Mortes em torno do fim de semana

Primeiro foi Christopher Hitchens, depois Cesária Évora, Sérgio Britto, o Santos, Joãosinho Trinta, Václav Havel e agora Kim Jong-il. É muita morte.

Ia escrever sobre o Santos, o futebol brasileiro e o Barcelona. Mas o Juca Kfouri e o Tostão disseram tudo o que eu diria. Até o Mano Menezes disse. O futebol brasileiro e sul-americano pararam no tempo. Culpa de dirigentes e treinadores, certamente. O Barcelona escolheu uma direção e foi. Isso vem desde Rinus Michels, passando por vários holandeses como Cruyff, Louis van Gaal, Frank Rijkaard, além de jogadores daquele país que foram moldando um esquema de jogo sob os olhos indiferentes de quase todos. Hoje, o catalão Guardiola faz milagres. Merito seu e dos que vieram antes. Nada de chutões, nada de explorar muito as bolas paradas, nada de “esperar o adversário”. A obsessão é ter a bola — parece que sem ela o adversário fica sem ação — e, quando esta é perdida, a busca da recuperação ocorre em qualquer lugar do campo, sem a maldita recomposição defensiva. O time joga junto com os jogadores próximos uns dos outros.

Uma vez, ouvi o Andrade, que não é nada trouxa, dizer a respeito do Barcelona: “Quando você não tem a bola, o cansaço é duplo”. Pois o Barça fica com ela 70% do tempo, esgotando a paciência e o físico do adversário. É claro que há o dinheiro e as contratações, mas há muito, muito além disso.

Para fazermosalgo semelhante no Brasil, há que ter uma direções com políticas claras e grande estabilidade de treinadores e comissão técnica. Sem isso, podemos esquecer.

O resultado todos viram, não preciso falar a respeito. Aprenderemos?

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Muito obrigado, Hitch

Morre um ateu. Seu #GodIsNotGreat vai para os Trending Topics do Twitter. Cristãos fazem ameaças de morte. Twitter retira a tag. Prova-se a tese do livro.

Certa vez um evangélico perguntou a Christopher Hitchens: “numa cidade estrangeira, um grupo de homens vem na sua direção. Você se sentiria mais ou menos seguro se soubesse que eles vêm de um encontro religioso?”. A resposta é puro Hitch: “posso lhe GARANTIR que me sinto MAIS ameaçado, porque já passei por isso. Quer que eu fique só na letra B? Belfast, Belgrado, Belém, Bagdá, Bombaim e Beirute”. Nocaute.

Retirado do facebook de Idelber Avelar

Eu não sou ateista nem anti-ateista. Eu apenas afirmo que todas as religiões são versões das mesmas inverdades e que a influência das igrejas e o efeito das crenças religiosas é altamente nefasto.

Christopher Hitchens

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Londres: a música ou a Música imbatível da cidade

Um dia, quando já estávamos em Paris, passamos na frente de um bar onde havia música ao vivo. Era horrível. Nos olhamos: “Dificilmente ouviríamos algo tão ruim em Londres”. A gente se acostuma rapidamente com o que é bom. Em Londres, há boa música até nas lojas. Em sua maioria, trata-se apenas e simplesmente de música popular inglesa — nova e antiga. Camden Town e Portobello Road, sobre os quais falarei depois, são festas sonoras e, comprovando que as músicas legais ou de qualidade acima do normal circulam mesmo, dobrando uma esquina, havia uma loja de camisetas punk tocando Essa moça tá diferente, de Chico Buarque…

Mas minha área é a da música erudita. Eu já sabia, claro, que o movimento de música erudita em Londres era muito grande, mas não imaginava aquilo que (ou)vi. Muitos concertos de alto nível, todos lotados ou quase, todos com várias opções de preços. No luxuoso Queen Elizabeth Hall (capacidade para 900 pessoas), por exemplo, os ingressos custam 35, 28, 21, 14 e 7 libras, sendo que comprando os de 7 libras a gente senta lá atrás, quase na última fila, porém a acústica é tão boa que o som que nos chegava do Hagen String Quartet não nos fazia invejosos de quem estava lá na frente. Como podemos ver pela foto abaixo, o QEH é imenso, mas o som dos dois violinos, da viola e do violoncelo eram ouvidos com muita clareza, de uma forma como nunca se ouve em Porto Alegre, em sala nenhuma, pois nossos construtores se esquivam de considerações acústicas mesmo nos empreendimentos novos e novíssimos.

O concerto do Hagen Quartet no Queen Elizabeth Hall teve programa com Haydn, Shostakovich e Brahms. O bis foi o divertido Allegretto pizzicato do Quarteto Nº 4 de Béla Bartók. Uma noite perfeita. Abaixo, o Amadeus toca a peça de Bartók com menor de brilhantismo:

A 8ª Sinfonia de Mahler, que vimos no Royal Albert Hall, não é nada rotineira fora dos circuitos onde a múisca erudita trafega com naturalidade. Bem, na estreia, sob a regência do próprio Mahler, havia 1023 pessoas no palco, entre oito solistas, coro duplo e coro infantil, orquestra duplicada e órgão. Veni Creator Spiritus (Vem, Espírito Criador!), canta o coral no início, dando música ao poema medieval do monge Hrabanus Maurus. Mahler fazia retornar de forma muito particular e original a voz a suas sinfonias, o que depois ele faria ainda melhor em A Canção da Terra.

Abaixo, um jovem Bernard Haitink rege a obra, provavelmente no Concertgebouw de Amsterdam com os incríveis coro e orquestra de lá.

Assistimos embasbacados. Quando do início da música — trecho acima — , meus olhos se encheram de lágrimas. Não, não sou disso. Tudo tremia e eu também. Fiz a contagem de quantos estavam no palco. Contava cada fila de músicos e cantores e, a cada dez, memorizava o cabelo do último contabilizado. Multiplicou as filas, somou tudo e chegou a 870. O palco estava lotado, o teatro idem.

Na noite anterior nós tínhamos assistido a ópera La sonnambula, de Bellini, no Royal Opera House (capacidade para 2300 pessoas), que fica no Covent Garden. Montagem, cantores e orquestra luxuosas; preços camaradas. No intervalo, vimos um monte de gente fazendo piquenique nos corredores. Como os ingleses jantam cedo e a ópera era às 19h30 — como quase todos os concertos noturnos da cidade — , às 21h eles estão starving. Então, muitos levam um farnelzinho improvisado, sentam nos corredores e matam a fome. O curioso é que trazem tudo em caixinhas organizadas, sem esquecer do cálice de vinho e de um guardanapo para por no pescoço. Ficamos nos sorvetes…

E o que dizer da igreja St. Martin-in-the-Fields, uma igreja esquecida de suas inglórias funções e que se tornou um enorme café em sua cripta, oferecendo concertos praticamente diários no andar de cima? O que há de especial é sua extraordinária — verdadeiramente estupenda — acústica. E quem se apresenta lá, é claro. As coincidências ajudam. Eram 19h20 quando eu e minha cara-metade passamos na frente de uma igreja que tinha um estranho “olho torto”.

Quando demos a volta pensando em ir para a Trafalgar Square, vimos um cartaz cujo texto era mais ou menos assim:

London Musical Arts at St. Martin-in-the-Fields
John Landor, reg.
Beethoven — Symphony #3
Vocês têm só 10 minutos para comprar os ingressos
e chegarem a seus lugares

Esta orquestra é verdadeiramente fantástica e mereceram cada aplauso quando finalizaram a sinfonia. Ali, durante a Marcha Fúnebre, eu ouvi o melhor som de contrabaixo que registro em minha memória. Dois dias depois, voltamos lá a fim de assistir o Réquiem de Fauré com The Locrian Ensemble, London Chorale e mais Kevin Kenner ao piano, pois havia a um concerto para piano de Mozart no início do programa. Regência de Stephen Ellery. Neste concerto, houve um momento mágico: Ellery desculpou-se pelo fato da orquestra ter chegado cansada do Japão e de não ter podido ensaiar a Pavana de Fauré que fazia parte do programa. A peça substituta seria apresentada pelo pianista Kenner. E, logo após o concerto de Mozart, o próprio anunciou Peace Piece, de Bill Evans. A execução, iniciada num improviso de poucos dedos que não poderia lembrar mais o autor, seguida do tema e de nova improvisação, foi de notável sensibilidade. Quando o cara terminou, a plateia ficou por alguns segundos meio hipnotizada, demorando a aplaudir ou desejando que aquele momento se mantivesse um pouco mais. Coisa de louco. Só isso já valeu as 10 libras investidas.

Em resumo, para os melômanos, Londres vale a pena MESMO. Alguns de nossos ingressos foram comprados na internet com cartão de crédito. Os da Saint Martin foram adquiridos na hora. A oferta de música se renova a cada semana, dando-nos a vontade de nunca mais sair de lá. Só posso amar a cidade. Mas virão mais motivos.

As fotos são minhas. Apenas as fotos diurnas do QE Hall e o RA Hall foram roubadas por aí.

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Religião, eu gosto

Enquanto escrevia um post sobre a música em Londres, dei de cara com uma imagem que resume a sedução que a religião exerce sobre mim. (Apréz Ateísmô e Peitôs, claro).

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A hora do espanto

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As novas edições da Penguin dos romances de Jane Austen

Ei, Raquel Sallaberry! (Todo mundo sabe, mas não custa repetir que a Raquel possui este belo sítio).

Vi a nova coleção na Shakespeare and Company. Te mete…

Milton Ribeiro examina os livros, mostrando a bunda para seus sete leitores

As fotos são de minha autoria, o que significa dizer que são uma merda. Para piorar, elas são proibidas dentro da Shakespeare. Então, tirei-as velozmente. Desculpa, Raquel. Falei para a minha mulher quando do ilícito: “Tenho que tirar. Essas fotos são para o Jane Austen em Português“. As capas de tecido são lindas e boas de tocar.

Se alguém quiser ampliar a ruindade das fotos, basta clicar sobre elas. Ah, e por falar em Penguin, ela comprou 45% da Companhia das Letras, sabiam? Amanhã voltamos a Londres, OK?

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Quem de nós, de Mario Benedetti

Vivi tanto nesta semana que nem parece que ainda é quarta-feira. Meu equivocado relógio interno indica sexta. Talvez um dos motivos seja a súbita leitura deste primeiro romance de Mario Benedetti, Quem de nós (Record, 83 páginas). Li-o quase todo ontem à noite, enquanto esperava, num restaurante, que minha mulher e amigos — Jussara e Branco — chegassem do concerto da OSPA. É que tinha devolvido meu ingresso a quem me dera e ficara sem…

Jamais chamaria Quem de nós (1953) de novela. É um romance curto, um excelente e intenso romance curto. A narrativa — que no Brasil recebeu o duvidoso complemento de Uma História de Amor (ver capa ao lado, sob o título) é dividida em três partes muito diferentes entre si e que justificam plenamente a epígrafe de Auden que lemos assim que abrimos o volume:

I shall never be Different. Love me.

O verso faz parte do Hymn to St. Cecilia, mas eu falava sobre as três partes. Elas se chamam Miguel, Alicia e Lucas e são escritas em primeira pessoa. Os três personagens se conhecem desde a adolescência. Miguel e Alícia são casados e têm dois filhos, mas o marido, uma pessoa daquelas que alguns chamam de “simples”, tem certeza que a mulher tem tudo em comum com o amigo Lucas. Afinal, ambos têm os mesmos interesses, a mesma ironia, cultura, etc. Na época do casamento, Lucas saiu de Montevidéu para viver em Buenos Aires e não mais voltou. Ao longo de 11 anos de separação, Miguel e Lucas apenas trocaram cartas, e sempre, ao final delas, aparecia um tímido recado de Alícia: “Carinhosas lembranças ao bom amigo Lucas”.

O livro abre com a narrativa de Miguel, a qual ocupa mais da metade do livro. As anotações são datam de logo após Miguel levar Alicia ao porto de Montevidéu para ir a Buenos Aires visitar Lucas. Baseado numa rigorosa baixa auto-estima que o faz quase empurrar a mulher para o amigo, Miguel tem a certeza de que ela não voltará para ele. Não devo contar o que virá a seguir, é claro. Mas algumas observações devo fazer. A parte escrita por Lucas (tradutor e escritor) vem na forma de um conto, um work in progress cheio de anotações de rodapé com os nomes dos personagens alterados. Não sei contar contos; sei reconhecer o conto em alguma coisa que vejo ou experimento. Depois deformo, acrescento, tiro. Vem também na prosa voluntariamente truncada de quem está meio escrevendo, meio anotando.

A grande curiosidade do livro não é nem pela psicologia ou por minha identificação com as situações e personagens. O que me seduziu foi como a franqueza de Miguel e Alicia foi estranhamente rebatida por uma meia ficção: a força desta chega a ser assustadora em relação ao naturalismo das duas primeiras partes. Benedetti nos engana — passa uma impressão de simplicidade enquanto nos destroça.

Nada menos que genial.

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Londres: a Catedral Evolucionista de São Carlos, mais conhecida como Museu de História Natural

Quando acordamos em nosso primeiro dia de Londres, fomos direto para o Natural History Museum. Talvez seja uma curiosidade interessante a de sublinhar que, no caminho até o Museu, feito a pé por mais ou menos 12 quadras, não vimos nenhuma outra igreja. A frente é imponente como convém a uma entidade religiosa:

Todos os museus tem a simpática característica de serem gratuitos e de estarem cheios de crianças e de professores explicando tudo o que se vê. Aliás, tudo está cheio em Londres — concertos (mesmo os eruditos menos populares), assim como feiras, shows, museus e pubs. Também surpreende o tranquilo controle dos pequenos, não há descontrole, gritos ou correria, as crianças ficam bem comportadas e interessadas, coisa que não costumamos ver no Brasil. E, pasmem, nem ostentavam sinais de torturas.

Logo à entrada, vemos o esqueleto de Dippy, um dinossauro de 32 m, assim conhecido por ser um Diplodocus carnegii. O da frente, bancando o elegante, é outro gênero de dinossauro.

Na foto acima, na parte de trás da espaçosa nave central do templo, está a figura excelsa de São Carlos, padroeiro e santo protetor deste blogueiro. Tive pudor — o que mais me resta neste mundo? — de apresentar-lhes uma foto que me incluísse ajoelhado frente ao santo. Vai então esta aqui, menos devocional, mais contida e secular.

Meus caros sete leitores, tenho que lhes dizer uma coisa. Tenho centenas de fotos do museu e estou me segurando para não fazer um PHES Darwinista. Então, pausa para o chá. Tomamos um tea for two para nos acalmar; afinal, passei anos contando a mesma piada: Shakespeare foi o maior gênio do século XVII, Bach o do século XVIII, Darwin o do XIX, Freud o do XX e Celso Roth o do XXI. (OK, esqueçam. Tem mais graça quando dramatizado). Mas chega de tergiversações e falemos sobre o que há no Museu.

O Museu de História Natural de Londres foi fundado em 1881 como parte do Museu Britânico, mas atualmente é um organismo à parte, mantido pelo Ministério da Cultura. Há um prédio novíssimo agregado ao prédio histórico, o espetacular Darwin Center. Há de tudo, mas o principal, em minha opinião, são os espécimes coletados por São Carlos. A biblioteca contém extenso material que inclui livros, jornais, manuscritos e coleções de arte ligadas a pesquisa científica (fantásticas!). Mas o que faz a alegria das crianças e, OK, nossa, é a exposição permanente de esqueletos de dinossauros. Porém, nós, intelectuais maduros, elitistas e arrogantes, escolhemos o local para rezar e agora faremos uma pequena excursão por alguns locais santificados.

Enquanto caminhamos, lendo a respeito da história da vida em nosso planeta e observando fósseis e figuras, é impossível não olhar para o alto a fim de admirar os detalhes do prédio e da decoração.

Querubins?
Anjinhos?

Tais figuras ficam sobre as galerias do deslumbrante Museu. Vejam que legal a foto abaixo.

Os três níveis do prédio vistos do segundo andar. Nos detalhes, mais serafins

Como funciona a visita? Há a visita à evolução propriamente dita, incluindo imagens, animais empalhados, fósseis e amostras colhidas por Darwin e outros, com explicação de origem geográfica e “posição evolutiva”. Depois existe uma parte infantil onde há um Tyrannosaurus Rex movimentando-se e emitindo sons terríveis — gostei muito! — e o Darwin Center, onde ficam os pesquisadores. Na área de exposições do DC, é explicado o método científico de identificação de novas espécies de animais e plantas, assim como daqueles em risco de extinção. Fica inteiramente desnecessário qualquer discurso ecológico. Os fatos falam por si.

Sob o sol londrino, o blogueiro posa desajeitado na entrada do Darwin Center

Para finalizar este despretensioso relato, fotos de crianças desenhando “tartaruguinhas” no Museu e do terrível T. Rex.

Sentadas, observando a Criação
Desenhando o bicho, certamente para um trabalho de aula
As camisetas da catequese
Numa sala escura e enfumaçada, o T. Rex ruge e dá rabanadas para espanto e gritos das crianças

E, na saída, as cores do outono londrino que, segundo minha esposa, combinam com a camisa deste daltônico que vos escreve.

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Londres: os pubs

Vou começar uma pequena série sobre nossa viagem a Londres e Paris. Aos apaixonados por Paris já vou dizendo que gostei mais de Londres. Paris é mais bela e monumental, mas Londres é vida pura. Bem, mas não adiantemos o que, penso, será explicado ao longo dos posts. Como primeiro fomos a Londres, comecemos por um aspecto dela que certamente não é o melhor, os pubs.

Há 58 mil public houses na Inglaterra. Em Londres, nas zonas não apenas residenciais, é difícil caminhar três quadras sem esbarrar em um. O pub é um estabelecimento licenciado para servir bebidas alcoólicas. Há pequenas diferenças entre pubs, bares, botecos e tavernas, mas isto não nos interessa agora. Fizemos obviamente várias excursões aos pubs próximos de onde nos encontrávamos, na West Cromwell Road, quase na esquina com Earl`s Court Road, próximo à estação de metrô de mesmo nome, Earl`s Court. Pois, saindo diariamente da estação do metrô e caminhando em direção à West Cromwell, passávamos por dois pubs, e também por dois supermercados, três restaurantes (dois italianos e um português), lavanderias, enfim.

O segundo pub do caminho era o mais bonitinho e típico. Logo o elegi como “nosso pub“. Fomos ali na primeira noite londrina. Como todas vezes em que entramos num, deparamo-nos com um ambiente civilizado, bonito e alegre. Como no Brasil, o bar é uma extensão da casa. Entra-se aos berros, falando em futebol, em sexo ou qualquer coisa. Muitos clientes entram com seus cães, coisa que ridiculamente não fazemos. Foi uma noite de Guiness, Amstel e de comermos fish and chips, pois queríamos comer o que eles comem.

Bem acompanhada, minha cara-metade estuda Londres

A primeira surpresa foi com a sistemática do pub. Se vocês chegarem e sentarem esperando pelo atendimento, ficarão chupando o dedo. Há que ir ao balcão a fim de fazer o pedido. Mais, há que pagar previamente. Aliás, tudo é acertado antes. Há um meio-garçom que serve apenas para entregar os pratos de comida e levar talheres, essas coisas. A bebida você a leva para sua mesa logo após o pagamento. Gostei do modus operandi. É muito mais rápido, eliminando a espera pelo garçom, pela conta e pelo troco. A coisa é prática e, do ponto de vista do pub, segura. Nenhum bebum negocia sua conta na saída. E só bebe após pagar. O famoso fish and chips é algo de constrangedora simplicidade. Consiste em peixe frito envolvido em polme (espécie de à milanesa), acompanhado por batatas fritas. Como sou um dos raros seres humanos que é indiferente à batatas fritas, comi o peixe — que era bem gostoso — e digeri as batatas junto com a cerveja na intenção de não ficar excessivamente bêbado.

O fish and chips

Se vejo-me obrigação de elogiar os civilizados pubs, critico o maldito english breakfast, também servido neles. Os pubs abrem normalmente às 10h da manhã — horário em servem o delicado café da manhã a ser descrito adiante — e fecham tarde da noite. A cozinha fecha às 22h30, mas o pessoal segue bebendo. Não vi nenhum deles com horário para fechar, o que achei estranho, pois narrativas de amigos falavam nisso.

Sempre achei natural que levássemos nossos cães em bares e ônibus. Os ingleses levam.

Aliás, assim como a alimentação, os horários deles diferem dos nossos. O dia inicia com o breakfast. Então, ali pelas 13h, eles matam um sanduíche nos parques. Estes podem ser boníssimos. Eu devorava os de salmão defumado ou camarão, que são coisas de louco. O jantar é comido por volta das 18h e os concertos — parte importante de nossa vida londrina — , começam às 19h30. Mas enfrentemos o english breakfast.

O traditional english breakfast custa 5,99 libras (aproximandamente R$ 21) na maioria dos locais e, numa bela manhã dominical — ou, de forma mais realista — , em nosso único domingo na cidade, fomos comê-lo. Na ida, já sabia que ia odiar, mas tinha que conhecer a merda. E, bem, é uma merda: trata-se de uma insana gordurama.

Flagrante do horror 

Uma pequena descrição do que vemos acima: em sentido horário, começaremos com o feijão branco abaixo. Ele vem meio durinho e o molho de tomate acima é açucarado. Vem açucarado. É um horror. Seguindo nossa rota, vemos à esquerda um cogumelão muito gostoso que é a única iguaria decente no prato. OK, além do tomate. Depois há um ovo, que comemos com o pão; somados a dois salsichões pra lá de gordos que são complementados por dois bifões de bacon. Tudo isso vem acompanhado de chá ou chá com leite — este um vício que adquiri na eletivamente britânica Buenos Aires. Quando saí de lá, pensava com devoção no Dr. Hilário Wolmeister, meu cardiologista, sempre preocupado com meu descontrolado colesterol que costuma bater nos 300. Eu sentia a gordura entupindo minhas veias, matando meu coração e criando coágulos que acabariam por visitar pontos fatais de meu corpo. Saí do pub louco para caminhar, correr, sonhava com uma salada.

E os ingleses amam o tal breakfast e outras coisas que são, sem dúvida, a origem dos sanduíches do MacDonald`s. Não os comentarei aqui porque não os comi.

Gostei muito das noites nos pubs, claro. Cervejas extraordinárias, sidras monumentais, um ambiente alegre e várias mulheres enchendo a cara sozinhas, coisa que atribuo a costumes bem mais livres que os nossos. Mas o povo londrino é papo para outro dia.

Boa cerveja. O copo que está atrás é de Bailey`s.

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Foto inédita mostra Dilma em interrogatório em 1970

Deu na revista Época. A foto diz muito, nossa! Será que saiu daqueles arquivos que (dizem que) não mais existem? Ela tinha 22 anos. Após 22 dias de prisão, ela respondia a um interrogatório na sede da Auditoria Militar do Rio de Janeiro.

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Merval Pereira, o estilista da ABL

Ontem, no aeroporto Antonio Carlos Jobim, comprei O Globo, o qual me pareceu a coisa mais parecida com um jornal dentre as ofertas. Além de encontrar um montes de erros, inclusive em manchetes, deparei-me com meu primeiro texto de Merval Pereira, a mais recente aquisição da Academia Brasileira de Letras. O parágrafo inicial é de apenas uma frase. Deixo-vos em companhia dela. Meus sete leitores me deixariam feliz se quisessem deitar suas opiniões nos comentários.

Do momento em que um jovem vendedor ambulante de frutas e verduras se imolou em praça pública no interior da Tunísia, em protesto contra os desmandos das autoridades, até hoje, um ano depois, quando seu gesto continua desencadeando manifestações populares na região que já derrubaram nada menos que três ditadores, e levaram às urnas, pela primeira vez em eleições democráticas, vários países, houve uma “reinvenção da liberdade”, valor central da condição do homem moderno.

Proust e Bernhard ficariam certamente envergonhados

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Coisa linda o Google ontem, né?

Eu estava saindo de Paris para Porto Alegre quando vi esta beleza de homenagem. Mark Twain nasceu em 30 de novembro de 1835. Grande escritor.

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Voltaremos em 2 de dezembro

Ter uma mulher que viaja muito tem suas vantagens. A primeira é que as ausências dela ajudam a não desgastar a relação e até fazem com que a gente sinta saudades, eventualmente, um do outro. É saudável. A segunda é que ela acumula milhas. E são tantas que às vezes sobra pra gente. Então, este blog viajará entre hoje e o dia 1º de dezembro. O destino não é nada humilde, vamos para Londres — interessante cidade onde os museus são gratuitos e se paga para entrar em igrejas — e Paris — onde temos amigos a visitar e pães a consumir. Os planos são simples e rotineiros: muitos concertos e intermináveis caminhadas.

Antes de sair, ainda encontrei este site inspirador.

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Coisa de feriado

Estávamos almoçando quando alguma coisa cinematográfica nos levou a falar em Jack Nicholson (1937). Minha filha — uma apaixonada por Kubrick que recém re-re-re-reviu O Iluminado — perguntou qual seria o maior ator de todos os tempos do cinema. Respondi que o senso comum respondia que era Marlon Brando (1924-2004), mas que eu preferia Erland Josephson (1923) e Marcello Mastroianni (1924-1996). Minha mulher votou em Vittorio Gassman (1922-2000). De nosso trio, fico com Josephson e não abro. Ingmar Bergman, Andrei Tarkovsky, Theo Angelopoulos e outros não estão errados.

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E Borges venceu Calvino…

Por 4 x 2 ou 4 x 3, não lembro bem. Acho que o jogo estava 4 x 2 mas, quando li os últimos parágrafos de As Cidades Invisíveis, o italiano descontou.

Olha, foi uma ótima partida. Mas antes quero agradecer aos comentaristas deste post pelos belos textos que me deixaram (lá também está a explicação sobre o que estou falando). Imprimi tudo, levei todos comigo e, algumas horas antes da palestra, dei uma olhada. Gostei muito de conhecer o “Luiz Penetra”. Mas foi meio apavorante, porque a conclusão a que cheguei foi a de que houve pouca concordância. Fiquei pensando se plateia também não teria suas opiniões pessoais sobre Ficções e o livro de Calvino. Tinham, claro. O resultado foi uma boa discussão sobre os livros. E o legal foi como  todos sabiam muito bem do que estavam falando e suas disposições para defender suas teses: por exemplo, o Luiz Paulo Faccioli parece saber de cor até a ordem dos contos de Ficções; a Cíntia Moscovich, muito veemente, deu um show; um arquiteto defendeu Calvino invocando As Cidades Delgadas 1; Lu Thomé defendeu-o com absoluta paixão; enquanto eu e a Tatiana Tavares estávamos dispostos a fazer Borges vencer…

Foi a primeira vez que as pessoas pediram o microfone para discordar, concordar, opinar, acrescentar, etc.

O grande diferencial desta edição do Sport Club Literatura foi a participação intensa do público. Borges x Calvino trouxeram as pessoas para a discussão. Não deixa de ser um grande elogio à Feira do Livro.

Na manhã de sábado, soubemos que nossa iniciativa tinha vencido o Prêmio Fato Literário 2011 no juri popular. Agora vamos ver o que decidirá o outro juri. Parece que vai ter festa se vencermos.

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Perfeito para o fim da noite

Hélène Grimaud interpreta o Adagio do Concerto Nº 23 para Piano e Orquestra de Mozart. Não, nada disso — engana-se quem pensa que a moça é apenas bonita.

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A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?

Por Eliane Brum

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada…”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

– Você é evangélico? – ela perguntou.
– Sou! – ele respondeu, animado.
– De que igreja?
– Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
– Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
– Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
– Legal.
– De que religião você é?
– Eu não tenho religião. Sou ateia.
– Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
– Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
– Deus me livre!
– Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
– (riso nervoso).
– Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
– Por que as boas ações não salvam.
– Não?
– Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
– Mas eu não quero ser salva.
– Deus me livre!
– Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
– Acho que você é espírita.
– Não, já disse a você. Sou ateia.
– É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
– Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
– É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto…

O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:

– Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
– Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.

A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.

Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.

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Anotações parciais e não revistas para o jogo entre As Cidades Invisíveis e Ficções

No próximo sábado, dia 12, às 16h, serei um dos árbitros do jogo de fundo (?) da série Coliseu, entre As cidades invisíveis (Le città invisibili, 1972), de Italo Calvino (Santiago de las Vegas, Cuba, 1923 – Siena, Itália, 1985) e Ficções (Ficciones, 1944), de Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina, 1899 – Genebra, Suíça, 1986). O evento dar-se-á na Sala Pasárgada da Feira do Livro de Porto Alegre.

Acabo de reler ambos os livros e o verdadeiramente estranho é que comecei a traçar paralelos entre eles, coisa que supunha impossível. São muito diferentes, mas, lidos um logo após o outro, transparecem algumas semelhanças. Não que interesse, claro.

Escolhi para mostrar aqui a capa de uma edição portuguesa que estampa A Torre de Babel, de Pieter Brueghel, o Velho… Bem, é apenas uma pequena brincadeira que os leitores de Borges logo entenderão. Nesta leitura, realizada com muitas interrupções, o livro de Calvino me pareceu melhor do que na primeira vez, anos atrás. Se naquela oportunidade fiquei um pouco cansado pelo fato de cada um dos 55 relatos de pouco mais de uma página descreverem sempre uma nova cidade, desta vez não ocorreu nada disso. Mas antes devo explicar rapidamente do que trata As Cidades Invisíveis. No livro de Calvino, Marco Polo conta a Kublai Kan, imperador dos tártaros, sobre as cidades que conheceu no caminho para o Oriente. São 55 retratos de cidades obviamente inventadas, todas com nomes de mulheres. As narrativas são de beleza poética impar, tanto que me fizeram lembrar Baudelaire e seus Pequenos Poemas em Prosa. As narrativas são fantásticas e delicadas, com o autor as classificando em 11 grupos, As cidades e a memória, As cidades e o desejo, As cidades e os símbolos, As cidades delgadas, As cidades e as trocas, As cidades e os olhos, As cidades e o nome, As cidades e os mortos, As cidades e o céu, As cidades contínuas e As Cidades ocultas. As breves descrições (ou poemas descritivos) são aqui e ali intercaladas por diálogos entre Marco Polo e Kublai Khan. Mas Polo não descreve as cidades fisicamente, antes as humaniza e, de certa forma, as ama.

Marco Polo (1254–1324), célebre mercador, embaixador e explorador, foi um dos primeiros ocidentais a percorrerem a Rota da Seda. O relato de suas viagens pelo Oriente, foi durante muito tempo uma das poucas fontes de informação sobre a Ásia no Ocidente. Meu pai me obrigou ler o livro As Viagens de Marco Polo quando eu tinha menos de dez anos. Lembro que foi uma péssima experiência. Ainda há dúvidas se Marco Polo fez realmente tudo o que disse ter feito ou se simplesmente narrou histórias que ouviu de outros viajantes. Calvino não tem nenhuma intenção de verossimilhança e seu estilo tem toques de surrealismo. A figura do imperador Kublai Khan parece representar os limites do poder. Por mais territórios que domine, nunca dominará ou conhecerá tudo e todos. Por outro lado, Marco Polo não prescinde do sonho e da imaginação em suas descrições. Neste ponto, ele parece uma Sherazade não ameaçada, deixando fascinantes e mágicas suas cidades que, mais que locais de domicílio com esta ou aquela característica física, são locais surpreendentes, cheios de símbolos e sonhos.

Se em As Cidades Invisíveis há grandes ligações temáticas e de estilo entre as histórias, o mesmo não se pode dizer de Ficções, que é um livro de contos divididos em duas partes — O jardim dos caminhos que se bifurcam (1941) e Artifícios (1944) — onde o próprio autor, em dois curiosos prólogos, destrói qualquer ilusão de unidade.

O problema de Ficções é que… é que… é que… é um livro que parece ter sido feito não apenas para leitores, mas para aquele determinado gênero de leitores preocupados com o fazer literário. Enormemente influenciado por Macedonio Fernández, o brilhante autor do Museu do Romance da Eterna, Borges nos mostra não apenas um portal de novas possibilidades, como a demonstração das mesmas. Tendo sido, até os anos 30, ensaísta e crítico, Borges passa a fazer ficções de leituras imaginárias. Os textos que antes provocavam seus comentários agora são imaginados. Mas isto é uma redução, pois não apenas de comentários sobre livros e mundos fictícios se fazem os contos de Ficções. Há grandes personagens — na maioria das vezes leitores — e belíssimas representações de outras camadas da realidade. Por exemplo, A Loteria de Babilônia pode receber as mais variadas interpretações — na minha opinião, por exemplo, ela representa a igreja. Há a representação do infinito em A Biblioteca de Babel e a da insônia em Funes, o Memorioso. Há uma notável argumentação sobre a forma moderna de ler textos em Pierre Menard, autor do Quixote — onde Borges nos demonstra como um mesmo trecho do Quixote pode ser lido de duas formas inteiramente diferentes. E há crimes, labirintos, violência, homens que formam outros homens em imaginações.

E, quando lemos tudo isso, parece-nos que tínhamos lido em algum lugar aquilo antes. Ou que vimos no cinema, sei lá. Pois não é culpa nossa estarmos abraçando o ícone. Pois a criação de Borges, vinda de Macedonio e lida por centenas de outros escritores desaguou em Italo Calvino, em Roberto Bolaño, em Georges Perec, em Sebald, em Vila-Matas. Pois ler Borges é como ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven ou os Concerto de Brandenburgo de Bach. É como ler as peças de Shakespeare e achar que o que se lê é um emaranhado de citações e situações conhecidas ligadas por um enredo. Parece que conhecemos tudo, ou que o texto que lemos já estava pré-instalado em nossa memória e sensibilidade, mas não se enganem, meus amigos, mesmo isso saiu de Borges.

Charlles Campos escreveu:

Ficções é uma obra fundadora. Não só na literatura hispânica, mas mundial. Semana passada mesmo li Claudio Magris, um borgeano treinado e muito afiado. Pode-se colocar Ficções entre as maiores realizações do século passado. Já o Cidades fica diminuído, apesar de ser ótimo; mas a base de comparação nos faz cair no pecado da relativização, e vermos o Cidade como uma obra entre tantas, que não gerou escola, não difundiu tanta influência, não é citada de forma tão enfática como os contos do argentino.

E o Farinatti respondeu:

Mas que clássico é esse! Dois dos meus favoritos. Veja lá o que vai fazer, hein Seu Ribeiro. Sei que não poderiam estar em mãos melhores mas… PqP como comparar esses dois livros infinitos, esses dois universos? Dois mundos criados por escritores cerebrais, de estilo igualmente despojado… Se o critério fosse a ideologia, seria fácil decidir. Mas, sendo a arte. Sei lá… O Sul, Funes, As Ruínas Circulares, Pierre Menard… Contra todas aquelas cidades-mulheres do Calvino.
Eu preguei os últimos parágrafos de As Cidades Invisíveis no meu mural. Ele é meu breviário político. Leio todos os dias… Ah… sei lá… surtei completamente com essa!

E o Vinícius matou a charada:

Uma ideia para próxima feira: Naked Girls Reading. Podia rolar no sábado. Confiamos em você, Milton.

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Os exagerados

Mas vale a pena ler e acreditar, claro. Aqui, aqui e aqui, por ordem alfabética.

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O Papa como grande herói do mundo

Pô, Ratz, aceita a proposta da moça! 500 bilhões de dólares — acho que a estimativa está abaixo do real — é dinheiro que não acaba mais.

Ah, ela é Sarah Silverman.

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