As estatísticas foram roubadas do blog amigo (e gremista) Carta na Manga.
Apesar de toda a superioridade — a histórica e, principalmente, a recente –, fiquei assustado ontem à noite. Os dois times que estão à nossa frente, isto é, o Cruzeiro e o Fluminense, empataram com times fracos e, se ganharmos hoje, ficaremos na segunda posição do Brasileiro, a apenas dois pontos do líder. Pois é isso mesmo que não sabemos fazer, não sabemos aproveitar as oportunidades que os outros nos dão.
Só de saber dos resultados, eu e metade dos colorados ato contínuo pensaram:
— Ah, não! Vamos perder…
Porque nós, colorados, somos corneteiros profissionais e pessimistas. Não somos ufanistas como os do lado de lá…
Abaixo, uma completíssima estatística do histórico do confronto. E boa sorte para nós!
HISTÓRICO GERAL
401 jogos
125 vitórias do Grêmio
151 vitórias do Internacional
125 empates
529 gols do Grêmio
572 gols do Internacional
JOGOS OFICIAIS
321 jogos
102 vitórias do Grêmio
117 vitórias do Internacional
102 empates
412 gols do Grêmio
422 gols do Internacional
AMISTOSOS E TORNEIOS NÃO OFICIAIS
80 jogos
23 vitórias do Grêmio
34 vitórias do Internacional
23 empates
117 gols do Grêmio
150 gols do Internacional
POR COMPETIÇÃO Seletiva da Libertadores: 2 jogos; 2 empates; 2 gols do Grêmio; 2 gols do Inter Copa Sul-Americana: 4 jogos; 1 vitória do Grêmio; 1 vitória do Inter; 2 empates; 5 gols do Grêmio; 6 gols do Inter Campeonato Brasileiro: 48 jogos; 19 vitórias do Grêmio; 16 vitórias do Inter; 13 empates; 46 gols do Grêmio; 46 gols do Inter Copa do Brasil: 2 jogos; 2 empates; 2 gols do Grêmio; 2 gols do Inter Robertão: 6 jogos; 4 vitórias do Inter; 2 empates; 1 gol do Grêmio; 4 gols do Inter Copa Sul/Sul-Minas: 3 jogos; 1 vitória do Inter; 2 empates; 2 gols do Grêmio; 4 gols do Inter Gauchão: 155 jogos; 45 vitórias do Grêmio; 53 vitórias do Inter; 57 empates; 163 gols do Grêmio; 160 gols do Inter Citadino: 105 jogos; 37 vitórias do Grêmio; 44 vitórias do Inter; 20 empates; 191 gols do Grêmio; 198 gols do Inter
POR ESTÁDIO Olímpico: 123 jogos; 41 vitórias do Grêmio; 34 vitórias do Inter; 48 empates; 152 gols do Grêmio; 132 gols do Inter Beira-Rio: 109 jogos; 27 vitórias do Grêmio; 42 vitórias do Inter; 40 empates; 91 gols do Grêmio; 108 gols do Inter Eucaliptos: 54 jogos; 22 vitórias do Grêmio; 24 vitórias do Inter; 8 empates; 84 gols do Grêmio; 98 gols do Inter Baixada: 47 jogos; 23 vitórias do Grêmio; 15 vitórias do Inter; 9 empates; 100 gols do Grêmio; 92 gols do Inter Chácara dos Eucaliptos: 12 jogos; 6 vitórias do Grêmio; 6 vitórias do Inter; 24 gols do Grêmio; 27 gols do Inter Arena do Grêmio: 3 jogos; 1 vitória do Inter; 2 empates; 3 gols do Grêmio; 4 gols do Inter
POR DÉCADA 1909: 1 jogo; 1 vitória do Grêmio; 10 gols do Grêmio 1910-19: 12 jogos; 7 vitórias do Grêmio; 5 vitórias do Inter; 36 gols do Grêmio; 25 gols do Inter 1920-29: 18 jogos; 11 vitórias do Grêmio; 4 vitórias do Inter; 3 empates; 45 gols do Grêmio; 34 gols do Inter 1930-39: 30 jogos; 14 vitórias do Grêmio; 10 vitórias do Inter; 6 empates; 60 gols do Grêmio; 59 gols do Inter 1940-49: 49 jogos; 7 vitórias do Grêmio; 32 vitórias do Inter; 10 empates; 73 gols do Grêmio; 138 gols do Inter 1950-59: 40 jogos; 11 vitórias do Grêmio; 16 vitórias do Inter; 13 empates; 47 gols do Grêmio; 69 gols do Inter 1960-69: 42 jogos; 16 vitórias do Grêmio; 13 vitórias do Inter; 13 empates; 52 gols do Grêmio; 34 gols do Inter 1970-79: 59 jogos; 12 vitórias do Grêmio; 24 vitórias do Inter; 23 empates; 52 gols do Grêmio; 56 gols do Inter 1980-89: 50 jogos; 16 vitórias do Grêmio; 13 vitórias do Inter; 21 empates; 54 gols do Grêmio; 51 gols do Inter 1990-99: 43 jogos; 14 vitórias do Grêmio; 12 vitórias do Inter; 7 empates; 39 gols do Grêmio; 37 gols do Inter 2000-09: 34 jogos; 10 vitórias do Grêmio; 13 vitórias do Inter; 11 empates; 33 gols do Grêmio; 39 gols do Inter 2010-14: 23 jogos; 6 vitórias do Grêmio; 9 vitórias do Inter; 8 empates; 28 gols do Grêmio; 32 gols do Inter
Hoje, 9 de agosto de 2014, faz 45 anos do assassinato de Sharon Tate.
Em 1969, eu tinha de onze para doze anos, havia alguns nomes de pessoas que eram tratadas com notável cuidado e que faziam muita gente abrir a boca de susto ou admiração. A primeira delas era indiscutivelmente Che Guevara. Devido ao “Tchê” eu pensava que se tratava de um gaúcho. Por influência de alguém — quem seria? –, nós gritávamos seu nome quando fazíamos gols, mas essa é outra história. Com maior liberdade circulava o nome de João Saldanha, o técnico comunista da seleção brasileira. Mas era inadequado admirá-lo demais. Porém, se eu quisesse que as mulheres pusessem as mãos na boca, dizendo “que barbaridade”, bastaria citar o nome de Sharon Tate.
Claro que eu demorei muito para saber que Sharon era uma bela mulher, na época esposa do diretor Roman Polanski, e que fora assassinada em agosto de 69 grávida de oito meses, num ritual ordenado por Charles Manson. Manson estava simplesmente iniciando uma guerra — denominada de Helter Skelter, como a música dos Beatles. Seria uma guerra entre negros e brancos, onde os brancos seriam exterminados. Ele acreditava que algum negro logo seria acusado dos assassinatos e os confrontos explodiriam com derrota final da raça branca. Ele e sua “família” (ele assim chamava seu grupo de lunáticos) eram brancos e planejavam esconder-se dentro de um poço no deserto para fugir da guerra. Era apenas mais um norte-americano doido varrido.
Ao procurar fotos de Sharon Tate, acabei vendo algumas imagens de seu assassinato. Não terei o mau gosto de mostrá-las aqui, mas posso compreender as caras assustadas de minha mãe e tias. Charles queria que os assassinatos fossem realizados com a maior crueldade e gratuidade possíveis — por isto, a escolha de Tate grávida, com parto previsto para dali a duas semanas –, com suas vítimas sendo espancadas, esfaqueadas e baleadas até a morte. Manson matou seis pessoas e, depois de preso, reafirmou seu ódio profundo pela humanidade.
Polanski salvou-se por estar trabalhando em Londres, mas três amigos de Sharon foram assassinados junto com ela. Ela era linda, com uma cara típica dos anos 60, de que foi símbolo.
.oOo.
A curta vida de Sharon Tate foi cheia de som, filmes, fotos e fúria.
Bem anos 60, aí está uma das fotos do rumoroso casamento da atriz…
…com o cineasta polonês Roman Polanski. Tudo começou em A Dança dos…
… Vampiros (1967), comédia de humor negro (mesmo!) do futuro maridinho.
Sharon nasceu em 1943 e, seis meses depois, vencia um concurso de beleza.
É, seus pais deviam ser uns chatos. Depois Sharon tornou-se isso aí.
Era linda, famosa e sua imagem tomava conta das revistas da época.
Sua atuação em O Vale das Bonecas ameaçava torná-la uma grande estrela…
…quando foi assassinada cruelmente pelo psicopata hippie Charles Manson,…
… preso até hoje na Califórnia. Para piorar, Sharon estava grávida de oito meses.
Como confirmou o psicanalista e blogueiro Cláudio Costa, o caso Sharon Tate…
… provocava associações de erotismo, nojo e medo em nossas tias.
Um assassinato desses era uma novidade. Nunca se divulgara algo deste gênero…
… em uma mídia recém planetária. Foi uma comoção, um ato repulsivo, inaceitável.
Para falar de Manson e mesmo de Sharon, baixávamos o tom de voz.
Era vergonhoso. As pessoas todas começavam a se verem refletidas na mídia.
Consequentemente, tapava-se pudicamente a boca.
Eram tempos em que crimes ainda nos chocavam.
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Um dia, o Ramiro Conceição comentou aqui no blog:
Quando aconteceu o assassinato, eu era um tenro adolescente; contudo, lembro-me ainda do olhar esquizóide de Manson… Milton, aquele olhar ficou em mim! Muito mais tarde, compreendi que aquele olhar esquizóide, na realidade, era o verdadeiro olhar da América! Explicando ainda muito melhor: foi quando compreendi o bombardeio de Dresden, já com a Alemanha vencida; quando compreendi a tragédia de Hiroxima e Nagasaki; as guerras da Coréia e Vietnã; as intervenções militares na Guatemala, Cuba; o apoio logístico ao assassinado de Allende; o apoio ao golpe de 64, no Brasil; o fomento, em todas as partes do Mundo, de elites sanguinárias; a guerra no Iraque, Afeganistão etc., etc.: sempre, sempre, sempre aquele olhar esquizoide! Em poucas palavras: o olhar de Manson está na estátua da Liberdade; aliás, somente na América a Liberdade é rígida; na minha rua, a Liberdade é música!
Enfim, música antiga. Aliás, tocar música barroca em uma igreja é bem mais razoável do que a execução (uso a palavra nos dois sentidos) de sinfonias ou da Abertura Egmont, como a Ospa fez na xaroposa série Ospa nas Igrejas. No programa de ontem, vimos e ouvimos a orquestra atuar de acordo com o palco que lhe emprestaram. Este era o da linda Igreja Nossa Senhora das Dores nas costas. Oh, Cristo, que bancos infernais.
PROGRAMA:
J. P. Rameau: Abertura da ópera Zais
J. P. Rameau: Les Indes Galantes – Suíte orquestral
J. S. Bach: Concerto para dois violinos em Ré menor
J. S. Bach: Suíte orquestral n° 4
Regente: Diego Schuck Biasibetti
Solistas: Emerson Kretschmer (violino) e Danilo de Campos Vieira (violino)
Rameau e Bach, Bach e Rameau, tudo barroco e coerente, outra raridade. A primeira parte era do francês, a segunda, de nosso amado mestre e pai.
Rameau foi um cara agitado e esparramado, desses que entravam gritando coisas inteligentes e engraçadas em qualquer ambiente. Gosto muito. A Abertura da Ópera Zais é bem isso. Começa com um diálogo entre a percussão e as cordas, conversa que ficou quase esquecida até Shostakovich lembrar dela em seu 2º Concerto para violoncelo e orquestra. E a Ospa saiu-se muito bem, foi divertida, rápida e digna do alegre francês. É obra curiosa e original, cheia de estranhas paradas e súbitas corridas. Desta forma, o concerto iniciou de forma muito satisfatória.
A música é esta. É muito boa.
Originalmente, Les Indes Galantes é uma ópera-ballet onde são apresentados o Amor e os povos do mundo, misturados com mitologia e o escambau. Para nossa sorte, foi apresentada apenas a Suíte que foi retirada da ópera-ballet. Não ficaria bem dançar na igreja, creio. Olha, já ouvi esta suíte de forma mais animada e graciosa. No lugar de fazer graça, o maestro Biasibetti preferiu marchar. Mas acho que o trompetista Elieser Ribeiro e o cravista Eduardo Knob mostraram uma compreensão superior do que estavam fazendo, puxando a orquestra para o Lado Luminoso da Força.
Abaixo, Savall e seu grupo barbarizam:
Eu já estava com a bunda quadrada quando ouvi dois garotos a meu lado procurando Viktoria Tatour no palco. Eram dois estudantes de música. Acontece que ela estava no perfil de músico no programa da Ospa. Eles a acharam bonita e queriam vê-la ao vivo. E se perguntavam: “Cadê ela?” Onde está a oboísta bonita? Olha só… Ela é bielorrussa!”. Enquanto eu ria, eles a procuravam, dando de cara com o Javier Balbinder e o Rômulo Chimeli. Nossa, que dureza. Foi quando começou o Concerto Duplo de Bach.
Pô, o fenômeno das interpretações com estruturas próximas do original — não necessariamente com instrumentos originais — datam dos anos 60. Confesso que eu esperava que o concerto para dois violinos de Bach recebesse um efetivo orquestral bem menor. De uns 15 instrumentistas, no máximo.
Não ouvi com grande atenção as gravações abaixo, mas sonhava com este número de instrumentistas:
Ou até com isso:
Mas veio algo até maior do que isso (na verdade, vieram no formato do lendário Karl Richter e sua Orquestra Bach de Munique):
Então, completando o que dizia, a orquestra veio forte. Como se não bastasse, atirava-se sobre os solistas como se quisesse acabar com aqueles dois que queriam solar. Na minha opinião, houve problemas de concepção e senso de estilo. Deixem eu tentar resumir: um violinista soava bem mais alto do que o outro. E a orquestra, só de raiva, procurava matar a ambos. O sonhador Largo foi a melhor parte, mas o que dizer do Allegro final? Orquestra e solistas desceram as escadarias da velha igreja de forma tão temerária quanto a do carrinho de bebê do Encouraçado Potemkin. Não se sabe do destino da criança ospiana. Perguntei à Elena qual era o motivo daquilo. Afinal, conheço todo Bach desde jovem e cada nota do Concerto Duplo. Ela me replicou que uma resposta poderia configurar um grave incidente diplomático. Insisti, questionando se ela havia assinado uma Cláusula de Confidencialidade. Resposta: ela olhou para o outro lado.
Viram, meninos, é assim que nos tratam as bielorrussas!
Um pouco mais sobre o Concerto Duplo: Bach costumava abrir largos espaço para os solistas, até porque os instrumentos de sua época eram de som rarefeito, mas a orquestra, na versão de Biasibetti, trovejava sobre os solos. E aquele brequezinho no final teria matado Bach de susto.
E… bem, os garotos do meu lado ainda procuravam a Viktoria. E um ensinava para o outro. “Agora ela entra. A Suíte de Bach precisa de mais oboés”. Eu ria. A Ospa é como o Credicard — há coisas que só ela faz por você: uma delas é destacar uma instrumentista que está ausente no concerto.
Pois então, para finalizar a função, veio aquela que é a mais chata das Suítes Orquestrais de Bach, a Nº 4. Após o concerto, um músico das madeiras da orquestra me perguntou se a obra não teria sido finalizada por um dos filhos de Bach ou por um de seus alunos. Assim como eu, ele achou que a qualidade da música foi pouco a pouco se degradando até cair no chão de cerâmicas limpíssimas e enceradíssimas das Dores. Eu respondi que, quando ouvia a quarta suíte em casa, pensava estar cansado depois das três primeiras. Mas que no concerto tinha comprovado: a coisa é ruim mesmo. Destaque absoluto para os oboés — cadê a bielorrussa? — e o corne-inglês de Paulo Calloni.
Trabalho como jornalista em um portal da internet e vou puxar a brasa para o meu assado. No dia-a-dia, sou obrigado a tratar de quaisquer temas, mas prefiro os da cultura. E, em qualquer campo, convivo diariamente com as dificuldades de sobrevivência de um jornal que procura falar maduramente sobre política e cultura — e que se mantém fora do discurso único das famílias Marinho, Civita, Frias, Saad, Sirotsky e de mais algumas poucas.
Estamos no terceiro mandato presidencial consecutivo do PT. Dentre as mídias alternativas, era pensamento geral que um governo de esquerda lançaria mão de uma modesta arma que tinha na mão: a de reduzir as verbas de publicidade para os grandes grupos de comunicação, destinando parte destas para os pequenos veículos.
Ou que, talvez, pudesse investir na melhoria da rede pública nacional de rádio e tevê, dando-lhe melhores condições na disputa de audiência com as grandes redes privadas.
Diferentemente do governo argentino, que enfrenta o grupo “Clarín”, nada disso ocorreu por aqui. A situação não mudou muito. As verbas publicitárias seguem indo para os grandes grupos. Os oligopólios seguem concentrando audiência e verbas publicitárias.
Os outros caminhos são complicados. É difícil falar em alterar a legislação quando se sabe que sequer a existente é cumprida. Por exemplo: uma lei federal fixa que, em cada estado da Federação, uma empresa possa ter até três emissoras de tevê. A RBS tem doze emissoras no Rio Grande do Sul e nove em Santa Catarina, descumprindo a lei há muitos anos. Um edital de licitação para um novo sistema de concessões? Nem pensar.
Num ano de eleições federais e estaduais, é praticamente impossível assistir noticiário das grandes redes de tevê, especialmente os da Globo. A informação vem junto com as posições da emissora, o comentário vem maldoso e a parcialidade ultrapassa os limites do tolerável, na minha opinião.
Porém, o alto nível de desconhecimento público sobre a concentração midiática e sobre como funcionam as concessões públicas deixa as grandes redes tranquilas.
Já é um lugar-comum dizer isso, mas a verdade é que os verdadeiros partidos da direita são os órgãos da velha mídia. As siglas partidárias daquele campo ainda não conseguiram superar o programa neoliberal, privatista, nem seu amor aos EUA. Porém, apesar de sua insistência, não têm conseguido mais fazer maioria no país.
Desta forma, sem obter pavimentar sua volta ao poder, resta-lhes o esporte de tentar desgastar a esquerda.
O Brasil não cabe mais num quintal. A sociedade deve ouvir diferentes vozes. A questão não é restringir ou censurar — não se trata de interferir nos conteúdos –, mas de garantir a existência de mais veículos.
A Argentina tem uma bela história para contar. Antes da sua chamada Ley de Medios, 90% da produção audiovisual argentina vinha da região metropolitana de Buenos Aires, o que tolhia o direito à informação de outras regiões. Hoje, 53 rádios funcionam a partir de universidades, três canais são ligados a comunidades indígenas, e a televisão tem 4.200 novas horas de conteúdo. E, claro, foram gerados mais empregos.
No Brasil, as forças contrárias – em grande parte vinda das redes evangélicas – resistiram e conseguiram prevalecer dentro do ambiente de coligações formadas por um governo que tem receio de descontentá-las.
Acredito que devam ser permitidas e incentivadas a existência de novos meios — públicos, privados e comunitários –, com autonomia para definir suas próprias linhas editoriais, pois são os grupos sociais e de leitores, a partir das análises e de seus contrastes, que devem tiram suas próprias conclusões a partir das informações disponibilizadas pelos meios de comunicação.
Informar e estar informado é um direito como qualquer outro.
O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam.
ARNOLD TOYNBEE
Arnold, no Brasil é mais democrático ser obrigatório… Mas vejamos:
Primeiro, um mapa mundi.
Clique para ampliar.
Países com voto obrigatório:
Argentina
Austrália
Bélgica
Bolívia (sem sanções se não votar)
Brasil (facultativo entre 16 e 18 anos, para os maiores de 70 anos e para os analfabetos)
Congo
Costa Rica
Chipre
Equador
Egito (sem sanções se não votar, obrigatório somente para homens)
Fiji
Grécia
Guatemala
Honduras
Líbano (somente homens)
Líbia (sem sanções se não votar, obrigatório somente para homens)
Luxemburgo
México (sem sanções se não votar)
Nauru
Panamá
Paraguai (acima de 75 anos, voto facultativo) (sem sanções se não votar)
Partes da Suíça
Peru (acima de 70 anos, voto facultativo)
República Dominicana
Singapura
Tailândia
Turquia (sem sanções se não votar)
Uruguai
Países que possuíam voto obrigatório mas que o aboliram:
Áustria (gradualmente entre 1982 e 2004)
Chile (2011)
Países Baixos (1917-1970)
Venezuela (1993)
“Eis aqui um sinal do Brasil profundo: 30% dos eleitores brasileiros já se esqueceram o nome do candidato a deputado federal para o qual deram o voto – a menos de 20 dias.
Os dados são de pesquisa Datafolha realizada em todo o país nos dia 14 e 15 de outubro.
A situação é igualmente desoladora no caso do Senado: 28% dos eleitores já não se lembram em quem votaram para pelo menos uma das vagas de senador (havia duas em disputa)”.
Na maior parte das democracias, o voto é um direito: o eleitor vota se quiser, se achar que algum candidato de fato o representa, ou se achar que é necessário que sua opinião seja representada.
No Brasil, ao contrario, temos o que os juristas e cientistas políticos chamam de direito-obrigação: o cidadão não tem apenas o direito de votar: também tem a obrigação de fazê-lo. Se não o fizer, sofrerá as sanções legais (por exemplo, não pode inscrever-se em concurso ou tomar posse de cargo público, não pode inscrever-se ou renovar matrícula em faculdade pública, não pode tirar carteira de identidade ou passaporte, não pode tomar empréstimos em bancos públicos, etc). Ele só voltará a poder exercer esses direito civis-políticos depois que regularizar sua situação com a justiça eleitoral, pagando a multa imposta pelo juiz eleitoral (a multa varia entre 3% e 10% de uma UFIR, ou seja, entre R$ 1,06 e R$ 3,51 atualmente, podendo ser multiplicada por até 10 – R$ 35,10 – dependendo da condição econômica do eleitor).
Embora a multa seja pequena, a consequência mais séria da obrigatoriedade do voto é que a parte do eleitorado que o faz apenas para não sofrer as consequências legais por sua ausência, acaba não se engajando no processo de seleção dos candidatos de uma forma ativa. Para esses eleitores, a eleição não representa nada mais do que uma obrigação e, por isso mesmo, não há um processo de seleção criterioso de seus candidatos.
Essa situação, aliás, coloca o Brasil em uma posição única entre as grandes economias do mundo. Entre as 15 maiores economias do mundo (e todas com um PIB acima de US$1 trilhão), o Brasil (que figura em nono lugar) é o único país no qual o voto é obrigatório.
Por outro lado, o voto é obrigatório em vários países da América Latina. Aliás, dos 24 países que segundo a CIA estabelecem o voto compulsório, nada menos do que 13 estão na América Latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai) e outros 7 são também países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento (República Democrática do Congo, Egito, Grécia, Líbano, Líbia, Nauru e Tailândia), e apenas 4 são desenvolvidos, sendo dois cidades-estados (Bélgica, Austrália, Luxemburgo e Singapura).
Além disso, todas as nossas constituições, desde 1946, têm determinado que o voto seja obrigatório. É mais democrático, sabem?
Eu tinha onze anos e achava lindo aquilo. A Apolo 11 levava o Módulo Lunar Eagle e este pousaria no Mar da Tranquilidade. Era o mês de julho de 1969 e nosso professor de Ciências explicou tudo direitinho; eu sabia que não havia água por lá mas o nome da região lunar onde a nave desceria — o tal Mar da Tranquilidade — foi das primeiras poesias involuntárias que ouvi. O Mare Tranquillitatis foi imaginado por mim sob várias formas. Como sabia que a gravidade de lá era menor que a nossa, via a água daquele mar bater em minhas pernas salpicando-me de pingos que subiam por metros e metros. Havia peixes que saíam d`água em vôos espetaculares. Eu pulava as ondas em direção ao enorme planeta sobre mim e via o mar metros abaixo, sabendo que a presença da grande esfera garantia saltos maiores e pousos serenos. Enquanto subia e descia, fazia piruetas sem som no ar, acompanhado de pingos salgados nos quais brincava de dar tapinhas.
Num daqueles dias, dei de cara com um livro na biblioteca de meu pai: Mar de Histórias. Abri: a expressão que dá nome à coleção vem de uma antiga coletânea da Índia, do século XI; é a tradução do nome sânscrito Kathâsaritsâgara, que significa “mar formado pelos rios de histórias”. Um verdadeiro oceano de narrativas, muitas delas célebres, etc. Gostei do livro, mas nada como o outro mar. Quando veio o dia 20, assisti Neil Armstrong caminhar na Lua. Dei só uma olhadinha e voltei para o quarto. Não vi graça nenhuma.
Mas hoje, mais de quarenta anos depois, voltei a sonhar com o lento Mar da Tranquilidade. Permanece lindo.
O jogo de ontem foi de três pontos e de melhoria do time, mas voltamos a apresentar os velhos problemas, não? A falta de punch no ataque deveu-se novamente à organização lenta de todos ao recuperarem a bola e à falta de jogo de Alan Patrick. E, defensivamente, é duro ver Fabrício em plena crise técnica. Não o acho um mau jogador, mas como está mal, Abel! Atrás dele, protegendo-o de seus erros, estava um grande e misterioso Juan que saiu-se pessimamente quarta-feira e foi um deus ontem. Digo que não tem velocidade para enfrentar atacantes velozes. Não podemos deixá-lo no mano-a-mano. De resto, ainda é um grande zagueiro. Para o Gre-Nal, talvez seja até bom que o Paulão tenha sido expulso, né? O Ernando tem que jogar mais vezes.
Teu amigo Felipão vai passar muito trabalho esta semana. O time dele não acerta três passes consecutivos. Se dar ânimo resolve alguma coisa, haja estimulante pra aquele time jogar. Espero que tu não os ressuscites.
Olho para a tabela e acho que está acontecendo alguma mágica. Não em relação a nossa diferença para com o Grêmio — acho normais os 6 pontos — mas ao fato de estarmos na terceira colocação com essa bolinha que jogamos. A ruindade é tão geral assim? E olha que já passamos de 1/3 do Brasileiro. Quem está mal neste ponto passará muito trabalho para mudar sua situação.
Outra coisa interessante na tabela é notar os pequenas seções que se formam. Os quatro primeiros estão se distanciando, espero. Cruzeiro, Fluminense, Inter e Corinthians são favoritaços para formarem o G-4 de 2014. Basta olhar as estatísticas do Chance de Golpara comprovar a impressão.
Abel, trabalhe bastante nesta semana, tá? Se nosso meio-de-campo tiver Aránguiz, ganhamos ao natural, acho. Mas cuide bem da defesa.
A prosa escrita por poetas é sempre um perigo. Eu acho. Mas a grandeza de Sophia passa por cima das limitações e de certa indireção presente na prosa dos poetas. Este livro é composto por sete contos finalizados em 1962. São histórias que misturam duas temáticas: a repressão política empreendida por Salazar e a profunda decepção da católica Sophia com o clero adesista de seu país. Mas não pensem em contos de ressentimento e denúncia, de modo algum. São contos sutis, de bom gosto e onde estão presentes aspectos místicos que não aparecem com tanta clareza na poetiza Sophia, a mulher do mar e da erudição clássica. O Jantar do Bispo e Homero são excelentes contos. Retrato de Mônica é um tantinho raivoso, mas excelente. Mas os melhores são os que citei primeiro.
O Jantar do Bispo é uma tragédia bem conhecida nossa. O Dono da Casa — assim chamado em todo o conto — é um grande proprietário rural está incomodado por um padre que ensina justiça social a sua congregação. O Bispo — chefe do tal padre e que poderia afastá-lo da cidade com um peteleco — precisa reformar o teto da igreja. Farão a troca de favores? Já Homero é pura poesia que se perde no vento.
Todos as histórias vêm recheadas são de metáforas que escondem nas personagens muitas vezes Deus e do Diabo, o Bem e o Mal. Indico para os admiradores de Sophia.
Um fundamentalismo leva a outro. Dilma e políticos — representantes de um estado laico — foram ontem à inauguração de um absurdo Templo de Salomão, construído pela Igreja Universal. Presentes à inauguração-ostentação, é claro, nossos dois maravilhosos pólos políticos, petistas e tucanos, além dos igrejeiros do Congresso e de quase todo o STF, imaginem. (Na minha opinião, os caras do STF deveriam reforçar o Estado Laico, mas quem sou eu para opinar…).
Bem, só que a igreja de Edir Macedo é megaconservadora. Deste modo, a presença de políticos no evento reforça o caráter homofóbico, anti-aborto, machista, etc. da sociedade e demonstra despudoradas relações políticas com a direita fundamentalista. E esses caras vão tomar conta do país quando se juntarem com um maluco como, por exemplo, Jair Bolsonaro ou um Bispo qualquer que queira ser nosso aiatolá.
Este governo aprofunda as relações com o obscurantismo, coisa perigosa escondida sob a expressão “Presidenta de todos os brasileiros”. Não, não é, minha cara presidenta: na verdade, o governo dá as costas a seu próprio eleitorado, adubando a oposição fundamentalista diariamente. Só lhes falta um líder político consistente para nos fazer afundar nas trevas.
Dilma e Edir fazendo lindo par | Foto: Universal Vila Sônia
Eu atravessei a arte moderna e nunca caí na armadilha da melancolia. Eu não proponho ideologias, soluções. Eu creio na luz. Minha luz é fabricada em estúdio, onde fiz até o mar. Eu atravessei o século 20 com personagens da minha infância. Eu fui comunicativo e fácil, quando o correto era o hermetismo intelectual.
Federico Fellini
Assim como teria fugido de um circo quando criança, Federico, em seus últimos anos, tratou de se auto-intitular um diretor fácil, comunicativo e alegre | Foto: Divulgação
Fellini foi um grande mentiroso. Tinha o hábito de inventar histórias, de relatar fatos de seu passado que jamais aconteceram. Tais histórias, cheias de pedaços de realidade entremeadas da mais pura fantasia, atrapalha seus biógrafos, os quais concluem que seus depoimentos eram construídos como os filmes do diretor, misturas de sonho e realidade — a maior característica do período final de Fellini. Assim como teria fugido de um circo quando criança, Federico, em seus últimos anos, tratou de se auto-intitular um diretor fácil, comunicativo e alegre. Ele também foi isso, mas dois de seus maiores filmes, talvez os mais vistos, excetuando-se Amarcord – A Doce Vida e 8 ½ – têm, para dizer o mínimo, um mar de melancolia, a armadilha do século XX na qual ele dizia nunca ter caído.
A carreira de Fellini demonstra um realizador em constante evolução. A estrada da vida (1954), A trapaça (1955) e Noites de cabíria (1957) mostram um diretor ainda ligado ao neorrealismo praticado por Roberto Rosselini, com quem tinha trabalhado antes de criar seus próprios filmes. A estrada da vida foi um grande sucesso de público, dando-lhe o Leão de Prata do Festival de Veneza e o primeiro Oscar de melhor filme estrangeiro.
La Dolce Vita: Anita Ekberg banhando-se na Fontana di Trevi
Logo depois, já década de 60, Fellini torna-se mais e mais pessoal, além de caminhar lentamente na direção de incríveis extravagâncias. É a vez do esplêndido A Doce Vida (1960), considerado uma dos maiores filmes de todos os tempos e que inicia sua parceria com Marcello Mastroianni. A Doce Vida mostra a decadência moral e o vazio existencial, cultural e político da sociedade burguesa italiana. Também inaugura um estilo que seria muito utilizado no futuro: o filme coral. Mesmo que ainda mantenha o personagem principal, a tela é povoada por dezenas de personagens que entram e saem de cena sem que o espectador lhes conheça muito mais do que suas feições. Eles entram em cena, dizem uma frase, fazem alguma coisa e vão embora. É também quando aparecem as mulheres fellinianas, normalmente de enormes seios, em La Dolce Vita na pele da belíssima sueca Anita Ekberg.
Mastroianni e Ekberg
No filme, Mastroianni é um jornalista que trabalha para uma publicação sensacionalista, enquanto sonha em escrever sobre assuntos sérios. Ele passa a perseguir a atriz hollywodiana Sylvia Rank, personagem de Ekberg, por quem fica fascinado. É através do jornalista que vemos uma Roma entre a dúbia sofisticação e a franca decadência. O repórter tem várias amantes e a cena protagonizada na Fontana di Trevi por Ekberg e Mastroianni é uma das maiores sequências de todo o cinema. Abaixo, colocamos toda a famosa cena. Outra sequência célebre é a da abertura, na qual o jornalista, num helicóptero que transporta uma estátua de Jesus até o Vaticano, encontra uma mulher tomando sol numa cobertura e pergunta pelo seu número de telefone. O barulho do motor impede que ambos possam se entender. Aliás, ninguém parece se entender neste grande clássico.
O notável Fellini 8 ½ (1963) tem sua gênese numa crise interna do diretor. O longa trata minuciosamente da vida de um realizador que não sabe que filme deseja fazer. O título do filme tem origem numérica, pois Fellini fizera 7 filmes e ½, dirigindo seis longas, dois episódios de filmes e co-dirigido outro. É uma grande homenagem ao cinema, assim como O desprezo, de Jean- Luc Godard e A noite americana, de François Truffaut.
O irmão gêmeo de 8 ½ é Julieta dos espíritos (1965) realizado em homenagem à sua esposa, Giulietta Masina. Aqui, a personagem feminina passa por uma crise que a obriga a confrontar seus medos. As sequências visuais fantásticas já fazem antever o último Fellini, o dos exageros.
Que tal um desfile de moda eclesiástica hoje à noite?
Roma de Fellini (1972) é outra obra-prima. Meio ficcional, meio documentário, o filme tem atores conversando com o diretor — aqueles olhando para a câmera, prova de total improviso –, cenas cuidadosamente preparadas como a do desfile de moda eclesiástica, e conversas com trabalhadores romanos como em um documentário. Em imensa colagem, Fellini capta toda a loucura, a arquitetura, os habitantes, os turistas, o desrespeito e a sujeira da cidade. Sem trama geral e com ritmo arrebatador, Roma de Fellini faz irrelevantes os personagens. Estes funcionam como catalizadores de cenas; depois, caem fora.
O delicioso Amarcord (1973) explora várias histórias da juventude de Fellini. Foi seu último grande sucesso comercial, escolhido para abrir o Festival de Cannes de 1973 e vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Amarcord (forma de se dizer io me ricordo — eu me lembro — em Rimini, cidade natal do diretor), é um verdadeiro manual de casos e sacanagens adolescentes. Entre os personagens estão a família e suas brigas e loucos; um padre que escuta confissões só para dar asas à sua imaginação; Gradisca, a linda cabeleireira; Volpina, a ninfomaníaca; o tocador de acordeão cego; um grupo absolutamente sedutor de estudantes. É um filme alegre e solar, mesmo tendo como fundo o fascismo italiano dos anos 30, como quando o pai é interrogado e torturado por supostamente tocar a International Comunista em um gramofone.
Amarcord: fartura de tudo
Após a realização de um filme sobre as memórias de sua infância, o diretor dirige seu foco para a famosa figura de Casanova (1976). Trata-se de uma versão pessoalíssima do grande amante. Caro e, em todos os outros sentidos, exagerado, o Casanova de Fellini não agradou ao público e muito menos à crítica.
Fellini mostra o que quer durante as filmagens de Ensaio de Orquestra
Ele tratou de compensar a grandiosidade de Casanova em seu próximo filme: Ensaio de orquestra (1979), uma parábola sobre uma orquestra anárquica, filmada em apenas 15 dias, usando apenas um único cenário. Apesar de bastante fora do estilo do diretor, Ensaio de Orquestra é maravilhoso.
Nos anos 1980, depois de ter realizado alguns filmes menores e o grandiosamente mal-sucedido Cidade das Mulheres (1980), ele volta sua atenção para a grande ópera em E la nave va (1985). O longa, que traz um retrato do convés da alta sociedade e dos trabalhadores que estão no porão a sustentar o navio, é um verdadeiro microcosmo da sociedade.
Com seu filme seguinte, Ginger e Fred (1986), ele apresenta uma crítica irônica sobre o mundo da televisão, com seus programas de variedades repletos de anúncios, e sobre o poder magnético das celebridades.
Federico Fellini morreu no dia 31 de outubro de 1991. É considerado um dos mais populares representantes da alma italiana, tendo recebido 4 Prêmios Oscar da Academia de Hollywood. Respeitado pelos cinéfilos mais eruditos, criou uma forma absolutamente única de filme coral. Foi, mais do que nada, um enorme talento que soube contar como ninguém as histórias de grandes e pequenos personagens, de celebridades e de anônimos, sempre com sonho, magia e humor.
Te mexe, Alan Patrick! Corre, Juan! Não me faz rir, Paulão!
Abel, sabes que eu não costumo fazer avaliações individuais — acho que o que interessa é o conjunto –, mas é impossível evitar dizer que um time que joga com Juan, Alan Patrick e Paulão não irá a lugar nenhum. Juan é uma lenda do futebol que hoje é vencida por qualquer Nikão. Foi facilmente batido no primeiro gol e ainda fez um pênalti — que seria o segundo contra nós — no segundo tempo. É tocar a bola na frente e passar. Não dá. Iniciar uma partida com Alan Patrick é iniciar com dez jogadores. Ele está passando por uma injustificada egotrip. Passa o pé por cima da bola, tenta coisinhas elegantes, interrompe as jogadas e apenas deixa mais lento o que não é rápido: a dupla D`Alessandro e Alex. Já Paulão serviria apenas como com uma espécie de reserva folclórico. Suas tentativas no ataque são cômicas — dou risadas com sua falta de jeito — e o que dizer do bote que ele tentou no segundo gol do Ceará? Como trata-se de um zagueiro rápido, ele deveria ter acompanhado o atacante na corrida, mas é de seu folclore fazer a tentativa errada. Deu no que deu.
O Ceará é um bom time. O líder da Segunda Divisão tem características interessantes: com a bola é um conjunto tipicamente nordestino, cheio de jogadores velozes; sem a bola, marca forte e até usa de certa dose de violência. O resultado de ontem (Inter 1 x 2 Ceará) complica muito. No jogo de volta, uma vitória do Inter por 1 x 0 dá Ceará pelos dois gols marcados fora. Então, não basta ganhar. Sinceramente, acho que ontem tu recebeste uma ligação de Jesus, Abel. Talvez seja melhor ser logo eliminado, mas será que aí tu vais treinar o time nas datas vagas? Pois o nosso time não está jogando nada, não tem nenhuma inteligência ali, é só correria inútil e passes errados.
Nem vamos falar do juiz, Abel, ele é ruim mesmo e conseguiu prejudicar a todos. Também, com o nome de Fábio Filipus…
Abel, o que sei é que tu não gostas de mudar nada, ainda mais quando se trata dos bruxos e o Juan é bruxo. Então, amigo, acho que estamos fodidos. E, para completar, ontem o Luigi disse que estava difícil segurar o Aránguiz. Aí, meu filho, vamos ter a mais triste das despedidas de nosso mais bisonho presidente.
“Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido”, diz o personagem Ivan Karamázov em Os Irmãos Karamázovi, de Dostoiévski. O russo era cristão e escritor genial. Tão genial que lograva transferir-se para a pele de seus personagens de tal forma que é difícil supor as ideias do homem por trás das do romancista, que era indiscutivelmente cristão. Mas que cristão ele foi? Não sabemos, pois Dostoiévski não parece projetar-se em ninguém, em seus romances não há uma voz onisciente que comanda tudo. Desta maneira, o ateu Ivan Karamázov era provocativo, principalmente com seu irmão mais moço, o beato Aliócha, e a célebre frase é um caso exemplar de descontextualização por ter sido pronunciada por Ivan para Aliócha e não de Dostoiévski para uma plateia.
A noção de entidades superiores que julgam os atos dos homens talvez preceda a própria noção de humanidade. Para a antiguidade, mais ainda do que hoje, Deus criara não apenas a vida e a existência do mundo e do universo, mas encarnava os preceitos éticos do certo e do errado. Deparando-se com o caos da vida e com leis insuficientes, os homens precisavam de limites. Sem eles, talvez os homens roubassem e matassem uns aos outros, cada um pensando ter direito a tudo. Deus os olharia e julgaria, no papel de representante do bem, do correto e da retidão, enquanto o Diabo representaria o mal, o errado, a destruição, o roubo e a morte. O ser humano que estivesse em união com Deus seria também um bom cidadão, por assim dizer.
Depois — durante toda a Idade Média e além –, Deus permaneceu identificado com o Bem, a Justiça e a Verdade. Santo Agostinho (354-430), bispo, teólogo e filósofo da Igreja Católica, fundamentou a moral cristã na busca pela felicidade e a felicidade suprema consistiria num encontro com Deus na imortalidade. Só assim o homem poderia ser verdadeiramente feliz. E, para sê-lo, bastaria obedecer a suas leis e preceitos morais.
Já o ateísmo, meus queridos, como explica o filósofo e escritor Gonzalo Puente Ojea, apenas nega o teísmo. O ateísmo não existe com a finalidade de atacar os crentes, apesar de alguns de seus membros viverem enchendo o saco dos crentes só por encher. Mas dá para entendê-los: o Brasil, país provavelmente em situação pré-fundamentalista, tem uma Constituição que declara o estado como laico mas que foi escrita ‘sob a proteção de Deus’.
Já disse e não canso de repetir: as religiões jamais serão extirpadas da humanidade. Mas, do ponto de vista individual, acreditar ou não em uma delas é algo de foro íntimo. A venda da religião, a agressão a ateus e a membros de outras religiões prejudica o mundo, as relações sociais e é a mais funesta das intervenções da subjetividade sobre a sociedade. A grande vitória a ser obtida por nosso século seria o recuo das religiões, pois a consequência de sua presença impositiva é a desconstituição de direitos por parte de seus representantes. O Brasil até hoje não permite o aborto, por exemplo.
Imagem: http://jesus-everywhere.tumblr.com/
Os ateus e os teístas tolerantes deveriam manter suas posições, impedindo a invasão do público pelo privado. Nas escolas, a história das religiões seria ministrada por historiadores, não por religiosos, por exemplo. Porém, …
O UOL diz que “as eleições deste ano contarão com 270 candidatos que se declararam pastores, um crescimento de 40% com relação ao pleito de 2010 — quando 193 pessoas disseram ocupar o cargo. Além disso, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) registrou a candidatura de 32 bispos (25% a menos do que em 2010) e 16 padres (30% a menos)”. Tal fato é um perigo para as instituições democráticas. Ele demonstra apenas a crise educacional de nosso país, tendo em vista que os países de maior IDH e desenvolvimento material são os que possuem maior número de ateus.
E o Dostoiévski lá do início? Melhor esquecê-lo? Não, de modo algum. Afinal, a frase deve ser limitada a uma inteligente provocação de Ivan Karamázov a seu irmão Aliócha. A quem duvidar disto, bastará ler o que diz Raskolnikov em Crime e Castigo. Neste romance, há a apologia do assassinato: o personagem principal justifica-se com Napoleão — “há que se sujar a fim de se obter poder”… Temos informações que Dostoiévski jamais assassinou velhinhas a machadadas. O personagem acaba antes do autor, assim como o privado antes do público.
São gravuras de 1910 que buscam mostrar como seria nossa vida no ano 2000. Elas estão na Biblioteca Nacional da França. A autoria é de dois artistas franceses, Villemard e Robida.
Bombeiros voadores
Sapatos motorizados
Barbeiros robôs
Carros estilo Jetsons
Mensagens através de fonógrafos
Um drive-in…
Ouvindo as notícias…
Videoconferências com gramofones
Os operários da construção civil seriam robôs
O professor joga os livros numa geringonça e os alunos ouvem seus conteúdos (observem a animação do pobre “monitor”)…
Vi essa foto hoje e fiquei feliz, Abel. Alecsandro e Bolívar não são mais do Inter! Podemos até ser felizes, quem sabe. CLIQUE PARA AMPLIAR E TER CERTEZA.
Não Abel, não falarei sobre THE ENDerson Moreira. Os fatos do Grêmio não devem nos distrair. Temos nossos problemas e o maior deles é saber porque jogamos tão mal em Salvador, apesar da vitória por 1 a 0 sobre o Bahia. Tu admitiste a partida ridícula e culpaste em parte o calor. Só que não se erra passes por causa do calor. Não me enrola, Abel, vi os jogos da Copa em Manaus. Lá é quente pra caralho.
Os malditos passes laterais voltaram. Dava náusea de ver. Os passes para a frente eram errados. Tu disseste que o Dida não fez nenhuma defesa, mas esqueceste dos dois gols que eles perderam na cara de nosso goleiro no primeiro tempo. Te aviso de novo: não me enrola, Abel. O trio de meias não funcionou novamente. Pareciam baratas entontecidas por algum tipo de veneno.
Sem Aránguiz e com Dale descontado, nosso time desaparece, vira um anão diplomático (ou burocrático). É triste. O Alan Patrick está pedindo pelamor de deus me tira do time. Acho que ele quer ver a guerra na Ucrânia. Libera ele, Abel. Minha única risada no sábado à noite foi ao ler o que escreveu o Farinatti no Facebook. Lê o que ele escreveu e vá treinar, seu gordo.
Jogo horroroso, Bahia 0x1 Inter. Só valeu pelas declarações ao final da partida.
De Wellington Silva, autor do gol do Inter, num frango do goleiro do Bahia: “Eu chutei com força, não foi no canto, mas foi forte e variando e aí Deus me abençoou e o goleiro falhou feio e a bola entrou.”
De Uélinton, volante do Bahia: “Jogamos bem, mas perdemos aí numa falha individual aí. Mas não é o caso de crucificar o Marcelo Lomba nessa hora. Tem é que crucificar todos nós, jogadores.
A Unesco nos dá disponibiliza esta curiosa página onde temos um Index Translationum database, ou seja, um índice das obras mais traduzidas de qualquer língua para qualquer língua. Como disse, é uma lista curiosa, começando pelo vencedor absoluto. (Na lista que você vê abaixo eu somei as três ocorrências que a Bíblia tem na relação original.)
WALT DISNEY PRODUCTIONS 8677
AGATHA CHRISTIE 6362
BIBLIA 5319 (Três versões)
JULES VERNE 4021
LENIN 3497
WILLIAM SHAKESPEARE 3435
ENID BLYTON 3433
BARBARA CARTLAND 3315
DANIELLE STEEL 2767
HANS CHRISTIAN ANDERSEN 2624
STEPHEN KING 2591
JACOB GRIMM 2382
WILHEM GRIMM 2374
MARK TWAIN 2022
ISAAC ASIMOV 1969
GEORGES SIMENON 1953
PAPA JOANNES PAULUS II 1916
ALEXANDRE DUMAS, PERE 1889
ARTHUR CONAN DOYLE 1871
JACK LONDON 1868
FEDOR MIKHAILOVICH DOSTOIEVSKI 1843
RENE GOSCINNY 1798
ASTRID LINDGREN 1751
ROBERT LOUIS STEVENSON 1744
LIEV NIKOLAIEVICH TOLSTOI 1737
CHARLES DICKENS 1706
ROBERT L. STINE 1673
NORA ROBERTS 1560
VICTORIA HOLT 1534
KARL MARX 1465
OSCAR WILDE 1426
RUDOLF STEINER 1412
SIDNEY SHELDON 1363
ERNEST HEMINGWAY 1362
ALISTAIR MACLEAN 1349
HERMANN HESSE 1311
HONORE DE BALZAC 1271
FRIEDRICH ENGELS 1236
JAMES HADLEY CHASE 1224
ROBERT LUDLUM 1211
JOHN RONALD REUEL TOLKIEN 1198
RUTH RENDELL 1179
PLATON 1174
EDGAR ALLAN POE 1168
ANTON PAVLOVICH TCHEKHOV 1164
MARY HIGGINS CLARK 1163
FRANZ KAFKA 1163
CHARLES PERRAULT 1158
Eles vieram trazer ouro, incenso e mirra? É uma Maria bastante ariana, não? E o rosto do bebê? E seu cabelo? A obra é Epiphany I (1996), pintura de Gottfried Helnwein (1948-).
Cada nova realidade estética redefine a realidade ética do homem. Porque a estética é a mãe da ética. As categorias de ‘bom’ e ‘mau’ são, em primeiro lugar e sobretudo categorias estéticas que antecedem as categorias do ‘bem’ e do ‘mal’. (…)
Um homem que tenha gosto, e em particular gosto literário, é mais resistente aos refrões e aos feitiços rítmicos próprios da demagogia política em todas as suas versões (…).
Quanto mais rica é a experiência estética de um indivíduo, quanto mais seguro o seu gosto, tanto mais sólida será a sua escolha moral e tanto mais livre – mesmo se não necessariamente mais feliz — será ele próprio. (…) Num sentido antropológico, repito, antes de ser uma criatura ética o ser humano é uma criatura estética. A arte portanto, e em particular a literatura, não é um subproduto da evolução da nossa espécie, mas antes o contrário. Se aquilo que nos distingue dos outros representantes do reino animal é a palavra, então a literatura – e em particular a poesia, sendo esta a forma mais elevada da expressão literária – é, para o dizer sem rodeios, a meta da nossa espécie.
Há 100 anos, em 19 de outubro de 1913, nascia Vinícius de Moraes. O poetinha — apelido dado por Tom Jobim — era letrista, boêmio, poeta, fumante, dramaturgo, diplomata, amante dos bons uísques, das mulheres e de tudo o que desse prazer. Casou-se nove vezes. Apesar disso, teve tempo de criar obra literária, musical e teatral. Foi parceiro de mais de uma geração de grandes músicos brasileiros, como o citado Tom, além de Chico Buarque, Toquinho, Baden Powell, Carlos Lyra, Edu Lobo, João Gilberto, João Bosco, dentre outros.
Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes nasceu na Gávea, Rio de Janeiro, filho de um funcionário da prefeitura e de uma dona de casa que era também pianista amadora. Em 1930, ingressou na Faculdade de Direito do Catete, hoje integrada à UERJ. Na chamada “Faculdade do Catete”, conheceu o romancista Otávio Faria, que o incentivou a escrever. Vinícius de Moraes graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933, aos 20 anos. Após um período na Inglaterra, fez concurso para o Ministério das Relações Exteriores. Na primeira vez foi reprovado, mas passou na segunda tentativa, sendo enviado para Los Angeles como vice-cônsul.
Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes
Depois, Vinícius de Moraes atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde costumava realizar animados encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda. A carreira de diplomata fui subitamente interrompida pelo AI-5, através de uma aposentadoria compulsória. O motivo alegado foi a boemia. Em entrevista, o presidente João Figueiredo explicou as causas da demissão: “O Vinícius diz que muita gente do Itamaraty foi cassada por motivos políticos, por corrupção ou por pederastia. É verdade. Mas no caso dele foi vagabundagem mesmo. Eu era o chefe do Serviço Nacional de Informações, o SNI, e recebíamos constantemente informes de que ele, servindo no consulado brasileiro de Montevidéu e ganhando 6 mil dólares por mês, não aparecia por lá havia três meses. Consultamos o Ministério das Relações Exteriores, que nos confirmou a acusação. Checamos e verificamos que ele não saía dos botequins do Rio de Janeiro, tocando violão, se apresentando por aí, com um copo de uísque na mão. Nem pestanejamos. Mandamos brasa.”
Hoje, ninguém se incomoda com seu mau comportamento funcional. Afinal, o ganho cultural foi muito mais importante.
Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes
A música
Vinícius de Moraes é conhecido pelo grande público muito mais por sua música e por seu trabalho como letrista do que por sua obra literária. Porém, estes estão de tal forma interligados entre si e com a vida do autor que certamente não é muito inteligente separá-los. Nos anos 40, Vinícius era um poeta lírico de linguagem simples que muitas vezes enveredava pelo social. Os poemas desta época certamente não lhe garantiriam nenhum gênero de “imortalidade” e ele era mais conhecido por sua atuação como jornalista e crítico de cinema.
O manuscrito de “Soneto da Separação”
Só em 1953 o poeta começou a abrir espaço para o letrista e músico. Naquele ano, Aracy de Almeida gravou Quando Tu Passas Por Mim, primeiro samba de sua autoria. Escrito com Antônio Maria, o samba marcava, na vida pessoal do poeta, mais um fim de casamento.
Em 1954, foi publicada sua coletânea Antologia Poética, ao mesmo tempo em que finalizava sua peça teatral Orfeu da Conceição, premiada no concurso associado ao IV Centenário de São Paulo, cidade por ele apelidada de “o túmulo do samba”. Dois anos depois, quando andava atrás de alguém para musicar a peça, um amigo indicou-lhe um jovem pianista e arranjador chamado Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, de 29 anos. O encontro entre Vinícius e Tom, entre Tom e Vinícius, deveria ser saudado com fanfarras não fosse a Bossa Nova avessa a tais barulheiras. Ali nascia uma das mais fecundas parcerias da música brasileira, uma que a marcaria definitivamente. Os dois compuseram a trilha sonora para Orfeu e seguiram compondo uma vertiginosa sucessão de clássicos que acabaram na criação da Bossa Nova juntamente com João Gilberto. Se Todos Fossem Iguais A Você, Eu e Você, A Felicidade, Chega de Saudade, Eu sei que vou te amar, Garota de Ipanema, Insensatez, entre outras belas canções canônicas.
“Vinicius de Moraes foi um divisor de águas na história da música popular brasileira. Um poeta de livro que de repente se torna letrista e traz para as letras da música brasileira uma grande densidade poética”, define o crítico musical Tárik de Souza. Mais do que parceiros, Vinicius de Moraes colecionou amigos, companheiros de boemia e da vida cotidiana. A troca ia muito além das rimas e notas musicais.
Para Tárik, que apresenta na Rádio MEC FM o programa Bossamoderna, Vinicius exerceu um papel de catalisador na música popular, estimulando o surgimento de novos compositores. “Ele foi o primeiro parceiro do Edu Lobo, o primeiro parceiro do João Bosco, incentivou o Francis Hime e vários outros artistas a se dedicarem realmente à música, a partir de parcerias com ele. Vinicius tinha essa generosidade de lançar artistas e de abrir novas frentes, como ele fez com Toquinho, que foi o seu último grande parceiro”.
É grande a lista. Além dos já citados, inclui Carlos Lyra, Baden Powell (que formavam, juntamente com Tom, o que o poeta chamava de sua “santíssima trindade”), Chico Buarque e muitos outros. Lyra, um dos integrantes da “trindade” de Vinícius, conta como foi seu primeiro contato com o poeta. “Liguei para a casa dele: ‘Vinícius de Moraes? Aqui é o Carlos Lyra”… e ele, com aquela mania de diminutivos, respondeu: ‘Ah, Carlinhos, ouvi muito falar de você. O que você quer de mim?’ E eu: ‘quero umas letrinhas…’. E ele: ‘então venha já pra minha casa’. E aí começou a amizade e a parceria”.
A pedra fundamental da bossa nova veio com o LP Canção do Amor Demais, gravado por Elizeth Cardoso. Além da faixa-título, o LP trazia ainda com outras músicas da parceria, como Luciana, Estrada Branca, Outra Vez e a indiscutível Chega de Saudade, em interpretações vocais intimistas, bastante estranhas ao comum da época — o da voz empostada e do berro. No ano seguinte, era lançado o LP João Gilberto que trazia como música de abertura a mesma Chega de saudade e abria definitivamente o período da bossa nova. Aliás, é importante dizer que a famosa batida do violão de João Gilberto já se fazia presente no disco de Elizeth.
Tom e Vinícius
Mas Vinícius ainda teria outras participações fundamentais na história da MPB. Em 1965, o “I Festival Nacional de Música Popular Brasileira” (da extinta TV Excelsior) consagrou Arrastão (composta em parceria com Edu Lobo) como vencedora. O segundo lugar foi a Valsa do Amor que Não Vem , do mesmo Vinícius com Baden Powell, defendida por Elizeth Cardoso.
Em 1966, uma nova parceria com Baden Powell gerou “Os Afro-Sambas”, uma brilhante coleção de canções de influência africana que recebeu sua maior homenagem há poucos anos, com a regravação feita por Mônica Salmaso e Paulo Bellinati.
Entre um parceiro e outro, eram criadas uma série de obras-primas da MPB. Samba da Bênção, com Baden; Marcha da Quarta-feira de Cinzas, com Carlos Lyra; Valsinha e Gente Humilde, com Chico Buarque; a lista é imensa.
Toquinho e Vinícius
Depois de 1970, foi a vez de encetar outra longa parceria, talvez a mais duradoura e prolífica delas, aquela com o violonista e compositor Toquinho. Formavam uma dupla bem diferente em qualidade das atuais. Também era diversos na postura: Toquinho empunhava um violão e Vinícius um copo de uísque. O primeiro LP já trazia Na Tonga da Mironga do Kabuletê, Testamento, Tarde em Itapoã, Morena Flor eA Rosa Desfolhada. Em 1972, eles lançaram o álbum São Demais os Perigos Dessa Vida, contendo — além da faixa-título — grandes canções como Cotidiano nº 2, Para Viver Um Grande Amor e Regra três.
Em 1979, participou de leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), a convite do líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. Voltando de viagem à Europa, sofreu um derrame cerebral no avião. Perderam-se, na ocasião, os originais de Roteiro lírico e sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
No dia 17 de abril de 1980, foi operado para a instalação de um dreno cerebral. Morreu na manhã de 9 de julho, de edema pulmonar, em sua casa na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher.
Antes do poeta, o crítico e grande conhecedor de cinema
O “Poetinha” que o Brasil admira e cultua pelo lirismo de seus versos era também um cinéfilo de carteirinha. Ao longo de toda a década de 40 e na primeira metade dos anos 50, Vinicius de Moraes exerceu, paralelamente à carreira de diplomata, intensa atividade como crítico de cinema para os jornais A Manhã e Última Hora e para as revistas Diretrizes e Sombra.
“Creio no cinema, meio de expressão total em seu poder transmissor e capacidade de emoção, possuidor de uma forma própria que lhe é imanente e que, contendo todas as outras formas de arte, nada lhes deve”, escreveu Vinicius, em artigo publicado em agosto de 1941 no jornal A Manhã. Parte do acervo literário de Vinicius, sob a guarda da Fundação Casa de Rui Barbosa, os escritos revelam que o poeta produziu análises aprofundadas sobre os grandes mestres do cinema da época, como Orson Welles, Charles Chaplin, Alfred Hitchcock, René Clair, Fritz Lang, Sergei Eisenstein, Vittorio de Sica e o brasileiro Alberto Cavalcanti.
Os rumos do cinema brasileiro e o resgate da obra de nossos primeiros cineastas também estavam nas preocupações do poeta. “Vinicius de Moraes foi importante não só como crítico de cinema, mas também como cineclubista. Foi por meio do Vinicius e das pessoas que integravam a turma dele, de cinéfilos, que o público tomou conhecimento da existência de Limite, o filme de Mário Peixoto, que estava perdido há anos”, disse Fabiano Canosa, um dos curadores do Festival do Rio.
Entre 1946 e 1950, período em que foi vice-cônsul do Brasil em Los Angeles, Vinícius estudou cinema com Welles e teve uma convivência muito grande com o meio cinematográfico de Hollywood. “Ele frequentava muito a casa de Carmen Miranda e promoveu a aproximação de muitos nomes da cultura brasileira com Hollywood nos anos posteriores à 2ª Guerra Mundial, como por exemplo o escritor Erico Veríssimo”, declarou Canosa, ex-programador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e do Public Theatre de Nova York.
O poeta
O poetinha em 1977
A poesia de Vinícius, seja na música ou nos livros de poesia, transpira paixão. Paixão pela mulher, paixão pelo divino, paixão pelo prazer transitório e pela dignidade humana. Outra palavra fundamental de seu léxico é a busca. Busca da religião que logrou encontrar na África, busca das inumeráveis musas — mulheres reais ou inventadas — e a busca do perdão para tantas infidelidades. Poeta entre o viril e o terno, entre o metafísico e o carnal, fez de sua poesia um local de encontros e de despedidas. Morreu como uma encarnação do hedonismo. Era o rei das festas, o mais saudado, o poeta do fumo, das religiões afro-brasileiras num tempo em que isso era quase escandaloso, da irresponsabilidade, da insânia e, sobretudo, da intoxicação — através do amado uísque — que une o bebedor com a deidade. E, para nossa alegria, ainda nos deixou uma extensa obra que, se não chega a ser a de um Drummond, a de um João Cabral, a de um Murilo ou a de uma Cecília, chegou mais facilmente ao coração do povo através da música. Vinícius, velho, saravá!