No próximo sábado, dia 12, às 16h, serei um dos árbitros do jogo de fundo (?) da série Coliseu, entre As cidades invisíveis (Le città invisibili, 1972), de Italo Calvino (Santiago de las Vegas, Cuba, 1923 – Siena, Itália, 1985) e Ficções (Ficciones, 1944), de Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina, 1899 – Genebra, Suíça, 1986). O evento dar-se-á na Sala Pasárgada da Feira do Livro de Porto Alegre.
Acabo de reler ambos os livros e o verdadeiramente estranho é que comecei a traçar paralelos entre eles, coisa que supunha impossível. São muito diferentes, mas, lidos um logo após o outro, transparecem algumas semelhanças. Não que interesse, claro.
Escolhi para mostrar aqui a capa de uma edição portuguesa que estampa A Torre de Babel, de Pieter Brueghel, o Velho… Bem, é apenas uma pequena brincadeira que os leitores de Borges logo entenderão. Nesta leitura, realizada com muitas interrupções, o livro de Calvino me pareceu melhor do que na primeira vez, anos atrás. Se naquela oportunidade fiquei um pouco cansado pelo fato de cada um dos 55 relatos de pouco mais de uma página descreverem sempre uma nova cidade, desta vez não ocorreu nada disso. Mas antes devo explicar rapidamente do que trata As Cidades Invisíveis. No livro de Calvino, Marco Polo conta a Kublai Kan, imperador dos tártaros, sobre as cidades que conheceu no caminho para o Oriente. São 55 retratos de cidades obviamente inventadas, todas com nomes de mulheres. As narrativas são de beleza poética impar, tanto que me fizeram lembrar Baudelaire e seus Pequenos Poemas em Prosa. As narrativas são fantásticas e delicadas, com o autor as classificando em 11 grupos, As cidades e a memória, As cidades e o desejo, As cidades e os símbolos, As cidades delgadas, As cidades e as trocas, As cidades e os olhos, As cidades e o nome, As cidades e os mortos, As cidades e o céu, As cidades contínuas e As Cidades ocultas. As breves descrições (ou poemas descritivos) são aqui e ali intercaladas por diálogos entre Marco Polo e Kublai Khan. Mas Polo não descreve as cidades fisicamente, antes as humaniza e, de certa forma, as ama.
Marco Polo (1254–1324), célebre mercador, embaixador e explorador, foi um dos primeiros ocidentais a percorrerem a Rota da Seda. O relato de suas viagens pelo Oriente, foi durante muito tempo uma das poucas fontes de informação sobre a Ásia no Ocidente. Meu pai me obrigou ler o livro As Viagens de Marco Polo quando eu tinha menos de dez anos. Lembro que foi uma péssima experiência. Ainda há dúvidas se Marco Polo fez realmente tudo o que disse ter feito ou se simplesmente narrou histórias que ouviu de outros viajantes. Calvino não tem nenhuma intenção de verossimilhança e seu estilo tem toques de surrealismo. A figura do imperador Kublai Khan parece representar os limites do poder. Por mais territórios que domine, nunca dominará ou conhecerá tudo e todos. Por outro lado, Marco Polo não prescinde do sonho e da imaginação em suas descrições. Neste ponto, ele parece uma Sherazade não ameaçada, deixando fascinantes e mágicas suas cidades que, mais que locais de domicílio com esta ou aquela característica física, são locais surpreendentes, cheios de símbolos e sonhos.
Se em As Cidades Invisíveis há grandes ligações temáticas e de estilo entre as histórias, o mesmo não se pode dizer de Ficções, que é um livro de contos divididos em duas partes — O jardim dos caminhos que se bifurcam (1941) e Artifícios (1944) — onde o próprio autor, em dois curiosos prólogos, destrói qualquer ilusão de unidade.
O problema de Ficções é que… é que… é que… é um livro que parece ter sido feito não apenas para leitores, mas para aquele determinado gênero de leitores preocupados com o fazer literário. Enormemente influenciado por Macedonio Fernández, o brilhante autor do Museu do Romance da Eterna, Borges nos mostra não apenas um portal de novas possibilidades, como a demonstração das mesmas. Tendo sido, até os anos 30, ensaísta e crítico, Borges passa a fazer ficções de leituras imaginárias. Os textos que antes provocavam seus comentários agora são imaginados. Mas isto é uma redução, pois não apenas de comentários sobre livros e mundos fictícios se fazem os contos de Ficções. Há grandes personagens — na maioria das vezes leitores — e belíssimas representações de outras camadas da realidade. Por exemplo, A Loteria de Babilônia pode receber as mais variadas interpretações — na minha opinião, por exemplo, ela representa a igreja. Há a representação do infinito em A Biblioteca de Babel e a da insônia em Funes, o Memorioso. Há uma notável argumentação sobre a forma moderna de ler textos em Pierre Menard, autor do Quixote — onde Borges nos demonstra como um mesmo trecho do Quixote pode ser lido de duas formas inteiramente diferentes. E há crimes, labirintos, violência, homens que formam outros homens em imaginações.
E, quando lemos tudo isso, parece-nos que tínhamos lido em algum lugar aquilo antes. Ou que vimos no cinema, sei lá. Pois não é culpa nossa estarmos abraçando o ícone. Pois a criação de Borges, vinda de Macedonio e lida por centenas de outros escritores desaguou em Italo Calvino, em Roberto Bolaño, em Georges Perec, em Sebald, em Vila-Matas. Pois ler Borges é como ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven ou os Concerto de Brandenburgo de Bach. É como ler as peças de Shakespeare e achar que o que se lê é um emaranhado de citações e situações conhecidas ligadas por um enredo. Parece que conhecemos tudo, ou que o texto que lemos já estava pré-instalado em nossa memória e sensibilidade, mas não se enganem, meus amigos, mesmo isso saiu de Borges.
Ficções é uma obra fundadora. Não só na literatura hispânica, mas mundial. Semana passada mesmo li Claudio Magris, um borgeano treinado e muito afiado. Pode-se colocar Ficções entre as maiores realizações do século passado. Já o Cidades fica diminuído, apesar de ser ótimo; mas a base de comparação nos faz cair no pecado da relativização, e vermos o Cidade como uma obra entre tantas, que não gerou escola, não difundiu tanta influência, não é citada de forma tão enfática como os contos do argentino.
Mas que clássico é esse! Dois dos meus favoritos. Veja lá o que vai fazer, hein Seu Ribeiro. Sei que não poderiam estar em mãos melhores mas… PqP como comparar esses dois livros infinitos, esses dois universos? Dois mundos criados por escritores cerebrais, de estilo igualmente despojado… Se o critério fosse a ideologia, seria fácil decidir. Mas, sendo a arte. Sei lá… O Sul, Funes, As Ruínas Circulares, Pierre Menard… Contra todas aquelas cidades-mulheres do Calvino.
Eu preguei os últimos parágrafos de As Cidades Invisíveis no meu mural. Ele é meu breviário político. Leio todos os dias… Ah… sei lá… surtei completamente com essa!
E o Vinícius matou a charada:
Uma ideia para próxima feira: Naked Girls Reading. Podia rolar no sábado. Confiamos em você, Milton.
Foi a comemoração atrasada do aniversário da Claudia. Vamos a algumas fotos. Fico sempre achando que ficou gente de fora das imagens. E pode ter acontecido, sim.
A comida estava demais… Nunca tinha provado o tal do locro.
Como consequência, houve gente que dormiu em pé (Augusto Maurer e Astrid Müller).
Que dormiu deitada (Heloísa Marshall).
Que chorou (Claudia Antonini com Augusto ao fundo).
Que fez arte (Vladimir Romanov).
Que trouxe arte de presente (escultura trazida pela Caminhante).
Que se dedicou apenas à arte. (Minha experiência mostra que todas as mães têm um pouco de vergonha do que seus filhos são capazes. Besteira pura.). Estrelando Nikelen Witter e Miguel Witter Farinatti.
Que teve os olhos vazados para que não dançassem (Astrid e Caminhante).
Que ficou feliz apesar das trevas (Caminhante com Elena Romanov ao fundo).
Que conversou (muitos).
Que ficou esperando beijo (Claudia e um bobão).
Que não parava de mentir (Milton e Guto “Antes faça mal que vá fora” Farinatti).
Que deixou a gente muito feliz (Vladimir e Elena Romanov). Destaque para os sorridentes Chico e Rovena Marshall.
Que também tocou demais (Alexandre Constantino).
Que comeu pra caralho (Dario Bestetti).
Que riu, ora (Helen Osório). Olhem a hora.
Que disputou sobremesa (Lia Zanini e Marcelo Delacroix).
Intermezzo (ou Serenata de Haydn): ufa, cansei de iniciar frases com quê.
Mais uma foto dos autenticamente queridíssimos Vladi e Elena.
Augusto, Astrid e a Caminhante conversam.
Laura Marshall com a Claudia ao fundo.
Helen e minha irmã Iracema.
Alexandre Constantino dá enorme atenção à Liana Bozzetto.
Laura, Sylvio e Cláudia Guglieri — a última prepara-se para dormir, como sempre.
O presente da Helen era lindo, parecia algo não vivo, sei lá. Cardamomos?
Augusto Maurer, já emburrecido pelos excessos, toma seu chá de boldo com Alexandre Constantino.
Foi um final de semana totalmente satisfatório com as visitas da Cami–nhante, da Nikelen e do Farinatti. Houve também um festim diabólico de aniversário, que teve como destaques não apenas o grupo reunido e a excepcional gastronomia, mas o belo e inesperado recital da Elena e do Vladimir Romanov, tocando uma Serenata de Haydn para a aniversariante — as lojas estavam fechadas, então a gente resolveu dar música de presente (obrigado, Elena e Vladimir) — e várias músicas brasileiras em arranjos que nos deixaram (muito) embasbacados. Era a noite do pessoal da música erudita tocar popular. O Alexandre Constantino também sentou-se ao piano para esmerilhar a bossa nova (obrigadíssimo, Alexandre!).
Porém, não adianta. A gente sempre lembra mais daquilo que não gostou. Ou daquilo que gostou menos, porque na história que vou contar há muito de gratidão, amor e respeito. Eu e o Farinatti fomos ao jogo do Inter e eu, com minha boca grande e boba, resolvi me referir antes do jogo ao fato de Gamarra, Fernandão, Iarley, Alex e muitos outros ex-jogadores do Inter terem ido ao Beira-Rio jogar, alguns marcando gols — como todos os citados — , mas sempre demonstrando seus sentimentos à torcida, pois nunca vibraram ao balançar as redes do ex-clube.
Como é característico meu, não pude deixar de dizer: “Os gremistas devem ficar loucos com isso, os caras vêm aqui e demonstram gratidão, coisa raríssima de a gente ver no outro lado”.
Então ontem, no mais importante jogo para o Internacional neste Brasileiro, Rafael Sóbis nos fez o mais doloroso dos gols, o da vitória do Fluminense. Sua reação — para demonstrar a todo o estádio que não vibraria — foi a mais cabal possível. Juntos as mãos como se rezasse, num pedido desajeitado de desculpas (vejam abaixo a foto de Alexandro Auler publicada no Impedimento). Depois, do jogo, confessou que seus filhos foram ao estádio ver papai jogar, ambos com camisas vermelhas. Dizer o quê? Triste consolo para um time de 7 milhões mensais, que joga pouco e que não irá à Libertadores 2012.
Só espero não ter que gostar de tomar gols.
E, após o jogo, Sóbis falou:
— Peço desculpas à torcida. Podem ter certeza de que estou com uma dor enorme no coração por vencer o meu time e distanciá-lo de um objetivo. Queria que esse gol fosse de outro.
O escritor chileno mais reconhecido pela crítica e pelos leitores exigentes fala de seu novo romance, onde finca os dentes, bem fundo, na história e na literatura nacionais do último meio século. Claro que fala também de outras coisas.
Noturno do Chile, o último romance de Roberto Bolaño – que já tem uma dezena de livros publicados – é um extenso monólogo de Sebastián Urrutia Lacroix, sacerdote da Opus Dei e importante crítico literário chileno, que se inicia no começo dos anos 1950, quando era recém-saído do seminário, e termina no ano 2000.
No começo da história, Urrutia Lacroix está doente, com febre, e rememora sua vida, os marcos mais importantes da sua vida, que também são os marcos mais importantes da história de seu país. Pelo monólogo desfilam personagens tiradas tanto da história quanto da imaginação do autor, embora o maior peso recaia sobre o próprio Urrutia Lacroix – que usa o pseudônimo de H. Ibacache, o padre Ibacache, para escrever suas críticas literárias – e Farewell, outra vaca sagrada da crítica nacional. As 150 páginas do romance, embora se tratem apenas de dois parágrafos (o primeiro abrange a totalidade do livro menos uma linha; o segundo é, justamente, essa linha), se leem com extraordinária facilidade.
O título que você pensou originalmente para Noturno do Chile foi “Tempestade de Merda”. Por que mudou?
Basicamente porque meu editor, Jorge Herralde, não gostava, e depois de falar com ele repetidas vezes e dizer o nome do livro repetidas vezes, eu comecei a sentir nojo; tanta “Tempestade de Merda” pode inclusive acabar com a paciência do próprio autor. Juan Villoro também desaconselhou o título original. E não me arrependo. Noturno do Chile expressa com maior fidelidade o que é o romance.
O protagonista de Noturno do Chile, o padre e crítico literário Sebastián Urrutia Lacroix, fala da “falta de ambição e infinito desespero de meus compatriotas”. Um defeito e uma virtude, respectivamente, dos chilenos?
Urrutia Lacroix é bastante lúcido. Nem sempre, mas em ocasiões sim, embora sua lucidez não seja muito diferente da de Farewell, quero dizer, a lucidez de um fazendeiro ilustrado. Geralmente a falta de ambição vem acompanhada de medo ou malevolência. Prefiro acreditar que a falta de ambição do Chile vem acompanhada de desespero infinito. A falta de ambição do Chile ou do México ou da Rússia. A realidade, no entanto, nos indica uma e outra vez que a falta de ambição vem acompanhada de malevolência, no melhor dos casos de uma espécie de letargia que pode nos levar, uma vez mais, a uma certa esperança. Podemos recordar o conto “A Bela Adormecida” e chegar a todo tipo de conclusões. Ou a história da lâmpada mágica, que durante séculos permanece oculta, quero dizer, dormindo.
Os três reconhecidos como grandes da crítica literária chilena são – foram – celibatários, dois padres e um solteirão: Omer Emeth, Alone e Ignacio Valente. Para além do tratamento do exercício crítico que você faz no seu romance, qual é a sua opinião sobre esse fato?
Bom, eu não me atreveria a vê-lo como celibatários, é difícil ser celibatário. Em qualquer caso: ser não é nenhuma maldição. É um transe permanente e que envolve alguma dificuldade. Lewis Carroll era celibatário. As letras inglesas do século XIX estão cheias de escritores para os quais o sexo parecia algo sem interesse. Aí tem algo que tem a ver com a educação, porque os elisabetanos, por exemplo, são pessoas bastante interessadas em sexo. E quase nenhum elisabetano foi ao colégio, como bem se sabe. A única resposta séria que eu posso pensar é que a poesia e a narrativa sempre tiveram os críticos que mereceram.
Em Os Detetives Selvagens, você oferece, entre outras coisas, um olhar global sobre a literatura latino-americana. Vê alguma equivalência entre esse aspecto daquele romance e sua perspectiva sobre a narrativa chilena em Noturno do Chile?
Noturno do Chile tem a mesma estrutura de Amuletoe de outro romance que eu possivelmente já não vá escrever e cujo título seria “Corrida”. São romances musicais, de câmara, e também são peças teatrais, de uma só voz, instável e mimada, entregue a seu destino, em diálogo com seu destino, e talvez, embora nisso último eu provavelmente tenha falhado, em diálogo com a tridimensionalidade que é parte do nosso destino. Essa trilogia virou um dueto.
É fácil interpretar Noturno do Chile como uma romance cifrado, sobretudo tendo em vista o título original que você pensou; mas obviamente se trata de algo mais. Você poderia dizer qual é o núcleo do romance?
Há uma estrutura, como eu dizia antes, que é basicamente musical. E também, é claro, está a tentativa de escrever um romance-rio de 150 páginas, tal como queria Giorgio Manganelli, um dos grandes escritores do século XX, que muitos poucos leram. Noturno do Chile é a tentativa de escrever a vida de uma pessoa em seis, sete ou oito quadros. Cada quadro é arbitrário e ao mesmo tempo, paradoxalmente, é exemplar, se presta à extração de um discurso moral. Cada quadro pode ser lido de forma independente. Todos os quadros estão unidos por galhinhos ou pequenos tubos, que em ocasiões são muito mais velozes, e necessariamente muito mais independentes, do que os quadros em si. Mas temo que explicar a estrutura e o travejamento interno de uma romance não faça muito sentido. Todo romance, basicamente, tem de ir direto ao prazer, o prazer da leitura. E a partir daí aonde possa ou queira.
Roberto Matta saiu faz mais de sessenta anos do Chile, nunca voltou e é considerado uma das glórias da pátria. Em compensação, consideram que você, que está fora há menos tempo e que voltou várias vezes nos últimos anos, não é chileno. Apreciação correta, ingratidão humana ou puxa-saquismo puro e simples?
Matta é um clássico, em uma acepção errada da palavra, porque clássico, o que se considera clássico, é Rembrandt, não?, e mesmo aí haveria reparos a fazer. Mas admitamos, para entendermos que Matta é um clássico, um surrealista que está na superfície quando hoje o surrealismo vive no subsolo e provavelmente não se chama mais surrealismo; talvez Matta seja o último surrealista sub sole e suas obras, como se sabe, se cotam aos olhos da cara nos mercados de arte de Nova York, Paris e Milão. Tudo isso, essa virtude cuja tradução mais justa seria a do ouro, pesa muito na hora das apropriações nacionais. Em todo caso o assunto é absolutamente irrelevante. Não acho que Matta aprecie muito seus defensores pátrios.
Numa entrevista recente, você opinou que não é o objeto da escrita que define a chilenidade. O que é, então?
Não me lembro dessa entrevista. Provavelmente, como sempre, disse muitas bobagens. Não me preocupo com a definição de chilenidade. Também não me interessa a definição – a fixação de fronteiras, quando a natureza das fronteiras é naturalmente difusa – da americanidade, nem da espanholidade, nem da ocidentalidade. Acredito que já temos o suficiente com o mistério do ser humano e suas construções mentais, para não mencionar suas construções reais, tangíveis, que em ocasiões se assemelham à loucura pura e em ocasiões, mais raras, a algo que poderia parecer com a felicidade, a resignação, o vazio.
Vários críticos e escritores opinam que César Aira, Rodrigo Rey Rosa, Juan Villoro e você (e mais um ou outro escritor, dependendo do ponto de vista) são os escritores latino-americanos mais relevantes de sua geração. Você está de acordo?
No que diz respeito a Villoro, Aira e Rey Rosa, completamente de acordo. Eu me excluiria imediatamente. E acrescentaria Rodrigo Fresán, em cuja obra começa a se refletir o grande escritor que é e, sobretudo, que será, e Horacio Castellanos Moya e Carmen Boullosa.
Tirando os recém-mencionados, quais são os escritores de que você mais gosta na sua geração?
Gosto de Padilla e Volpi, do crack mexicano. Do também mexicano Mauricio Montiel. Dos espanhóis José Carlos Somoza, Javier Cercas, Pablo D’Ors. Piglia e Alan Pauls, argentinos. Gosto do peruano Bayly. Do colombiano Santiago Gamboa. Do salvadorenho Castellanos Moya (que eu já mencionei), recentemente publicado na Espanha, e que é o único dos escritores da minha geração que sabe narrar o horror, o Vietnam secreto que a América Latina foi durante muito tempo. Fresán e Boullosa já mencionei. Com certeza estou esquecendo agora de alguém muito bom, e isso que só fiquei no âmbito da narrativa em língua espanhola. Obviamente, faltam Javier Marías e Vila-Matas, herdeiros primogênitos do boom.
Você disse alguma vez que se definia como poeta em primeiro lugar e como romancista em segundo plano. Continua pensando assim? Porque está claro que a narrativa demanda mais tempo de você.
Num país como o Chile, onde nem os especialistas em poesia sabem o que é um dímetro coriâmbico, é perigoso se definir como poeta. Digo que à maioria dos, assim chamados, poetas chilenos é suficiente executar (mal) e entender (pior) o blank verse elisabetano. Acrescento que no Chile se dança a dança do pentâmetro iâmbico não rimado, mas todo mundo (acadêmico) ignora as virtudes do hendecassílabo solto, que vem a ser a mesma coisa que o blank verse. Se somos todos filhos de tigre, por que nos comportamos como gatos?, se perguntava Nicanor Parra. A cada dia tenho suspeitas mais fundadas de que não somos, afinal, filhos de tigre, senão de gatos. E assim nos comportamos como filhotes, e por aí vai.
Um escritor sul-americano, Hernán Rivera Letelier, disse que acha suas obras repetitivas, pouco originais e chatas, que sempre falam das mesmas coisas. O que você acha desse parecer crítico.
Hernán Rivera Letelier está vivendo seu sonho, que ninguém, por outra parte, presenteou, e meu único desejo é que o viva até o final, e que aproveite como um valente. Por outro lado, duvido muito de que Rivera Letelier tenha lido dois livros meus. Na verdade, duvido muito de que tenha lido qualquer livro meu.
Você parece manter uma relação de amor e ódio com o conjunto da literatura chilena. Você se sente parte de uma tradição ou veio fundar uma nova com base nos mesmos materiais?
Eu só espero ser considerado um escritor sul-americano mais ou menos decente que morou em Blanes (perto de Barcelona) e que amou essa cidadezinha. O conjunto da literatura chilena é lamentável. Mas isso não sou eu dizendo, é qualquer um que já leu mais de cem livros na vida. O conjunto da atual literatura francesa, salvo exceções notáveis, também é lamentável, os próprios franceses dizem isso e ninguém, absolutamente ninguém, se mata por isso.
Desculpa te fazer uma pergunta muito repetida: quem você resgataria de verdade da atual narrativa chilena? Sabemos que recomendou Pedro Lemebel ao Jorge Herralde, seu editor espanhol. Existe para você mais alguém que valha a pena?
Não só uma pessoa, mas várias. Acho o Roberto Brodsky um escritor magnífico, e também Gonzalo Contreras. Eu diria que Contreras e Brodsky são os melhores, o primeiro é bem conhecido, e é bom que seja assim, enquanto Brodsky opera num nível mais secreto, construindo uma obra em duas direções aparentemente díspares, por um lado difícil, onde se pode rastrear o peso de Onetti, e por outro lado leve. O melhor conto policial que eu já li, escrito por um autor chileno, é do Brodsky.
Ruim. Mas esse é o adjetivo que quase todas as antologias merecem. É muito difícil fazer uma antologia. E quando se trata de poesia, as dificuldades são ainda maiores.
Por motivos semiprofissionais tenho que ler rapidamente As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, e Ficções, de Jorge Luis Borges. O Calvino já foi lido e hoje comecei o argentino. Li-o há tanto tempo que — bem, pensava lembrar-me de tudo, mas não é exatamente assim. O curioso é que quando indagorinha comecei a ler o livro de Borges, veio-me à cabeça o disco Tubular Bells (1973) de Mike Oldfield. Nossa, faz mais de trinta anos que não ouço esse vinil! Pensei nos anos de leitura de um e de audição do outro e soube o que vocês, meus sete espertos leitores, já descobriram. Sim, tudo da mesma época.
Acabo de baixar o CD e o ouço neste momento. É mais ou menos um pastiche de coisas que tem tanto a ver uma com a outra como o livro de Borges tem com o de Calvino. Não, Borges e Calvino têm mais a ver, certamente. São narrativas curtas, cheias de fantasia (acepção antiga da palavra) e nas páginas há mundos sendo permanentemente construídos como em poucos livros. Reli os dois primeiros contos — Pierre Menard, autor do Quixote é enlouquecedoramente belo em sua concisão e Tlön, Uqbar, Orbis Tertius é excelente — o que não é perfeito neste livro? — , mas os contos seguintes me agradam ainda mais, sei disso.
Amanhã, vou buscar a Cami–nhante (2 links) no aeroporto. Depois, sábado à tarde, chegam a Nikelen e o Farinatti. São uns chatos, vão ficar dando voltinhas pela cidade antes de virem para cá, os putos. Encontro de blogueiros é algo tão démodé quanto Mike Oldfield, então chamemos de um encontro entre amigos que se conheceram por via virtual. Hã? Nem isso, pois apenas vale para a Caminhante, porque os outros foram (re)conhecidos pelas vias convencionais.
… mas hoje fui trabalhar com a camiseta abaixo. A foto é de Bárbara Ribeiro, a qual gostaria de ter ido a escola hoje com a mesma. Chupa Babi! Quem manda acordar tarde?
Colocado no Facebook pelo Flavio Prada. Aliás, saudades dele e de Riva! Até dos filhos dele sinto saudades, mesmo que eles tenham colocado um saco de risadas todo enrolado dentro da minha fronha!
Tenho lido com muito incômodo algumas manifestações sobre a saúde do ex-presidente Lula. Gente que sugere que se trate pelo SUS. Aqueles que me conhecem sabem que não votei nele e que sou muito crítico às suas posições, mas embrulha-me o estômago perceber todo esse ódio. Política para mim é debate de ideias e nunca desejo de morte. Por trás dessas manifestações existe um comportamento mau, insensível e pouco ético. Como seres humanos, eu e ele, torço para que se recupere bem.
Ricardo Ramos Filho é neto de Graciliano. Não surpreende, né?
De J. S. Bach, ária para contralto da Cantata BWV 42, Am Abend aber des selbigen Sabbats. A indicação de Adagio é seguida fielmente por Rudolf Lutz e seus meninos. Muito bonito.
Identifico-me muito com este reclame durante a época da canícula em Porto Alegre. É luta frequentemente inglória, mas as pesquisas dizem que os feromônios têm o condão de acalmar as mulheres… Mas deve haver limites. Nada de níveis paroxísticos da substância, correto?
Porto Alegre, Feira do Livro, sábado, 12 de novembro, às 16 h, ocorrerá mais uma temeridade. O Sport Club Literatura estará na Tenda Pasárgada da Feira do Livro e eu, juntamente com Tatiana Tavares, serei o árbitro deAs Cidades Invisíveis, de Italo Calvino x Ficções, de Jorge Luis Borges. A Tenda Pasárgada, para quem conhece a Praça da Alfândega de Porto Alegre, estará localizada de modo discreto e quase invisível como as cidades de Calvino na notória posição entre o Memorial do RGS e o Santander Cultural. Haverá um outro jogo, arbitrado por Joana Bosak e Rubem Castiglione reunindo Crônica de uma Morte Anunciada, de García Márquez e Travessuras da menina má, de Vargas Llosa. Dois jogaços. Dois clássicos de arrebentar… com os comentaristas.
Nestes dias, releio os livros que me couberam. Estou no Calvino, que é bem melhor do que eu lembrava. Logo após relerei Borges, mas talvez nem fosse necessário, pois Ficções parece estar instalado há mais de vinte anos em meu cérebro. À leitura!
Eu, Bárbara, Bianca, Claudia e Bernardo em bela cristalização do fugidio — também conhecida pelo vulgo como “foto” — tirada no casamento da terceira. Para sempre. Eu abro o parêntese, o qual é maravilhosamente fechado por meu filho. Já tinha bebido algum espumante, mas não creio que tal fato tenha alterado alguma coisa em nosso comportamento.
Maria João tinha ensaiado um concerto de Mozart. Foi quando viu Riccardo Chailly fazer, junto com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam, a introdução de outro concerto de Mozart. Totalmente perturbada, ela diz para Chailly que ia tocar o que desse ou o que lembrava. O resultado é que ela tocou todo o concerto até o final sem cometer nenhum erro. Bem, é a Maria João, mas mesmo assim é espantoso.
Charles Kiefer diz que gostaria de ser um homem calmo como foi seu avô. Porém, após conhecê-lo, fica difícil imaginar alguém mais mais tranquilo que o escritor. Kiefer recebeu o Sul21 em seu gabinete na PUCRS e a impressão que tivemos é a de que poderíamos ter conversado muito mais do que a uma hora e quarenta minutos que está resumida a seguir.
Nascido em Três de Maio, no noroeste do Rio Grande do Sul, Kiefer tem 30 livros publicados, foi oito vezes finalista do Prêmio Jabuti – ganhou três -, dá aulas na universidade, comanda oficinas literárias, fundou uma associação de incentivo à leitura e guarda na gaveta mais de um livro quase pronto para publicação. Toda essa atividade parece natural ao sorridente professor.
Suas notas biográficas apontam que nasceu em 1958 e que estreou na ficção em 1982, com Caminhando na chuva, novela que já está na 20ª edição e vendeu 100 mil exemplares. Sairá uma nova edição em 2012, comemorativa aos 30 anos de lançamento do livro, pela editora Leya. Porém, logo abaixo saberemos que Caminhando é seu quarto livro e que os anteriores são comprados e queimados pelo próprio autor.
“A literatura não tem mais esse espaço formador da sociedade, mas ela é um relicário, é a coisa mais bonita que a língua pode reproduzir, e é esse papel que ela tem nas sociedades desenvolvidas” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Há algumas décadas atrás, o escritor era considerado o reflexo ou uma espécie de reserva moral da sociedade, uma figura importante, ouvida sobre vários assuntos de sua época. Hoje ele foi deslocado deste papel. Qual é, atualmente, o papel do escritor na sociedade?
Charles Kiefer – Boa pergunta, hoje dei uma aula sobre isso. Discutimos sobre o realismo e a função social do escritor. Mas eu começaria a responder falando sobre um livro que eu adoro, chamado Era uma Vez a Literatura, de José Hildebrando Dacanal, no qual ele diz que numa sociedade iletrada, onde a base social são analfabetos ou semiletrados, o escritor vira gigante, pois ele domina um código oculto. Então, numa sociedade de baixo nível cultural, a literatura toma um papel fundamental, assim como nas sociedades recém-formadas. Quando tu não tens um conceito de nação, a literatura é quem faz o papel de construtora da identidade nacional. No Conesul, se não existisse o romance de Ricardo Güiraldes, Don Segundo Sombra, essa imagem do gaúcho que temos hoje não existiria. A literatura está por trás disso. Ela é quem trouxe a imagem que chamamos, na teoria, de mitopoética, que acaba reproduzida pela população.
Podem falar o que quiserem do Lula, mas ele fez a maior distribuição de renda da história do país. E tudo sem guerra, numa revolução social feita em silêncio.
Sul21 – Isso numa sociedade rebaixada.
Charles Kiefer – Sim, daí vem um negócio chamado democracia… Podem falar o que quiserem do Lula, mas ele fez a maior distribuição de renda da história do país. E tudo sem guerra, numa revolução social feita em silêncio. Por exemplo, aqui na PUCRS, 40% dos meus alunos vêm do Prouni, são bolsistas e alunos maravilhosos, pois sabem que aquela é a única chance deles, e a agarram com tudo. Enfim, o que está acontecendo é que nós estamos entrando para o que antigamente a gente chamava de concerto das nações. Antes a gente tocava um bumbo lá no fundo e de forma desafinada, agora somos primeiro violino, dando tom para o resto da orquestra. A literatura ainda tem um espaço num contexto destes? Não. E sim, ao mesmo tempo. Ela não tem mais esse espaço formador da sociedade, mas ela é um relicário, é a coisa mais bonita que a língua pode reproduzir, e é esse papel que ela tem nas sociedades desenvolvidas. Ela conserva e reproduz beleza artística, assim como o cinema, o teatro, a música, a pintura. Aquela coisa do “doutô” da literatura, que é letrado e superior, acabou, não há mais distinção. Agora nós temos um papel de ator coadjuvante. E a outra coisa que aconteceu foi a internet. O conhecimento, que antes era um feudo, está distribuído, o poder está distribuído. Com a internet cada vez mais barata, tu escreves o teu texto, tu fazes o teu jornal. Essa disseminação da informação, essa democratização, tem consequências ainda desconhecidas, muito interessantes, como as que houve nos países do norte da África e na Espanha.
“Nós não enxergamos as coisas maravilhosas que estão feitas pois quem as está realizando são nossos vizinhos, nosso amigos, colegas, contemporâneos” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Vários ensaístas reclamam que nas últimas décadas houve uma decadência geral na qualidade artística, tu concordas?
Charles Kiefer – Isso é uma baita bobagem. Nós não enxergamos as coisas maravilhosas que estão feitas pois quem as está realizando são nossos vizinhos, nosso amigos, colegas, contemporâneos. Quando a gente tiver distanciamento crítico a gente vai ver a qualidade de muitas coisas. Talvez estejamos vivendo uma nova Renascença. Leio textos fantásticos até em sala de aula.
Sul21 – E os grandes temas estão mantidos?
Charles Kiefer – Amor, dinheiro, poder, guerra e paz?
Sul21 – Eu diria morte, também, e deus.
Charles Kiefer – Sim, sim, mas eu gosto de colocar as coisas em duplas dialéticas, amor e ódio, vida e morte, guerra e paz, fé e ciência. Acho que os grandes temas estão presentes desde o início do tempos, senão não interessa. Apenas mudou a abordagem.
Sul21 – E é curioso como a literatura dialoga com o restante das artes. Se tu melhoras o nível da leitura, melhoras todo o resto em termos culturais, a música, o cinema, o debate político, a visão de mundo…
Charles Kiefer –– … até o cabelo, a roupa, a arte muda totalmente uma pessoa.
Se, como diz o Harold Bloom, Shakespeare inventou o humano, Poe inventou o homem moderno.
Sul21 — Voltando à questão dos grandes temas, a literatura busca novos temas, ou ela usa mesmos do passado?
Charles Kiefer – Eu escrevi um livro todo sobre isso, A Poética do Conto: de Poe a Borges – um passeio pelo gênero. O último cara na civilização ocidental que acrescentou coisas novas ao imaginário popular foi Edgar Allan Poe. Isso em 1840, 1849… naquela década. Olha só o que o Poe inventou literariamente: ele inventou o romance policial, o alienígena, as viagens espaciais, inventou também o romance psicológico, dedutivo. A única coisa que ele não inventou é toda essa comunicação de internet. Ele quase chegou a criar isso, num conto dele, de um jogador de xadrez automático.
Sul21 – O Autômato Jogador de Xadrez.
Charles Kiefer – Exato! Ali já é um computador. Ele poderia ter ido adiante e inventando algum sistema eletrônico que resolvia o negócio. Se, como diz o Harold Bloom, Shakespeare inventou o humano, Poe inventou o homem moderno. Entretanto ele não é um grande escritor, as histórias dele são mecânicas, os personagens são maníacos, muito neuróticos, o amor é pouco natural, não há nele seres humanos verdadeiros, há obsessões, ele abriu o caminho para Stephen King, Lovecraft.
“Dacanal me disse uma vez que o meu último livro bom foi Valsa para Bruno Stein. Talvez ele tenha razão pois acho que agora eu me volto muito para o lado da razão, não deixo tanto a emoção extravasar” Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Como funciona o projeto Associação Jovem Leitor?
Charles Kiefer – Nós temos muitos escritores, está faltando é leitores. A AJL é uma entidade civil, pública. Eu e os meus alunos fazemos projetos de leitura, criamos bibliotecas e doamos livros para crianças e jovens das comunidades menos aquinhoadas. Temos vários tipos de projetos para atender várias necessidades. Aproveitei o momento em que era patrono da Feira do Livro para dar maior visibilidade ao projeto.
Sul21 – Como foi montado?
Charles Kiefer – Eu fui para os Estados Unidos há anos atrás e vi as tais Gideon Bibles, umas bibliazinhas pequenas onde estava escrito take it, coloquei no bolso e pensei “que coisa legal”. E dentro estava escrito que aquilo era resultado da decisão de alguns ricos empresários cristãos que distribuíam bíblias de graça. E pensei “por que não fazer isso com literatura?”. Eu estava sempre com essa ideia de ficar um dia rico, e quando estava hospitalizado – passei dezessete dias sem nada para fazer -, fiquei pensando, lendo, e constatei que grande parte do PIB do Estado passava pela minha sala de aula nos ensinos particulares. Há gente riquíssima estudando e pensei “por que não reunir todo esse pessoal para fazer algo? Vamos fazer uma associação”. E então mandei um e-mail para os meus alunos e a coisa explodiu. Agora temos CGC, eu fui o primeiro presidente, agora é o Ayala Aguiar. Trabalhamos em parceria com a Câmara Riograndense do Livro. Há muita gente que conseguiu vencer e ganhar dinheiro na vida sem grande instrução. Há muitos alunos de mais idade e bom poder aquisitivo em oficinas minhas, eles notam que estão atrás do resto dos alunos e me pedem indicações de livros, de coisas para preencherem estas lacunas e vencer o atraso. Eles conseguem e sabem o quanto é importante o complemento cultural.
Sul21 – Teu primeiro livro foi escrito aos 17 anos. Soube que tu desejas jogar fora todos os exemplares, queimar se possível…
Charles Kiefer – Verdade, eu compro nas livrarias e queimo. E é pior, porque são três livros, na verdade: O Lírio do Vale, Vozes Negras e Os Caminhantes Malditos. Me arrependo de tê-los publicado. Mas é lógico que não posso tirar o primeiro degrau da escada. Eu era jovem, imaturo, o peso da emoção naqueles livros era infinitamente maior que o da razão. Com essa idade você é só sentimento. E, enfim, depois veio Caminhando na Chuva, que é o primeiro livro do escritor, enquanto os outros são livros do adolescente. Ele é na verdade meu quarto livro, mas a própria editora colocou-o como o primeiro.
Sul21 – Caminhando na Chuva é um grande livro.
Charles Kiefer – Com 53 anos eu posso olhar para trás e achar interessante, mas na época eu nem percebia. (risos) Quando eu tinha 22 anos, morava ali na Avenida Pará, em Porto Alegre, em cima de um açougue, num lugar horrível, e daí eu pensei que minha adolescência estava acabando e que nunca mais teria aqueles sentimentos e emoções. Eu estava vendo novas coisas surgindo em mim, sabia que estava mudando; foi então que decidi, é agora ou nunca, ou registro isto ou nunca mais vou ter a oportunidade. Sentei e escrevi o livro em 17 dias. Quando eu comecei a escrever, queria fazer um memorial de adolescente, sob o ponto de vista de alguém que está saindo dessa fase mas ainda está nela. Por isso tem aquele ar de autenticidade, eu consegui o equilíbrio. O Dacanal me disse uma vez que o meu último livro bom foi Valsa para Bruno Stein, “depois tu só escreveste porcaria”. Talvez ele tenha razão pois acho que agora eu me volto muito para o lado da razão, não deixo tanto a emoção extravasar, apesar de ter feito coisas meio loucas como O Escorpião da Sexta-feira.
“Vi parentes e amigos sendo considerados selvagens, como se viessem do interior para matar e destruir a civilização ocidental” Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Onde tu colocas a questão da razão e da emoção no excelente Quem Faz Gemer a Terra?
Charles Kiefer – Ah, esse livro foi muito repensado, eu passei uns seis meses pensando “de que ângulo vou partir para contar essa história?”. Eu vi aquela briga do Olívio (Dutra, na época prefeito de Porto Alegre) enfrentando baionetas, eu vi tudo ao vivo, e quando cheguei em casa a imprensa já estava transformando todos em marginais, era tudo uma mexicanada zapatista e eu me enfureci, um furor santo, e decidi escrever o livro. O fato de eu ser de Três de Maio também me feriu, pois vi parentes e amigos sendo considerados selvagens, como se viessem do interior para matar e destruir a civilização ocidental. Então, quando eu fiz o recorte, vi que tinha o problema do foco narrativo e pensei muito. Até que chegou o momento em que concluí que tinha que contar do ponto de vista do colono. E eu precisava expressar isso numa linguagem ou do colono ou minha, mas escolhi um meio termo, pois ele está preso, o fato aconteceu cinco anos antes e ele recebeu muitas visitas, até de jornalistas, e contou tanto a história, tantas vezes, que o discurso já está polido. Foi o modelo estrutural ideológico que desenvolvi para conseguir equilibrar a visão do personagem com a minha sem errar muito.
Foi feita uma tremenda injustiça contra os seres humanos que formavam o Movimento dos Sem Terra. Já eram ladrões de terras e viraram monstros assassinos.
Sul21 – Lembro dos jornais no dia seguinte. A morte de um brigadiano foi tratada como “massacre”. Era um caso difícil, havia um corpo e os jornais apareciam cheios de argumentos para não dar nenhuma dimensão humana ao sofrimento dos colonos. Parecia que o mundo burguês ia acabar pelas mãos do MST.
Charles Kiefer – O acontecimento foi grave, claro. Mas foi feita uma tremenda injustiça contra os seres humanos que formavam o Movimento dos Sem Terra. A imprensa já os tinha transformado em ladrões de terra. Viraram monstros assassinos. Indignado com isso, escrevi o livro. Até hoje essa pecha segue associada ao MST. O fato é que eles enfrentam o setor mais conservador da sociedade, então parece adequado qualificá-los como sua antítese, o que não é verdade. O livro é um relato muito autêntico.
Eu era muito na minha, não visitava muito os outros, tinha poucos amigos. Eu tinha uma relação ruim com a minha terra.
Sul21 – E o colono veio morar na Avenida Pará… Tu eras um menino pobre de Três de Maio que ouvia Bach, Mozart e Beethoven.
Charles Kiefer – Eu era muito na minha, não visitava muito os outros, tinha poucos amigos. Eu tinha uma relação ruim com a minha terra. É complicado… Eu era pobre, estudava numa escola de crianças ricas, pois minha mãe conseguiu uma bolsa de estudos para mim. Eu não tinha dinheiro para comprar sequer comida no recreio, levava um pãozinho de milho com melado que abria para comer. Era a piada da escola. Eu tinha que ir comer bem afastado num campo de futebol para ficar em paz.
“Lembrei das vezes que fui correndo para um homem sentado numa cadeira de balanço, lendo, e daí, quando desejo ir para o colo dele, minha avó me segura e diz ‘Não vai lá porque ele está lendo'” Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Bullying?
Charles Kiefer – Eu acho que sim, eles implicavam com um blusão de lã que eu tinha, eles pegavam no meu pé, eu coloco isso no Caminhando na Chuva. Era um blusão que eu tinha ganhado da minha mãe e usava ano após ano, era o que ela tinha conseguido me dar, enfim. Mas nada disso me influenciou muito, o que realmente tem peso são meus avós, meu avô paterno era um grande leitor e ainda era músico. Lembro de quando era criança, eu sentado no colo do meu avô, ele contando as histórias do Charles De Coster, como As Aventuras de Till Eulenspiegel. Esse autor ninguém conhecia aqui no Brasil. Meu avô era violinista também, chegou a tocar numa orquestra em Cachoeira do Sul, ele e um irmão dele. Eles casaram com duas mulheres irmãs e foram viver no mesmo terreno, mas as mulheres brigaram, e um dia o irmão do meu avô, de madrugada, bateu com o facão na porta gritando “vem pra fora se tu é homem”. Meu avô, que era muito calmo – era o homem que eu gostaria de ser e não sou – , me contou que, se pegasse o facão e saísse, seria um morto ou um assassino. Então ele não saiu, mas fez as trouxas dele para ir embora para sempre com a mulher. Naquela madrugada, estava saindo um comboio de carroções, como no faroeste, de pessoas indo para a serra. Ele já tinha sido convidado para ir mas não aceitou, daí mudou de ideia e colocou a mulher, os dois filhos, e foi embora, durante dezoito dias no meio do mato até chegar em Três de Maio. Havia três localidades, uma perto da outra – Consolata, Vista Alegre e Caravaggio –, formadas de minifúndios. Mas, enfim, a influência mitopoética que mais me influenciou foi quando eu descobri, numa análise em divã, a imagem do meu bisavô. Lembrei das vezes que fui correndo para um homem sentado numa cadeira de balanço, lendo, e daí, quando desejo ir para o colo dele, minha avó me segura e diz “Não vai lá porque ele está lendo”. Aquilo era um misto de sentimentos, de ciúmes do livro, da magia daquele negócio. Ele tinha aquela caixinha mágica, eu ficava esperando que dobrasse aquele monte de papéis, fechasse a caixa, para então ficar livre para ir lá no colo dele. E ele contava, abria a caixinha e mostrava o que estava dentro. Eu lembro disto, do louco desejo de conhecer aquilo, por isso já estava lendo aos três anos. Ele gostava muito do que se chama Bildungsroman.
Pois esse meu bisavô era um assassino. Ele matou o outro e jogou o corpo no mar, pegou os documentos, e virou Losekann. Quando chegou aqui viveu a vida do outro.
Sul21 – O romance de formação de origem alemã.
Charles Kiefer – Sim, ele lia bons livros e é uma figura mítica para mim, ele era de uma leva de alemães que foram para a Rússia, e se deram muito mal por lá, ficaram miseráveis e tiveram que migrar. E bem, há um crime na minha família, que foi o que originou meu primeiro romance que vou ter de reescrever logo. Pois esse meu bisavô era um assassino. Numa viagem de navio, uma mulher que tinha um jovem marido se apaixonou por outro homem, ele. E ele matou o outro e jogou o corpo no mar, pegou os documentos, e meu bisavô, que era qualquer coisa, virou Losekann, quando chegou aqui, viveu a vida do outro. Claro, não havia foto nos documentos, ninguém o conhecia, não deve ter sido difícil mudar de identidade.
Sul21 – Que história fantástica.
Charles Kiefer – Eu precisava escrever um romance sobre isso, né? Não podia ignorar. A minha bisavó, quando estava para morrer, livrou-se da angústia chamando toda a família ao pé da cama, e contou para seus filhos que o pai deles era um assassino. Ela até falou o nome real dele mas ninguém anotou, ninguém teve coragem. Eu até procurei, mas ninguém lembrava.
“As grandes editoras têm uma política de o escritor ter de vender um determinado número de exemplares para eles te tornarem top da editora, para elas investirem de fato em ti” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Uma família alemã de sangue quente essa… Mas eu li no teu blog um texto reclamando que teus livros passaram para a Record e tu achaste que ia aumentar muito as vendas, mas não foi o que ocorreu.
Charles Kiefer – É, é uma coisa meio lamurienta mesmo. O ponto principal é o fato de que quem vendia x exemplares por ano, hoje vende muito menos, e isso é para todos. Com a internet, o pessoal lê menos livros, mas veja como são as coisas: eu publiquei aquele ensaio Para ser escritor e em menos de 40 dias o livro esgotou a primeira edição. Já está na 2ª ou 3ª e circula em oito países. Mas ele não é ficção. Há uma estatística da Associação Mundial do Livro que revela que a ficção está caindo 20% ao ano nas últimas duas décadas. Para isso acho que há uma explicação psicanalítica, psicológica. Hoje em dia, as novas mídias já nos suprem completamente a necessidade de ficção. Na internet você vê filmes em poucos cliques, dentre tantas outras coisas. Há milhares de textos, interesses, estímulos. Por que você vai então ler? Além disso, há problemas de distribuição. As grandes editoras têm uma política de o escritor ter de vender um determinado número de exemplares para eles te tornarem top da editora, para elas investirem de fato em ti. Elas tem uma curva de equilíbrio que tem de ser atingida em tantos dias, e se isso não acontece você fica meio de lado. Elas também não ajudam a tua performance pois não fazem reposição. E bem, aumentou geometricamente o número de autores no mercado, e eu até contribuí com isso através de minhas oficinas. Somando-se a isso o problema de distribuição e a internet, a venda vai lá embaixo. Hoje em dia tenho certamente mais leitores dos meus blogs do que dos meus livros. Eu já até fiz uma coisa louca com a Editora Leya. Eu não cobro direito autoral adiantado. Nunca sei se vou morrer ou não, não quero ficar com conta para pagar. Então, depois de três meses eles me apresentam a primeira prestação de contas. É um dinheiro efetivo que entra. Pela Record, eu recebi já por 3 mil exemplares de uma edição e estou em dívida, pois eu só vendi 6 exemplares no último trimestre. O livro, que é de contos, está em débito com eles, vou demorar uns 50 anos para pagar. Meu novo livro está pronto, Dia de Matar Porco, mas eu preciso revisar, fechar bem ele, e falei para minha editora fazer um contrato para daqui dois anos e sem adiantamento.
Hoje em dia tenho certamente mais leitores dos meus blogs do que dos meus livros.
Sul21 – Me diz como foi tua experiência como secretário municipal de Cultura e secretário adjunto?
Charles Kiefer – Não quero falar disso… o que passou passou.
Sul21 – Foi tão ruim?
Charles Kiefer – Foi bem ruim, mas… Aconteceu uma coisa maravilhosa, que foi minha filha Sofia. Acabei me envolvendo de fato com a Marta nessa época porque a política nos ajudou, a gente estava sempre se encontrando. Casamos e tivemos a Sofia. Foi o que de melhor me trouxe a política…. o resto é resto andthe rest is silence (risos).
Sul21 – Tu tens três Prêmios Jabutis, né?
Charles Kiefer – Sim, e fui oito vezes finalista. Perdi até para o Chico Buarque…
Sul21 -Tu perdeste para Budapeste ou para Estorvo?
Charles Kiefer – Foi um estorvo na minha vida. (risos) Olha, talvez tu me perguntes sobre o caso Edney x Chico…
“Todo mundo nasce para ser escritor, basta ter as condições para isso, condições culturais, sociais para ser galado do ponto de vista da literatura” Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – É óbvio.
Charles Kiefer – Ser jurado de prêmio é muito complicado. Eu dou um prêmio, o Prêmio Sofia de Literatura, dou 3 mil reais para o primeiro lugar, e mais 3 mil reais para o primeiro lugar dos alunos. Eu contrato especialistas em literatura para dar um dos prêmios, e os próprios colegas dão o outro. Esse ano aconteceu algo incrível: os especialistas deram seus prêmios e os alunos deram exatamente a mesma coisa, só que na ordem inversa… Isso mostra que cada pessoa lê um livro diferente.
Sul21 – Com quais livros tu ganhaste o Jabuti?
Charles Kiefer –Com o O Pêndulo do Relógio, Um outro Olhar e Antologia Pessoal.
Daí eu me dei conta de que uma coisa que funcionava maravilhosamente bem eram as oficinas literárias, os workshops. Então pensei em ganhar um extra e abrir um curso.
Sul21 –Bem, vamos falar das tuas oficinas, há alunos épicos que estão há 18, 19 anos contigo.
Charles Kiefer –Engraçado né? Isso começou quando eu estava em Iowa, nos Estados Unidos, convidado pelo governo americano para o International Writing Program. Lá, além de frequentar algumas aulas na universidade, a gente fez um grupo de escritores latino-americanos e alguns asiáticos e europeus. Nos reuníamos nas quintas à noite, no salão de festas de nosso prédio, para apresentar textos uns aos outros. A gente contratava uma moça alemã para nos traduzir, o Marcelo Carneiro da Cunha também traduziu vários contos meus também. Mas olha… eu gastei cerca de 51 mil dólares lá, um dinheiro nada meu, o governo americano pagava todo o transporte e estadia. Quando a gente quisesse viajar era só ligar para Washington – talvez por isso estejam tão mal hoje… E eu ainda trouxe dos EUA um dinheiro suficiente para comprar um apartamentinho ali na Santo Antônio onde eu coloco minhas quinquilharias, é meu escritório. Mas enfim, daí eu me dei conta de que uma coisa que funcionava maravilhosamente bem eram as oficinas literárias, os workshops. Então pensei em ganhar um extra e abrir um curso. Foi na Casa de Cultura Mário Quintana. Daí, no dia que cheguei para a primeira aula, a Simone Schmidt, que era chefe do departamento de literatura da Biblioteca Lucília Minssen, me disse que teríamos que cancelar: tinha apenas três inscritos. Eles não poderiam me pagar o cachê. Então eu decidi fazer de graça para respeitar o trio. Se Mozart fez concerto para apenas um em Paris, por que o Charles Kiefer não daria aula para três? Hoje eu tenho sete turmas particulares, dou aula aqui de noite (na PUCRS), de manhã na Palavraria, e tenho 1400 pessoas em lista de espera. Tem gente há oito anos esperando uma vaga. Eu desmanchei os dois grupos de sábado pois vou dar aula aqui também, e ali estava o Reginaldo Pujol Filho, que participava há 17 anos.
Sul21 – Eu sou um cético em relação às oficinas…
Charles Kiefer – Como o Dacanal…
Sul21 – Ele tem um livro contra as oficinas. Quais seriam os teus argumentos a favor então?
Charles Kiefer – Uma vez, um professor que me entrevistava fez uma pergunta mais ou menos assim. Daí eu brinquei com ele e disse que todo o ovo nasce para ser galo ou galinha, mas se o ovo não for galado não vai ser nada além de um ovo. Todo mundo nasce para ser escritor, basta ter as condições para isso, condições culturais, sociais para ser galado do ponto de vista da literatura. Bem, eu estou participando da equipe que está montando o Curso de Mestrado e Doutorado de Escrita Criativa. Pela primeira vez na América Latina haverá um curso assim, com cadeiras específicas, de estudo de cinema, teatro, literatura, poesia. Olha, é um curso integral, fascinante.