A obra monumental do chileno Roberto Bolaño surge em primeiro lugar numa lista criada para comemorar o quarto de século do Babelia, suplemento cultural do El País. O Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa surge logo a seguir, com A Festa do Chibo
Em comunicado de imprensa, a editora anuncia que, em Abril, publicará o inédito O Espírito da Ficção Científica, com tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra (dupla que já traduzira obras anteriores do escritor). Outro inédito, Pátria, que reúne três novelas, será também publicado, bem como uma nova tradução de Detectives Selvagens e uma edição especial de 2666 que, lê-se no comunicado, “constituirá uma grande surpresa do ponto de vista gráfico, um objecto de grande beleza, desde a escolha do papel até à tipografia, à capa e ao número de páginas”. Putas assassinas, numa primeira tradução para português, é outra das novidades do ano Bolaño da Quetzal.
O top 10 elaborado pelo júri escolhido pelo Babelia inclui, depois das duas obras de Bolaño e da de Vargas Llosa, é completado por Tu Rostro Mañana, de Javier Marías, Bartleby & Companhia, de Enrique Vila-Matas, La Novela Luminosa, de Mario Levrero, Soldados de Salamina, de Javier Cercas, Borges, de Adolfo Bioy Casares, Coração tão Branco, de Javier Marías, e Rabos de Lagartixa, de Juan Marsé.
A lista completa
(APÓS A LISTA, COLOCAMOS AS VINTE PRIMEIRAS OBRAS COM AS REFERÊNCIAS DAS TRADUÇÕES BRASILEIRAS, FEITAS PELO BLOG MUNDO DE K., do amigo Alexandre Kovacs):
1. 2666, Roberto Bolaño (2004)
Trecho: “Escolhia A metamorfose em vez de O processo, escolhia Bartleby em vez de Moby Dick, escolhia Um coração simples em vez de Bouvard e Pécuchet, e Um conto de natal em vez de Conto de duas cidades ou Os papeis de Pickwick. Que triste paradoxo, pensou Almafitano. Nem os farmacêuticos ilustrados se atrevem com as grandes obras, imperfeitas, torrenciais, as que abrem caminho no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres. Ou, o que dá na mesma: querem ver os grandes mestres em sessões de esgrima de treinamento, mas não querem saber nada dos combates de verdade, onde os grandes mestres lutam contra aquilo, esse aquilo que nos amedronta a todos, esse aquilo que acoquina e embainha, e há sangue e feridas mortais e fetidez”.
Trad. de Idelber Avelar
2. La Fiesta del Chivo, Mario Vargas Llosa (2000)
3. Los detectives salvajes, Roberto Bolaño (1998)
4. Tu rostro mañana, Javier Marías (2002)
5. Bartleby y compañía, Enrique Vila-Matas (2000)
6. La novela luminosa, Mario Levrero (2005)
7. Soldados de Salamina, Javier Cercas (2001)
8. Borges, Adolfo Bioy Casares (2006)
9. Corazón tan blanco, Javier Marías (1992)
10. Rabos de Lagartija, Juan Marsé (2000)
11. La grande, Juan José Saer (2005)
12. Anatomía de un instante, Javier Cercas (2009)
13. El desierto y su semilla, Jorge Baron Biza (1998)
14. Crematorio, Rafael Chirbes (2007)
15. Tinísima, Elena Poniatowska (1992)
16. La noche de los tiempos, Antonio Muñoz Molina (2009)
17. El desbarrancadero, Fernando Vallejo (2001)
18. La pesquisa, Juan José Saer (1994)
19. Son Memorias, Tulio Halperin Donghi (2008)
20. Vendrán más años malos y nos harán más ciegos, Rafael Sánchez Ferlosio (1993)
21. Fragmentos de un libro futuro, José Ángel Valente (2000)
22. Jamás el fuego nunca, Diamela Eltit (2007)
23. Nubosidad variable, Carmen Martín Gaite (1992)
24. Santa Evita, Tomás Eloy Martínez (1995)
25. El día del Watusi, Francisco Casavella (2002-2003)
Los restantes 75 libros más votados, en orden alfabético de autor:
El olvido que seremos, Héctor Abad Faciolince (2006)
Diario de la hepatitis, César Aira (1993)
Mater Dolorosa, José Álvarez Junco (2001)
Los peces de la amargura, Fernando Aramburu (2006)
Las contemplaciones, María Victoria Atencia (1997)
Diccionario de las artes, Félix de Azúa (1995)
Salón de belleza, Mario Bellatin (1994)
Las poetas visitan a Andrea del Sarto, Juana Bignozzi (2014)
Lo que no tiene nombre, Piedad Bonnett (2013)
El hambre, Martín Caparrós (2014)
Espejo de gran niebla, Guillermo Carnero (2002)
Potlatch, Arturo Carrera (2004)
El asco, Horacio Castellanos Moya (1997)
Rito de iniciación, Rosario Castellanos (2012)
Pretérito imperfecto, Carlos Castilla del Pino (2004)
Febrero, Julia Castillo (2008)
El metal y la escoria, Gonzalo Celorio (2015)
La larga marcha, Rafael Chirbes (1996)
Desiertos de la luz, Antonio Colinas (2008)
La ruina del cielo, Luis Mateo Díez (1999)
Las cosas que perdimos en el fuego, Mariana Enríquez (2016)
Karnaval, Juan Francisco Ferré (2012)
El naranjo, Carlos Fuentes (1993)
El síndrome de Ulises, Santiago Gamboa (2005)
Libro del frío, Antonio Gamoneda (1992)
Vivir para contarla, Gabriel García Márquez (2002)
Habitaciones separadas, Luis García Montero (1994)
Lo solo del animal, Olvido García Valdés (2012)
Devastación del hotel San Luis, Lorenzo García Vega (2007)
Santo oficio de la memoria, Mempo Giardinelli (1991)
Tiempo de vida, Marcos Giralt Torrente (2010)
La conquista del aire, Belén Gopegui (1998)
La balada del abuelo, Palancas, Félix Grande (2003)
La fantasía de la individualidad, Almudena Hernando (2012)
El bucle melancólico, Jon Juaristi (1997)
Hoy, Júpiter, Luis Landero (2007)
Romanticismo, Manuel Longares (2001)
Bella en las tinieblas, Manuel de Lope (1997)
El homóvil, Jesús López Pacheco (2002)
La mujer de pie, Chantal Maillard (2015)
El embrujo de Shanghai, Juan Marsé (1993)
Los girasoles ciegos, Alberto Méndez (2004)
Riña de gatos, Madrid 1936, Eduardo Mendoza (2010)
Yo nunca te prometí la eternidad, Tununa Mercado (2005)
Sangre en el ojo, Lina Meruane (2012)
El jinete polaco, Antonio Muñoz Molina (1991)
Como la lluvia, José Emilio Pacheco (2009)
El hombre que amaba a los perros, Leonardo Padura (2009)
Vislumbres de la India, Octavio Paz (1995)
Hombres buenos, Arturo Pérez-Reverte (2015)
Los diarios de Emilio Renzi, Ricardo Piglia (2015)
Plata quemada, Ricardo Piglia (1997)
El arte de la fuga, Sergio Pitol (1996)
Gente que vino a mi boda, Soledad Puértolas (1998)
Lo que soñó Sebastián, Rodrigo Rey Rosa (1994)
La tentación del fracaso, Julio Ramón Ribeyro (2002)
Catch and release, Reina María Rodríguez (2006)
Definiciones mayas, Mercedes Roffé (1999)
Quedeshim quedeshoth, Gonzalo Rojas (2009)
El vano ayer, Isaac Rosa (2004)
Los ejércitos, Evelio Rosero (2007)
Cámara Gesell, Guillermo Saccomanno (2012)
Porque parece mentira la verdad nunca se sabe, Daniel Sada (1999)
Lección de anatomía, Marta Sanz (2008)
La ciudad vista, Beatriz Sarlo (2009)
Diccionario filosófico, Fernando Savater (1995)
Estuario, Tomás Segovia (2010)
La manía. Salón de pasos perdidos, Andrés Trapiello (2007)
Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para torná-las benéficas para a República
É motivo de melancolia para aqueles que passeiam por esta grande cidade, ou que viajam pelo campo, verem nas ruas, nas estradas, e às portas das barracas, uma multidão de pedintes do sexo feminino, seguidas por três, quatro, ou seis crianças, todas em farrapos, a importunarem cada passante pedindo esmola.
Estas mães, não sendo capazes de trabalhar para angariar honestamente a vida, vêem-se forçadas a gastar todo o tempo que têm a andar por ali, a mendigar o sustento para os seus filhos desprotegidos. E estes, depois de crescerem, ou se tornam ladrões por falta de trabalho, ou abandonam o seu querido país natal para se irem alistar num exército inimigo, ou se vendem como emigrantes para os Barbados.
Penso que todos os Partidos Políticos estão de acordo que este número prodigioso de crianças – nos braços, às costas, ou aos calcanhares das mães, e frequentemente dos pais – na atual e deplorável situação desta república, é uma lástima enorme e suplementar.
Portanto, quem quer que possa encontrar um método justo, barato e fácil para transformar estas crianças em membros saudáveis e úteis à comunidade, deverá não só merecer a aprovação do público, como ver ser-lhe erguida uma estátua como salvador da nação.
Porém, a minha intenção está muito longe de se confinar apenas a prover pelas crianças dos pedintes confessos. É de âmbito muito mais vasto, e deverá, no geral, incluir a totalidade do número de crianças de uma certa idade que nascem de pais, de facto, tão incapazes de as sustentar como os que pedincham a nossa caridade nas ruas.
No que me diz respeito, tendo dedicado os meus pensamentos a este importante assunto durante muitos anos, e tendo ponderadamente pesado as várias propostas de autores de outros projetos, achei-os sempre grosseiramente errados na computação.
Na verdade, uma criança acabada de sair da barriga da sua mãe pode ser sustentada pelo leite dela durante um ano solar, exigindo pouco mais de outro tipo de alimentação. No máximo, nunca acima da importância de 2 xelins que a mãe poderá decerto conseguir, além do valor dos farrapos, pela sua legal ocupação de mendicante.
É exatamente com um ano de idade que proponho prover por estas crianças, de tal modo que, em vez de serem uma carga para os pais, ou para a paróquia, ou em vez de virem a necessitar de comida e roupa pelo resto das suas vidas, pelo contrário, acabem a contribuir para a alimentação e, em parte, para o vestuário, de muitos milhares.
Existe igualmente uma outra grande vantagem na minha proposta, que irá prevenir os abortos voluntários, e aquelas horríveis práticas das mulheres que assassinam os filhos bastardos. Infelizmente, um costume demasiado frequente entre nós, que suscita lágrimas e piedade no peito humano mais selvagem. E julgo que sacrificam os pobres bebés inocentes mais para evitar a despesa do que a vergonha.
Sendo o número de almas neste reino normalmente avaliado em um milhão e meio, calculo que entre estas devem existir cerca de duzentos mil casais cujas mulheres são férteis. Deste número subtraio trinta mil casais com meios para manter os seus próprios filhos embora, dadas as atuais misérias da nação, eu julgue que não possam existir tantos. Todavia, assegurado isto, restarão cento e setenta mil parideiras. De novo subtraio cinquenta mil por conta das mulheres que abortam, ou cujos filhos morrem por acidente, ou doença, durante o primeiro ano. Restam apenas cento e vinte mil filhos de pais pobres a nascer por ano.
Portanto, a questão é saber como criar e sustentar este número, o que, como já disse, na atual situação das coisas, é totalmente impossível por qualquer dos métodos até agora propostos. Não podemos empregá-los nem em fábricas, nem na agricultura. Também não construímos casas (quero dizer, no país) nem cultivamos a terra: muito dificilmente poderão ganhar a vida a roubar antes de chegarem aos seis anos de idade – a não ser como cúmplices –, embora deva confessar que aprendem os rudimentos do ofício muito mais cedo. Porém, é um período durante o qual só podem ser considerados como aprendizes, tal como me informou um cavalheiro importante do condado de Cavam, que me garantiu nunca ter conhecido mais do que um ou dois casos abaixo da idade dos seis anos, mesmo numa parte do reino tão famosa pela mais rápida proficiência nessa arte. Foi-me garantido pelos nossos comerciantes que um rapaz, ou uma rapariga, antes dos doze anos de idade não é mercadoria vendável. E, mesmo quando chegam a essa idade, não poderão vir a render no mercado mais do que três libras, ou três libras e meia coroa no máximo. Uma verba que não chega para dar compensação nem aos pais, nem ao reino, dado as despesas com a alimentação e com os farrapos que custam, pelo menos, quatro vezes aquele valor.
Passarei agora, humildemente, a apresentar os meus próprios pensamentos os quais, segundo espero, não serão susceptíveis de merecer qualquer objeção.
Foi-me garantido por um muito sábio americano do meu conhecimento, em Londres, que uma criança jovem e saudável, bem alimentada, com um ano de idade, é do mais delicioso, o alimento mais nutriente e completo – seja estufada, grelhada, assada, ou cozida. E não tenho qualquer dúvida de que poderá igualmente ser servida de fricassé ou num «ragout».
Portanto ofereço humildemente à consideração pública que, das cento e vinte mil crianças já computadas, se possam reservar vinte mil para criação. Desta parte, apenas um quarto deverá ser de machos – o que já é mais do que permitimos às ovelhas, ao gado bovino e ao suíno. A minha justificação é que estas crianças raramente são fruto do casamento, uma circunstância não muito considerada pelos nossos selvagens, pelo que um macho será suficiente para servir quatro fêmeas.
Deste modo, as restantes cem mil, com um ano de idade, poderiam ser oferecidas para serem vendidas às pessoas de qualidade e fortuna reino fora – advertindo sempre a mãe para que as deixe mamar à vontade no último mês a fim de as tornar rechonchudas e gordas, dignas de uma boa mesa. Uma criança dará duas doses numa festa de amigos; e se for a família a jantar sozinha, os quartos da frente, ou de trás, proporcionarão um prato razoável. Se temperada com um pouco de sal ou pimenta e cozida, estará ainda bem conservada no quarto dia, especialmente no Inverno. Fiz as contas e, em média, um recém-nascido pesará 12 libras e, se aceitavelmente tratado, durante um ano solar aumentará para 28 libras.
Concedo que esta comida venha a ser de certo modo cara e, portanto, estará muito adequada aos senhorios – e dado que estes já devoraram a maior parte dos pais, poderão ter direito de preferência sobre os filhos.
A carne dos bebés estará dentro do prazo o ano todo, mas será mais abundante um pouco antes, e depois, de Março. Pois foi-nos dito por um autor sério, um eminente médico francês que, sendo o peixe uma dieta prolífica, nos países católicos romanos há mais crianças nascidas cerca de nove meses depois da Quaresma do que em qualquer outro período. Assim sendo, calculo que um ano depois da Quaresma os mercados estejam mais abastecidos do que o normal, pois o número de crianças neste reino é de, pelo menos, três papistas para uma protestante – o que oferecerá ainda a vantagem colateral de reduzir o número de papistas entre nós.
Também já calculei as despesas para alimentar cada filho dos pedintes (em cuja lista incluo todos os que vivem em barracas, trabalhadores rurais, e quatro-quintos dos lavradores) que será de cerca de dois xelins per annum, trapos incluídos. E creio que não incomodará nenhum cavalheiro pagar dez xelins por uma boa carcaça de criança gorda, a qual, como já disse, dará quatro pratos de carne, excelente e nutritiva, quando tiver apenas um amigo particular ou a sua própria família a jantar consigo. Assim o proprietário rural aprenderá a ser um bom senhorio, aumentando a sua popularidade entre os seus rendeiros; a mãe terá uns oito xelins de lucro líquido e estará apta a trabalhar até produzir outra criança.
Ontem, fui assistir à palestra de Ian McEwan no Fronteiras do Pensamento. Foi uma boa palestra sobre seu projeto de literatura realista. O que me encantou é que foi uma fala de ficcionista, com as teses explicadas através de exemplos curiosos e engraçados. O resultado foi claro e elegante. McEwan não tentou dar soluções para o mundo, limitando-se ao campo da literatura, que já é suficientemente vasto. Muito tranquilo e pausado, de fala mansa, ele é um inglês que demonstra um surpreendente espírito italiano para se expressar. Mexe-se e usa os braços.
Falou sobre a importância dos detalhes. Relatou que, para escrever Sábado, passou dois anos seguindo um amigo neurocirurgião. Muitas vezes, acordava às 6h e dirigia-se para o hospital a fim de observar a rotina do cara. McEwan contou que um dia estava numa sala tomando notas, vestido com um jaleco, e foi abordado por duas residentes de neurocirurgia que queriam assistir ao procedimento e o confundiram com o médico. Para saber se já havia aprendido o suficiente, ele conversou com elas por cinco minutos como um especialista o faria. Quis saber em que nível elas estavam e explicou-lhes a cirurgia. Elas não notaram nada de estranho nele.
Também seguiu uma juíza especialista em direito de família para criar Fiona Maye, narradora de A Balada de Adam Henry, uma respeitada juíza do Tribunal Superior da Inglaterra.
E falou dos erros que tais detalhes podem causar. Seus personagens já viram estrelas que só eram possíveis de ver no hemisfério sul em julho. Estavam em Veneza. Também em Sábado, seu médico fala de características que não existem em seu carro, um certo modelo de Mercedez Benz. Contou a história de William Golding e de seu O Senhor das Moscas, onde o menino de óculos tinha um problema visual que era corrigido por um tipo de lente que não poderia concentrar os raios solares para fazer fogo, mas que no livro fazia. Falou das cartas de leitores que apontavam estes erros e que ele os corrigia todos nas novas edições, mas que Golding negava-se.
Defendeu o realismo e os detalhes usando o exemplo da primeira página de A Metamorfose. Há algo extraordinário acontecendo, mas aquilo só se torna crível quando Kafka cita as perninhas. Há o sensacional início: “Quando, certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Mas o final do parágrafo é que joga a “realidade” na cara do leitor: Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. Sim, o detalhe é que torna tudo crível.
Ao falar do humor, disse que não gostava das comic novels. Parece que o escritor está continuamente fazendo cócegas no leitor para que este ria. Ele prefere o humor que surge naturalmente, como consequência inevitável. Cria-se a situação humorística e a questão do quanto explorá-la.
Ao comentar seu último livro, Enclausurado, defendeu sua ideia de realismo:
— É biologicamente impossível que um feto narre histórias, mas considero que meu romance é realista, porque depois dos primeiros parágrafos, onde deixo claro o acordo que desejo estabelecer com o leitor, tudo o mais é escrito na tradição do realismo. Por exemplo, como a mãe bebe, o feto passa a fazer comentários avaliando a qualidade dos vinhos ingeridos e estabelece seus gostos como sommelier. E ouve um crime sendo preparado.
Também criticou acidamente Hollywood, dizendo que lá estão as piores pessoas. Como vários escritores, tentou enfiar à fórceps profundidade e inteligência em filmes para o grande público, mas disse que isto era muito raro e que foi vítima de uma traição em seu roteiro para O Anjo Malvado. “Em Hollywood, as pessoas são más como Maquiavel descreveu em O Príncipe. É como se tivéssemos penetrado na corte de César Bórgia”.
Bem, não vou resumir tudo. Vou apenas completar dizendo que a inabilidade do entrevistador Daniel Galera ia contra a boa qualidade do evento. Não é proibido ficar nervoso, mas é inaceitável não ouvir o palestrante. Galera conseguiu fazer perguntas amigáveis que sugeriam a negação daquilo que McEwan recém falara em sua palestra. Ou seja, devia estar tratando seu nervosismo ao invés de ouvir o inglês. Não tem o traquejo do entrevistador que leva mil perguntas pré-prontas e que evita aquelas que não contribuirão ou que farão a estrela repetir coisas. Galera é bom escritor e será complicado evitar tais eventos, mas tem de ser melhor orientado. Tulio Milman, mesmo desculpando-se por não ser um expert em literatura, foi muito mais interessante ao perguntar sobre o Nobel de Dylan, o Brexit, os filmes baseados em suas obras e sobre como despedir-se de um livro — esta talvez tenha sido uma pergunta da plateia.
Foi muito bom ver McEwan e comprar alguns volumes que faltavam, além de presentear a Bárbara com o esplêndido Na Praia. Também foi ver o Araújo Vianna quase lotado para ver um escritor, mesmo que nem todos saibam se comportar.
A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar;
alguns, para sair.
O terrorista já está do outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo.
E, bom, é como assistir a um filme.
Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Jovens de jeans, eles conversam
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta.
E aquele mais alto, ele entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo.
Mas o ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Era tola o bastante para entrar, ou não?
Saberemos quando retirarem os corpos. Treze e dezenove.
Ninguém mais parece entrar.
Um careca obeso, no entanto, está saindo.
Procura algo nos bolsos e
às treze e dezenove e cinqüenta segundos
ele volta para pegar suas malditas luvas. São treze e vinte.
O tempo, como se arrasta
É agora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba, ela explode.
Quarto do suicida
Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta — um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?
Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito retos.
E não era sem saída este quarto,
ao menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo — ou seja, ainda viva.
Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma —
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.
Depois de Música Perdida (2006), eu tinha desistido de Assis Brasil. Sendo mais claro: sempre lia os livros do autor gaúcho em busca de algo tão vivo quanto O Homem Amoroso (1986), mas ele permanecia perdido em romances históricos que me pareciam difíceis de engolir, seja pela artificialidade de algumas situações, seja pela linguagem clássica e perturbadoramente deslocada daquilo que descrevia — normalmente o Pampa inculto e romantizado –, seja por minhas manias e gostos de velho leitor, certamente a razão mais forte.
Mas aí veio o excelente escritor, crítico literário e amigo Carlos André Moreira. Ele escreveu bobamente que gostaria de ler uma resenha de Milton Ribeiro sobre o recém lançado O Inverno e Depois. Espero que tenha se lembrado que isto aqui é um blog onde apenas me coleciono de um jeito meio estabanado. Bem, mas moço obediente que sou, liguei para a Ladeira Livros pedindo o romance. E o livro é ótimo.
A narrativa tem seu foco em Julius, um violoncelista que se isola numa estância que herdou de seus pais — e que não visitava há 40 anos — para estudar uma obra pela qual é obcecado desde seus estudos na Alemanha, o Concerto para violoncelo e orquestra, de Dvořák. Ele tem um concerto marcado como solista e quer ser digno da grande música que escolheu.
Logo no início do livro, enquanto é descrita a longa viagem de carro entre Porto Alegre e a fronteira com o Uruguai, já deu para notar que tudo estava muito bem encaixado: humor, linguagem e tema. Durante a jornada, Julius, que nascera no mítico Pampa de Assis Brasil e que mudara-se criança para São Paulo, divaga sobre seu passado. A viagem vai sendo descrita paralelamente à história de vida de Julius e, quando vi, estava totalmente envolvido. Aprendi que o maior sinal de que o livro é bom é quando abro novos espaços de tempo para apressar a leitura. Isso aconteceu e passei a achar legal que o volume tivesse 350 páginas.
Hitchcock não era escritor, mas sabia como poucos o que era uma narrativa bem feita. Na imensa entrevista que concedeu para Truffaut, disse uma coisa fundamental: um profissional vê o mundo a partir de sua profissão e trata de influenciá-lo e defender-se a partir e com o que faz. Lembram do fotógrafo de A Janela Indiscreta defendendo-se de Lars Torvald com “flashes”? Há algo mais crível do que aquilo? Ou queriam que ele pegasse em armas?
Pois Julius pensa e vê o mundo a partir do violoncelo. Foi o instrumento que o levou à Würzburg (Alemanha) e depois fez com que se fixasse em São Paulo. Suas opiniões e amores são mediados pelo violoncelo. Ele não conheceria a amiga Klarika, seu professor Brand, seu amor Constanza e talvez nem a esposa contadora sem ele. Um bom romance realista deve ter surpresas, mas não pode conter sinais de artificialidade. E Assis Brasil aceita o fato de tal forma que não recua em dar detalhes técnicos do instrumento e das peças com que Julius se debate. Os desentendimentos que ocorrem também são típicos do mundo musical. (Lembrem que sou casado com uma violinista da Ospa, conheço o ambiente).
Outro elogio que faço ao livro é o de sua arquitetura narrativa. A linguagem é aquela clássica que Assis Brasil nunca abandona, aquela que mira a clareza e a elegância. Mas aqui a construção é muito bem feita, as narrativas paralelas funcionam bem e nos levam a boas cenas simétricas, como a do recital de Constanza e a do concerto de Julius. Porém…
Algumas vezes Assis Brasil pisa a linha do melodrama e até dá um passeio por lá. A descrição da morte do professor Brand é menos digna do que poderia e algumas coisas funcionariam melhor se deixadas a cargo da imaginação do leitor. Também é surpreendente que Julius, ao retornar do outro lado da fronteira, tenha perdido todos os medos — algum artista que sofre de medo do palco pode perdê-lo 100%? — e tenha ido de peito aberto, surpreendendo até o maestro com seu risoluto. Creio que, na cena final, ele pudesse ter deixado claro o medo inicial e a sua diminuição à medida que Julius observava a plateia e criava vínculos com Antônia, Maria Eduarda, Sílvia e Constanza. Pô, nem uma visitinha às pressas ao banheiro antes de entrar do palco? Sua súbita segurança pareceu meio mágica, como se ele tivesse incorporado Starker.
Mas isto são detalhes. É o varejo no meio de um atacado de acertos. Eu comi o livro. O romanção me convenceu fácil, fácil. E não pensem que eu não quero que Constanza e Julius vivam felizes para sempre. Garanto-lhes: fazem um belo casal!
Sexta-feira é o pior dia da semana de trabalho no Sul21. É muita coisa para preparar, tendo em vista que há sempre, inexoravelmente, um sábado e um domingo após um dia como hoje. É também o dia em que indico filmes e outras coisas para os leitores. Não parece, mas é tenso. Às vezes reclamam de mim — e com razão! Então, como não tive tempo de preparar nada para o blog, coloco aqui a postagem que Idelber Avelar fez sobre a premiação do Nobel de Literatura.
A postagem cita outra fonte, a romancista Anna North. Claro que eu não gostei da premiação e exigiria um Grammy compensatório para Philip Roth… Isso apenas para citar o atual injustiçado maior de um prêmio que já não foi concedido a Tolstói, Freud, Nabokov, Borges e Greene, para ficar apenas nos primeiros que me vem à mente.
Escritores não são tão notórios quando rock stars. Completando o que escreve North, digo que jamais conheceria Pamuk ou Aleksiévitch se fosse o Nobel. Como me escreveu o Heitor de Lima, já estávamos esperando aquelas edições luxuosas da Cia. das Letras para o queniano Ngũgĩ wa Thiong’o ou o sírio Adonis ou para um desconhecido talentoso. É uma tradição que começa a cada outubro. É uma pequena prova de que North tem razão: Bob Dylan não precisa de um Prêmio Nobel de Literatura, mas a literatura precisa de um Prêmio Nobel. E este ano, não teve.
Anna North, que além de romancista, escreve editoriais para o New York Times, publicou ontem um texto intitulado “Why Bob Dylan shouldn’t have gotten a Nobel” (http://nyti.ms/2e0YdYn). O texto seria só mais uma repetição do velho argumento de que aquilo que escrevem os letristas da canção não é literatura — discussão tediosa e tautológica, particularmente no Brasil, em que a letrística da canção tem um papel tão decisivo e os guardiões do cânone são tão preocupados — se não fosse por um momento em que a autora elenca a razão pela qual, segundo ela, Dylan não precisa de um Nobel, mas a literatura sim. Diz North:
“As reading declines around the world, literary prizes are more important than ever. A big prize means a jump in sales and readership even for a well-known writer. But more than that, awarding the Nobel to a novelist or a poet is a way of affirming that fiction and poetry still matter, that they are crucial human endeavors worthy of international recognition.”
O mérito do texto é explicitar o que em outros lugares, como na prosa acadêmica, costuma ficar escondido: é importante que o prêmio seja recebido por um romancista ou um poeta porque assim afirmamos que a ficção e a poesia ainda importam, que são empreitadas humanas que merecem reconhecimento. O fechamento do texto repete essa ideia: “Bob Dylan does not need a Nobel Prize in Literature, but literature needs a Nobel Prize. This year, it won’t get one.”
Pode ser que a ficção e a poesia importem ou não importem; pode ser que elas importem hoje para proporcionalmente menos gente que outrora; pode ser que alguns papeis sociais que chegaram a cumprir um dia, hoje elas já não cumpram.
Mas o problema aqui, claro, é o que sabe todo escritor: a literatura, no que ela tem de mais próprio, sempre foi e avessa ao que se promove em prêmios, coquetéis, cerimônias e homenagens. No dia em que a literatura depender de algum prêmio para sobreviver, é porque a sua própria existência já não vale mais a pena, é porque ela já se transformou em outra coisa.
(…) com a indicação do Sr. Zimmerman, os negócios serão prejudicados, pois toda a vez que indicam um Nobel,ou morre algum autor conhecido ou ainda se um filme baseado alguma obra literária faz sucesso as vendas aumentam. Foi assim com o Poderoso Chefão um livro que estava nos saldos e o seu autor no anonimato, quando o filme estourou, as edições esgotaram rapidamente e o Puzo voltou para as manchetes. Quando morreu o Levi-Strauss, foi durante uma Feira do Livro, o seu livro Tristes Trópicos vendia no máximo um por Feira, foi o Antropólogo falecer a mídia comentar e os Tristes Trópicos foi um dos campeões de venda.
Para finalizar, em 2014, Patrick Modiano ganhou o Nobel de Literatura, não digo que era saldo, mas ficava muito tempo nas prateleiras a um preço baixo e por vezes nas pontas de estoque, após o anúncio do Nobel a livraria não mais nenhum exemplar em acervo, todos os Modianos tinham vendido.
Infelizmente esse ano não teremos essa possibilidade, venderemos alguns songbooks. algumas biografias e era isso, mas em compensação o nosso final do dia será regado a chimarrão e a mister tambourine man…
Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.
Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.
No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.
Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa
No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.
Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.
Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não possui.
Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.
Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.
Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.
Assim, noturno cidadão de uma república
enlutada, surges a nossos olhos
pessimistas, que te inspecionam e meditam:
Eis o tenebroso, o viúvo, o inconsolado,
o corvo, o nunca-mais, o chegado muito tarde
a um mundo muito velho.
Dia desses, recebi o e-mail abaixo. Impossível desconsiderá-lo. O texto que o segue é muito bonito e, se o autor escreveu que “adoraria publicá-lo no teu blog”, só me resta abrir o espaço.
Caro Milton,
É sempre curioso o esforço de dirigir-se a quem não se conhece pessoalmente mas com quem se priva de certa intimidade, como leitor habitual de teu espaço no Sul21. De certa forma é como dirigir-se a um velho amigo desconhecido, se é que isso é realmente possível.
Por isso hesitei muito em escrever-te, até que ao ler teu post de hoje me dei conta de algo mais em comum e que no máximo vou te incomodar por alguns minutos.
Além de uma convergência no trato da memória, ainda incluiria a relação com a OSPA, a quem acompanho desde o tempo do Eleazar de Carvalho, de quem fui vizinho no Bom Fim.
Há quase dez anos fora de Porto Alegre, tento programar minhas idas à cidade ajustadas à programação da orquestra querida. E sem querer ser muito enxerido, tendo acompanhado a saga dos músicos estrangeiros, como a Elena, que trouxeram à orquestra uma qualidade que a engrandece e os faz ainda mais admiráveis, sempre me pareceu extraordinária a coragem dessas pessoas que deixaram um mundo que se desfazia e vieram construir uma vida nova nestes trópicos e subtrópicos. O fato de minha mãe ter sido colega de hidroginástica da Elena na Hebraica é só um detalhe a mais nessa teia, assim como os queridos amigos Cátia e Norberto que de vez em quando aparecem em tuas fotos.
Enfim, é bem possível que mais cedo ou mais tarde nos venhamos a conhecer pessoalmente.
Lhe escrevo porque estive obcecado com uma série de coincidências que originaram o texto que vai em anexo. Como é um tanto personalista e tem um tamanho que é meio nada, muito grande pra imprensa, pequeno mesmo pra um livreto, pensei que talvez devesse dar-lhe um pouco mais de substância, e então lembrei de tua entrevista com o Airton Ortiz quando ele foi patrono da feira do livro e a quem gostaria de ouvir para enriquecê-lo um pouco e quem sabe me podes passar seu contato.
Te peço desde já desculpas pelo “aluguel” e lhe desincumbo de qualquer responsabilidade de responder a este.
Grande abraço, Rodrigo Balbueno
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Aureliano, Noel, Jacaré – um passeio na memória
Por Rodrigo Agra Balbueno Agosto, 2016
Inicio pelo meu próprio começo, pelo tornar-se gente, que tem no nascimento seu ponto de partida, mas que demora uns bons anos pra engrenar. E, depois que começa, se tudo der certo nunca mais termina.
O tempo zero, neste caso, não é o começo absoluto. Falo de algo que se deu por volta dos vinte anos, lá por 1986 ou 1987, época em que um grupo de amigos, ainda estudantes ou recém egressos da universidade e portanto com uma vida econômica das mais restritivas, passaram a cultivar o hábito de reunir-se com alguma frequência no restaurante Copacabana, nas noites de domingo, sempre que a dureza permitia.
O Copacabana é um dos restaurantes mais antigos de Porto Alegre ainda em atividade, tendo sido fundado em 1939. O endereço diz Praça Garibaldi nº 2, mas olhando pra ele se vê que está na esquina das Avenidas Venâncio Aires e Aureliano de Figueiredo Pinto. A praça mesmo está do outro lado da rua.
Em algumas noites éramos dois ou três, noutras seis ou oito. Preferencialmente no salão principal, eventualmente no salão da direita, que anos depois virou o salão de não fumantes, antes do banimento completo do fumo de lugares fechados.
Em muitas dessas noites de domingo no Copa, tínhamos como vizinho de mesa um tipo meio sisudo, mais velho do que nós, de feições muito gaúchas, cabelos longos e cavanhaque, que às vezes jantava sozinho, às vezes com um ou dois amigos.
Alguém do nosso grupo já o conhecia e em algum momento comentou: esse é o Jacaré, ele é jornalista e compositor do Tambo do Bando. Já era um tempo em que a música regional começava a separar-se em duas vertentes diametralmente opostas, uma presa ao passado e manietada por um esdrúxulo conjunto de regras gerados por uma entidade ainda mais esdrúxula, e outra aberta à música urbana, mas sem tirar o olho da vastidão do Pampa que esperava ali do outro lado do lago. O Tambo do Bando foi uma das melhores respostas a essa tensão.
A convivência dominical trouxe certa proximidade, com cumprimentos gentis e uma eventual conversa. Não éramos exatamente amigos, mas sempre que nos encontrávamos fora do Copa trocávamos aquela saudação típica de pessoas que se conhecem de outros cenários.
Só fui saber seu nome quando morreu, ainda muito jovem, em 1996. Luiz Sérgio Metz. Sérgio Jacaré. Pra nós só Jacaré até aquele junho gelado.
Logo depois disso, a teia das relações me uniu a um grupo de estudantes de letras, ainda antes do ano 2000, e muito depois disso minha amiga Júlia, hoje doutoranda em letras, um dia me disse, eu já vivendo em Brasília, “tu precisas ler ‘O primeiro e o segundo homem’ do Luiz Sérgio Metz”. O primeiro livro do Jacaré, lançado em 1981, ainda antes de nossa vizinhança de mesa no Copacabana.
Em seguida comprei o livro, uma edição da “Artes e Ofícios” de 2001, que celebrava os 20 anos de seu lançamento. Li, adorei e fiquei lamentando não ter tido maior proximidade com aquela figura que tantas vezes esteve ali tão perto, quase dividindo uma mesa em noites de domingo.
Indo rumo a um tempo ainda mais remoto, final dos anos 70, começo dos 80, no ensino médio, em Taquari, quando inventava um mundo pra chamar de meu, fazendo algumas escolhas que mais tarde desembocaram naquela mesa do Copa e em tudo que dali adveio.
Era o tempo das descobertas, mas o que interessa agora é a música. Em uma casa onde se ouvia basicamente MPB, o auge do movimento nativista me pegou em um momento em que a figura do gaúcho era parte integrante da paisagem humana que via cotidianamente. Muitas pessoas da minha idade tinham um cavalo antes de ter uma moto.
Isso foi um pouco antes de deixar a vida no interior, literal e metaforicamente, e de descobrir a música urbana gaúcha, que experimentava um florescimento exatamente nessa época. Acho que meu marco particular é “Pra viajar no cosmos não precisa gasolina” do Nei Lisboa, seguido de perto pelo Musical Saracura.
Mas até então ouvia muito os LPs da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, especialmente os da nona (1979) e da décima (1980), Pedro Ortaça e principalmente Noel Guarany. O gaúcho da Bossoroca me tocava especialmente e o disco “Noel Guarany canta Aureliano de Figueiredo Pinto” figuraria ainda hoje entre os dez que levaria para uma ilha deserta.
Anos depois, esse disco ainda me traria uma alegria em extinção, que é aquela que sente quem encontra em CD um LP há muito perdido e que muito prazer lhe proporcionou. Hoje ouço no Ipod sempre que me vienen del sur los recuerdos (gracias, Borges).
Noel Borges do Canto Fabrício da Silva, guarani no sangue e pela arte, decidiu deixar de lado o sobrenome que remete à definição dos limites do Rio Grande do Sul como ele é hoje, pra ser Guarany somente, em tudo o que isso significa para este pedaço da América Latina que foi indígena, espanhola e portuguesa, mas para quem as fronteiras nada significam, na busca pela terra sem males.
Noel Guarany talvez seja o máximo expoente da música missioneira, se não é seu próprio inventor, nos termos em que hoje se conhece. No Estado onde tudo é Gre-Nal, pode-se perceber uma clara oposição entre a música missioneira e a música da fronteira sudoeste.
Grosso modo, enquanto a música da Campanha olha para a vida no latifúndio e vê no castelhano o inimigo, a missioneira tem um viés muito mais campesino e pan-gauchesco, empregando expressões em espanhol de forma natural, para quem a fronteira é o grande rio Uruguai, em cuja outra margem vive um outro que nos é igual.
Não é à toa que muitas vezes Noel canta “a Pampa” no feminino, como os castelhanos e, no extremo, a “Pachamama” quíchua. A terra como fêmea, mãe e companheira.
Saltamos mais uns anos, dez ou vinte, talvez, e encontro, em alguma livraria da Riachuelo, o livro “Romance de estância e querência – marcas do tempo”, único livro lançado em vida por Aureliano de Figueiredo Pinto, que entre outros tantos versos, traz aqueles musicados por Noel Guarany no LP de 1978. Muito gaúcho, muito lindo, muito lírico, descrevendo entre os anos 30 e 50 um mundo que já então deixava de existir.
Em uma hipotética genealogia da cultura riograndense se a Noel pode ser atribuída a paternidade da música missioneira, Aureliano seria responsável, uma geração acima, pela poesia regional gauchesca, numa obra que inicia em momento anterior à criação da figura do gaúcho de CTG, cópia carnavalesca de um tipo humano que a rigor nunca existiu da forma como foi cristalizada no imaginário popular.
A produção literária e musical do Jacaré também pode ser incluída nesse “tronco” da cultura gaúcha que abriga Aureliano e Noel. As obras desses três artistas, ligadas de uma forma ou de outra ao espaço físico missioneiro, são eivadas de um lirismo meio amargo, com um olhar para os que tudo perderam, sejam os guaranis e sua vida quase republicana quando da invenção do Rio Grande, sejam os gaúchos a pé perdendo seu lugar no mundo, para Aureliano pelo esvaziamento de uma forma de vida rural calcada na pecuária herdada dos jesuítas, para Noel e Jacaré já sob o domínio da soja no latifúndio mecanizado.
Se olharmos o mapa do estado, há um triângulo retângulo cujos vértices são as cidades onde nasceram esses três gaúchos. Aureliano de Santiago, Noel de São Luiz Gonzaga e Jacaré de Santo Ângelo. A hipotenusa ligando Santiago do Boqueirão, no extremo sul, a Santo Ângelo.
São três mil quilômetros quadrados ou 1% do Rio Grande, em cujos limites está contida a catedral de pedra de São Miguel das Missões, expressão máxima do passado colonial, de um tempo anterior à nossa brasilidade e à própria ideia de gaúcho.
Entre 1952, ano do nascimento do Jacaré e 1959, ano da morte de Aureliano os três dividiram os ares desse triângulo mágico missioneiro, embora seja virtualmente impossível que hajam se encontrado em algum momento. O Dr. Aureliano clinicando em Santiago, Noel alistando-se no 3º Regimento de Cavalaria de São Luiz Gonzaga, para logo desertar e “se bandear pro outro lado” e tornar-se Guarany de fato. E Jacaré, piá, aprendendo as primeiras letras.
Jacaré e Noel, no entanto, apostaria que se conheceram. Uma atuação política convergente deve tê-los unido durante a ditadura. Noel fez um célebre show na greve dos bancários de 1979, onde além do Jacaré seguramente também estaria seu conterrâneo da Bossoroca e futuro governador Olívio Dutra.
No conto “a noite da boiguaçu”, d’o primeiro e o segundo homem, o personagem Tatuim, descrito como “um bugre guarani que envelheceu por São Miguel” canta versos da canção “potro sem dono”, de Paulo Portela Nunes, gravada por Noel no LP “… sem fronteira” de 1975. E em 1980 Noel fez um célebre show no Teatro Glória de Santa Maria, em que desanca a repressão, ainda em plena ditadura. Esse show foi postumamente lançado no disco “Destino Missioneiro”, único registro ao vivo da obra de Noel. Santa Maria onde estudaram Aureliano e Jacaré e onde morreu Noel.
Damos mais um salto que nos traz para a segunda metade da segunda década do século XXI, com a internet já completamente integrada à vida de todos, e com ela o hábito de passar de um assunto a outro, quando uma curiosidade inicial conduz a descobertas insuspeitadas e nos permite vislumbrar mundos desconhecidos sem sair da frente de uma tela.
Num desses passeios em que uma página leva a outra que leva a mais outra, numa sucessão que nem a imaginação mais desenfreada é capaz de conceber, em alguma dessas conexões vejo que há uma biografia do Aureliano de Figueiredo Pinto escrita… por Luiz Sérgio Metz.
Pela internet achei o livro num sebo aqui de Brasília mesmo e em poucos dias o recebi pelo correio. Ao abrir o pacote, foi como um reencontro com um velho conhecido. O livro é o volume 33 da “Coleção Esses Gaúchos”, lançada há trinta anos para celebrar o sesquicentenário da revolução farroupilha.
Uma ótima ideia, de fazer um retrato do Estado a partir do perfil de 40 gaúchos, de Gilda Marinho a Getúlio Vargas, do Barão de Itararé a Jacobina Maurer. No inventário das bibliotecas perdidas tive um punhado deles, alguns comprados no supermercado, outros na própria livraria tchê!, ali na Salgado Filho, quase embaixo do viaduto Loureiro da Silva.
São livros pequenos, embora não exatamente de bolso, em edições simples, mas ilustradas e com fotos, e com uma liberdade editorial que surpreende e intriga nesta era de padronização e uniformidade. A edição é da tchê! e da RBS, com patrocínio do “banco Europeu para a América Latina”, cuja existência me era desconhecida até este momento. Parece que ainda existe.
A biografia do Aureliano pelo Jacaré tem 82 páginas, na capa uma caricatura desenhada pelo Juska, fotos do arquivo da família e ilustrações do Pedro Alice, amigo querido, que muitas vezes dividia conosco a mesa do Copacabana nos domingos. É bem possível que tenha sido ele, lá no sexto parágrafo, quem tenha apresentado o Jacaré aos demais, pois agora vejo que andávamos por lá na época da gestação do livro. O exemplar que tenho nas mãos diz “impresso em junho de 1986” logo abaixo do copyright. Dez anos antes da morte do Jacaré, trinta anos antes deste inverno de 2016.
O exemplar traz na folha de rosto, escrito a caneta “Brasília jun 89” e uma assinatura ininteligível.
Deduzo que o livro haja sido comprado por aqui mesmo, por algum gaúcho expatriado, três anos após o lançamento.
A letra manuscrita aparece novamente nas páginas do capítulo intitulado “Identificação e Roteiro”, que faz as vezes de nota biográfica. Na entrada relativa ao ano de 1926, são listados alguns nomes de companheiros de tertúlias de Aureliano quando morava na “rua da Olaria”, atual Lima e Silva, na Cidade Baixa, não muito longe do Copacabana. Depois de um “e tantos outros”, a mesma letra da folha de rosto registra um “entre os quais meu pai”.
A entrada relativa a 1938 trata do casamento de Aureliano com Zilah Lopes e lista seus três filhos: José Antônio, Laura Maria e Nuno Renan. O nome de Laura Maria está sublinhado em tinta laranja e se vê uma pequena estrela, quase um asterisco, que remete a uma nota ao pé da página, que se estende pela margem e diz: “fui seu par, no baile de debutantes, em 53 (!) De ‘recuerdo’ ganhei cuia/bomba de prata.”
O antigo dono do livro foi par da filha de Aureliano em seu baile de debutantes, em 1953. Deveria ser um rapaz de 18 ou 20 anos, nascido no começo dos anos 30, quando Aureliano já estava de volta a Santiago e iniciava sua vida como médico. Já cinquentão, comprou a biografia do pai de seu par, muito longe de Santiago, na capital da república.
Há outros trechos destacados com a caneta laranja, até a página 20, onde o Jacaré destaca a relação de Aureliano com Getúlio Vargas, a quem nunca perdoou por haver traído os ideais daqueles que estiveram na linha de frente da Revolução de 30. Seria antigetulista, como Aureliano, o antigo dono do livro?
Depois disso quase não há mais textos destacados, apenas alguns versos mais ou menos no meio do volume, até que na página 56, na abertura do quinto capítulo do livro, está uma foto tomada no chalé da Praça XX, em que dois senhores estão diante de dois copos de chopp preto, olhando para o fotógrafo. E reaparece a caneta azul sob a foto, identificando os dois senhores: “Marçal de AB., meu pai. Aureliano”.
A foto não tem data, mas as roupas de Marçal e Aureliano remetem a uma elegância dos anos quarenta; talvez seja do curto período que Aureliano passou em Porto Alegre em 1941, como sub-chefe da Casa Civil do interventor Cordeiro de Farias. Marçal veste um traje claro, com uma gravata borboleta, enquanto Aureliano leva um conjunto escuro, camisa branca, gravata de nó pequeno e lenço no bolso do paletó. Ambos de chapéu, os dois Fedora de aba reta, o de Aureliano de copa mais alta.
Não há dúvida de que o expatriado santiaguense que me legou a biografia de Aureliano era de uma família muito próxima dos Figueiredo Pinto. Não só foi par no baile de Laura Maria em seu baile de debutante, como seu pai Marçal participava das tertúlias na rua da Olaria e privava da intimidade de um chopp no chalé da Praça XV.
É possível que o filho do Marçal já não esteja mais entre nós e que seus herdeiros hajam passado sua biblioteca para o sebo que me vendeu o singelo livrinho com a biografia de Aureliano de Figueiredo Pinto escrita por Luiz Sérgio Metz. Talvez a família não tenha mais nenhum vínculo com Santiago ou com os Figueiredo Pinto.
Por mais curioso que tudo isso me haja deixado, neste momento não disponho de tempo nem de meios para tentar deixar as coisas mais claras. Gostaria de perguntar ao Airton Ortiz detalhes da criação da coleção “esses gaúchos”, de como se escolheu o Jacaré para escrever sobre o Aureliano, de como os editores viram a forma que ele escolheu para o texto, com dois capítulos dedicados a uma entrevista imaginária que pareceu não interessar muito ao filho de Marçal AB, pois neles não há sequer um pedaço de texto destacado.
Seus netos devem morar aqui em Brasília e talvez tenham algo a contar sobre a relação do avô e do pai com os Figueiredo Pinto. Se fosse até Santiago talvez descobrisse que foi o par de Laura Maria no baile de debutantes de 1953 cuja biografia de Aureliano percorreu esse longo caminho até chegar a mim.
Sei que essas coincidências não querem dizer nada. Essa busca por um sentido em todas as coisas é um dos traços que nos fazem mais humanos, mas são somente mistificações que nascem do espanto que nos causa a complexidade do mundo, apreendida pela máquina de pensar do nosso cérebro. Mas mesmo com sua extraordinária capacidade, há sempre algo que se nos escapa. E daí o espanto, e as religiões e a filosofia e a poesia.
E dele decorre a necessidade de querer explicar, de buscar alguma coisa oculta, de interpretar sinais onde nada há além do caos, de arranjos probabilísticos aleatórios que nada significam. Mas não cansamos de tentar ligar os pontos, de unir alguns fios soltos que pendem da colcha que nossa história tece, alheia às nossas agruras e preocupações.
Devolvo os livros à estante e configuro o ipod para o modo aleatório. Sempre que o misterioso algoritmo que o governa trouxer de volta Noel e Aureliano aos meus olvidos vou lembrar de tudo isso outra vez. E quando sentar no salão principal do Copa vou brindar à memória de Luiz Sérgio Jacaré Metz, que há vinte anos deixou aquelas mesas pra nunca mais voltar.
Eu sempre me aproximo com receio de obras escritas por acadêmicos. Nelas, às vezes tudo fica muito esquisito, com os rodapés crescendo quase tão altos quanto a parede. Por isso, foi uma surpresa abrir a obra do historiador Éder Silveira e ver-me logo envolvido por temas culturais fundamentais do Brasil, acompanhados de elegância, boa prosa e comentários consistentes. Antes de descerrar esta cortina de elogios, aviso que sim, há os malditos rodapés, mas o autor esforçou-se para integrá-los ao texto. Deste modo e erguendo o nariz para alguns deles, a leitura ioiô ficou reduzida.
Oswald ponta de lança e outros ensaios trata de temas culturais e políticos da primeira metade do século XX, com foco na Semana de Arte Moderna de 22 e suas margens. São textos cheios de informação — e algumas fofocas — sobre figuras como Monteiro Lobato, Anita Malfatti, Mário de Andrade, Di Cavalcanti e Oswald. Para mim, o verdadeiro interesse do livro está no fato de que o autor cuida mais da algaravia geral. Isto é, cuida menos de suas individualidades e mais de suas obras e dos diálogos entre eles e a política da época, vertidas principalmente em artigos publicados em jornais. No início do século passado, não havia tanto compadrio entre os autores brasileiros e muitas vezes uns criticavam aos outros. Também mudavam de opinião, o que é saudável. Ou seja, o ambiente intelectual não estava boiolizado como o que vemos hoje.
(Bem, antes que a patrulha da correção me alcance com seus dedos pegajosos, informo que boiola tem também o significado de indivíduo fraco ou medroso, tá? OK? Certo? Então tá, podem abraçar seus dicionários e dormir tranquilos).
E, além de não haver tanto compadrio, era uma época agitada, com o vanguardismo tentando abrir a golpes de facão as brumas parnasianas e naturalistas. O painel que os textos do livro toca é amplo — vai desde o higienização de Lobato até as lutas de Oswald contra o “desprezo pela inteligência” na direção do PCB, das tendências nacionalistas e conservadoras do modernismo brasileiro até o humor praticado pelo movimento, do encantamento e à frustração dos dois Andrades e, é claro, de muitos e muitos projetos irrealizados.
A pergunta de fundo não é nada fácil: o que é o Brasil, qual é sua identidade? É claro que a resposta não está no livro, mas a discussão é bonita.
Livro fundamental para quem se interessa por cultura no Brasil.
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O historiador Éder Silveira confirma com o indicador: é o único gremista que sabe escrever em Porto Alegre | Foto: Joana Berwanger / Sul21
Obs. final: o que me deixa encafifado é o fato de tão bom autor ser gremista, incidência que ele não declina em seu livro. Por anos, o mítico Impedimento andou procurando bons cronistas gremistas. Os resultados foram claros: eles não sabem escrever direito. Os raríssimos bons ou eram deprimidos ou não se mostravam suficientemente disciplinados para a tarefa. O único azul que escreve bem — além de dançar tango — em Porto Alegre é Sergio Faraco. Ele torce para o Cruzeiro, sim, o cruzeirinho de Erico Verissimo e Moacyr Scliar. O outro é Peninha.
Um teto todo seu (A Room of One`s Own, 1929) é um dos mais surpreendentes livros da célebre ficcionista inglesa Virginia Woolf. A primeira surpresa é o fato de não ser ficção; a segunda é a absoluta ousadia no trato do assunto abordado: o feminismo. Mas há mais.
O livro nasceu a partir de duas palestras chamadas “As mulheres e a ficção”, proferidas por Virginia para a plateia essencialmente feminina da Sociedade das Artes, na Londres de outubro de 1928. O texto de Virginia tem a qualidade estupenda de seus livros da época. Mrs. Dalloway (1925), Passeio ao Farol (1927) e Orlando (1928) foram seus predecessores; As Ondas (1931) deu continuidade à série de obras-primas. Encrustado na sequência principal de romances de Virginia, o ensaio Um teto todo seu não decepciona de modo algum. O livro tem cerca de 140 páginas. Não pensem que ela o leu por inteiro em duas noites – algo como 70 páginas por dia – , na verdade o texto foi bastante ampliado para publicação logo após as palestras.
Intermezzo: é notável a sorte de Virginia Woolf no Brasil. Seus tradutores foram extraordinários: Orlando foi traduzido por Cecília Meireles; Mrs. Dalloway, por Mario Quintana; As Ondas e Entre os Atos, por Lya Luft em fase pré-Veja e pré-Yeda; Passeio ao Farol, por Luiza Lobo e Um teto todo seu, recebeu tratamento impecável de Vera Ribeiro. Muita, muita sorte. Fim do intermezzo.
Dotado da mesma prosa alegre e saltitante de Mrs. Dalloway e Orlando, Um teto todo seu trata do feminismo de forma levíssima, mesmo que afirme as coisas mais terríveis sobre a vida da mulher. Alegre, feliz e livre de todo rancor, como na foto abaixo, à esquerda, Virginia Woolf cria algumas imagens fortíssimas que ficaram célebres. A primeira é a da irmã de Shakespeare, Judith. Tão talentosa quanto o irmão, ela teria vivido subjugada por tarefas domésticas e todos os seus esforços para demonstrar seu talento teriam sido esmagados pela família. Então, desesperada, ela foge, apresenta-se num teatro de onde é sem mais nem menos enxotada, para depois prostituir-se e suicidar-se. A outra é da escritora fictícia Mary Carmichael. Ela não é muito boa, sua frase é dura e seu romance, que Virginia finge ler, é mais ou menos chato. Só que lá pelo meio há uma frase: “Chloe gosta de Olivia”. E então, finalmente, naquele livro bem ruinzinho, apareceu a Grande Mudança, pois às vezes mulheres gostam de mulheres, não?
Seu raciocínio, até desembocar na tese do Teto e das 500 libras anuais, é brilhante. Virginia Woolf parte das precursoras da literatura inglesa até chegar na grande explosão do século XIX, com o aparecimento de Jane Austen, das irmãs Brontë, Emily e Charlotte, além da grande George Eliot que, em verdade, chamava-se Mary Ann Evans. Suas obras-primas não nascem de gênios isolados, mas após anos e anos de labuta conjunta. A experiência apresentada por estas escritoras dá forma perfeita ao que veio antes, à tradição. Então, escreve Woolf, Jane Austen deveria ter depositado uma coroa de flores no túmulo de Fanny Burney e George Eliot deveria ter rendido homenagem à resoluta Eliza Carter, a bravíssima escritora que amarrava uma sineta na armação da cama de forma a não dormir muito e poder estudar grego. E todas elas deveriam derramar flores sobre o túmulo de Aphra Behn, que está enterrada – surpresa! – na Abadia de Westminster, pois foi ela quem começou a assegurar a todas o direito de dizerem o que pensam. Trata-se de parafrasear o velho e bom Newton, físico presente em quase todas as opiniões literárias da tradição inglesa que costuma sempre dizer que “Se vemos mais longe, é por estarmos em pé sobre ombros de gigantes”.
Woolf faz questão de deixar claro que, casualmente ou não, as escritoras que foram melhor sucedidas são aquelas que guardaram para si seu justo rancor. Se Austen ressentia-se contra sua sociedade e família – e ressentia-se, basta lê-la com profundidade – , tratou de passar ao largo das longas tardes em que escrevia seus livros na sala sob as constantes interrupções das “coisas que são tarefas de mulher”. (Pois as mulheres do século XIX nasciam e morriam trabalhando para os homens). De George Eliot nunca se ouviu nada, pois ela se fingia de homem… Porém, em Jane Eyre, Charlotte Brontë teve seu pior momento ao escrever claramente um trecho rancoroso, o que não fez Emily, de coração de poeta e maior talento. Ah, as questões seculares! García Márquez e Saramago e todos os que podem aspirar à imortalidade preteriram-nas em suas grandes obras em favor das parábolas.
O livro, escrito nove anos após as mulheres obterem direito de voto na Inglaterra, é uma ampla análise da situação da mulher e de sua relação com o dinheiro. Virginia Woolf insiste em que as mulheres precisam de duas coisas para criarem uma nova literatura: um teto todo seu, ou seja, um quarto que pudesse ser trancado à chave para escrever, e uma renda de aproximadamente 500 libras anuais. Para tanto, a mulher deveria trabalhar (Virginia fazia parte da Liga do Trabalho Feminino) a fim de obter alguma independência.
Sim, as teses estão bem amarradas – por exemplo, Virginia demonstra que todos os bons poetas de sua época são abastados… – , mas o milagre do livro é o que subjaz às teses. É o tremendo talento da autora para fazer nascer seus argumentos e frases num texto vertiginoso, agradável e sem lugar para gritos ou deselegância. É um feminismo dócil? De modo nenhum. É um feminismo culto, fino, esclarecido, isso sim. E duríssimo e de resultados.
Era um grande muro branco – nu, nu, nu,
Posta no muro uma escada – alta, alta, alta,
No chão, um arenque defumado – seco, seco, seco.
Ele chega, trazendo nas mãos – porcas, porcas, porcas,
Um martelo pesado, um prego – bicudo, bicudo, bicudo,
Um novelo de fio – grosso, grosso, grosso.
Subindo então à escada – alta, alta, alta,
Espeta o prego bicudo – toque, toque, toque,
Ao alto do muro branco – nu, nu, nu.
Deixa fugir o martelo – que cai, que cai, que cai,
ao prego amarra a corda – longa, longa, longa,
E à ponta o arenque defumado – seco, seco, seco.
Volta a descer a escada – alta, alta, alta,
Leva-a, e ao martelo – pesado, pesado, pesado,
E lá se afasta para – longe, longe, longe.
Então o arenque defumado – seco, seco, seco,
Na ponta da corda – longa, longa, longa,
Balança devagarinho – sempre, sempre, sempre.
E eu inventei esta história – banal, banal, banal,
Para enfurecer as pessoas – graves, graves, graves,
E divertir as criancinhas – pequenas, pequenas, pequenas.
Li em algum lugar — perdi o site norte-americano — uma lista de livros que foram proibidos em um momento ou outro de suas histórias (principalmente nos EUA), e busquei lembrar os casos mais hipócritas, ignorantes e absurdos. Sorri quando revisei a listinha. É simplesinha, mas achei irônica. Então não deve ser tão ruim. Confiram aí!
Cena de Fahrenheit 451
1. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.
Foi proibido na Alabama porque um dos livros carbonizados na trama é a Bíblia…
2. Huckleberry Finn, de Mark Twain.
Quem não leu o livro e toma contato apenas com citações fora do contexto, pensa que a obra é racista e não anti-racista e anti-escravatura.
3. O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger.
Simplesmente porque Holden Caulfield diz muitas vezes “Fuck off”.
4. Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie.
Rushdie escreveu um romance que satirizava alguns dos mais tacanhos e antiquados aspectos do Islã. O aiatolá Khomeini baniu o livro e decretou uma fatwa, pedindo que “todos os bons muçulmanos” dessem uma forcinha e fossem matar Rushdie.
5. 1984, de George Orwell.
Durante o período da Guerra Fria, alguns governos do leste europeu mantinham olhos atentos sobre o que as pessoas estavam lendo. Eles não tinham tolerância para algo como a sociedade distópica de “1984”, onde o Grande Irmão também via tudo.
6. O Diário de Anne Frank.
É incrível, mas o livro, que ilustra a fé imortal de uma vítima do Holocausto na bondade humana, foi proibido pelo estado de Alabama em 1983 por retratar “uma verdadeira desgraça.” Seria um caso de excesso de verossimilhança?
7. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.
Mesmo motivo de 1984.
8. A série Harry Potter, de J.K. Rowling.
O livro que iniciou toda uma nova geração na mundo dos livros foi proibido pelo fato do personagem principal fazer mágicas. A proibição ocorreu na Coreia do Norte e em países árabes fundamentalistas.
9. Ulysses, de James Joyce.
Eu poderia escrever páginas e páginas sobre estas várias proibições ocorridas dos anos 20 aos 50, mas vou apenas dizer que ele foi banido na Inglaterra, na França e na maioria dos estados dos EUA por ser pornográfico, coisa que também é. E daí?
10. Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca
Não estava na lista original, mas coloco na minha lista Feliz Ano Novo, um dos muitos livros brasileiros que foram publicados, distribuídos, comercializados e, algum tempo depois, examinados pela censura brasileira (DCDP). O parecer era sempre o mesmo: “exteriorizava matéria contrária à moral e aos bons costumes”.
Quando chegar o último dia de 2016, a Cosac Naify não deverá ter mais nenhum livro em seus estoques. Os que sobrarem até lá serão transformados em aparas. A informação foi confirmada por Dione Oliveira, diretor financeiro da editora que teve seu fim anunciado em dezembro de 2015. “Me parte o coração mandar os livros para picotar, mas não posso deixar de atender às necessidades da empresa para a qual eu trabalho. Em alguns momentos, você acaba sendo impopular com algumas medidas”, disse Dione ao PublishNews. Desde o fim de janeiro deste ano, a Amazon passou a comercializar, com exclusividade, os livros da Cosac. Dione informou que os livros que já foram vendidos à varejista não serão recolhidos. “Seria fantástico se a Amazon tivesse comprado todo o nosso estoque, como dizem por aí, mas isso não foi verdade, infelizmente”, comentou o diretor. Dione não revelou quantos livros a editora ainda mantém em seu estoque.
Dione ponderou que os custos para manutenção do estoque e dos contratos com o operador logístico ficaram muito caros para a Cosac. “Infelizmente, temos obras que ainda têm um volume muito grande em nossos estoques, mas esses mesmos livros não têm giro. Não dá para ficar guardando esses livros que não têm giro. É muito caro”, alegou. Por outro lado, muitas das obras que fizeram parte do catálogo da editora já migraram para outras casas editoriais. “A Cosac tem negociado os seus títulos com outras casas editoriais. Alguns dos títulos que fizeram parte do nosso catálogo até já foram publicados por outras editoras. De certa forma, fica complicado eu jogar uma quantidade excessiva desses livros no mercado. Se eu inundo o mercado com uma grande oferta desses livros, os novos detentores dos direitos terão dificuldade em vender seus livros. Nós temos ponderado isso”, disse descartando a possibilidade de se fazer um grande saldão dos estoques da Cosac.
Doações
Autores ouvidos pelo PublishNews, mas que preferiram não ser identificados, questionam o destino que a editora quer dar aos livros. Por que não doá-los a bibliotecas ou mesmo a eles, os autores. Dione disse que não está nos planos da Cosac fazer nenhum tipo de doações. “Tem um problema que muitas pessoas desconhecem. Doações geram um transtorno contábil na empresa. Se faço uma doação de um livro, tenho que reconhecer o custo disso. Se eu faço a doação de um volume considerável de livros, eu gero um resultado financeiro negativo absurdo, fora da curva”, disse. Além disso, Dione apontou que falta tempo e pessoal para fazer essas doações. Ele disse ainda que os livros não poderão ser doados aos seus autores, mas que eles têm prioridade na aquisição dos volumes. “Os autores que entrarem em contato conosco para comprar os estoques – na sua totalidade ou parte deles – de seus livros terão dos descontos conforme está previsto em contrato. Podemos até fazer uma condição um pouco melhor. Mas, desde o anúncio do fim da Cosac, foram poucos os autores que nos procuraram com essa intenção”, concluiu Dione.
Ivan Búnin (Prêmio Nobel de Literatura de 1933) fez parte daquele grupo de nobres russos, ricos ou decaídos, que fugiu da Revolução de 1917. Era vizinho de Nabokov em seu exílio parisiense. A Rússia de sua novela O Amor de Mítia (1925) ainda era a dos nobres e grandes donos de terras tão bem descritos por Tchékhov. Não é para menos. Filho de uma antiga família de proprietários rurais, Búnin viu sua fortuna ser perdida pelo avô e depois pelo pai, um alcoolista viciado nos jogos de cartas. Teve que trabalhar cedo na cidade para ganhar a vida, mas a infância na Rússia pastoril czarista parece tê-lo marcado muito.
O tema de O Amor de Mítia não é a política, mas a inquietação e o Ciúme com C maiúsculo. Mítia tem muito a ver com o Otelo de Shakespeare. Ele ama e ama uma jovem saracoteante que se dedica a concertos, saraus e aulas de teatro. Mas o inferno do ciúme faz com que ele não viva nem aproveite nada. Tudo isto é descrito rapidamente até que ele deixa Moscou e parte para a casa da mãe no interior, cansado dos desentendimentos com Kátia. Como vários apaixonados, crê não ser correspondido.
O livro é basicamente a espera de Mítia. Ele quer receber cartas de sua amada, mas ela não manda. Estará ocupada? Não gosta mesmo de escrever? O que estará fazendo? Ela é fiel? Onde está Kátia? E ele passeia pelo campos, belamente descritos por Búnin em tradução do excelente Boris Schnaiderman. Em seus passeios, sempre acaba no Correio, à procura de cartas.
O contato com os camponeses leva-o a uma negociação direta para a compra de sexo. Búnin descreve toda a estratégia criada por um funcionário da fazenda. Mas ele não quer Alionka, quer Kátia, que persiste em seu silêncio.
É um bom e perfeitamente esquecível livrinho que dá para ler numa sentada ou deitada (118 páginas com capítulos bem curtos).
A guerra não tem rosto de mulher é mais um excelente produto do curioso, trabalhoso e eficiente método de Aleksiévitch fazer literatura. O livro é formado de pequenas introduções da autora e de trechos de entrevistas que são retrabalhadas, classificadas e ordenadas. O efeito é o de um torpedo, cheio de dor e humanidade. Os relatos são curtos, vindos todos de mulheres soviéticas que lutaram na 2ª Guerra Mundial. Suas funções são de francoatiradoras, enfermeiras, lavadeiras, médicas, pilotas, cozinheiras, artilheiras, comandantes, tanquistas, sapadoras, enfim, elas estiveram em todos os gêneros de trabalho de soldados em guerra. Matavam e eram mortas. E cada sobrevivente tem uma história diferente e pessoal para contar. A morte, é claro, é onipresente. Todos os relatos envolvem sofrimento, mas também há histórias de amor, de coqueteria e de pequenas alegrias.
Todos sabem que a história é escrita pelos vencedores, mas é pior do que isso, ela é escrita por homens e apenas sobre homens. As mulheres são apenas enfermeiras? Nada disso. E a escolha do feminino no livro de Aleksiêvitch é fundamental. O masculino ama as ações honrosas, a narrativa oficial, enquanto que as mulheres são mais afeitas às “anotações da alma” e aos sentimentos. Nada de estatísticas, de narração de batalhas, apenas detalhes do que é viver dentro de um conflito como aquele..
Isto é, depois de sete anos de entrevistas e de quilômetros de cassetes gravados, Svetlana Aleksiévitch não escreveu um livro somente sobre a guerra, mas principalmente sobre o comportamento do ser humano na guerra, perseguindo menos “os grandes feitos e o heroísmo, mas aquilo que é pequeno e humano”.
A originalidade de Aleksiévitch está em nos descortinar as mulheres não reconhecidas e que participaram ativamente de uma guerra crucial do século XX. Os relatos são crus e violentos, dando-nos uma realidade despida de heroísmo. O ambiente parece muito artificial para aquelas mulheres que usavam cuecas — por falta de calcinhas –, não menstruavam e trabalhavam dias sem dormir. O paradoxo entre ser mulher e soldado é um dos principais pontos dos relatos.
Não é um livro tão bom quanto Vozes de Tchernóbil — os fatos narrados em A guerra não nos causam as cada vez mais terríveis surpresas de cada capítulo daquele –, mas a autora bielorrussa nos dá uma notável contribuição para o entendimento do que foi o dia a dia do maior conflito armado de todos os tempos.
Às vezes, Erico Verissimo (1905-1975) aparece com um livro novo. Dia desses, vi o pequeno volume Do Diário de Sílvia, um lançamento relativamente recente dos fantasmas do escritor. Fiquei feliz, pois sabia tratar-se de um dos trechos que mais gostei da trilogia O Tempo e o Vento, mais exatamente do terceiro volume da terceira parte do raramente lido O Arquipélago. Explico: hoje, O Tempo e o Vento é vendido em sete volumes: dois de O Continente, dois de O Retrato e três de O Arquipélago. O diário de Sílvia está lá no final, no terceiro volume d`O Arquipélago. Em 1974, a grande professora de literatura e português Sara, a Sarinha do Colégio Júlio de Castilhos, fez com que lêssemos toda a trilogia. Eu tinha 16 para 17 anos e acabei me apaixonando perdidamente pela personagem Sílvia, com a qual fantasiava e convivia diariamente e que me aparecia com o rosto de Julie Christie jovem…
Para quem não leu o imenso romance, explico que há nele um jogo de ir e vir no tempo entre os anos de 1745 e 1945. A cada capítulo, Erico nos leva a um período diferente e vamos entendendo a estrutura e a história de família Terra Cambará. A Editora Globo foi a primeira a dar-se conta de que os capítulos que formam a história de Ana Terra poderiam ser juntados e arrancados de O Tempo e o Vento — mais exatamente do primeiro volume da trilogia, O Continente — para tornar-se uma novelinha. O mesmo foi feito depois com a narrativa dos feitos do Capitão Rodrigo Cambará, que transformou-se em Um Certo Capitão Rodrigo. Acho que isto foi feito ainda em vida de Erico e, presumivelmente, com sua autorização. Agora, a Cia. das Letras inteligentemente extrai outro trecho do livro e transforma-o num pequeno volume de menos de 100 páginas.
Não resisti e comprei o livro. Sou dos poucos que considera a terceira parte — O Arquipélago — a melhor das três. Esta avaliação não é nada literária, é baseada simplesmente no fato de que Sílvia está lá. Buscava-a em todas as mulheres. Não era uma fixação baseada em erotismo, era algo mais ligado à afinidade, a uma convivência agradável. Ontem, quando comecei a reler o Diário, ia atrás do que sobrara do Milton adolescente e tentava descobrir se ele não era um idiota completo. Surpreendi-me com três coisas: a primeira é de que ela ainda é fascinante para mim; a segunda foi o alto número de referências políticas que Sílvia faz em seu Diário, escrito entre os anos de 1941 e 1943; a terceira é o grau de franqueza (quase crueza) que ela utiliza para caracterizar o fracasso de seu casamento e o amor irrealizado pelo cunhado Floriano.
Descobri então que minha memória dourou a musa, deixou-a um pouco mais etérea, enquanto ela, aos 25 anos, agora pulsando frente a meus olhos de cinquenta e tantos, trata de tocar modernamente sua realidade na imaginária Santa Fé. Voltei a sonhar um pouco, lembrei bastante dos anos jovens de colegial e, ontem, para lembrar os velhos tempos, fantasiei beber uma champanhe com ela na calçada da Av. João Pessoa, tal como ela (Julie Christie) fez com Truffaut.
Há oito anos que se arrastava uma disputa legal que chegou a parecer estar resolvida em 2012 e que tem uma história descrita como… “kafkiana”. A Biblioteca Nacional de Israel vai mesmo receber o espólio de documentos do escritor.
A decisão final foi do Supremo Tribunal de Israel: depois de oito anos de disputa, confirmou-se que os manuscritos que Franz Kafka deixou ao seu amigo Max Brod e que foram herdados pela sua secretária vão mesmo ficar na Biblioteca Nacional de Israel. “Um dia de celebração para qualquer pessoa da cultura, em Israel e fora”, disse David Blumberg, o presidente da instituição que fica com a guarda de um espólio ainda praticamente desconhecido, prometendo mostrá-lo ao público de forma exaustiva.
Poucos viram até agora o conteúdo dos cofres onde as herdeiras de Esther Hoffe, a secretária a quem Brod legou o espólio, mantiveram os disputados documentos, e que incluem cadernos e cartas – podem também conter o manuscrito original de um romance incompleto, segundo referia um artigo da BBC datado de 2010. Inequivocamente está confirmada a existência, entre os papéis de correspondência trocada entre os dois amigos, dos diários de Kafka em Paris, de muitas obras de Brod, também ele escritor, e de desenhos e cartas de Kafka, informa a biblioteca em comunicado.
“É previsível que muitos outros tesouros estejam escondidos no material pessoal de Max Brod, que será exposto e catalogado pela Biblioteca Nacional”, lê-se no mesmo comunicado.
A sua importância, e o respectivo valor, estimado em milhões, justificam que há oito anos as herdeiras de Hoffe e o Estado de Israel estejam envoltos numa batalha legal – agora, o Supremo Tribunal tomou a decisão de última instância de ordenar que a família israelita transfira os documentos para a Biblioteca Nacional. O processo legal tem sido descrito por muitos como “kafkiano”.
A família Hoffe defendia que era a legítima proprietária dos documentos e em 2012 argumentara também que a Biblioteca Nacional não tinha meios para garantir a preservação do espólio. Mas “o Supremo Tribunal pediu à Biblioteca Nacional que faça o máximo para revelar o espólio Brod ao público” e esta “vai seguir a decisão do tribunal e preservar os bens culturais, mantendo-os no país e tornando-os acessíveis ao grande público”, garantiu David Blumberg, citado pela BBC.
Da fuga aos nazis à Terra Prometida
Remonte-se ao início do século XX. Kafka, nascido em Praga, morreu de tuberculose em 1924, com 41 anos. O seu amigo Brod, fiel depositário da sua obra inédita e de documentos vários, morreu em 1968 sem ter cumprido parte da promessa que tinha feito ao escritor – queimar todos os romances que deixara por publicar. “O meu último pedido: que tudo o que deixo, sob a forma de diários, manuscritos, cartas (as minhas e de outros), desenhos e afins, seja queimado sem ser lido”, escreveu Franz Kafka numa carta endereçada a Max Brod e deixada na secretária da sua casa na cidade checa.
Franz Kafka com Max Brod em 1907
Mas Max Brod publicou O Processo, O Castelo eAmerika, títulos hoje essenciais na obra do escritor e que foram editados postumamente, entre 1925 e 1927, com um ano de separação entre si. Brod, que considerou que queimá-los seria “um ato criminoso”, como cita o Jerusalem Post, salvou parte da obra inédita de Kafka de outra forma: em 1939, levou os seus manuscritos de Praga, fugindo aos nazis que acabavam de invadir a antiga Checoslováquia e emigrando para a Palestina. O trem em que saiu de Praga com a mala cheia do legado de Kafka passou cinco minutos antes de os soldados alemães fecharem a fronteira.
Antes de morrer, Max Brod confiou os papéis à sua secretária, Esther Hoffe – também descrita por algumas fontes como sua companheira de longa data. Ela guardou-os durante toda a vida num apartamento em Telavive e em cofres em diferentes bancos, não sem que na década de 1970, e de acordo com o Jerusalem Post, Israel tenha tentado ficar com a custódia do espólio para o expor – um tribunal deu-lhe o direito de o manter na sua posse, notando porém que devia doá-lo ao Estado após a sua morte.
Uma longa disputa legal
As duas filhas que Esther Hoffe teve com o marido Otto, Eva Hoffe e Ruth Wiesler, herdaram o espólio após a morte da antiga secretária, em 2007. No ano seguinte, encetaram um processo para serem legalmente reconhecidas como suas proprietárias, mas, em 2009, o Estado israelita processou-as, exigindo os documentos – o testamento de Brod indicava que Esther Hoffe deveria depois legar o seu espólio “à Universidade Hebraica, à Biblioteca Municipal de Telavive ou a qualquer outra instituição pública em Israel ou no estrangeiro”, lembrava a acusação.
Foi então que começou verdadeiramente a disputa legal. Em 2010, escreve a BBC, alguns dos cofres que continham o espólio foram abertos em Zurique (os documentos tinham sido armazenados em cofres na Suíça e em Israel), mas o seu conteúdo só ficou a ser conhecido por um juiz israelita. Um tribunal israelita entregaria o espólio à Biblioteca Nacional do país em 2012. Entretanto, um recurso prolongou o caso, com a herdeira Eva, a última sobrevivente das duas irmãs, a argumentar também que o espólio era a sua única fonte de rendimento – Esther Hoffe já tinha vendido o manuscrito de O Processo por dois milhões de dólares em 1988, num leilão que bateu recordes e em que ficara prometido que o seu novo dono, um livreiro alemão, o doaria a um museu para exposição pública.
À época a venda deixou a sobrinha de Kafka, Marianna Steiner, então com 75 anos, muito satisfeita pelo facto de a obra não “ficar fechada numa gaveta”, reportava o diário New York Times.
Ao longo dos anos, escreve a agência AFP, as irmãs Hoffe venderam alguns outros documentos do espólio a colecionadores. Eva Hoffe, que ao contrário da irmã nunca abandonou o apartamento dos pais e viveu com os documentos que lá se encontravam, recordava em 2010 o New York Times, tinha uma relação “quase biológica” com os manuscritos, segundo o seu advogado, Oded Hacohen. Do destino dado ao espólio, por estar em análise todo o testamento de Esther Hoffe, estaria também dependente a herança de perto de um milhão de dólares respeitante à compensação dada à família pelo Governo alemão por danos relacionados com o Holocausto. Os Hoffe fugiram de Praga já durante a ocupação nazi.
Só esta semana o caso se resolveu definitivamente. Os três juízes do Supremo israelita a escreveram segunda-feira no seu veredicto que “Max Brod não queria que os seus bens fossem vendidos ao melhor preço, mas sim que encontrassem um lugar apropriado num santuário literário e cultural”.
Há algumas semanas, numa conversa, toquei naquele malfadado Argentina 6 x 0 Peru da Copa de 1978. Depois daquilo, seguiu-se uma pequena discussão e acabei pedindo para um amigo trazer de Buenos Aires o livro Fuimos Campeones, do jornalista Ricardo Gotta. Olha, tomei um susto. A reportagem tem 300 páginas de uma pesquisa imensa e muito séria. Quando a gente dá uma olhada no volume, ele mais parece uma tese de doutorado, tamanhas são as referências comprobatórias de tudo o que diz e, bem, houve suborno sim. Nem todos foram pagos, apenas alguns como o zagueiro Manzo e o presidente milico do Peru, dentre outros.
Começo por um resumo de um dos capítulos finais do livro. Depois de um trecho especialmente cruel para com a Argentina, Gotta resolve, sob um formato bem cronístico e platino, botar merda no ventilador. Achei divertidíssimo. O resumo é meu, as informações, de Gotta.
Na Copa da Itália de 1934, o árbitro belga Louis Baert no primeiro jogo e o suíço Rene Merced na revanche, roubaram descaradamente a Espanha em favor da Itália. Não temos filmes para comprovar, mas foi em 1934 que a coisa começou “em nível de Copa”… Na Copa de 2006, o espanhol Luis Medina Cantalejo deu um pênalti que nunca foi visto. Aconteceu aos 94 minutos de Itália x Austrália e salvou os primeiros, que acabaram campeões. Cantalejo foi sumido… Houve um Brasil x Bélgica nas oitavas-de-final de 2002 e mais tantos “erros” em Copas a favor do Brasil quem nem é bom começar.
Mas esqueçamos os juízes. Se em 1978, a FIFA marcou jogos de equipes envolvidas na mesma decisão da mesma vaga em horários diferentes, ela repetiu o disparate da Copa de 1982. O resultado foi Alemanha 1 x 0 Áustria. No dia anterior, a Argélia suara sangue para vencer o Chile por 3 x 2 sem imaginar que o resultado de Alemanha 1 x 0 Áustria classificaria ambos, deixando-a fora. Os argelinos viram Hrubesch marcar o gol aos 10 do primeiro tempo e depois assistiram 80 minutos de um jogo em que nenhum dos times chegaram à área alheia. No minutos finais, os técnicos Jupp Derwall e Georg Schmidt sorriam UM PARA O OUTRO. Os argelinos, indignados, foram à FIFA pedir a eliminação de ambas as seleções. Que piada! O “jogo” é conhecido como o Pacto Del Molinón e diversos jogadores, como o alemão Briegel, confirmaram o acerto.
É famoso na Europa o caso do goleiro camaronês Thomas N`Kono que resvalou da forma mais impossível, permitindo ao italiano Graziani marcar o gol que fez com que a Itália – novamente campeã daquela Copa – passasse da primeira fase… Tudo foi pago por um enorme carregamento de material esportivo que seguiu para o país africano. Quem ficou fora? Ora, o Peru de Oblitas, Cubillas e Quiroga…
Em 2001, na fase classificatória para o Mundial da França, o Uruguai precisava de um empate para chegar à repescagem. Bem no começo do jogo, Darío Silva fez 1 x 0 para o Uruguai e Claudio López empatou minutos depois. E então ninguém mais chutou a gol. Gotta diz que houve um acordo em pleno campo entre um jogador da Argentina e um amigo seu, uruguaio. Tudo em casa.
Há vários River Plate x Argentinos Juniors suspeitos. O maior ocorreu em 1997 na última rodada da Apertura. O River precisava de um empate para ganhar o campeonato. A torcida do Boca viu o Argentinos passear em campo, sem dar combate. Resultado: 1 x 1. Isto foi uma vingança, pois, em 1991, o Boca tirou o River da Libertadores, empatando com o Oriente Petrolero da Bolívia na Bombonera. Se ganhasse, classificaria o River. A hinchada gritava no lendário estádio: “Hay que empatar / hay que empatar / porque si no van a cobrar”. Paradoxalmente, o então presidente do Boca declarou: “Foi o fato desportivo mais triste de minha vida”. Isso anos depois, claro.
1974. Final da primeira fase da Copa da Alemanha. A Argentina precisava imperiosamente vencer de goleada o Haiti, mas a Polônia, já classificada em primeiro lugar, tinha que ganhar da Itália. Para que, se já era a campeã do grupo? Um empresário argentino com negócios na Polônia foi escalado para abordar alguém da delegação polonesa. O escolhido foi Gadocha, outro bom negociante. O argentino perguntou a Gadocha se “Polonia iba salir a ganar”. Ouviu o a seguinte resposta: “Isso dependerá dos argentinos”. Como a AFA não tinha cash, cada jogador argentino deu US$ 1000,00, uma fortuna para jogadores que atuavam atrás do Muro. Sim, fizeram uma vaquinha. Os polacos foram com tudo e ganharam da Itália, enquanto a Argentina fazia 4 x 1 no Haiti. Tudo certo. No dia seguinte, Gadocha avisou a seus companheiros que a grana viria no dia em que a Copa finalizasse para eles, antes da viagem de volta, para não dar na vista. Após vencer o Brasil por 1 x 0 e de conquistar o terceiro lugar, Gadocha simplesmente desapareceu. Com o dinheiro.
Em 1984, a Argentina mostrou como se domina um adversário, no caso o Paquistão. Era a Copa Merdeka, em Kuala Lumpur. A tarefa era complicada. Todos sabiam que o placar seria uns 18 x 0, talvez 32 x 0, mas um apostador de Hong Kong desejava que fosse Argentina 2 x 1 Paquistão. Toda a delegação argentina recebeu US$ 500,00 por cabeça para fazer o serviço. Deu 2 x 1, para pasmo e indignação da nação argentina. Todos os membros da delegação receberam penas que variaram entre um e três anos.
Então, a conversa com Manzo em 1998, vinte anos após o suborno de 1978, ele bêbado e chorando, num bar da pequena San Luis de Cañete, sua cidade natal, não deve surpreender tanto assim:
– Acá mismo, em mi pueblo, cuando se habla de fútbol, me dicen “eres tu que te vendiste”.
Ele confessou. Deu muito na vista. Imaginem que foi contratado no segundo semestre de 1978 pelo Vélez como forma de pagamento!
– La mucha plata que gané em el fútbol la perdi por mujeriego…
Não parece. Tanto que, depois de ter confessado o suborno, exilou-se na Itália, onde vive aparentemente muito bem.
Mais diversão? Vejam abaixo duas participações do zagueiro direito Rodulfo Manzo nos dois primeiros gols da Argentina. No primeiro, ele é o último jogador que Kempes dribla, antes de desviar de Quiroga (o qual não participou do esquema de suborno) e, no segundo, é ele quem salta na frente de Tarantini, que marca de cabeça, com os dois pés no chão, meio agachado…
Então, aos 5 segundos deste filme, Manzo é “driblado” por Kempes. É aquele que fica caído.
Dentre as figuras exponenciais da cultura do século 20, nenhuma outra teve a sua vida ligada, tão tragicamente, a fatos extremos da polaridade política Direita x Esquerda quanto Federico García Lorca, o grande poeta espanhol assassinado no dia 19 de agosto de 1936, num recanto à margem da estrada Víznar-Alfaca, na sua província natal.
Lorca era andaluz, e foi fuzilado dois dias depois de ser preso por uma milícia fascista, na sua cidade, a Granada da Alhambra encarapitada nos morros que a cercam assim como, até hoje, a memória de Federico segue preenchendo a história granadina e contribuindo para fazer de Andaluzia um dos destinos turísticos mais carismáticos da Europa.
De certo modo, Granada se tornou duas legendas: Alhambra & Lorca – uma no seu esplendor arquitetônico e outro nos seus cantares “gitanos” e, por fim, no pranto de condenado à morte quase podendo ser ouvido pelos amigos e pela família detentora de boas propriedades de gente abastada, na cidade e no campo.
Quando alguém as visita, é possível deduzir, de imediato, que um fuzilamento assim, uma agressão fatal contra o membro mais destacado – intelectualmente – daquela linhagem andaluza, teve algo de “afoito” demais, de muito brutal e despropositado, por assim dizer, mesmo para o bando de fascistas aos quais tudo foi atribuído como intenção de prender, decisão de “julgar” (mais que sumariamente) e ordem, por fim, de executar sem mais delongas.
Quem foi o responsável? E por quê?
Essa pergunta esteve posta desde que começou a circular largamente a notícia da morte do homem que, segundo relatos da época, chorou na madrugada, diante do inacreditável fato de que iriam realmente fuzilá-lo de face para aquela manhã clara da Andaluzia que ele, filho da região, havia cantado em versos imortais.
Haveria motivos para matar um poeta já muito conhecido, um jovem com um vasto círculo de amizades na Espanha e também no exterior? Sabemos que fascistas são temerários (a palavra é essa), mas sempre houve algo de estranho nesse crime, além de obscuridades diversas, telefonemas vários, discussões, ordens e contraordens… e até uma arma apontada para o subgovernador militar de Granada – por um fascista da Falange! – em defesa veemente do preso.
É preciso, na verdade, recontar um pouco dessa tragédia, desde antes da manhã fatídica e, para isso, devemos ver Federico, ainda em Madri, sendo desaconselhado no intuito de seguir “para casa”, justamente para fugir dos perigos políticos da capital, naquele primeiro ano da Guerra Civil. Os amigos tentaram fazê-lo desistir da viagem e permanecer entre eles. Alegavam que, na pequena Granada, ele estaria muito “mais exposto” do que na grande cidade, porém o poeta retrucou que lá, na sua Andaluzia, todos o conheciam e sabiam das suas origens etc. Ninguém conseguiu demovê-lo da ideia de proteção (ligada à família tradicional) e, assim, o poeta viajaria para Granada – e para a morte.
GRANADA PRESTES A EXPLODIR
Os amigos de Lorca tinham razão. O poeta iria encontrar na Granada antigamente “mágica”, os eflúvios de ódios desatados à direita e à esquerda, no estreito ambiente limitado por muros seculares. Sim, ele era conhecido, para bem e para mal, como poeta e jovem boêmio de vida mais ou menos dissipada (e gostariam de dizer, claramente, a palavra derrisória para homossexuais: “maricóns”)…
A cidade estava inevitavelmente alterada por medos, rumores e rancores velhos de antes da guerra. Circulavam boatos em torno de prisões já decretadas, e o seu nome teria sido mencionado. Assim, de acordo com recomendações familiares, Federico se transferiu da sua casa para, algumas ruas depois, uma mansão de amigos dos Lorca-García: os Rosales igualmente bem relacionados, porém com integrantes da Falange ((a sinistra agremiação política identificada com o “nacionalismo” de Franco) dentro de casa, do mesmo modo como também um poeta ainda adolescente, Luis Rosales, mais tarde autor da obra-prima La Casa Encendida. Parecia seguro e conveniente para a proteção do rapaz das noitadas madrilenas.
Neste momento no qual acompanhamos FGL seguindo para abrigar-se no meio dos Rosales, é preciso notar uma primeira discrepância, talvez, com relação ao futuro matiz da lenda que, dias depois, começará a ser fixada pela última manhã do poeta máximo da moderna literatura espanhola (em termos de repercussão internacional). Nela, nessa aurora nascida para a morte – inesperada –, começaria a se compor o retrato sacrificial, isto é, a efígie coberta de sangue de uma vítima republicana a mais ilustre possível: o bardo dos “amores bruxos”, o cantor do romanceiro das estradas de saltimbancos, o vate andaluz, o “herói” em queda pelo lado esquerdo do peito varado pelas balas da Guarda Civil e outras hostes fascistas que levaram o ditador Franco a esmagar a Espanha por quatro décadas de autoritarismo, repressão violenta e controle absoluto de um povo tão difícil de domar quanto um miúra bravo nas “plazas” de areia e sangue.
Sangue, sim, se derrama por toda a ardente península ibérica, mas, ali na Espanha, ele se concentra como coágulos nos Cristos deitados nas catedrais escuras, no espetáculo dos touros (e dos toureiros) e nos ferimentos graves de um conflito interno que, em agosto de 1936, iria envolver o gênio de Andaluzia até arrastá-lo para morrer como um animal de abate, naquele morticínio maldito para todos.
Esse “para todos” introduz a maior parte das dúvidas que vêm se alargando, há anos, sobre quem realmente matou Lorca, ou seja, sobre quais nomes e quais motivos se ocultaram, talvez, num assassinato que ganhou a aura, imediata, de barbaridade máxima nessa confusa quadra da história do pais de Cervantes. E, desde já, parece que temos de abandonar uma querida certeza acalentada por décadas: a do Lorca sacrificado em nome da ideologia – pois há que encarar a face, menos exposta, de um poeta lírico que não foi nenhum Quixote, não pretendia ser um paladino das esquerdas e, pelo contrário, estava em fuga das bandeiras e das fumaças da frente de combate. Federico era praticamente apolítico – segundo a unânime opinião dos que o conheceram – e até teria nutrido, num certo momento, uma velada simpatia por “governos fortes”, por autoridades que pudessem por “ordem” naquela casa, mais do que caótica, da Espanha da primeira metade do século passado.
Isso foi confirmado por Luis Rosales, a respeito de um artista no auge do sucesso, como poeta e dramaturgo, quando a guerra estalou, fraticida. Naquela altura, mais do que nunca um Lorca vivaz, um ser risonho e animado e tudo o mais, mantinha outros interesses muito para além da política que nenhum dos seus colegas da famosa “Residência dos Estudantes” e amigos das letras, do teatro e da boêmia de Madri enxergaram, jamais, no horizonte do rapaz bem nascido, bonito e dândi de todas as fotografias do mito que veio a se tornar Federico, o Assassinado.
Esse é o primeiro degrau que se tem que firmar, a fim de galgar os patamares mais obscuros da tragédia. Ela surpreende o povo de Granada, antes de mais ninguém, e a verdade – ou o que parece ser a “verdade-verdadeira”, tantos anos depois – vem se insinuando no território mais íntimo da família que possuía riquezas e membros ressentidos, parentes insultados e queixosos de negócios em sociedade com o pai de Lorca, o “patriarca” Federico García Rodrigues.
QUEM MATOU FEDERICO GARCÍA LORCA?
Todos que leram a obra do irlandês Ian Gibson (que serviu mais ou menos de “cânone” para estabelecer a versão do assassinato eminentemente político) certamente lembram do nome do pai do poeta como apenas uma referência ao marido de Vicenta Lorca, no registro da filiação do poeta caído “sob os disparos pelas costas, feitos pelos fuzis do ódio fascista” etc.
Nada a contestar sobre a periculosidade dos “ódios fascistas” (é claro), porém as pesquisas mais fundas foram, recentemente, bem mais eficientes no levantar das discórdias e invejas no seio dos quatro ramos familiares, no caso de Lorca: os Roldán, os Benavides, os Alba e os Garcia da linhagem paterna do poeta assassinado.
Longe da idealidade firmada – com as melhores intenções – por Gibson, de imediato ouçamos o historiador andaluz Miguel Caballero, dentre outros que foram revolver os quintais domésticos, na retaguarda da morte: “Afirmar que mataram Lorca por ser homossexual e ‘vermelho’ é uma simplificação que já não se admite. As verdadeiras razões de seu assassinato devem ser buscadas na sua própria família”.
Outro pesquisador incansável, Manuel Ayllón, arquiteto e autor de “Granada, 1936 (Editorial Stella Maris), também é taxativo sobre isso: “Lorca não era um problema político, não ‘militava’ no sentido estrito, podia ser extravagante, incômodo e e afrontador nos seus hábitos joviais, mas nunca foi um perigo para absolutamente ninguém; politicamente, não era visado pelos fascistas, uma vez que era inofensivo. Na verdade, contra ele não houve sequer uma ordem de detenção assinada. Ele foi simplesmente levado da casa dos Rosales, que lutaram para libertá-lo no minuto seguinte e não descansaram nos dois dias subsequentes. O poeta Luis Rosales, irmão de dois falangistas, foi visitá-lo na prisão tão perto de Granada. Ninguém imaginava que ele corresse qualquer risco de vida, ali adentro. Seguiam tentando tirá-lo de lá, quando veio a incrível notícia da sua morte por um pelotão que incluía membros do quarteto de famílias proprietárias da Vega de Granada que, então, estava dando bons lucros a Federico García Rodrigues”…
Casa dos Rosales, em Granada, na qual Garcia Lorca foi preso pela milícia franquista (improvisada, sem ordem de detenção nem nada)
Não é, de modo algum, uma “teoria conspiratória” surgida oitenta anos depois. Nem envolve somente as pesquisas de Caballero e Ayllón, mas começou a abalar mesmo as antigas certezas do Gibson, que está, no momento, empenhado em rever sua descrição de um crime de “natureza política”, desde o “sequestro” no dia 17 até a execução apenas dois dias depois, sem julgamento e causando até mesmo alguma desagradável surpresa nos círculos mais próximos do quartel-general de Francisco Franco. Claro: um fuzilamento tão brutal não seria, jamais, a melhor propaganda para os fascistas empenhados em tomar o poder na Espanha culta também. Aliás, consta que as primeiras notícias sobre a morte de Lorca foram veiculadas por eles, os nacionalistas pretendendo que o poeta houvesse sido vítima da “loucura republicana” (ironia das ironias) e, quando a Guarda Civil emergiu como a assassina de FGL, fez-se um silêncio sepulcral sobre o assunto, por parte dos amigos do futuro ditador.
“BERNADA ALBA” NA – SINISTRA – BERLINDA DE 1936
Miguel Caballero é quem traz uma surpreendente pista: “A chave para abrir o cofre de estranhezas em torno do fuzilamento sumário de Lorca esteve desde sempre ali, representada, escrita de punho e letra pelo poeta: trata-se de um presságio fatídico que, agora, oitenta anos depois do crime, assume outra dimensão. A Casa de Bernarda Alba foi uma vingança literária – enfatiza o historiador granadino. Ele vê a famosa peça – que correu o mundo – como um dos fios de meada da tragédia, os quais vêm sendo desenrolados por mais de uma dezena de pesquisadores que investigam a história da família desde meados do século 19. Naquela altura, a Vega de Granada estava em poder de uma aristocracia residente em Madri, e vai cair em ruína financeira no alvorecer do século seguinte. As terras foram, então, adquiridas por um grupo da burguesia ascendente em Andaluzia, no qual figuravam o pai de Lorca e seus parentes, os Roldán e os Alba.
Caballero descreve: “Eles vão comprando as terras de modo coletivo, através de sociedades. Estes campos adquirem muito valor para o plantio açucareiro, e Granada se converte numa das províncias mais ricas da Espanha, com 21 engenhos. O pai de Lorca participa como acionista de vários. E a disputa começa com a divisão dos lucros e mais uma tentativa de dividir as terras porque nem todos têm a mesma sombra nem a mesma água, sendo daí que procedem os primeiros desentendimentos entre os Roldán, os Lorca e os Alba. Uma mesma família, na verdade, porque eram endogâmicos: casavam-se entre si, a fim de manter as terras antes de mais nada”.
Ora, para a tragédia rural A Casa de Bernada ALBA, Federico Garcia Lorca foi se inspirar em personagens reais, entre as quais avulta Francisca Alba Sierra, uma mulher forte e que se comporta da forma tirânica mostrada nos palcos, para desagrado dos Alba de carne e osso, pouco afeitos às licenças poéticas. Para eles, a peça cheirava mal e tinha insinuações insultuosas.
A “HUERTA” ASSALTADA ANTES DO ATO FINAL
Antonio Benavides, um dos assassinos de García Lorca
Os Lorca possuíam uma residência de verão granadina – a Huerta de San Vicente – que foi assaltada, em 9 de agosto de 1936, por alguns primos de Federico, do ramo dos Roldán, que eram conspiradores contra a República. Além dos Roldán, o historiador Miguel Caballero lembra que outros familiares estiveram implicados nos atos de detenção e execução de Lorca, nomeadamente Antonio Benavides, que era sobrinho-neto da primeira mulher do pai do poeta, e que será o homem acusado de disparar, pelas costas, contra a cabeça do artista voltado para a beleza das últimas árvores avistadas entre Alfacar e Víznar, na manhã desatada de ódios não só políticos de mistura com preconceitos etc.
Além desse pano de fundo (nada teatral), existiu ainda uma ameaça vinda diretamente da poesia de Federico Lorca para a sua vida prestes a findar no dia 19: consta que ele foi levado para a morte por um pelotão comandado pelo oficial da Guarda Civil (Nicolás Velasco Simarro) que havia se sentido pessoalmente ofendido pelos versos de Romance de la Guardia Civil española, em virtudes de referências à dura repressão da Guarda contra uma greve em Málaga. Mais: o ressentimento pessoal de Simarro também pode haver sido bem “reforçado” pelo fato de ter trabalhado para um Roldán (Alejandro Benavides) no caso de uma fuga de camponeses da Vega sempre objeto de disputas mesquinhas com o pai de Lorca…
Um rede de ódios e intrigas familiares começa a assumir a frente do assunto “morte do poeta”. Seu cadáver jaz em algum lugar da estrada, na vala comum na qual teria sido abandonado e encoberto de areia e pedras andaluzas? Talvez não. A própria família é, ainda hoje, totalmente contrária (?) às buscas. Isso é muito estranho. Todos os Lorcas velhos parecem saber que Federico não se encontra mais naquela vala comum há muito tempo, e que parece ter sido de imediato exumado (ainda naquele agosto aziago, há oitenta anos), porque não foi um crime propriamente político, não foi a execução de um “maricón rojo” – mas a perda de um ente querido, de um grande poeta e de um mito jogado entre porcos vorazes dignos do romance Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Mais uma vez, a vida imita a arte, no caso.
Huerta de San Vicente — casa de verão dos Lorca (atualmente, Casa-Museo)
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Existe no Youtube uma coisa curiosa:
O poeta Luis Rosales — que visitou Federico na prisão durante os dias em que ele lá esteve — estava dando uma entrevista sobre o assunto “morte de Lorca”, filmada por Ian Gibson, e, num certo momento, ele pensou que a câmera estava desligada. Então, fala, em off, sobre Lorca lhe ter manifestado simpatias por um “governo forte” que pusesse ordem na Espanha caótica de então, e — mais incrível ainda — diz, em alto e bom som, que “TERIA SIDO MUITO FÁCIL SOLTAR, LIBERTAR LORCA, caso imaginassem — o pai, a mãe, os amigos — que ele corria qualquer perigo de vida” (SC)!
Rosales — o grande poeta Luis, mais tarde — era, vc sabe, o irmão mais novo dos dois falangistas bem situados na hierarquia fascista de Granada, que realmente lutaram (de fato) pela imediata libertação do poeta, um deles tendo chegado a apontar a arma para o governador militar franquista, “exigindo” que Lorca fosse solto.