Vargas Llosa recebe o Nobel 2010

Publicado no Sul21

O prêmio Nobel de Literatura de 2010, divulgado nesta quinta-feira (7) às 8h, foi para o escritor peruano Mario Vargas Llosa, pela “cartografia das estruturas do poder e suas afiadas imagens da resistência, rebelião e derrota.”

Após premiar um amigo de Fidel, Gabriel García Márquez, e os comunistas Pablo Neruda e José Saramago, todos escritores próximos ao Brasil, chegou a vez do liberal. Vargas Llosa, 74 anos, também guarda relações próximas ao Brasil, tanto que escreveu a notável narrativa épica A Guerra do Fim do Mundo sobre Canudos, inspirado pela obra de Euclides da Cunha.

O Nobel de Literatura é escolhido pelos membros da academia sueca e dá um prêmio de aproximadamente R$ 3 milhões, entregue em dezembro. Durante o processo de escolha, os membros da academia enviam questionamentos a centenas de autores, críticos e professores, com a finalidade de chegar aos candidatos. De uma lista inicial de 250 nomes, em cortes sucessivos, se chega a um segundo grupo, com 15 a 20 e, num terceiro, a cinco nomes. Os membros da academia leem as obras dos candidatos e discutem sobre quem deve ser o vencedor. Um pouco antes do anúncio, os membros da academia avisam o vencedor através de um prosaico telefonema. A premiação do Nobel de Literatura costumava prestar-se a homenagens e distorções geopolíticas. Nos últimos anos, esta prática foi abandonada.

Não obstante o sucesso e os indiscutíveis méritos literários de livros como Batismo de Fogo (1963), Conversa na Catedral (1969) — considerada sua maior obra –, Pantaleão e as visitadoras (1973), Tia Júlia e o escrevinhador (1977), do citado A Guerra do Fim do Mundo (1981), Historia de Mayta (1984) e Quem matou Palomino Molero? (1986), Vargas Llosa enveredou pela política e pelo jornalismo nos anos 90. Casualmente ou não, sua ficção começou a perder força e seus últimos livros não receberam a acolhida dos primeiros.

Na política, o escritor tentou inverter a ordem natural das coisas e começou pelo fim: em 1990 concorreu logo à presidência do Peru pela Frente Democrata (FREDEMO), partido de centro-direita, mas perdeu a eleição para Alberto Fujimori. Naqueles anos, perdeu também a originalidade de sua literatura.

Fascinado pelo estilo clássico de Flaubert — a quem dedicou um ensaio e inúmeros artigos e referências — , após os anos 80 Vargas Llosa continuou escrevendo bons livros, mas a centelha ficou perdida em algum lugar. De sua produção mais recente, o principal é o respeitável grupo de ensaios literários, afora, é claro, suas célebres e virulentas polêmicas com García Márquez.

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Dmitri Shostakovich (I)

Pois hoje é o Dia Mundial da Música! Então inicio uma série sobre Dmitri Shostakovich que publicarei a cada sexta-feira, OK?

A música pode ser amarga, jamais pode ser cínica.

DMITRI SHOSTAKOVICH


Muitíssimas vezes, quando ouvimos Shostakovich (1906-1975), sentimos certa estranheza, notamos intenções ou um torna-se palpável uma enorma revolta e desconforto. Percebe-se que o drama e os contrastes apresentados referem-se a acontecimentos externos, sejam de ordem pessoal ou não. Em contato com essas obras firmemente assentadas sobre os ombros de Bach, Beethoven, Mahler, Tchaikovsky e Mussorgsky, somos, de alguma forma muito particular, solicitados a conhecer mais das circunstâncias em que foram compostas e da vida pessoal do compositor. Isto já pode ser notado desde a sua Sinfonia Nro. 1, composta antes dos vinte anos e que o deixou célebre internacionalmente antes mesmo de finalizar seus estudos.

Vamos começar esta série pela parte mais difícil: as relações do músico com o poder. Aqui há três pontos importantes para a compreensão de Shostakovich. O Ocidente costuma simplificar os fatos conferindo ao autor a condição simples de mártir e dissidente do regime. Tais “enganos” datam dos tempos da guerra fria e persistem até hoje. Aqui, procurarei equilibrar as coisas através de leituras mais recentes que fiz. Procurarei expor os fatos políticos e tomarei partido apenas da obra do compositor, a qual amo apaixonadamente.

O Comunista: Shostakovich foi, certamente, um comunista sincero, não obstante suas divergências com uma doutrina oficial que nem sempre seguiu um caminho retilíneo. Sem seu engajamento nítido em favor dos princípios originais que criaram a União Soviética, seria impossível inventar o sopro lírico e épico que atravessa algumas de suas composições. Mas há o verdadeiro e o forçado, ou o espontâneo e a encomenda, ou a alegria e  o sarcasmo. A segunda de suas sinfonias (A Revolução de Outubro, de 1927), apesar de fraca, pertence às obras autênticas, já a décima-segunda (À Memória de Lênin, de 1961) parece ter sido obra de um autor amargo, sarcástico e que  estava mandando provisoriamente sua obra às favas.  No início de sua carreira de compositor, Shoatakovich tinha aquele entusiasmo que foi próprio de uma geração de criadores que — como Eisenstein e Maiakovski — , em determinado momento, acreditou ser para amanhã o paraíso terrestre, antes de renunciarem a suas esperanças, às vezes de forma trágica. Não obstante o que era dito durante a Guerra Fria, Shostakovich não estava preso à União Soviética e teve inúmeras oportunidades de fugir. Quando sua doença começou a prejudicá-lo como intérprete, ele estava fora do país, também esteve algumas vezes com Britten na Inglaterra … Ou seja, Shostakovich teve numerosas oportunidades que o compositor teve para emigrar – não o fazendo nunca. Houve declarações anti-soviéticas? Mas é claro, ele foi massacrado por Stálin e depois, mas nunca foi o dissidente típico. Seus problemas eram relativos às arbitrariedades dos dirigentes do país e não com aquilo que a imprensa ocidental desejava.

A Morte: Após a doença, Shostakovich era obcecado pela idéia da morte. Não devemos colocar toda a sua psicologia na conta do geopolítico. Ele possuía muito daqueles niilistas russos do século XIX, tão bem retratados nos romances de Dostoiévski. Há algo de Kirilov nele… Confundir isso com as torturas morais causadas pelos comissários políticos soviéticos é aplainar a grandiosa obra do compositor e é fatal para quem queira compreendê-lo. Obras como o Trio Nº. 2, Op. 67, de 1944, a Sonata para viola e piano, Op. 147, de 1975 ou a Sinfonia Nº 15, de 1974, todas com suas “Canções da Morte”, são inequívocas, assim como a Sinfonia Nº 14. As trevas sem fim que emanam destas composições e a melancolia por vezes desesperada só podem surgir de uma personalidade permeável a pensamentos macabros. Porém, até hoje, costuma-se esquecer demais da história pessoal de Shostakovich e colocar todos os seus momentos de depressão numa conta do geopolítico…

O Artista: como os verdadeiros artistas e, principalmente, os músicos, Shostakovich pensava que o estatuto particular de sua arte desobrigava-o a seguir palavras de ordem como aquelas que eram impostas aos operários, aos mineiros ou aos camponeses da União Soviética. Sob este aspecto, era ele quem enganava-se. Os sucessivos dirigentes jamais esqueceram de intervir diretamente nas orientações estéticas a serem seguidas por pintores, escritores, cineastas e… músicos. Sempre esteve fora das cogitações governamentais a existência de uma vanguarda artística na União Soviética, pelo menos depois da morte de Lênin.

Shostakovich sofreu gravemente três vezes os efeitos de restrições a seus trabalhos. 1936 pode ter sido um ano péssimo para ele, porém, em minha opinião, os detalhes jocosos da primeira proibição superam em muito o que ela tem de funesto para sua carreira. Ele havia composto sua segunda e última ópera — a primeira fora O Nariz, baseada no conto de Gógol — quando Stálin foi assisti-la. Lady Macbeth de Mtsensk — baseada na esplêndida novela de Nikolai Leskov e só encontrável em espanhol (recomendo a leitura) — conta como uma mulher se tornou assassina por amor e demonstra que, se ela foi levada a cometer crimes, a causa estava no comportamento odioso de suas vítimas, na realidade autênticos carrascos. Sim, uma distorção pero no mucho do Macbeth original. Stálin, que era um grande apreciador de óperas e ouvinte de música erudita, detestou-a. Mostrou-se chocado com o erotismo de certas cenas, com a complicada escrita vocal, com o uso brincalhão e extravagante dos instrumentos e o ritmo esbaforido da música. Chamou Lady Macbeth de “pornofonia” — termo surpreendente em qualquer época — e baniu-a de todos os teatros soviéticos. Foi preciso esperar 27 anos para retornar à cena e, ainda assim, com a supressão do episódio orquestral que descrevia uma cena de sexo… É curioso que as eructações, flatulências e gargarejos de O Nariz nunca tenham sido alvo de censuras. Talvez Gógol imponha mais respeito que Leskov…

A segunda vez que Shostakovich entrou no index ocorreu independentemente de qualquer obra. Logo após a notoriedade internacional da Sinfonia Nº 7 — que descreve com pungência inalcançável o sofrimento passado pelo povo soviético durante o cerco de Leningrado — foi baixada uma resolução do Comitê Central do Partido Comunista Soviético que depois foi conhecida por “Relatório Jdanov”. Isto ocorreu em 10 de fevereiro de 1948 e colocou no mesmo saco Prokofiev, Khatchaturian, Shostakovich e quase todos os artistas do país. Shostakovich foi o mais atingido, pois negara-se a fazer de sua Sinfonia Nº 9 um elogio a Stálin e ao Exército Vermelho, publicando em seu lugar uma piada musical, que foi recebida com alegria e aplausos no Ocidente, tendo em Leonard Bernstein seu maior divulgador. O que Bernstein só soube depois é que a nona sinfonia deixara Stálin novamente furibundo com Shostakovich, ao ver suas ordens desobedecidas. Como resultado, suas peças sumiram do repertório.

Mas ele seguiu produzindo e, quando Stalin morreu, em 1953, Shostakovich tinha as gavetas lotadas de novidades. Havia, inclusive uma vingança contra o ditador.

O terceiro e maior desentendimento aconteceu em 1962. Neste ano, aparecia a Sinfonia Nro. 13, para solo de baixo, coro masculino e orquestra. Os textos cantados vinham do poema Babi Yar, de Evgueni Ievtuchenko e, em lugar de cantar o porvir, o poema denunciava os crimes nazistas cometidos naquela cidade perto de Kiev, onde 34 mil judeus foram assassinados. Denunciar os crimes nazistas não seria problema, mas o poema de Ievtuchenko fala sobre como os soviéticos insistiam em considerar russos e ucranianos os mortos, em vez de judeus. É claro que o motivo de suas mortes era a etnia judaica e não outro. É claro, que aquele foi um episódio meio obscuro, onde há indícios de colaboração. Ele e Ievtuchenko, celebridades internacionais, foram fortemente repreendidos pelas autoridades, que exigiram a substituição completa dos textos, sob pena de a música não vir a ser executada. A Sinfonia nunca foi alterada.

Bibliografia: grande parte das informações históricas foram obtidas em incontáveis discos, CDs e outras publicações, mas foram  um pouco sistematizadas pela leitura do texto de Philippe Olivier, dentro da História da Música Ocidental, Nova Fronteira, 1997, assim como de Shostakovich – Vida, Música, Tempo, de Lauro Machado Coelho, Perpectiva, 2006.

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Minhas Falsas Primaveras

Publicado em 23 de setembro de 2005

Há aqueles que, quando ouvem alguém contar algum problema pessoal, respondem com outro seu, normalmente muito mais grave. É um egoísmo que torna a conversa um campeonato de lamentações. E este gênero de pessoas não admite perder. Não sou assim, raramente reclamo. Mas aviso que, atualmente, é mau negócio querer competir comigo. Tenho um leque muito variado para apresentar.

Muitos e solucionáveis problemas — com maior ou menor sofrimento, com maior ou menor investimento de angústia — estão se desdobrando e, durante este período, tenho esquecido aniversários, não tenho respondido muitos e-mails e os compromissos não fundamentais são deixados a uma duvidosa auto-resolução.

Àqueles que sabem das preocupações que tenho com minha mãe, aviso que ela está melhor e que fizemos algumas reformas em sua casa, além de alterarmos sua medicação junto com minha irmã — que é médica — e os médicos da Dra. Maria Luiza. Mas nada foi fácil e ela resistiu o que pôde à retirada da banheira. Fim.

Mas há a parte boa, quase primaveril. A casa-edifício que estamos construindo parece subir a cada dia, a garagem está lá no térreo, nosso futuro apartamento está acima dela, já possuindo chão e algumas paredes. É preciso imaginação para visualizar o apartamento da família do irmão da Claudia mais acima, mas logo ele será concreto. E, como nosso apartamento será de tamanho razoável — enorme, se considerarmos as construções de preço médio atuais –, brevemente a Claudia poderá voltar a promover suas festas. Ah, e haverá uma edícula para recebermos amigos e blogueiros de passagem por Porto Alegre, além dos maridos eventualmente chutados. Aguardem!

No final de novembro, a Claudia tem que ir à Itália por motivo de trabalho. Eu vou acompanhá-la. Será ótimo, apesar da temporada curta de 10 dias, mas não é ainda a primavera, pois, no hemisfério norte, será o final do outono . Muitos de vocês deverão morder-se ódio, pois vou conhecer pessoalmente a Nora Borges e o Flavio Prada. Eu e o Flavio participaremos do III Grande Encontro de Blogueiros na Itália, com certamente com o dobro de participantes do primeiro. A reportagem sobre o I Encontro pode ser lida (e vista) clicando-se aqui. Infelizmente, o outro representante de blogueiro brasileiro na Itália, o Allan ficou meio fora de mão em nosso breve percurso. Mas, com o trabalho que a Claudia faz, o que não vai faltar são oportunidades.

Antes, no dia 12 de novembro, às 15h30, no Memorial do RS, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, estarei autografando o livro do Blog de Papel. Trata-se de uma obra coletiva onde haverá contos e crônicas de Alê Félix, Alexandre Inagaki, Ane Aguirre, Arquimimo Moraes, Edson Marques, Fabio Danesi Rossi, Fal Vitiello de Azevedo, Maira Parula, Marco Aurélio Brasil, Marco Aurélio dos Santos, deste que vos escreve, mais Nelson Moraes, Nelson Natalino e Ticcia Antoniete. Às 16h30 do mesmo dia, na sala “O Retrato”, do Centro Cultural Erico Veríssimo, haverá uma mesa sobre Literatura e Internet com a participação de André Dahmer e dos autores gaúchos do Blog de Papel – eu, a Ane e a Ticcia – com mediação do escritor Armindo Trevisan.

E no dia 19, às 18h, haverá o lançamento em São Paulo, na Oca (Parque do Ibirapuera), com a presença de toda a galera.

A renda obtida com nosso livro não irá garantir a independência financeira dos autores, mas será destinada à APAE de Lagoa Vermelha (RS), que tem um blog desde junho de 2004.

Tá bom, vá lá, estas últimas notícias são, para nós, uma primavera inteira.

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O mau amigo de Marcelo Backes

Pois minha atividades no Sul21 andam tão açambarcantes que eu acabei esquecendo de avisar que Três traidores e uns outros, do meu amigo Marcelo Backes, teve lançamento na Livraria Travessa, no Rio de Janeiro, no último dia 16. Li Três traidores ainda antes da revisão final. Enchi o saco do Marcelo num longo e-mail em que corrigia principalmente erros de digitação… Ontem, para minha enorme culpa, recebi o volume da Editora Record pelo correio. Sim, terrível, esqueci. Não que meu blog vá fazer alguma diferença para o sucesso do livro, é que estamos todos tão empenhados na evolução do Sul21 que acabamos — eu, a Nubia, a Rachel, o Igor, o Prestes, o Bruno e o Seadi — deixando de lado a vida pessoal.

Ontem, comecei a ler o livro do Marcelo. Está tão diferente que nem parece o mesmo. Desconheço sua forma de trabalho; apenas vi que as coisas parecem muito organizadas em seu computador, mas penso que tenha recebido uma primeiríssima versão. O primeiro capítulo já foi um conto que li faz uns dois ou três anos. Ele reaparace muito modificado e melhorado, apresentando um narrador mais presente, o qual deverá tomar conta do livro. O Backes escreveu num de seus livros que Milton Ribeiro era o “melhor leitor não profissional” que ele conhecia, mas minha primeira leitura de Três traidores e uns outros foi um fracasso. Por algum motivo, quando abri o arquivo com o romance, li a relação de capítulos como se fosse uma relação de contos  — culpa talvez de lido o primeiro capítulo com um conto no passado — e acabei lendo-os em intervalos de 10 ou 15 dias, pelo simples fato de que costumo carregar livros comigo e não folhas A4. O resultado é que simplesmente não me dei conta de que o personagem principal era o mesmo, narrando quatro episódios de sua vida em sentido cronológico inverso.

A sensação que tive ontem à noite foi a de ler outro livro, não aquele de há quase dois anos. Logo que terminar, mando notícias para este blog, OK? E, bem, peço descupas ao Marcelo. Devo estar no título do livro no papel de uns outros.

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Dois tópicos cinematográficos

AUTO-AJUDA ENTRE SEMIDEUSES E A CAIXINHA BERGMAN. Tenho desmedida admiração por Ingmar Bergman e Johann Sebastian Bach. O que não sabia, até anos atrás, era da admiração que Bergman nutria pelo alemão. Nos livros do diretor sueco, há referências diretas a Bach. Não são observações triviais ou meramente elogiosas, são observações de profundo conhecedor, de alguém que estudou inclusive o complexo simbolismo numérico que perpassa várias obras.

Ele diz ter utilizado a música de Bach nas cenas mais importantes de seus filmes ou, pelo menos, naquelas em que achava que a atenção do espectador pudesse ser dividida com a música. A escolha era quase sempre entre Bach ou o silêncio. No livro “Lanterna Mágica”, Bergman transcreve uma longa conversa que teve com o ator Erland Josephson. Nela, nos revela que, nos momentos de maior desespero, costuma contar para si mesmo uma história vivida por Bach.

Johann Sebastian havia feito uma longa viagem de trabalho e ficara dois meses fora. Ao retornar, soube que sua mulher Maria Barbara e dois de seus filhos haviam falecido. Dias depois, profundamente triste, Bach limitou-se a escrever no alto de uma partitura a frase que serve para consolar Bergman: Deus meu, faz com que eu não perca a alegria que há em mim.

Bergman escreve em A Lanterna Mágica:

Eu também tenho vivido toda a minha vida com isto a que Bach chama “a sua alegria”. Ela tem-me ajudado em muitas crises e depressões, tem-me sido tão fiel quanto meu coração. Às vezes é até excessiva, difícil de dominar, mas nunca se mostrou inimiga ou destrutiva. Bach chamou de alegria ao seu estado de alma, uma alegria-dádiva de Deus. Deus meu, faz com que eu não perca a alegria que há em mim, repito no meu íntimo.

Às vezes eu, o limitado e ateu — tal como Bergman — Milton Ribeiro, repito esta frase. Ela me emociona, me acalma e me faz pensar que minha alegria ainda está ali comigo, tem de estar. É um grito infantil que reconheço facilmente e que ainda não me abandonou.

Deve ter sido um íntimo grito infantil o que bradei quando vi uma caixa com 4 filmes de Bergman à venda na videolocadora. Fiquei louco e arrematei O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, A Fonte da Donzela e Gritos e Sussurros. São filmes que conheço quase cena a cena. Só não entendo uma coisa: por que a caixa traz 3 filmes do final da década de 50 e um filme de 71? Por que esta confusão? Ao final dos 50, Bergman fez 5 filmes de enfiada que são a maior seqüência que um cineasta já realizou:

1955: Sorrisos de uma Noite de Verão,
1956: O Sétimo Selo,
1957: Morangos Silvestres,
1958: O Rosto e
1959: A Fonte da Donzela.

Então, por que tirar 2 e substituí-los por Gritos e Sussurros? Gritos está entre os meus 10 mais de todos os tempos, mas qual a razão desta falta de critério? Poderiam ter feito outra caixa com, por exemplo:

Gritos e Sussurros (1971),
O Ovo da Serpente (1976),
Sonata de Outono (1977),
Da Vida das Marionetes (1979),
Fanny e Alexander (1981) e
Infiel (que foi dirigido por Liv Ullmann mas possui texto, cor e pedigree deste grupo de filmes bergmanianos).

E outra com os muito citados e pouco vistos:

Através do Espelho (1961),
O Silêncio (1962),
Persona (1965),
A Hora do Lobo (1966) e
A Paixão de Ana (1968).

Chega de delírios!

INDICAÇÃO DE FILME BOM. Quero elogiar um tremendo filme. Trata-se Reconstrução de um Amor, criativa tradução de Reconstruction, filme dinamarquês de 2003, dirigido por Cristoffer Boe. A sinopse do filme nos leva a pensar em algo já visto: “Homem e mulher se conhecem e tentam se desvencilhar de seus relacionamentos para ficarem juntos.” O inédito do filme são os artifícios utilizados na montagem. Não pretendo estragar o prazer de ninguém, mas prestem atenção à voz do narrador quando ele diz: “Tudo aqui é montagem, mas mesmo assim dói”. Alguns comentaristas compararam o papel do escritor que há no filme (representado pelo ator Krister Henriksson) com alguns personagens de Bergman. Pode ser… É, talvez não tenha sido tão casual o fato de eu ter lembrado tanto do velho Ingmar nos últimos dias…

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O Allegretto da Sinfonia Nº 7 de Beethoven

Ah, pois é… Este movimento foi adotado por um amigo para conquistar uma mulher. A história do continho abaixo é real do início ao fim.

E  o tal Allegretto está abaixo, do 14min45 até 24min06. O conto vem depois.

Da Pretensão Humana

É sempre da mais falsa das suposições que ficamos mais orgulhosos.
SAUL BELLOW

Alexandre chegou apressadamente a seu consultório antes do horário habitual. Sentou-se na confortável cadeira em que ouvia seus pacientes e pegou o telefone. Aguardando que a respiração se apaziguasse, revisava mentalmente tudo o que desejava dizer a ela — àquela bela mulher que conhecera através de amigos na noite anterior. Limpou a garganta e discou. Tinha planejado uma postura que poderia ser descrita como seria gentil, agradável, carinhosa, inteligente, divertida, interessada e, dependendo do andamento da conversa, também picante. Era cedo, ela devia ainda estar em casa. Porém, a voz que tanto ansiava reencontrar chegou-lhe burocrática, pedindo-lhe para deixar um recado logo após o sinal. Tomado de agitação, procurou em seus pensamentos algo espirituoso. Depois de alguma confusão, finalizou a mensagem:

— Dora, se queres me conhecer melhor, ouve o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Sou eu…. Alexandre. Um beijo.

Desligou o telefone sentindo-se um idiota. Permaneceu primeiramente avaliando aquele “Sou eu, Alexandre”. Dora pensaria que sua intenção seria a de dizer que o segundo movimento da Sétima descrevia a pérola de homem que ele era ou concluiria tratar-se apenas da assinatura final do recado? Ou, de forma mais benigna, será que Dora presumiria que o intento de Alexandre seria o de proporcionar-lhe uma lembrança agradável ou de fazer uma piada? Mas antes, ele dissera “…se queres me conhecer melhor, ouve…”. Como assim? Poderia alguém ser descrito por uma sequência de notas musicais? E Beethoven retrataria alguém como Alexandre logo por aquelas notas? O que Dora pensaria? Tinham conversado bastante na noite anterior a respeito do concerto a que assistiam com amigos comuns. No intervalo, ela disse ser uma ouvinte contumaz de Beethoven, também declarou que, em sua opinião, faltava aos barrocos do concerto daquela noite o drama e as afirmativas curtas e repetidas de seu compositor predileto.

— Vim a este concerto por insistência da Carla e do João. Há meses fico em casa com meu filho. Sou uma descasada recente.

Alexandre ficara instantaneamente apaixonado, transtornado mesmo. Desejava aquela mulher linda e inteligente, queria ser admirado por ela, mas, sentado em sua sala, começava a desesperar-se com a evidente bobagem que deixara gravado. O que significava aquilo de comparar-se ao compositor que ela amava? Ontem, para agradar a Dora, ele tinha derramado todo o conhecimento musical que lembrava sobre o compositor alemão. Ao final do intervalo, trocaram seus telefones a pedido dele. Agora, ainda sentado, pôs a cabeça entre os joelhos e disse em voz baixa que até a megalomania tinha que ter seus pudores.

E Dora? Acreditaria que toda a perfeição daquele segundo movimento pudesse ser uma representação de Alexandre? Iria recusá-lo por pretensioso? Ficaria constrangida e oprimida? Fugiria por não ser-lhe digna? Faria piadas com os amigos? Ou será que pensaria que ele, romanticamente, ambicionava ombrear-se aos semideuses para ser-lhe digno?

— Burro, burro, burro – pensou Alexandre, caminhando pela sala.

Dora ligou dali a três dias. Alexandre procurou marcar um jantar, porém foram-lhe impostas tantas restrições de horário, fosse para um jantar, fosse para um almoço ou café… Enfim, ela parecia ter tantos compromissos — principalmente para cuidar de seu filho — , que ele logo pensou tratar-se de uma negativa e despediram-se sem marcar um reencontro.

— Não surpreende — disse para si mesmo ao desligar.

Dali a dias, durante a festa do Dia dos Pais, Alexandre, um pouco alcoolizado, perguntou a seu pai:

— Pai, se tu quisesses conquistar uma mulher e tivesses a ideia de sugerir uma música para ela ouvir, que música poderia te representar?

— Ora, meu filho, sugeriria que minha futura amada ouvisse aquela música que a Maria Bethânia canta.

— Que música?

— Gostoso demais.

Sem dúvida, há megalomanias e megalomanias.

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Os Duelistas, de Joseph Conrad (e, secundariamente, de Ridley Scott)

Os Duelistas é uma novela escrita em 1908, mas parece ter sido criada para o cinema. É uma narrativa visual, toda ela imagem, ação e… , bem, honra. Ou será que a culpa desta notável novela me sugerir o cinema é de Ridley Scott? Pois, em 1977, Scott filmou a história com inigualáveis requintes visuais e grandes atuações de Keith Carradine e Harvey Keitel. Cada cena parece um quadro e as imagens vistas nos anos 70 me perseguiram durante toda a leitura.

O plot é o mais simples do mundo. Na França de Napoleão, no início do século XIX, os militares Féraud (Keitel) e D`Hubert (Carradine) envolvem-se numa disputa por uma ninharia que logo se transforma em animosidade. Eles duelam imediatamente — o que era proibido a oficiais franceses em tempos de guerra — , mas o primeiro duelo não acaba em morte e a honra não fica lavada. Então, duelam novamente e novamente, sempre de forma insatisfatória, até que… , bem, não devo contar o final. Conrad é um mestre. Assim como mal explica o motivo inicial da querela, ele, com sucesso, faz de tudo para que os leitores esqueçam o pouco que  disse sobre o início do ciclo de violência. Apesar da curiosidade de outros personagens, não retorna nunca ao tema e nem os duelistas o fazem. O motivo é simples: não interessa. O que importa é manter a honra. As cenas que Conrad cria para os duelos inconclusos são inteiramente críveis. A novelinha, também conhecida pelo título The Point of Honor, é uma joia.

D`Hubert é um estrategista que parece cada vez mais enfadado com os duelos sucessivos, apesar de se atirar a eles com todo o empenho — sempre a honra, a loucura. Seu adversário, Féraud, é um brutamontes cujo único interesse na vida parece ser o de reencontrar D`Hubert. A iniciativa é sempre dele. Eles pertencem a regimentos diferentes do mesmo exército e por vezes se cruzam nas batalhas. São cinco ou seis embates num período de quinze anos, tendo como pano de fundo as batalhas napoleônicas e sua derrocada final.

O absurdo, a irreflexão, a obsessão desmedida, o sentimento de “vazio” que a vida oferece sem uma boa confusão poucas vezes foram demonstrados com tamanha força. Indico ambos: o pocket da L&PM (só R$ 12,00 !!!) e o filme homônino, disponível em DVD.

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Paixão Côrtes é o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 2010

Ser patrono da Feira do Livro pode ser humilhante. Lembro da cara constrangida de Charles Kiefer, em 2008, de braços dados com Yeda Crusius e Mônica Leal. Aquele foi o alto preço cobrado pela vaidade. Lembro da cara “tô nem aí” de meu colega de daltonismo Carlos Urbim no ano passado. Já o folclorista Paixão Côrtes sempre militou na grande imprensa e receberá quaisquer companhias com naturalidade. Estive na cerimônia de escolha do novo patrono. Paixão fez um belo discurso desculpando-se pela idade (83 anos) e pelo marca-passo que o tornará um patrono comedido. Paixão é um Ariano Suassuna low profile. É menos talentoso e bem menos caudilho que seu colega nordestino, pois há um lado positivo em quem não consegue pontificar de forma tão completa.

Hoje li críticas à Feira de Porto Alegre. Seria apenas uma grande  livraria comercial. E há alguma que não seja comercial, mesmo dentre as simpáticas pequenas livrarias? Mas concordo com uma das críticas: há um fato que torna a de Porto Alegre e todas as Feiras — incluindo a Bienal de São Paulo e a Feira bonairense — iguais: são imensas e enjoativas livrarias com mais ou menos os mesmos livros. Mas há que saber usar o evento. Há uma interessante programação paralela que é gratuita e que apenas quem não se interessa por cultura pode ignorar. Em razão disso, ainda dou vivas à Feira de Porto Alegre.

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A chuva antes de cair, de Jonathan Coe

O mundo gira e gira e vai lentamente mudando, porém uma das coisas que não se altera é a importância da literatura inglesa. Se hoje temos Martin Amis e Ian McEwan na lista de maiores autores contemporâneos, é melhor acrescentar mais um nome: Jonathan Coe.  O autor — nascido em Birmingham no não tão longínquo ano de 1961, na gloriosa data de 19 de agosto — escreveu nove romances, além das biografias de James Stewart e de Humphrey Bogart. Coe também exerce o mais do que glorioso ofício de crítico de música erudita.

É surpreendente que o taciturno autor de A chuva antes de cair tenha desenvolvido seu doutorado sobre o impagável Tom Jones de Henry Fielding, que já tenha recebido prêmios como autor satírico, que tenha sido membro de uma banda e que a música seja um aspecto central em suas obras, pois nada disso ocorre neste romance.

A chuva antes de cair, quinto e excelente romance de Coe publicado no Brasil, tem alguma música e nenhum riso, mas é perfeito e realista como poucos. Estou chegando ao final da minha vida e por razões que, espero, ficarão claras para você, sinto ter uma obrigação contigo… O que eu quero que você tenha, Imogen, acima de tudo, é uma noção da tua própria história…, são as palavras de Rosamond ao iniciar a gravação de uma série de quatro fitas cassete destinadas à neta de uma prima: Imogen. A protagonista descreve, uma a uma, 20 fotos, que são a base para esclarecer os principais fatos da biografia da neta.

Quando do início da trama, Rosamond acaba de falecer e, como uma das herdeiras, a sobrinha Gill fica encarregada de encontrar Imogen a fim de repassar-lhe sua parte da herança; porém, ao visitar a casa de Rosamond para buscar qualquer coisa, ela encontra algo mais — quatro caixas de fitas cassetes numeradas junto a um montinho de fotos com um bilhete: “Gill, são para Imogen. Se não conseguir encontrá-la, ouça-as você mesma”.

O que se ouve nas fitas é descrição de cada uma das fotos acompanhadas das circunstâncias em que foram tiradas. Elas servem como atalhos para que o autor não necessite construir elos entre cada cena. O artifício é bom não apenas por este motivo, mas pelo fato de que a descrição de cada uma das fotos — com seus rostos, felicidade, esgares ou indiferença — pavimenta um caminho em linha direta com a vida interior de cada personagem. Este livro de som (audição da fitas) e imagem (fotos)  é escrito tranquilamente em tom melancólico e inexorável; é uma narrativa fluente que vai pouco a pouco preenchendo as lacunas da curiosidade do leitor, mas deixando o melhor para o final.

O tema principal do livro é a disputa, o ciúme, o ódio e a indiferença existentes nas relações entre as mães e filhas do romance. Parece haver uma tragédia transmissível de uma para outra. Na verdade, Coe brinca com a experiência do leitor, pois conseguimos prever o que irá ocorrer e o motivo, só não adivinhamos como. Prova de que há relações que carregam em si germes de conflitos prontos a estourar quando da ocorrência de problemas ou descontrole. Talvez este jogo com o leitor seja o maior mérito deste notável romance.

Coe chamou seu livro de “um bocado experimental”, expressão com a qual não concordo. O livro é consistente, excelente mesmo, mas não é nada experimental. Aliás, o experimentalismo parece ter sido varrido da boa ficção nos últimos anos. Não sei se diria que os escritores atuais escrevem para um público do passado ou ao menos passadista, posso apenas dizer que o trio de ingleses citados constroem romances clássicos a ponto de, aceitas as regras do “bem escrever”, não trabalharem novos recursos de linguagem. Mas como são bons!

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Amor à Literatura

Recebi uma intimação para responder este questionário. Na verdade, acho um saco estes pedidos e sempre os ignoro, mas como é sobre literatura, vamos lá. Tentei descobrir o primeiro autor das perguntas, mas entreguei os pontos.

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Esta pergunta é sobre que livro gostaríamos de SER. Interessante. Então, desejaria ser alegre. Sugeriria tornar-me a Modesta proposta para evitar que as crianças da Irlanda sejam um fardo para os seus pais ou para seu país de Jonathan Swift. Opcionalmente poderia ser o irresistivelmente cômico Uma Confraria de Tolos de John Kennedy Toole ou quem sabe — tornando-me mais reflexivo, sutil e elegante — os esplêndidos Contos de Machado de Assis. Em qualquer um dos casos, porém, seria muito solicitado pelos ouvintes; seria popularíssimo, sem dúvida.

Quem não leu Fahrenheint 451 ou não viu o filme de mesmo nome de François Truffaut, ficará sem entender a última frase do parágrafo anterior… ou talvez tudo.

2. Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?

Sem dúvida, este questionário veio de Portugal. Apanhadinho é igual a “ficar caidinho” ou “ficar apaixonado”.

Uma vez, numa roda de amigos discretamente alcoolizada, uma das mulheres perguntou aos homens presentes quais teriam sido as mulheres de suas vidas. Por azar, coube a mim ser o primeiro a responder. Sou dono de proverbial franqueza, de lendária sinceridade e, depois de olhar para minha insegura cara-metade da época, declarei: a mulher de minha vida é certamente alguém que quis e nunca tive e da qual só imagino delícias, perfeições, calma e carinho. É alguém de quem não conheço os defeitos. A mulher de minha vida é… E disse um nome conhecido daquelas pessoas que quedaram-se boquiabertas.

Hoje, fiquei pasmo ao ver que as “mulheres de livros” pelas quais me apaixonei têm igualmente amores irrealizados. A primeiríssima é Sílvia, que aponto polemicamente como a maior personagem de Erico Veríssimo. Ela é a principal habitante de O Arquipélago, terceiro volume da trilogia O Tempo e o Vento. Sílvia é casada com outro, mas seu grande amor é Floriano, com quem apenas dialogava, trocava cartas e a quem escrevia um diário. A segunda é Sarah Woodruff, do romance de John Fowles A Mulher do Tenente Francês e a terceira é Leen do romance Casa sem Dono, de Heinrich Böll. A história de Sarah é muito conhecida, ainda mais depois da indicação de Meryl Streep ao Oscar, no papel de Sarah. Já Leen é obscura. Ela morre aos 19 anos, na página 124 de minha edição, após morar um ano com Albert, personagem principal do livro de Böll. O vendaval de sua entrada e saída em Casa sem Dono destroçou temporariamente minha vida.

3. Qual foi o último livro que compraste?

(Anotação: nunca fazer esta pergunta à Caminhante.)

Foram dois, ambos comprados num sebo: Os Duelistas de Joseph Conrad e A chuva antes de cair, de Jonathan Coe.

4. Qual o último livro que leste?

Foram dois.  A Borra do Café de Mario Benedetti e A chuva antes de cair de Jonathan Coe.

5. Que livros estás a ler?

Estou clássico. Leio Ensaios de Montaigne e Os Duelistas de Conrad.

6. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?

Penso que nunca mais me apaixonarei por livros como na juventude. O que lia durante a adolescência e até os vinte e poucos anos marcou-me muito mais do que qualquer coisa lida depois. Todos os meus livros vêm de lá:

Contos de Machado de Assis (relidos depois);
Contos de Anton Tchekhov (relidos depois);
Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa;
Doutor Fausto de Thomas Mann (relido depois);
Dom Quixote de Cervantes.

Bem, se a fiscalização da ilha fosse camarada, acrescentaria um Manual de Sobrevivência…

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Minha arbitragem no CGL (Campeonato Gaúcho de Literatura)

Retirado daqui.

JUIZ
Milton Ribeiro
– Prefere apresentar-se apenas como um voraz literato, melômano e cinéfilo. Por insistência de sete leitores, mantém um blogue e outras coisas por aí. É sócio do Sport Clube Internacional e sósia de Mahmoud Ahmadinejad, além de ser daltônico, cambota e de ter os pés chatos. Tem curriculum vitae completo em seu blogue, o que torna desnecessário dar mais informações.

OS TIMES

TIME 1: Cris, a fera, de David Coimbra

UNIFORME: A camiseta de Cris, a fera é retrô, o distintivo é uma mulher parecida com Rita Hayworth descendo uma escadaria. Na mão, um cigarro. Destaque para a coxa, que fica de fora, aproveitando uma fenda do robe de chambre – para utilizar um termo antiquado como a capa do volume. Não chega a chamar atenção pela beleza ou originalidade, mas é adequado.

ESQUEMA DE JOGO: Sete histórias entre o conto e a novela. Há unidade temática sim, e como! O assunto é sexo do princípio ao fim. O estilo do autor é bem-humorado, mais para a pornografia leve, sem conseguir alçar-se ao erotismo.

GOL DE PLACA: Bandeira 2, a história de abertura, é a melhor do livro. Um conflito bem montado, com boa solução.

BOLA FORA: Cris, a fera, o conto, é previsível e de psicologia pouco profunda.

TIME 2: O girassol na ventania, de Marco De Curtis

UNIFORME: Decididamente, o uniforme não chama atenção. É mais um time listrado como tantos. É o velho e bom pôr-do-sol, neste caso sem sol, porém com o colorido das nuvens. Pode-se dizer que são histórias de Porto Alegre e que o céu de nossos entardeceres é o mais belo de todos, mas… Não, o uniforme é mesmo muito comum.

ESQUEMA DE JOGO: Por incrível que pareça, trata-se igualmente de sete histórias, sendo cinco contos e duas novelas. As histórias tratam de conflitos humanos e amores urbanos, classificação vaga que demonstra que não há estrita unidade temática.

GOL DE PLACA: Amor por um triz é uma bela e muito bem narrada história. Porém, o autor estraga o final através de uma solução simples que imita Brokeback Mountain. Explico: quando o casal – em nosso caso, heterossexual – parte para uma decisão, o roteirista mata um dos dois e finaliza a obra. Tsc, tsc, tsc.

BOLA FORA: Não há exatamente uma bola fora, mas acredito que o final de Beijos de Borboleta seja de difícil deglutição. Marco De Curtis usa de certa indulgência ao finalizar seus textos.

O JOGO

INICIADO O ESPETÁCULO, o time comandado por David Coimbra tomou logo a iniciativa e foi para cima dos intimidados atletas de Marco De Curtis. Logo, demonstrou algumas qualidades, tais como o bom humor e uma tremenda vontade de seduzir. A vontade era tanta que o treinador se esquecia das primícias. Os leitores – seres sensíveis, delicados e BALDOSOS – têm de ser tratados com jeito. Nem todos estão prontos para entrar em ação após cinco segundos e David pretendia deixá-los excitados sem emitir sinais prévios de suas reais intenções. Logo de cara, colocou em campo um vistoso plantel de mulheres. A plateia ficou interessada e vibrou com este GOL, mas, fato curioso, todas eram iguais. Notou-se que, ao longo das páginas, sua TOTALIDADE tinha 1,70 m, pernas intermináveis e fortes, abdomens malhados, seios rijos, postura sedutora e salto alto. Só variavam no cabelo. Apesar da boa e longilínea forma, as Feras não pareciam levar a sério o esporte bretão. Também se notou que por todos os lados havia referências ao emprego do autor ou a seus colegas, numa incrível sucessão de homenagens que passavam por diversos departamentos da RBS. Tomados de forte NÁUSEA CELETISTA, os leitores se retraíram e passaram a vaiar as Feras, que choraram em campo. Meu coração oprime-se ao narrar tais fatos, mas, como repórter, tenho de me comportar como se fosse o espelho do mundo, refletindo os fatos de forma a que você, querido leitor, confie e acredite. E podeis acreditar, asseguro-vos.

O técnico Marco De Curtis sentiu o gol tomado logo nos primeiros minutos da PELEJA. Foi um golpe que o deixou assustado e sem saber como finalizar o primeiro conto. Porém, o DEMIURGO ao lado do campo reorganizou sua equipe, fazendo-a adquirir o indisfarçável charme de Celso Roth, entocando-se na defesa. Como não tinha saída rápida para o ataque, perdendo-se em digressões e VERBOSIDADES dispensáveis, deixou as Feras fazendo graça pelo campo. Apesar da faceirice e da vontade de pressão do adversário, a postura de De Curtis impedia as penetrações de lado a lado. Porém, Celso Roth é Celso Roth e às vezes faz das suas, tornando-se Sexy Hot. Foi o que ocorreu com o time de De Curtis. Em três INSIDIOSAS estocadas, os Girassóis lograram marcar três gols no segundo tempo. Foram momentos de real grandiosidade e variação de jogadas proporcionadas pela equipe HELIOTROPISTA. Uma surpresa para as Feras! Afinal, o que há em comum entre cães mortos, contos surrupiados e descompassos afetivos? Foram três estranhos gols – o segundo bastante vingativo, demonstrando abissal ressentimento contra o salto alto das Feras – , feitos em sequência naquele futebol de passes curtos, mas que resolveram a partida com facilidade.

Parabéns aos Girassóis!

Entrevistados após a partida, os técnicos demonstraram visões diversas. David Coimbra, em entrevista à nossa reportagem, declarou que o placar foi injusto, pois o árbitro o prejudicou, demonstrando preconceito contra sua condição de conhecido jornalista e fauno do IAPI. Prometeu ir ao tapetão até se esgotarem todas as instâncias da Justiça Desportiva. Já Marco De Curtis irritou-se com os repórteres que insistiam em falar em futebol de resultados.

— Nossa vitória foi justa. Demos um chocolate, um banho tático, tanto que fizemos três belos gols. O que importa são os três pontos, o resto são filigranas, coisas que vocês inventam para vender jornal — garantiu.

PLACAR
Feras 1  x 3 Girassóis

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Dostoiévski, de novo

Um pedido do Pedro, através de comentário:

Caro Milton, Conhecedor de Dostoiévski como és, dê essa dica para nós, pequenos mortais, que ainda não o leram por inteiro: há algum tradutor melhor que o outro, alguma edição mais nobre, ou tudo dá no mesmo? Gracias!

Pedro, farei de tudo para manter, nas próximas linhas, este falso conhecimento que me atribuis. Na verdade, li todas as obras de Dostô quando era jovem. Nasci em 1957 e devo tê-las lido nos anos 70. Na época, não havia edições saindo e até era complicado encontrar os livros do autor russo. Tanto que, após ler Os Irmãos Karamazov numa edição da Abril Cultural (Imortais da Literatura, Vol. 1) bati muita perna pelos sebos a fim de encontrar os outros livros. Um dia, recebi um telefonena de um sebo, mais exatamente da Livraria Aurora, avisando que tinham recebido a coleção completa das obras de Dostoiévski da José Olympio. Hoje sei que não era NADA COMPLETA, porém era vendida como se fosse e eu acreditei. Supliquei à minha mãe por uma grana, fui lá e arrematei a coisa. Como busquei de ônibus, fiz duas doloridas viagens para buscá-los. Era bonitos, vermelhos, de capa dura, um show.

E eram o que havia de melhor. Imagine: os tradutores eram Rachel de Queiróz, Ledo Ivo, Brito Broca, etc. Todos os livros vnham com esplêndidos prefácios de gente como Otto Maria Carpeaux e Wilson Martins. Posso te dizer que comi e amei aqueles livros, comi-os como se fossem o melhor Dostô possível, mas não eram. O que tinha de bom eram os prefácios…

Lá pelos anos 80, começaram a aparacer novas traduções, totalmente diferentes. A explicação era incrível. As traduções antigas, aquelas da José Olympio, eram feitas a partir de outras traduções, francesas, feitas no início do século XX. Soube que os tradutores franceses da época não eram nada respeitosos e que açucaravam expressões e até criavam algumas frases facilitadoras. Ou seja, eles adaptavam Dostô para o gosto do leitor francês, aparavam as arestas, retiravam espinhos, deixavam-no … beletrista! Caraglio! Comecei a ler exclusivamente as traduções de Boris Schnaiderman para Tchékhov e Dostô (logo vi que eram muito superiores às segunda mão) e, nos anos 90, a abençoada Editora 34 resolveu montar um time de tradutores para retraduzir todo o Dostoiévski. Antes, aqui e ali, já aparecera o verdadeiro Dostô: nos anos 80, Moacir Werneck traduziu O Jogador e O Eterno Marido direto do russo. O resultado foi um autor muito mais direto e sem firulas. Muito melhor, limpo e impactante, certamente. Fiquei desconfiado… Mas acho que a revelação do verdadeiro Dostô veio com Paulo Bezerra na Editora 34. Digo com a maior tranquilidade que quem leu O Idiota e Crime e Castigo nas traduções antigas, leu outros livros. Dizem meus olhos e minha mente que estes romanções só foram verdadeiramente traduzidos há pouco. As novas versões são Dostô, por mais que Brito Broca tenha feito milagres com sua versão francesa.

Então, meu caro Pedro, a solução é comprar a Coleção da 34 ou outras traduções diretas. Acho que posso pôr minha mão no fogo por Moacir Werneck e Paulo Bezerra. Se não faço outras indicações de tradutores é por não ser o especialista que pensas que sou. Mais: creio que a Coleção Dostoiévski da Editora 34 foi realizada com tanto interesse,  respeito e amor por Dostô que eu a colocaria em primeiro lugar.

Completando este texto meio desorganizado, te afirmo que O Idiota só se tornou a obra-prima quase insuperável que é hoje para mim após a leitura da tradução de Bezerra. A tradução da José Olympio tem todos os méritos associados ao pioneirismo e às parcas possibilidades dos anos 50, mas vão me desculpar, os dois Idiotas não têm nada a ver um com outro. Toda a transcedência e o valor altamente filosófico da obra perdeu-se na passagem para o francês ou para o português. Tanto assim, que li O Idiota da 34 como se fosse totalmente inédito.

Dostoiévski não é nada romântico, nada. É um escritor bem mais duro do que fazem crer as antigas traduções. Porém — e agora falo a todos — , se não houver grana e você encontrar uma das antigas traduções que têm reaparecido ainda hoje a preços módicos, compre do mesmo jeito. Um mau Dostô é superior a quase tudo que haverá em torno.

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Música para mal formados

Hoje, acompanhei pelo twitter uma discussão sobre música que me deixou curioso, tanto que procurei ouvir aquilo do qual falavam com tanta reverência. Peço desculpas a quem reconhecer a discussão, mas a música discutida era primária. Não vou entrar nessa de avaliar se era boa ou ruim, provocativa ou new age, monótona ou intrigante; vou apenas dizer que era constrangedoramente simples.

Haydn e Bruckner eram também assim só que na vida civil. Os registros históricos tratam de Haydn — um gênio que chegou a inventar novas formas musicais, como o quarteto de cordas — como um bobo alegre. Já sobre Bruckner, que faleceu ao final do século XIX, temos informações certeiras. Era um carola que não sabia nada do mundo, era meio tolo mesmo, mas ouvir suas sinfonias e achar seguir achando o cara simples é impossível! O cara era, do ponto de vista musical, de complexidade e profundidades abissais. Então, penso que haja uma inteligência específica voltada à musica. Esta transcende gêneros, pois, por exemplo, Frank Zappa foi roqueiro brilhante, Charlie Mingus um jazzísta e Steve Reich… O que faz mesmo Steve Reich?

Desculpe se pareço nojento ou elitista, normalmente sou mais gentil, mas é que quedei-me boquiaberto que aqueles escritores ficassem abobalhados por músicas que, antes de revelarem determinadas etnias, vivências ou culturas, demonstravam estruturas que tornariam qualquer frase SVO (Sujeito-Verbo-Objeto) digna de estudos. OK, tudo é diversão. Também acho. Só que a gente pode se divertir com Bergman ou Zé do Caixão, com Coetzee ou Paulo Coelho. São escolhas, vivências e cultura. Mas, engraçado, não consigo imaginar um papo semelhante entre escritores argentinos, ingleses, portugueses ou, pior, alemães. E tenho certeza de que isto é muito, mas muito significativo.

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Günter Grass relembra passado e se diz otimista com futuro da Polônia

O autor Günter Grass tem, ao mesmo tempo, fortes conexões com a Alemanha e com a Polônia. Entretanto, em entrevista para a Deutsche Welle, diz que não tem um lar. Este espaço, segundo ele, foi preenchido pela literatura.

O prêmio Nobel de Literatura Günter Grass é autor de obras como O Tambor (1959), Meu Século (1999) e Nas Peles da Cebola (2006). O autor conversou com a Deutsche Welle sobre suas impressões a respeito da identidade polonesa e revisitou alguns eventos políticos importantes que influenciaram seu trabalho.

Deutsche Welle: Como polonês que veio para a Alemanha depois da Segunda Guerra, de que forma você avalia sua recepção na Polônia? As pessoas lá não o temem, mas o celebram e o defendem contra alguns difamadores.

Günter Grass: Eu fico feliz, é claro. É uma história longa para alguém como eu, que vem de uma família desterrada, e claro que não foi fácil naquele tempo imediatamente depois da guerra, quando você considera a história entre Alemanha e Polônia.

Os meus livros ajudaram a apresentar a história desse país à geração que cresceu em Danzig [nome da cidade durante a dominação germânica entre 1793 e 1945 – hoje a cidade polonesa se chama Gdansk] depois da guerra – a propaganda e 1945 eram assuntos de séculos passados para eles. As pessoas adotaram tudo isso, o que foi bem recebido. E isso também culminou no fato de as pessoas aceitarem quando eu fazia críticas sobre a Polônia ou sobre o nacionalismo polonês. Porque as pessoas sabiam que eu fazia comentários também em certos círculos aqui na Alemanha.

Você estava lá em 1970 quando o então chanceler federal alemão Willy Brandt se ajoelhou diante do Memorial aos Heróis do Gueto de Varsóvia. Qual foi a sua sensação e como você a avalia hoje?

Eu estava num canto da multidão, e eu tenho que dizer que fiquei chocado porque imediatamente imaginei como aquilo seria recebido na Alemanha. E não foram poucos os comentários de escárnio sobre isso.

Muitos anos depois, eu escrevi sobre quando Brandt se ajoelhou no livro Meu Século, sob a perspectiva de um jornalista reservado que presencia a cena, e que vê o fato parcialmente, como um tipo de propaganda feita por parte de Brandt, mas que também pensa em como escrever sobre isso de modo que um jornal queira publicar.

Aqueles não eram exatamente os meus pensamentos, mas o evento certamente provocou muitas coisas. Mesmo muitos poloneses tiveram um tempo difícil para compreender a motivação de Brandt, e eles refletiram extensivamente sobre esse significado.

Você acha que há um risco no sentido de a História ser reinterpretada de maneira que os alemães, de repente, se vejam como vítimas do período da Segunda Guerra?

Eu vejo a divisão das pessoas entre vítimas e perpetradores como um assunto artificial. Os alemães se tornaram simultaneamente os perpetradores e as vítimas de suas políticas. Quando penso nos jovens alemães que foram deportados, claro que eles são vítimas da política dos alemães. Qualquer ato de desterro é um crime, e o desterro de alemães também foi um crime e uma consequência terrível daquele período. Isso é um fato que você tem que reconhecer. Fazer a distinção entre vítimas e perpetradores não ajuda nesse ponto.

Você nasceu em Danzig  e se tornou uma personalidade na cidade. Você também tem muitos amigos na Polônia. Mas onde é o seu lar?

Para mim, lar é algo que foi perdido, mas eu tento transformar essa experiência em algo positivo. Para mim, a literatura oferece essa possibilidade, desde que você persista nesse propósito com certa obsessão.

A história de Gdansk é de destruição e revitalização e de lembrança. Depois de ter escrito O Tambor, eu voltei várias vezes para Gdansk para encontrar os vestígios dessa cidade. A fase de reconstrução e os primeiros sinais de agitação nos anos de 1970, e a revolta dos trabalhadores – tudo isso entrou nos meus escritos. Nesse sentido, eu sou um polonês que está na Alemanha.

Recentemente, Bronislaw Komorowski ganhou a eleição presidencial na Polônia contra Jaroslaw Kaczynski. O que você acha desse resultado?

É um grande alívio para mim, esse é o futuro da Polônia. O país tem que deixar de ser uma vítima absoluta. Há uma geração nova que terá um papel importante na Europa, e estou convencido que o novo presidente representa bem isso.

Com Deutsche Welle (ho, ho, ho) / Entrevista: Barbara Cöllen / Revisão: Roselaine Wandscheer

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O mais puro Kafka…

Aqui.

E, segundo o jornal israelense Haaretz, tem mais…

The German Museum of Modern Literature Thursday rejected a demand from Israel’s National Library that it return the manuscript of Franz Kafka’s novel “The Trial,” saying it acquired the manuscript legally.

The National Library claims the manuscript was illegally sold to Germany by Esther Hoffe, former assistant to Kafka’s friend Max Brod, and that it is the manuscript’s legal heir.

The museum, however, said the manuscript was bought transparently, at a public auction, without objections. It added that as far as it knows, Brod gave the manuscript to Hoffe as a gift.

??? Se metem em tudo…

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O Burgomestre de Furnes, de Georges Simenon

Georges Simenon vendeu aproximadamente 500 milhões de volumes de suas novelas e romances. Trata-se de um excepcional caso de sucesso popular e de crítica. Durante toda a sua vida, os leitores e editores pediram-lhe um grande romance através do qual o autor pudesse ser apresentado. A resposta era sempre a mesma:

– Minha grande obra é o mosaico formado por meus pequenos romances.

Grosso modo, podemos dividir sua obra em duas partes: os romances policiais com ou sem o célebre detetive Maigret e os duros romances psicológicos que lhe valeram o apelido “Balzac de Liége”, recebido de ninguém menos que André Gide. A popularidade destes livros não deixa de impressionar, pois são escritos em tom menor, são nada solares, sendo antes cheios de personagens deprimentes e deprimidos. Com suas ações quase sempre em cidades pequenas, Simenon envolve-nos numa triste realidade provinciana, onde o mal comanda.

O método de produção de Simenon é curioso. Ele escrevia seis ou sete romances ou novelas por ano, mas elas não lhe saiam continuamente e sim como espasmos. A história era inventada em 30 ou 40 dias em sua imaginação. Era o período de não escrever, de caça à história, quando ele passeava, ia a bares e convivia com as pessoas. Então, ele avisava aos familiares que trabalhar e todos sabiam o que aconteceria – ele sumiria em seu escritório por algo entre 10 e 20 dias. Nestes períodos, ninguém deveria falar com ele e a ordem era apenas alimentá-lo. Se um fato externo o interrompesse, abandonava o trabalho.

De certa forma, tal concentração está presente em seus trabalhos. As narrativas, a forma de envolver o leitor são via de regra impecáveis. A modernidade não está num trabalho de linguagem ou em tramas complexas ou contrapontísticas, está no fato de que o autor se exime dos princípios morais, apresentando tramas simples onde as atitudes são descritas de forma distante, muitas vezes cruel. Não há Deus nem julgamento, há sucessão de fatos que são jogados ao leitor no momento exato e que fazem excelente literatura.

Acabo de ler O Burgomestre de Furnes, um extraordinário estudo sobre o embrutecimento, o ódio e a avareza. Joris Terlink é o burgomestre que comanda a população, a economia e os conselheiros do povoado. Todos o temem e ele é consultado para tudo. Sua vida pessoal está associada a diversas tragédias, recentes e antigas: uma filha doente mental que é mantida presa em seu quarto sob o argumento de que não haveria um lugar melhor para ela, o câncer da mulher, os vários filhos fora do casamento – o quais são ignorados por Terlink – e a própria gestão de Furnes, cuja falta de solidariedade produz um suicídio no início da história. Há algo menos sedutor? Terlink é um monstro absoluto, circundado de idiotas que têm dificuldade de viver sem ele, mas a segurança com que Simenon leva sua narrativa não é menos monstruosa e sem compaixão.

Além do Burgomestre, os maiores romances desta face de Simenon provavelmente são Sangue na Neve , O homem que via o trem passar, O gato e Em caso de desgraça. Todos foram reeditados pela L&PM em sua coleção de pockets.

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Uma Virose e Duas Miniaturas

Meu início de semana foi muito ruim. Quando decidia fazer alguma coisa vinha a febre; então, tomava o antitérmico e deitava-me para sentir naúseas ou ser atacado pela diarréia. (Este negócio de ir ligeirinho para o banheiro como uma gueixa em fuga é das coisas mais humilhantes, não?) Aí sentava na cama para melhorar da náusea e acabava me interessando por alguma coisa e começava a me mexer. Animava-se mais e saía da cama para voltar a sofrer os tremores da febre. Um saco!

Um dia alguém me pediu para escrever histórias em 300 toques, título incluso. Não lembro bem quem foi que pediu e muito menos se foram publicadas. Sei que encontrei duas em meu micro ontem.

Além de ser um desafio para um cara que gosta de discorrer calmamente sobre os assuntos, foi muito divertido escrevê-las, Primeiro, fiz uma grade de 20 linhas, com 15 caracteres em cada uma. Depois, fiquei mais esperto e usei o BrOffice para contar os toques (opção Arquivos, depois Propriedades e Estatísticas).

O resultado está a seguir. A primeira historieta é original, a segunda é um ultrarresumo de outra pequena história já publicada.

1. Casou-se com o Corretor

Acorda e decide matar-se. O celular toca : “Filha, me deu outra crise, venha”. Vai à sacada e olha e rua, mas não quer pular de pijama. Veste-se e pensa na mãe: merda, só atrapalha. O celular de novo. A morte. Desce e dirige de olhos fechados. A despesa não supera a franquia.

2. A Erudição Rejeitada.

— Se desejas me conhecer — disse o conhecido intelectual — , ouve isto. É a 7ª de Beethoven.
Queria mostrar-se sublime.
Separaram-se na frente do prédio. Ao entrar, ela indaga ao porteiro:
— Que música te descreve?
— Ora, Gostoso Demais, da Bethânia.
Ela riu. Acabaram subindo juntos.

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Também amor, penso

Elogio (da inteireza)

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

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Atenção, O Aleph agora é de Paulo Coelho!

Que coisa triste! O mais influente (…) escritor (?) brasileiro (argh!) vai lançar em julho seu próximo livro, chamado singelamente O Aleph. Com isso, penso que Paulo Coelho procure agregar à sua obra a grife de Jorge Luis Borges, autor de um importantíssimo volume de contos chamado casualmente de El Aleph ou O Aleph. Coincidência?

O que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço, dizia Borges (1899-1986). Para Paulo Coelho, o Aleph é um ponto que contém todo o universo e que nos transporta a outra dimensão, em busca de uma resposta. Na obra, o autor descerverá uma grave crise de fé, o que faz buscar — talvez no pontinho-tudo — o caminho da renovação e do crescimento. Notável.

Apesar do Aleph ser um ponto, o autor espertamente visitou a Europa, a África e a Ásia em plena crise, sempre na desesperada busca de si mesmo. Ou do Aleph. Nesta viagem, seguiu a recomendação de J., seu mestre espiritual: “Está na hora de sair daqui, reconquistar seu reino”. E o autor foi, talvez de TAM.

— Às vezes, é necessário deslocar-se de si próprio para localizar seus próprios passos em outros lugares terrenos e espirituais.

Interessante. Não sabemos se Paul Rabbit levou o pontinho na viagem ou acabou esbarrando com ele por aí. Os argentinos vão adorar a confusão que Rabbit criará no Google, misturando-se à Borges. Vou parar por aqui a fim de revisar meu livro de contos: Ficcciones.

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Quando li O Grupo, de Mary McCarthy…

… devia ter uns 14 anos. Sim, era lá por 1971 e eu achava que devia ler livros de pessoas mais velhas. A história gira em torno da formatura e do encaminhamento na vida de um grupo de jovens formadas pela elitista universidade de Vassar. O foco é sobre o período pós-universitário. O livro é de 1963 e lembro de ter gostado demais dele. Era realista e adulto. Lembro que fiquei pasmo com uma cena logo no início: alguém mais velho, talvez um professor, masturba uma das moças com certa frieza e desinteresse. Então sexo podia ser aquilo? Que estranho. Estava na praia, lendo na rede. Fiquei sentado, pensando. Voltei a deitar e continuei a leitura.

Há também um filme de Sidney Lumet. Lembrei de O Grupo por causa deste post e da frase de Eduardo Pitta: “Enquanto houver livros como este de Mary McCarthy, os domingos nunca são chatos”. Deve ser verdade.

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