Esta novela ficou muito famosa pelo fato de Shostakovich tê-la adaptado para a ópera. A versão musical — espetacular, chamada apenas de Lady Macbeth de Mtzensk — foi proibida por Stalin, juntando escândalo a escândalo. Sim, porque a novela é espalhafatosa, um verdadeiro paroxismo de maldade, bem no estilo do modelo shakespeareano tomado por Leskov. Não há nenhuma hesitação, nenhuma incerteza, nenhum retroceder na mulher. Ela é ainda menos reflexiva do que a Lady Macbeth de Shakespeare.
E é neste ponto que vejo seu único problema. São noventa páginas divididas em quinze capítulos que cobrem a violenta vida amorosa de Catierina Lvovna, nossa Lady Macbeth. Em cada um deles, há um clímax onde algo de hediondo é tramado ou realizado. Isto dá ao livro um ar mais de roteiro do que de novela. Tudo ocorre sem muita preparação e Shostakovich, ao lê-la, deve ter pensado: “Nossa, mas isso é um libreto de ópera pronto!”. É mesmo. Porém, não pensem que Leskov fez isso por inabilidade. Foi uma opção tomada por um autor sofisticado. Do tipo desta vez vou ser tosco, tá?
Não obstante os quinze clímax sem preliminares, a história é excelente e é impossível largá-la antes do final, tal o impressionismo solar de cada uma delas. As cenas que apavoraram Stalin — que chamou a ópera de “pornofonia” antes de censurá-la, colocando Shostakovich em temporária desgraça –, estão todas no livro, plenas de desejo e ódio. Deixo de lado meu incondicional ateísmo para pedir aos céus nunca cruzar com uma Catierina Lvovna, Deus me livre delas! O próprio Leskov considerava a história perturbadora e dizia ter medo dela. Esqueça. Vale a pena ler essa história tosca do nada tosco Leskov.
Imagem anônima criada durante a Grande Peste de 1665
A chamada Grande Peste de Londres (1665-1666) foi uma epidemia que vitimou entre 75.000 e 100.000 pessoas, ou seja, um quinto da população da cidade. Um Diário do Ano da Peste (A Journal of the Plague Year) é um livro muito enganador escrito por Daniel Defoe (1660-1731), escritor e jornalista que completa mais um aniversário de morte neste domingo, 21 de abril. Até Gabriel García Márquez, que não é exatamente um tolo, quando se encantou pela obra, caiu no conto de que era uma reportagem da lavra do grande jornalista que o inglês também era. Sua perspectiva alterou-se muito ao ser informado de que Defoe tinha entre quatro e cinco anos de idade quando ocorreu a peste bubônica londrina. O autor descreve a peste como um repórter gonzo que, espicaçado pela curiosidade, vive de rua em rua cada drama, apesar do receio de contrair a doença. Como Defoe conversa com famílias que contam seus dramas em detalhes, é óbvio que se trata de um relato parcialmente ficcional. Defoe também era um ficcionista de mão cheia e estilo bastante original: num ambiente em que os escritores eram cheios de floreios e de citações à mitologia, ele era o escritor simples e direto que criara o livro mais mais vendido da Inglaterra três anos antes: Robinson Crusoe.
Os locais onde os mortos eram queimados
No livro, todo o esforço é para que o contato com os doentes seja minimizado a fim de que fosse evitada a transmissão da peste. Casas eram fechadas com doentes dentro. Também eram tomados cuidados extremos com a água. A angústia do leitor moderno aumenta muito ao saber que tudo aquilo era em vão. Os contemporâneos do escritor ignoravam como a peste bubônica era disseminada: a doença contaminava os ratos, as pulgas sugavam sangue contendo bacilos e as mesmas atacavam homens, inoculando-os. A contaminação dava-se de rato para homem através da pulga. O incrível é que Defoe faz referências aos grande número de ratos, mas não chega a apontá-los como um potencial problema. Os sintomas eram dor de cabeça, frio, dores nas costas, pulso e respiração aceleradas, febre alta e grande inquietação. Em 70% dos casos, a morte acontecia entre três e quatro dias.
Daniel Defoe (1660-1731)
Daniel Foe, de pseudônimo um pouco mais nobre – Daniel Defoe –, foi o autor, dentre outros, de três livros extraordinários: além de Um Diário do Ano da Peste e do conhecidíssimo Robinson Crusoe, Defoe foi o autor do igualmente clássico Moll Flanders, outro exemplo de romance realista “com interesses práticos e imediatos, não clássicos e remotos”, como escreveu Anthony Burgess (autor de Laranja Mecânia). Com efeito, sua formação foi o jornalismo. Pode-se dizer que a primeira versão de Defoe foi a do jornalista combativo e posicionado. A segunda foi ainda jornalística: ele percorreu seu país em busca de relatos rápidos, curiosos e despretensiosos. Será que eram todos ficção? A pergunta se justifica. Afinal, às vezes, Defoe trazia entrevistas surpreendentes com criminosos à beira do patíbulo. Ninguém testemunhou nenhuma delas, mas tais “confissões” ainda quentes, presumivelmente saídas da boca do inferno, faziam enorme sucesso.
Aos 43 anos de idade, na época da Rainha Ana, Defoe — um dissenter, nome dado aos protestantes ingleses não anglicanos — passou a atacá-la em razão de ela ser anglicana. O escritor acabou preso e condenado à exposição no pelourinho. Voltou a liberdade mas, dez anos depois, voltou ao cárcere em razão de outros panfletos contrários ao governo. Cansado das lutas, quando já tinha mais de 60 anos, veio a terceira versão e ele passou a dedicar-se exclusivamente ao romance. Mas mesmo o romancista não abria mão do jornalista. O estilo de Defoe é direto e abre mão de floreios e das demonstrações de erudição e outros que tais, tão apreciados por seus colegas. Ele sempre utilizou o verídico e o crível como apoio.
Capa do DVD de uma das versões de Robinson Crusoe: capa de gosto duvidoso
Em 1719, ele publicou Robinson Crusoe. Naquela primavera, esgotaram-se quatro edições do livro, revelando-se um excelente negócio para Defoe, que o considerava uma mercadoria, uma ficção popular, algo que dava mais lucro que o jornalismo. A história é conhecida. O personagem-título é um náufrago que passou 28 anos em uma remota ilha tropical, encontrando índios – alguns deles canibais – e todo o gênero de aventuras pelo caminho. De grande sucesso, o livro recebeu considerações inclusive de Karl Marx, que escreveu que Crusoe não representava aquilo que diziam dele – uns diziam que ele seria uma representação do homem universal, outros da superioridade do homem branco – e sim o homem capitalista em seu momento heroico. A leitura de Marx, assim como as outras citadas podem ser facilmente reconhecidas no livro de Defoe.
Mas seus grandes livros são Moll Flanders e Um Diário do Ano da Peste. Na época de Defoe, os romances tinham títulos enormes. O de Moll Flandres diz quase tudo a respeito:
Na capa do livro está escrito policial, mas isto é muito enganador. As Duas Águas do Mar não pertence de claramente a nenhum gênero literário, não se trata de forma alguma de um exemplar típico de romance policial. Sim, OK, é um whodunit, porém, antes disso, é um romance prazeroso de ser lido, descansado e hedonista, com dois policiais meio confusos que procuram de forma pachorrenta ligar dois assassinatos ocorridos a longa distância. (Pretendemos ir até o final sem spoilers, certo?). Os homens da lei, Jaime Ramos e Filipe Castanheira, são gourmets sempre dispostos a discorrer de forma original e interessante não somente sobre os crimes, mas também sobre as delícias da mesa, da vida e sobre suas paixões. Os charutos, os vinhos, as receitas e o amor fazem parte da trama tanto quanto os assassinatos, diria até que há mais molho do que sangue no livro. A vida pessoal dos detetives ocupa mais páginas do que a dos envolvidos nos crimes que investigam. Por outro lado, As duas águas do mar é uma história muito bem contada de uma desilusão amorosa ligada à mortes. Aliás, também os detetives têm vida amorosa em descompasso: Jaime Ramos namora Rosa, que reside no andar de cima e que não parece compartilhar muito de seus prazeres. Para piorar, ela o manda dormir em casa, pois ele ronca. Filipe, tem — ou teve — Isabel.
Ou seja, temos um romance policial sem correrias, perseguições, onde quase não há tiros, somente o(s) necessário(s) cadáver(es), a gastronomia, as viagens e uma tremenda indefinição. Poética, a narrativa caminha lentamente pelas 382 páginas do volume da Record. Estranha, a trama usa elementos nada usuais para justificar as mortes de Rui Pedro Martim da Luz e de Rita Calado Gomes. Minucioso, o romance leva embutidas a cena inesquecível do jantar preparado por Filipe para Isabel e as descrições de Finisterra, localidade considerada erradamente por anos o ponto mais ocidental da Espanha e, antes de Colombo, o ponto extremo do mundo conhecido. E várias coisas encontram lá seu fim.
Vale a pena ler este romance de Francisco José Viegas.
Como se imaginaria, a ação de Sábado ocorre em um sábado, mas não num sábado rotineiro. Henry Perowne inicia seu dia insone, andando pela casa de madrugada quando vê pela janela um estranho corpo em chamas rasgar o céu de Londres. Perowne é um neurocirurgião, um homem de ciência que desconfia das pretensões literárias da filha, assim como do filho músico. Vive com a mulher Rosalind, advogada, em uma confortável casa.
Se o dia iniciara diferente — depois ele receberia notícias tranquilizadoras sobre o objeto voador em chamas –, havia um programa tranquilo a cumprir: uma grande manifestação em Londres contra a invasão do Iraque — a qual ele não iria por ser contra Saddam –, um jogo de squash contra um colega de hospital, compras para o jantar, um ensaio de seu filho músico e o próprio jantar, onde a família receberia o pai de Rosalind, um poeta que vive na França, e a filha Daisy, que estava lançando seu primeiro livro. Mas há fatos que atrapalham seus planos e que não contarei aqui.
A rotina e as motivações de Perowne são dissecadas minuciosamente na lenta e eficiente narrativa de McEwan. Porém, seu mundo baseado em pressupostos científicos mostra-se frágil em diversos pontos, principalmente na violenta discussão com a filha sobre a Guerra do Iraque e nas ruas, onde nosso homem cai inadvertidamente numa bela confusão.
Vou ser vago sobre a história narrada, pois certamente estragaria este excelente livro de pequena e exemplar trama contemporânea. Mas digo que gosto de narrativas lentas, detalhistas e simétricas, e também dos acasos e viradas surpreendentes. Por isso, Sábado me agradou me cheio.
Não entendi porque o volume da Rocco não traz o nome completo da excelente novela de Horacio Castellanos Moya, El Asco — Thomas Bernhard en San Salvador, nem ao mesmo O Asco, mas apenas Asco (Ed. Rocco, 111 páginas). Porém, deixando de lado as opções editoriais, a curiosa novela de Moya merece leitura atenta.
Curiosa por ser uma clara imitação de Thomas Bernhard — em estilo, estrutura e temática –, curiosa por Moya confessar isto no título, curiosa por ele ter repassado todo o ódio de Bernhard, aos austríacos em geral e aos habitantes de Salzburgo em especial, para um local do terceiro mundo, a cidade de San Salvador, capital de El Salvador.
Para quem não conhece Bernhard é bom explicar: seus livros são escritos em longos parágrafos — normalmente apenas um –, suas longas frases são fáceis de ler em razão das repetições e variações cuidadosamente realizadas e nelas o escritor destila ódio por páginas e páginas, chegando a tal paroxismo e descontrole que às vezes torna-se engraçado. Também não recua frente ao politicamente incorreto.
Moya foca seu relato no salvadorenho naturalizado canadense Vega, um acadêmico que retorna ao país para o enterro da mãe. Enquanto aguarda os papéis do inventário, Vega descreve suas impressões sobre o país e seus parentes, odiando tudo minuciosamente, mas minuciosamente MESMO. A invenção de Bernhard, aqui tropicalizada, funciona perfeitamente, tanto que o autor sofreu ameaças e preferiu passar bom tempo fora do país. Livrinho fascinante com ótima tradução de Antônio Xerxenesky.
Excelente e boêmio livro do grande Hobsbawm, falecido em 2012. Trata-se de 22 ensaios curtos sobre a cultura, a política e a sociedade do século XX. Muitos deles originaram-se de conferências ministradas pelo veterano Hobs – nascido em 1917 – para os mais diversos eventos. Cada um deles poderia ser expandido para formar um volume separado. Há desde análise sobre o papel do caubói na cultura americana e considerações sobre a moda até considerações fundamentais sobre a boliolice (palavra minha) do intelectual público moderno, sobre os guetos onde a grande música e grande literatura foram se esconder e sobre a situação das religiões no mundo. No último caso, as religiões são tratadas como devem ser: como forças políticas.
É difícil escrever uma resenha sobre um livro que trata de 22 temas, mesmo que estes estejam agrupados em 5 seções. Melhor citar o brilhantismo da prosa e das argumentações do mestre. Então, coloco abaixo os títulos de cada um dos ensaios a fim de que cada membro de meu septeto ledor possa avaliar o potencial de interesse que teria Tempos Fraturados (Cia. das Letras, 358 pág, tradução de Berilo Vargas). Depois, como test drive, coloco um trecho de A perspectiva da religião pública. Pura isca para o debate.
Leio pouca poesia e nem fui aquele tipo de adolescente que volta e meia cometia um poema. Hoje, de vez em quando, consigo parir umas coisinhas bem ruins, mas só quando estou muito angustiado ou apaixonado. Mas, é claro, li Bandeira, João Cabral, Drummond, Pessoa e o Gullar dos anos 60 e 70.
Este livro da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen foi comprado na Flip de 2004 e simplesmente ignoro o motivo que me levou a fazer tão boa compra. Volta e meio o folheava deliciado, mas só nestes dias li o livro de cabo a rabo. Se a apreciação crítica parte da satisfação que um livro nos dá no momento que o fechamos, posso dizer que este Poemas Escolhidos (Cia da Letras, 286 páginas, 2004) é excelente.
Trata-se de uma seleção dos poemas de Sophia realizada por Vilma Arêas. Como em toda a seleção, perde-se a unidade que haveria em cada livro, mas ganha-se na visão geral. Então, sem ler a fortuna crítica da poeta portuguesa, divido seus poemas em poemas do mar e da natureza, poemas da cidade, poemas político-filosóficos e poemas gregos (ou clássicos), pois a moça adorava uma citação a eles.
A vertente de que menos gosto é a clássica, até porque me falta bagagem para entendê-los completamente, mas mesmo neles ficam claras as notáveis qualidades de Sophia. Seus diálogos com outros poetas também são esplêndidos, como os que faz com Bandeira e Murilo Mendes, entre outros:
Manuel Bandeira (1967)
Este poeta está Do outro lado do mar Mas reconheço a sua voz há muitos anos E digo ao silêncio os seus versos devagar
Relembrando O antigo jovem tempo quando Pelos sombrios corredores da casa antiga Nas solenes penumbras do silêncio Eu recitava “As três mulheres do sabonete Araxá” E minha avó se espantava
Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó Quando em manhãs intactas e perdidas No quarto já então pleno de futura Saudade Eu lia A canção do “Trem de ferro” e o “Poema do beco”
Tempo antigo, lembrança demorada Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira Quando Me sentava nos bancos pintados de fresco E no Junho inquieto e transparente As três mulheres do sabonete Araxá Me acompanhavam Tão visíveis Que um eléctrico amarelo as decepava.
Estes poemas caminharam comigo e com a brisa Nos passeados campos de minha juventude Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro E foram parte do tempo respirado.
Carta de Natal a Murilo Mendes (1975)
Querido Murilo: será mesmo possível Que você este ano não chegue no verão Que seu telefonema não soe na manhã de Julho Que não venha partilhar o vinho e o pão
Como eu só o via nessa quadra do ano Não vejo a sua ausência dia-a-dia Mas em tempo mais fundo que o quotidiano
Descubro a sua ausência devagar Sem mesmo a ter ainda compreendido Seria bom Murilo conversar Neste dia confuso e dividido
Hoje escrevo porém para a Saudade — Nome que diz permanência do perdido Para ligar o eterno ao tempo ido E em Murilo pensar com claridade —
E o poema vai em vez desse postal Em que eu nesta quadra respondia — Escrito mesmo na margem do jornal Na Baixa — entre as compras do Natal
Para ligar o eterno e este dia
Dentre os poemas do mar, há constantes referências ao passado de Portugal e aos navegadores. Vejam a beleza deste:
Mundo nomeado ou A descobertas das ilhas
Iam de cabo em cabo nomeando Baías promontórios enseadas: Encostas e praias surgiam Como sendo chamadas
E as coisas mergulhadas no sem-nome Da sua própria ausência regressadas Uma por uma ao seu nome respondiam Como sendo criadas
Como exemplo de poema de cidade, leiam a belíssima prosa poética abaixo:
Caminho da manhã (1962)
Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.
A política e a filosofia podem estar presentes de forma menos clara
Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude Para comprar o que não tem perdão. Porque os outros têm medo mas tu não. Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão. Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos E tu vais de mãos dadas com os perigos. Porque os outros calculam mas tu não.
Era a mais bela capa para o Sul21. Na época, o lay-out de nossa página tinha uma foto grande e a capa do jornal ficara assim por alguns minutos:
Só que, justo naquele domingo, houve a tragédia na boate Kiss e tivemos que mudar tudo. Abaixo, o extraordinário artigo de Nikelen Witter sobre um dos melhores livros de todos os tempos.
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A página inicial da primeira edição de 1813. Ironia desde o princípio: “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa”. (Clique para ampliar).
No final do século XVIII, uma jovem inglesa escreveu um romance. Não era algo incomum em sua época, nem era seu primeiro texto de ficção. Como era de costume, ela fez leituras para sua família que, depois de alguns debates, parece tê-lo aprovado. Sua intenção, inicialmente, era a de fazer um romance epistolar, algo muito em voga no período, mas as cartas minguaram dentro do texto, mesclando-se com a narrativa. O pai da jovem, acreditando no talento da filha mais nova, levou o manuscrito a um editor, que recusou a história. Este poderia ter sido o fim de First Impressions, título do romance recusado, mas, como qualquer escritor sabe: a primeira versão de um livro nunca é sua versão final. A jovem aspirante voltou a trabalhar seu texto, ao mesmo tempo em que escrevia outros. Em 1811, ela publicou seu primeiro romance e, aproveitando o sucesso deste, no dia 28 de janeiro de 1813, há 200 anos atrás, finalmente o texto anteriormente recusado chegou ao público. Tinha um roteiro melhor trabalhado, um texto mais perspicaz e um novo título: Pride and prejudice ou, em nosso idioma, Orgulho e preconceito. Nascia, assim, o romance mais popular de Jane Austen – uma das mais brilhantes escritoras inglesas – e, com ele, uma notoriedade que já perdura por duzentos anos.
Jane Austen: uma moça simples e, curiosamente, muito letrada
A autora
Quem nunca leu nada de Jane Austen pode acabar tendo uma ideia errada de seus leitores-amantes, vendo-os como cegos seguidores de um certo tipo de culto, que elegeu a autora inglesa como musa e deusa. A quantidade (e o tipo) de menções na mídia à escritora, por outro lado, pode fazer com alguns venham a imaginá-la como uma espécie de Norah Efron (**) da virada do século XVIII para o XIX. De fato, já conheci leitores que interpretaram seus livros superficialmente, como quem lê um roteiro hollywoodiano, acreditando que seus romances não passam um conjunto bem amarrado dos clichês do tipo moça encontra rapaz e vice-versa. E, desde sempre, houve aqueles que a acreditaram como autora de livros tipicamente femininos, contos conservadores para “mulherzinhas” sonhadoras. Contudo, nada poderia ser mais enganoso. Primeiro, porque nenhum fã de Austen deixará de lhe fazer críticas na mesma medida em que reconhece sua genialidade. Segundo, porque se as comédias românticas beberam em Austen, fique-se certo que ela nunca bebeu delas. Por fim, dispensar um grande escritor com base num conceito duvidoso de literatura de meninos e meninas, diz mais sobre o leitor do que sobre o livro em questão, então, melhor deixar pra lá.
Keira Knightley e Matthew MacFadyen: A adaptação mais famosa: a de Joe Wright, realizada em 2005
O fato é que Jane Austen continua, após dois séculos de existência de sua obra, um fenômeno tanto de crítica, quanto de público. O número impressionante de adaptações pelas quais seus livros são lembrados e recriados, porém, não é o suficiente para que se compreenda como inglesa de vida obscura tem conseguido manter tanta vitalidade. Arrisco a dizer que, para entender o fenômeno Jane Austen é preciso lê-la e, se me permitem, fazer isso mais de uma vez. O gênio de Austen é o de fazer muito com o mínimo. E tal talento exige um leitor capaz de divertir-se como quem observa pessoas pelos buracos das fechaduras, entendendo-as mais pelo que fazem e dizem, do que por longas apresentações retóricas sobre quem realmente são. Os livros da Jane Austen são como pinturas delicadas, dadas como um presente aos observadores atentos. Sem “efeitos bombásticos” (usando as palavras de Sir Walter Scott, seu grande admirador), Austen dominava como ninguém a arte de representar o cotidiano em suas grandezas e misérias, em sua beleza e mediocridade. O resultado é um espelho atemporal das relações humanas que ultrapassam em muito as relações amorosas entre homens e mulheres. Em Austen, o minúsculo da existência aparece como um caminho que, em qualquer época ou lugar, pode refletir o que somos e onde estamos. Sobretudo, o fato de que, na grande maioria das vezes, não conseguimos estar onde gostaríamos, apesar de nossas melhores intenções.
Elizabeth (Keira Knightley) e seu pai (Donald Sutherland): raro entendimento
Austen escrevia sobre pessoas e sobre gerações. Falava dos mais velhos acomodados a suas manias, controles, posições e fracassos. E escolhia como protagonistas jovens que precisavam abrir caminho ante tudo isso. Destes jovens, ela se ocupou mais das mulheres, criaturas sem qualquer poder ou destinação que não o casamento; muitas vezes, prisioneiras da ignorância, da vida sem perspectiva ou ilusões, assombradas pela decrepitude física (decretada antes dos 30 anos) e pela ruína econômica. Jane Austen colocava o amor como uma questão importante, mas o via por meio de um caleidoscópio, pois ninguém ama ou é amado solitariamente. O difícil relacionamento amoroso com a família na fase adulta é, para a autora, um tema tão forte quanto à busca de um amor companheiro para construir um novo núcleo familiar.
Porém, ledo engano dos que, sem a terem lido, imaginam-na como uma autora sentimental. Se bem que Mark Twain, que detestava seus livros – especialmente Orgulho e Preconceito –, talvez acreditasse nisso. Já Charlotte Brönte, autora de Jane Eyre, a acusava de ser fria, de não ter fogo ou paixão e classificava seus romances como insípidos. Minha leitura de Jane Austen a percebe como uma racionalista, até mesmo um tanto radical em seus termos. Isso é claro em Razão e sensibilidade e não menos em Orgulho e Preconceito. Os muito românticos podem ficar chocados, mas Jane Austen parece defender a ideia de que o amor é, antes de tudo, uma mistura de desejo, afeto e discernimento. A receita para o desastre está na falta de qualquer um destes. Claro que não se há de ler nenhuma declaração de amor em seus livros como a que Edward Rochester faz a Jane Eyre, porém, para Austen, o amor, mais que por palavras, é demonstrado por ações que nada exigem em troca. Numa sociedade tão apegada ao jogo de favores e cortesias, nada poderia ser maior que o desinteresse na retribuição, que a paz e felicidade do outro como único reconhecimento.
A casa dos Austen em Steventon: nada de herança para mulheres
Vida e morte
A biografia de Jane Austen é bem conhecida, quando não, esmiuçada para explicar a escritora e a impressionante longevidade e popularidade de sua obra. Houve críticos que, inclusive, se utilizaram de sua trajetória para opor-se a seus escritos. Ora, o que, afinal, uma solteirona provinciana poderia saber de amor, de casamentos e, especialmente, das universalidades do gênero humano?
Jane nasceu em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, um vilarejo ainda hoje de aspectos rurais, ao norte do condado de Hampshire, no sul da Inglaterra. Originária da gentry, pequena nobreza rural, ela era oriunda de uma numerosa família, sendo a sétima filha do pastor George Austen e de sua esposa Cassandra, o mesmo nome de sua única irmã e confidente. O pai era também reitor e tutor de alunos, os quais recebia e educava em sua casa.
É difícil saber se por atenção às novas exigências da época quanto ao ensino das moças – nos últimos 50 anos do século XVIII, sob influência da burguesia ascendente, se passou a valorizar a educação feminina no mercado de casamentos – ou se por convicção professoral, o fato é que os Austen preocuparam-se em fornecer às duas filhas instrução de alto nível. Cassandra e Jane moraram com uma tutora em Southampton e, mais tarde, no internato de Reading. Sabe-se, porém, que o próprio pai foi um dos grandes educadores dos próprios filhos. Ele mantinha em sua casa uma ampla biblioteca e se orgulhava da família ser ávida na leitura de romances, além de outros tipos de literatura.
O manuscrito de Orgulho e Preconceito: leiloado por 5 milhões de reais em 2011. (Clique para ampliar).
É interessante notar que se as bibliotecas particulares já não eram nenhuma novidade por esta época, o estímulo à leitura, em especial de romances e pelas mulheres, estava ainda sob forte ataque. São bastante conhecidos os textos do período que criticam a chamada “fome por leitura”, a qual, no entanto, espalhava-se pelos alfabetizados num volume cada vez maior. Tais textos eram opositores à leitura feita “por qualquer um”, e acreditavam que nada poderia ser mais pernicioso para a vida de uma moça do que a leitura de romances. Os detratores do gênero acusavam-no de estar repleto de fantasias e aventuras absurdas, que só fariam adicionar à cabeça “fraca” das jovens desejos que nunca poderiam ser satisfeitos, mergulhando-as na melancolia. Pior, poderia fazê-las falhar com seus deveres de boas filhas, irmãs e esposas, tornando-as ávidas de sensações moralmente recrimináveis e passíveis de se lançarem nas mãos dos aproveitadores e inescrupulosos que rondavam as famílias. Em prol da segurança das jovens e das linhagens, devolveu-se grandemente uma literatura moralista, baseada em textos bíblicos, que tinha função de orientar as moças em direção à caridade e a conformação com a vida limitada, que todas tinham pela frente.
Alguns destes livros devem ter passado pela biblioteca do reverendo Austen e Jane os conhecia bem. Pode-se acreditar nisso porque determinadas ideias destes textos estão presentes em seus escritos. Afinal, Jane não se furtava em criticar romances com perspectivas irrealistas da vida ou das relações amorosas. Northanger Abbey, sua obra de juventude publicada postumamente, é justamente sobre as tolices das jovens que se deixam levar pelo imaginário dos romances. Por outro lado, Austen não era nenhuma entusiasta da longa e aplicada leitura dos moralistas. Em Orgulho e preconceito, este detalhe é inserido como parte da personalidade patética de pelo menos dois personagens: o infame Mr. Collins e Mary Bennet, a menos encantadora das cinco irmãs.
Cena de Becoming Jane, com Anne Hattaway.
Das leituras à escrita, Jane revelou precocemente o talento e o desejo de compor seus próprios textos. Pequenos esquetes representados pela família na reitoria, paródias da literatura da época em que ela exercitava seu humor e capacidade crítica, presentes igualmente nas longas cartas escritas para a irmã Cassandra, nos breves períodos em que ficavam separadas. Os biógrafos apontam que entre 1795 a 1799, Austen também teria desenvolvido o cerne de alguns de seus principais romances, os quais foram, depois, longamente retrabalhados. No início dos anos 1800, fala-se da existência de alguns pequenos interesses de cunho amoroso, porém, nenhum deles seguiu adiante. (Em 2007, esses quase enlaces de Jane Austen, foram costurados num único – Thomas Lefroy – pelo roteiro do filme Becoming Jane, que se utilizou de Orgulho e Preconceito para construir um argumento romântico, numa livre interpretação da vida da escritora).
No Charles Dickens Museum, há uma citação do autor reproduzida numa das paredes em letras garrafais:
Entradas anuais: 20 libras, gastos do ano: 19,60; resultado: felicidade. Entrada anual: 20 libras; gastos do ano: 20,60; resultado: miséria.
Considero de insuportável pieguice vários livros de Dickens, mas nunca a obra-prima do humor Pickwick Papers, o adorável David Copperfield e este Grandes Esperanças, a meu ver seu melhor romance. É importante dizer que a tradução de Paulo Henriques Britto, cuja capa da Penguin Companhia está ao lado, é disparada a melhor. Então, evitem procurar o livro em edições antigas, até porque o preço está abaixo de quarenta reais, excelente valor para um volume de 704 páginas.
Como muitos romances do autor inglês — e basta visitar o Museu Dickens em Londres para comprovar — , a questão econômica é central. (Não vou contar a história, tá?). Philip Pirrip ou Pip é um órfão que é criado pela irmã que o atormenta e o marido, o bondoso ferreiro Joe Gargery. Ele vivem numa pequena aldeia no interior. A vida de Pip se altera quando um benfeitor misterioso o faz herdeiro de uma grande fortuna, o que o faz conceber a primeira fornada de “grandes esperanças”. A partir do fato, lentamente vão se alterando não apenas o comportamento das pessoas em relação ao personagem como o próprio Pip passa a rejeitar suas origens.
Comprei o romance A Vida Financeira dos Poetas (Benvirá, 352 páginas) em razão do bom título. Bem, foi uma tentativa… A história sem spoilers: Matt larga seu emprego no minguante jornalismo impresso norte-americano para investir num negócio próprio na internet: um portal de notícias econômicas escritas em forma de poesia. Não dá nada certo, claro. Agora, desempregado, sem grana, corre o risco de perder a casa e a mulher, cada vez mais irritada com as dificuldades financeiras em casa e interessada em flertar com um ex-namorado.
O livro tem inegáveis bons momentos, como nos trechos em que Matt procura entrar no negócio das drogas, mas sua trama acaba esbarrando em atitudes que adocicam a situação final. É como se o autor Jess Walter estivesse dando uma volta para tornar seu livro palatável para o cinema dos EUA.
A escolha da linguagem é perfeita e podemos dar boas risadas com o livro, mas Walter acaba por destruir os bem armados conflitos do livro através do uso de soluções convencionais. Uma pena.
A excelente tradutora Vanessa Barbara, responsável por esta edição da Penguin-Companhia (249 pág.), fez uma engraçada e furibunda avaliação do recente filme de Baz Luhrmann, baseado e homônimo O Grande Gatsby em Gatsby for dummies. Só lá no final deu uma aliviada. Acho compreensível que ela ataque o filme; afinal, o cuidado que demonstrou em sua tradução é indiretamente rebatido pela mão pesada e deselegante do diretor. Uma abordagem agride a outra, só que Vanessa tem a seu lado a própria obra. Mas este parágrafo está aqui por que mesmo? Ah, sim, para elogiar a tradução. Mas talvez não apenas para isso.
O enredo de Gatsby funciona, mas o principal é a qualidade da narrativa. O livro é narrado por um dos personagens, Nick Carraway, amigo de Jay Gatsby, um cara que o conhece no início da história. O narrador não é nada onisciente, ao contrário: é hesitante, têm poucas certezas acerca dos novos amigos e vai deixando lacunas que serão preenchidas ou não, ficando alguma coisa a cargo da imaginação do leitor. Uma das coisas que faz de O Grande Gatsby uma obra-prima é esta narrativa incompleta, e a outra é o enorme charme do texto, cheio de detalhes banais escondendo dramas. Fitzgerald não é seco nem barroco, lê-lo é muito, mas muito agradável. Suas analogias são sempre belíssimas, o homem era uma fonte inesgotável delas.Read More
Como escrevi na primeira parte deste texto, a voz de Yannick Nasyniak ou João, O Vermelho, não é única no livro de Backes. Concordo, é ele quem fala por quase todo o romance através de um copioso discurso livre indireto, mas há importantes interrupções de parte do narrador-interlocutor. Ou seja, o livro não é um longo monólogo que se estende por 224 páginas, como li em algum lugar. Uma das qualidades do livro está no contraponto, no diálogo, no reflexo das palavras de João-Yannick sobre o seminarista. Como já escrevi, o livro chega a apresentar uma inversão de posições, dando espaço ao monólogo do seminarista! Outro fato que me causou contrariedade foi a redução feita por alguns jornais, como se o livro apenas argumentasse sobre o futebol como metáfora da vida. Ok, é uma das teses presentes no livro, mas é apenas uma delas. O Último Minuto é bem mais rico. Fiquei feliz ao ler meu amigo Carlos André Moreira na ZH de hoje. Ele caracterizou bem o livro de Backes, passando o centro do romance para a paternidade de Yannick.
De forma muito curiosa, o evento de hoje no StudioClio propõe o tema “A Voz da Prisão” em autores como Nabokov, Sabato, Dostoiévski e Graciliano. É uma boa ideia estabelecer diferenças entre estes ícones e o livro que estaremos comentando. Nestes livros e em O Último Minuto, a posição que cada narrador ocupa é diferente. É lamentável que eu tenha estudado tão pouco o assunto. Vamos, um tanto esquematicamente, ao que lembro destes livros narrados por prisioneiros.Read More
Farei dois ou três comentários acerca de O Último Minuto, de Marcelo Backes, em razão de minha participação no lançamento do livro em Porto Alegre, lá no StudioClio, na próxima quinta-feira, às 19h30. Serve como anotação, certamente desorganizada.
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A pedido do Backes, li O Último Minuto quando era ainda um arquivo do Word e tinha o nome de Morte Súbita. Demorei a me resolver a ler, demorei a responder ao Marcelo. Quando o fiz, ele disse: “Olha, já é outro livro. Certamente, tu vais comentar coisas que foram alteradas”. Tudo inútil, portanto, e tudo muito curioso, pois a releitura, feita agora já sob um novo nome e no formato de livro (Companhia das Letras, 221 páginas), é realmente desconcertante. Jamais manteria a sinopse que catalogara em minha memória no ano passado e que vou tentar recriar sem spoilers. Fico pensando na extensão das reformas empreendidas pelo Backes e que agora nem posso conferir porque tenho o hábito de deletar originais. Já imaginaram se aparecem em outro lugar?Read More
Eu já tinha comprado este livro, mas ainda não o tinha lido. Surpreendi-me quando, em fevereiro, cheguei a Londres e descobri que o complexo de salas de concerto do Southbank Center estava apresentando uma série de espetáculos que teria a duração de um ano (é isso mesmo) e que era inteiramente baseada no livro de Ross. Ou seja, eles tinham lido O Resto é Ruído e já estavam escutando o século XX, como diz o complemento do título do autor norte-americano. Depois de comprar alguns ingressos com os quais pude assistir a um fantástico concerto com a Sagração da Primavera e outro sobre a obsessão de Ravel pela Espanha, não apenas me senti menos infeliz ao comparar Londres a Porto Alegre como decidi que leria imediatamente o livro. Quando voltei para casa, não precisei avançar muitas páginas para saber porque o ensaio, — que é recente, de 2007 — é objeto de tantos elogios, quase objeto de culto.Read More
Elias Canetti foi um judeu búlgaro de nome italiano e origem espanhola que viveu na Inglaterra e escrevia em alemão. Recebeu o Nobel em 1981, tendo iniciado sua carreira literária com seu único romance, este Auto-de-fé (atualmente na Cosac Naify, 631 paginas). Depois, produziu ensaios e algumas peças teatrais.
Aqui, a tradução é de Herbert Caro, o que tem claro significado. Meu velho amigo não costumava entrar em fria. Um dia, em nossas reuniões na King`s Discos com a finalidade de falar de música, o Dr. Herbert Caro disse que a Nova Fronteira estava publicando mais um calhamaço traduzido por ele. Disse que não ficava nada a dever a Doutor Fausto, nem a A Montanha Mágica e nem às outras traduções que ele já fizera. Parece que, naquela altura da vida, ele só traduzia o que queria, e sempre eram grandes obras. Assim que foi lançado, comprei (ou roubei, pois na época era um meliante literário) o livro.
Peter Klein é um eminente filólogo que só existe em função de sua biblioteca. Ele é um misantropo que vê o mundo através de seus milhares de livros, mantendo-se afastado da vida. Um dia, por impulso, este ser enormemente individualista resolve casar com a governanta — afinal, ela era tão competente, arrumava tudo tão direitinho… — , convencido de que esta lhe auxiliaria a manter-se afastado do mundo exterior. Casam-se. Porém, rapidamente o casal se incompatibiliza e Klein é posto no olho da rua. Forçado à vida, o professor parte para conhecê-la, entrando numa espiral auto-destrutiva.
Lendo assim, parece simples; lendo o livro cruzamos com uma montanha de personagens estranhos. O livro é de 1935, segundo ano do nacional-socialismo de Hitler, e seu entendimento do livro deve ser buscado não apenas naquela Europa, mas também lá longe, na China de dois mil anos atrás. Não esqueçam que Peter Klein é um sinólogo e, há dois milênios, o império chinês foi dominado por um certo Qin Shi Huang. Huang foi quem pacificou os vários reinos em guerra que vieram a formar a China. Também divulgou o confucionismo e construiu um belo exército de terracota para proteger seu túmulo. Qin Shi Huang tinha algo de Hitler no sangue e determinou que todos os livros que discordassem de sua linha filosófica deviam ser queimados. Para o servidor que demonstrasse negligência ou piedade ao punir os portadores de livros proibidos, estava prevista a pena de morte. Depois, Huang achou que as fogueiras de livros não bastavam e decidiu enterrar vivos os aproximadamente 500 intelectuais e alquimistas do reino, só para deixar claro seu apreço pela opinião alheia e pelo debate franco e aberto de ideias.
Huang e Hitler, Hitler e Huang. Como escreveu Felipe de Amorim em seu extenso e pessoalíssimo comentário sobre Auto-de-fé, o tema de Canetti é o embate entre o totalitarismo e a liberdade intelectual, descrita numa linguagem colorida e com farpas para todos os lados. Os personagens deste estranho livro interagem, mas não dialogam efetivamente, pois cada um deles está fechado em seu próprio mundo e em suas metas individualistas. Falam e não se ouvem uns aos outros. Eles não conseguem, em momento algum, estabelecer uma compreensão concreta do outro, nem do mundo.
Canetti era um apaixonado pelo tema da formação de grupos populares e da comunicação entre seres humanos. Sua maior obra de ensaios, Massa e Poder, deseja compreender como pessoas pretensamente racionais podiam subitamente se transformar em uma coletividade enfurecida cheia de paranoia, medo e voracidade. Quem manda e quem obedece, quem deve ser exterminado e quem deve sobreviver? Enfim, como se obtém e se perde o poder. “A massa traz sempre vivo em si um pressentimento de desintegração que ameaça e da qual busca escapar através do rápido crescimento”, diz em Massa e Poder. E tudo o que está claramente presente neste ensaio de 1960, aparece de forma alegórica em Auto-de-fé.
Em Auto-de-fé, o ingresso do homem no grupo, na massa, não o torna mais tolerante. Na massa, ele ganha permissão para radicalizar suas opiniões e atos. É este o processo que move as ações dos personagens do romance em sua jornada aniquiladora.
Parece haver uma conjuração em curso. Desde ontem, quando confessei não lembrar bem de Grande Sertão: Veredas, estou recebendo uma série admoestações de queridos amigos. Curiosamente, PauloTimm (dois links, o que comprova que Guimarães Rosa só pode ser cantado por quem controla dois espaços na internet) não me fez qualquer advertência, mas me mandou um texto sobre Rosa e Grande Sertão, o qual não posso deixar de publicar. Paulo Timm é homem de dois mundos e age de forma exatamente contrária a do meu falecido amigo Herbert Caro. O Dr. Caro viajava para a Alemanha a cada 1º de dezembro a fim de fugir da “canícula”. Voltava a Porto Alegre lá por 31 de março, vivendo dois invernos por ano. Já Paulo Timm busca o calor: vive um verão em Torres (RS) e outro em Covilhã, na Serra da Estrela (Portugal).
Bem, antes de passar a palavra a Paulo Timm, prometo que vou ler os dois livros que já estão sobre o meu criado-mudo e depois repego o Grande Sertão, OK? E não gritem mais comigo!
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“Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos e escuros
como o sofrimento dos homens.”
Então, Guimarães é notícia em destaque?
Por quê…?
Aconteceu alguma coisa? Ganhou o Nobel de Literatura Post Mortem? A patrulha descobriu que ele era racista, homofóbico, ou vice-versa?
Nada disso, apenas Guimarães — eterno — e uma resenha ao léu no Blog do Milton Ribeiro, que não resisti a comentar. Daí a cobrança dele por esta aventura que se segue: falar sobre o maior autor moderno do país. Aquele que ultrapassou o modernismo e o regionalismo para entronizá-los na literatura mundial, com a mesma envergadura de “Cem Anos de Solidão”. Talvez mais original, mais ousada. Advirto o editor: – Não sei nada de literatura, a não ser como leitor. Penso comigo: – Devorei a “Biblioteca Lar Feliz” que minha mãe, professora primária em Santa Maria, guardou com tanto zelo, até morrer. E havia outra coleção: “Terremarear”… Como esquecer esses nomes todos? Mas, curiosamente, lá não havia muitos clássicos. Até hoje não li sequer um livro de Shakespeare. Conheço-o, como diria Machado, de vista e de chapéu. Ainda assim, pra mó de me compreenderem saibam que “ Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória.” No Cícero Barreto e Colégio São Luiz, em Santa Maria, anos 1950/53. E o fiz até cansar, porque era muito fraquinho, não dava pra esportes coletivos, mal brincava na rua. Sempre escutando minha mãe: ” Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim”.
Mas Milton me anima: — Trata-se de depoimentos, fã clube!
Levo medo. “Abriu em mim um susto. Mal haja-me!” Afinal respondo: :“Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só : o Que-Diga.”
“Parece até que ficou o feliz, que antes não era…”
Pois assim funciona o Guimarães, pra mim: Como um desencontro de palavras que escorre em melodia, como a fala de todo mineiro. Outra lógica.
Decididamente, me retombo como água caindo em cachoeira. E me vou, retórico, vaidoso e despido de vergonhas a caminho da crônica, embebido de diadorices .
Grande Sertáo, Veredas foi o melhor romance que li: Lhe digo, à puridade.- Pois não sim…?”
A primeira vez na juventude e não consegui entender nada. Nem o título. Sertão, pra mim, ficava no Nordeste do país: “Vidas Secas”, “O Cangaceiro”, “O Pagador de Promessa”. Glauber, “Os Retirantes”. Guimarães não é minero?, perguntei ao Fabinho, um de meus gurus, comunista visceral, com quem repartia o verdadeiro “aparelho” na Demétrio Ribeiro, 1094. Meados da década de 60. Aliás, outro cadáver da ditadura. Homenagem. Ele me disse que sim, mas não explicou mais. “Tudo é e não é…” Passei décadas sem voltar ao livro. Mas, perto dos 60 anos, fui morar num ermo de Goiás: Olhos d‘Água. Afinal, um homem nessa idade “ carece de aragem de descanso. Solito e Deus. Cuidando de plantar mandioca, cuidar das galinhas e fazer poesia. Cansado de guerra!
“Sofro pena de contar não….Melhor se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandio-brava, que mata?
Lá convivi com muitas gentes oriundas das Gerais, pessoas simples, rudes e sábias. E também com um mineiro, meu senhorio, Betão, de Cordisburgo, cidade de Guimarães, cujo pai havia sido dele colega. Eu lhe ensinei a tomar chimarrão nas madrugadas, ele me devolvia com mineirices. “E susseguinte… sem remediável, ”percebendo a maneira curiosa de toda aquela gente pensar e falar, ocorreu-me voltar ao “Grande Sertáo”. Pois “ponho primazia é na leitura — eu gosto muito de moral — ajudo com meu querer acreditar. De sorte que carece de se escolher. Que no causo, é reler com o jeito, agora, de poder entender. Porque aprendi com aquela gente do Planalto Central, que o excesso de argumentos e a falta de jeito falecem a razão. Que redescoberta! Comecei a entender tudo. Há sertão nas Gerais, um sertão misterioso e encharcado durante as águas, que são abundantes; há uma filosofia popular profunda entre mineiros e goianos (estes, dizem, mineiros fugidos depois de matar alguém…) Hoje, Grande Sertão, é um dos meus livros de cabeceira. Vez por outra roubo-lhe uma expressão. Ou um parágrafo inteiro – aí cito…-. E coisa incrível: Oferecendo-me para ler em grupo com algumas pessoas o livro, aqui em Torres, descobri duas mulheres devotas da obra, uma psicóloga, Angela, a outra professora, Vera. Nem precisou reler o livro com elas. Elas o sabiam melhor do que eu… Coisas deste mundo que ninguém, nem o mais o desinquieto, desentende… “Só um e outro, um em si juntos. O viver em ponto sem parar (consegue). Coração-mente. Pensamento. Avançam parados dentro da luz.”
Parece que aqui, mesmo com o mar a tiracolo, com a Serra Geral subindo ao longe, também tem sertão…Pois ele está é dentro da alma de cada um de nós.
Faz muito tempo que li Grande Sertão: Veredas. Foi uma leitura adolescente e nunca mais revisitei o livro. O fato não impede que eu tenha a melhor das lembranças. Dele e de Sagarana. Mas jamais poderia escrever algo honesto se às vezes confundo trechos do romance e da coleção de contos. Então, convidei FernandaMelo (2 links) — grande admiradora da obra-prima de Guimarães Rosa — para escrever o 18º post desta série.
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Grande Sertão: Veredas entra com mérito e facilmente em qualquer lista de livros preferidos de quem o tenha lido. Mas ele é um daqueles livros que exige do seu leitor. Não é um livro para ler pressionado por prazos, para fazer prova de vestibular ou com o objetivo de aprender sobre o interior do Brasil. É preciso tempo para se adaptar à linguagem, para que ela, ao invés de truncada, se torne musical. A narrativa de Riobaldo, feita na primeira pessoa, avança, recua e muitas vezes confunde, tal como seria recordar uma vida. A viagem pelo Sertão é longa e cheia de pequenos causos. Se for para ler com pressa, querendo chegar logo ao fim, vai parecer uma eternidade. O outro caminho é curtir cada pedaço, se interessar pelas expressões (quase todas as frases de Guimarães Rosa citadas por aí são retiradas deste livro), embarcar nas reminiscências, compartilhar a visão de mundo de Riobaldo, apaixonar-se por Diadorim…
Eu gostaria muito de ter lido Grande Sertão: Veredas sem saber que foi representado por Bruna Lombardi numa minissérie da Globo (os mais velhos poderão apelar para uma referência ainda mais antiga, do filme de 1965, com a atriz Sonia Clara). Apesar das andanças, das superstições, da linguagem do sertão, das disputas de terra e do amadurecimento de Riobaldo, é Diadorim que o leitor busca em cada uma de suas páginas. Os seus olhos verdes, o seu comportamento reservado, as mãos delicadas, sua maneira firme e determinada, o perfume do seu corpo, as palavras soltas… tudo em Diadorim confunde e deixa Riobaldo em suspenso. Diadorim e a saga no sertão se confundem. Acredito que antes o amor de Riobaldo e Diadorim também confundiam também o leitor. Riobaldo não se permite dar vazão ao que sente por Diadorim, outro homem, algo ainda hoje – apesar de tantas lutas e progressos com relação à aceitação da homossexualidade – perfeitamente compreensível. Quem lia aquilo sem saber previamente da história de Diadorim, não conseguiria deixar de perguntar: Riobaldo é gay? O que teria acontecido se ele tivesse tentado? Ou será que no fundo ele sabia que Diadorim era uma mulher? A explicação mais bonita que vi da história de Diadorim e Riobaldo foi de uma entrevista de um ator italiano, desses de novela da Globo, que disse que Grande Sertão lhe ensinou que amor não tem sexo, que amor é algo que existe entre essências. Talvez conhecer o livro antecipadamente tenha nos retirado o privilégio de chegar a uma conclusão semelhante.
Falando em paixão, em amor, não dá para deixar de citar a evidente torcida de Guimarães Rosa, demonstrada nesse e em outros livros, pelo sertão. Falando de modo bem amargo, o sertanejo seria quase um bom selvagem. A linguagem deliciosa e musical do livro, ao invés de eternizar a fala do jagunço, criaria outra, realmente musical e deliciosa, só que fora da realidade. Metidos em guerras confusas, dormindo sob o céu estrelado e sem saber do que será o amanhã, os personagens de Guimarães têm sempre uma grandeza, uma proximidade com o eterno. O homem a cavalo, a filha do moço da venda, o matador de aluguel, nunca podem ser reduzidos apenas ao que fazem. Mesmo quando fala da morte, da necessidade e da ignorância, o leitor sempre têm a impressão de que eles, interioranos, vivem de uma maneira mais autêntica do que nós, leitores citadinos.
Nossa, este livrinho — são apenas 62 páginas — da Nova Fronteira é bem ruinzinho. Lançado em 1989, narra a história de Tânia, uma russa bonita e de seios grandes que foge da Revolução Bolchevique pelo Japão, chegando em 5 páginas à Paris. Aparentemente, ela não tem nenhuma opinião sobre a Revolução. Desinibida, rouba o pretendente da irmã, o qual morre logo após o casamento. deixando nossa personagem principal à deriva na capital francesa, à procura de um marido que lhe pague as contas. Ele vem na figura de um garçom também fugido de St. Petersburgo e ela passa a detestá-lo por sua incompetência em ganhar dinheiro. Ele rasteja, dizendo adorar a mulher. Deprimida, já gorda e decaída ela segue o roteiro óbvio. Fujam!
Este livro foi publicado em português pela editora carioca Tinta Negra, mas eu desconhecia a existência da obra. Vi-a pela primeira vez em fevereiro deste ano, no bairro judeu de Praga. Eu estava na lojinha de uma sinagoga e Franz Kafka y Praga (Vitalis, 120 páginas) estava lá em checo, alemão, inglês e espanhol. Comprei imediatamente a tradução hermana. O livro é bom e inclassificável. É um livro de viagens, mas também tem muito de história e de literatura. Quando digo que tem muito, quero dizer que é muito mesmo. Ou seja, o livro desagradará o turista desinteressado em Kafka ou alguém que não quer saber da história de Praga. Os inversos, em qualquer sentido, também são verdadeiros. O livro sustenta-se firmemente nestas três pernas. Por isso é tão curioso e talvez por isso seja tão lido e vendido em lojinhas de turistas e em livrarias.
Os diários e cartas de Kafka comprovam uma importante relação com a cidade, um verdadeiro amor. Há relatos de caminhadas longuíssimas, roteiros, descrições de locais, de parques, de ruas, de casas, do Castelo de Praga — onde ele, por um período, escreveu à noite numa tranquila ruela do castelo, fechadíssimo em um pequeno quarto de uma casa alugada por sua irmã, pois precisava de silêncio para trabalhar –, além de subidas pela velha escadaria do castelo, missão que fazia diariamente e que não é para qualquer sedentário. É um belo livro, com centenas de fotos, algumas infelizmente colorizadas.
Em Kafka y Praga, o escritor pode ser visto de uma perspectiva diferente. Céus, quantas vezes aquela família se mudou, quantos endereços, pareciam gostar de carregar coisas! Outras coisas que, acho, não se notam em seus livros, são a profunda ligação do escritor com a cultura judaica, tão importante em Praga, e suas amizades com muita gente. Eu sempre tive a impressão de um escritor insular, kafkianamente ensimesmado, quase apartado do mundo, lendo A Metamorfose entre risadas para poucos conhecidos, mas Kafka dava palestras, ia quase diariamente a cafés e namorava bastante. Vender livros era o que não conseguia… E procurava com grande afinco um lugar tranquilo para escrever e reclamava, ao menos em seus diários, que os vizinhos, todos e via de regra, eram sempre insuportáveis. Só havia barulho no mundo. Salfellner também conta a luta dos checos — às vezes nas ruas — para afirmarem sua cultura e língua em uma cidade de pesada presença alemã. Lembrem que o escritor ainda escrevia em alemão e até hoje, na cidade, as pessoas que desejam falar conosco tentam em primeiro em checo e depois a pergunta é Sprechen sie Deutsch? Parece que a segunda língua é o inglês só para os mais jovens e para os que se envolvem com o turismo.
Enfim, se você quer um livro de curiosidades sobre Kafka e sobre a história de Praga na virada do século, este é bem bom. Mas, se você estiver indo a Praga, não deixe de adquirir o livro do Lonely Planet sobre a cidade. Este sim é indispensável.
Capa de O Mestre e a Margarida, edição da Alfaguara
Sabem aqueles livros que valem por cada palavra? Que é engraçado, profundo, social, histórico, existencial e grudento? Pois O Mestre e Margarida satisfaz todas as condições acima. A influência do livro pode ser medida não apenas por minhas conversas com os amigos russos da Ospa, mas no reflexo da obra na cultura mundial. O livro Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, tem clara e confessa influência de Bulgákov; a letra da canção Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, foi escrita logo após Mick Jagger ter lido o livro, assim como Pilate, do Pearl Jam, e Love and Destroy da Franz Ferdinand, a qual é baseada no voo de Margarida sobre Moscou. Mas nem só a literatura e o rock, que não viveu para ouvir, homenageia Bulgákov: o compositor alemão York Höller compôs a ópera Der Meister und Margarita, que foi apresentada em 1989 na ópera de Paris e lançada em CD em 2000.
Em vida, tudo que o ucraniano Bulgákov (1891-1940) desejava era sair de Moscou e da União Soviética. Escreveu mais de uma centena de cartas a Stálin, justificando-se e pedindo permissão para deixar o país. Afinal, se tudo o que escrevia era proibido, era um inútil para a URSS. Tanto escreveu cartas que acabou recebendo um telefonema do próprio Stálin: este lhe oferecia um emprego num teatro, para o qual deveria escrever pecinhas tranquilas com seu indiscutível talento — e Stálin sabia reconhecer quem o tinha — e referendava o “desejo” de não ver o escritor fora do país. E Bulgákov sobreviveu escrevendo umas poucas peças de sucesso para o teatro, além de adaptar para o palco Dom Quixote e Almas Mortas.
Bulgákov brincando de Koroviev: censura e cartas a Stálin
Ele começou a escrever o romance em 1928. Em 1930, o primeiro manuscrito foi queimado pelo autor após ver censurada outra novela de sua autoria. O trabalho foi recomeçado em 1931 e finalizado em 1936. Sem perspectiva alguma de publicação, Bulgákov dedicou-se a revisar e revisar. Veio uma nova versão em 1937 e ainda outra em 1940, ano de sua morte. Na época, só sua mulher e amigos sabiam da existência do romance.
Uma versão modificada e com cortes da censura foi publicada na revista Moscou entre 1966 e 1967, enquanto o Samizdat publicava a versão integral. Em livro, a URSS só pôde ler a versão integral em 1973 e, em 1989, a pesquisadora Lidiya Yanovskaya fez uma nova versão — a que lemos atualmente — baseada em manuscritos do autor. A vida era assim na URSS.
O livro é digno da história contada por minha amiga bielo-russa Elena Romanov (aqui em uma versão livre e talvez equivocada de minha lavra…):
— Eu tinha uma colega de quarto que lia apenas O Mestre e Margarida. Ela terminava e voltava ao início. E dava gargalhadas e mais gargalhadas. Na Rússia o livro foi tão lido que surgiram expressões coloquiais inspiradas por ele. A frase dita por Woland “Manuscritos não ardem” é usada quando uma coisa não pode ou não será destruída. Outra é “Ánnuchka já derramou o óleo”, para dizer que o cenário da tragédia está montado.
O jovem Bulgákov e um daqueles escritores russos
As cenas de Pôncio Pilatos, do teatro, do belíssimo voo de Margarida e do baile eram conhecidas de mim por serem citadas aqui e ali com enorme admiração. E a fama é justa. Digo tudo isto porque é triste ver O Mestre e Margarida, obra muito popular em vários países, ignorada no Brasil.
Em 2006, o Museu Bulgákov, em Moscou, foi vandalizado por fundamentalistas. O museu fica no antigo apartamento de Bulgákov, ricamente descrito no romance e local dos mais diabólicos absurdos. Os fundamentalistas alegavam que O Mestre e Margarida era um romance satanista.
Bulgákov e esposa em 1937. Ele tinha uma Margarida que era pura poesia.
A ação do romance ocorre em duas frentes: a da chegada do diabo a Moscou e a da história de Pôncio Pilatos e Jesus, com destaque para o primeiro. O estilo do romance varia. Os capítulos que se passam em Moscou têm ritmo vivo e tom de farsa, enquanto os capítulos de Jerusalém estão escritos em forma clássica e naturalista. Em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Koroviev — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno Azazello e a bruxa Hella, sempre nua. Moscou surge como um caos: é uma cidade atolada em denúncias e na burocracia, as pessoas simplesmente somem e há comitês para tudo. No livro, o principal comitê é uma certa Massolit (abreviatura para sociedade moscovita de literatura, que também pode ser interpretada como literatura para as massas) onde escritores lutam por apartamentos e férias melhores. Há também toda uma incrível burocracia, tão incompreensível quanto as descritas por Kafka, mas que aqui vive uma atordoante e espetacular série de cenas hilariantes.
Homenagem do Google aos 120 anos de nascimento de Bulgákov em 2011
Como veem, em Moscou o diabo está casa e podem deixar tudo com ele, pois Woland e sua trupe demonstram toda a sua incrível criatividade para atrapalhar, alterar, sumir e assombrar. O escritor Bulgákov responde à altura das cenas criadas. A cena do teatro onde é distribuído dinheiro e a do baile — há ecos dos bailes dos romances de Tolstói — são simplesmente inesquecíveis. Falei em Tolstói, mas, fora de dúvida, a base de criação de Bulgákov é seu conterrâneo Gógol.
O livro pode ser lido como uma comédia de humor negro, como alegoria místico-religiosa, como sátira á Rússia soviética ou como crítica da superficialidade das pessoas. Bulgákov não é tolo: não há nostalgia da Rússia czarista. E mais: Woland não está em oposição direta a deus, mas como o ser que pune os maus e a covardia — é frequente no livro a menção de que a covardia é a pior das fraquezas (concordo muito). Porém, as punições de Woland são desconcertantes.
Agora é só ler, né? A tradução de Zoia Prestes, para a Alfaguara, é bastante superior à antiga, lançada lá por volta de 1993 pela Ars Poetica.
Finalmente tranquilo: Mikhaíl Afanasyevich Bulgákov em Kiev