O mundo começou a enlouquecer em grande escala quando Bob Dylan ganhou o Nobel (de Literatura) em outubro de 2016. Três semanas depois, Trump foi eleito presidente trazendo uma onda planetária de loucura. Depois vieram uns golpes, uma eleições estranhas no leste europeu, Bolsonaro, a invasão evangélica, a pandemia e, quando parecia que íamos começar a reverter a coisa, bammmm, Trump está quase reeleito. Podiam dar um Nobel pro Roberto Carlos (de Química, talvez) e fechar o ciclo, né?
Bilhete
Meus queridos. Papai saiu cedo para trabalhar e deixou vocês dormindo. Vocês estavam tão lindos e tranquilos nas camas que achei sacanagem acordar. Volto ao meio-dia e trinta para buscá-los. Enquanto isso, espero que vocês sobrevivam. Sofia, sei que vais acordar primeiro, ali pelas 8h30. Olha para o relógio e confere. Guria, olha agora! Teus iogurtinhos estão na geladeira, à altura da tua cabeça, do lado esquerdo. Bebe no mínimo dois. Tenta também COMER alguma coisa, dizem que é importante. Há pães de ontem à noite sobre a mesa da cozinha e outros novinhos no freezer, é só deixar um deles por 30 segundos no microondas e estará perfeito para receber e desmanchar a manteiga. Hummm. A geleia de morango está também na geladeira, pega a que não for light. Se tiveres tema para fazer, por favor, faze-o. Não deixa a TV com o som muito alto para não acordar teu irmão e, quando ele acordar, não briga com ele. Lembra-te de que ele é maior e que eu não estarei aí para te defender. O melhor mesmo é que fiques brincando com o pensamento ou no computador. Poderias também aproveitar o tempo e o silêncio da casa para ler um pouquinho, não, dona Sofia? Quando eu era pequeno, adorava acordar para acompanhar o movimento do sol. O sol entrava por minha janela de manhã. Eu colocava um lápis no chão, exatamente sobre a fronteira entre sol e sombra. E lia; lia umas dez páginas e depois conferia quantos centímetros a luz do sol tinha caminhado em seu percurso para fora. Eu estudava no turno da tarde e ficava no quarto até que o sol o abandonasse inteiramente. Aí sim, podia fazer outra coisa. Não sei se isso acontece aqui em casa, não lembro, não faço mais isso e que sei eu da orientação solar? Coisa nenhuma. Sou um adulto chato. No máximo, sei que nosso apartamento tem boa orientação, pois ainda não morremos assados nem congelados em nossa cidade maluca. Quando o teu irmão acordar, mostra este recado a ele, ele é muito desatento. Felipe, teus toddynhos estão ao lado dos iogurtes da Sofia na geladeira. Não precisas comer todo o conteúdo da geladeira e não mates tua irmã sem eu estar aí para te matar junto. Deixa o computador para ela, porque ontem tu já ficaste demais nele. Sei que tu tens de ler O Visconde Partido ao Meio para o colégio, então manda bala. Se quiseres sair, há uns trocados no balcão da cozinha; acho que falaste em ir ao Centro comprar uns CDs usados com um amigo teu, do inglês. O dinheiro que está ali dá para ir e vir de lotação. Usa o teu para as compras. Só não te atrases, pois eu chego ao meio-dia e trinta. Marca o encontro no centro do Mercado Público que é um lugar bom para esperar alguém. Tem sempre brigadianos por ali. Cuida, pois há assaltos e ladrões e as pessoas somem, mesmo sendo tu um adulto de 14 anos… O cara vai e não volta. Volatiliza-se. Porto Alegre é perigosa e não quero a tua mãe no meu pé. Já pensou eu falando pra ela? Olha, ele foi fazer umas compras nuns sebos de CDs e não voltou mais. Imagina, somem tantas pessoas anualmente numa cidade como Porto Alegre que talvez jamais sejas encontrado. Uma vez, em 2004, ou 5, sumiu o próprio chefe de polícia que saíra à tarde para uma volta no Parque da Redenção e até hoje nada. Minha mãe leu no Correio do Povo, ficou com o jornal embrulhado na memória. Mas vá. Lembra que o “pãe” te ama e que as ruas não mudarão seus traçados para que demores além da conta. Se sobrar algum dinheiro, pergunta pra mim sobre um CD que procuro há anos, tá? É aquele em que Carlos Drummond de Andrade recita Desaparecimento de Luísa Porto. Mas, se ficares em casa, não te esqueças do Calvino e trata tua irmã com calma, senão te acuso de pedofilia e te mando para a FEBEM, ou FASE. Hoje tem jogo à noite, queres ir ao estádio? Então faça tudo direitinho, senão não te levo. Hoje de manhã tenho que fazer um monte de coisas, algumas para vocês. O pessoal do colégio me chamou para conversar porque tu, Felipe, inventaste de chamar uma menina de lobisomem e agora ela não quer ir mais à aula. Tá certo que ela é peludinha nos braços, mas – caramba – chamá-la de lobisomem! Há que ser mais delicado. Por falar em delicadeza, no final de semana vou apresentar a Mônica para vocês. Chega de adiamentos, né? Sofia, não é preciso ter ciúmes, ela não me tirará de ti e nem eu vou descuidar de vocês só porque estou namorando. São necessidades adultas. Vocês têm as de vocês, nós temos as minhas as nossas. A Mônica também não será outra mãe, será mais uma amiga para conviver conosco. Ela não é chata e gosta de crianças, mas é claro que ela vai se embananar com vocês, pois não tem filhos e, de repente, estará recebendo um kit completo de namorado, dois filhos, duas calopsitas e uma cachorra. Não é fácil para nenhum de nós, então tolerância, educação e delicadeza são as palavras. Como digo sempre: “Nada de flatulências ou eructações!”. Eu mato vocês. Putz, são sete e meia. Estou atrasado. Beijos do pai.
The Long and Winding Road, sempre
Às vezes, esqueço dos Beatles. Na semana passada, durante uma divertida reunião na cama com crianças, pipocas, refris e algumas discussões, resolvi recuperar uma velha fita de vídeo com o documentário de 5 horas que acompanhou o lançamento do Beatles Anthology. Este documentário, datado de meados dos anos 90, foi calando-nos um a um. Ficamos inteiramente concentrados nele. Eu, ouvinte quase exclusivo de música erudita; Bernardo, meu filho, que está quase sempre ouvindo rock um pouco mais pesado e Bárbara, minha filha, que prefere música dançável e de diversão (ao estilo do B-52, por exemplo), assistimos a tudo fascinados. A explosão de juventude, alegria e criatividade representada por eles afeta qualquer um.
Abro o enorme livro The Beatles (da Revista Rolling Stone) que dei para o Bernardo e leio atentamente a introdução. Quem a escreve é Leonard Bernstein (1918-1990). Bernstein é uma figura única, pois além de ter sido respeitadíssimo regente de orquestra, foi pianista e um enorme compositor de música erudita. Como se não bastasse, escreveu musicais para a Broadway, sendo de sua autoria talvez o melhor deles, West Side Story, que recebeu no Brasil a impecável tradução Amor, Sublime Amor. Obviamente, é uma matéria paga, mas Bernstein era muito “inteiro” para colocar-se a serviço de algo que considerasse de segunda linha. Seu texto é apaixonado e demonstra algumas preferências curiosas. Diz que, em sua opinião, a melhor música do disco Revolver é She said, she said. Elogia também Eleanor Rigby (Revolver), Norwergian wood (Rubber Soul), Paperback writer (Single), She´s leaving home (Sgt. Pepper`s), Ticket to ride (Help) e quase todo o resto.
Também tenho as minhas. Considero obras primas While my guitar gently weeps, With a little help from my friends, For no one, In my life, I Will Follow the Sun, Helter skelter, Strawberry fields forever, The fool on the hill e mais cinqüenta outras.
Meu entusiasmo, portanto, é o mesmo. Os Beatles foram um grupo diferente. Normalmente os grupos abrigam apenas um bom compositor. Podemos tranquilamente dizer que o Led Zeppelin representaria “A música de Jimmy Page”, enquanto o Oasis seria “A música de Noel Gallagher”, o Who “A música de Pete Townshend”, o último Pink Floyd “A música de Roger Waters”, etc. Já os Beatles têm três músicos que poderiam fundar grupos. E que músicos! A coincidência de John Lennon, Paul McCartney e George Harrison terem nascido quase ao mesmo tempo em Liverpool e se tornado amigos na adolescência é notável e, penso, matematicamente irrepetível. É como se – guardadas as proporções para maior ou para menor — Chico Buarque, Caetano Veloso e Guinga resolvessem trabalhar juntos desde a juventude, competindo e brigando dentro de um grupo. E, se acrescentarmos a isto a presença do produtor, arranjador e pianista George Martin desde as primeiras gravações, chegaremos à conclusão de que os caras tinham muita sorte mesmo. E, para nossa sorte, todo o resultado está minuciosamente documentado – som e imagens -, como mostra o filme Beatles Anthology.
Apetite por destruição
Eu acabo de dizer a frase “Então o Império Romano acabou e começaram as férias de julho”. A Elena ficou me olhando. E eu só tinha bebido duas taças de vinho.
O que eu queria dizer é que sempre tive apetite por destruição. No Colégio, ao final de um semestre, tínhamos acabado de estudar o Império Romano no Júlio de Castilhos. Ô coisa chata.
Aí, num chuvoso dia das férias de julho, abri o livro de História para ver o que vinha depois. Nossa, eram As Invasões Bárbaras!!! Que legal, que felicidade ler aquilo!
Até hoje amo os Hunos, os Godos, Visigodos, Vândalos, etc. Adorava suas movimentações malucas e muitas vezes destrutivas pela Europa.
Só que a frase com que introduzi o tema para a Elena ficou meio estranha….
P. S. — Acabo de me dar conta de que o nome da minha filha é Bárbara…
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Boa tarde, Coudet (com os lances de Atlético-GO 1 x 2 Inter)
Atualmente, o Inter é um time bem treinado. O fato de ter deixado Galhardo em Porto Alegre e jogado com um time misto não atrapalhou a vitória de ontem à noite, pela primeira perna das oitavas da Copa do Brasil 2020. O time foi misto, em vista do jogo do próximo sábado contra o Corinthians em São Paulo, às 19h. Pior, desde o início o time teve Pottker, mas mandamos no jogo até fazermos 1 x 0 em cabeçada de Leandro Fernandéz após cruzamento de Marcos Guilherme.

Aí deixamos o adversário jogar, mas sem corrermos muitos riscos. Como no começo do segundo tempo a coisa complicou, Coudet botou alguns titulares, como Patrick e Edenilson. E Moisés, em bela tabela com Fernández, fez 2 x 0. Perdemos alguns gols — um com Pottker após lindo passe de Fernández, o nome do jogo –, só que um pênalti no fim acabou permitindo o 2 x 1.
No final, Coudet voltou a falar que precisa de reforços. E que no hay plata. Há que ser criativo, coisa que não parece ser a especialidade do presidente Marcelo Medeiros, ainda mais em final de mandato. Aliás, adiante devo falar um pouco sobre as eleições que ocorrerão em novembro e sobre a necessidade de retirar a Confraria do MIG (Movimento Inter Grande) do clube. São 20 anos e só os primeiros foram bons.
Por enquanto, sou Chapa 5 com Alessandro Barcellos para presidente.
Keith Jarrett e The Köln Concert
Com inteira justiça, o pianista, cravista e organista Keith Jarrett é conhecidíssimo e famosíssimo. Este The Köln Concert é um de seus grandes momentos — talvez o maior deles. Jarrett começou sua carreira no jazz com Art Blakey e Miles Davis. Depois foi contratado como grande estrela da ECM, criou dois quartetos, um americano e outro escandinavo, gravou montes de concertos solo, criou um trio com Gary Peacock e Jack DeJohnette, fez esplêndidas duplas com meio mundo, virou pianista e cravista erudito, gravou O Cravo Bem Temperado, os 24 Prelúdios e Fugas de Shostakovich e também Mozart, Barber, Handel, Pärt, etc., sempre com notáveis resultados artísticos. Creio ter intuído a futura carreira erudita do moço quando ouvi um solo dilacerante de Nude Ants (1979) e vaticinei que ele queria mesmo era tocar Bach. Bem, sei lá se ele já estava tocando clássicos em 79. Bom, mas o que interessa é que The Köln Concert é um trabalho fundamental, principalmente o solo inicial de 26 minutos que contém uma súmula do que é capaz Mr. Jarrett.
Detalhando, The Köln Concert é uma gravação de um concerto ao vivo com improvisações para solo de piano executadas por Keith Jarrett na Ópera de Colônia no dia 24 de janeiro de 1975. O álbum em vinil duplo foi lançado em 1975 pela ECM e tornou-se o álbum solo mais vendido da história do jazz e o álbum de piano mais vendido, com mais de 3,5 milhões cópias comercializadas. Não pouca coisa e é justo que assim tenha sido.
O show foi organizado por Vera Brandes, de 17 anos, então a mais jovem promotora de shows da Alemanha. A pedido de Jarrett, Brandes selecionou um piano de cauda Bösendorfer 290 Imperial. No entanto, houve uma confusão por parte da equipe da Ópera e, em vez disso, eles pegaram outro Bösendorfer nos bastidores — um muito menor — e, presumindo que este fosse o solicitado, colocaram-no no palco. O erro foi descoberto tarde demais para que o Bösendorfer correto fosse colocado no local do show a tempo do concerto da noite. O piano que eles trouxeram era destinado apenas para ensaios e estava em más condições e exigia várias horas de afinação e ajuste para torná-lo tocável. O instrumento era pequeno e pouco agudo nos registros superiores e fraco nos registros graves. Os pedais também não funcionavam bem. Consequentemente, Jarrett frequentemente usou ostinatos e figuras rítmicas da mão esquerda durante sua apresentação para dar o efeito de notas de baixo mais fortes e concentrou sua execução na parte central do teclado. O produtor da ECM Records, Manfred Eicher, disse mais tarde: “Provavelmente Jarrett tocou do jeito que tocou porque não era um bom piano. Como ele não conseguia se apaixonar por seu som, ele encontrou outra maneira de tirar o máximo proveito isto.”
Jarrett chegou à Ópera no final da tarde, cansado após uma longa viagem exaustiva desde Zurique, na Suíça, onde havia se apresentado alguns dias antes. Ele não dormia bem havia várias noites, sentia dores nas costas e precisava de um aparelho ortodôntico. Depois de experimentar o piano e saber que o instrumento substituto não estava disponível, Jarrett quase se recusou a tocar e Brandes teve que convencê-lo a tocar, pois o show estava programado para começar em apenas algumas horas. Além disso, Brandes tinha reservado uma mesa em um restaurante italiano local para Jarrett jantar, mas uma confusão da equipe causou um atraso na refeição que estava sendo servida e ele só conseguiu beber alguns goles de água antes de ir para o concerto. Parecia que tudo ia dar errado e, no final das contas, Jarrett decidiu tocar principalmente porque o equipamento de gravação já estava configurado.
O concerto começou às 23h30. O horário tardio era o único que a administração colocara à disposição da jovem Brandes para um concerto de jazz — o primeiro na Ópera de Köln. O show lotou, com mais de 1.400 pessoas pagaram 4 marcos por cada ingresso. E vocês sabem o que é aquilo que ele faz com a mão esquerda logo no começo da música? Aqueles 4 toques meio solenes? Pois é, ele inicia imitando as badaladas do sino que abre a cortina da Oper Haus em Köln, que são inspiradas no toque dos sinos da Catedral de Colônia. Digo a vocês que, apesar dos obstáculos, a atuação de Jarrett foi… Bem, ouçam: É OBRIGATÓRIO.
Jarrett trouxe calma e lirismo à improvisação livre. Nada neste programa foi preparado antes que ele se sentasse para tocar. Todos os gestos e harmonias intrincadas, as linhas melódicas, os gritos e suspiros do homem, tudo é espontâneo. Embora tenha sido um concerto contínuo, a peça foi dividida em quatro seções porque teve que ser dividida para formar os quatro lados um LP duplo.
Pois bem, a partir do momento em que Jarrett dá seus acordes iniciais e começa a meditar sobre as harmonias, construindo figuras melódicas, combinações de glissandos e temas em ostinato, a música mudou. Para alguns ouvintes, mudou para sempre naquele momento. O som íntimo de Jarrett envolveu os ouvintes em sua busca por beleza e significado.
A genialidade de Keith Jarrett é demonstrada não apenas por seu claro domínio da tradição do jazz, mas também em como ele se desvia dela. A gravação de The Köln Concert demonstra a indefinição de fronteiras de gênero usando temas hipnóticos e improvisações sem fim, criando uma experiência quase religiosa para o ouvinte. Apesar de receber críticas desfavoráveis de alguns fãs de jazz mais conservadores, este álbum é certamente um testemunho do notável senso de improvisação, composição e espontaneidade de Jarrett.
Ainda me lembro do meu primeiro encontro com The Köln Concert. Eu tinha uns 20 anos e estava vasculhando as caixas de jazz e eruditos da extinta King`s Discos aqui em Porto Alegre. O Júlio, lendário atendente da loja, colocou um disco para tocar. Quando as notas de abertura começaram a serem ouvidas, pude sentir imediatamente a mudança no ambiente da loja. Os clientes ergueram os olhos e gradualmente concentraram sua atenção na música que saía dos alto-falantes. Então, algo inesperado aconteceu. Um cliente foi até o Júlio para perguntar o que era aquilo. E adquiriu o vinil duplo. Logo um segundo cliente fez o mesmo. O terceiro fui eu. Imaginem meu desespero se acabasse!
Eu ouvia muito jazz, mas o verdadeiro mistério era o motivo pelo qual os outros clientes, que estavam olhando discos de rock e pop, estavam comprando Jarrett. Uma coisa ficou logo muito clara: aquilo não soava como qualquer outra coisa no mundo da música dos meados dos anos 70. Mesmo quando comparado aos álbuns de jazz, o novo som de Jarrett era diferente. Nos anos 70, o jazz estava fazendo coisas pouco acústicas. Chick Corea e Herbie Hancock, por exemplo, estavam com os dois pés no piano elétrico e as bandas fusion pululavam.
The Köln Concert era o oposto. Jarrett não apenas tocava um piano de cauda (cada vez mais conhecido como piano acústico, naquela conjuntura, para diferenciá-lo dos teclados elétricos), mas também com um grau de sensibilidade e nuance que você não encontraria em outro lugar na música comercial. Ele até arrisca certo sentimentalismo, uma franqueza emocional que muitos artistas de jazz teriam se envergonhado de imitar — especialmente em meados dos anos 70, quando a ironia estava em ascensão como atitude cultural.
No entanto, nos meses seguintes, assisti com espanto ao The Köln Concert entrar na cultura mainstream, alcançando um público que eu poderia ter considerado imune ao apelo de um piano.
E Jarrett fez isso violando quase todas as regras da música comercial. As faixas do The Köln Concert eram longas improvisações de fluxo livre gravadas ao vivo em um recital na Alemanha. Elas careciam de estrutura. Pior ainda, eles eram longas demais para serem tocadas nas rádios. A abertura tinha 26 minutos de duração, e as próximas duas faixas tinham 15 e 18 minutos de duração. Apenas o bis de 7 minutos seguiu algo semelhante a uma forma de música divulgável, mas mesmo isso parecia um mundo à parte dos singles de sucesso do dia. Como tornou-se um tremendo sucesso?
Você pode pensar que os amantes do jazz aceitariam facilmente a música. Mas mesmo eles ficaram céticos. The Köln Concert evitava as síncopes e os sotaques familiares que permeavam os outros álbuns de jazz. Muita gente dizia que o disco não soava muito a jazz.
No entanto, de alguma forma Jarrett contornou tudo isso e conseguiu se tornar um sucesso através do método mais antigo de todos, o boca a boca, o contato pessoal com amigos que possuíam o disco. As vendas enormes nem sempre são recebidas com entusiasmo na comunidade do jazz e uma reação foi inevitável. A franqueza emocional da música e seu melodismo descarado deixaram o álbum especialmente exposto à crítica daqueles que sentiam que a forma de arte do jazz exigia algo mais abrasivo. Quando a horrorosa New Age floresceu alguns anos depois, houve inúmeros imitadores de menor talento imitando (e diluindo) a visão estética das improvisações de Köln e talvez até o próprio Jarrett se perguntasse “o que fiz?”.
Eu entendo as críticas dos jazzistas conservadores, mas não concordo com elas. Jarrett fez algo novo (e honesto) naquela noite. Ele criou um trabalho visionário que ainda chama a atenção dos ouvintes de primeira viagem hoje — da mesma forma do que naquele dia em meados dos anos 70, quando o ouvi pela primeira vez em uma loja de discos. A música se manteve, era na verdade muito melhor do que muitos dos projetos carregados de pose e que pareciam muito mais progressivos na época.
Claro, a maioria do público que descobriu Keith Jarrett com The Köln Concert nunca abraçou o resto de sua obra. Eu teria ficado encantado em ver Facing You ou o Concerto de Bremen ou os álbuns dos quartetos de Jarrett do período — e os de outros artistas de jazz merecedores — também encontrarem o grande público. Dessa perspectiva, a promessa de Köln nunca foi cumprida. Mas não podemos culpar Jarrett por isto. E ele certamente também não pode ser culpado por seus imitadores banais, ou repreendido por suas vendas. De sua parte, ele não almejava um disco de sucesso e, ao contrário de muitos de seus contemporâneos na cena do jazz, nunca fez a menor tentativa de impor uma tendência ou mesmo abraçar as fórmulas aceitas de discos comerciais. Além disso, nunca tentou recriar o ambiente especial daquela apresentação. Ele viu aquele dia como um evento único. Simplesmente confiou em sua música, em seu talento, e corajosamente se lançou. E, afinal, não é disso que trata o jazz?
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Este texto estava há certo tempo no meu micro. Não sei exatamente o que é meu, o que é traduzido e o que é copiado. Simplesmente fui juntando e agora tratei de costurar tudo mal e porcamente. Há muita coisa minha, claro, mas peço desculpas antecipadas aos autores originais.
A BBC elegeu as dez melhores orquestras do mundo atualmente
Uma delas eu vi em fevereiro. Não me arrependi.
Orquestra Sinfônica da Rádio de Baviera (Munique)
Orquestra Filarmônica de Berlim
Orquestra do Festival de Budapest
Orquestra Hallé (Manchester)
Orquestra do Gewandhaus de Leipzig
Orquestra Sinfônica de Londres
Orquestra Filarmônica de Los Angeles
Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecilia (Roma)
Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam
Orquestra Filarmônica de Viena
Assisti 4 delas — Berlim, Londres, Concertgebouw — e a de Santa Cecilia este ano em Roma, tocando a 5ª de Mahler e outras cositas. Para quem, como eu, é apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, nem parentes importantes, está bom.

A vida pela frente, de Émile Ajar (Romain Gary)
Do Resenha de Bolso.
Lançado na França em 1975, A vida pela frente é um romance ácido sobre temas contemporâneos e ainda necessários, como eutanásia e a disputa entre judeus e árabes. Escrito por Romain Gary sob o pseudônimo Émile Ajar, a história de um garoto muçulmano criado por uma senhora judia é um espelho partido da Paris pós-1968.
Vivendo em um prédio sem muitos franceses, rodeado de africanos, Mohammed precisa cuidar de Madame Rosa, a prostituta que o criou junto a outros meninos. Sobrevivente dos campos de concentração, ela tem pavor de ser diagnosticada com câncer. Entretanto, está com uma doença misteriosa que vai lhe deixando cada vez mais prostrada. Mas não é câncer, isso o doutor Katz, preocupadíssimo, garante. Sempre aplicando pequenos golpes e se refugiando nas zonas cinzentas da cidade, que chama de “aquilo ali” como se coubesse na palma da mão, o garoto não gosta de “causar pena nas pessoas”, já que é “um filósofo”, mas ainda assim nos conta suas misérias. E se a linguagem de Ajar/Gary é límpida, o mesmo não pode ser dito sobre as peripécias enfrentadas por seus personagens. Tipos verdadeiramente autênticos, quase saltando diante do leitor, eles parecem lutar para não serem apagados e sucumbir diante do pão que os diabos de todas as religiões amassaram.
É dessa fragilidade social, que transforma todos os homens em bichos e os obriga a se tornarem o que precisam ser, não o que estão destinados a ser, que nasce o nervo principal deste romance singular. Ao conseguirmos, concomitantemente, embarcar nos delírios de Madame Rosa e entender a interpretação absurda que Momo faz da realidade, cumpre-se o objetivo do livro: indagar no que a espécie humana se transformou.
Boa tarde, Coudet (com os gols de Inter 2 x 2 Flamengo)
Paulo Cobos escreveu:
Escrevo esse texto minutos depois de Internacional e Flamengo fazerem o jogo do ano. E faço isso sem olhar as estatísticas. Não importa posse de bola, finalizações, etc. Elas podem até traduzir o que aconteceu no Beira Rio (ou não).
Mas o que importa é a aula de futebol que dois técnicos estrangeiros deram para seus colegas brasileiros.

O VT do empate de 2 a 2 deveria ser aula obrigatória para todos os treinadores nacionais. Se pelo menos um terço de todos os jogos realizados no Brasil fossem como este muito mais gente gostaria de futebol.
E não é por que foi um jogo em que todo mundo atacou. Coudet, com um elenco muito mais modesto, mostrou que é muito mais completo que Jorge Sampaoli. Seu Internacional sabe atacar, e defender (nesse ponto o Atlético-MG é bem fraco).
O espanhol Domènec Torrent mostrou de novo que tem personalidade. Não faz mal que ele herdou a máquina mais azeitada do futebol brasileiro. Seu Flamengo promete ser tão bom quanto o de Jorge Jesus.
Que sonho se todo domingo de futebol brasileiro fosse assim.
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Pois é. E a gente reclama das entradas de Pottker, Musto e Moisés… E talvez tenhamos razão, pois são umas nabas. Só que Rodrigo Caetano afirmou ontem, com ar de defunto, que é quase certo que o Inter atrasará os salários de outubro. Nas trocas, tínhamos que colocar Johnny, Leo Borges, Praxedes, Nonato, Peglow… Nunca os coitados que entraram ontem. E mais, hoje não era jogo para D’Alessandro entrar. A partida necessitava de força e nosso velhinho não conseguiu acompanhar.
Bem, quanto mais leio críticas a jogadores do Inter mais valorizo o trabalho de Coudet. Quase no final do 1º turno (18 jogos), ainda somos líderes.
Foi um mesmo um jogão. O time titular do Inter realmente sabe o que faz, mas quando entram os reservas escolhidos por Coudet parece o fim do mundo. Jogamos bem e deveríamos contratar, mas não há como. Os jogos da semana são fora de casa e viáveis de vencer. Resta saber como reduzir os danos de tantos jogos com um grupo tão reduzido.
Importante dizer que — além das habituais boas atuações dos conformados — Heitor, Abel e Marcos Guilherme jogaram muito bem, com destaque para o primeiro.
Sempre às 19h e fora de casa, pegaremos o Atlético-GO e o Corinthians — nunca esqueçamos dos árbitros que amam o Coringão — na quarta e sábado. É semana de jogar fora e de ver como Coudet irá usar o pequeno grupo do qual dispõe. Mas o homem é um baita técnico.
“Fizemos um grande primeiro tempo. Eles tiveram melhor a bola no segundo. Muitas situações pelos dois lados. Com um rival desta hierarquia, necessitava concretizar as chances. É um rival com muito talento, é um timaço. Tivemos que mudar à medida do jogo. Trocamos a estratégia. Repito: não temos a sorte de contar com jogadores das mesmas características de quem inicia. Sabemos nossas limitações, mas que podemos dar um pouco mais. Temos feito um grande torneio. Não é fácil somar 35 pontos. É difícil falar agora. Estamos com a dor de escapar dois pontos no final, mas reconhecer que o Flamengo tem um grande time, com jogadores de muita qualidade. Quando troca, segue entrando jogadores muito bons. Os dois queriam os três pontos“.
Eduardo Coudet
Boa tarde, Coudet (com os lances de La U 2 x 1 Inter)
Após uma classificação sem brilho, jogando fora bisonhamente a possibilidade de um primeiro lugar e com os entregadores Musto e Cuesta mexendo no placar contra nós, pegamos o Boca Juniors nas oitavas. O sorteio foi horrível para nós e muito bom para o Grêmio. Nossa única chance de chegar às quartas-de-final era o sorteio nos brindar com o Nacional de Montevideo, o equatoriano Delfim ou o Guaraní do Paraguai nas oitavas. Veio o Boca, com o segundo jogo em La Bombonera. O Guaraní foi para o Grêmio. Parabéns, Inter. Parabéns, Coudet. Deu tudo errado.

Ou seja, entrar com Pottker e Musto custou-nos muito caro. Caríssimo. E com isso falo sobre valores financeiros e de continuidade na Covidadores 2020. Se tivéssemos ganho o jogo de ontem, estaríamos no confortável lugar do Grêmio. Mas o Inter é assim mesmo: administra suas coisas burramente e mereceu a derrota de ontem para a fraca La U.
Desta forma, vamos sair logo da Covidadores. Espero que possamos dar uma atenção decente ao Covidão 2020 e a Copa do Brasil. E que Pottker vá para o Cruzeiro. Felipão gosta, nós não.
Milton Saad e Milton Ribeiro no MSN (um ascendente do WhatsApp, pra quem não sabe)
Encontrei este diálogo por aí. É antigo, claro. Nem imagino de quando. Mas foi nos tempos do MSN, que era um ascendente do WhatsApp.
Eu e Milton Saad somos grandes amigos e às vezes tínhamos — digo no passado pois não nos vemos há muito tempo — conversas realmente malucas…
Saad – Apex diz:
MR
M i l t o n R i b e i r o [] diz:
MS
Saad – Apex diz:
hoje à noite, como sempre, sonhei e adivinha só quem era o protagonista?
M i l t o n R i b e i r o [] diz:
eu
Saad – Apex diz:
hehehe
Saad – Apex diz:
sim
M i l t o n R i b e i r o [] diz:
O que fazia? Comia teu cu?
Saad – Apex diz:
não
Saad – Apex diz:
isso seria um pesadelo terrível
Saad – Apex diz:
te tornaste um escritor mundialmente famoso
M i l t o n R i b e i r o [] diz:
Hã?
Saad – Apex diz:
uma celebridade internacional
M i l t o n R i b e i r o [] diz:
que bom, agora só falta a obra
Saad – Apex diz:
estavas em todos os canais
Saad – Apex diz:
e eu dizia, “é meu amigo”
Saad – Apex diz:
eu te ligava, para confirmar, mas tu não atendia
Saad – Apex diz:
ninguém acreditava
M i l t o n R i b e i r o [] diz:
hahahaha Pensando o quê?
M i l t o n R i b e i r o [] diz:
nem te conheço, meu chapa
Saad – Apex diz:
estavas no programa do Jô. Eu liguei, o telefone tocou no ar, tu olhou e desligou o celular, eu disse: “viram, era eu”. Todos, até minha mãe, disseram: “não era nada, foi acaso”.
M i l t o n R i b e i r o [] diz:
muito bom, hein? Que sonho.
Saad – Apex diz:
o meu pai dizia: “Não me lembro se algum dia tu falou sobre o Milton Ribeiro, acho que não!”. Bah, eu ficava furioso!
M i l t o n R i b e i r o [] diz:
Que loucura. E que sacana era eu. Pô, mas eu te ligaria depois do Jô!
Saad – Apex diz:
pois é, sei lá. Liguei várias vezes, tu não retornava, porra
Saad – Apex diz:
tem que retornar
Saad – Apex diz:
é foda mesmo
M i l t o n R i b e i r o [] diz:
Fiquei famoso, sacumé. Devia estar ocupado com a Maria Fernanda Cândido, quem sabe.
Saad – Apex diz:
ahahahahahahahahaha
Dois pesadelos de minha filha quando ela tinha 13 anos
Sonho 1
Ela vai com sua mãe e o irmão para uma realidade paralela. À princípio, ficam deslumbrados com a perfeição e beleza daquele mundo; mas logo notam que tudo ali é falso. O leite é de tinta, as bolachas são de borracha, o telefone é caramelado e comestível. Logo ficam entediados e querem sair.
Só que é complicado. É necessário entrar por um buraco, dar uma cambalhota, entrar por um segundo buraco para afinal cair na cartola que os levará ao mundo real. Eles decidem ir e o irmão gentilmente dá-lhe a chance de ir na frente. Ela vai; porém, no segundo buraco, depois que a cabeça e o tronco já passaram, ela é presa pelas pernas. O buraco fecha mais e mais. Dói. Ela acorda.
Sonho 2
Ela está numa competição de hipismo e dirige-se a um obstáculo. O cavalo salta e, quando cai do outro lado, não há chão. Eles caem longamente e, não suportando mais a angústia, ela solta-se do animal. Então ela vê o chão aproximar-se. Acorda.
Balthus (1908-2001)
A gravura acima chama-se singelamente Guitar Lesson (1934) e causou certo escândalo ao mostrar uma púbere sendo molestada sexualmente por sua professora. A produção de Balthasar Klossowski de Rola, Balthus, não era nada bissexta, era antes copiosa, cheia de meninas em poses lânguidas. Porém, não se enganem, foi um imenso pintor.
Atrás do balcão da Bamboletras (XXVIII)
Atrás do balcão da Bamboletras (XXVII)
Bom dia, Coudet (com os lances de Inter 2 x 0 Vasco)
No último domingo, vencemos o Vasco por 2 x 0. Vencemos um time que não ganhava há sete rodadas e que nem tinha treinador efetivado. Vencemos podendo assumir a liderança e estreávamos um novo uniforme. Foi deste modo que Coudet rasgou o Estatuto do clube. E, vajem bem, somos líderes jogando com as nabas Rodinei, Uendel, Lindoso e Marcos Guilherme. Uma coisa de louco, considerando-se nosso histórico.
“Não faço intencionalmente, é minha maneira de sentir o futebol, fazer parte do grupo, tirar o melhor de cada jogador. Infelizmente, eles (jogadores) têm que me aguentar, como aguentaram os outros grupos que dirigi. Sou intenso, insuportável, mas quero o melhor para eles”, disse Coudet na coletiva pós-jogo.

Fizemos um belo primeiro tempo, abrimos 2 x 0 e tivemos um segundo tempo “de Minelli” — só para garantir o resultado, mas sem dar chances ao adversário. Não apertamos o ritmo pensando no jogo de quinta-feira, quando precisamos de um empate para nos classificarmos na segunda colocação do Grupo E da Libertadores. O adversário é a Universidade Católica, em Santiago do Chile. E domingo teremos o jogo contra o vice-líder e favorito para levar o Covidão 2020, o atual campeão Flamengo. Não vai ser fácil.
Mas estamos bem e alcançamos tudo isso tendo o fraquíssimo Marcelo Medeiros na presidência e um departamento de futebol desestruturado pela recente saída do diretor Alessandro Barcellos.
Tomara que os candidatos à presidência do clube — haverá eleições em dezembro — tenham a lucidez de dar continuidade ao trabalho do Coudet.
Aliás, teremos dez dias agitados pela frente.
Na quinta-feira, como disse, definiremos a classificação à próxima fase da Libertadores contra o já eliminado Universidad. A vaga está praticamente garantida. O desastre teria que passar por derrota no Chile, combinada com uma goleada do América sobre o Grêmio em Canoas. Sempre esperamos o pior do tricolor e raramente nos decepcionamos.
Na volta, o time nem terá tempo de treinar. Enfrentaremos o Flamengo em um confronto que vale a liderança do Brasileirão.
Para completar, passados os dias de Libertadores e Brasileirão, o Inter tem um terceiro campeonato. Vai na quarta-feira seguinte a Goiânia para o início dos jogos em mata-mata contra o Atlético Goianiense, pelas oitavas da Copa do Brasil. É jogo para seguir seguir sonhando e mais: há uma cota generosa envolvida. Pensem na crise…
Atrás do balcão da Bamboletras (XXVI)
Reflexão discretamente alcoolizada sobre Beethoven e o Fausto de Mann — Sonata No. 32, Op. 111
Há um capítulo muito famoso, mais exatamente o oitavo, no Doutor Fausto de Thomas Mann, em que o imaginário professor Kretzschmar dá uma aula sobre o tema “Porque Beethoven não escreveu o terceiro movimento da Sonata Op. 111“.
Talvez não haja verdades absolutas sobre algo tão aberto, criado numa arte que é intangível ar sonoro, mas o resultado é que, relendo o espetacular capítulo, resolvi pensar um pouco sobre uma questão que, se é significativa no romance de Mann, é apenas curiosa fora dele. Houve um corajoso Schindler (jornalista ou músico) que perguntou a Beethoven sobre a razão da inexistência do terceiro movimento. A resposta do compositor foi típica de seu mau humor: “Não tive tempo de escrever um!”. Mann explorou habilmente a história e só quem leu o Dr. Fausto sabe da profunda impressão que a aula de Kretzschmar causou a Adrian Leverkühn, o personagem principal do livro.
Pois o incrível é que li que havia a intenção de um terceiro movimento para esta sonata e que Beethoven parece ter desistido dele. Inclusive no manuscrito onde está o primeiro movimento há uma anotação: segundo movimento – Arietta; terceiro movimento – Presto. Também não encontrei referências de que a Arietta (segundo movimento) fosse algum tipo de adeus, conforme disse o Kretzschmar de Mann. Claro que a invenção dessa despedida foi uma das muitas liberdades poéticas tomadas pelo ultra entusiasmado professor. Está bem, foi a última sonata para piano de Beethoven, porém ao Op. 111 seguiram-se obras até o Op. 137 e dentre estas há todos os últimos quartetos, a Nona Sinfonia (Op. 125), as Variações Diabelli (Op.120) , as Bagatelas (Op. 126), a Missa Solemnis (Op. 123), etc. Ou seja, quando Beethoven escreveu o Op. 111, ele era um compositor em plena atividade e com vários projetos diferentes a desenvolver, não obstante a doença.
Porém, o mais interessante é tentar explicar porque esta obra provoca tanto e a tantas pessoas. A linguagem altamente abstrata que Beethoven alcançou em suas últimas obras nos perturba tanto aqui como nos últimos quartetos. A imaginação de quem criou a Arietta é arrebatadora. O professor Kretzschmar tem toda a razão ao proclamar que tudo aquilo vem de um simples dim-dada, ou seja, de três notas que não despertariam a atenção de nenhum artista comum, e é sobre este quase nada que Beethoven cria uma imensa construção, onde há lugar para a delicadeza, a simplicidade, o sublime e até para a explosão de uma desenfreada dança semelhante ao jazz que os negros inventariam 100 anos depois. Ele sempre foi dado à utilização de temas curtos e afirmativos, mas convenhamos, aquele dim-dada está mais para um balbucio de criança… Não seria isto o que nos surpreende tanto? A música se inicia como um balbucio, depois cresce mui modernamente, quase que por livre associação e depois retorna ao início. Será esta a despedida a que Kretzschmar se refere? Nascimento, vida e morte?
Não reli a aula de Kretzschmar antes de escrever este post. Fazendo rápida e severa autoanálise penso que talvez tenha entrado neste assunto apenas como pretexto para pensar em músicas que não são somente belas, mas demonstrativas de inteligência e engenhosidade. Outras do mesmo gênero seriam os quartetos de Béla Bártok, alguns dos últimos quartetos de Beethoven (principalmente o Op. 132), as Variações Goldberg, a Oferenda Musical de J.S. Bach e outras raríssimas. Não sei se me faço entender, mas acredito que o espírito mozartiano — que adentra muito no campo emocional — não poderia entrar aqui. São obras por demais cerebrais. São as minhas preferidas.
Mozart, um de seus intérpretes e Elena
A Elena diz que é uma artesã cansada, que não busca ouvir novas músicas, só as do trabalho. Só que ela casou com PQP Bach e o cara está sempre ouvindo coisas novas.
Hoje, preparei tudo direitinho. Quando ela chegou em casa, coloquei uma gravação das Sinfonias Nros. 38 e 41 de Mozart que sabia ser espetacular, mas não sabia por quê. É isso, eu sei quando é bom, sei que tenho sensibilidade, mas nem imagino os motivos de minhas admirações. E então ela me explica o que tem lá de diferente.
E ela ouviu, pediu pra repetir, ELOGIOU MUITO, destacou e detalhou o último movimento da Júpiter, com suas respirações diferentes, as puxadas de freio do maestro, as variações no andamento, etc.
Quando acabou, eu tirei o CD e coloquei um vinil com um contratenor cantando Purcell. Ela me olhou com estranheza. O que teria a ver? Será que a pequena cirurgia que fiz hoje teria afetado meu cérebro?
Expliquei que o contratenor que cantara Purcell nos anos 70 era o regente do Mozart de agora — um cara que se especializara na regência de óperas barrocas e clássicas.
E vieram considerações e pedidos para que eu ficasse mais tempo em casa. Passamos um bom dia. Eu com alguma dor pelo dente que morreu, mas com o resto ainda bem vivo.
Gravações citadas:
— W. A. Mozart (1756-1791): Sinfonias Nº 38 e 41
Freiburger Barockorchester
Reg.: René Jacobs
— Henry Purcell (1659-1695): “Tis Nature Voice” and other songs and elegies
Contratenor: René Jacobs
Nos EUA, livrarias se vestem para a guerra contra a Amazon
Campanha lançada pela Associação Americana de Livrarias quer alertar para o perigo que a gigante de Seattle representa para o setor
Da PublishNews

Nesta semana, quando a Amazon realizou o seu “Prime Day”, campanha de altos descontos para os clientes que pagam pelo serviço de fidelidade da gigante de Seattle, seis livrarias independentes nos EUA surgiram vestidas para a guerra como parte da campanha #BoxedOut, encabeçada pela American Booksellers Association (ABA).
As vitrines das livrarias foram adesivadas com dizeres como “Books curated by real people not a creepy algorithm” (“Livros curados por pessoas reais e não por algoritmos assustadores”); “Buy books from people who want to sell books, not colonize the moon” (“Compre livros de pessoas que querem vender livros, não colonizar a lua”) ou, indo mais direto ao ponto, “Amazon, please, leave the dystopia to Orwell” (Amazon, por favor, deixe a distopia para Orwell”).
Em comunicado, Allisson K Hill, CEO da ABA, disse que as pessoas podem não entender os custos e as consequências das conveniências da Amazon, mas “Mais de uma livraria independente foi fechada por semana desde o início da crise provocada pela pandemia do covid-19, ao mesmo tempo, um relatório prevê que a Amazon vai gerar US$ 10 bilhões em receitas durante o ‘Prime Day’”. “Ligando os pontos, está claro que essa ‘conveniência’ tem um custo e uma consequência. O fechamento de livrarias independentes representa perda de empregos, de impostos locais e de oportunidades para que leitores descubram livros e se conectem com outros leitores”, completou.
As seis livrarias que serviram de piloto da campanha estão localizadas em Washington, Nova York e Los Angeles, mas a ideia é que mais associados usem as peças publicitárias em suas lojas e redes sociais.










