio. O Brasil, enfim, soltou um fundo suspiro de alívio — e a vida recomeçou, como se nunca, à superfície do planeta Terra, tivesse existido uma doença chamada Jair Messias Bolsonaro.
* Publicado originalmente na revista “Visão” de Portugal.
Um doido varrido
Às vezes temos revelações inesperadas décadas depois.
Há um sujeito casado com uma colega da mãe dos meus filhos. Por algum motivo, nestes mais de 20 anos pós-separação, eu cruzava muito com ele. Ele ou me cumprimentava efusivamente ou me ignorava por completo.
Eu achava que ele era de lua ou tinha um parafuso a menos.
Hoje, na saída do cinema, esgueirando-se entre as pessoas, passaram em fila a colega — oi, tudo bem? –, o tal sujeito — que me ignorou, agindo verdadeiramente como um grosso — e uma cópia idêntica dele — que me cumprimentou alegremente — oi, Milton, tudo bem, sempre no cinema ou com um livro na mão, hein? Ele até me abraçou e bateu nas minhas costas.
Pois é, o cara tem um irmão gêmeo com o mesmo corte de cabelo e tudo. E eu pensando que ele fosse doido varrido.

Bom dia, Odair (com os melhores lances da fragorosa derrota)
A vitória do Athlético-Havan foi merecida e inapelável. Eles tem menos qualidade em termos de jogadores, mas são muito mais organizados e facilmente contiveram o Inter no Beira-Rio.

Fizemos uma boa pressão em alguns minutos do primeiro tempo, perdemos alguns gols e ficamos até otimistas com nosso gol de empate. Mas o 1 x 1 do primeiro tempo transformou-se em um 1 x 2, não em 2 x 1. E ao natural.
No segundo tempo não tivemos mais chances de gol. Imaginem que Cuesta concluiu uma cobrança de escanteio nesta etapa. E foi só.
A única reclamação que nos sobra é o fato do árbitro ter permitido a cera dos paranaenses. Não houve quase jogo. Desde os primeiros segundos havia sempre um cara do Athlético jogado no chão, pedindo atendimento.
Então, amigos, um aviso. Quando Wilton Pereira Sampaio estiver apitando e teu time vencendo, é só rolar no chão. Os minutos de desconto serão poucos e não há amarelo para quem finge lesão e nem para quem leva anos para bater uma falta ou lateral. Ele não gosta de se incomodar com essas coisas.
De resto, quem jogou foi o adversário. Sim, o time do capitão Wellington Risadinha e de Cirino nos deu um baile em nossa casa.
Como disse a Maria de Abreu, Nico López cobrou escanteio, correu pra cabecear, pegou rebote, cruzou de volta em uma espécie de mini escanteio e recebeu próximo à marca do pênalti para concluir. Fim, foi este nosso ataque.
Na ausência de D`Alessandro, entramos com Wellington Silva. WS jogou muito mal, mas nada igual a Patrick. Só uma administração idiota de grupo — como a que faz Odair — justifica o fato de ele não ter saído ainda no primeiro tempo. E, quando chegou a hora de substituí-lo, no intervalo, entrou outro medalhão… Sóbis foi seu substituto, entrando fora de posição — jamais foi meio-campista — e conseguiu ser ainda pior do que Patrick. E, olha, era difícil, mas ele conseguiu. Ou Sóbis joga como centro-avante ou adeus. Agradecemos os gols e os títulos, só que não dá mais.

Quem deveria entrar? Alguém da posição, ora. Temos, sim, temos, mas Odair raramente os escala.
Duvido muito, porém, se Odair quiser dar alguma evolução ao time nas próximas semanas, deveria começar o jogo de domingo, em casa contra a Chapecoense, com Heitor na posição de Bruno — que foi péssimo ontem –, Zeca na de Uendel, Nonato na de Patrick e Neílton como primeiro reserva, pois ele jogou muito bem domingo passado em Minas.
Isso para começar.
Mas ele vai seguir com seus amigos com a finalidade de manter-se no cargo.
E, deste modo, nada acontecerá de bom conosco. Talvez tenhamos que comemorar uma vaga cagada na Libertadores ou nem isso.
P.S. — O único colorado que deu volta olímpica nos últimos 8 anos foi Odair, sozinho, após eliminar o Palmeiras. Mais uma burrada.
O Brasileiro e o Foco na Véspera da Decisão
Os colorados não estavam dando grande atenção ao Campeonato Brasileiro e, agora, nervoso, na véspera do jogo mais importante do ano — a decisão da Copa do Brasil no Beira-Rio — olho para o que vem depois e… Puxa, estamos bastante bem no Brasileiro! Mesmo jogando quase sempre com os reservas, estamos isolados no quarto lugar, com poucas chances de sermos campeões, mas vivos. Interessante.
No último domingo, pela manhã, vencemos o Atlético-MG em BH por 3 x 1. Foi uma vitória indiscutível de um time com bons jogadores como o lateral direito Heitor, o meio-campista Nonato, o lateral esquerdo Zeca, o armador Neílton — eu gostava muito dele no Vitória — e, pasmem, a ressurreição de Pottker, que fez boa partida e dois gols.
O time reserva repete a mania dos titulares. Somos o melhor time do Brasileiro no enfrentamento com os dez times da parte de cima da tabela e o 13º contra os mortos da segunda página.
É a eterna mania de fazer bondades aos moribundos. Cuidado, domingo, às 11h, pegamos a Chapecoense no Beira-Rio.
Mas o que interessa hoje, nosso FOCO tem que ser o jogo de amanhã, onde decidimos se vamos ficar mais um ano sem títulos importantes — já são 8 — ou se vamos mudar a história recente. É dia de esquecer as cagadas de Odair e dar total apoio ao time. O Athlético é um time pra lá de nojento em vários sentidos. É rápido e bem treinado, mas também é a instituição que apoiou Bolsonaro e ainda tem o patrocínio da Havan. Ou seja…
A questão política me afeta, mas o jogo poderia ser contra o querido St. Pauli (*) que eu desejaria vencer com todas as minha forças. Nossa questão é o nosso retorno não só à primeira divisão como ao convívio com os vencedores. Nossa questão é demonstrara que nosso DNA de vencedores está em plena validade. Nossa questão é aumentar a sala de troféus.
Eu estarei lá, atento e na expectativa, com a camisa vermelha e sem cachaça na mão. OK, talvez depois. Antes só uma cerveja para entrar no clima.
.oOo.
(*) O St. Pauli (Fußball-Club Sankt Pauli von 1910) foi o primeiro clube alemão a banir o ingresso no próprio estádio de torcedores adeptos do nazismo. Em 2005, o clube começou também a organizar obras de beneficência para terceiros. Por exemplo, a equipe e os torcedores criaram a iniciativa viva com água de sankt pauli, uma colheita de fundos para a aquisição de distribuição de água para as escolas de Cuba. No último domingo, O St. Pauli venceu o clássico citadino contra o Hamburgo por 2 x 0, pela segunda divisão alemã.
Salvador Allende, 11 de setembro de 1973
Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineiros.
Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.
Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.
Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.
Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.
A historia os julgará.
Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranquilizar, mas tampouco pode humilhar-se.
Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.
Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.
Salvador Allende, 11 de setembro de 1973.
Bom dia, Odair, mantenedor de Patrick (com os principais lances da covardia de ontem)
A filha de Odair chama-se Vitória. Deve ter nascido em casa, pois, se tivesse sido em hospital, se chamaria Tentando Segurar um Empatezinho Hellmann.
(de um amigo)
Ainda temos boas possibilidades de sermos campeões da Copa do Brasil 2019, apesar de ontem termos encaminhado consistentemente uma tragédia. Desde os tempos de Fernando Carvalho, instalou-se a Síndrome da Retranca Fora de Casa. Via de regra, longe do berço entramos timidamente para ganhar num contra-ataque ou para empatar… Ou para perder de pouco. Ora, se deu certo contra o Barcelona, há de dar também contra a Chapecoense e afins. Só que não.
Faz uns 8 anos que este esquema não funciona, mas parece que ser cagão mantém os empregos. Pois é, o que parece passar longe das mentes da direção colorada é que para se fazer uma boa retranca há que ter 100% de comprometimento, de atenção, e de manter a bola no pé de vez em quando.
Ontem, por exemplo, tivemos um meio campista que jogou 90 minutos e que foi desarmado 16 vezes. Sim, 16 vezes! Falo de Patrick. E nisto não estão contados os passes errados.

Nico, Uendel e Edenílson — Ed foi culpado direto pelo gol ao errar uma brilhatura em nosso meio de campo e perder uma bola simples — fizeram péssimas partidas, mas nada comparável ao horrível Patrick. Todas as arrancadas do louco lento deram errado. E ele não manteve posição, ia lá pra frente, foi e é um peladeiro. O mapa de calor e os impedimentos marcados costumam indicar que Patrick é muitas vezes nosso homem mais avançado em campo. Mais do que Nico López e até Guerrero. Suas funções táticas são as mais incompreensíveis do esquema de Odair.
Patrick não funciona fora do Beira-Rio, este é outro fato. Edenílson não jogou nada, mas, assim como Nico, é sempre uma possibilidade, tanto que ambos perderam gols. Já Patrick nem isso.
E ele não foi substituído! Aliás, foram novamente lamentáveis as substituições de Odair. Só faltou tirar novamente o Cuesta.
Mesmo assim, sem insistência e fechados, chutamos e tivemos mais oportunidades de gol.
Mas temos que (sobre)viver com Odair e, pior, torcer por ele. Sim, irei ao Beira-Rio berrar a favor daquela ameba. Tenho que tornar esse burro campeão.
Há um adversário, claro. O Athletico é um time limitado, mas muito bem treinado. Joga tudo o que pode com jogadores como Welligton Martins e Marcelo Cirino, ambos corridos do Beira-Rio por deficiência técnica. O Patético não eliminou Flamengo e Grêmio à toa e, por termos perdido ontem, vamos passar trabalho no Beira-Rio para tentar uma vitória por dois gols. Será a vez de eles se retrancarem. Eles têm um meio-de-campo sem Patrick, isto é, veloz, porém a zaga é ruim de doer.
É VAMO, VAMO, INTER e fim.
O Inter retorna a campo no próximo domingo (15/09), às 11h, quando enfrenta o Atlético Mineiro no Independência. O jogo encerra o primeiro turno do Brasileiro. A volta do Inter ao Beira-Rio acontece na partida de decisiva contra o Athlético, time que apoiou institucionalmente o repugnante governo atual e tem o patrocínio do véio da Havan. A partida será no dia 18/9, às 21h30.
Vamos vencer, PQP!
Impossível ficar indiferente à capa do último CD de Cecilia Bartoli
Cecilia Bartoli acaba de anunciar seu novo álbum, Farinelli, com um programa de árias inspirado na figura do famoso castrato, provavelmente um dos melhores cantores da história. O álbum (no qual a cantora tem a colaboração do notável Giardino Armonico de Giovanni Antonini) estará à venda no dia 8 de novembro. Mas o que certamente não deixará ninguém indiferente é a imagem da capa, onde Bartoli aparece com barba. Piscadela aos transexuais? Auto-ironia? Marketing astuto? Uma mistura das três coisas?
A verdade é que Bartoli tem uma longa história de capas excêntricas, e não é a primeira vez que os castrati despertam sua imaginação. Alguns se lembrarão, há dez anos, de seu álbum Sacrificium, onde seu corpo havia passado por um processo de “marmorização” que a transformou em uma estátua.
Os jornais pré-programados
Me incomodam os jornais, sites, colunistas e comentaristas das redes que desejam agradar seus leitores com opiniões previsíveis e consensuais. Ah, a sede de aplausos… Ah, vou falar bonito pra minha bolha… Significa que a opinião emitida tem em vista um objetivo que se esgota na vaidade e na fragilidade de quem a divulga. Se tivesse um jornal, escolheria os meus colunistas por um critério. Trataria de descobrir o tamanho da vaidade, se a pessoa precisa muito ser amada. Se sim, adeus. Se não, fique por aqui fugindo dia a dia do que esperam de ti.

Posso dizer que posso adivinhar as manchetes de cada site a respeito de determinado assunto. É sempre a mesma pasmaceira previsível. É como diz Chico Buarque em “A História de Lily Braun”:
Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz
Ilíada, de Homero (trad. de Christian Werner)

Por Leonardo Antunes (*)
Há quatro anos, Christian Werner lançava sua tradução da Odisseia pela Cosac Naify. Àquela ocasião, Guilherme Gontijo Flores escreveu uma resenha para a Folha de São Paulo louvando o trabalho e celebrando o fato de que nosso sistema literário esteja produzindo novas traduções dos clássicos: um sinal de vitalidade de nosso meio, veredito com que concordo plenamente.
Agora pela Editora Ubu, Werner não só relança sua Odisseia como também publica uma tradução inédita da Ilíada. Salvo engano, creio que essa seja a tradução de Homero de mais longo período de gestação entre aquelas de que dispomos em português.
Digo isso porque, em 2002, quando iniciei meus estudos sob a tutela do professor, a tradução já estava sendo gestada. Desde então, Werner se tornou uma das figuras mais respeitadas no campo de estudos homéricos no Brasil, tendo também publicações e repercussão no exterior. Durante esses mais de 15 anos, vem se dedicando ao estudo dos poemas épicos gregos, tendo escrito inúmeros artigos e livros acadêmicos a esse respeito.
Creio que esse seja o grande diferencial de sua tradução, que Gontijo comparou, em 2014, à de Frederico Lourenço, também professor e pesquisador de literatura grega. Além de serem ambas oriundas de um cenário acadêmico, essas traduções também têm em comum o verso livre. Porém, creio que as semelhanças terminem aí.
Enquanto o texto de Lourenço parece focar-se na fluência como critério primeiro, a tradução de Werner, por sua vez, prima pelo cuidado extremo com a linguagem de Homero. Ela é concisa, como a de Odorico Mendes e de Haroldo de Campos, mas não pelo mesmo modo que a desses poetas, que buscavam impor uma dicção própria ao texto. A tradução de Werner é concisa pela emulação da parataxe grega, das frases coordenadas uma após outra, e que são vertidas com extremo rigor palavra por palavra, de modo quase interlinear.
É o tipo de trabalho que facilmente poderia se tornar infiel ao texto de partida em uma característica importantíssima: a da legibilidade – Homero, apesar de seu vocabulário vasto, não é difícil de ser lido por quem sabe grego. Mas também nisso Werner se mantém próximo ao texto do lendário aedo, evitando palavras desnecessariamente raras. Quando elas ocorrem, são para emular a raridade de um vocábulo pouco usual no texto grego ou para dar uma potencialidade de sentido precisa a um termo-chave para a interpretação da obra.
Ainda que a ordenação pouco usual da linguagem poética emulada por Werner possa causar um pouco de dificuldade de início, justamente por sua uniformidade cuidadosamente lavrada não demora para que o leitor se acostume com essa dicção que emula características fundamentais de Homero, jamais recriadas em português de forma tão criteriosa.
Também os paratextos, em que o tradutor explica minuciosamente suas escolhas e critérios, são um excelente apoio tanto para novos leitores de Homero quanto para estudantes da área. O box com os dois poemas conta ainda com o brilhantismo de uma introdução assinada por Richard P. Martin, no início da reedição da Odisseia.
Borges, que não sabia grego, dizia que conhecia bem Homero pela quantidade de traduções que tinha em sua biblioteca. Com essa nova tradução de Werner, nós também ficamos um pouco mais próximos de conhecer melhor o grande épico grego, pelas características que ficam tão bem aclaradas em sua tradução e em contraste com as demais.
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(*) Leonardo Antunes é poeta, tradutor e professor de Literatura Grega na UFRGS.
Ricardo Coimbra
Um dia normal
O dia começou cedo. Muito cedo. Acordei às 6h15 para receber a pessoa que faz a faxina na livraria. Na situação em que o comércio se encontra, não dá para pagar hora extra a cada faxina. Então eu venho, abro as portas e fico lendo na frente da livraria. Hoje deu 40 páginas de Knausgård. Deste forma, o dia começou bem. Enquanto vocês aproveitavam os últimos minutos aquecendo as bochechas em seus travesseiros, eu lia prazerosamente um autor de que gosto muito.
Depois, fui até o fórum onde trabalha minha filha. Não conhecia, ela trabalha num local bonito e limpo, em uma mesa em L cheia de processos e com um monitor. Senti falta do cheiro de café. Ah, se ela soubesse o quanto eu desejo que ela tenha uma vida menos atribulada do que a minha!
Agora, ela me manda pelo Whats a foto de uma xícara de café, feito após minha saída…
Agora, de volta ao trabalho, espero que a Elena me chame para fazermos uma reunião com um pessoal que representa a Unimed. Estou pagando “apenas” R$ 1402,41 por mês e quase não fico doente. Deveria receber uma medalha da instituição por pagar o plano há 20 anos quase sem utilizá-lo. Num mundo ideal, este valor deveria baixar.
E depois vou ter que enfrentar a uma fila na Caixa porque meu cartão deixou de funcionar e, deste modo, não consigo usar o caixa eletrônico. Aliás, os cartões da Caixa são de péssima qualidade. É o segundo que tenho que trocar em menos de um ano.
E assim a vida passa.
Ainda bem que a livraria não vai de todo mal.
Bach e Sweelinck
Sim, é guerra. Verissimo de hoje.
Bom dia, Odair (com os melhores lances de Inter 3 x 0 Cruzeiro)
Hoje, meus sete leitores não tiveram a versão em texto do Bom dia, Odair em razão de minha participação no programa Hoje na História do Inter, capitaneado por Luís Eduardo Gomes na Rádio Inferno ou para os iniciados, na rádio Se o céu é azul, o inferno é meu destino. É claro que estávamos felizes com a vitória de ontem sobre o Cruzeiro de BH e consequente classificação para a final da Copa do Brasil.

Os 20 Melhores Contos de Aldyr Garcia Schlee
Um grupo de amigos e literatos escolheram os 20 melhores contos de Aldyr Garcia Schlee (1934-2018) através de votação. Houve 396 indicações de contos feitas por 152 leitores e o resultado foi apresentado neste livro, publicado quando o escritor completou 80 anos. Mas a edição é única e está fora do comércio. Foi uma boa ideia e os primeiros contos do volume — os mais votados — são realmente extraordinários. Só que depois a escolha meio que se perde em contos cronísticos que podem ser da preferência dos amigos, mas que… Bem, conheço outros bem melhores dentro da produção do autor. Prova de que nem sempre dá para confiar nos amigos…
Schlee foi um enorme escritor. Ele é o cantor da região fronteiriça, o homem que imortalizou literariamente Jaguarão, seu rio e sua ponte. Seus personagens não são os potentados locais, mas a chamada gente simples do campo, as moças mal amadas, prostitutas e andarilhos. Suas histórias trazem o homem da fronteira, a cultura pampeana e seu linguajar, muitas vezes ignorando o que é Brasil e o que é Uruguai. Há muita nostalgia nas histórias também.
Temos vários contos esplêndidos na coleção. Me apaixonei pelo segundo mais votado, Maria Adélia, mas também por A Última Viagem do Vapor Rio Grande, por A Viúva de Quinteros, Um Brilho nos Olhos e Luíza vinha de noite.
Mas Schlee foi um raro e grande contista de futebol. A maioria de tais contos ficaram de fora da coleção dos 20. Paciência.

Nos jornais da Região das Hortênsias















