E tinha pouca gente para ver James Strauss…
Eu estava cansado após um dia complicado de trabalho, mas não me arrependi de ir e achei um verdadeiro crime a pouca presença de público para assistir ao belíssimo recital de música francesa do flautista James Strauss, acompanhado pela pianista Priscila Malanski e pelo soprano Luciana Kiefer.
Quem não foi ao StudioClio na última quinta-feira, perdeu um flautista que demonstrou vivência, conforto e senso de estilo dentro de um programa fascinante e extremamente difícil. E, olha, não foi coisa pouca, ele tocou por 90 minutos, sem intervalos. Ou seja, o cara não cansa… A flauta que ele utilizou foi a mesma — exatamente a mesma e histórica — usada na estreia Prélude à l’après-midi d’un faune, de Claude Debussy, uma das peças do programa.
A sonoridade de Strauss — sempre adequada e temperada de impressionismo — é a de um artista em pleno domínio de seus meios. Aliás, sua sonoridade parece ter melhorado ainda mais à medida que o recital se desenvolvia. Prova de que ele ficou entusiasmado, apesar dos poucos gatos pingados que o assistiam. A boa acústica do StudioClio também ajuda, mas o fato é que o cara toca demais.
Deixo anotado abaixo o programa, para não esquecer:
Saint-Saëns: Une flûte invisible
Fauré: Fantaisie for Flute and Piano, Op. 79
Fauré: Morceau de concours for Flute and Piano in F major
Debussy: Syrinx
Debussy: Prélude à l’après-midi d’un faune
Roussel: Joueurs de flûte, Op. 27
Mouquet: Sonata for Flute and Piano, Op. 15 “La flute de Pan”
Donjon: Pastorales
Doyen: Poemes Grecs (1905)
Caplet: Viens! Une Flûte Invisible
Com:
James Strauss (flauta)
Luciana Kiefer (soprano)
Priscila Malanski (piano)
P.S. Ao final, fomos ao Via Imperatore, ali na República…
Ah, e amanhã, domingo, tem mais, agora com a música de Dimitri Cerco e Philip Glass:
Sobre o SC Internacional: Andreas Müller já escreveu, não preciso repisar
Por Andreas Müller
O pior não são as derrotas. Não é a distância do G4 e nem a proximidade do Z4. O pior tampouco é esse time esgotado, nem a incapacidade do clube de ajustá-lo. Não é a dança aparentemente aleatória de técnicos a escalações. Não é mais um ano jogado fora.
O pior, amigos, é a falta de esperança.
Pois esse Inter não nos permite esperar nada. Não dá chance ao menor otimismo. O Inter está desacordado e jogado na sarjeta, carcaça inerte, enquanto uma pequena multidão o cerca esperando por um espasmo, um mexer de órbitas, um sinal mínimo de vida. Que não vem.
O Inter está em oitavo lugar. Mas vive uma crise anímica de lanterna. Porque não dá esperança de nada. A ninguém. O torcedor colorado abre o jornal e vai à tabela do campeonato tentando garimpar pontos nas próximas rodadas. Contra o Náutico? Quem sabe contra o Santos? Ou contra o Grêmio, na imprevisibilidade do clássico? Mas o torcedor não pode esperar nada de nada, nem dos jogos mais fáceis, e fecha o jornal com um nó no estômago, sentindo-se à deriva. Como se só a sorte pudesse lhe trazer um momento de alegria.
O Inter agora procura um novo técnico. E nem isso serve de esperança. Não há, no mundo inteiro, um único nome que inspire o sentimento clássico do colorado da gema – o sentimento de “agora vai”. Porque, no fundo, já está claro que o problema não é o nome do técnico. É algo maior. Anímico, quase espiritual. O que aflige o Inter é uma lassidão, um torpor atordoante. Olhamos para o Inter e o Inter não está lá. Porque falta esperança e, sobretudo, um motivo para tê-la.
Cena de Fahrenheit 451 (1966), clássico de François Truffaut
Com Julie Christie e Oskar Werner. Baseado no romance homônimo de Ray Bradbury (1920-2012) que apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas, e o pensamento crítico é suprimido. O personagem central, Montag (Werner), trabalha como “bombeiro” (o que na história significa “incendiário de livros”). O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius.
Fonte das imagens: o blog O homem que sabia demasiado.
E o Nobel de Literatura de 2013 vai para Alice Munro
A canadense Alice Munro ganhou o Nobel de Literatura de 2013. Desde 1976, quando o laureado foi Saul Bellow, que um prêmio não me dava tanta satisfação. É raro ficarmos satisfeitos com as escolhas da Academia Sueca. Brodsky (1987) e Seamus Heaney (1995) foram duas boas excepções, mas houve anos de absoluto nonsense: 1989 (Cela), 1992 (Walcott), 1997 (Fo) e 2004 (Jelinek).
Contista admirável, Alice Munro nunca escreveu romances. Estão publicados em Portugal, pela Relógio d’Água, seis dos catorze livros que publicou entre 1968 e 2012. (Cinco estão traduzidos pelo poeta José Miguel Silva; um por Margarida Vale de Gato.) Aos 82 anos, depois de anunciar que se retirava da literatura, o prêmio representa o triunfo do storytelling.
Do blog Da Literatura
P.S. de Milton Ribeiro — No Brasil, a Companhia das Letras lançou O Amor de uma Boa Mulher, Fugitiva e Felicidade Demais, creio. E a Globo lançou Ódio, amizade, namoro, amor, casamento. E acho que é só.
Asco, de Horacio Castellanos Moya
Não entendi porque o volume da Rocco não traz o nome completo da excelente novela de Horacio Castellanos Moya, El Asco — Thomas Bernhard en San Salvador, nem ao mesmo O Asco, mas apenas Asco (Ed. Rocco, 111 páginas). Porém, deixando de lado as opções editoriais, a curiosa novela de Moya merece leitura atenta.
Curiosa por ser uma clara imitação de Thomas Bernhard — em estilo, estrutura e temática –, curiosa por Moya confessar isto no título, curiosa por ele ter repassado todo o ódio de Bernhard, aos austríacos em geral e aos habitantes de Salzburgo em especial, para um local do terceiro mundo, a cidade de San Salvador, capital de El Salvador.
Para quem não conhece Bernhard é bom explicar: seus livros são escritos em longos parágrafos — normalmente apenas um –, suas longas frases são fáceis de ler em razão das repetições e variações cuidadosamente realizadas e nelas o escritor destila ódio por páginas e páginas, chegando a tal paroxismo e descontrole que às vezes torna-se engraçado. Também não recua frente ao politicamente incorreto.
Moya foca seu relato no salvadorenho naturalizado canadense Vega, um acadêmico que retorna ao país para o enterro da mãe. Enquanto aguarda os papéis do inventário, Vega descreve suas impressões sobre o país e seus parentes, odiando tudo minuciosamente, mas minuciosamente MESMO. A invenção de Bernhard, aqui tropicalizada, funciona perfeitamente, tanto que o autor sofreu ameaças e preferiu passar bom tempo fora do país. Livrinho fascinante com ótima tradução de Antônio Xerxenesky.
Ospa com programa jazzístico, poético e zombeteiro

Com o tempo, a gente vai aprendendo. Os concertos regidos por Manfredo Schmiedt obedecem à seguinte lei de formação: são bem trabalhados, minuciosos, seguros, além de ousados e equilibrados. Não foi diferente ontem. A Ospa rendeu muito frente a boa parte da comunidade musical de Porto Alegre, lá presente para saudar a pianista Cristina Capparelli, solista do Concerto em Fá, de George Gershwin.
O programa começou com Evocação de Augusto Meyer, peça do crasso porto-alegrense Armando Albuquerque, amigo de Meyer, o bom poeta e melhor ensaísta que colocou o mulato Machado de Assis no lugar onde está merecidamente até hoje, ou seja, no Olimpo das letras nacionais. Albuquerque é grande compositor. Tenho seus discos Mosso e Uma ideia de café — títulos sujeitos às flutuações de uma memória vagabunda — e afirmo que são boníssimos. Evocação é um peça curta e muito interessante, com a surpresa de vermos o pianista André Carrara arranhando bastante bem um acordeon durante um solo com a percussão. O diálogo poético entre Meyer e Albuquerque foi um início promissor de concerto.
Não tem problema, ele sabia disso. O norte-americano George Gershwin tinha uma cultura musical limitada, mas era um imenso melodista. Escreveu centenas de canções, sendo uma espécie de Schubert com seus mais de 500 lieder negros. Certo preconceito dos representantes da alta cultura de sua época hesitava em considerá-lo “erudito”. Não foi o caso do grande Maurice Ravel, admirador da música e da fortuna de Gershwin. Há muitas piadas a respeito. Ora, o Concerto em Fá é bem conhecido. Foi uma encomenda da Filarmônica de Nova Iorque, estreada pelo próprio compositor ao piano em 3 de dezembro de 1925 no Carnegie Hall em Nova Iorque. O curioso é que, em fevereiro de 1937, Gershwin tocava o Concerto Em Fá com a Filarmônica de Los Angeles quando sofreu um desmaio. Levado ao hospital, recebeu o diagnóstico de tumor cerebral. Morreu cinco meses depois, aos 39 anos, no auge.
Porém, Cristina Capparelli saiu caminhando após o concerto — não foi necessária a intervenção dos maqueiros — e espero que esteja tão bem quanto esteve como solista. Excelente interpretação do concerto de Gershwin. Gostei muito de todos na interpretação do segundo movimento (Adagio — Andante com moto). Os sopros soaram tristes, dignos de uma big band de Duke Ellington, com destaque para o trompetista Tiago Linck, secundados pelo trio de clarinete, flauta e trompa, pilotados por Augusto Maurer, Klaus Volkmann e Israel Oliveira.
A diversão da noite veio por conta de Jacques Ibert e seu Divertissement. Raros “Divertimentos” são tão alegres e zombeteiros quanto este. Para orquestra reduzida, tem início agitado e atlético ao estilo do melhor Hindemith, boa escrita para sopros — e os atuais sopros da Ospa sempre respondem bem às demandas mais complicadas –, citações da Marcha Nupcial, a tangos e tem no coração uma incrível valsinha, bem burlesca, além de um solo anárquico, talvez inspirado no Bloco de Lutas, a cargo de André Carrara. Mais um show dos sopros numa música tão boa e feliz que nem parece francesa.
A Sinfonietta Prima de Ernani Aguiar, finalizou com dignidade o belíssimo programa. Depois de um severo primeiro movimento, temos um lastimoso Lento assai, seguido de uma magoada Marcha-rancho que vai desembocar num Finale daqueles que parecem formar uma mola nas cadeiras de parte da plateia, o que leva algumas pessoas a imediatamente erguerem-se e aplaudirem. E foi feito para isso mesmo.
Então, quem foi à Reitoria da Ufrgs não se arrependeu.

Tempos Fraturados, de Eric Hobsbawm
Excelente e boêmio livro do grande Hobsbawm, falecido em 2012. Trata-se de 22 ensaios curtos sobre a cultura, a política e a sociedade do século XX. Muitos deles originaram-se de conferências ministradas pelo veterano Hobs – nascido em 1917 – para os mais diversos eventos. Cada um deles poderia ser expandido para formar um volume separado. Há desde análise sobre o papel do caubói na cultura americana e considerações sobre a moda até considerações fundamentais sobre a boliolice (palavra minha) do intelectual público moderno, sobre os guetos onde a grande música e grande literatura foram se esconder e sobre a situação das religiões no mundo. No último caso, as religiões são tratadas como devem ser: como forças políticas.
É difícil escrever uma resenha sobre um livro que trata de 22 temas, mesmo que estes estejam agrupados em 5 seções. Melhor citar o brilhantismo da prosa e das argumentações do mestre. Então, coloco abaixo os títulos de cada um dos ensaios a fim de que cada membro de meu septeto ledor possa avaliar o potencial de interesse que teria Tempos Fraturados (Cia. das Letras, 358 pág, tradução de Berilo Vargas). Depois, como test drive, coloco um trecho de A perspectiva da religião pública. Pura isca para o debate.
As divisões e ensaios do livro:
Propaganda italiana do Viagra
Bom dia, Dunga

Meu caro quase ex-treinador do Inter, sabe o que acabo de ouvir, dito pelo Iuri Müller? “Quinta-feira esclarecedora: agora, o Inter já sabe o campeonato que disputa — o da luta contra o rebaixamento”. Ele tem razão.
Me orgulho de ter tido um chilique — na verdade, quase uma convulsão — quando o Luigi foi reeleito. A culpa da situação é dos conselheiros que evitaram a eleição pelos sócios no final do ano passado. E, secundariamente, tua e do bobão do nosso presidente.
E o time? O time está uma bagunça, né Dunga? Os jogadores não te suportam mais. O Damião só quer fazer lambretas e jogadas de estilo. O vestiário está te queimando, Dunga. Simples assim. Só não vê quem não quer. Acho que só o Dale e alguns veteranos estão do teu lado, o resto…
Acabo de receber o seguinte e-mail:
Vitórias sobre Náutico e Ponte Preta = 6 Pontos.
Empates contra Coritiba e São Paulo = 2 Pontos.
Ficaríamos com 42 pontos. Será que chega pra fugir do rebaixamento?
Se precisar mais, tiraremos de qual adversário?
Já estou começando a me preocupar!
É bom lembrar que o Náutico começou a ganhar alguns jogos…
Coisas que o Bernardo esquece num reles pen drive
Sei, fotógrafos tiram muitas fotografias. Então, eu olho o conteúdo de um velho pen drive e encontro uma série de ótimas fotos do meu filho Bernardo Jardim Ribeiro, todas do Lado B do Centro de Porto Alegre.
Há mais, sobre outros temas, mostro pra vocês qualquer dia desses.
Para vê-las em tamanho maior, basta clicar sobre cada uma delas.
Só para porto-alegrenses: quem quer o livro ‘Está ficando tarde demais’, de Antonio Tabucchi?
Se alguém quiser o livro Está ficando tarde demais, de Antonio Tabucchi, tenho um exemplar SOBRANDO aqui comigo no centro de Porto Alegre. Se alguém quiser vir buscar ou mandar buscar, é um interessante romance. O primeiro que disser nos comentários do blog “Quero, vou buscar”, ganhou, OK? Só não desejo enviar pelo correio e outras chatices, certo? O exemplar está zero quilômetro, é que tenho outro em casa.
Maria Luiza & Milton (meu pai)
A interpretação iconográfica de Francisco Marshall sobre o quadro referido no post anterior

Neste post, lancei um desafio ao amigo e professor Francisco Marshall: o de analisar o significado do mural presente na sala do café da manhã do Itaimbé Palace Hotel. O resultado foi espantoso. Como disse a grande artista plástica Maria Tomaselli, “a análise foi um elixir de divertimento, raramente uma obra recebeu tão extensiva e explícita descrição e análise”. E completou zombeteiramente: “tô com inveja”. O detalhe é que o Marshall topou o desafio com o maior bom humor, respondendo muito rapidamente, ontem à noite, enquanto se recupera de uma pneumonia. Com vocês, Francisco Marshall: (ah, melhoras, meu amigo!)
Mais um ah: As fotos acompanham vagamente as partes que vão sendo analisadas.
Costumo dizer em minhas aulas de Iconografia e iconologia ou de História da arte que nos interessa a tartaruga em cima da árvore. Tartaruga não sobe em árvore, se está lá, é porque alguém a colocou intencionalmente. É a diferença entre interpretar Botticelli, Tarkovsky, Taviani, Van Damme, Stallone ou Bruce Willis, embora aquele Maverick vermelho possa ter imenso valor simbólico para algum marmanjo na plateia, sobretudo quando explode e este chora. De modo geral, a interpretação faz sentido conforme a intensidade e a qualidade de sua determinação autoral, e há casos em que a interpretação é ridícula exatamente por atribuir significados onde predomina o acaso. Nos painéis do Hotel Itaimbé, trata-se de arte kitsch, comum no interior do Brasil e do mundo, onde se fundem elementos ingênuos com referências da tradição, alguma narrativa e certas pretensões. São interpretáveis, mas temos que considerar alguma fragilidade no sistema, e dar descontos para eventuais inconsistências, ou, pior, para a simplicidade das conclusões.
Este painel tem sentido esquerda-direita e três momentos. Principia de um mundo noturno de silhuetas ferozes, alusivo à rusticidade guerreira dos ancestrais mithistóricos do gaúcho. Das lanças, destaca-se pelo brilho a parte que se assemelha a uma cruz, o que pode ter sido uma solução engenhosa para referir, de passagem, as missões jesuíticas e o papel da igreja na violência colonial. Lanceiros, cavalos, capas, cão: está claríssima a parte escura da obra.
Só faltou ao “fotógrafo” Milton Ribeiro registrar ou publicar a assinatura de quem cometeu a obra, assinada no canto superior esquerdo.
A parte central é precedida por aurora, junto à figueira. Diante da aurora, a primeira figura é uma jovem nua sobre uma bicicleta com a direção voltada no sentido final da obra. A bicicleta substitui os cavalos, e combina com a graça jovial buscada nesta composição, a qual pode evocar, em alguns espectadores, associações com as Graças (Charites) em geral e com as de Botticelli em particular, mas não vejo relações muito fortes, exceto as que se notam entre o fotógrafo e uma cálida figura tridimensional que ultrapassa minhas capacidades hermenêuticas. A ciclista branca de negras melenas é abraçada por moça ruiva, em um precioso nu frontal. Sempre que ocorre, este tipo de nu é sinal de liberdade e ousadia. As moças desta parte do painel, ninfas, têm cabelos esvoaçantes, que notam que o(a) autor(a) nada sabe de ventos, preferiu movimentos uniformes que acentuariam coreografia, todavia inexistente. A ruiva está com os dois pés no chão e os cabelos voam, tipo do detalhe que consagra a natureza kitsch de uma obra (desculpem, não é pernosticismo: kitsch é um dialeto bem conhecido). A terceira moça do grupo está em destaque, evolui no sentido final (telos) da obra, e conduz guirlanda floral, evocando um pouco (ok, conceda-se Botticelli, com ressalvas) o mundo da ninfa Flora, a Chloris que raptada por Zéfiro virou Flora, descrita no Fasto de 2 de maio de Ovídio (primavera). As primeiras flores são margaridas amarelas, depois, rosinhas de jardim, mas que importa? A parte enigmática está na figura feminina aérea, com os pés na área noturna e a cabeça, com cabelos curtos (?) próxima da face da terceira moça terrestre (ninfa?), como se a soprasse, mas não se nota vento. Ainda na parte aérea, há, após a ninfa floral e intermediando a terceira parte do painel, um putto com um balde do qual derrama-se (aparentemente) água. Não é Eros, pois este teria algum sinal, arco, flecha, carcás, labareda para cima, abelhas, algo assim, mas só tem este balde, que define um novo território, pois suas águas vertem como base da terceira cena. De um modo geral, o painel central permutou a violência histórica por certa graça e vitalidade, em grande contraste.
Quanto ao violinista, que aparece ao fundo, entre ninfa ruiva e flora loira, pode evocar a fantasia de Chagall (não creio, faltam mais elementos – e sobretudo talento – para se ver esta relação) ou o filme “Um violinista no telhado”, de 1971, cujo poster usava figura muito similar a esta. No caso, pode apontar um terminus post quem (datação mais antiga) para o painel, em 1971, e também uma interferência anedótica, uma concessão do(a) pintor(a) a alguém do entorno, comissionador, amante, amigo(a), mãe, ou o fascínio do(a) autor(a) com o filme, aliás muito bonito mesmo. Fora isto, parece ter como função, no movimento da obra, oferecer uma música mágica para a ninfa Flora que evolui.
A terceira parte reapresenta as “ninfas”. A ciclista, medianeira, está voltada para a cena central, desta feita sem bici, mas ainda nua e sentada; seus cabelos negros escorrem em simetria com as águas que jorram do balde acima. Parece banhar-se; é um nú um tanto mal desenhado… mas não destoa (!). Logo atrás dela, reverberando o contraste que a mesma figura enfrenta na cena anterior, um cão muito doméstico (e desagradável, estes malditos pequineses) tendo ao fundo silhueta de metrópole com arranha-céus; nisto se transformaram um bravo mastim campeiro e lanças heroicas. Notem que os topos dos arranha-céus têm cruzes, como as lanças.
Há frutas na parte superior do painel, uvas e folhas que começam a secar. As outras duas ninfas estão a seguir, alinhadas, seguindo uma escala decadente, e uma delas a loira, final, tem na mão direita uma maçã, símbolo cristão que aqui conota decadência. Elas se cobrem progressivamente, e são sucedidas, no plano visual, por uma figura masculina encapuzada com um manto, aparentemente verde, e traços fisionômicos que indicam um retrato, um homem jovem, de cabelos negros, bigode e cavanhaque. Aposto que é o artista. Ele tem atrás de si sinais outonais (folhas secas, tronco seco) e o retorno da noite. Esta parte a fotografia não cobriu suficientemente. Encerra-se aqui a descrição iconográfica com alguma análise formal.
Algumas conclusões:
1. O painel apresenta as estações como alegoria do ciclo do tempo, passando do inverno à primavera, verão e outono, e associadas ao desenvolvimento histórico, passando da guerra à paz, o florescimento, o acúmulo nas cidades e a decadência, na qual ainda cabe um olhar retrospectivo (do artista), místico.
2. Colocar muita roupa é sinal de decadência: de acordo.
3. Colocar qualquer roupa, ora.
4. O Milton me deve um Vinho. Note-se o V maiúsculo.
5. …feita a descrição iconográfica, fica mais fácil (se possível…) viajar, fiquem à vontade, eu cansei!
O espantoso mural do Hotel Itaimbé de Santa Maria
Tudo foi perfeito na festa de aniversário da Nikelen Witter, em Santa Maria, para onde fomos no fim-de-semana. Boas conversas, gentilezas e nem vou entrar nos temas gastronômicos. Acho que basta dizer que ganhei 1,3 Kg em dois dias.
Mas houve um momento de choque. Foi quando entramos para tomar o café da manhã no Hotel Itaimbé ou, de forma mais real e pernóstica, no Itaimbé Palace Hotel. A primeira coisa que vimos foi um enorme mural com ninfas de Botticelli tão bombadas quanto as nadadoras da ex-Alemanha Oriental. Uma delas, talvez a famosa Kornelia Ender, curiosamente pilotava uma bicicleta.
Devido aos faltos trajes da moça, pensei no papel que o selim pudesse ter, mas deixa pra lá. Rindo muito, a querida Elena Romanov quis sentar de costas para a telona. Mas este fotógrafo não perdoou e registrou o fato com alegria. Vejam a moldura, a beleza botticeliana de minha fotografia.
E estava se divertindo à beça com as bobagens que eu dizia. Elena é violinista e, casualmente, aparecia um de cartola, bem a seu lado.
Porém, quando a avisei do moço que tocava de cartola sobre seu ombro esquerdo, a expressão que ela apresentou não foi assim tão feliz.
James Joyce, 1938
As contribuições de Carpeaux, Caro e Zweig, ilustres imigrantes que chegaram com a guerra

Quem conheceu Otto Maria Carpeaux descrevia-o como uma espécie de monstro. O escritor José Roberto Teixeira Leite era seu amigo e desenhava assim a figura do austríaco: “Carpeaux foi um dos homens mais feios que conheci. Sua aparência neandertalesca, todo mandíbulas e sobrancelhas, fazia a delícia dos caricaturistas: parecia um troglodita, mas um troglodita que lia Homero e Virgílio no original, que se deliciava e ensinava sobre Bach e Beethoven, que diferenciava e palestrava sobre Rubens e Van Dyck”. Carpeaux também era gago. Carlos Drummond de Andrade, outro amigo, disse que, numa viagem de carro, ele foi citar Kierkegaard. “Começou a falar quando saímos de Juiz de Fora, Ki… Ki… Ki… e só completou o nome do autor dinamarquês em Barbacena, uns 80 quilômetros adiante’.
Antes de ser Otto Maria Carpeaux no Brasil, ele foi Otto Karpfen, um austríaco que estudou filosofia (doutorou-se em 1925), matemática (em Leipzig), sociologia (em Paris), literatura comparada (em Nápoles) e política (em Berlim); além de dedicar-se à música. Mesmo gago, ele falava e escrevia em inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, flamengo, catalão, galego, provençal, latim e servo-croata. Mas não sabia muito da língua portuguesa quando chegou ao Brasil no final de 1939, fugido da Alemanha nazista. Tinha pai judeu e mãe católica. Identificava-se como católico. Quando chegou, foi trabalhar no interior do Paraná, numa fazenda, no campo.

O austríaco Stefan Zweig chegou aqui já famoso. Era um romancista muito popular. Judeu e austríaco, foi também poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo. Para as gerações mais antigas, Zweig era principalmente o autor de biografias. Escreveu várias: de Dostoiévski, Dickens, Balzac, Nietzsche, Tolstoi, Stendhal e uma famosíssima na primeira metade do século XX, de Maria Antonieta. Conseguiu o reconhecimento como romancista nas décadas de 20 e 30. Neste período, destacam-se os romances “Amok” (1922), “Angústia” (1925) e “Confusão de Sentimentos” (1927).
Em 1934 deixou o país e passou a viver na Inglaterra, entre Londres e Bath, onde se naturalizou cidadão britânico. Com o início da Segunda Guerra Mundial e o avanço das tropas de Hitler, o casal atravessou o Atlântico em 1940 e se estabeleceu nos Estados Unidos. Em 22 de agosto do mesmo ano, veio pela primeira vez ao nosso país. Ao todo, Zweig e sua esposa Lotte fizeram três viagens ao Brasil. Durante a primeira, entre 1940 e 1941 para uma série de palestras, escreveu:
“Você não pode imaginar o que significa ver este país que ainda não foi estragado por turistas e tão interessante. Hoje estive nas cabanas dos pobres que vivem aqui com praticamente nada (as bananas e mandiocas estão crescendo em volta), as crianças se desenvolvem como se estivessem no Paraíso — , a casa inteira, desde o chão, lhes custou seis dólares e, por isso, são proprietários para sempre. É uma boa lição ver como se pode viver simplesmente e, comparativamente, feliz — uma lição para todos nós que perdemos tudo e não somos felizes o bastante agora”.
É uma visão sociologicamente ingênua, mas demonstrava algum amor pelo país que adotaria.

O judeu Herbert Caro veio da Alemanha para Porto Alegre. Tinha em comum com Carpeaux a cultura literária enciclopédica e o profundo amor pela música. Na Alemanha, fora impedido de exercer a advocacia devido à promulgação das primeiras leis antissemitas pelo governo nazista. Primeiramente, refugiou-se na França, onde estudou Letras Clássicas na Universidade de Dijon. Para sustentar-se, dava aulas de latim e pingue-pongue – Caro havia integrado a seleção alemã de tênis de mesa durante seis anos e sido um dos dirigentes da federação de 1926 a 1933. Permaneceu um ano na França. Pressentindo a proximidade da guerra, buscou novo exílio. O Brasil surgiu como a melhor opção. Afinal, um amigo dissera que era um país barato de se viver. E Herbert Caro chegou a Porto Alegre em 7 de maio de 1935. Na mala, pouca coisa; no cérebro, um vocabulário de cerca de três mil palavras que aprendera em algumas aulas de português antes da viagem.
O vocabulário permitia que ele entendesse o Correio do Povo e pedisse informações na rua sem compreender perfeitamente a resposta. O ouvido ainda não estava acostumado. Seus conhecimentos de Direito eram inúteis e o doutorado em Filosofia também pouco valia na Porto Alegre da década de 30. O domínio de várias línguas proveu a subsistência nos primeiros anos e direcionou sua vida.
Os maiores livros de todos os tempos, votados por 125 autores

Mais uma lista. Discordo de muitas coisas, mas há lembranças interessantes.
TOP TEN WORKS OF THE 20TH CENTURY
Lolita by Vladimir Nabokov
The Great Gatsby by F. Scott Fitzgerald
In Search of Lost Time by Marcel Proust
Ulysses by James Joyce
Dubliners by James Joyce
One Hundred Years of Solitude by Gabriel Garcia Marquez
The Sound and the Fury by William Faulkner
To The Lighthouse by Virginia Woolf
The complete stories of Flannery O’Connor
Pale Fire by Vladimir Nabokov
TOP TEN WORKS OF THE 19th CENTURY
Anna Karenina by Leo Tolstoy
Madame Bovary by Gustave Flaubert
War and Peace by Leo Tolstoy
The Adventures of Huckleberry Finn by Mark Twain
The stories of Anton Chekhov
Middlemarch by George Eliot
Moby Dick by Herman Melville
Great Expectations by Charles Dickens
Crime and Punishment by Fyodor Dostoevsky
Emma by Jane Austen
TOP TEN AUTHORS BY NUMBER OF BOOKS SELECTED
William Shakespeare — 11
William Faulkner — 6
Henry James — 6
Jane Austen — 5
Charles Dickens — 5
Fyodor Dostoevsky — 5
Ernest Hemingway — 5
Franz Kafka — 5
(tie) James Joyce, Thomas Mann, Vladimir Nabokov, Mark Twain, Virginia Woolf — 4
TOP TEN AUTHORS BY POINTS EARNED
Leo Tolstoy — 327
William Shakespeare — 293
James Joyce — 194
Vladimir Nabokov — 190
Fyodor Dostoevsky — 177
William Faulkner — 173
Charles Dickens — 168
Anton Chekhov — 165
Gustave Flaubert — 163
Jane Austen — 161
Frases ouvidas hoje pela manhã
Ospa em dia de Shostakovich, Ligeti e Lutoslawski

Era quase 25 de setembro, dia do aniversário de minha filha e de Shostakovich, e ele foi o ponto alto de um programa que também comemorava o centenário de Lutoslawski (1913-1994) e os 90 anos de Ligeti (1923-2006).
Tudo começou com o polonês. Como não sou original, gosto do neoclássico Concerto para Orquestra de Lutos. Ele é um compositor originalíssimo, que trafegou do tango ao dodecafonismo, do foxtrot à música aleatória. Os Jogos venezianos, para pequena orquestra, apresentados ontem à noite, são o ponto da virada na carreira de Lutoslawski, quando ele abraça o princípio aleatório. O resultado é bem complexo e sujeito a um acaso controlado pelo esqueleto organizado por Lutos. É daquele tipo de obra em que os músicos combinam: “Vai cada um prum lado e nos vemos em 15 minutos, tá?” Eu curti a obra mais pela cara dos músicos, alguns loucos para rirem, fato confirmado logo após o concerto — com exceções. Jogos venezianos parece trilha sonora de um mau filme de terror. Bem diferente do caso de…
A coisa ficou MUITO mais bonita com Lontano, para grande orquestra. Pelo lado da frente, é uma música de interessantíssima textura, bela como um tapete árabe; vista por trás, é densa e ultramicrocosturada em sua polifonia. Trata-se de um jogo de sombras composto de harmonias mahlerianas com reflexos de Bach. A música de Ligeti — ao menos as obras menos sarcásticas deste grande compositor — paira acima de nós, fora do alcance. Não é para menos que Stanley Kubrick utilizou-a em momentos cruciais de 2001 (com Lux Aeterna) e de O Iluminado — justamente com as lentas transformações de Lontano. A Musica ricercata também foi utilizada em De olhos bem fechados. Foi a primeira vez que a Ospa apresentou uma obra de Ligeti, Saiu-se bastante bem.
O excelente programa foi finalizado com o aniversariante de hoje, Dmitri Shostakovich. Espécie de condensado de Shosta — incluindo lirismo, bom humor, ecos populares e militares, além de um daqueles moderati dilacerantes, tudo em versão curta –, o Concerto Nº 1 para piano, trompete e cordas é maravilhoso. Shostakovich foi bom pianista. Poderia ter feito carreira como tal, mas, para nossa sorte, escolheu compor. Foi o vencedor do internacional Concurso Chopin de 1927 e fazia apresentações regulares executando seus trabalhos. O pequeno número de gravações do próprio compositor como pianista talvez deva-se ao fato de ele ter perdido parcialmente os movimentos de sua mão direita ao final dos anos sessenta. Há registros no YouTube de Shostakovich tocando como um velocista o Finale deste concerto.
Trata-se de uma obra espetacular. Era uma boa época para os concertos para piano. O de Ravel aparecera um ano antes, assim como o 5º de Prokofiev. É coincidente que os três sejam alegres, luminosos, divertidos mesmo. É formado de quatro movimentos, sendo o primeiro muito melodioso e gentil, os dois centrais lentos e o último capaz de provocar gargalhadas. A participação de um trompetista meio espalhafatoso é fundamental, assim como de um pianista que possa fazer rapidamente a conversão entre a música de cabaré e a música militar exigidas no último movimento. Vi ontem como as pessoas sorriam durante a audição deste movimento. Não há pontos baixos neste concerto.
A pianista Catarina Domenici saiu-se muito bem, assim como o trompetista — da Ospa — Elieser Fernandes Ribeiro. Este aliás, é tão bom que a orquestra deveria explorá-lo mais. O que o homem toca não é brincadeira. O regente Antônio Borges-Cunha é das poucas pessoas de Porto Alegre que têm coragem de encarar um repertório desses. Só por isso já merece elogios. Afinal de contas, de mesmice basta eu.























