Ser saudável nem sempre resulta em boa aparência

Na verdade, às vezes dá muito errado! As latinhas de Gillian McKeith e de Nigella Lawson — OK, admitamos que Nigella nasceu com mais sorte — , ambas de 51 anos, apresentam estados muito diferentes de conservação… McKeith é aquela apresentadora que cheira o cocô de gente gorda na TV inglesa. Ela se compraz em fazer sofrer as pessoas cuja vida examina. Por exemplo, bota sobre uma mesa tudo o que um gordão vai comer num mês e berra com o coitado. É uma sádica, atitude que faz muito sucesso na TV inglesa, onde pessoas comuns aparecem nos programas para serem corrigidas e humilhadas (Super Nanny e mais uns três ou quatro que não vou lembrar agora, mas que passam ad nauseam no canal pago GNT). O sadismo lhe fez mal, nossa.

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Os festins diabólicos

Festim Diabólico foi a forma que o tradutor brasileiro encontrou para deixar Rope (Corda), de Alfred Hitchcock, com um título mais sedutor ao público nacional. O novo nome ficou ridículo, em minha opinião, mas sempre que me convidam para uma festa me vem o termo à cabeça: “Um festim diabólico!”. O filme foi feito em 1948 e é uma proeza técnica do diretor inglês, enquanto a única proeza técnica de nossas festas é o (chato, chato, chato e que atrapalha nossa vida nos dias seguintes) deslocamento de um baú. A vantagem é que ele nunca passou por cima do pé de ninguém, como fez a pesadíssima câmara durante as filmagens de Rope, que destruiu o pé de um operador. Mas não é este meu assunto. Apesar de possuirmos um baú onde caberiam vários corpos, meu assunto são os festins lá de casa.

Pois há uma frequência quase mensal deles. O número de pessoas varia entre quinze e quarenta. As festas lá de casa não costumam ter pretextos aparentes, servem apenas para que a gente se divirta. Porém… Deixem eu dizer uma coisa: acho que as festas valem principalmente por seu efeito posterior, pois elas se fazem sentir nas horas e nos dias seguintes. As festas seguem na minha cabeça e na dos outros, tenho certeza. Cumprimentos, lembranças, esquecimentos de celulares, piadas repetidas, telefonemas de agradecimento, ecos de diálogos, casais que se convidam para voltar lá a fim de terminar com a comida do dia anterior, mas nada, nada mesmo que não sejam efusões. O melhor são as horas logo após os festins diabólicos.

Porque as festas — penso eu — são a celebração da pouca e insuficiente alegria que a vida nos dá, é uma forma de amplificá-la através de outras pessoas que valorizam nossa existência. Funcionam como a arte, quem sabe, e a qualidade da comida e da bebida — estas têm de ser excelentes — não faz somente parte do afeto distribuído por quem a faz, nem também servem só para assuntar antes, para nos alegrar durante e para planejar depois. Eu não saberia dizer da forma mais brilhante, mas me parece que a qualidade dela deve combinar com a qualidade das pessoas e das conversas. Se fosse ruim, a troca seria menor, tudo seria pior. Como na Festa de Babette de Karen Blixen, a comida e a bebida — e julgo de forma polêmica que a primeira é mais importante — não funcionam só no sentido de doação de quem a faz, mas em todas as trocas que depois acontecem.

Mas vou pensar mais no assunto.

(A gente conhece muita gente, né? Dava para fazer três festas para 40 pessoas sem repetir ninguém…)

Beto Chedid — que fez importantes revelações — , Andréa e Claudia.
Eu e a Claudia. O árabe que se vê no espelho é Francisco Marshall.
Já que a comida era árabe, o Augusto arranjou uma “dança do ventre” para a festa. A aparição da moça foi meteórica, mas deixou saudades.
A última turma quase completa.
Lia, Elena Romanov, Arthur Maurer e muita comida.
Simone Rasslan, Álvaro RosaCosta, Beto Chedid e Andréa Soares Costa dão risadas.
Lia Zanini demonstra no ar o tamanho do pênis de seu namorado. Marcelo Delacroix lamenta.
Vladimir e Elena Romanov com Vivian Virissimo

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Carta na Mesa – Edição 138 – 17/10/2011

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Gravação: Estúdio de Rádio da Fabico/UFRGS, 17/10/2011
Duração: 34’47”
Mesa: Igor Natusch, Milton Ribeiro e Samir El Hawat.
Técnica: Neudimar “Batatinha” da Rocha.
Principais tópicos abordados: Santos 0 x 1 Grêmio; Inter 4 x 2 Avaí; briga pela Libertadores.

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Shostakovich – Sonata Cello-piano Op.40 II. mov. avec Gastinel

Com Anne Gastinel e Roger Muraro. E, após o movimento da Sonata de Shosta, alguns comentários de Gastinel sobre sua gravação das Suítes para Violoncelo Solo de Bach. Num postzinho simples, duas ou três de minhas paixões.

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Ando meio sem cabeça para postar

Muita correria, muita loucura. Estou atrasado com minhas coisas e está complicado de postar aqui. Bem, nem imagino de onde tirei esta foto, mas é bastante representativa do dia de hoje. Semana com feriado no meio é legal, mas depois tem o rebote.

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Cornos contribuem para a herança cultural da sociedade moderna

O maravilhoso Concerto Duplo para Violino, Violoncelo e Orquestra de Brahms, só existe porque uma mulher corneou seu marido. Em 1884, o grande violinista Joseph Joachim e sua mulher se separaram depois que ele se convenceu que ela mantinha uma relação com o editor de Brahms, Fritz Simrock. Brahms, certo de que as suposições do violinista eram reles paranoia, escreveu uma carta de apoio a Amalie, que mais adiante ela usará como prova no processo de divórcio que Joseph movia contra ela. Este fato motivou um esfriamento das relações de amizade entre Joachim e Brahms, que depois foram restabelecidas quando Brahms escreveu o Concerto Duplo e o enviou a Joachim para fazer as pazes. Em suma, o Concerto só existe em função do belo par de cornos que Amalie pôs em Joseph Joachim.

Joseph Joachim e Amalie Weiss: obrigado por cornear, Amalie

P.S.- O título foi sugerido por minha fiel amiga Gabriela Franco.

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Amy Winehouse nunca terá substituta, nem Janis Joplin

Eu realmente me divirto com essas coisas. Há alguns artigos musicais ingleses e americanos que falam, cada vez com maior seriedade e veemência, na possibilidade e na necessidade do surgimento “da próxima Amy Winehouse”. Li também dois sítios brasileiros falando “na substituta”. Não duvido sobre a necessidade de uma nova Amy para a indústria ou para os fãs, porém as conversas que me intrigam são sobre a formação, a criação e a escolha de nomes, acompanhadas de clipes no YouTube. Mas antes podemos recuar um pouco no tempo?

Em 2007, Gilliam Reagan e James Salon escreveram no New York Observer: Amy Winehouse vai morrer jovem. Parece inevitável, dada a combinação de juventude, ousadia, abuso de drogas, talento e má escolha de homens. Parece que vai ficar em boa companhia no céu do rock ‘n’ roll. Ficará com Janis Joplin, Jimi Hendrix, etc.

Ah, as previsões irresponsáveis da imprensa… Bem, OK, digamos que o cenário já estava pronto e as coisas encaminhadas, apesar da maldade de expor a cantora para a observação e decomposição pública, mas o que me interessa é o lado B dos fatos. Sim, pois tal prognóstico desnuda o enorme apetite de autodestruição de Amy, como também uma postura de entrega absoluta, que é bastante rara nos artistas que são o resultado da maquiagem, do recondicionamento e da hidratação de produtores atrás de grana. Pouco sei de Hendrix, Cobain ou Jim Morrison, mas a existência de Joplin — sabiam que o nome da mãe de Amy é Janis? — também me parece ter sido a de alguém que acelerava em direção ao muro sem procurar vicinais. A tragédia pessoal e a decisão de ir fundo estava plasmada nos rostos e na trajetória das duas cantoras. Por isso, quando leio alguém escrever que esta ou aquela cantora irá substituir uma das duas, procuro logo saber qual é o grau de desvio de comportamento que apresenta.

Se a candidata é bem comportada, esqueça. Pois pensar que alguém possa ter uma carreira semelhante sem um anormal grau de entrega é uma bobagem. Se tiver comportamento convencional pode ser melhor ou pior, mas não será a lenda de que tanto precisa a combalida indústria fonográfica. Winehouse e Joplin foram como foram porque colocaram sua paixão e vida em tudo. Ambas faziam altos investimentos de angústia na música, nos homens, nas drogas, na escolha do vestido, do penteado e também no momento de passar a faca na manteiga e a manteiga no pão. Para que renasçam é necessária uma nova tragédia. Mas isso fica escondido nos textos.

Pois ambas eram um comportamento inteiro, pacotes distintos de uma só sinceridade. Ninguém vai compor boas músicas sobre reabilitação se não estiver envolvido, ninguém vai cantar com aquela garra e franqueza se estiver preocupado com o contrato, com o carro ou o próximo show. Para o gênero de artistas que elas foram, esta inteireza pode ou deve ser autocentrada e em faixa própria. Eram pessoas cujos conceitos e posturas estavam sempre presentes em apoio ao descontrole.

Pois Amy Winehouse não subia ao palco apenas para mostrar seu trabalho. Ela usava a arte para gritar, vivia o que cantava. E seus admiradores sabiam claramente ou intuíam que aquilo sim era unir arte e vida. Suas composições e a expressiva voz de contralto persuadiam que ali não havia apenas o “fazer artístico”. Talvez involuntariamente, talvez por personalidade, Winehouse atirou-se em sua Paixão — no sentido mais exacerbado e patológico do termo — baseada num referencial próprio de dor e entrega.

Então, quando aparece uma gordinha normalzinha ou uma magrinha com cara de modelo como novas Joplins ou Winehouses, esqueçam. A nova Joplin virá arrebentando e será facilmente reconhecida, terá nome e luz próprias como Amy tinha e ninguém vai ter tempo para muitas comparações.

Janis Joplin "estragula" Grace Slick em 1967

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Fui expulso de Porto Alegre por José Fortunati

No último sábado, o prefeito de Porto Alegre participou de uma marcha evangélica (Marcha para Jesus) e entregou, de forma definitiva, a chave da cidade para deus. Sim, ele disse que entregava, de forma definitiva, o comando da cidade à divindade. Ignoramos se, na marcha para Jesus, este foi encontrado, mas certamente, em seu logo caminho, os comungantes foram obrigados a desviar de vários buracos e talvez, ao passarem por algumas de nossas ruas prenhes de escuridão, tenham ansiado fortemente pela luz do salvador.

Analisando a fala de nosso prefeito, constante nesta matéria do mui leal e valeroso Felipe Prestes, podemos depreender que Fortunati acha que foi colocado na prefeitura não pela descompatibilização do cargo feita por José Fogaça a fim de concorrer a governador, mas pelas mãos de deus. E, já que deus o havia colocado lá, Fortunati concluiu que deve servir de intermediário entre o ente imaginário e seu povo. O novo jeito de governar de Fortunati é super medieval e temo que a prefeitura se mude para um castelo com fosso.

José Fortunati tem 1,98m de altura e, portanto — o que sabemos nós? — , pode estar efetivamente privando da companhia de deus quando está em pé. Porém, quando põe a bunda em sua cadeira de prefeito fica da nossa altura. Nestes momentos, deve ver ateus, católicos, espíritas e todas as religiões africanas que pululam na cidade. Não gosto de nenhuma delas, pois sou fã dos ateus, mas afirmo ao prefeito que vi uma procissão por demais africana quando passei na Vila Cruzeiro na semana passada. Parece que havia outro deus na área, prefeito. Eu respeitei, claro. Os ateus têm disso, são gente discreta e educada, que não vende nada nem sabe fazê-lo.

Agora só me resta sair da cidade. Me prometaram um estado laico, mas depois entregaram a chave do lugar onde nasci a deus. Eu juro que a única vez que ataquei uma igreja foi há quase 40 anos atrás, eu era um adolescente de pichei um “Pubis pro nobis” numa igreja lá na praia. E foi só. Minha punição veio agora. Fui proscrito.

Prefiro o "Pubis pro nobis", prefeito | Foto: Ramiro Furquim / Sul21

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Anotação sobre a defesa do politicamente correto

Eu acho que as reações do pessoal de nossa trincheira política à Rafinha Bastos são equivocadas no sentido de defender o politicamente correto. Claro, o cara é um imbecil e não pretendo de forma alguma justificá-lo — nem saberia como. Mas, por exemplo, acho que este elogio ao politicamente correto, que está sendo repassado, copiado e recopiado em muitos blogs de esquerda, ainda vai causar arrependimento. Ali, o politicamente incorreto aparece limitado a gente que ataca líderes LGBTs, defende homofóbicos e racistas, aplica bullying, ri dos outros por seus defeitos e defende a criminalização do aborto e a Igreja Católica (???). Sei não.

Eu concordo com o artigo quando ele ataca alguém tão desqualificado quanto o “humorista” gaúcho, mas sigo achando o politicamente correto burro. O politicamente correto, se ler atentamente Graciliano Ramos, acabará qualificando-o de alguma coisa qualquer da mesma forma como acusou Monteiro Lobato no Brasil e Mark Twain nos EUA de racistas. Em minha sacrofobia, não livro Lobato de racismo, mas daí a censurá-lo, emendá-lo ou deletá-lo vai alguma distância. Acho legal manter a complexidade das coisas. Os leitores e os professores que interpretem e expliquem Emília, por que não?  O politicamente correto deveria submeter-se à Segunda Lei de Milton: Toda qualidade que possamos ter transforma-se em defeito quando algum fato externo a leva ao paroxismo.

Voltando a Rafinha. Sei que os movimentos sociais usam tais seres — refiro-me a Rafinha — como mote, base e exemplo para suas teses e têm razão nisso, mas, porra, como foi dado espaço para o cara! Eu, nesta anotação quase pessoal, digo que nunca vi o CQC e só conheço o cara de fotos. E não li ainda ninguém falando mal da  TV e de sua indústria de celebridades. Caberia.

Mas as piadas são boas. Ricardo Cabral escreveu ontem no Facebook:

Projeto de lei: A partir do meio-dia de 03-10-2011, aquele que em alguma queixa, comentário, crítica, desabafo e afins mencionar as expressões “politicamente correto” e/ou “politicamente incorreto” terá o seu acesso à internet bloqueado por seis meses e deverá ficar no canto da sala, ajoelhado no milho, durante duas horas seguidas. (Maiores de 65 anos sofrerão penas alternativas.) Ficam excluídos destas medidas penas apenas os que fizerem análises mais aprofundadas sobre o uso dessas expressões.

E a resposta de Fernando Monteiro:

Acho politicamente incorreto exibir assim um tom de tanta autoridade imaginária.


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Lingerie

Copiado do blog Championship Chronicles.

– Querido?

— Hum?

— Posso falar com você?

— Claro.

— Olha para mim?

— Pronto. Desculpe… Ei, nós vamos sair?

— Não, por quê?

— Então porque você está trocando de roupa?

— Não estou me trocando.

— Então porque você está só de calcinha e sutiã?

— Porque eu quero falar com você.

— Mas você precisava estar sem roupa?

— Sim.

— Você não está doente, está?

— Como assim?

— Você aparece aqui quase sem roupa e dizendo que precisa conversar. É sinal que eu vou ter que apalpar algo. Não é câncer de mama, né? Você sentiu algum caroço?

— Não é nada disso!

— Ok, mas você precisa concorda comigo. Eu apareço na cozinha vestindo cuecas e dizendo que preciso conversar com você. Aposto que você ia pensar na mesma hora que era sobre aquele meu joelho bichado.

— Não. Eu iria achar sexy.

— Oi?

— Sim, eu acharia sexy. Você não me acha sexy com esse lingerie?

— Acho. Essa calcinha fica bem em você. Era isso?

— Não. Eu quero contar uma coisa.

— Diga.

— Eu bati o carro hoje.

— Pelo amor de Deus! Quando? Você está bem?

— Mas não foi nada grave… Só arranhou a porta lá na entrada do prédio.

— Quando foi isso? Você se machucou?

— Não, não. Eu estou bem, só me assustei um pouco.

— Mas quando foi isso?

— Foi agora, quando cheguei, faz uma meia hora.

— Mas não está doendo nada? Tem certeza? Quer ir ao hospital?

— Não, estou bem. Pode ficar tranquilo.

— Mas por que você não me avisou? Você entrou em casa, me deu oi, saiu e voltou de novo!

— Então, é porque eu fui até essa loja comprar a lingerie.

— Oi?

— Sim, esta que estou usando.

— Essa calcinha é nova?

— Sim.

— Espere. Deixe eu entender. Você bateu o carro, entrou em casa, e não falou nada. Saiu, foi comprar uma calcinha, voltou, vestiu e decidiu falar sobre o carro?

— Isso.

— Maristela, você está bem?

— Claro. Eu já disse, não machucou.

— Não, não é isso. Você não poderia ter entrado em casa e falado “arranhei a pintura do carro, mas estou indo ali comprar uma calcinha e já volto”?

— É que eu queria estar sexy para você.

— Por causa do carro?

— Sim.

— Mas não tem porque ficar bonita para isso!

— Eu queria.

— Você não bateu a cabeça quando bateu o carro? É normal ficar um pouco desorientada…

— Claro que não! Estou ótima!

— Mas por que você quis ficar sexy para me contar que a porta do carro está amassada?

— Ai, Alfredo… Vem cá para perto…

— Para de esfregar as mãos nos seios! O que você está fazendo?

— Você não gosta?

— Claro que gosto, mas você acabou de bater o carro! Não faz sentido. Bater o carro te excita?

— Claro que não!

— Porque você está estranha.

— Ai Alfredo… Estou apenas seduzindo você.

— Mas e o carro? Você não está nem aí?

— Não, e você?

— Não, eu fiquei aliviado por que você não se machucou. Mas fiquei aliviado, e não morrendo de tesão.

— Ai, Alfredo… Você é tão devagar…

— Tem certeza que isso não te excita? Eu vi um filme uma vez…

— Chega, Alfredo.

— É sério. As pessoas se excitavam com porrada de carros…

— Desisto.

— Você não é assim, é? Teve aquela vez que eu dei ré e enfiei o carro num poste e você não ficou assim. Se ralar a pintura deixou você acesa desse jeito, aquela vez deveria ter deixado você em ponto de bala. Foi uma baita pancada.

— Como você é grosso, Alfredo!

— Não, eu só não entendo a lógica da coisa. Você bate o carro e vem aqui de lingerie me contar. A gente vai comemorar?

— Ai, Alfredo, esquece!

— Não, eu quero saber. É como se fosse um aniversário de casamento? Esta é a nossa primeira porta amassada do casamento, então você coloca uma calcinha nova, vamos abrir uma champagne… É isso?

— Esquece!

— Não, senhora! Quero saber de onde você tirou essa ideia!

— Não. Vou para o quarto colocar uma calça.

— Primeiro, responde. De onde você tirou essa ideia?

— Eu vi na TV, ok?

— Quê?

— Vi uma propaganda que diz que a lingerie sexy ajudar a contar notícias ruins para o marido.

— Oi?

— É. É isso. Pronto, falei! E você cortou o clima!

— Sério, Maristela… Eu não fiquei bravo porque você bateu o carro, eu fiquei preocupado com você. O carro que se foda. Para de alisar a barriga e fazer biquinho!

— Esquece, Alfredo. Você é insensível demais!

— Não tem lógica! Quer dizer que se eu perder o emprego, tudo o que preciso fazer é entrar em casa, tirar a roupa e ficar usando uma cueca nova para te contar a novidade?

— Eu vou para o quarto!

— Isso. Eu vou descer para ver o carro e você vai colocar uma roupa.

— Pode apostar que eu vou! Você nunca mais vai me ver de lingerie!

— Para de gritar, Maristela. O que é isso? Essa nota aqui?

— Que nota?

— Maristela, você pagou oitenta paus nessa calcinha!

— Não é calcinha, é lingerie!

— Oitenta reais? Nisso aí?

— Sim! Porque eu queria que você não se magoasse com o carro!

— Eu não me magoei! Mas oitenta reais!? Com oitenta reais eu compro cuecas para uns dez anos! E ainda pego umas meias!

— Alfredo, você é um insensível mesmo.

— Não importa! Oitenta reais?

— Eu queria que você não ficasse bravo com o carro!

— Não estou bravo com o carro, mas sim com você pagar oitenta reais numa calcinha!

— Não é calcinha! É lingerie!

— Você que vai pagar a funilaria desse carro, Maristela!

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J. S. Bach – Kantate BWV 54 – Widerstehe doch der Sünde – 3 – Aria, Altus

Essa coleção me invoca, me bouleversa, me hipnotiza. Cabe mais uma ária de Bach aí? Claro que sim. Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei? queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana? Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero três Cantatas de Bach: O meu reino por três Cantatas do sabon… de Bach!”

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Rimsky-Korsakov: Quinteto para sopros e piano (1º Mvto – Allegro con brio)

Não há muitos filmes do Quinteto de Korsakov por aí. É obra um pouco rara, mas deliciosa. O filminho não tem o som que a música exige, mas dá para ouvir. Curiosamente, foi a primeira postagem do grande blog PQP Bach.

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Francisco Marshall sobre "A Flauta Mágica" de Peter Brook (copiado de seu Facebook):

Eu queria ter um blog como o do Milton Ribeiro para postar minha crítica da versão de Peter Brook para A Flauta Mágica de Mozart e Schikaneder. Como não tenho, vou cortar em fatias e publicar aqui mesmo. Thanks, Zulken, thanks, readers.

E eu, Milton, li e conversei sobre isso na sexta-feira [23] e depois esqueci…

— Eu nem deveria criticar, pois ganhei o ingresso do dileto amigo e genial dramaturgo e empreendedor Luciano Alabarse. Liguei no último minuto e ele me cedeu o último ingresso. “Tem sempre um VIP desgarrado!”, disse ele a um desgarrado muito grato, algo chato e pouco vip.

Milton Ribeiro interrompe no Facebook  — Olha, se quiseres postar no blog do Milton Ribeiro, posso falar com ele.

— Não, lá é lugar de sínteses e ironias sacrossantas, não me atrevo. Deixa eu escrever!

Milton Ribeiro desiste temporariamente — OK, OK, adiante!

— A montagem apresenta-se como “versão de Peter Brook”, ou livre adaptação. Na verdade, é uma versão pocket, com a orquestra reduzida ao piano e com o corte de várias partes.

— Misteriosamente, somem partes belíssimas, o que é compreensível em versão pocket, mas aparece uma inclusão arbitrária. Mesmo que bonita, a fantasia em ré menor está sobrando na economia musical. Sobram músicas na própria flauta, não precisa ir à prateleira.

— Aliás, não tem flauta em momento algum, só piano e mimos.

— Figurinos e cenografia seguem o facílimo e baratésimo esquema minimalista. Pés descalços e túnicas, nada de cenários, apenas umas hastes e um carrinho, que são movimentados de modo simples. Iluminotécnica enxuta, monocromática.

— O pianista é excelente, os cantores ótimos, as performances musicais convencem, animam, são muito bonitas e boas, tecnicamente.

— A acústica do Bourbon é uma catástrofe. Quem projetou aquilo desdenhou mediocremente a grande ciência acústica desenvolvida pelos gregos e fez cacaca. Nós fazemos com a democracia e a filosofia gregas, tá na média. Moral, os músicos cantam para as filas 1 a 3. Os outros pensam que ouvem, sonham, imaginam…

— Peter Brook, um cineasta importante, poderia considerar o que Ingmar Bergman fez ao abordar a Flauta Mágica. Não o fez, logo não cabe a comparação.

— A obra original, de Mozart e Schikaneder, transborda humor e imaginação. Foi composta para um teatro popular, onde todo o tipo de efeito cenográfico e dramatúrgico era aproveitado. A Flauta Mágica é sobeja em possibilidades dramatúrgicas, toda elas desdenhadas por Brook, que joga um manto minimalista arbitrário sobre esta obra prima. Este manto minimalista não é nem “contemporâneo” como linguagem, nem tem a ver com a obra. A que vem, então? Vem para economizar?

— Ao final, todos saem com a alma leve, felizes. Este é o milagre de Mozart. Uma música com tal grau de pureza, com tal poder de comunicação, que resiste a tudo, até mesmo a esta violação narcisista e pobre. Valeu, Mozart e Schikaneder, eternamente!

— O público pôs-se a aplaudir de pé imediatamente. O poder do ícone!

— Eu fui na quarta-feira, 21/09/2011.

Milton Ribeiro, o chato, retorna — Cara, eu vou juntar e roubar esse txt. Fui assitir a uma peça lastimável que foi APLAUDIDÍSSIMA. Estou em estado de choque a uma semana. O ícone era Marco Nanini.

— É, eu li tua crítica. Junta mesmo. Resistência ecológica.

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A religião é como um pênis?

Interessante analogia. Acho que ATEA deveria providenciar já os cartazes!!! Eu que meus sete leitores prescindem de tradução, certo?

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Esse argumento vegetariano da morte e do sofrimento…

… nunca deu para levar muito a sério. Adoro plantas e sou capaz de achar que elas sofrem. Sou um carnívoro médio, contido; almoço todos os dias num reataurante vegetariano pero no mucho (serve peixe); mas como carne vermelha de vez quando, claro. O que não suporto são as elucubrações éticas e tal. Quando vejo minhas cachorras secas por uma carne, só posso pensar que é natural comer uma carninha. Vai ser complicado ensiná-las a comer corretamente. Vou dar rações de cereais para elas… Aqui em casa, ou tudo mundo é ético ou ninguém é!

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A respeito de Moby Dick, Jorge Luis Borges escreveu:

(É que falei tão bem de Huck Finn que me senti em falta com Mody Dick. Então, invoco Borges, que normalmente está disponível para equilibrar as coisas. Além da famosa citação abaixo, Borges também referiu-se a Moby Dick como “um caos não apenas perceptivelmente maligno aos gnósticos, como também irracional”).

Página a página, o relato se agiganta até superar o tamanho do cosmos: a princípio o leitor pode supor que seu tema é a vida miserável dos arpoadores de baleias; em seguida, que o tema é a loucura do capitão Ahab, ávido por acossar e destruir a Baleia Branca; depois, que a Baleia e Ahab e a perseguição que esgota os oceanos do planeta são símbolos e espelhos do Universo.

Pura verdade.

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As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain

Toda a literatura americana moderna se origina de um livro escrito por Mark Twain, chamado Huckleberry Finn (…). Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então.
Ernest Hemingway

(Havia Moby Dick, prezado Hemingway, mas tudo bem. Adiante!)

As pessoas que tentarem encontrar uma razão para esta narrativa serão processadas; as pessoas que tentarem encontrar uma moral serão banidas; as pessoas que tentarem encontrar um enredo serão fuziladas.
Mark Twain, na abertura de Huck Finn

A nova edição do livro, em tradução de Rosaura Eichenberg, é uma joia que torna coisa do passado aquela edição que li anos atrás, quando adolescente, feita de forma muito rebuscada e “literária” por Monteiro Lobato. Nunca contestei a afirmativa ouvida e lida por anos de que Huck Finn seria o romance fundador da literatura americana, mas voltava meu pensamento para outros autores, como meu querido Melville, que escrevera Moby Dick 33 anos antes de Huck Finn, de 1884. Os dois romances são muito diferentes e incomparáveis — até por suas intenções. Moby Dick é todo o mundo, enquanto Huck é uma brilhante, brilhantíssima e realista história de aventuras juvenis. Afirmo a meus sete leitores que o romance de Mark Twain subiu muito em meu conceito após esta leitura e isto se deve às boas soluções encontradas pela tradutora. Tudo porque o narrador é o personagem principal e este fala/escreve sempre errado, como a criança semi-alfabetizada que é. Pior, durante todo o livro ele se relaciona com o negro escravo (e analfabeto) Jim, que fala ainda mais errado. Então, como o autor raramente interrompe seus diálogos para esclarecer quem diz o quê, a inteligência da tradução está em deixar sinais claros através do gênero de erros cometidos. Deve ter sido trabalhoso, mas ficou excelente. A tradutora nos ensina rapidamente a sintaxe de cada um e a leitura logo ganha fluidez. Um belo trabalho de tradução.

Há uma querela envolvendo o livro. Este seria racista pela utilização de certas palavras, como nigger, por Twain. Por Twain? Ora, aqui já temos uma primeira inverdade ficccional, pois quem a usa é Huck, não Twain. O que os moralistas não notaram é que Huck ama Jim, quer vê-lo livre e faz tudo para isso, no que é confusamente auxiliado por Tom Sawyer ao final do livro. Ou seja, minhas irritações com o “politicamente correto” também são fruto de seu desprezo pela mais mínima complexidade.

OK, sem spoilers: como quase todo mundo sabe, Huck Finn era um menino que vivia com duas “tias” numa cidade ao largo do Mississipi. Porém, seu pai, um alcoólatra, queria Huck de volta para usá-lo como serviçal e para tomar surras sistemáticas. O pai acaba por sequestrá-lo, mas ele foge, encontrando Jim na fuga. Jim morava na casa da Srta. Watson, uma das tais tias, com Huck. Ele passam a viajar pelo Mississipi numa balsa em busca de aventuras, de prazer e de liberdade para ambos.

O romance é muito significativo do ponto de vista da formação dos EUA. Huck foge com seu amigo Jim em busca dos estados americanos onde a escravidão já havia sido abolida. No entanto, por total ignorância geográfica, vão para o sul. Ambos vivem uma vida nômade, picaresca, absolutamente sem estratégias a longo prazo que não sejam os delírios de Jim. Pelo caminho, encontram uma farta, divertida e às vezes terrível galeria de personagens. É notável a inexistência de autoridades legais nos EUA daquela época. A lei é feita pelas próprias pessoas, a criminalidade grassa e a cena dos fazendeiros inimigos está muito próxima do que se veria na máfia depois. A segurança (segurança?) é realizada pelas próprias pessoas e suas armas.

Mesmo com Huck mentindo, roubando e enganando desbragadamente, o grande debate moral do livro deflagra-se unicamente em seu cérebro: deveria ele realmente ajudar Jim em sua fuga? A amizade vale infringir a lei? A amizade vale ir para o inferno? O debate é tão franco que Huck pensa todo o gênero de barbaridades racistas. Não toma atitudes que não seja a da solidariedade, mas duvida. Isto também assusta alguma correção moralista sem que esta reflita que trata-se de um menino conjeturando. Tanto que o livro recentemente recebeu uma versão americana limpa das impurezas dos nigger e de centos pensamentos… O leitor apenas perde.

Olha, li feliz. Tremendo livro. Pode ser lido como um infanto-juvenil, mas é muito mais do que isso. E é como se a grande obra de Twain estivesse sendo publicada pela primeira vez em nosso país.

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Pô, Mário Fernandes, foge pro Inter!

OK, Mario Fernandes é um cabeça de vento. Concordo com isso. É mesmo burrinho.

Mas alguém poderia justificar uma IDA à seleção brasileira? É apenas a possibilidade de uma carreira internacional e dinheiro para o clube que o vendeu? É patriotismo? Seria permitido ao jogador não desejar isso? Não é aceitável a ninguém que um jogador ou profissional não queira o sucesso absoluto? A cultura do sucesso é tão açambarcante?

Ou todos acham que jogar na seleção de Ricardo Teixeira e das negociatas seja uma grande honra ou todos acham que o menino está jogando dinheiro pela janela… Gravíssimo! É o que me parece.

Por mim, jogador que não aceita ir para seleção é o ideal. Vem pro Inter, Mário!

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Volver a los 17

Hoje nasceram muitas pessoas e coisas sensacionais. Nasceram meus amados Dmitri Shostakovich, Glenn Gould e Jean-Philippe Rameau, além da Casa de Cultura Mario Quintana e até Catherine Zeta-Jones. E, em 1994, num domingo como hoje, às 19h35, nasceu minha filha. É uma data muito bem frequentada.

Como era
E a débil de hoje, numa festa da escola

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Merval Pereira na ABL: o pesadelo das letras nacionais

O senador José Sarney entrega a espada para o jornalista Merval Pereira, que tomou posse da cadeira 31 da ABL. Merval seguirá esgrimindo — sem livros, nem bom texto — seus absurdos na GloboNews. Viva a Academia Brasileira de Letras!

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