Notícias do Estado Laico do Brasil: a Câmara Municipal de Porto Alegre realizará, nesta sexta-feira (13/11), sessão solene em homenagem ao transcurso dos 20 anos da União dos Militares Evangélicos do Rio Grande do Sul (Umergs). A proposta é de autoria do vereador Waldir Canal (PRB) e foi aprovada em fevereiro passado. A atividade acontecerá no Plenário Otávio Rocha do Palácio Aloísio Filho, sede da Câmara, e terá início às 19 horas.
A Umergs é uma associação civil, de direito privado, sem fins lucrativos e econômicos, com origem no município de Novo Hamburgo. É composta por oficiais e praças da ativa, da reserva ou reformados das Forças Armadas, das polícias militar, civil e federal, e por servidores da Superintendência dos Serviços Penitenciários e da Guarda Municipal.
Criada em 15 de julho de 1995, a entidade teve como primeiro presidente o soldado policial militar Ezequiel Borges Vieira, que a dirigiu até 2004. Hoje a organização está sob o comando de Salomão Pereira Fortes. De acordo com o vereador proponente, a Umergs possui registro de entidade civil com habilitação ao recebimento de auxílio do Estado, sendo sua principal finalidade a assistência social.
A pesquisa mostrou que o catolicismo é a crença com mais adeptos (34,3%). Se forem somados os resultados de ateísmo (19,3%), agnosticismo (6,2%) e fé sem religião (6,7%), totalizam 32,14%, ou seja, quase 1/3 dos representantes. No Nordeste, há mais católicos; no Norte, mais evangélicos; e no Sul e Sudeste os ateus estão mais presentes do que em outras regiões do país.
O Núcleo de Tendências e Pesquisa do Espaço Experiência da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS realizou a 3ª edição do Projeto 18/34, que investigou as ideias e aspirações da Geração Y sobre conceito de família. Conforme o estudo, o jovem possui uma visão mais prática e pragmática sobre as funcionalidades da família, servindo como forma de facilitar a logística da vida. Ainda que tenha tendência mais tolerante com as diferenças, aspira estruturar uma família tradicional, mas menor que a dos seus ascendentes, podendo gerar, no futuro, uma geração de pais mais velhos com poucos filhos. Essas são algumas das conclusões do projeto, que ouviu 1.500 jovens de todo o país entre 18 e 34 anos, proporcionalmente divididos por regiões.
A matéria completa sobre o Projeto pode ser lida aqui, e o relatório sintético do material produzido pelo Núcleo está disponível no link.
Nem tudo que parece doping é doping. Por exemplo, lembram do caso Anderson, aquele alemão, ex-volante do Inter, ocorrido lá em 1998? Pegaram-no no antidoping, mas ele acabou absolvido porque ficou provado que a morfina detectada em sua urina era resultado de um pão com sementes de papoula que ele havia comido. Da papoula extrai-se o ópio, que origina a morfina. Os médicos do Inter deram o mesmo pão para alunos de Medicina e todos deram positivo em exame antidoping. Isso livrou a cara de Anderson.
Bem, agora, dois jogadores do Inter, Nílton e Wellington Martins, foram acusados de terem jogado dopados e estão suspensos preventivamente por 30 dias. Pegaram Nilton contra o Corinthians, pelo Brasileirão, e contra o Palmeiras, pela Copa do Brasil, nos dias 16 e 30 de setembro. E Wellington contra o Palmeiras, dia 23, pela Copa do Brasil. Os dois teriam usado um diurético (hidroclorotiazida) que mascara substâncias proibidas.
Nilton devia tomar diuréticos como um louco. Afinal, foi flagrado em dois testes separados por duas semanas. O mais provável é que estivesse se tratando fora do controle dos médicos, porque eles sabem quais substâncias estão na lista do doping e jamais desejariam ver seus nomes envolvidos em confusão. O Inter pediu que fosse verificada a contraprova, o que já foi realizado em laboratório especializado de uma universidade de Los Angeles. Mesmo resultado. O clube trata de elaborar a defesa de seus jogadores para evitar uma longa suspensão. Não há risco de perda de pontos pelo time.
Sábado, Nilton devia já saber da merda que fizera. Ele fez uma partida miserável contra a Ponte Preta. Não creio que os tribunais considerem isso, mas, coincidência ou não, setembro foi um grande mês para o volante colorado. Foi o mês em que ele conseguiu um lugar no time. Não estou dizendo que ele tomou algum estimulante, ainda mais que se sabe que se usa diuréticos simplesmente para perder peso. Tal fato, somado com a parca condição física do grupo, talvez recoloque os médicos do clube na jogada. Espero sinceramente que não. Mas tudo isso são impressões de quem está longe.
Deste modo, o eficiente Nilton, titular de Argel, está fora do Brasileirão. E Wellington, reserva, não joga mais pelo clube, porque tem rendimento deficiente e seu empréstimo vai só até o fim do ano. Que volte para o São Paulo, de onde nunca deveria ter saído!
Espero que Argel finalmente utilize o bom Bertotto. No ano passado, o cara fez boas partidas com Abel Braga, mas Aguirre e Argel esqueceram dele na reserva. Imaginem que ele foi cotado atrás até do morto do Nico Freitas…
Fahrenheit 451 (1953) é um livro mais famoso do que bom. O filme de Truffaut, realizado em 1966, ergueu demais uma obra apenas média. E olha, acordei indulgente hoje. Sei que Bradbury finalizou o romance apenas oito anos depois da Segunda Guerra Mundial, vinte anos depois que começaram os incêndios de livros na Alemanha Nazista e no ano da morte de Stalin, quando várias ditaduras floresciam pelo mundo com o aval dos EUA e da URSS. Também havia censura em quase todos os países do mundo, principalmente nos EUA, com o macartismo perseguindo todo e qualquer desvio, desrespeitando os direitos civis. Só que qualquer romance, quando publicado, deve prescindir ou acrescentar coisas a seu contexto, não deve se apoiar no mesmo. O romance pode ser quente, mas é sem sal. Em seu filme, Truffaut melhorou bastante a história do filme, colocando em seu roteiro vários temperos de criatividade. Já o romance de Bradbury é forçado.
Guy Montag é um bombeiro cujo trabalho é o de queimar quaisquer livros, assim como as casas que os abrigam. Adicionalmente, persegue e mata as pessoas que os detêm. Uma noite, voltando de seu trabalho, ele encontra sua nova vizinha, Clarisse McClellan, cujo espírito questionador o estimula a reconsiderar seu próprio estilo de vida, seus ideais e sua noção de felicidade. As conversas pré-hippies que eles têm não mudariam a vida de ninguém, mas Montag enlouquece. Muito mais chocante é o problema de saúde de sua esposa e o suicídio de uma mulher que se auto-incinera com seus livros em meio a uma ação dos bombeiros. O curioso é que, no mesmo dia do suicídio desta mulher, Montag remexe os livros de sua pequena biblioteca domiciliar… De onde saíram aqueles livros? Como é que não sabíamos disso? São pré ou pós Clarisse? E o chefe dos bombeiros, Beatty? Por que ele faz citações literárias pelos cotovelos a fim de demonstrar a inutilidade dos livros? Deve ler muito para ser tão culto.
Depois, quando Montag foge para um dos acampamentos de homens-livros, acontece a inacreditável guerra nuclear seletiva de Bradbury, que parece só destruir aquela sociedade efetivamente terrível. Os homens-livro veem a bomba e não se preocupam com a radiação. Tal tom otimista — o da aniquilação daquela sociedade — é assassinado pela inverossimilhança da coisa. Nem Spielberg ousaria cometer um final daqueles.
O final de Truffaut é muito mais poético. É, na verdade, lindo. Pô, Bradbury, que livrinho ruim.
Que sorte tem esse teu técnico incompetente, hein, Vitorio Piffero? Tu demitiste Aguirre pela preparação física e contrataste Argel. Agora é o momento de rezar para que sigamos ganhando, esperar que o ano acabe para manter o novo preparador físico e demitir Argel. Prezado presidente, a atuação de sábado foi tão ruim que, pela primeira vez, nosso técnico deixou de negar a realidade e disse: temos que jogar mais.
Também foi a primeira vez que vi nosso novo estádio classe média vaiando o time com alguma vontade. Tanto que, no intervalo, só Allison deu entrevistas. Estavam todos irritados consigo mesmos, com a torcida e com a malvada Ponte, que empilhava chances perdidas. Como jogamos mal! Que sufoco tomamos!
Não vou reescrever sobre os erros do time. São sempre os mesmos. Vou apenas pedir que o Sobrenatural de Almeida siga abençoando nossas deficiências.
Eu acabo de dizer para o Latuff que estava revisando umas merdas que tinha abandonado faz tempo — contos, novelas e até um romance –, completei dizendo que estava até gostando de lê-los neste tempo de tanta coisa ruim sendo publicada e então recebi o que segue…
Estou lendo Fahrenheit 451 pela primeira vez. Como encontrei muitos pontos de contato entre este livro de Ray Bradbury e 1984, de George Orwell, fui dar uma pesquisada por aí. O texto abaixo é uma compilação bem simples do que encontrei em vários sites.
1984 foi publicado em 1948, Fahrenheit 451 em 1953. Os dois romances são obras de ficção distópica e ambos os personagens principais, no início, levam uma vida sem graça, sem sentido. Porém, um dia, uma mulher aparece e eles acabam por se rebelar contra as sociedades em que vivem.
Do ponto de vista individual, o personagem Guy Montag (de Fahrenheit 451) acaba vencendo sua guerra. Vi o filme e sei que ele conseguirá se livrar do controle governamental e encontrar a paz numa comunidade de pessoas afins. Já Winston Smith (de 1984) perde, sendo submetido a uma lavagem cerebral.
Em ambos os romances, há a ideia de uma sociedade cruel, onde (em Fahrenheit 451) as crianças atacam as pessoas e dão tiros umas nas outras para se divertirem. Já em 1984, há cenas como as de “um navio cheio de refugiados sendo bombardeado” que são utilizadas para diversão.
Os dois livros envolvem guerras como pano de fundo, mas de naturezas diferentes. A guerra de Orwell serve claramente ao governo como um instrumento para a perpetuação da escassez e da paranoia, enquanto que a de Bradbury visa a aniquilação total do inimigo.
O governo em 1984 depende muito de lavagem cerebral e de políticas que envolvam vigilância em massa por parte de espiões semelhantes aos da Juventude Hitlerista. Em suma, o partido parece se preocupar mais com os pensamentos, do que com os atos. “Você é um traidor”, acusam. O governo de Bradbury mantém o controle sobre todos aqueles que se desviam da maioria, mas não se importa muito com as ideias de rebelião. O professor Faber é um inimigo que não age, então OK. Há uma tentativa de idiotizar todo mundo através da televisão. Em vez das torturas presentes nas lavagens cerebrais de Orwell, o governo de Bradbury gosta de queimar as pessoas que se desviam, assim como os livros, considerados altamente perniciosos.
As atmosferas: 1984 também pode ser considerado um romance satírico, enquanto Fahrenheit 451 jamais.
O cenário de ambos é o de uma pós-guerra nuclear. Um diz “Quando a bomba atômica foi lançada sobre Coventry”, e outro “Nós começamos e ganhamos duas guerras atômicas desde 2022”. Os efeitos de tais guerras são muito diferentes. Nos EUA de Fahrenheit 451, o país saiu de duas guerras e vai para uma outra. Algumas de suas cidades “parecem com pilhas de fermento em pó”. Porém, em 1984, o conflito nuclear fez cessar qualquer uso de armas atômicas e assegurou a permanência de ditaduras estáveis. No universo de Orwell há enormes “fortalezas flutuantes” para defender áreas estratégicas (“a nova fortaleza flutuante ancorada entre a Islândia e as Ilhas Faroe” ) e projetos incríveis de produção de terremotos artificiais.
Em 1984 não há nada que esteja fora da visão do governo. Ele tudo vê e tudo sabe. Já em Fahrenheit 451 há uma nova revolução silenciosa acontecendo fora da visão do governo. Aliás, o governo permanece em grande parte um mistério em Fahrenheit 451, mas, em 1984, sua estrutura é bem explicada. Na verdade, o funcionamento interno dos governo sob o qual Smith vive é a chave para o enredo do livro.
Os dois livros têm muitíssimas semelhanças, mas, curiosamente, estas não persistem após um exame mais minucioso de detalhes. Dentre os clássicos, temos também Admirável Mundo Novo, claro, mas este está realmente perdido em minha memória. Já A Guerra das Salamandras… Bem, aí entramos no campo das obras-primas e há que ter mais respeito.
Um macaco passeava à beira de um rio quando viu um peixe dentro d`água. Como não conhecia aquele animal, pensou que estava a afogar-se. Conseguiu apanhá-lo e ficou muito contente quando o viu aos pulos, preso nos seus dedos, achando que aqueles saltos eram sinais de uma grande alegria por ter sido salvo. Pouco depois, quando o peixe parou de se mexer e o macaco percebeu que estava morto, comentou — que pena eu não ter chegado mais cedo!
(De Mia Couto, um escritor moçambicano de você ainda lerá, se ainda não o fez.)
Kawabata é um escritor suave, sem pressa. Seus romances se aproximam bastante da poesia e as interjeições não lhe caem bem. Pouca literatura vem com menor aparato de brilho e as histórias são montadas através de delicadas pinceladas que vão acrescentando informações a um mosaico cujas lacunas podem ser preenchidas pelo leitor. Kyoto, romance de 1962 de Yasunari Kawabata (1899-1972), escrito logo depois de A Casa das Belas Adormecidas, conta a história de Chieko, uma jovem que observa a ocidentalização e a mudança de costumes do Japão do pós-guerra. Ela assiste a lenta falência da loja de sua família e de outros estabelecimentos comerciais da antiga capital japonesa que vendem peças do vestuário tradicional do país. Mas o romance não tem apenas fundo econômico. Abandonada quando bebê, Chieko é uma filha adotiva que, num passeio pelo interior, na aldeia de Kitayama, encontra acidentalmente sua irmã gêmea Naeko, desde a infância criada em ambiente muito diverso do seu. Enquanto Chieko teve uma formação tradicional, Naeko é mais madura em razão da simplicidade da vida e do trabalho no campo. As duas irmãs tentam uma aproximação.
Como de costume, evitarei contar o final, mas o contraste entre as irmãs gêmeas — a tradicional e a trabalhadora — provavelmente simboliza o conflito entre a cultura tradicional e a modernização do Japão na época do pós-guerra. Kawabata joga poesia sobre a desfiguração irreparável da antiga capital do Império do Sol Nascente em um romance sóbrio.
Muito bom, mas, para quem não conhece o autor, acho melhor ler antes A Casa das Belas Adormecidas.
Nas últimas partidas do Inter, principalmente nestas duas vitórias contra Flamengo e Goiás, tinha feito referências amargas à ruindade, à falta de sentido coletivo e à feiura do futebol do time de Argel. Então, a derrota de ontem para um dos últimos colocados no Brasileiro não chegou a me surpreender. Ontem, tive vontade de rir de nossa zaga, a qual mais parecia um bordel. Paulão e Réver deslocaram Ernando para a lateral, deixaram Juan do banco, e não deram chances a Eduardo, Moledo e Alan Costa. Não sei se os cinco reservas de Paulão e Réver teriam melhores resultados, afinal, ninguém joga bem em nossa desorganizada equipe, mas mantê-los como se fossem indiscutíveis é uma piada.
O mesmo vale para Alex. Após sua desejada renovação de contrato, Alex sucumbiu e hoje nada o justifica. Mas, sabe Piffero?, o que me preocupa é que nem adianta substituir e contratar tendo um comandante como Argel. Ele simplesmente mostra-se incapaz de dar-nos algum padrão e consistência. Ele é treinador com aspirações, declarações e posturas de time médio. Ele que vá fazer sucesso em Santa Catarina — com o devido respeito aos briosos times daquele estado, que tanto complicam nossa vida.
Por que o contrataste até o final de 2016? Bem, problema teu e de nosso setor financeiro. Ele era uma aposta e sabemos que a maioria das apostas são perdidas para a banca. Perdeste, perdemos. Todas aposta leva uma carga de otimismo. Não deu. Acho pura perda de tempo seguir com ele no ano que vem, melhor não insistir no erro. Nosso futebol está em fase de degradação e decomposição e não deveria estar assim, já que Argel está lá faz 19 jogos. Que ele leve o time se arrastando até o final de 2015 e seja feliz recebendo sem trabalhar — ou assumindo outro time — em 2016.
Chega. Sobre o novo treinador… Bem, procure! Mesmo sem a Libertadores, haverá muitas e importantes disputas em 2016.
Arnaldo Campos, livreiro, infelizmente já falecido, um exemplo de profissional e pessoa, me contou essa história há muito há tempo:
Primeiro dia da Feira do Livro, a sineta já bateu as barracas correm contra o tempo para se organizar. Chega um senhor de aproximadamente 80 anos, fica olhando as pilhas, estende a mão e pega o Ulisses de James Joyce. Se afasta um pouco e começa a ler em frente da barraca, por aproximadamente uma hora.
No dia seguinte a situação se repete, o senhor chega no horário de abertura, pega o livro, se afasta e começa a ler em pé por uma hora.
No terceiro dia a coisa de repete, porém dessa vez o livreiro resolve intervir, oferece um banco para ele ficar mais confortável, o senhor agradece, vai embora e nunca mais retorna.
Não se sabe se o senhor ficou ofendido ou constrangido.
Eu:
Me aconteceu na Livraria Bamboletras há uma década. Todo dia, antes do cinema, eu pegava o Esculpir o Tempo, do Tarkovsky. Um dia comecei a procurar, procurar e nada. Então, a Lu Vilella me disse: “Vendi, mas vou repor”. Fiquei constrangidíssimo. Na vez seguinte, comprei o livro, claro.
Lu Vilella:
Tolinho. Podia ter terminado a leitura… Na livraria, claro.
Acho um saco a Feira do Livro. Por ser aberta e no início de novembro, costuma estar quentíssima. É uma festa de editores com dinheiro público. A falta de variedade de ofertas é incrível — chega a ser nauseante –, pois os editores preocupam-se com seus lançamentos, encalhes e olhe lá. As livrarias só se ralam, à exceção, talvez, dos sebos. Mil vezes o ambiente das pequenas e acolhedoras livrarias como a Bamboletras, Palavraria e os sebos. O sebo Ladeira Livros estará lá, na barraca de posição quase sexual 68.
Faxineira achou que obra de arte era sujeira deixada por festa e caprichou na limpeza…
Uma obra de arte teve de ser restaurada após ser confundida com sujeira e removida por uma faxineira em Bolzano, no extremo norte da Itália.
Ela achou que o trabalho, chamado Onde vamos dançar esta noite?, se tratava de uma bagunça deixada por uma festa realizada no local na noite anterior. A faxineira “limpou” o local no último sábado e jogou todo o material fora.
A obra, exibida no Museu de Arte Contemporânea de Bolzano, é composta por bitucas de cigarro, garrafas vazias e confetes.
O espaço ficou limpo após a faxina do último sábadoA obra, já reinstalada, representa o hedonismo e a corrupção dos anos 1980
Também conhecido como Museion Bozen-Bolzano, o espaço refez a instalação após obter o aval do duo Goldschmied and Chiari, artistas de Milão responsáveis pela obra.
Segundo seus idealizadores, a obra tem o objetivo de representar o hedonismo e a corrupção política vividos na década de 1980.
De forma bem humorada, o museu disse que “teve má sorte com a nova faxineira” e pediu desculpas aos visitantes pelo incidente. A exibição foi reaberta na terça-feira.
Segundo a empresa responsável pelo serviço de limpeza do local, a faxineira confundiu as peças com lixo. E que ela “apenas tentava fazer seu trabalho”.
A morte de Tchékhov no balneário de Badenweiler é uma das mais recontadas da historia da literatura. Parece haver enorme sedução na cena do escritor moribundo, com sua mulher, seu médico, o estudante que chegou para ajudar e a garrafa de champanhe. Quem pediu a bebida? O médico ou Tchékhov? A sedução é tanta que o grande Raymond Carver escreveu um conto, Três rosas amarelas, no qual narra a cena, só que cheia de detalhes inventados. Talvez isso tenha nascido da narrativa de Olga Knipper, atriz e mulher do escritor. Em seu relato, a cena é contada com tanto, mas tanto romantismo que não parece verdadeira. O russo era um escritor que se caracterizava pela falta de artifício e de idealização dos personagens, pilares de um modelo de escrita totalmente ignorados por Olga em seu texto.
Não é estranha a admiração de Carver pelo russo. Basta ler ambos. Indiscutivelmente, o país onde mais profundamente influenciado pela prosa direta de Tchékhov foi os Estados Unidos, onde a afetação não desfruta de muito prestígio. Suas histórias da Rússia Czarista parecem as de um sujeito nascido para a pobreza, mas Tchékhov, neto de um escravo que comprou sua liberdade, acabou homem rico. Foi filho de um dono de armazém, terceiro de seis filhos, chefe de família — cuidava dos irmãos com especial cuidado –, estudou medicina, exerceu-a, parou de praticá-la para apenas escrever, apesar de nunca ter se sentido parte do mundo literário.
Tchékhov, segundo Tolstói, que não é exatamente uma besta para descrever pessoas, seria um homem “doce como uma mulher” e é crível que tenha dito em seu leito de morte que “fazia muito tempo tempo que não bebia champanhe” e mais crível ainda é que o médico o tenha servido, pois sabia da morte inevitável pela tuberculose. Estávamos em 1904. O detalhe do último suspiro e do voo da rolha… Mas voltemos a Tchékhov.
Os personagens de Tchékhov são cheios de boas intenções sobrecarregadas de estupidez, inatividade e finalidade. Ele é moderno em sua concisão, pouca adjetivação e principalmente na recusa em explicar o mundo. Confrontado com as idéias de Tolstoi — o qual em seus textos parece ter resolvido todos os impasses da humanidade — , Tchékhov era um apresentador de realidades complexas e insolúveis que habitam uma dentro da outra. Também defendia, uma novidade na época, os efeitos benéficos da ciência e do progresso.
Por que amamos tanto Tchékhov? Por que as pessoas fazem cara de “coisa fofinha” quando falam nele? Isso ocorre porque ele é o fundador do escritor moderno que não julga os personagens, deixando-os falar sua própria língua? Mas isso não comportaria uma certa dureza narrativa? E o que transparece da doçura de Tchékhov em seus textos? A pensar.
Cansei de ver músicos e palestrantes saírem do palco com a impressão de que fizeram bom papel e, bem, não foi nada daquilo. Como espectador, às vezes fico com um sorriso amarelo ao ver o sem noção da coisa. Então, de forma profilática, desconfio de meu exame sobre nossa participação noFeira Além da Feira de ontem à noite na Palavraria. Mas arrisco dizer que foi bem boa. Muito boa.
Em primeiro lugar porque o ambiente foi de completa cordialidade e interesse pelo assunto. Nunca abandonamos o tema da crítica. Muito qualificado, o público poderia ter-nos fatiado e servido em bandejas, mas nos ouviu e perguntou mansamente. O carrossel que fazia o microfone passar de mão em mão funcionou bem. A Alexandra Lopes da Cunha disse que nunca tinha mediado debates, mas vá acreditar nisso. Não apenas provocou e deu espaço e oportunidades a que todos falassem, como deu seus pitacos e pode declarar seu amor a George Orwell. O debate funcionou também pelo fato dos três entrevistados terem perfis bastante diferentes. Aprendi com as meninas. Eu cheguei com meu perfil clássico antiquado, a Camila von Holdefer super atualizada e profunda conhecedora da produção literária atual — devemos ler seu blog de cabo a rabo para saber o que está acontecendo — e a Laila Ribeiro com seu enorme conhecimento da literatura de entretenimento, algo que me surpreendia a cada fala sua.
Os bons eventos de literatura são assim mesmo, com pessoas interessadas e alta participação. O tema era “O Espaço da Crítica Literária”, essa coisa quase inexistente. Engraçado como todos nós lemos literatura brasileira, mas temos certo receio de escrever a respeito. Nossos autores costumam se ofender. Eu parti deste texto, mas sem o mimimi que me fez incluir gatinhos ornamentais, e fui até o ponto de responder uma pergunta citando os autores que mais admirava vindo do Japão, passando pela Europa Oriental, Ocidental, América do Norte, do Sul e Brasil. Ou seja, a conversa teve momentos delirantes. Foram duas horas de divertidos momentos de amor à literatura. Às 21h, a livraria tinha que fechar…
O que posso dizer? Certamente que fiquei muito feliz com esta minha segunda participação na Feira além da Feira. cuja programação completa encontra-se aqui.
As fotos abaixo são de Alexandre Alaniz. Foram publicadas 44 imagens ao todo. Meu profundo, incondicional e esperado narcisismo ditou a seleção abaixo. As legendas são realistas, pero no mucho. E, gente, agora vou para uma reunião de condomínio. Sim, será bem pior.
Jéferson Tenório fala à plateia, Alexandra sorri confiante e eu pressinto a tragédia.Eu começo a desfiar absurdos. A Alexandra me olha com cara de “What the fuck?”.Eu continuo, agora sob o olhar irônico da Camila.Nada me detém.Sérgio Karam fica abismado com o que digo.A Alexandra até parece estar se divertindo.Mas recua após uma ameaça minha.Nelson Rego chega para animar a festa.Mas o show é só meu. Sintam só o tédio da Camila e da Laila enquanto eu falo no samba exaltação. A Alexandra se afasta para deixar meu braço passar.Gustavo Melo Czekster me desafia a dizer seu sobrenome. Priscila Pasko antevê meu fracasso. Nelson Rego está super-interessado.Minha algaravia desconhece limites. Presa entre as cadeiras, Camila pensa em como voltar logo para Novo Hamburgo.Sem assunto, começo a cantar. Alexandra mantém as aparências.
No início de 2015, o Grêmio roubou uma marca indesejável que era do Inter. O tricolor passou a ostentar o indesejável título de Campeão de Jejum da história do futebol do Rio Grande do Sul desde a primeira conquista nacional, em 1975. Leia abaixo.
Até 1975, a dupla Gre-Nal valorizava muito mais a disputa regional do que os títulos brasileiros ou mesmo continentais. O Gauchão era motivo de orgulho de parte a parte, com disputas, brigas e discussões intermináveis que rompiam o campo de jogo. Não mudou muito no que diz respeito a dualidade entre azuis e vermelhos, o que foi alterado a partir de 1975 foi a importância dada às conquistas.
O Internacional abriu caminho com a conquista do Brasileirão daquele ano. Em seguida, ganhou de novo em 1976 e foi tricampeão em 1979. Até conhecer o primeiro grande jejum de conquistas relevantes. Depois daquela taça, a próxima viria apenas em 1992, com a Copa do Brasil. Foram 13 anos de espera, precisamente 4.739 dias entre 23 de dezembro de 1979, final daquele Brasileiro, e 13 de dezembro de 1992, final da Copa do Brasil.
Mas com o gol de Célio Silva, o Internacional superou o Fluminense e quebrou a marca. Até então, maior período sem conquistas de clubes gaúchos. Mal sabia o Inter que um jejum ainda maior estava à caminho. Entre 1992 e a conquista da Libertadores de 2006 foram 14 anos. Exatamente 4.994 dias até o 16 de agosto quando o time de Fernandão e companhia derrotou o São Paulo no Beira-Rio consolidando a primeira conquista continental do clube.
Os anos que seguiram deram ao Inter o apelido de ‘campeão de tudo’. Veio o Mundial em 2006 a Recopa em 2007, a Sul-Americana em 2008, o bicampeonato da Libertadores em 2010 e o bi da Recopa em 2011. Depois, as conquistas fora do âmbito estadual pararam até os dias de hoje.
Mas a marca negativa entre 1992 e 2006 está prestes a ser rompida. O Grêmio jamais teve jejum sequer próximo dos do Inter, mas quando resolveu parar de conquistar, o fez em larga escala.
O primeiro título nacional gremista ocorreu em 1981. Depois a Libertadores e o Mundial de 1983, a primeira edição da Copa do Brasil em 1989, novamente a Copa em 1994, a Libertadores de 1995, a Recopa de 1996, o tricampeonato da Copa do Brasil em 1997, e no dia 17 de junho de 2001, ao fazer 3 a 1 no Corinthians em São Paulo os comandados de Tite levantaram a Copa do Brasil daquele ano, o último título relevante gremista fora do Estado.
No período que seguiu, apenas a Série B de 2005 foi erguida fora do Rio Grande do Sul. E mesmo com a epopeia conhecida como ‘Batalha dos Aflitos’, o título que recolocou o Tricolor na primeira divisão é pequeno para um clube de tamanha grandeza.
E com isso, o Grêmio chega, na data de hoje, 27 de outubro de 2015, a precisos 5.247 dias sem conquistas. Está mais do que batido o recorde do maior jejum do futebol gaúcho em conquistas relevantes desde o primeiro título nacional.
Cabe ao Grêmio interromper a série negativa a fim de não ampliar o recorde negativo. E torcer para o Internacional ficar novamente um longo período sem levantar taças importantes, para que a marca deixe de pesar no histórico do clube. Lembremos que, se o jejum do Grêmio vem desde 2001, o Inter também não ganha nada de importante desde 2011, quando ganhou a Recopa Sul-Americana.
Imagem do Lovejoy ou C/2014 Foto: WIKIMEDIA/JOHN VERMETTE)
O cometa de longo período C/2014 Q2, ou Lovejoy, como é conhecido, libera álcool etílico e açúcar, afirmam cientistas em estudo divulgado na última sexta-feira (23) na publicação científica Science Advances.
“Nós descobrimos que o cometa estava soltando uma quantidade de álcool relativa a de 500 garrafas de vinho por segundo durante sua atividade de pico”, disse Nicolas Biver, condutor da pesquisa e cientista do Observatório de Paris, na França. Entre as substâncias liberadas pelo cometa, foi encontrado um açúcar simples chamado gliceraldeído e outras 19 moléculas orgânicas.
Essas informações fazem com que os cientistas cheguem mais perto de confirmar a teoria de que os cometas fizeram parte dos ingredientes necessários para a origem de vida na Terra.
O Lovejoy foi descoberto em agosto de 2014 e fez sua passagem mais próxima do Sol no dia 30 de janeiro de 2015. O calor intenso causado por esse encontro fez com que o cometa liberasse várias nuvens de gás nos arredores, enquanto soltava cerca de 18 toneladas de moléculas de água por segundo.
Nicolas Biver e sua equipe descobriram a composição desse gás usando observações feitas pelo rádiotelescópio do Observatório Pico Veleta, na Espanha. Os cientistas perceberam que a forma como a luz solar interagia com as moléculas na atmosfera do cometa fez com que elas brilhem em frequências específicas. A partir dessas informações foi possível identificar as moléculas.
Os cometas são ótimas fontes para descobrir quais foram os materiais que serviram de base durante o surgimento da Terra. Estima-se que quando as nuvens de gás são produzidas por estrelas que explodem, ou supernovas, elas se misturam com ventos de gigantes vermelhas, comprimindo a si mesmas em uma nuvem concentrada de material estelar que desmorona abaixo de sua própria gravidade para formar novas estrelas e planetas.
Esses gases formadores coletam grãos de poeiras, nos quais dióxido de carbono, vapor de água, e outros gases se acumulam e congelam, antes que a radiação os converta em diferentes tipo de moléculas orgânicas. Os grãos se tornam então parte do interior de cometas e asteroides.
Existem diversas hipóteses de que vários cometas carregados com moléculas orgânicas impactaram a Terra logo após ela ter nascido, se espalhando pela superfície. As últimas observações do cometa Lovejoy dão um novo peso a essa ideia. “O resultado definitivamente reforça a ideia de que cometas carregam consigo uma química bem complexa“, disse Stefanie Millam, do Centro de Voo Espacial Goddard, da NASA, nos Estados Unidos.
O próximo passo para os cientistas será descobrir se o álcool, o açúcar e as outras moléculas orgânicas encontradas no cometa Lovejoy surgiram pela nuvem primordial formada pelo Sistema Solar, ou se elas foram colhidas de outras fontes.
“Agradeço a todos os que participaram de nossas discussões sobre a escrita de ficção hoje. Eu quero deixá-los com um pensamento: acho que, em nome do politicamente correto, estamos diante de uma nova era de censura. Existem forças em ação no mundo do livro que querem controlar a escrita de ficção em termos de quem “tem o direito” para escrever sobre o quê. Alguns até defendem a censura de obras mais antigas que se utilizam de palavras que agora consideram totalmente inaceitáveis. Alguns são críticos dos romances envolvendo estupro. Alguns argumentam que os romancistas brancos não têm o direito de escrever sobre pessoas de cor e que os cristãos não devem escrever romances que envolvam ateus ou sobre temas que envolvam judeus. Acho que tudo isso é perigoso. Temos que defender a liberdade dos escritores de ficção para escreverem o que querem escrever, não importa o quão ofensivo possa ser a alguma pessoa. Temos de defender a ficção como um lugar onde o comportamento transgressivo e quaisquer ideias possam ser exploradas. Devemos defender a liberdade nas artes. Acho que temos que estar dispostos a examinar as pessoas e os temas desprezados. É uma questão de escolha pessoal se alguém compra ou lê um livro. Ninguém pode fazer isso por você. As campanhas de internet que tentam destruir autores ou assuntos “inadequados” são perigosas para todos nós. Essa é a minha opinião. Ignore o que você achar ofensivo. Ou fale a respeito de uma forma madura. Só não se proponha a censurar ou a destruir a carreira do autor de ofensa. Vejo vocês amanhã”.
Anne Rice, trazida por Mayquel Eleuthério
Tradução de Milton Ribeiro (em cima da perna)
Gol salvador de Vitinho veio em cruzamento de D`Alessandro | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional
Argel, tu sabes por que o cachorro lambe o saco? Porque consegue. O Inter também é assim: ganha porque consegue, sem saber como. Argel, que partida ridícula fizemos contra o Joinville! Desde o jogo contra o Atlético-MG, logo depois da parada em razão das Eliminatórias para 2018, digo que estamos ainda pior do que antes. E tivemos aqueles 10 dias e mais um meio de semana para treinar. Acho que tu lês livros infantis — está chovendo, gente, é Hora do Conto! — ou organizas sessões de cinema a fim de culturalizar a turma. Tu treinas o time, Argel?Mesmo? Aquilo parece um bando. O adversário fica até nervoso tendo que se ver com tanta gente esforçada e confusa.
Organização nenhuma, criação nenhuma, passes errados, vencendo com gol improvável… E tudo isso contra um Joinville de péssimo sistema defensivo. Era jogo para entrar sem forçar e ganhar por dois ou três a zero, mas o que vimos, no final, foi um sufoco protagonizado pelo time mais fraco do campeonato e que no ano que vem é presença certa na Segunda Divisão.
Eu não sei explicar. Nem os comentaristas de rádio. Ontem, o Vinícius Sinott disse o que todos estavam vendo: “Que sorte tem o Inter!”. Pois estamos em 5º lugar, com 50 pontos, nas portas do G-4. Posição de time bom num campeonato de nível 7 x 1.
Foi isso, foi sorte. E, para piorar, Vitinho levou o terceiro cartão amarelo. Como Lisandro López está machucado, teremos Rafael Moura contra o Goiás no próximo domingo no Serra Dourada! Isso, Argel, já é pedir demais para a Nossa Senhora da Sorte. Eu quero entrar no G-4 e acredito que tens uma ligação o Sobrenatural de Almeida. Só ele explica um time que ganha sem criar situações de gol.
Peço a meus sete leitores que observem os melhores lances da partida. Olha, não houve mais do que isso. Foi mais uma vitória irritante do time do famigerado Argel Fucks.
A data de 24 de abril de 1915, o Domingo Vermelho, foi estabelecida como a de início do genocídio armênio, por ter sido o dia em que dezenas de lideranças armênias foram presas e deportadas em Istambul. Apesar da negativa quase centenária do governo turco em reconhecer o massacre, o fato está firmemente estabelecido como verdadeiro. Há evidências de um plano organizado do Império Otomano para eliminar sistematicamente os armênios. O evento serviu de “inspiração” para Hitler e os nazistas porem em prática o Holocausto judeu durante a Segunda Guerra Mundial. Em defesa do holocausto e de seu esquecimento futuro, Hitler afirmou: “Quem lembra do extermínio dos armênios?”. Cerca de 1,5 milhão de armênios foram mortos e outro tanto foi deportado.
Até hoje a Turquia rejeita o termo genocídio organizado e nega que as mortes tenham sido intencionais. Por outro lado, a França reconhece dois genocídios por lei: o dos judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, e o armênio. O texto prevê pena de prisão por um ano e multa de 45 mil euros para a negação pública de um genocídio reconhecido pela lei. Após a promulgação, em 2011, a Turquia suspendeu as visitas políticas e os acordos de cooperação militar com a França.
O Brasil não reconhece o genocídio armênio, ainda que a presidente Dilma Rousseff seja de origem búlgara. A Bulgária foi outro país que sofreu por séculos violências sob o domínio do Império Otomano. Na última segunda-feira (13), o papa Francisco defendeu a posição da Igreja de considerar genocídio os massacres de armênios há um século. A declaração irritou as autoridades turcas, que classificaram de insultuosas as palavras do pontífice e retiraram seu embaixador no Vaticano.
Três dias depois, foi a vez do Parlamento Europeu deixar furioso o governo turco. Os eurodeputados exigiram que a Turquia “reconhecesse o genocídio armênio, abrindo caminho para a verdadeira reconciliação entre os povos turco e armênio.” O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, respondeu que o apelo europeu lhe “entrou por um ouvido e saiu pelo outro”.
Os antecedentes históricos
Desde o século XV, os armênios estavam sob o domínio otomano. Quando a ideia de independência amadureceu, o império reagiu matando 20 mil armênios no episódio conhecido como o Massacre de Adana (1909), nome de uma província otomana. Foi uma série de pogroms (atos de violência em massa, premeditada ou espontânea) anti-armênios em todo o distrito, protagonizados pelas forças imperiais. Além disso, durante a Primeira Guerra Mundial, o Império Otomano recrutou soldados para a guerra. Muitas minorias étnicas eram contra o recrutamento, inclusive os armênios. Com isso, em 24 de abril de 1915, o governo turco reuniu 250 líderes da comunidade armênia, alguns foram deportados, outros, executados. Depois de privar os armênios de suas principais lideranças, começou a deportação e o massacre dos armênios.
Justificando o ato de 24 de abril de 1915 , o ministro do interior, Mehmed Talat Bey, alegou que os comitês armênios “há muito tempo perseguem autonomia administrativa e este desejo é exibido uma vez mais, em termos inequívocos, com a inclusão dos armênios russos que assumiram uma posição contra nós”. A Primeira Guerra Mundial estava acontecendo e o texto dizia que “os armênios estão em conluio com o inimigo. Eles vão lançar um levante em Istambul”.
Os métodos
No extermínio foram utilizados a incineração coletiva,
O tenente Hasan Maruf, do exército otomano, descreve como os habitantes de uma aldeia foram reunidos e depois queimados: “prisioneiros turcos que tinham presenciado algumas dessas cenas ficaram horrorizados e enlouquecidos com a lembrança desta visão. Russos afirmaram que, vários dias depois, o odor da carne humana queimada ainda impregnava o ar. As populações civis foram fechadas em igrejas e queimadas, reduzidas a cinzas” .
afogamentos,
O cônsul italiano de Trebizonda, em 1915, Giacomo Gorrini, escreveu: “Vi milhares de mulheres e crianças inocentes colocadas em barcos que foram emborcados no Mar Negro. Outros, foram jogados amarrados no Eufrates”.
agentes químicos e biológicos,
O psiquiatra Robert Jay Lifton, ao descrever os crimes dos médicos nazistas: “talvez os médicos turcos, em sua participação no genocídio contra os armênios, foram os que mais se aproximaram dos nazistas disto, como comprovarei a seguir”.
como overdose de morfina, gás tóxico e inoculação de tifo, além de enfocamentos, deportações em massa e as chamadas Marchas da Morte.
Abril de 1915: armênios escoltados por soldados turcos marchando em direção à Síria.
As Marchas da Morte
Parte da população armênia foi levada para a cidade síria de Deir ez-Zor e para o deserto ao redor. O governo otomano não forneceu quaisquer instalações ou suprimentos para sustentar os armênios durante a sua deportação, nem quando eles chegaram. Privados de seus pertences e marchando para o deserto, centenas de milhares de armênios morreram. O general Friedrich von Kressenstein observou que “A política turca de causar a fome é uma prova muito óbvia de que a Turquia está decidida a destruir os armênios”.
Um registro fotográfico especialmente chocante é o de um oficial turco mostrando um pão para crianças armênias famintas.
Oficial turco exibindo um pão, para provocar crianças armênias famintas (1915)
Acredita-se que 25 grandes campos de extermínio existiram, sob o comando do ministro Mehmed Talat. A maioria deles situavam-se perto das atuais fronteiras da Turquia, Síria e Iraque.
Um fato que torna ainda mais absurda a negação dos turcos em admitirem o genocídio é o julgamento ocorrido em janeiro de 1919. Nele, o tribunal militar fala claramente sobre o “desejo” do Comitê de União e Progresso de eliminar os armênios fisicamente, através da chamada organização especial.
“Levando em consideração os crimes acima mencionados, o tribunal marcial declara, por unanimidade, a culpabilidade, como principais autores destes crimes os fugitivos: Mehmed Talat. (…) A Corte Marcial pronuncia, a Lei a pena de morte contra Talat, Enver, Cemal e Dr. Nazim”.
Porém, em uma sessão da Assembléia Nacional, realizada em 17 de outubro de 1920, Hasan Fehmi Bey, deputado de Bursa, talvez tenha dado o pontapé inicial para a negação:
“A questão da deportação foi um evento que fez o mundo protestar e fez todos nós sermos considerados assassinos. Nós sabíamos, antes de termos feito isso, que o mundo cristão não toleraria isso e que iria dirigir sua fúria contra nós. Por que imputar o título de assassina a nossa raça? Por que entramos numa luta decisiva e tão difícil? Ora, isso foi feito apenas para garantir o futuro de nosso país que nós conhecemos como mais precioso e sagrado do que nossas vidas”.
Cerca de 1,5 milhão de armênios foram mortos durante o genocídio. Dentre eles, vários morreram assassinados por tropas turcas, em campos de concentração, queimados, enforcados e jogados amarrados ao Rio Eufrates, mas a maior parte dos armênios morreu por inanição, ou seja, falta de água e alimento. Dois milhões de armênios instalaram-se em outros países, na chamada Diáspora Armênia. O número de armênios no Brasil, conforme estimativas, chega a 25 mil, sendo em sua maioria em São Paulo.
As perdas culturais
A destruição do patrimônio cultural, religioso, histórico e comunitário armênio também foi um objetivo do genocídio e da campanha de negação pós-genocídio. Igrejas armênias e mosteiros foram destruídos ou transformados em mesquitas. Cemitérios armênios foram destruídos, e, em várias cidades, bairros armênios foram demolidos.
Além das mortes, os armênios perderam suas propriedade e bens, sem compensações. Empresas e fazendas foram perdidas e todas as escolas, igrejas, hospitais, orfanatos, conventos e cemitérios tornaram-se propriedade do Estado turco. Em janeiro de 1916, o Ministro Otomano do Comércio e Agricultura emitiu um decreto ordenando a todas as instituições financeiras que operavam dentro das fronteiras do império a entregar dos ativos armênios ao governo. Os ativos foram canalizados para os bancos europeus, incluindo Deutsche Bank e Dresdner Bank. Após o fim da Primeira Guerra Mundial, os sobreviventes do genocídio tentaram retornar e recuperar seus antigos lares e bens, mas foram expulsos pelo governo de Ancara.
Em 1914, o patriarca Armênio de Constantinopla apresentou uma lista dos locais sagrados armênios sob sua supervisão. A lista continha 2.549 lugares religiosos, dos quais 200 eram mosteiros e 1.600 igrejas. Em 1974, a Unesco declarou que, após 1923, de 913 monumentos históricos armênios na Turquia oriental, 464 desapareceram completamente, 252 estão em ruínas, e 197 necessitam restauração.
Pamik: problemas em casa
Pamuk, um exemplo
O romancista Orhan Pamuk é o primeiro e único cidadão turco a receber um Prêmio Nobel. Recebeu o de Literatura em 2006. Pamuk foi processado em dezembro de 2004 por “insultar e debilitar a identidade turca” (artigo 301 do código penal) em uma entrevista a um periódico suíço na qual disse a seguinte frase: “Na Turquia mataram um milhão de armênios e 30 mil curdos; ninguém fala nisso e me odeiam por fazê-lo”. A primeira sentença era uma condicional de seis meses, durante os quais devia abster-se de cometer quaisquer outros delitos do gênero para manter sua liberdade. Ele reafirmou suas palavras em outubro de 2005.
É claro que a posição de Pamuk sobre a questão armênia na Turquia tornou-o um personagem polêmico em sua terra natal. Enquanto alguns poucos admiraram-no, a maioria considerou-o um traidor. Houve uma campanha de ódio desencadeada contra o escritor e Pamuk deixou o país por algum tempo. Alguns meios de comunicação turcos escreveram que ele teria usado a pretensa perseguição como pretexto para ganhar dinheiro dando palestras na Universidade de Columbia, nos EUA.
Erdogan: entrou por um ouvido, saiu pelo outro.
A Turquia
Este ano, o estado turco marcou as comemorações da batalha de Galípoli para o dia 24 de abril — mesmo ela tendo começado em 25 de abril –, numa nova tentativa de encobrir o genocídio armênio. Na Batalha, forças britânicas, francesas, australianas e neozelandesas desembarcaram em Galípoli, numa tentativa de invasão da Turquia. Foram rechaçados no início do ano seguinte.
O curioso é que os dirigentes turcos, ao negarem o genocídio, parecem confirmá-lo: “Não deixaremos a nossa nação ser insultada por causa da sua história”, disse o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu. Faz cem anos que a negação deste crime se situa no coração da política e da diplomacia do Estado turco. Há cem anos que tal negação alimenta o nacionalismo, os conflitos étnicos e impede o desenvolvimento da liberdade de expressão na Turquia.