Os Dias dos Turbin, de Mikhail Bulgákov

Os Dias dos Turbin, de Mikhail Bulgákov

A primeira coisa que chama a atenção neste livro é sua original e brilhante diagramação. Tudo está muito claro e a leitura flui como poucas vezes em uma peça de teatro, pois é disso que se trata. A coisa foi tão bem bolada que nem precisamos ir aos rodapés. (Odeio rodapés). E eles são muito necessários, assim como toda a contextualização histórica e a cronologia preparada pelo excelente tradutor Irineu Franco Perpétuo.

Os Dias dos Turbin é uma peça de teatro de Mikhail Bulgákov baseada na história da Ucrânia durante a Revolução Bolchevique. A peça deriva de seu romance A Guarda Branca. Não adianta ler a peça se não soubermos, por exemplo, quem foi Petliura ou o Hétmã de toda a Ucrânia ou a participação da Alemanha no forrobodó. Isto está muito bem explicado na cronologia e nos comentários de Irineu. Fui atraído para ler Os Dias não somente por seu genial autor como por ter sido a peça de teatro preferida de Stálin, que a assistiu 16 vezes. Sua admiração por Bulgákov — um inimigo, um russo branco, um anti-bolchevique — fez com que ele salvasse a vida do escritor, dando-lhe um emprego no teatro enquanto todos os seus assessores políticos diziam que o tratamento adequado para Bulgákov era o Gulag. Se Stálin era um psicopata, também era um inteligente admirador das artes, o que o torna um ser menos imbecil do que, por exemplo, Bolsonaro. Stálin dizia que o drama sobre a família burguesa Turbin durante a guerra civil demonstrava que os bolcheviques eram invencíveis. Se quisermos, a leitura nos abre esta janela. Faz sentido.

Mas não pensem que a vida de Bulgákov foi aquele mar de rosas criado por Stálin. Ele apenas não foi morto nem condenado a trabalhos forçados. Tudo lhe foi proibido. “Estou na miséria, acossado, em completa solidão. Nos últimos sete anos, concluí dezessete obras de diferentes gêneros, e nenhuma delas foi publicada. Semelhante situação é impossível, e em nossa casa há trevas e uma completa falta de perspectiva”. Contudo, escondido, escrevendo para a gaveta, o escritor preparou sua obra-prima O Mestre e Margarida (1, 2, 3, 4 e 5), a qual foi publicada clandestinamente apenas em 1966, 26 anos após sua morte.

Em Os Dias dos Turbin, o confortável mundo tchekhovniano dos Turbin é esmagado pelo pecado da ignorância sobre o que estava acontecendo no império ao seu redor. Ou, melhor dizendo, pela crença de que ninguém tocaria em seus privilégios. Se eles não fossem ignorantes, teriam sido virados de cabeça para baixo de qualquer maneira, só que neste caso haveria menos graça. A genialidade da peça é sua honestidade impiedosa, não importa o lado. O mundo da traição e dos boatos têm sempre dois lados. É sempre inusitado vermos personagens com pouca maldade real, mas com falhas humanas — ganância, deslealdade, orgulho — que explodem aqui e ali. Os Dias do Turbin prenunciam O Mestre e Margarida. Em O Mestre e Margarida, Satanás pune Moscou e aqui há Vermelhos punindo Kiev. Bulgákov odiava os bolcheviques, mas deve ter notado que somente os pequenos atos de resistência interior eram possíveis contra eles.

Aqui temos duas histórias em que os governantes são varridos do poder. E há espaço para o humor de Bulgákov. A fuga dos brancos provavelmente será acompanhada de suas risadas, caro leitor. É o mundo de Bulgákov. Triste, implacável e engraçado.

Recomendo.

Mikhail Bulgákov (1891-1940)

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458 anos de William Shakespeare (23.04.1564 – 23.04.1616) / “Soneto 66”, transcriado por Augusto de Campos

Soneto 66

Cansado de tudo isso eu clamo pela morte,
Vendo aos pobres faltar a moradia e o pão
E ao ricos amorais caber a boa sorte,
A fé servir aos maus em pífia exploração,

E a mais pura honradez de todo desprezada
A hombridade estuprada e morta pelo vício,
E a perfeição em mau feitio desnaturada,
A força convertida em monstruoso artifício,

E a arte calada com brutal autoridade,
O parvo a comandar o honesto e o diligente,
A verdade curial tida por falsidade
E o cativo servindo ao Capitão demente:

De tão cansado era melhor querer meu fim
Se a morte não roubasse o meu amor de mim.

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J. S. Bach: Passacaglia and Fugue in C Minor BWV 582

Prestem atenção na Passacaglia.

Johann Sebastian Bach’s Passacaglia and Fugue in C Minor BWV 582 played by organist Hans-André Stamm on the Trost-Organ in Waltershausen, Germany.

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Heinrich Biber (1644-1704): Passacaglia para Violino Solo (1676)

Prestem atenção na Passacaglia.

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Shostakovich: Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 99: III. Passacaglia. Andante – Cadenza

Prestem atenção na Passacaglia.

Violin Concerto No. 1 in A Minor, Op. 99: III. Passacaglia. Andante – Cadenza · David Oistrakh · New Philharmonia Orchestra · Maxim Shostakovich

Shostakovich: Violin Concerto No. 1, Op. 99

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Benjamin Britten: Peter Grimes: IV. Passacaglia

Prestem atenção na Passacaglia.

Chicago Youth Symphony Orchestras

Benjamin Britten (1913-1976)
Peter Grimes: Sea Interludes, op. 33a & Passacaglia, op. 33b
IV. Passacaglia

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Witold Lutosławski: Concerto para Orquestra

Prestem atenção na Passacaglia.

Witold Lutosławski:
Konzert für Orchester ∙

(Auftritt) 00:00 ∙
I. Intrada. Allegro maestoso 00:18 ∙
II. Capriccio Notturno e Arioso. Vivace 07:25 ∙
III. Passacaglia, Toccata e Corale. Andante con moto – Allegro giusto 13:37 ∙

hr-Sinfonieorchester – Frankfurt Radio Symphony ∙
Edward Gardner, Dirigent ∙

Alte Oper Frankfurt, 25. September 2015 ∙

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Dilúvio das Almas, de Tito Leite

Dilúvio das Almas, de Tito Leite

Por mais que tentemos evitar, muitas vezes os preconceitos mais idiotas se imiscuem em nossos pensamentos. Acho que acontece com todo mundo. Quando soube que Tito Leite, autor deste Dilúvio das Almas, era um monge beneditino, logo pensei na personagem de Isabelle Huppert na quase-comédia Amateur, de Hal Hartley. Lá, ela era uma ex-freira ninfomaníaca, porém virgem, que escreve contos que seriam pornográficos, mas que acabam por serem (má) poesia. Quando recebi o livro da editora Todavia e li as primeiras páginas, surpreendi-me com a alta qualidade do texto, com a sem-cerimônia de falar em sexo — sem grandes descrições, mas sem recuos — e com a firmeza de um excelente narrador.

O livro inicia de uma forma bastante cronística com várias histórias sendo jogadas no papel. Não sabemos onde Tito quer nos levar, mas quando o cenário fica completo, podemos dizer que o romance embica e voa. Leonardo retorna ao Nordeste, mais exatamente para a ficcional Dilúvio das Almas, cidade onde nasceu, após de muitos anos vivendo de todas as formas em São Paulo. Ele é um andarilho, um sujeito relativamente culto que faz de tudo, que trabalha tanto como pedreiro como faz artesanato. Parece não exigir muito da vida. Quer a boa amizade, os bares, as mulheres, seu dinheiro curto e está bem assim. Ah, também quer ir e vir livremente. Quando volta ao sertão, é bem recebido pela mãe e nem tão bem pelo padrasto. E fica por lá para viver ao seu estilo, certamente por uma curta temporada. Mas o retorno lhe mostra claramente a violência e a injustiça que o afastaram dali. E ele muda.

Faz parte da catequese do lugar. Em cara de homem não se bate. Se vai começar uma confusão, que mate logo, e que o serviço seja bem-feito.

O clima do livro vai lentamente se alterando nas mãos hábeis do autor. Como num faroeste, passamos a sentir uma grande tensão escondida sob diálogos curtos e secos. Algumas pessoas morrem, coisa comum no local. Não acontece nada com os assassinos. Com o texto encharcado de realidade, Tito nos demonstra a impossibilidade de não ser tragado pelo ambiente horrível.

Minha opção sempre foi a dos excluídos (…) e ser minoria é o melhor de mim. Minha falta de apego é o que me torna leve e arejado. No entanto, já faz algum tempo que ando como quem usa sapatos de chumbo. Só hoje percebi: já não sou um homem de passos leves.

Não pensem que há algo de Torto Arado no livro de Tito. Há a região e a opressão, mas a forma do texto e da opressão são outras. Sem tirar os indiscutíveis méritos do livro de Itamar, Dilúvio das Almas parece mais profundamente enraizado na tradição literária nordestina. É um Graciliano atualizado, um Jorge Amado dos primeiros romances, um José Lins, um Erico transposto, mas também há muito de Faulkner na prosa de Tito. É um romance curto, sem narrativas paralelas desnecessárias, cada detalhe conta, com tudo contribuindo para o potente clímax, o qual é montado com cuidado ao fazer a liberdade enfrentar os preconceitos, o belo lutar contra o feio. O final você descobre. E descobre que Dilúvio é muito, mas muito, atual.

Não há nada de divino no horror. A cada disparo, é parte de mim que também morre aqui. Hoje, eu também morro. Já não sou um estrangeiro na minha terra. Já não sou um deslocado. Sou apenas mais um dos seus filhos. Agora estou em casa.

Tito Leite

 

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Bamboletras recomenda bailes, cientistas e Joyce

Bamboletras recomenda bailes, cientistas e Joyce

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Benjamin Labatut (1980)

Olá!

Três livros bem diferentes. Sem bossa não há quem possa descreve os antigos bailes do interior e seus causos. Quando deixamos de entender o mundo é um grande sucesso editorial ao perfilar cientistas que perderam a razão (Karl Schwarzschild, Erwin Schrödinger, Werner Heisenberger e outros). O livro tem mais ou menos a mesma proporção de ficção e não ficção. A ficção aponta a estranheza, a ambiguidade, que a História, a ciência e a não ficção não admitem.  Já Exílios e Poemas é uma demonstração do talento poético e da dramaturgia de James Joyce. Sim, foi muito difícil encontrar algo que una estes livro que não seja a (alta) qualidade.

Uma excelente semana com boas leituras!

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Sem bossa não há quem possa, de Eduardo Rodrigues (Capítulo 1, 143 páginas, R$ 45)

Imagine reunir em um mesmo lugar as melhores orquestras do Brasil e do exterior e as mulheres mais bonitas, elegantes e charmosas da região. Festas com atrações desse nível marcaram gerações. Em General Câmara, o glamour, a alegria e a diversidade dos bailes atraíam casais para a famosa pista do Cassino dos Operários. Tempo de romance ao som de inocentes marchinhas de carnaval, danças de rosto colado e troca de olhares que poderiam significar muito mais do que uma simples paquera. Neste livro, além e acima de tudo, o leitor se divertirá com relatos inéditos e engraçados, contados a rigor e a passeio. Pequenos flashes que exaltam lembranças que os anos não apagam.

Quando deixamos de entender o mundo, de Benjamín Labatut (Todavia, 176 páginas, R$ 59,90)

Em 2012, o matemático japonês Shinichi Mochizuki publicou artigos provando uma das mais importantes conjecturas da teoria dos números. Quando sua prova foi considerada impossível de entender pelos maiores especialistas da área, Mochizuki terminou por se excluir da sociedade, evocando o autoexílio de outro matemático, o lendário Alexander Grothendieck. Haveria alguma conexão enigmática entre esses dois homens? Esse é o ponto de partida de “O coração do coração”, uma das narrativas que o chileno Benjamín Labatut reuniu neste livro que o tornaria uma sensação mundial. Elementos parecidos figuram nos outros textos: cientistas tão geniais quanto atormentados perseguem suas ambições ao custo da saúde física e mental, enquanto os desdobramentos pessoais e históricos de suas descobertas atravessam o tempo e o espaço. Baseando-se em biografias e teorias reais, mas recorrendo à ficção para produzir efeitos estéticos e associações de ideias, o autor explora em seus relatos o entrelaçamento entre a vida íntima e o desbravamento científico. Com um estilo em que ouvimos ecos de W. G. Sebald e Roberto Bolaño, o leitor pode sentir que está diante da montagem hábil de um belo quebra-cabeças.

Exílios e poemas, de James Joyce (Penguin, 368 páginas, R$ 29,90)

Este volume reúne toda a poesia publicada em vida por James Joyce, a peça “Exílios” – que contém temas posteriormente explorados em Ulysses – e um conjunto de notas elaboradas pelo autor durante o processo de escrita. Antes da publicação de Ulysses, James Joyce lançou a peça Exílios em 1918. Nela, o autor explora temas que aparecerão em sua obra magna, como as relações complexas de adultério e desejo. Neste volume estão reunidas a peça e também sua produção poética, sendo possível ter uma visão mais ampla das ideias do autor não só sobre o exílio, como também sobre a própria literatura.

Além da peça e dos poemas, esta edição conta com um conjunto de notas que Joyce elaborou durante o processo de escrita e alguns fragmentos de diálogos não incluídos na versão final do texto.

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Eleição de 2022: o PUM manifesta-se pela primeira vez

Eleição de 2022: o PUM manifesta-se pela primeira vez

Eu devo ser muito teimoso ou burro. Na minha opinião, o fundamental é tirar Bolsonaro do governo, substituindo-o por um outro que ao menos faça política e não nos envergonhe.

Não entendo esse nojinho em relação ao Alckmin. Bolsonaro é perigoso, tem muitos votos e estou disposto a votar no político que possa tirá-lo do posto.

Votaria no Doria, no Leite ou no Ciro ou em quem pudesse enfrentá-lo. Claro que tenho preferências, mas isto não importa no momento. E a Câmara tem de ser muito mudada também.

Acho que alguns perderam o foco ou estão considerando o Boçalnato como vencido. É um erro. O Bozo e seus corruptos estão bem vivos do ponto de vista eleitoral.

Não há nada pior do que Bolsonaro. E política se faz com alianças. É normal e, se você pensar um pouco, verá que é saudável.

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Sobre certa crítica cinematográfica

Sobre certa crítica cinematográfica

Eu e Elena estávamos conversando sobre o filme Lamb e ela disse que não gosta de ler críticas porque ou eles dão spoilers ou veem sentido a detalhes que podem ser meramente casuais… Como as paredes vermelhas em Gritos e Sussurros, completei.

E eu lhe contei uma história com meu pai. Estávamos vendo Tristana, de Luis Buñuel e, de repente, lá pela metade do filme, todo o elenco, que falava francês, passava a falar espanhol.

Na saída, um conhecido crítico explicava a um grupo de pessoas sobre a mudança de idioma. Falava que a elegância e frieza do francês dava lugar à sensualidade e informalidade do espanhol e que aquilo acompanhava o que era contado no filme.

Meu pai ficou contrariado e, desconfiado e cara de pau como era, foi falar com o operador do cinema. O cara lhe explicou que o segundo rolo viera em espanhol por engano e que algum cinema de Recife estava vendo o filme com a primeira metade em espanhol e a segunda em francês…

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Os livros mais vendidos de março na Bamboletras

Os livros mais vendidos de março na Bamboletras

Olá! Mais um mês chega ao final – já estamos em abril, é inacreditável – e com isso temos a lista dos livros mais vendidos da Bamboletras em março!

1 – Faróis do Rio Grande do Sul, de Cláudio Tarta.
2 – A Vida Disfarçada de Contos, de Sandro Farias.
3 – Violeta, de Isabel Allende.
4 – Dicionário de Porto-Alegrês, de Luís Augusto Fischer.
5 – Os Supridores, de José Falero.
6 – O Avesso da Pele, de Jéferson Tenório.
7 – Tudo é Rio, de Carla Madeira
8 – Mas em que Mundo tu Vive, de José Falero.
9 – Banzeiro Òkotó, de Eliane Brum.
10 – Marrom e Amarelo, de Paulo Scott.

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Bamboletras recomenda três mulheres — uma ficcionista, uma psicanalista e uma vítima da ditadura

Bamboletras recomenda três mulheres — uma ficcionista, uma psicanalista e uma vítima da ditadura

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Marguerite Duras (1914-1996)

Olá!

Não foi planejado, simplesmente aconteceu de sugerirmos três excelentes livros de mulheres: a clássica Marguerite Duras, mais Elisabeth Roudinesco e Ana Maria Ramos Estevão. Duras vem com seu Hiroshima meu Amor, nunca dantes traduzido em nosso país e que deu origem ao filme de Resnais. Roudinesco analisa As lutas identitárias que, segundo ela, reduziram suas áreas de atuação, isolando-se. E o livro de Ana Maria Estevão fala da chamada Torre das Donzelas (argh!), o local onde ficavam as presas políticas da ditadura militar brasileira. Ana foi uma delas.

Uma excelente semana com boas leituras!

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Hiroshima meu amor, de Marguerite Duras (Relicário, 196 páginas, R$ 57,90)

Publicado pela primeira vez em português, Hiroshima meu amor foi concebido originalmente como roteiro para o filme dirigido por Alain Resnais. O filme foi aclamado internacionalmente após seu lançamento em 1959, tendo recebido o Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cannes e o Prêmio da Crítica de Cinema de NY. A história de um caso de amor entre um arquiteto japonês e uma atriz francesa que visita o Japão para fazer um filme sobre a paz apresenta uma dupla dimensão: uma íntima e uma histórica. Essas duas dimensões se sobrepõem através da evocação à memória, ao passado, ao esquecimento e ao trauma. Alain Resnais e Marguerite Duras tematizam Hiroshima a partir da premissa de que isto seria impossível após os horrores da bomba atômica. E nessa tentativa de captar algo que testemunho nenhum pode comunicar, que está na essência do sentimento da perda e do trágico, eles realizam uma obra-prima única, de um lirismo incomparável. Este livro apresenta o roteiro e os diálogos originais do filme, que realizam magistralmente o pedido de Resnais feito a Duras: “Faça literatura. Esqueça a câmera.”

O Eu Soberano, de Elisabeth Roudinesco (Zahar, 304 páginas, R$ 89,90)

Ao fazer um balanço do tempo presente e das várias definições de identidade hoje possíveis, a historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco analisa neste livro a natureza e os perigos do que chama de derivas identitárias. Depois de vinte anos, os movimentos de emancipação parecem ter mudado de direção. Já não se perguntam como transformar o mundo para que ele seja melhor, mas dedicam-se a proteger as populações daquilo que as ameaça: desigualdades crescentes, invisibilidade social, miséria moral. As pessoas exibem seus sofrimentos, denunciam as ofensas, dão livre curso a seus afetos, como marcadores identitários que exprimem um desejo de visibilidade. Em contraponto, consolida-se uma outra maneira de submeter-se à mecânica identitária: o isolamento. O Eu soberano é um livro provocador em que a autora se pergunta: o que fez com que os engajamentos emancipadores de outrora, notadamente as lutas anticoloniais e feministas, se fechassem de tal forma sobre si mesmas? À luz de Freud e Lacan, das obras de Sartre, Simone de Beauvoir, Aimé Césaire, Fanon, Judith Butler, Foucault e Derrida, Roudinesco tece os fios que unem os debates acerca de identidade, gênero, raça, interseccionalidade, pós-colonialismo, nacionalismo, República, extremismo e religião.

Torre das guerreiras e outras memórias, de Ana Maria Ramos Estevão (Editora 106, 192 páginas, R$ 59,80)

1970, São Paulo, Presídio Tiradentes: na ala dos presos políticos, as mulheres eram encarceradas num prédio alto, conhecido como a Torre das Donzelas. Foi lá que Ana Maria Ramos Estevão, estudante de Serviço Social envolvida com o movimento estudantil e a organização Ação Libertadora Nacional (ALN), passou nove meses de sua vida. Semanas antes, havia sido capturada pelos órgãos de repressão da ditadura brasileira, passando por torturas e interrogatórios. Ao longo de sua trajetória como militante, conheceu tanto os agentes do regime, como o delegado Sérgio Paranhos Fleury e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, quanto seus oponentes, como Paulo Freire, que se tornaria referência mundial em educação, e Dilma Rousseff, presidenta do Brasil três décadas depois. Este livro reúne as memórias de uma mulher que subverteu a delicadeza das “donzelas”, vivendo como guerreira num dos períodos mais sombrios da História do Brasil.

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O Concerto para Piano e Orquestra em Sol Maior de Ravel

O Concerto para Piano e Orquestra em Sol Maior de Ravel
Cartaz da estreia do concerto para piano em 1932

Ravel há muito acalentava a ideia de compor uma obra para piano e orquestra, mas não completaria seus dois concertos para piano (um só para a mão esquerda) até os cinquenta e poucos anos. Uma triunfante turnê pelos Estados Unidos em 1928 solidificou sua reputação como um dos maiores compositores vivos de sua época no mundo, e ele começou a trabalhar em seu Concerto para Piano em Sol no ano seguinte. Ele planejava tocá-lo em uma turnê mundial ainda maior que incluiria não apenas a Europa e os Estados Unidos, mas também a América do Sul e o Leste Asiático.

Assim, é fácil ouvir o concerto como uma espécie de autorretrato musical, um manifesto das crenças artísticas de Ravel. Reagindo contra o heroísmo e o bombástico de muitos concertos do século XIX, Ravel disse que sua nova obra era algo entre Mozart e Saint-Saëns. “A música de um concerto deve, na minha opinião, ser alegre e brilhante, e não visar profundidade ou efeitos dramáticos. Foi dito de certos grandes clássicos (especificamente Brahms) que seus concertos foram escritos não ‘para’, mas ‘contra’ o piano. Eu concordo. Eu pretendia chamar este concerto de Divertissement. Então me ocorreu que não havia necessidade de fazê-lo, porque o próprio título de Concerto deveria ser suficientemente claro.”

Nada mais chato do que um gato. Este é Mouni.

No lugar do pesado e emocionalmente intenso Sturm und Drang, Ravel escreveu música com uma leveza de toque que encanta a mente e os sentidos. Para que ninguém interprete mal sua rejeição à “profundidade”, no entanto, vale a pena mencionar que a música de Ravel – como a de Mozart – muitas vezes revela também enormes profundidades q que o movimento lento deste concerto… Bem, deixamos pra lá.

O concerto abre com o estalo de um chicote. O piano começa em o papel de acompanhamento, enquanto o flautim e o trompete introduzem o lúdico tema principal do movimento. Um solo de piano mais meditativo é ligado a um novo motivo jazzístico no clarinete, trompete e flautim. O solista então introduz um tema secundário amplamente lírico, mas a melodia é interrompida por notas curtas, ácidas e repetidas. Ravel opta por omitir um desenvolvimento tradicional mais longo, talvez em sua busca por um concerto mais “alegre e brilhante”.

O segundo movimento lento é uma das peças de música mais comoventes e belas já escritas. Nçao dá para falar em pouca profundidade. Ele começa com uma longa melodia para piano solo que tem jeito de improvisação. Apesar de sua aparente espontaneidade, Ravel confessou: “Essa frase fluente! Como eu trabalhei com isso! Quase me matou!” A melodia tem grande sutileza rítmica. Não é à toa que Ravel, sempre um artesão consumado, trabalhou tanto tempo em uma de suas criações mais perfeitas.

O final retorna ao humor efervescente do primeiro movimento. Um conjunto de temas curtos gira ao longo desta música alegre, começando com os acordes atrevidos que a iniciam. Duas outras ideias desempenham papéis importantes: uma melodia semelhante a uma marcha baseada em três notas descendentes e fanfarras de metal. Essas e outras ideias concorrem ao longo do movimento em meio às passagens virtuosas do pianista. Em uma reviravolta espirituosa característica, o movimento termina exatamente como começou.

Embora Ravel tivesse se preparado muito para ser o pianista de seu concerto, a doença o impediu de executar a peça. Em vez disso, sua amiga, a pianista Marguerite Long, tocou o solo e Ravel conduziu a orquestra na estreia em Paris em 1932. A turnê mundial também não se concretizou; em vez disso, Ravel teve que se contentar com uma turnê européia mais modesta com Long, durante a qual o concerto foi saudado como uma obra-prima a cada parada.

Infelizmente, este seria um dos últimos trabalhos de Ravel. Ele se calaria depois de 1932, acometido de uma doença neurológica que lhe dificultava escrever, falar e coordenar seus movimentos. Ele faleceu após uma operação cerebral mal sucedida em 1937. Com seu refinamento, eufemismo e alegria irreprimível, o concerto é um testemunho do gênio único de Ravel.

Do alto de seu 1,61m, Ravel tentar dar uma de macho alfa.

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Salvador do Sul

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Com quantos rabinos se faz um Raimundo, de Nurit Bensusan

Com quantos rabinos se faz um Raimundo, de Nurit Bensusan

Um livrinho estupendo. Pelo nome, não parece, mas Nurit Bensusan é brasileira, bióloga, e tem alguns livros publicados e premiados — sempre sobre questões socioambientais. Este é seu primeiro livro de ficção e ele não trata diretamente de problemas ligados à biologia ou ao ambiente.

No Alto de Pinheiros — bairro da elite paulistana –, um sem-teto chamado Raimundo vive solitário numa praça próxima a uma sinagoga e a edifícios residenciais. Como não incomoda, mora na praça também sem ser importunado. Mas um dia ele pede para que o rabino distribua alimentos para os pobres. A proposta é aceita. É um estranho pedido de quem não fala com quase ninguém, parece viver de ar e que passa seus dias escrevendo em cadernos e mais cadernos. A aceitação por parte do rabino também é inesperada. A partir deste ponto, a ação bondosa vira problema, pois os habitantes do bairro nobre não veem aquilo com bons olhos.

É esquisita aquela gente que vem pegar comida, eles sujam tudo e, mesmo que o rabino contrate pessoas para fazer a limpeza diária, não adianta, os moradores querem o fim daquilo. Ou seja, a fila de famintos tem que ser retirada dali. Mesmo as domésticas e diaristas acham que aquilo não é para aquela região. Ou seja, o preconceito de classe é algo mais complexo e enraizado do que parece. Acionado, o poder público, representado pela subprefeitura, manda acabar com a distribuição de alimentos sem maiores explicações. Claro, no Brasil há um acordo tácito de tratar de modo diferente as pessoas em razão de sua situação econômica e acesso a bens de serviço. As pessoas de baixa renda “não devem” ter acesso aos mesmos espaços daquelas que são das “classes mais altas”, os pobres devem viver em isolamento social, não precisam ser vistos. O livro também explora o rabo preso de religiosos e alguns dos moradores dos elegantes edifícios. E mais não conto…

Com quantos rabinos usa a primeira pessoa do singular, porém com muitas vozes solistas, à exceção do personagem principal, que só escreve em seus cadernos e não tem revelados seus diálogos com os rabinos — um verdadeiro achado na construção do clima. A polifonia é geral, a dissonância idem. O curioso é que poucos gritam, tudo é um sufoco surdo, é como se estivéssemos assistindo um bando de mímicos em ações não tão cômicas assim. Bensusan rege seu coral com um grande virtuosismo, fazendo com que a ficção efetivamente arranhe a realidade. E, curioso, há espaço para humor no livro.

Recomendo muito.

Nurit Bensusan: escrevendo como Raimundo

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Bamboletras recomenda Roth, grafitti e filósofas

Bamboletras recomenda Roth, grafitti e filósofas

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Philip Roth (1933-2018)

Olá!

Talvez pela primeira vez na história desta newsletter, não colocaremos nenhum livro de ficção em nossas sugestões, culpa dos bons lançamentos em outras áreas. O primeiro é uma suma dos ensaios sobre literatura de Philip Roth. É imperdível, garanto-lhes. O segundo é um belo estudo visual sobre o grafitti porto-alegrense. E o terceiro, mais uma narrativa do extraordinário Wolfram Eilenberger, desta vez sobre o principal grupo de filósofas que surgiu na primeira metade do século passado.

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Por que escrever? Conversas e Ensaios sobre Literatura (1960-2013), de Philip Roth (Cia. das Letras, 568 páginas, R$ 89,90)

Reunindo mais de trinta ensaios, entrevistas e discursos, Por que escrever? traz aos leitores um Philip Roth raro e igualmente excepcional. Fora dos artifícios do romance, ele aqui está mais próximo de si mesmo. Philip Roth foi um dos mais notáveis escritores de língua inglesa do século XX. Dono de uma carreira literária incomparável, dedicada sobretudo à ficção, ele ainda nos legou uma extraordinária coleção de textos não ficcionais — muitos deles para responder a provocações de toda natureza, agradecer o recebimento de algum prêmio ou chorar a morte de um amigo. O resultado dessa produção é uma série de declarações e comentários sobre seu trabalho e dos escritores que admirava, seu processo criativo e a cultura americana. Último volume da obra completa do autor publicado pela Library of America antes de sua morte em 2018, Por que escrever? traz o indispensável de sua não ficção, reunida pela primeira vez em livro: estudos sobre a obra de Kafka e os judeus na literatura, palestras sobre os seus romances mais polêmicos e balanços de uma vida dedicada à escrita.

Poalaroiddes Urbanas, de Breno Serafini (Parangolé, 189 páginas, R$ 69,00)

O livro celebra a capital dos gaúchos a partir do registro de sua arte urbana, principalmente graffitis, que foram captados pelo celular do autor. Nesse sentido, Poalaroides faz um inventário de dez anos de registro fotográfico, com uma variedade de autores e formatos que representam hoje o que a cidade tem de mais significativo nessa arte. O que iniciou como um registro solitário, cotidiano, no final contou com a curadoria visual do artista visual Luís Flávio Trampo, uma referência na arte do graffiti porto-alegrense. O curador comenta a força desse movimento cultural no sul do Brasil. “Essa arte sem fronteiras tem como uma de suas principais características a fácil integração de seus adeptos, que são como agentes multiplicadores dessa manifestação popular. As intervenções nas ruas de Porto Alegre vão além da tinta spray. Muitos artistas (ativistas) usam diversas técnicas e suportes para registrar sua arte, seja colando adesivos e cartazes, seja pintando de uma forma livre. Muros que embelezam e denunciam, expressando uma cidade que pulsa e vibra.”

As Visionárias, de Wolfram Eilenberger (Todavia, 400 páginas, R$ 84,90)

A década de 1933 a 1943 marcou um dos capítulos mais tenebrosos da humanidade. Em meio ao horror da ascensão do nazismo e da carnificina da Segunda Guerra, quatro mulheres — Simone de Beauvoir, Simone Weil, Ayn Rand e Hannah Arendt — libertaram-se dos grilhões do gênero e provaram que a emancipação do pensamento podia ocorrer mesmo em meio a situações extremas. Com grande habilidade narrativa e um equilíbrio magistral entre a apresentação biográfica e a análise acurada de ideias, Wolfram Eilenberger nos oferece a história de quatro vidas hoje legendárias que, em meio à convulsão, mudaram nossa forma de entender o mundo e lançaram as bases para uma sociedade muito mais livre. Seus reflexos chegam até os nossos dias em temas como gênero, identidade, religião, liberdade, sexo e autonomia.

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Judee Sill (1944-1979)

Nascida em Oakland, Califórnia, perdeu o pai, Milford “Bun” Sill, morto devido a uma pneumonia em 1952,e o irmão ainda bem jovem. Sua mãe, alcoólatra, se casou novamente com Ken Muse, um dos responsáveis pela animação de Tom e Jerry. Judee nunca aceitou o fato de sua mãe ter se casado com ele, pois ela não simpatizava sua postura autoritária. Como que por vingança, passou a andar com turmas rebeldes, se envolveu com crimes e drogas (heroína). Correram boatos que Judee chegou a se prostituir para bancar o consumo de drogas. Foi presa uma vez, e na cadeia, conseguiu largar o vício. Decidiu também começar a compor. Era uma pianista e guitarrista talentosa. Ela foi influenciada em suas composições por Bach e Ray Charles. Fez uma viagem de carro cruzando os EUA, com duas garotas, quando tinha 19 anos. Nessa viagem, obteve mais contato com o mundo musical. Quando voltou, conheceu David Geffen, que contratou Judee para gravar um disco pela sua nova gravadora — a Asylum Records. Através de Geffen, Judee conheceu Graham Nash, que produziu o primeiro single para seu disco – Jesus was a crossmaker. Seu primeiro disco, de nome Judee Sill (1971), foi aclamado pela crítica, mas vendeu pouco.  Perfeccionista confessa, Judee podia levar um ano para escrever uma música. Algumas canções ficaram conhecidas por gravações feitas por outros artistas, como a própria Jesus, que foi regravada pelo The Hollies, e Lady-O, pelo The Turtles. O segundo disco, Heart Food, foi lançado em 1973. Infelizmente continha o mesmo problema que o primeiro, não conseguindo muitas vendas, apesar da alta qualidade. Sua fama foi diminuindo, até que ela desapareceu quase que por completo do cenário musical. Não se tem certeza do que aconteceu depois, mas é certo que ela retornou à heroína. Deve ter se envolvido também com cocaína. Morreu de overdose em 23 de novembro de 1979, aos 35 anos.

Sill é um dos cults favoritos para aqueles que descobrem seus raros discos esgotados. Há uma força que atrai algumas pessoas para Sill — raramente seus fãs são casuais. Sua vida foi fascinante e tumultuada. Ela roubou lojas de bebidas e postos de gasolina quando era uma adolescente viciada em drogas. Aprendeu a tocar órgão no reformatório e passou um bom tempo na prisão. Era abertamente bissexual em uma época em que até Freddie Mercury estava no armário.

Mas o que interessa é que a música melódica e estranha de Sill é muito boa. Abaixo, dois belos exemplos da música de Sill: The Kiss, de seu segundo LP, e Jesus Was a Cross Maker, do primeiro.

The Kiss

Love rising from the mists,
Promise me this and only this,
Holy breath touching me, like a wind song
Sweet communion of a kiss

Sun sifting through the grey
Enter in, reach me with a ray
Silently swooping down, just to show me
How to give my heart away

Once a crystal choir
Appeared while I was sleeping
And called my name
And when they came down nearer
Saying, dying is done,
Then a new song was sung
Until somewhere we breathed as one
And still I hear their whisper

Stars bursting in the sky
Hear the sad nova’s dying cry
Shimmering memory, come and hold me
While you show me how to fly

Sun sifting through the grey
Enter in, reach me with a ray
Silently swooping down, just to show me
How to give my heart away

Lately sparkling hosts
Come fill my dreams, descending
On fiery beams
I’ve seen ‘em come clear down
Where our poor bodies lay,
Soothe us gently and say,
Gonna wipe all your tears away
And still I hear their whisper?

Love, rising from the mists
Promise me this and only this,
Holy breath touching me, like a wind song
Sweet communion of a kiss

Jesus Was a Cross Maker

Sweet silver angels over the sea
Please come down flyin’ low for me

One time I trusted a stranger
Cuz I heard his sweet song
And it was gently enticin’ me
Tho there was somethin’ wrong,
But when I turned he was gone.

Blindin’ me, his song remains remindin’ me,
He’s a bandit and a heart breaker,
Oh, but Jesus was a cross maker.

Sweet silver angels over the sea
Please come down flyin’ low for me

He wages war with the devil
A pistol by his side
And tho he chases him out windows
And won’t give him a place to hide,
He keeps his door open wide

Fightin’ him he lights a lamp invitin’ him,
He’s a bandit and a heart breaker,
Oh, but Jesus was a cross maker

Sweet silver angels over the sea
Please come down flyin’ low for me

I heard the thunder come rumblin’
The light never looked so dim
I see the junction git nearer’
And danger is in the wind
And either road’s lookin’ grim
Hidin’ me, I flee, desire dividin’ me,
He’s a bandit and a heart breaker.
Oh, but Jesus was a cross maker
Yes, Jesus was a cross maker

Sweet silver angels over the sea
Please come down flyin’ low for me

One time I trusted a stranger
Cuz I heard his sweet song
And it was gently enticin’ me
Tho there was somethin’ wrong
But when I turned he was gone
Blindin’ me, his song remains remindin’ me,
He’s a bandit and a heart breaker,
Oh, but Jesus was a cross maker.

Discografia:
— Judee Sill (1971) (Asylum)
— Heart Food (1973) (Asylum)
— Dreams Come True (2005) (Water — trabalho inacabado)
— Mas o Youtube traz o que segue:

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Heinrich Biber (1644-1704): Battalia à 10 (1673)

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Atrás do balcão da Bamboletras (XLV)

Atrás do balcão da Bamboletras (XLV)

O telefone toca:

— Livraria Bamboletras.

— Boa tarde, vocês têm o livro do Santiago, “Caderno de Desdenho”?

— Olha, acabou de acabar.

(risadas)

— Ah, que pena!

— Mas pera aí porque ele costuma almoçar aqui do lado e, se tivermos sorte, eu pergunto se ele tem o livro em casa.

Saio da livraria ainda falando no telefone e lá está o Santiago Neltair Abreu almoçando e pontificando com amigos.

— Santiago, tu tem o teu livro em casa? Os nossos acabaram!

— Tenho sim, Milton Ribeiro. Te levo 5 depois do almoço.

— É que tem uma moça que quer dar de presente para um gaúcho que está fazendo aniversário e que mora há décadas em Fortaleza.

— Qual é o nome do cara?

Eu pergunto no telefone.

— É R., Santiago.

— Diz pra ela que ele vai receber um com dedicatória.

Depois vocês pensam que é fácil ser livreiro…

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