Bem, meus sete leitores me conhecem. Não posso oferecer-lhes a habitual lista de dez filmes porque não vi dez filmes realmente bons. E olha que vi uns oitenta.
A listinha ficou assim:
— A Separação, de Asghar Farhadi — Drive, de Nicolas Winding Refn — As praias de Agnès, de Agnès Varda — Deus da Carnificina, de Roman Polanski — Fausto, de Alexander Sokurov
Importante: como Porto Alegre é cada vez mais periférica, não viu filmes como Holy Motors, de Leos Carax, nem O Cavalo de Turim, de Béla Tarr. Periferia é foda, vou te contar…
Um homem não identificado ficou nu em cima da estátua do príncipe George, duque de Cambridge, em frente ao Ministério da Defesa, em Whitehall, no centro de Londres, no dia 23 de novembro de 2012. O homem, que causou uma paralisação de quase duas horas no trânsito, posou para várias fotos antes de ser retirado. Foto de Justin Tallis. CLIQUE PARA AMPLIAR.
Não sei se o Inter está por demais empobrecido do ponto de vista financeiro — já estava do ponto de vista diretivo — ou Dunga e a nova comissão técnica querem antes uma resposta para a eterna interrogação do clube — há elenco ou não? Ou, de forma mais explicita: pode um time com D`Alessandro, Damião, Guiñazú, Dagoberto, Forlán, Juan, Dátolo, Índio, Muriel, Kléber, etc. ser ruim? Ou ruins eram as comissões técnicas anteriores? Esta dúvida também é minha, pois tivemos uma incrível sequência de técnicos aprendizes (Falcão, Fernandão) ou preguiçosos (Dorival). Para piorar, eles trataram de fazerem-se acompanhar de outros incompetentes. A convicção no amadorismo foi tão grande que eles conseguiram “expulsar para o Corinthians” um dos melhores preparadores físicos do país, Fábio Mahseredjian.
A hipótese de que Dunga deseje ver antes o que realmente tem em casa me sabe muito bem. É uma estratégia de cunho europeu, algo de longo prazo, pois, convenhamos, até hoje não se sabe quem são e o que podem fazer Dagoberto, Forlán e Juan, para ficar no mínimo. Do ponto de vista estritamente técnico, o ano de 2012 não existiu, tendo sido substituído por rosários de lesões musculares (vide o caso D`Alessandro) e de bisonhos treinamentos, incapazes de dar um padrão tático ao time. Na minha opinião, o trio que citei acima está chegando ao clube agora para fazer suas estreias.
Vejam bem, este é o melhor pensamento que posso extrair de uma diretoria que foi a maior inimiga do clube no ano passado, mas que teve o bom senso de contratar profissionais em 2013. Acho mesmo do ano passado não se extrai nada, a não ser a necessidade de livrar-se de Nei, Bolívar, Ratinho, talvez de Bolatti e Élton. 2012 passou em branco.
Vou ser otimista e pretendo esquecer aquele frase lida no Diário Gaúcho que dizia que a rescisão de Bolívar custaria ao clube 2 milhões de reais. Espero que seja mentira.
Bem, hoje Dunga e Paulo Paixão começam a trabalhar e, por incrível que pareça, este torcedor está otimista. Se não der certo, ao menos vamos nos divertir com as brigas de Dunga com a imprensa. (Adoro!)
Crianças palestinas jogam futebol em frente ao muro que as separa de Israel. Talvez os sionistas tenham medo de alguma bolada, sabe-se lá. A foto é de Ahmad Gharabli (AFP) e foi tirada na aldeia de Abu Dis, na Cisjordânia, em 8 de novembro de 2012. (CLIQUE PARA AMPLIAR)
Em 2013, não quero ir a nenhum velório. Desse jeito, daqui há pouco os porteiros do Crematório São José já vão me saudar com um “Como vai, seu Milton, de novo por aqui?”. Afinal, toda hora estou indo lá. Em termos de mortes, 2012 trouxe muitas más notícias.
E, para que eu não entre lá pela outra porta, acho que eu deveria fazer um check-up. O último foi feito há uns quatro anos e eu simplesmente guardei numa pasta as requisições da Unimed, preenchidas pelo Dr. Hilário Wolmeister. Não fiz nenhum exame, pois parecia-me que sempre tinha algo mais urgente a resolver. Poderia também visitar um oftalmologista. Estou enxergando muito mal de perto e tenho que tirar os óculos para trabalhar no computador. Os óculos — esses já têm quase dez anos — só servem para dirigir, ir no futebol, ao cinema, etc.
Os médicos que me aguardem.
No mais, desejaria que a Bárbara entrasse numa boa faculdade, adoraria viajar, gostaria que minha vida não mudasse muito e que o Sul21 seguisse crescendo, mas isso tudo isso depende de trabalho, né? Então, em resumo, se tivermos saúde dá-se um jeito no resto.
Sabem assim tipo melhor amigo? Eu tenho uns quatro ou cinco desses. Como disse um deles, a vida não deixa que a gente se fale tanto quanto gostaria, mas quando fala é muito bom, e logo emenda onde parou na véspera, que foi na semana, mês ou ano retrasado. E um de meus mais antigos melhores amigos é o Augusto Maurer, que conheci nos anos 70 e cujo pai, Hélio Maurer, faleceu hoje.
Talvez o Augusto nem imagine o que o Hélio representava para mim e para os que frequentaram a casa da Bela Vista lá nos anos 70. O Hélio tinha uma sofisticação que, mesmo com todo o preconceito dos jovens, fazia com que a gente parasse para conversar com ele. Ele era atencioso, bom papo, irônico, inteligente e educadíssimo — um verdadeiro senhor, disse uma vez uma amiga — e, mesmo durante o velório de sua esposa, ocorrido neste segundo semestre de 2012, fez questão de vir a mim para agradecer o fato de eu ter recebido várias vezes o Augusto em minha casa quando ele estava recém separado. Ele disse que aquilo fora uma terapia para seu filho. Ele chegava aqui em casa lotado de coisas do super-mercado e jantávamos. Soube que o Hélio incentivava o esquema, de todo excelente.
O seu Hélio parecia seguir toda uma ideologia de bem-receber os amigos, principalmente em torno de uma mesa. Certamente o Augusto herdou de seu pai o gosto pela boa comida. A despensa da casa da Bela Vista era algo que, para mim, filho de uma família espartana, era como entrar no país de Alice. Era uma salinha ao lado da cozinha com as paredes recheadas de maravilhas. A gente podia chegar na casa deles a hora que quisesse e sempre teria um baita jantar a cargo do próprio Augusto ou da Dina, a auxiliar que ainda trabalha para a família e que deve estar arrasada com a perda dos dois patrões em tão curto período. (A vida da Dina foi passada com os Maurer e o seu Hélio ia com ela, até semanas atrás, a seus restaurantes preferidos).
Quando adquiri algum conhecimento gastronômico, passei a encontrar o Hélio nas seções de vinhos, importados e especiarias dos super-mercados. Uma ou duas vezes encontrei-o no mercado público. Sempre tínhamos assunto. Em nosso último almoço, ele quis que ela sentasse com ele a fim de descrever nossos jantares aqui em casa. Para quê? Ora, ele queria imaginar a coisa. “Não estou me convidando, estou muito velho e saio pouco de casa, só quero refazer os pratos na imaginação”, dizia. A Astrid, mulher do Augusto e que também é outra maluca na cozinha — viram?, estou cercado deles, como posso emagrecer? — refazia depois os jantares para ele. Tudo com menos sal, pois o Hélio tinha pressão alta há mais de vinte anos e a coisa tinha que ser cuidada.
Enquanto escrevo esta improvisação, sei que o Augusto deve estar esperando alguma notícia do Crematório São José sobre a liberação do corpo de Hélio Maurer. É um momento horrível em que um familiar morreu e ficamos sem fazer nada. No caso de minha mãe, liberaram só duas horas antes. Muito triste, muito tenso. Meus sentimentos, Augusto. Estarei lá antes das 18h.
Uma amiga acaba de escrever no Facebook, faleceu hoje uma pessoa encantadora, estou muito triste.
P.S. — Saí para correr logo depois de escrever este post e só lembrava do seu Hélio dizendo, já passado dos 80 anos de idade, que seu único sonho era o de acariciar, apenas acariciar, a atriz Helena Ranaldi. Um gentleman até nas fantasias.
O Augusto Maurer avisa que a legenda desta foto deve ser “Não exagera, Hélio”, advertência rotineira de Dona Carmen, sua esposa.Acho que me enganei. A legenda “Não exagera, Hélio” não deveria estar aqui?
Galina Vishnevskaya canta Tchaikovsky com o maridão Rostropovich ao piano (sim, ao piano).
Dietrich Fischer-Dieskau, talvez o maior cantor de todos os tempos, canta o lied Der Leiermann, da Winterreise de Schubert. O pianista é apenas Alfred Brendel.
O que é mais incrível não é a Folha de S.Paulo mandar uma repórter “enviada especial” a Goiânia para cobrir o casamento de um mafioso com uma mulher indiciada por chantagear um juiz federal para tirá-lo da prisão, e sequer citar esse fato.
Carlinhos Cachoeira, vocês sabem, tem trânsito livre na imprensa brasileira. Dava ordens na redação da Veja, em Brasília, e sua turma de arapongas abastecia boa parte das demais coirmãs da mídia na capital federal.
Andressa, a noiva, foi indiciada por corrupção ativa pela Polícia Federal por ter tentado chantagear o juiz Alderico Rocha Santos.
Ela ameaçou o juiz, responsável pela condução da Operação Monte Carlo, com a publicação de um dossiê contra ele. O autor do dossiê, segundo a própria? Policarpo Jr., diretor da Veja em Brasília.
Mas nada disso foi sequer perguntado aos pombinhos. Para quê incomodar o casal com essas firulas, depois de um ano tão estressante?
O destaque da notícia foi o mafioso se postar de quatro e beijar os pés da noiva, duas vezes, a pedido dos fotógrafos.
No final, contudo, descobre-se a razão de tanto interesse da mídia neste sinistro matrimônio no seio do crime organizado nacional.
Assim, nos informa a Folha:
“Durante o casamento, o noivo recusou-se a falar sobre munição que afirma ter contra o PT: ‘Nada de política. Hoje, só falo de casamento. De política, só com orientação dos meus advogados’.”
O ano era janeiro de 2006, e Gustavo Kuerten, depois de duas operações no quadril, preparava-se para começar a temporada. Seu último torneio havia sido em setembro da temporada anterior e ainda vivíamos a expectativa – talvez “esperança” seja a palavra mais apropriada aqui – de ver o tricampeão de Roland Garros recuperado, jogando como antes.
O primeiro evento de Guga naquela temporada seria o ATP de Viña del Mar, no Chile. No dia 27 de janeiro, chegou o e-mail de sua assessora de imprensa. Uma torção no tornozelo deixaria o brasileiro fora do evento. Foi o primeiro momento em que ouvi dúvidas. Lembro de ver gente na redação do jornal em que trabalhava questionando a veracidade do release. Seria a torção uma desculpa para não ir ao torneio e não mencionar o quadril, ainda lesionado? Guga, afinal, jamais gostou de entrar em detalhes sobre sua lesão (até hoje, há fatos importantes não revelados sobre aquele período).
Pouco importa agora se aquela entorse foi verídica. A quem interessa, porém, vale lembrar que Guga entrou em quadra no dia 11 de fevereiro para jogar duplas na Copa Davis. Pouco mais de uma semana depois, foi ao Brasil Open e perdeu na estreia para o então desconhecido André Ghem. Seu torneio seguinte seria só nove meses depois – uma derrota na primeira rodada de um Challenger. Ali, já se sabia que o caminho não teria volta. Mas repito: pouco importa agora. Trago o tema à tona porque Rafael Nadal acaba de anunciar que não disputará o Australian Open. E a revelação vem em circunstâncias curiosamente parecidas.
O espanhol estava comprometido com o Mubadala World Tennis Championship, em Abu Dhabi, com começo marcado para o dia 27 deste mês. Citando uma infecção estomacal que provocou febre, o ex-número 1 adiou sua volta para Doha, na primeira semana de 2013. E nesta sexta-feira, fez o anúncio inevitável. Disse que o vírus não lhe deixou treinar e que, por isso, optou pelo caminho conservador. Vai ficar fora de Doha e do Australian Open. A volta, agora, será só em fevereiro, no ATP 500 de Acapulco. E no saibro.
Nenhum tenista gosta de falar sobre suas lesões. Especialmente durante o tratamento. E mais ainda quando a recuperação não vem tão rápido. Fãs de Sharapova devem lembrar-se bem disso. Nadal parece uma exceção. Forneceu várias atualizações em sua conta no Facebook, publicou inúmeras fotos de seu treinamento e sempre evitou estipular uma data precisa para seu retorno. Até a “confirmação” da presença em Abu Dhabi demorou para vir. E o anúncio desta sexta-feira começa citando o joelho: “mi rodilla está bastante mejor”, diz a primeira frase.
Por que citar o joelho se o problema maior foi a infecção estomacal? Talvez para acalmar os fãs e mostrar que não há motivos para preocupação. A lesão maior está sendo tratada. Talvez, contudo, o tiro saia pela culatra. Alguém pode interpretar a explicação sobre o joelho como uma maneira de apenas evitar mais perguntas sobre o longo processo de recuperação, que já dura seis meses.
Nadal estaria mentindo em sua declaração? Impossível saber. Por seu histórico de falar abertamente sobre lesões, eu apostaria minhas fichas em um grande “não”. O leitor, então, pode perguntar: por que escrever os seis parágrafos acima se você acha que a história sobre a infecção estomacal foi verdadeira? Simples. Por mais que eu acredite nas palavras de Nadal, acho perfeitamente compreensível duvidar.
Os Quatro Encontros (Clube do Livro, 1986, 144 páginas) reúne três novelas de Henry James escritas na prosa e com a sutileza extraordinariamente bem trabalhadas do autor anglo-estadunidense. As três histórias têm como elo situações e desenlaces desconcertantes.
A primeira novela, Os Quatro Encontros narra, como diz o título, quatro encontros bastante espaçados no tempo entre um homem e uma mulher e como uma nesga de assunto avança entre eles. Só que aquela nesga de conhecimento em comum de certa forma os define. Depois é a vez de O Discípulo, história da relação entre um aluno, seu tutor e a família decadente que mal e mal o paga. É arrebatadora a forma com que James descreve o ambiente de fim de festa daqueles aristocratas. O volume é finalizado com a melhor história, O Mentiroso, onde o personagem principal é um militar que simplesmente não consegue parar de inventar histórias. Um dia, ele, espécie de Dorian Gray, pousa para um retrato, no qual o artista faz de tudo para deixar clara sua personalidade. E consegue. O final da história é sensacional. O curioso é que O Mentiroso (The Liar) foi publicado em 1888 e O Retrato de Dorian Gray em 1890… Wilde não copia James de modo algum, mas alguma inspiração veio dali, tenho certeza.
O Google Reader é um leitor de feeds, isto é, é um local onde você pode ler vários blogs, bastando inscrevê-los. O meu tem uns 200. Os posts vêm em ordem cronológica. Como ele é rápido, às vezes a gente se depara com posts que foram publicados e logo, minutos depois, deletados por seus autores.
Ontem à noite, acompanhei o desespero de um blogueiro que postou o mesmo texto várias vezes, sempre com um título diferente, o qual revelava uma crescente exacerbação de seu ódio. Não devo revelar o tema porque o cara seria facilmente descoberto. Hoje, fui ver se ele tinha conseguido desovar a coisa. Não. Havia um novo post dizendo bem assim: “Este blog receberá atualizações a partir de 2 de janeiro. Feliz ano novo…”.
O caso mais legal ocorreu faz uns 20 dias. Um diretor de teatro estava puto por não ter recebido o Prêmio X. Dizia que não tinha visto todos os julgadores em sua peça e sugeria que só por isso tinha ficado a ver navios. Como vão avaliar minha peça se não a viram? Pressenti que o post seria deletado e o gravei. Acertei na mosca. Passados 15 min, fui ao blog do cara e o post tinha sumido.
Acho que eu nunca desisti de postar nada e acho curioso esse negócio. Os não-posts são normalmente furibundos, descontrolados mesmo. Estou aprendendo a reconhecê-los. E por que seus autores só se assustam após a publicação, tendo os posts ficado apenas alguns minutos no ar?
Concerto ocorrido em 5 de maio de 2011 no Auditório Arturo Toscanini, da Rai de Turim.
Com a Orchestra Sinfonica Nazionale della Rai, sob a regência de Juraj Valčuha. Ao violoncelo, a genial argentina Sol Gabetta. Pessoalmente, prefiro o segundo concerto, mas o desempenho de Sol é tão arrebatador que fico em dúvida. Destaque para seu bom humor no último movimento, após quase morrer na cadenza. Acho que meus sete leitores sabem que os dois Concertos para Violoncelo de Shosta foram dedicados à Rostropovich e é claro que o autor explorou a técnica de um dos maiores celistas de todos os tempos. Ou seja, não há nenhuma facilidade.
Ah, muito simpáticas as entrevistas antes e depois do concerto.
Movimentos: Allegretto / Moderato / Cadenza / Allegro con moto
A semana inicia na quarta-feira e mole. Depois das cervejas e dos spritz do prolongado fim de semana, o estômago improvisa alguns muxoxos e uma monumental preguiça começa a tomar conta de mim, ainda mais vendo que há poucas notícias e que meu ônibus veio quase vazio até o centro. O Sísifo Hugo Chávez recupera-se novamente, Dona Canô e Fúlvio Petracco se despediram, ontem fez 40 graus em Porto Alegre e até agora, 9h30, não vi nenhuma chuva que possa nos salvar.
Ontem, uma leve brisa levou a energia elétrica de nossa casa por mais ou menos uma hora. Pobres daqueles que desejavam ver o programa do Roberto Carlos na TV. Como disse um amigo, depois de 300 anos de ocupação colonial, a CEEE ainda não se deu conta de que aqui chove forte e venta. Tanto não se deu conta que basta uma brisa.
Quando eu era pequeno, gostava do Natal. Na verdade, adorava, claro, porque meus pais nos enchiam de presentes. A festa era diferente, era matinal. A gente ia dormir pensando naquilo que o Papai Noel nos deixaria durante a noite e, quando acordávamos, nossa, ele tinha adivinhado nossos mais profundos desejos! Lembro especialmente de quando ganhei um autorama, mas isso é outro papo.
Depois, meu esfriamento em relação à data chegou a grau zero. Ainda na pré-adolescência, sem ler nada e sem maior influência, tornei-me ateu, um ateu natural e a data, que originariamente é uma festa pagã, passou a me irritar em razão de seu substrato religioso. Acho que todos os meus sete leitores sabem que a origem da festa não guarda o menor ranço de cristianismo: é o Solis Invictus (Sol Invencível), o Solstício de inverno. Era uma enorme festança que acontecia na noite mais longa do hemisfério norte para comemorar o recomeço, pois dali por diante os dias seriam mais longos, pouco a pouco mais quentes, e haveria a possibilidade de novas e fartas colheitas. Uma belíssima data do hemisfério norte, uma data bem realista que nos foi tomada pela igreja. De certa forma, era mais ou menos (eu escrevi mais ou menos) o que é nossa virada de ano, com suas renovadas esperanças, resoluções e renovação.
Depois, quando vieram as crianças, cheguei a me vestir de Papai Noel. No segundo ano, o Bernardo ficou me olhando como quem diz “Mas esse aí é o meu pai” e, perguntado se não era no dia seguinte, neguei e desisti de novas tentativas. A Bárbara deve ter aproveitado menos dessas festinhas. Também pudera! Ela, com três anos de idade e já sob a influência do irmão três anos mais velho, costumava observar aos coleguinhas de maternal que nem Deus nem Papai Noel existiam, fato que a deixava extremamente popular entre seus amiguinhos e objeto de desconfiança dos outros pais. Quem seria aquela crespinha louca, de três anos, que fazia proselitismo ateu num maternal?
Terrível: Bárbara por volta da época em que fazia proselitismo ateu. Ainda faz, acho.
Hoje, nem dou bola para o Natal, mas acho que está na hora dos movimentos ateus serem menos mal humorados. A data é nossa. Simples assim. Por exemplo, o presidente da Atea (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, da qual sou sócio), Daniel Sottomaior, comemora tranquilamente e não se incomoda com a data. Ele tem uma filha de 8 anos que adora o 25 de dezembro. Diz ele: “Nossa árvore é uma árvore de referência a Isaac Newton, que nasceu nesta data e que descobriu a Lei da Gravidade. Ela tem maçãs e luzes. Os outros simbolismos – perus, renas, presentes, árvores, Roberto Carlos – , nada disso nasceu com o Natal”. E completa: “Estamos apenas retomando uma data pagã que nos foi roubada pela igreja e que foi comemorada por sete mil anos antes do século III”.
Aqui em casa, durante o Natal, meu filho costumava — esse ano ele não fez (por quê?) — escrever no quadro de avisos da cozinha em letras garrafais: Natalis Solis Invictus, isto é, Nascimento doSol Invencível. O nascimento do Sol Invencível é o momento em que o Sol inicia a Sua ascensão triunfante, representando, neste momento, a Luz que nunca morre e vence sempre, reflexo da imortalidade. (E que acabará com a Terra, daqui a 5 bilhões de anos…). Á época, a data era uma coisa tão forte que a igreja trouxe o nascimento de Jesus justo para o 25 de dezembro… Vergonha.
Então, meu sonho de Natal é que o paganismo retome a data. E que, no hemisfério sul, a gente invente um modo bem livre e religiosamente incorreto de comemorá-lo. Eu acharia muito justo se os namorados perseguissem uns aos outros nus pelas ruas, algo assim. É sonho, e em sonhos vale tudo.
P.S. — Rodrigo Cardia que, assim como eu, odeia o verão, escreveu: O texto do Milton Ribeiro me fez lembrar do significado original da celebração: o solstício de inverno no hemisfério norte, noite mais longa do ano, depois elas começam a ficar mais curtas. E então percebo que tenho algo a celebrar: aqui no hemisfério sul as noites começam a ficar mais longas…
Mulher atira-se de uma antiga ponte de tubulação de água na região taiga siberiana em 28 de outubro de 2012. (Ilya Naymushin / Reuters) Clique para ampliar.
O estranho é que o mata-mata jogado pelo Inter em 2012 é o mesmo que o Grêmio jogará no início de 2013. São tratamentos diversos para exatamente a mesma coisa.
No dia 21 de julho de 1925 foi finalizado um dos casos mais rumorosos e filosóficos do judiciário norte-americano. Foi um julgamento que durou 11 dias e o primeiro a ser transmitido por rádio para o país inteiro. Também virou filme de sucesso — Inherit the Wind(O Vento Será sua Herança), de 1960. O chamado Julgamento do Macaco (“Monkey Trial”) foi a ação que o estado do Tennessee moveu contra o professor de biologia John Thomas Scopes, de 25 anos, acusado de ensinar a teoria da evolução em uma escola pública da minúscula cidade de Dayton.
A rua principal de Dayton em 1925 | Foto: Wikimedia Commons
Os meios de comunicação deram enorme cobertura ao caso e ganhá-lo tornou-se uma obsessão para ambas as partes. Durante o processo, o juiz John Raulston não permitiu que o advogado Clarence Darrow — militante da União Americana pelas Liberdades Civis e um dos mais famosos oradores dos EUA — chamasse cientistas “como testemunhas” em favor da teoria da evolução. Ao final, Scopes, que teve contra si outra celebridade, o advogado William Jennings Bryan, um democrata candidato por três vezes à presidência dos EUA, foi condenado a uma multa de 100 dólares. Bryan fez uma defesa apaixonada do criacionismo, mas foi punido por um enfarte e morreu seis dias após a decisão do tribunal.
O juiz Raulston utilizou-se de bom senso no julgamento de tão longínquo caso e, não obstante o fato do juri ter apontado o professor Scopes como “culpado”, impediu que o veredito fosse cumprido em razão de “erros técnicos” no processo. A pena dele fora o pagamento de 100 dólares, um montante que seria de aproximadamente R$ 2.700,00 em nossos dias.
O professor de Biologia John Scopes | Fonte: Wikimedia Comm0ns
O caso tinha contornos realmente curiosos, pois evidentemente não havia certeza de ambos os lados. Os criacionistas só concordavam que Scopes tinha de ser punido mesmo que estivessem se debatendo entre três teses distintas: alguns tinham certeza da criação recente do Universo e afirmavam que o mundo fora criado por Deus em seis dias com um de folga — Bryan pensava assim; outros achavam que tinha sido antes e falavam em Adão, Eva e na serpente; outros acreditavam num projeto à cargo de uma vaga inteligência pré-existente.
Darrow finalizou sua peroração dizendo que o réu não era culpado, mas que como o tribunal excluíra quaisquer testemunhos, desejando apenas ater-se à simples questão sobre se Scopes realmente ensinara que o homem descenderia de uma ordem animal tão inferior, ele jamais negaria que o fato ocorrera. Ele apenas esperava que o juri encontrasse um veredito que pudesse levá-los a uma tribunal ou instância superior.
Segundo o livro World’s Most Famous Court Trial, encerrou sua fala de forma enigmática: “Não consigo nem mesmo explicar-lhes que penso que os senhores deveriam retornar com o veredito de não culpado. Não vejo como poderiam decidir nos próximos minutos sobre a existência de Deus. Não lhes peço isso”.
O juri demorou apenas nove minutos para decidir e, em 21 de julho, ele foi considerado culpado e condenado a pagar a multa de 100 dólares.
O mais incrível é que Scopes (1900-1970) não depôs em seu julgamento e ele, em sua autobiografia, garantiu que não tinha absoluta certeza se havia ou não ensinado a respeito da evolução das espécies em suas aulas, mas “que era possível, claro”.