Um excelente concerto bachiano que acontecerá novamente amanhã

Um excelente concerto bachiano que acontecerá novamente amanhã

Eu não tinha muita fé na coisa. Domingo passado, no início da noite, fui ao Concerto de Aniversário de 80 anos de uma comunidade luterana ali na João Obino. Tudo porque estavam tocando um Bach que eu adoro – a Cantata BWV 137 – , mais a Glória de Vivaldi, um Telemann e uma pequena e expressiva obra coral de Mendelssohn. Também tinha um interesse extra e nada secundário que devo declinar ao longo do texto, mas, enfim, lá fui eu, apesar de estar perdendo mais um jogo do time de giovanni luigi Calvário.

A primeira surpresa é que, apesar de ter chegado quinze minutos antes do horário, a igreja estava lotada. Sentei numa cadeira extra, dessas brancas, de plástico, que parecem que podem cair a qualquer momento. A função iniciou pontualmente. A congregação – é assim que chamamos a plateia de uma igreja, os fiéis, não? – começou a cantar um hino onde reconheci a melodia-base da Cantata de Bach que viria logo a seguir, certamente uma tradicional melodia luterana. A surpresa é que a plateia cantava com entusiasmo e estranha afinação. Será que os alemães ou os luteranos já vêm com afinação e espírito bachiano pré-instalados? A verificar. Claro que eles cantam melhor que o comum dos mortais. A segunda surpresa é que a acústica da pequena igreja era boa, uma raridade em Porto Alegre.

Passados os primeiro e bons sustos, veio a Gloria, RV 589, de Vivaldi. A música é bonita, conhecidíssima e foi muito bem tocada. Mesmo com uma orquestra formada de improviso, o trabalho do regente Manfredo Schmiedt voltou a aparecer. A orquestra desempenhava bem seu papel e os cantores Elisa Machado, Rose Carvalho, Eduardo Bighelini e Ricardo Barpp mostravam suas habituais competências. Sobrava cantor.

Depois veio Jauchzet ihr Himmel, de Telemann, uma obrinha curiosa que não conhecia. E o filé estava logo ali, vindo.

Collegium-Aureum-C04-3a[Orbis-LP]E chegou. A Cantata BWV 137 Lobe den Herren, de J. S. Bach, recebeu minha admiração mais profunda desde que a conheci naquele vinil da Harmonia Mundi alemã com o Tölzer Knabenchor e a compreensiva regência de Franzjosef Maier. É daquelas pequenas joias que Bach deixou escondidas entre obras maiores. Não há nada que não seja absolutamente perfeito nela. Cioran não disse que foi Bach quem inventou Deus? Deve ter sido mesmo. O primeiro coral saiu belíssimo , mas estava me preparando para a ária para contralto, violino solo e contínuo que viria logo a seguir.

E aqui completo o motivo de minha ida ao concerto, de meu abandono do futebol e da leve indireção da qual sou refém aos finais das tardes de domingo. (Ah, o dia seguinte, a segunda-feira… Como voltar ao trabalho? De onde recomeçar e para quê? Por que não seguir desfrutando a vida e descansando como a mente e o corpo pedem de forma tão persuasiva?)

Mas tergiverso. A linda voz de contralto de Rose Carvalho foi acompanhada pelo solo de Elena Romanov. A Elena – spalla da orquestra e, para quem não sabe, minha namorada, o que me torna certamente suspeito – já tinha me dito: “Coube a mim acompanhar a Rose, que tem uma voz incrível, gosto muito”. A mim cabia apenas ouvi-las. A ária é realmente estupenda, com o solo de violino ornamentando a melodia cantada pelo contralto, que é uma variação do coral inicial e da melodia entoada pela congregação lá no início. Fechei os olhos e realmente fiquei feliz com o que ouvi. Foi maravilhoso e um ateu sabe a quem agradecer aqui na terra. Obrigado, Manfredo, Rose e Liênatchka – sim, este é o “diminutivo” de Elena em russo. Afinal, fui eu quem encheu o saco da Lienka – outro diminutivo, menos carinhoso – para que ela aceitasse o convite…

Sim, este foi o momento da ária a que me referi acima.
Este é um registro fotográfico da ária a que me referi acima. À esquerda do maestro, Elena; à direita, o baixo contínuo acompanhando Rose. (Clique na foto para ampliar)

Depois veio a ária para soprano e baixo acompanhados pelos oboés de Rômulo Chimelli e Anelise Kindel e a ária para tenor com o Bighelini, os violoncelos e os comentários do Elieser Ribeiro no trompete. Tudo foi muito bonito até o coral que fecha a Cantata.

No final, o coral envolveu a congregação e cantou o Verleih uns Frieden gnädiglich, de Mendelssohn, que tem início soturno a cargo do operoso violoncelo de Fábio Chagas e do contrabaixo de Renate Kollarz até que o coral alivia o peso.

Na saída, eu esperava por Elena e via na cara das pessoas o sucesso do concerto. E tudo isso que aconteceu em Porto Alegre será repetido amanhã (sábado, 30/11) na Capela da Ulbra, em Canoas, às 20h. Vão lá! Quem for, não vai dizer que eu sou suspeito e menti, tenho certeza.

(A Elena detesta aparecer fora do ambiente musical– “Milton, tu não és nada discreto. Liênatchka, por exemplo, pra quê?” – e vai querer me matar por este merecido texto. Intimamente, desejo-me sorte nos momentos da pós-leitura dela…)

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Ospa termina o ano com show de Rachel Barton Pine em excelente concerto

Ospa termina o ano com show de Rachel Barton Pine em excelente concerto
Foto: Giovanna Pozzer
Foto: Giovanna Pozzer

Apenas isso: o concerto de ontem à noite era de presença obrigatória. Havia a presença da grande violinista Rachel Barton Pine interpretando obras que talvez não fossem as melhores de seu vasto repertório, mas, pô, lá estava ela, uma violinista maior, e com seu Guarnieri.

Rachel Barton Pine diz que só lê sobre música, que só se interessa por música. E que sempre foi assim. Uma vez, seus pais tentaram desviá-la para outros trabalhos manuais e o resultado foi que só saiam violinos de suas agulhas de crochê. Na infância, às vezes não tinha luz em casa, pois se esta fosse paga, talvez faltasse comida. O transporte também era complicado. Depois, quando ela se tornou uma estrela ascendente, a dúvida era entre comprar partituras, cordas para o instrumento ou vestidos para os concertos. Um dia, o vestido e o transporte pregaram-lhe uma peça. O vestido ficou preso num trem do metrô e ela foi arrastada por 200 metros. Ficaram-lhe sequelas, mas ela não faz drama, apenas diz, toda sorridente: “Foi só mais um obstáculo”.

Ela esteve entre nós. O marido e o filho pequeno acompanharam o concerto e o caso das malas deles todos. As malas foram perdidas em São Paulo no domingo. Parece que lhes devolveram os pertences só segunda-feira à noite. Outro obstáculo. Ela achou graça. Não sei o resto da família.

RBP também disse que não há música quase afinada. Que é como a gravidez. Ou se está afinado ou desafinado. É como um bit qualquer do teu computador, caro leitor — ele está ligado ou desligado. Simples.

O concerto iniciou com o chatinho inglês Vaughan Williams, mais exatamente com The Lark Ascending (O Voo da Cotovia). A música foi inspirada por um enorme poema homônimo de George Meredith. São 122 linhas. A cotovia estreou em uma versão para violino + piano em 1920. A versão para violino + orquestra é do ano seguinte. O arranjo orquestral é mais famoso e tocado. Trata-se de uma das peças mais populares do repertório clássico entre os ouvintes britânicos. Ouvi alguns músicos de Ospa dizerem que tratava-se um obra precursora do new age. Olha, têm razão. É mais ou menos isso: um solo de violino com ornamentações, construindo um música nostálgica e folclórica, estática e extática, com maravilhosa interpretação de Barton Pine.

A Fantasia Carmen, de Pablo Sarasate, é por demais conhecida e popular. São as principais melodias da Carmen de Bizet em versão ultra-virtuosística e escabelada. Como música, pode ser um lixo, mas, como dissemos lá em cima, havia Rachel Barton Pine. Sua interpretação foi extraordinária, extraordinária e estimulante, extraordinária, estimulante e feliz e perfeita e inesquecível. Os alunos de violino, presentes comigo nas primeiras filas da reitoria da Ufrgs, olhavam encantados para a violinista que esmerilhava seu instrumento na frente de todos. Um show. Porém, para você, meu cético leitor que já está pensando numa demonstração vazia de habilidade, digo que ali tinha embutida uma interpretação diferente da habitual — e muito superior. Ou seja, havia música onde não se esperava. Muita música.

Nos bis, Paganini — com um final em estilo trash metal — e um belo arranjo de Barton Pine para diversos temas de Piazzolla.

Tive medo da Morte e Transfiguração, de Richard Strauss. Ou as cordas da Ospa iam se deprimir após RBP ou iam dar uma resposta. E deram. Olha, tocaram muito, demais mesmo. O poema sinfônico de Strauss é um lindíssimo dramalhão fin de siècle em quatro movimentos. Como quase sempre, Strauss é programático aqui. Desta forma, a obra descreve a morte de um artista. Conforme vai agonizando, pensamentos da sua vida passam por sua cabeça: a inocência da infância, os problemas da vida adulta, as conquistas, fracassos e, no fim, a transfiguração — uma passagem belíssima e cheia de anjinhos, baseada num motivo que se repete cada vez com maior intensidade). Música complicada e exigente que a Ospa realizou à perfeição sob a direção do bom uruguaio Nicolás Pasquet.

E, infelizmente, aqui acabam os Concertos Oficiais de 2013. Apesar da Ospa estar às traças e ser jogada de um lugar para outro como um cachorro indesejado, foi um bom ano artístico. Pergunte-me como isto aconteceu e eu vou responder que há grandes profissionais na orquestra. Só pode, não há outro jeito.

Que 2014 seja ainda melhor!

Foto: Giovanna Pozzer
Foto: Giovanna Pozzer

Programa:
Ralph Vaughan Williams – The Lark Ascending (O Voo da Cotovia)
Pablo de Sarasate – Fantasia Carmen
Richard Strauss – Morte e Transfiguração
Regente: Nicolás Pasquet
Solista: Rachel Barton Pine (violino)

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Britten e eu

Britten e eu

Hoje Benjamin Britten faria 100 anos. Já eu, faz um mês que não vejo meus livros, CDs, discos e outros pertences.

Ah, temos também os 50 anos de With the Beatles, segundo LP da turma.

Benjamin Britten (1913-1976): gênio total
Benjamin Britten (1913-1976): completo gênio

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Ospa em noite de formas clássicas e três heróis

Ospa em noite de formas clássicas e três heróis

A função da última terça-feira foi um concerto de formas clássicas, por assim dizer. Uma sinfonia de espírito vienense com dois Allegri cercando um Adagio e um Scherzo — substituto do minueto — e duas peças em três movimentos no esquema rápido-lento-rápido, mesmo que a obra de Piazzolla seja uma engembração bem feita. Cada uma das músicas teve seu herói.

A sinfonia de Bizet é melodiosa e trabalhosa. Inicia levada pelos violinos; depois, há um gentil adágio onde a oboísta Viktória Tatour — a primeira heroína da noite — , acompanhada pelas cordas em pizzicatto, deu um banho que acabou em fuga (calma, a oboísta não fugiu, tratava-se de um episódio fugatto); segue-se um scherzo bem fuleiro e tudo termina num vivace que quase mata os violinos. É uma sinfonia bonitinha, não passa disso. Mas também é uma obra longa e inadequada para iniciar um programa. Como fazer entrar os chatos dos retardatários? Bem, não é problema meu.

O concerto de Arthur Barbosa trouxe de volta a Porto Alegre o extraordinário trompetista Flávio Gabriel, que já foi da Ospa e hoje está na Osesp. Eu curti o concerto que estreava naquele dia, cheio de ostinati, humor e ritmos latino-americanos. O cearense Barbosa brindou os gaúchos com uma milonga no movimento central. Não sei se o concerto foi dedicado ao trompetista Gabriel, mas, olha, parecia, tal a facilidade com que este enfrentou — com seus três trompetes — as dificuldades do concerto. Parabéns aos envolvidos.

Já o terceiro herói da noite foi o spalla Omar Aguirre, que demonstrou inequivocamente que é platino o sangue que lhe corre nas veias. Seus solos nos tangos de Piazzolla transferiram a Reitoria da Ufrgs para algum canto de San Telmo ou Palermo, onde um casal trançava suas pernas. O mérito transfere-se para toda a orquestra em Fuga y misterio. A fuga é terrível em suas texturas contrapontísticas e o mistério trouxe Aguirre de volta tocando uma melodia melancólica.

Mas não adianta, todo mundo saiu da Ufrgs cantando a fuga. Foi um belo concerto.

Georges Bizet – Sinfonia em Dó Maior
Arthur Barbosa – Concerto latino-americano para trompete e orquestra (estreia mundial)
Astor Piazzolla – Seleção de tangos – “Decarisimo”, “Chiquilin de Bachin” e “Fuga y misterio”

Regente: Enrique Ricci
Solista: Flávio Gabriel (trompete)

Tudo certo com a fotografia, maestro Ricci! | Foto: Augusto Maurer
Tudo certo com a gente, maestro Ricci! | Foto: Augusto Maurer

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Ontem, Marcelo Delacroix e Dany López no excelente Canciones Cruzadas

Ontem, Marcelo Delacroix e Dany López no excelente Canciones Cruzadas

O teste final de um romance será a nossa afeição por ele, como é o teste de nossos amigos e de qualquer outra coisa que não possamos definir.

E. M. Forster – Aspectos do Romance

A citação de Forster serve para muitas coisas. Ontem à noite, eu e Elena fomos ver o show Canciones Cruzadas, de Marcelo Delacroix, Dany López e uma afinada banda multicultural e nacional. Foi um esplêndido espetáculo no palco do Theatro São Pedro, que marcava, em grande estilo, o lançamento do CD Canciones Cruzadas. Antes que me esqueça, já deixo registrada nossa felicidade à saída do velho São Pedro, assim como o abraço que a Elena mandou para o Marcelo. Não fomos cumprimentá-lo, ando cheio de pudores, mas só em público.

Vocês sabem, em condições normais, um CD gravado em estúdio só supera o registro ao vivo se os músicos não forem bons. Então, por ter ouvido o CD antes da noite de ontem, afirmo que este é muito bom, mas o show é ainda melhor. Lastimo que apresentação tenha sido a única no palco de ontem. Porto Alegre merecia mais, só que, para ter mais, teria, certamente, que se informar melhor. Pessoalmente, falhei na divulgação de Canciones Cruzadas. Tive inúmeros problemas que me afastaram do CD e do papel onde fiz várias anotações. (Lembro que anotei repetições de palavras em várias canções, que estas formavam uma definição do disco e que mais repetida era “frio”, coisa típica deste sul de mundo). Também estava com pouco tempo, achei que faria um mau trabalho e limitei-me a informar o pessoal sobre o show na agenda do Sul21.

Canciones Cruzadas é o resultado da uma parceria entre o gaúcho Marcelo Delacroix e o uruguaio Dany López, em que cada músico relê as composições do outro, cruzando canções, ritmos e influências do Brasil e do Uruguai. Delacroix é mais MPB, mas trafega confortavelmente no universo gaúcho. López é mais pop. O legal desta parceria é que a influência — e certamente a generosidade de ambos — levou-os a pontos que talvez não alcançassem sozinhos. O bom pop-rock de Dany López ganhou instrumentação e percussão mais pesada e o lirismo de Delacroix ficou mais atlético e alongado. É incrível como a maior qualidade de um ser humano possa tornar-se defeito quando levado ao exagero. Marcelo é uma pessoa de rigoroso bom gosto, de voz, afinação e repertório perfeitos. López deixou-o mais relaxado e, em vez de dilui-lo, fez com que ele chegasse com sobras a um pop robusto e feliz. Claro que tudo fica mais fácil pelo fato dos dois serem craques em seus instrumentos. Só ao vivo pude ver conferir as enormes qualidades de López como pianista — e algumas limitações como cantor, fartamente compensadas por Delacroix. Já Marcelo é bem conhecido de nós, gaúchos, como excelente compositor, cantor e violonista.

O repertório, em sua maioria, é da lavra da dupla, acrescentado de canções emblemáticas de outros compositores uruguaios, brasileiros e sul-americanos, algumas bastante inusitadas.

Marcelo Delacroix e Dany López
Marcelo Delacroix e Dany López

Gostei de várias canções — Libélula, Depois do Raio, Perdido por Perdido — e outras que não lembrarei por estar sem o CD. Também adorei a versão ao vivo de El Mar en un Anden, da uruguaia Samantha Navarro, um popzito que ganhou grandiosidade no show e do clássico Uirapuru, estrategicamente “roubado” por Dany ao paraense Waldemar Enrique. Se tais surpresas não garantem nenhuma universalidade, mas apenas a junção de estilos irmãos da América Latina, também sou obrigado a dizer que sentava entre uma russa e uma bielorrussa e que a primeira dançava na cadeira e a segunda só fez elogios ao show. A banda é sensacional, com destaque para a percussão e bateria, além da presença luminosa de Pedrinho Figueiredo.

No dia 17 de novembro, Canciones estará em Montevidéu, no Uruguai, na Sala Zitarrosa. Vão ter que voltar a Porto Alegre, acho incontornável.

E se, como escreveu Forster, o teste final de um show é nossa afeição por ele à saída, Canciones Cruzadas foi muito, mas muito, satisfatório. Pois estou com ele na cabeça e no coração.

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Ospa em noite de programa perfeito

Ospa em noite de programa perfeito

A Ospa acertou no ângulo. Há problemas com os locais de ensaio e de apresentações? A programação de 2013 teve que ser toda alterada, sofrendo uma espécie de downsizing? A construção da Sala Sinfônica está atrasada? Sim, sem dúvida, mas nada disso atrapalhou a criatividade de quem programou a gloriosa função de ontem à noite, toda feita de obras de primeira linha. Confiram na lista abaixo.

Ricardo Castro – Samba nº II para Orquestra
Sergei Prokofiev – Concerto para piano nº 3
Wolfgang Amadeus Mozart – Sinfonia nº 36

Regente: Roberto Tibiriçá
Solista: Alexandre Dossin (piano)

Ricardo Castro (1981) foi um dos vencedores do Concurso Ospa para Jovens Compositores. Eu me preparei para encará-la com certa indulgência por tratar-se, afinal, de um jovem compositor. Mas era desnecessário. O Samba Nº II é bom demais, é música muito bem escrita e pensada. São vários temas — alguns de aparência vetusta — que vão discutindo, argumentando e adequando-se um ao outro até se engalfinharem num samba rasgado. O parentesco com Villa-Lobos é bastante claro, mas a visitação a um de nossos ritmos mais importantes — também o caso dos Choros de Villa — também é uma questão de inteligência histórica, pois a maioria dos compositores do passado, começando lá na Idade Média, fizeram constantes visitas à música popular. Afinal, como se fizeram Bartók e Stravinsky, para não ir mais longe?

Dos cinco concertos para piano escritos por Prokofiev, o terceiro é o meu preferido. Na verdade, é uma das obras de minha preferência absoluta. Muito contrastante — com passagens líricas e dissonâncias espirituosas, principalmente em seu movimento central –, irradia grande vitalidade. Uma verdadeira proeza de Prokofiev, que ainda mantém notável equilíbrio entre o solista e orquestra. Ao contrário dos concertos para piano criados por muitos de seus antepassados ​​românticos, a orquestra não está lá para apenas dar brilho ao piano, mas para desempenhar papel ativo.

O pianista Dossin: show de bola
O pianista Dossin: show de bola

Alexandre Dossin foi um solista extraordinário. Demonstrou claramente que seus anos russos (ou seriam soviéticos?) não foram em vão. Tenho a lamentar apenas certo empastelamento causado pela acústica da Reitoria da Ufrgs. O toque sutil de Dossin, quando vinham junto com o som da orquestra, muitas vezes perdia-se nos enganadores meandros do auditório e, com efeito, nem sei se no final do primeiro movimento havia mesmo alguém(ns) muito errado na orquestra ou se estava sendo iludido por não ouvir bem o piano nos forti, tutti, essas coisas. O fato mais importante é que a Ospa enfrentou uma obra complicada, saindo-se muito bem. Ah, Dossin deu três bis. O melhor foi um Tchaikovsky que quase me destruiu. Depois, a coisa ficaria bem mais simples e eufórica, apesar de igualmente trabalhosa.

Linz

No dia 3 de Novembro de 1783, Wolfgang Amadeus Mozart terminou a composição da Sinfonia Linz, que seria estreada logo no dia seguinte. A sinfonia é uma pequena joia composta em apenas 3 dias. Sem um tema grudento ou excepcionalmente melodioso, é genial e atlética. Sua história é curiosa: Mozart estivera com a esposa Constanze por alguns meses em Salzburgo. Em seu retorno a Viena, passou por Linz, onde ficaram hospedados na casa do Conde Thun-Hohenstein. Comovido com a hospitalidade do mesmo, Mozart retribuiu a gentileza, aceitando apresentar uma nova obra. Como não levava nenhuma sinfonia no coldre, resolveu criar uma novinha em folha para o concerto, que iria se realizar quatro dias depois. Desta forma, a estreia da Sinfonia Nº 36, de Mozart, teve lugar em Linz. Adivinhem qual foi o apelido que ela ganhou? Acertou quem respondeu Linz!

Trata-se de uma sinfonia feliz e gentil, o que permitiu ao maestro Roberto Tibiriçá brincar bastante com os músicos, principalmente com os primeiros violinos, os condutores da obra em âmbito sonoro. Ele pulava, dançava, sorria, agachava-se e torcia-se todo. Loucura? De modo algum. Estava apenas retirando com empolgação o melhor da orquestra — o que fez por todo o concerto — , além de encarnar o espírito de uma sinfonia feliz que deixou todo sorridente à saída do concerto.

Estávamos tão felizes que, ao final do concerto, cantei para o violoncelista Philip Gastal Mayer, mais conhecido como Phil:

Phil maravilhááááá, nós gostamos de você!
Tiú, tiú, tiú, tiú, tiú, tiuru, tiú
Phil maravilhááááá, faz mais um pra gente vê!
Tiú, tiú, tiú, tiú, tiú, tiuru, tiú

Acho que ele riu só para ser simpático.

E bem, diante da ausência do fotógrafo oficial deste blog, Augusto Maurer, utilizaremos dois registros vindos da assessoria de imprensa da Ospa:

Foto: Giovanna Pozzer
Foto: Giovanna Pozzer
Foto: Giovanna Pozzer
Foto: Giovanna Pozzer

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Hoje, os 70 anos de Joni Mitchell

Claro que hoje são os 100 de Camus, mas disso todo mundo falou. Já de Joni…

A música é The Dry Cleaner From Des Moines e o incrível baixista que a acompanha é, sim, Jaco Pastorius. No sax, Michael Brecker; Don Alias na bateria. A letra é de Joni, sobre a música monumental de Charlie Mingus. Excelente compositora, cantora maior.

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Ospa com Teraoka e um trompista do outro mundo

Ospa com Teraoka e um trompista do outro mundo

Mais um concerto da Ospa com o excelente Kiyotaka Teraoka, maestro que parece receber aceitação plena de um grupo de músicos que, sistematicamente, rende muito sob sua sorridente direção. Prova de que se pode obter desempenho superior com gentileza e argumentos. Conheci o maestro em um jantar na noite de domingo. Pude comprovar seu nenhum estrelismo e sua consideração isonômica por todos.

O programa de ontem à noite era enganador. Não parecia muito promissor, mas rendeu.

Francisco Braga foi um carioca que viveu muito 77 anos, tendo construído sua obra entre os séculos XIX e XX. Episódio sinfônico é de 1898, quando o compositor residia na Alemanha. Apesar de curta, a peça possui forte influência wagneriana e foi baseada num poema do xaroposo romântico brasileiro Gonçalves Dias. Claro que mais da metade de meus sete leitores não lerão o trecho abaixo, mas foi nele que Francisco Braga baseou-se para escrever seu Episódio sinfônico. Trata-se de um fragmento da segunda parte e do final de O Templo. Eu facilito a não-leitura, colocando uns estratégicos negritos aqui e ali.

Só tu, Senhor, só tu no meu deserto
Escutas minha voz que te suplica;
Só tu, nutres minha alma de esperança;
Só tu, oh meu Senhor, em mim derramas
Torrentes de harmonia, que me abrasam.

Qual órgão, que ressoa mavioso,
Quando segura mão lhe oprime as teclas,
Assim minha alma quando a ti se achega
Hinos de ardente amor disfere grata:
E, quando mais serena, ainda conserva
E flúvios deste canto, que me guia
No caminho da vida áspero e duro.

Assim por muito tempo reboando
Vão no recinto do sagrado templo
Sons, que o órgão soltou, que o ouvido escuta”.

Se Braga realmente inspirou-se em Gonçalves Dias, Braga tentaria usar a orquestra como se fosse um órgão tocando uma oração curta, como se rezasse, comunicando algo importante para Deus. Como Deus de Braga não responde mesmo, ele fala só por cinco minutinhos. A música, que eu desconhecia, é melodiosa, e recebeu dois belos solos de Rodrigo Alquati ao violoncelo e boas participações de Klaus Volkmann (flauta) e Augusto Maurer (clarinete).

Richard Strauss nasceu 4 anos antes que Francisco Braga e morreu depois. Era filho do primeiro trompista da Ópera de Munique. Strauss compôs dois concertos para trompa e, mesmo que eles tenham surgido bem depois da morte de papai Franz Strauss, este deve ter influenciado a opção do filho. O Concerto Nº 2 para Trompa e Orquestra surgiu quando Strauss estava com mais de 75 anos de idade. É da mesma época de das extraordinárias Metamorphosen, de seu Concerto para Oboé e das lindíssimas Quatro Últimas Canções.

Francamente, não gosto deste Concerto. Mas fui obrigado a gostar ontem, tal a qualidade do trompista croata Radovan Vlatković, dono de enorme musicalidade e capaz de arrancar timbres insuspeitados de seu instrumento. No bis, Vlatković surpreendeu a todos ao interpretar um trecho de Chamada Interestelar, retirado de “Des canyons aux étoiles”, de Messiaen. Explico: é raro um solista interpretar uma obra contemporânea em um bis, tradicionalmente um momento de pecinhas conhecidas. Mas o croata atacou as belas e variadas sonoridades pianofortes de Olivier Messiaen, assim como seus estranhos silêncios. Foi um momento arrepiante, verdadeiramente único.

Teraoka Vlatković durante os ensaios | Foto: Augusto Maurer
O maestro Kiyotaka Teraoka e o trompista Radovan Vlatković durante os ensaios | Foto: Augusto Maurer

Ludwig van Beethoven compôs sua Segunda sinfonia, Op. 36, entre 1801 e 1802. Na época, o compositor notara os primeiros sinais de que estava ficando surdo. Porém, desmentindo a noção de que a arte necessariamente reflete aquilo porque passa o artista, nada se nota de sua aflição na sinfonia. Ela possui quatro movimentos: Adagio molto – Allegro con brio; Larghetto; Scherzo. Allegro; Allegro molto.

O primeiro movimento é realmente sensacional — e recebeu luxuosa interpretação por parte de Teroaka e da orquestra. O Larghetto é bem chatinho, mas tudo melhora no delicioso e indiscutível Scherzo. Creio que a execução do Allegro molto foi demasiado rápida, obrigando as cordas a um tour de force que pode ser espetacular (e foi!) e adequado para finalizar um concerto, mas que não beneficia muito a sinfonia.

Sobre o Dante Barone, o que dizer? Sei lá como, parece que encontrei um lugar que minimiza a acústica terrível do local…

Programa de 29 de outubro de 2013::

Francisco Braga – Episódio Sinfônico
Richard Strauss – Concerto para trompa nº 2
Ludwig van Beethoven – Sinfonia n° 2, em Ré Maior, Op. 36

Regente: Kiyotaka Teraoka
Solista: Radovan Vlatković (trompa)

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Ospa: o gonzo, o Elgar e o Jevtic

Ospa: o gonzo, o Elgar e o Jevtic

O gonzo volta a atacar. E é o único jeito, pois o concerto de terça-feira tinha três peças e eu assisti apenas duas devido a um pequeno problema. Para acentuar meu atraso, duas pessoas me pararam no caminho, um para elogiar meu blog rapidamente e outra para discursar mais longamente sobre o mesmo assunto. Como há duas semanas um gaúcho que mora em Roraima me parou com a mesma envaidecedora intenção, chego à conclusão que sou muito famoso na Rua Duque de Caxias. E apenas lá. Engraçado, o Philip Gastal Mayer nunca elogiou meu blog, apesar de domiciliado naquela importante artéria de nossa capital.

Pois bem, como não costumo avaliar o que não vi, vou ter que deixar de fora a peça de Renato Segati, que assim permanece ainda mais Enigmática (Op. 5). Foi mal, Renato.

Cheguei esbaforido ao concerto bem no momento em que iniciava a Cello Symphony, excelente peça do sérvio Ivan Jevtic. Procurei um local adequado para observar quem me interessa, consegui e a coisa começou. Mas o estranho é que Jevtic parecia um Shostakovich cujos trechos mais dramáticos e sarcásticos tivessem sido cortados. Remexi-me na cadeira e tentei ouvir a música ignorando a enorme sombra soviética. Mas não adiantava. Quando entrou o segundo movimento — um zombeteiro Scherzoso — tudo fazia com que Shosta voltasse e invadisse minha cabeça com seus óculos de estilo realismo-socialista. Mas quando falo no russo, não pensem que estou acusando Jevtic de ser um imitador ou de um mero epígono. A música tem o sotaque de Shosta, mas é original e de excelente qualidade. Um belo movimento Lento fez com que eu ficasse só com Jevtic no Dante Barone e o Allegretto ben marcato não somente deu cifras definitivas ao marcador com estabeleceu uma vitória do compositor sérvio sobre a sombra no quesito originalidade. Ah, o violoncelista Viktor Uzur é fantástico.

O concerto teve um intervalo tão longo que li quinze páginas de Sábado, bom romance de Ian McEwan. Para que tanto tempo, heinhô?

A segunda parte teve as Variações Enigma, de Edward Elgar. A ideia da composição é muito interessante. Consiste numa série de quatorze variações sobre um tema que jamais é apresentado, o tal Enigma. A música é a melhor produzida por Elgar, o que, se não chega a ser um elogio em tratando-se de um autor tão ruim, também não faz com que ignoremos que ela é a melhor de sua obra — e a melhor de forma absolutamente disparada. Ou seja, é boa música, muito popular também. Obviamente, é uma de suas músicas mais conhecidas e não só pelo enigma escondido. Para deixar a coisa ainda mais interessante, Elgar dedicou a Enigma a seus amigos, retratados nela. Então, cada variação traz as iniciais de um brother do compositor; mostrando um quadro afetivo do mesmo. É bonito, é inglês, é querido, é quase literário. E incrivelmente é boa música vinda de um país que ama profundamente um gênero musical para o qual praticamente não compõe.

A Ospa esteve bastante bem sob o japonês Teraoka. As cordas “cantaram” com rara inspiração o movimento mais conhecido e melodioso de Enigma e trabalhou bem as modernagens de Jevtic, realizando um belo concerto na noite da última terça-feira. A noite acabou com festa íntima no Atelier das Massas. Comi um prato excepcional, chamado talvez Al Padrone. Bem, leva filé, molho de tomate e é bom demais. Recomendo.

E agora, uma canjinha para enfrentar o inesperado frio desta noite de quinta-feira arrancada do inverno. E gonzo se retira. Por ora.

Uzur observa Teraoka, que lhe faz pouco caso.
Viktor Uzur observa Teraoka, que lhe faz pouco caso | Foto Giovanna Pozzer

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E tinha pouca gente para ver James Strauss…

E tinha pouca gente para ver James Strauss…

Eu estava cansado após um dia complicado de trabalho, mas não me arrependi de ir e achei um verdadeiro crime a pouca presença de público para assistir ao belíssimo recital de música francesa do flautista James Strauss, acompanhado pela pianista Priscila Malanski e pelo soprano Luciana Kiefer.

Quem não foi ao StudioClio na última quinta-feira, perdeu um flautista que demonstrou vivência, conforto e senso de estilo dentro de um programa fascinante e extremamente difícil. E, olha, não foi coisa pouca, ele tocou por 90 minutos, sem intervalos. Ou seja, o cara não cansa… A flauta que ele utilizou foi a mesma — exatamente a mesma e histórica — usada na estreia Prélude à l’après-midi d’un faune, de Claude Debussy, uma das peças do programa.

A sonoridade de Strauss — sempre adequada e temperada de impressionismo — é a de um artista em pleno domínio de seus meios. Aliás, sua sonoridade parece ter melhorado ainda mais à medida que o recital se desenvolvia. Prova de que ele ficou entusiasmado, apesar dos poucos gatos pingados que o assistiam. A boa acústica do StudioClio também ajuda, mas o fato é que o cara toca demais.

Deixo anotado abaixo o programa, para não esquecer:

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Saint-Saëns: Une flûte invisible
Fauré: Fantaisie for Flute and Piano, Op. 79
Fauré: Morceau de concours for Flute and Piano in F major
Debussy: Syrinx
Debussy: Prélude à l’après-midi d’un faune
Roussel: Joueurs de flûte, Op. 27
Mouquet: Sonata for Flute and Piano, Op. 15 “La flute de Pan”
Donjon: Pastorales
Doyen: Poemes Grecs (1905)
Caplet: Viens! Une Flûte Invisible

Com:
James Strauss (flauta)
Luciana Kiefer (soprano)
Priscila Malanski (piano)

P.S. Ao final, fomos ao Via Imperatore, ali na República…

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Ah, e amanhã, domingo, tem mais, agora com a música de Dimitri Cerco e Philip Glass:

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Ospa com programa jazzístico, poético e zombeteiro

Ospa com programa jazzístico, poético e zombeteiro
Cristina Capparelli mandou bem e sobreviveu
Cristina Capparelli mandou bem e sobreviveu ao concerto que “matou” Gershwin

Com o tempo, a gente vai aprendendo. Os concertos regidos por Manfredo Schmiedt obedecem à seguinte lei de formação: são bem trabalhados, minuciosos, seguros, além de ousados e equilibrados. Não foi diferente ontem. A Ospa rendeu muito frente a boa parte da comunidade musical de Porto Alegre, lá presente para saudar a pianista Cristina Capparelli, solista do Concerto em Fá, de George Gershwin.

O programa começou com Evocação de Augusto Meyer, peça do crasso porto-alegrense Armando Albuquerque, amigo de Meyer, o bom poeta e melhor ensaísta que colocou o mulato Machado de Assis no lugar onde está merecidamente até hoje, ou seja, no Olimpo das letras nacionais. Albuquerque é grande compositor. Tenho seus discos Mosso e Uma ideia de café — títulos sujeitos às flutuações de uma memória vagabunda — e afirmo que são boníssimos. Evocação é um peça curta e muito interessante, com a surpresa de vermos o pianista André Carrara arranhando bastante bem um acordeon durante um solo com a percussão. O diálogo poético entre Meyer e Albuquerque foi um início promissor de concerto.

Não tem problema, ele sabia disso. O norte-americano George Gershwin tinha uma cultura musical limitada, mas era um imenso melodista. Escreveu centenas de canções, sendo uma espécie de Schubert com seus mais de 500 lieder negros. Certo preconceito dos representantes da alta cultura de sua época hesitava em considerá-lo “erudito”. Não foi o caso do grande Maurice Ravel, admirador da música e da fortuna de Gershwin. Há muitas piadas a respeito. Ora, o Concerto em Fá é bem conhecido. Foi uma encomenda da Filarmônica de Nova Iorque, estreada pelo próprio compositor ao piano em 3 de dezembro de 1925 no Carnegie Hall em Nova Iorque. O curioso é que, em fevereiro de 1937, Gershwin tocava o Concerto Em Fá com a Filarmônica de Los Angeles quando sofreu um desmaio. Levado ao hospital, recebeu o diagnóstico de tumor cerebral. Morreu cinco meses depois, aos 39 anos, no auge.

Porém, Cristina Capparelli saiu caminhando após o concerto — não foi necessária a intervenção dos maqueiros — e espero que esteja tão bem quanto esteve como solista. Excelente interpretação do concerto de Gershwin. Gostei muito de todos na interpretação do segundo movimento (Adagio — Andante com moto). Os sopros soaram tristes, dignos de uma big band de Duke Ellington, com destaque para o trompetista Tiago Linck, secundados pelo trio de clarinete, flauta e trompa, pilotados por Augusto Maurer, Klaus Volkmann e Israel Oliveira.

A diversão da noite veio por conta de Jacques Ibert e seu Divertissement. Raros “Divertimentos” são tão alegres e zombeteiros quanto este. Para orquestra reduzida, tem início agitado e atlético ao estilo do melhor Hindemith, boa escrita para sopros — e os atuais sopros da Ospa sempre respondem bem às demandas mais complicadas –, citações da Marcha Nupcial, a tangos e tem no coração uma incrível valsinha, bem burlesca, além de um solo anárquico, talvez inspirado no Bloco de Lutas, a cargo de André Carrara. Mais um show dos sopros numa música tão boa e feliz que nem parece francesa.

A Sinfonietta Prima de Ernani Aguiar, finalizou com dignidade o belíssimo programa. Depois de um severo primeiro movimento, temos um lastimoso Lento assai, seguido de uma magoada Marcha-rancho que vai desembocar num Finale daqueles que parecem formar uma mola nas cadeiras de parte da plateia, o que leva algumas pessoas a imediatamente erguerem-se e aplaudirem. E foi feito para isso mesmo.

Então, quem foi à Reitoria da Ufrgs não se arrependeu.

O célebre gaiteiro André Carrara -- pão de queijo e carne de sol.
O célebre gaiteiro André Carrara — pão de queijo e carne de sol | Foto: Augusto Maurer

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Ospa em dia de Shostakovich, Ligeti e Lutoslawski

Ospa em dia de Shostakovich, Ligeti e Lutoslawski
O trompetista Elieser e a pianista da Domenici fizeram um Shosta pra lá de bom.
O trompetista Elieser e a pianista Domenici fizeram um Shosta pra lá de bom | Foto: Augusto Maurer

Era quase 25 de setembro, dia do aniversário de minha filha e de Shostakovich, e ele foi o ponto alto de um programa que também comemorava o centenário de Lutoslawski (1913-1994) e os 90 anos de Ligeti (1923-2006).

Tudo começou com o polonês. Como não sou original, gosto do neoclássico Concerto para Orquestra de Lutos. Ele é um compositor originalíssimo, que trafegou do tango ao dodecafonismo, do foxtrot à música aleatória. Os Jogos venezianos, para pequena orquestra, apresentados ontem à noite, são o ponto da virada na carreira de Lutoslawski, quando ele abraça o princípio aleatório. O resultado é bem complexo e sujeito a um acaso controlado pelo esqueleto organizado por Lutos. É daquele tipo de obra em que os músicos combinam: “Vai cada um prum lado e nos vemos em 15 minutos, tá?” Eu curti a obra mais pela cara dos músicos, alguns loucos para rirem, fato confirmado logo após o concerto — com exceções. Jogos venezianos parece trilha sonora de um mau filme de terror. Bem diferente do caso de…

A coisa ficou MUITO mais bonita com Lontano, para grande orquestra. Pelo lado da frente, é uma música de interessantíssima textura, bela como um tapete árabe; vista por trás, é densa e ultramicrocosturada em sua polifonia. Trata-se de um jogo de sombras composto de harmonias mahlerianas com reflexos de Bach. A música de Ligeti — ao menos as obras menos sarcásticas deste grande compositor — paira acima de nós, fora do alcance. Não é para menos que Stanley Kubrick utilizou-a em momentos cruciais de 2001 (com Lux Aeterna) e de O Iluminado — justamente com as lentas transformações de Lontano. A Musica ricercata também foi utilizada em De olhos bem fechados. Foi a primeira vez que a Ospa apresentou uma obra de Ligeti, Saiu-se bastante bem.

O excelente programa foi finalizado com o aniversariante de hoje, Dmitri Shostakovich. Espécie de condensado de Shosta — incluindo lirismo, bom humor, ecos populares e militares, além de um daqueles moderati dilacerantes, tudo em versão curta –, o Concerto Nº 1 para piano, trompete e cordas é maravilhoso. Shostakovich foi bom pianista. Poderia ter feito carreira como tal, mas, para nossa sorte, escolheu compor. Foi o vencedor do internacional Concurso Chopin de 1927 e fazia apresentações regulares executando seus trabalhos. O pequeno número de gravações do próprio compositor como pianista talvez deva-se ao fato de ele ter perdido parcialmente os movimentos de sua mão direita ao final dos anos sessenta. Há registros no YouTube de Shostakovich tocando como um velocista o Finale deste concerto.

Trata-se de uma obra espetacular. Era uma boa época para os concertos para piano. O de Ravel aparecera um ano antes, assim como o 5º de Prokofiev. É coincidente que os três sejam alegres, luminosos, divertidos mesmo. É formado de quatro movimentos, sendo o primeiro muito melodioso e gentil, os dois centrais lentos e o último capaz de provocar gargalhadas. A participação de um trompetista meio espalhafatoso é fundamental, assim como de um pianista que possa fazer rapidamente a conversão entre a música de cabaré e a música militar exigidas no último movimento. Vi ontem como as pessoas sorriam durante a audição deste movimento. Não há pontos baixos neste concerto.

A pianista Catarina Domenici saiu-se muito bem, assim como o trompetista — da Ospa — Elieser Fernandes Ribeiro. Este aliás, é tão bom que a orquestra deveria explorá-lo mais. O que o homem toca não é brincadeira. O regente Antônio Borges-Cunha é das poucas pessoas de Porto Alegre que têm coragem de encarar um repertório desses. Só por isso já merece elogios. Afinal de contas, de mesmice basta eu.

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Where the hell is Dudamel? Está aqui, ó

Maestro titular em Los Angeles e Gotemburgo, Gustavo Dudamel ainda viaja pelo mundo inteiro, além de gravar para a Deutsche Grammophon. Muitas vezes, o público de Los Angeles reclama da ausência de seu regente perguntando Where the hell is Dudamel? Pois o encontramos na França, regendo a Sinfonia Nº 1 de Brahms.

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Ospa com Copland, Rossini e Brahms no Dante Barone…

Ospa com Copland, Rossini e Brahms no Dante Barone…
Milan Rericha: sensacional
Milan Rericha: sensacional

Lembro do Augusto Maurer em Capão da Canoa. Eram os anos 80, éramos jovens e às vezes íamos para a praia no inverno. Ficávamos na casa de uma namorada dele. Eles faziam a comida, eu lavava a louça. Eu lia, ela estudava e o Augusto ensaiava. E o que o Augusto mais ensaiava era a cadência do Concerto de Copland. E o fazia de um modo muito estranho, dando voltas em nossa quadra vazia da praia. Eu o localizava pelo som do clarinete.

Ontem, a Ospa iniciou seu excelente programa justamente com o lindo Concerto para Clarinete de Aaron Copland. O virtuose checo Milan Rericha é um caso à parte. Toca demais, tem som e musicalidade impressionantes. Trata-se de um sujeito sorridente e com o ar zombeteiro de quem vai abrir uma cerveja para beber conosco. Toca sorrindo, dando a impressão de fazer tudo com facilidade. A obra de Copland é formada por dois movimentos unidos pela citada cadência. O primeiro movimento é lento e lírico. A cadência dá ao solista a chance de mostrar seu virtuosismo, introduzindo temas jazzísticos — não esqueçam de que a peça foi dedicada a Benny Goodman. O segundo movimento é alegre, dando seguimento ao jazz e puxando aplausos. Rericha deu um banho.

Tanto que nem precisava da xaroposa Introdução, tema e variações para clarinete e orquestra de Gioacchino Rossini. Mero vetor de virtuosismo, desta feita sem mérito artístico, a obra serve apenas para brilhaturas do solista. Sim, o público adorou. Eu apenas pedi aos céus que a peça fosse curta. Fui atendido.

Após o intervalo, tivemos a Sinfonia Nº 1 de Johannes Brahms (1833-1897). É uma das melhores sinfonias que conheço e, dia desses, estava brigando por ela no Facebook como uma das cinco melhores de todos os tempos. Só que… Olha o Dante Barone não dá! O esforço dos músicos é comovente, não sei o que os metais e as madeiras fizeram para salvarem-se mas, desculpem, o resultado final não foi o que Brahms merece. Acho que o jeito é tornar os concertos na AL cada vez menos sinfônicos, privilegiando as instrumentações rarefeitas. O Copland estava até bem, mas quando a orquestra teve que fazer “barulho”, tudo nos chegava empastelado. Não dá. Simples assim.

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Anotações desorganizadas sobre Anna Magdalena Bach

Anotações desorganizadas sobre Anna Magdalena Bach
Dizem que esta era Anna Magdalena...
Dizem que esta era Anna Magdalena…

Estou pautado para escrever sobre Anna Magdalena Bach (1701-1760) para o próximo fim-de-semana. Ela foi a segunda esposa de Johann Sebastian Bach (1685-1750). Quase todas as mulheres dos grandes homens do passado foram pouco mais do que nomes, meras sombras. Anna é bem mais do que uma sombra. Foi muito citada por Bach e só podia ser muito talentosa. Bach deu-lhe dois presentes musicais muito famosos. São os chamados Cadernos de Notas de Anna Magdalena Bach. O primeiro deles datava de 1722 e continha somente composições de Johann Sebastian Bach. O segundo é de 1725 e é uma compilação de obras de Bach e de seus alunos. Além da excelente qualidade musical, o interessante deste livro é a possibilidade que nos dá de espreitar a música doméstica que era ouvida na casa deles. É uma coleção de pequenas peças como árias, minuetos, rondós, polonaises, prelúdios, gavotas, etc., mas, no primeiro primeiro livro também estão quase todas as Suítes Francesas, peças nada fáceis que hoje fazem parte do repertório bachiano.

Anna nasceu na Saxônia, numa família de músicos. O pai era trompetista e a mãe também era filha de músico. Ela trabalhava como cantora e conhecia Bach há algum tempo. Maria Bárbara, a primeira esposa de Bach, faleceu inesperadamente em 1720 e, dezessete meses depois, Bach casou-se com Anna Magdalena. Estávamos em 1721: ele tinha 36 anos; Anna, 20. O amor do compositor por suas duas esposas pode ser depreendido através de suas cartas e dos vinte filhos resultantes — sete com a prima Maria Bárbara e treze com Anna Magdalena, entre os anos de 1723 e 42.

Sete ficaram na alta mortalidade infantil da época. Dentre os sobreviventes estavam os também compositores Johann Christian Bach e Johann Christoph Friedrich Bach. Parece ter sido um casamento feliz. Ela transcrevia suas músicas e, na época em que moraram em Leipzig, a casa de Bach tornou-se regular local de saraus onde o casal organizava noites em que toda a família cantava e tocava juntos com alunos do compositor e amigos.

Mas é claro que tudo vai acabar em desgraça. As histórias felizes não têm mesmo graça… Após a morte de Bach, em 1750, seus filhos brigaram e se separaram. Anna Magdalena permaneceu com suas duas filhas mais jovens e uma enteada do primeiro casamento de seu marido. Mulheres sozinhas no século XVIII eram sinônimo de caridade ou ruína. Ninguém mais da família as ajudaram economicamente. Anna Magdalena ficou cada vez mais dependente dos auxílios do conselho da cidade. Morreu quase indigente.

E céus, vou ter que tornar essa história mais interessante. Há um livro chamado Crônica de Anna Magdalena Bach, mas é ficcional.

E agora, quem poderá me defender?

Dizem que esta é uma gravura de Johann Sebastian e Anna Magdalena. Estilizadinha, não?
Dizem que esta é uma gravura de Johann Sebastian e Anna Magdalena. Estilizadinha, não?

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A Carol sabe tudo

Vou contar uma historinha para vocês. Aconteceu ontem na Padaria Pasquali, aqui no bairro Cavalhada, em Porto Alegre.

Eu entrei na fila e comecei a fazer uma coisa que sempre faço quando não há músicos por perto — comecei a cantar: “Daram, daram, dararam, da-ra-ra-ram”.

Claro que vocês, pessoas inteligentes, já sabem o que eu estava cantando. Bem, foi quando uma menina que estava na minha frente, virou-se para mim e disse:

— O começo do terceiro concerto de Bartók…

E ficou totalmente vermelha, envergonhadíssima. Me apresentei, conversamos uns cinco minutos e ela perguntou se eu sabia o motivo pelo qual Bartók, um ateu e socialista, chamara de Adagio Religioso o segundo movimento. Não soube responder.

Trata-se de uma aluna de piano de 16 anos que, depois de perder a vergonha, resumiu brilhantemente o concerto:

— Tio, esta música é tudo!

E ela tem toda a razão. É tudo mesmo.

Um beijo do tio, Carol.

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Ospa: algumas anotações sobre Fidélio

Ospa: algumas anotações sobre Fidélio

Por puro pragmatismo ou esquisitice mental, toda vez que vejo o esforço necessário à montagem de uma obra de grandes proporções, penso nos motivos que levam as pessoas àquilo. No caso de Fidélio, ópera filha única de Beethoven, o caso me parecia mais grave. Uma ópera longa, de um compositor pouco afeito ao gênero, porque não investir em algo mais moderno ou nos cânones Mozart, Rossini ou Wagner? Ademais, acho que nossa época tem pleno direito — e dever — de dar sua interpretação a obras do passado, mas confesso meu preconceito para com óperas. Até Eric Hobsbawm em seu maravilhoso Tempos Fraturados escreve que “… nenhuma das óperas do repertório atual tem menos de oitenta anos, e praticamente nenhuma terá sido escrita por compositores nascidos depois de 1914. (…) A produção operística (…) consiste, na maioria esmagadora, em tentativas de refrescar túmulos eminentes depositando sobre eles diferentes conjuntos de flores”.

Só que meu amado historiador esqueceu de dizer que, não obstante a idade e os trechos do enredo fora de moda ou decididamente tolos, algumas óperas, como Fidélio, têm muito a dizer aos dias atuais. Com toda a razão, o flautista Artur Elias escreveu no Facebook da Associação de Amigos da Ospa que Fidélio trata de temas como “abuso de autoridade, violência de estado, liberdade de expressão, protagonismo da mulher”. Acrescento à lista de Artur pitadas de presos políticos, tudo isso misturado a uma música de primeira linha. Então, este chatíssimo resenhista hostil às óperas foi lá e teve que admitir que ouviu Beethoven… Ops, que gostou muito do que ouviu. Então, recuando de sua posição atacante, vamos a alguns comentários a respeito do que vimos e ouvimos no Theatro São Pedro no último sábado.

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Sexismo e racismo em Viena, nenhuma novidade

Sexismo e racismo em Viena, nenhuma novidade

Alguns músicos da Sinfônica de Viena comemoraram quando, há 15 meses, Jasmine Nakyung Choi foi nomeada para a primeira flauta. Eles viram nisso um sinal de tolerância em uma sociedade muitas vezes discriminatória.

Mas não deu nada certo. No último sábado, seus colegas votaram contra sua permanência. Motivos musicais? Não, aparentemente nada deste gênero.

Jasmine Nakyung Choi
Jasmine Nakyung Choi

O informadíssimo Norman Lebrecht ouviu fortes rumores de sexismo e racismo. Nada que surpreenda, na verdade. O que surpreende é que Jasmine tocou muito bem, sendo elogiada durante toda a temporada, mesmo num péssimo ambiente.

Mesmo assim, a direção da orquestra convidou-a para permanecer mais um ano, mas ela decidiu afastar-se do grupo hostil e voltar ao mercado de trabalho.

É triste ver Viena reforçar tais estereótipos históricos.

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Só para quem leu ‘O mestre e Margarida’ (ou gosta de Sympathy for the Devil)

Só para quem leu ‘O mestre e Margarida’ (ou gosta de Sympathy for the Devil)

Maiores detalhes, aqui. As imagens são da minissérie russa homônima, baseada da obra de Bulgákov. O autor do vídeo abaixo colocou como trilha sonora Sympathy for the devil, dos Rolling Stones, canção cuja letra é baseada no livro. Ele tentou fazer uma sincronia entre letra e imagens. Muitas vezes conseguiu, claro. No show dos Stones que o Multishow recentemente apresentou, Mick Jagger adentrou o palco para cantar Sympathy… vestido como um enorme gato preto. Letra e tradução estão abaixo.

Sympathy For The Devil

Please allow me to introduce myself
I’m a man of wealth and taste
I’ve been around for a many long years
Stole many a man’s soul and faith

And I was ‘round when Jesus Christ
Had his moment of doubt and pain
Made damn sure that Pilate
Washed his hands and sealed his fate

Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what’s puzzling you
Is the nature of my game

I stuck around St. Petersburg
When I saw it was a time for a change
Killed the czar and his ministers
Anastasia screamed in vain

I rode a tank
Held a general’s rank
When the blitzkrieg raged
And the bodies stank

Pleased to meet you
Hope you guess my name, oh yeah
Ah, what’s puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah
(woo woo, woo woo)

I watched with glee
While your kings and queens
Fought for ten decades
For the gods they made
(woo woo, woo woo)

I shouted out,
“Who killed the Kennedys?”
When after all
It was you and me
(who who, who who)

Let me please introduce myself
I’m a man of wealth and taste
And I laid traps for troubadours
Who get killed before they reached Bombay
(woo woo, who who)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
(who who)
But what’s puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah, get down, baby
(who who, who who)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
But what’s confusing you
Is just the nature of my game
(woo woo, who who)

Just as every cop is a criminal
And all the sinners saints
As heads is tails
Just call me Lucifer
‘Cause I’m in need of some restraint
(who who, who who)

So if you meet me
Have some courtesy
Have some sympathy, and some taste
(woo woo)
Use all your well-learned politesse
Or I’ll lay your soul to waste, um yeah
(woo woo, woo woo)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, um yeah
(who who)
But what’s puzzling you
Is the nature of my game, um mean it, get down
(woo woo, woo woo)

Woo, who
Oh yeah, get on down
Oh yeah
Oh yeah!
(woo woo)

Tell me baby, what’s my name
Tell me honey, can ya guess my name
Tell me baby, what’s my name
I tell you one time, you’re to blame

Oh, who
woo, woo
Woo, who
Woo, woo
Woo, who, who
Woo, who, who
Oh, yeah

What’s my name
Tell me, baby, what’s my name
Tell me, sweetie, what’s my name

Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Oh, yeah
Woo woo
Woo woo

Simpatia Pelo Diabo

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Três coisas que não têm nada a ver uma com a outra

Três coisas que não têm nada a ver uma com a outra
Renasceu. Abbado e músicos de Bologna | Foto:  Raffaello Raimondi
Renascido: Abbado e músicos de Bologna | Foto: Raffaello Raimondi

A Filarmônica de Berlim é atualmente um túmulo de maestros. Claudio Abbado, 80, depois que saiu de lá, tornou-se leve e criativo, deixando de lado o ser apocalíptico (e doente) da época berlinense. Criou a Orchestra Mozart em Bologna, onde nos brinda com luz, leveza e ousadia. Ouçam as gravações das sinfonias de Mozart para conferir. Já Simon Rattle, que era um monstro em Birmingham e foi para Berlim, lá tornou-se um regente crepuscular e rotineiro. O que fez? Ora, pediu demissão. Como o contrato é longo, retira-se em 2016, salvo engano. O próximo a adentrar a caixa mortuária de Berlim deverá ser Christian Thielemann. R.I.P. e depois saia correndo, Christian.

Na verdade, o que engessa a orquestra é o compromisso com um passado conservador, já enterrado. Se não mudar, ver a Berliner vai tornar-se mera atração turística.

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De Danielle Magno no Facebook:

Me deixa triste ver feministas pedindo censura à pornografia, dizendo que é objeto de submissão feminina e direito do homem sobre o corpo da mulher. Acho nada disso, que sociedade chata que regula nudez e sexo sob paradigmas tão autoritários.

.oOo.

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