Os Ateus, o Novo Ateísmo e os Ateus Devotos (?)

Publicado em 14 de novembro de 2006

A revista Época desta semana traz como matéria de capa um interessante artigo sobre um movimento ateu liderado por alguns cientistas do hemisfério norte. Eles buscam diminuir a “influência de Deus” no mundo e sua motivação não é somente a de acabar com as guerras religiosas, mas impedir que a religião continue atrapalhando o progresso da ciência. Porém, é importante notar que este Novo Ateísmo não tem como alvo tornar ateus os devotos, mas fazer com que os dubitavos agnósticos declarem-se finalmente ateus e passem a combater a maléfica influência.

Admito que haja agnósticos autênticos, porém a palavra tornou-se um substituto educado para que não se use a palavra feia: ateu. O agnosticismo é uma atitude que considera inúteis as discussões sobre questões metafísicas, já que estas tratam de realidades não conhecidas… Pode ser sincero, mas é também confortável. Uma das coisas mais cômicas que encontro no Orkut é o alto número de pessoas que declaram-se agnósticas. São pessoas que são indiferentes a Deus e a religião, mas que não querem complicações com os crentes. Talvez por ser viciado em tentar dizer a verdade – vício que me traz liberdade mas que nunca me trouxe vantagens, muito pelo contrário -, não consigo utilizar este contorno. O estranho é que, mesmo declarando-me ateu, tenha um crescente número de amigos cristãos, alguns inclusive me ameaçando freqüentemente de conversão e todos – mas todos mesmo, como se tivessem combinado – dizendo que meu santo de devoção seria São Francisco de Assis, sobre o qual pouco sei, mas que deveria estudar, segundo eles. Conversamos jocosa e civilizadamente sobre religião; ou seja, eu não os considero perigosos nem eles a mim, nem quando ponho na mesa meu principal argumento, que é também utilizado pelo Novo Ateísmo: o de que a religião não está apenas errada, como é moralmente perversa e faz mal ao mundo.

Já a posição dos novos ateístas não é tão tranqüila e o fato do movimento ser levado adiante por cientistas não é casual. Segundo eles, a religião – com sua incontrolável mania de se meter em tudo (em vez de só rezar, crer e fazer seus membros seguirem seus preceitos…) – tem claramente atrapalhado o progresso da ciência. Ou seja, o que para mim é secundário, quiçá uma discussão interessante em um jantar, para eles é perda de liberdade.

Há novidades engraçadas – como não haveria? – no Novo Ateísmo. Há o brasileiro que transformou o Natal em Newtal, homenagem à Isaac Newton, nascido em 25 de dezembro. Ele coloca maçãzinhas na árvore em vez de bolinhas coloridas…

A estratégia do grupo é inteligente. Convencer um agnóstico a ser franco é mais viável do que desconverter um convertido. Minha experiência diz ser impossível deslocar em um centímetro um crente de sua fé. O crente possui absoluta, autêntica e tranqüilizadora necessidade de acreditar num ser superior, por mais estranho que isto me pareça. Porém, para mim, o fato do número de ateus ter crescido – fato admitido inclusive para Igreja Católica – aponta para um longínquo futuro em que grande parte das guerras religiosas não ocorram por simples por falta de religião suficiente…

Indo bem mais longe do que a matéria da Época vai, digo que em sentido diverso vão os chamados ateus-devotos. Estes seres um pouco mais confusos que o habitual, normalmente italianos, não crêem em Deus, mas julgam que os “valores da religião” podem ajudar a sociedade ocidental a se defender do perigo islâmico e daquilo que eles consideram as novas invasões bárbaras, vindas do terceiro mundo. Para esses “intelectuais”, a Igreja Católica defendeu durante séculos os valores europeus, por isso eles temem que sua perda de influência termine por debilitar as relações do velho continente com o resto do mundo. Os Atei Devoti pregam algo como uma Bíblia sem Deus, ou crucifixos sem fé. Acho cômico, pois o diabo talvez não tenha receio destes crucifixos de fantasia…

No último dia 19/10, em Verona, o Papa Bento XVI estendeu a mão a estes intelectuais que temem que a Europa torne-se uma “colônia do islã”. Reconheceu que “numerosos e importantes homens do mundo da cultura, inclusive muitos que não compartilham a mesma fé ou não a praticam”, estão preocupados com os riscos que a Europa corre se romper com suas raízes cristãs. Recordou que os cristãos estão abertos aos valores autênticos da cultura moderna, como o conhecimento científico, o desenvolvimento tecnológico, os direitos do homem, a liberdade religiosa e a democracia.

Ou seja, a se acreditar nestas palavras, o Papa daria força aos cientistas do Novo Ateísmo. É tudo muito estranho, nada místico e não sou louco de me aprofundar no que será o novo desenho religioso de um Primeiro Mundo cheio de alienígenas e de cientistas fora dos laboratórios. Talvez Jan Mabuse (abaixo) já estivesse antecipando coisas…

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Queremos de volta as PEQUENAS e acolhedoras livrarias

Publicado em 2 de outubro de 2006

Introdução:

O que é ser old-fashioned? Creio não satisfazer os requisitos mínimos para receber tal epíteto. Uso celular, tele-entrega, cartão de crédito, vou ao shopping (pouco, mas vou), compro na rede, corro na rua (quando posso vou à academia), visto-me como os outros, passo o fim de semana de tênis, mexo com mp3, logo terei um iPod, leio livros e vejo filmes contemporâneos, não sou conservador e não sinto grandes saudades dos tempos passados. Por outro lado, tenho consciência de que os filmes, a música e a literatura contemporâneas são inferiores àquela que se praticava há meio século, assim como meu filho de 15 anos – que passava indagorinha na minha frente -, ao ser questionado sobre o que mais seria atual, respondeu:

– Pai, música ruim é uma coisa bem atual.

E ele, que está sintonizado com seu tempo, que vai a festas, dança, namora, fica, estuda e passa seus dias no Orkut, enfim, que sabe o que há por aí, ouve mesmo é The Who, Led Zeppelin, Bob Dylan, Beatles, Stones, Pink Floyd e Black Sabbath em CDs, assim como eu vejo A Noite de Antonioni em DVD. Mas tergiverso, deixem-me retornar a meu assunto.

De uma forma geral, não creio absolutamente que a humanidade esteja pior do que era, apenas creio que está mais vulgar, mais superficial. Acredito nesta frase de considerável sutileza, humor e conteúdo político, que li no extinto blog português Bombyx Mori:

Não vogando já na doce ilusão de uma sociedade sem classes, concordei em viver numa sociedade sem classe.

Sim, estou adaptado para viver numa sociedade sem classe. Qual era minha outra opção? Desde que a TV não fique ligada naquelas horríveis séries americanas ou na nova e imbecil televisão inglesa, desde que não me obriguem a ler Paulo Coelho nem a ouvir funk, vivo bem. Mas há coisas que não suporto, que me afetam e uma delas está descrita com notável riqueza de argumentos e ironia no texto de Fernando Monteiro que apresento a seguir. Também não acredito que quem escreva os livros que Fernando escreve, os quais estão flagrantemente à frente daquilo que se produz no país, possa ser chamado de old-fashioned ou saudosista. Provavelmente, ele seja justamente o contrário. Fernando Monteiro é autor, dentre outros, dos excelentes Aspades, ETs, etc. (Record), O Grau Graumann (Globo) e do recente As Confissões de Lúcio (Francis).

Queremos de volta as PEQUENAS e acolhedoras livrarias – Por FERNANDO MONTEIRO

Não sei de onde terá vindo o modelo, em voga, das megalivrarias. Se já inaugurou uma na sua cidade, você sabe que estamos falando de alguma coisa daquelas que, a princípio, parecem muito boas e brilhantes, até se ter – no caso das livrarias dos “centros de compras” – a curiosa impressão de livros para ver nas estantes, como holografias sob holofotes, se é que me entendem os que já espirraram em alguma quieta livraria de Trastevere ou de Ipanema mesmo.

Não me sinto numa livraria nesses espaços novos e monumentais, com livros cativos da apresentação suntuosa de celofane e capas envernizadas, mocinhas e rapazes meio zombies e fãs de Caetano vendendo obras que nunca irão ler, os títulos como que disfarçados sob o clima de consumo de cultura ao som de música ambiente e mastigação de pão de queijo com capuccino na cafeteria das ditas cujas super-hiper-megas “lojas” de livros (assim as chamam os seus proprietários orgulhosos dos metros quadrados) etc.

Suponho que esse modelo triunfante tenha vindo dos shoppings que pouco têm a ver com livros fora de moda, acomodados nos pequenos espaços de silêncio acolhedor, sem música, café e “área educativa” para crianças brincarem com livros como objetos descartáveis na forma de elefante, leão e hipopótamo supostamente simpáticos.

Comprei quase todos os meus livros – depois de muito procurar ou escolher – no ambiente limitado de livrarias que já não estão nos seus lugares, foram fechadas, extintas e até mesmo demolidas para existir só na memória do tato, dos dedos examinando volumes numerados e assinados, não escapando o leitor compulsivo de aspirar o cheiro das páginas de livros portugueses, espanhóis e franceses de folhas à espera das espátulas aposentadas.

Havia um ritual com o livro, uma cerimônia secreta no manuseio desse “produto” venerável e mais digno de ser embrulhado do que ser entregue num saco plástico com propaganda de croissants gordurosos e outras parcerias das novas livrarias guinchando o leitor para a compra do acessório – porque o Livro talvez seja um estranho no ninho das novas livrarias suntuosas de espelho, luz e vazio como uma casa moderna num antigo filme de Antonioni sobre o eclipse do humano na noite da incomunicabilidade.

Minha vista educou-se na luz discreta sobre as lombadas, sou do tempo de estantes até envidraçadas, onde os livros do estoque semelhavam as estantes de uma casa, enquanto os lançamentos estavam nas bancadas acessíveis, sob a luz amarela de lâmpadas antecipando o tom dourado da tarde ir suavizando as coisas lá fora, quando o crepúsculo na Rua da Imperatriz vinha por sua coria na sombra das árvores curvadas sobre o rio cortando a cidade.

Num tempo em que tudo virou Mercado, eu sei que o livro – um dos “objetos” mais antigos do mundo – teria a sua vez de ser tratado como produto, em dezenas de telas de terminais de computadores que amputaram o prazer de descobrir um título apertado nas estantes das livrarias de outrora, antes do admirável mundo novo do e-book e do livro on-line, entregue pelos fantasmas sem mãos da virtualidade.

“Imperatriz”, “tom dourado”, “fantasmas” – essas são palavras propositadamente deslocadas para tratar do tema das livrarias espetaculares no lugar das livrarias ricas de modéstia e calma, expondo Suave é noite como um mistério a ser decifrado. No lugar disso, agora entramos numa livraria-monstro do gosto desta época (será mesmo?) e todas as luzes violentas do comércio se acendem sobre capas gritando nos ouvidos dos meus olhos: compre, compre, compre.

A leitura não é – nunca será – estimulada pelo impacto. A grandiosidade equivocada não tem o que fazer por livros de verdadeira qualidade, que o tempo vela e que você descobre, cedo ou tarde, secretamente acumulando a estranha sabedoria das obras indefiníveis num certo escaninho da alma.

“Alma”? Desculpem pela palavra (este é um texto de gosto antiquado).

Ia eu dizendo que não se conquista (nem sequer os pequenos leitores) pelo aliciamento para o reino demolido das palavras, tipo “aqui, temos um espaço para vândalos-mirins brincarem com livros como se fossem bonecos sempre-em-pé como uma bola quadrada; aqui, você ouve música, aprende-se karatê e a fazer sushi de ikebana. De quebra, vende-se livros com sabor de literatura de plástico para o namorado que não esteja sabendo o que dar para a namorada, etc.

Em defesa das super-livrarias, deve-se dizer que elas podem ser boas ao menos para marcar encontros: ninguém deixa de ver uma dessas grandes “lojas” de livros do tamanho de estacionamentos verticais, brilhando como catarro em parede de vidro. Brilho sob brilho, são lágrimas na chuva os lamentos chorados sob os números estonteantes das livrarias de 200 mil títulos como que resguardados da leitura – e nenhuma obra de salvação que possa evitar o suicídio de um mendigo desesperado.

Os livros – alguns livros – podem salvar o mundo (e o pedinte de Fiodor), além do novo papa e até você – que gosta das jumbo-livrarias instaladas nos espaços-âncoras dos monster-shoppings.

Mas, você realmente gosta das grandes, modernas, assépticas e abstratas livrarias do gosto de Matrix?

O Livro vem do enrugado pergaminho e do silêncio de claustro das universidades medievais empoeiradas. Debaixo do pó, elas preservaram o mundo da antiguidade clássica no meio do mistério cristão-bizantino. Há obras sobre isso, lacradas sob liso papel celofane, na seção de livros de arte das completas, maravilhosas, incríveis “MacBooks” que nem são mais livrarias, ou não mais apenas isso, essa palavra que lembra alfarrábio, manuscrito, sebo, vela, pena, papel de arroz, percalina, douradura, encardenações inglesas, gravuras e lembranças da margem esquerda do Sena transferida, afinal, para a direita do capitalismo triunfante do final do século 20.

E uma livraria da nova cultura é uma coisa do 21, do jogo iluminado para admirar e comprar (e ler?) os livros entregues em sacolas de plástico reciclável, colorido e artificialmente aromatizado.

Por que procurar um livro obscuro, para que comprar o “Judas”, numa imensa livraria cheia de estudantes comemorando o novo Dia de Matar o Índio? Numa velha livraria, pequena e cheia de pó, se você não achava o livro já-não-lido de Thomas Hardy, terminava levando um outro, algum livrinho que você não buscava e que se revelava capaz de mudar a sua vida, debaixo da luz fraca, no meio da relativa calma do antigo lugar dominado por um porta de guizos.

Mas, quem quer calma? E quem ainda quer ouvir guizos, címbalos, sistros, quando todos parecem preferir percussão metalizada, sintetizada e aumentada entre as escadas que dão acesso ao telão instalado no andar de cima, o andar eletrônico das benesses do Mercado “que recupera tudo”?

Numa antiga livraria demolida você poderia encontrar até um livro desconhecido de George Katsimbalis – aquele que gritava para os galos da Ática – e, talvez, quem sabe também o grande amor da sua vida, calçada com galochas, num sábado de chuva (“ela entrou, sob o som delicado da porta, e você a viu sob a luz coada, a fronte molhada dos pingos na franja um tanto juvenil”)…

Poesia! Para que serve a poesia – numa grande e dispersa livraria? Como no poema de Ascenso Ferreira: “para nada”, quando já não parece haver tempo para poesia & amor entre dois cafezinhos. O tempo ruge, a calculadora urge, a época é fria e ninguém mais usa galochas – mesmo nos sábados antigos dos novos romances com o gosto ressecado de pão de queijo frio. E, em vez do galos da Ática, ouve-se os címbalos falsos do mais novo “romance” de Paulo Coelho abarrotando a entrada da cultura e o caixa.

Melhor: se você achar que PC já era, está chato e repetitivo das bobagens que ele sempre repetiu, leve a nova versão de auto-ajuda elaborada por Lya Luft, com a inteligência da gaúcha agora a serviço dos descartes do livro-sanduíche-íche-íche. É o produto, por excelência, das super-hiper-megalivrarias.

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Fui Roubado!

Publicado em 12 de setembro de 2007

Pois não é que fui roubado? Grande novidade, não? Quem ainda não foi? Na entrada de um jogo de futebol, no meio daquela aglomeração, alguém pôs a mão no meu bolso para levar apenas R$ 30,00, mas também quatro cartões de crédito, identidade, CPF, carteira de motorista, Unimed, enfim, toda a tralha.

Para a sorte dos gaúchos, existe um local chamado Tudo Fácil, onde a gente entra e sabe que os problemas acabaram ali, bem na porta. Sem existir na prática, sem ter como me identificar, munido apenas de uma das poucas coisas que me documentam neste mundo, minha certidão de nascimento, e de minha foto – pois, surpreendentemente as máquinas fotográficas não recusam pessoas mui discretamente existentes – cheguei ao balcão para solicitar a segunda via de minha carteira de identidade.

– Bom dia. Eu quero tirar a segunda via de minha identidade. Aqui estão duas fotos, a ocorrência policial relatando o roubo, minha certidão de nascimento e o número do CPF com meu nome emitido pela Receita Federal.
– Para que a segunda via da identidade tenha o CPF impresso, preciso do cartão do CPF.
– Ele foi roubado também, veja na ocorrência, e, como já lhe disse, eu tenho um documento da Receita que obtive na Internet. Aí está até um código que garante sua autenticidade.
– Não serve, preciso do cartão.
– Isto aqui não vale nada? Foi emitido pela Receita!
– Não serve, o Sr. pode solicitar uma segunda via, mas vai sair sem o CPF.
– Bem, então não quero fazer. E onde posso conseguir a segunda via do cartão de CPF?
– Nos correios.
– ?!?

Sem saber qual é a relação dos correios com a Receita Federal, fui à agência matriz do correio e me informaram que, para tirar o cartão do CPF, eu precisava apresentar o Título de Eleitor. Querendo saber o que tinha a ver o cu com as calças, perguntei:

– Para quê?
– É exigido, Sr., não há assim um motivo tipo causa e conseqüência, entende?

Então, resolvi ser brasileiro. Fui a uma agência do Banco do Brasil onde trabalha um conhecido e relatei-lhe o problema e que achava ridículo pegar o Título de Eleitor para algo que não tinha relação alguma com eleições. Ele me ofereceu um café e demos gargalhadas com as piadas que inventamos sobre a burocracia. Como ele trabalha no Banco do Brasil, tinha histórias muito mais kafkianas. Fiquei quase feliz. Por R$ 5,50, o banco poderia solicitar outro cartão de CPF para mim, mas na hora do pedido, no computador, veio a pergunta: qual é o número do Título de Eleitor do Milton?

Sei lá, ora. Entramos na Internet e fomos ao site do TRE. Lá, havia uma forma de pesquisar eleitores pelo nome. Pesquisamos e encontramos Milton Luiz Cunha Ribeiro. Como informação principal, dizia que eu votara sempre, desde pequenininho, que era um bom cidadão e, como complemento, dizia que o número do meu título era o 861762778272816716 ou algo parecido. Fiz o pedido. Demorará trinta dias para chegar…

Agora, vou ver como tiro a segunda via da Carteira de Motorista. Já sei que preciso de fotos, da ocorrência e de um comprovante de residência. Ai. Como farão para me surpreender desta vez?

Observação nada a ver: uma pessoa chegou aqui através desta pesquisa no Google: “nao sei que movimento devo fazer com a língua na hora de dar um beijo”.

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Sons, Blogs, Literatura e Poesia Descosturadas num Post Curto e Confuso

Publicado em 3 de agosto de 2007

Em 2003, publiquei um post de boa repercussão sobre a Rádio da UFRGS. Uma amiga minha, ao ler aquele post, repassou-o a sua mailing list da UFRGS e isto foi fatal. O Departamento de Artes inteiro leu, até os aposentados da Universidade leram. Sofri alguns ataques de estudantes, mas sabia que tinha razão e, mais importante, a rádio mudou, adequando-se magicamente ao que eu tinha pedido.

Achava que tudo tinha sido casual, talvez tivesse ocorrido uma mudança já planejada, sei lá. Isto até ontem, quando uma funcionária da rádio sentou-se na minha frente por razões profissionais e descobriu que era eu o autor da “bomba”. Soube que o post havia sido discutido longamente, que eu era detestado por alguns e amado por outros e que a rádio aceitara alguns de meus argumentos.

A rádio anda otimamente bem com seu jovem programador, sobre quem tenho uma história estranha. Um dia, lá no início de 2005, quis fazer uma entrevista ao vivo ou por escrito com ele; tal entrevista serviria como uma espécie de reconciliação com a rádio, porém, quando ele soube que eu era o autor daquelas críticas de 2003, tratou de fugiu de mim como o diabo da cruz ou a cruz do diabo, tanto faz. Alegou timidez e fiquei me sentindo um leproso. Entendi agora. Sem problemas, ele é excelente, conhece música e a rádio está arrasando no item qualidade.

Estas pequenas histórias servem para sublinhar o surpreendente poder dos blogs, que receberam excelente artigo na revista Época deste mês, com destaque para a incrível foto de um Inagaki em camisa-de-força.

Por falar em rádio, todos os interessados em literatura deveriam ouvir a belíssima entrevista de João Gilberto Noll para a rádio Antena 1 portuguesa. A entrevista, conduzida magistralmente pelo escritor português Francisco José Viegas, pode ser ouvida na íntegra aqui. E vejam que nem admiro tanto o Noll. Porém, encantou-me a forma hábil com que o Viegas retirou de Noll detalhes sobre seu universo, sobre a marginalidade de seus personagens e como o contextualizou no mundo e no Brasil. A civilidade e o conhecimento do entrevistador revelou a riqueza do entrevistado. Não é para qualquer um. Uma jóia imperdível para quem gosta de literatura e sinceridade.

Com a finalidade de unir de forma esfarrapada estes dois assuntos, há o declaradíssimo e derramado amor de Noll por Bach e por Porto Alegre – o sul, o sul -, amores que compartilho com ele e onde me descubro seu par. “A catedral viva” de Bach, o homem que é sempre sublime – expressões utilizadas por ele na entrevista -, torna-nos irmãos agnósticos crentes na religião da música. Ah, e Noll mostra conhecer bem o caráter dos blogs. Não adianta, de escritores a programadores de rádio, de ex-mulheres a advogados, todo mundo lê blogs.

Para ouvir a grande rádio da Universidade – ativa há 49 anos – em seu micro, clique aqui e vá seguindo o “AO VIVO”: vale a pena!

Diálogos Amorosos:

– Hum – digo.
– Eu sei que não foi muito engraçado, mas fico triste quando invento uma piada e tu não ris.
– (Risadas.)

Utilíssimo Manual (Revisitado hoje):

Eu era recém separado e a procurava com um manual na mão. Quando via uma, observava-a detidamente e fazia a comparação com o manual. Não descansava. Ele já estava manuseado, amarelado e engordurado; abria sozinho naquela página. Era só o que eu queria e tinha que ser. Não fosse daquele jeito, tudo voltaria. Até que encontrei.

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Poema da imensa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen.

(O manual pode ser encontrado no Brasil em Poemas Escolhidos, Companhia das Letras, 2004.)

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Depois da Cirurgia

Publicado em 24 de julho de 2007

E quando, ademais, abro o pacote diante de testemunhas, como agora, ao desempacotar estas frases cruas, brutais, muitas vezes sentimentais e banais também, escritas, porém, com mais despreocupação do que quaisquer outras, não sinto nem mesmo a menor vergonha. Se sentisse a mínima vergonha, não conseguiria escrever coisa alguma, apenas o desavergonhado é capaz de escrever, apenas o desavergonhado está capacitado a apanhar as frases, desempacotá-las e simplesmente arremessá-las, só o desavergonhado supremo é autêntico. Mas também isso, como, claro, tudo o mais, é apenas uma falácia.

THOMAS BERNHARD

A citação acima é mais do que necessária. Afinal, esta será uma desavergonhada anotação de pensamentos e de atitudes durante uma situação de crise e medo. Crise e medo injustificáveis, no final. Sinto certo constrangimento por ter sentido tanto medo, tanto receio; agora que tudo deu certo, em vez de ficar feliz, tenho vontade de dizer que sou um cagalhão. Tento inutilmente me convencer de que fiz uma cirurgia que poderia ter deixado feias seqüelas, mas não acredito mais nisso, é como se tudo fosse um embuste. Mas, vá lá. Vou escrever sobre o que aconteceu procurando desligar todos os filtros que me tirem da linha reta. Obviamente, isto é impossível: os fatos ocorrem é já os tornamos história catalogada em belos ou feios volumes encadernados em nossa memória, porém não custa tentar o impossível de anotá-los friamente. Como se não bastasse, toda anotação de uma história pessoal e tensa fica ridícula quando o resultado é alcançado rapidamente e é melhor que nossa mais feliz expectativa. Os registros de histórias que dão certo são um pouco nauseantes, sei lá.

O fato é que fui ao jogo de quarta-feira com a clara finalidade de esquecer a cirurgia do dia seguinte. Deu certo. Saímos eufóricos e arrumei as coisas para ir ao hospital sem pensar no medo que tinha de minha primeira operação na vida adulta. Dormi pouco, pois tinha que chegar ao hospital às 6 horas. Saímos cedo, eu, a Claudia e minha sogra; lá, fiz a internação e – por volta das 7h15 – fui encaminhado para uma salinha onde tirei toda a roupa e pus aquelas roupas engraçadas de doente. O único momento em que fui deixado sozinho com meus pensamentos foi na tal salinha, sentado no sofá, enquanto esperava a chamada. Como uma criança, juntei lado a lado os polegares das mãos e vi como eles refletiam a luz que entrava pela janela. Vi como a superfície das unhas não forma curvas perfeitas e sim diversas faces planas e paralelas, unidas entre si. Girava lentamente os polegares e via o reflexo da luz passar de uma faceta a outra. Olhava as linhas paralelas que vinham da raiz da unha e pensava em como sempre me dei mal nos momentos de crise em que permaneci passivo. Pensava em como escolhia a passividade nos momentos de crise e deixava para outros a resolução de meus problemas. Pensava em quão prejudicial esta “estratégia” havia se mostrado em outras ocasiões, em como tinham me roubado e prejudicado, talvez irremediavelmente, e concluí que tinha que estar, desta vez, ligado. Talvez porque me fosse mais fácil sucumbir do que me revoltar, do que ser contra tudo aquilo, essa era a verdade pura e simples. Muitas vezes nós cedemos, desistimos porque é mais confortável, essa é que é a verdade. (…) Eu tinha escolhido o conforto, a pequenez do adaptar-me e desistir, em vez de me opor, de partir para a luta, independentemente do resultado. Quando acordei, vi talvez três enfermeiros a meu redor discutindo se eu seria bradicárdico ou não. Eles comentavam entre si que eu estava com cinqüenta batimentos por minuto e que talvez o médico devesse ser chamado a fim de acelerar a coisa. Não, não fiz uma revolução, mas saí dizendo com certa veemência que eu costumava correr, estava em boa forma e que aquela era minha freqüência normal. Só havia uma coisa… Eu estava falando e mexendo o rosto normalmente! Fiz testes com minha boca sem sentir dor e entrei numa enorme euforia que me fez passar o resto da quinta-feira falando e defendendo minha alta de tal forma que minha cara acabou por ficar inchadíssima e repuxada para o lado direito. No outro dia, já estava bem novamente e recebi a esperada alta.

Sábado, já livre dos efeitos dos remédios, dormi quatorze horas. Ontem, doze. Nestas condições, e ainda bem cuidado pela Claudia, qualquer cicatrização ocorre rapidamente, creio. Não sinto dor alguma, o Grande Medo simplesmente não se fez presente. Nunca sofri grandes dores físicas, a não ser em dentistas e isto é o suficiente para detestá-los.

Agradeço muitíssimo às manifestações de carinho e interesse através de telefonemas e e-mails. Muitas ligações me encontraram dormindo e eu não as respondi porque sei que falar muito faz com que meu rosto inche, como voltou a acontecer ontem, no almoço.

P.S.- A citação grifada dentro do texto também é de Thomas Bernhard. Aliás, ambas foram copiadas de seus relatos autobiográficos reunidos no volume Origem.

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A Cirurgia

Publicado em 19 de julho de 2007

Muitos perguntaram, enviaram e-mails, etc. e aqui está a resposta. Amanhã de manhã, serei operado da parótida direita. Não sei quantas destas glândulas possuímos, mas sei que o apelido mais famoso delas é o de “glândulas salivares”. O exame – punção aspirativa por agulha fina de glândula parótida direita – deu negativo para células malignas. Mas a coisa segue crescendo do lado direito do meu rosto (mais ou menos à altura do vértice das mandíbulas). Hoje, após ter tirado a barba, pude ver a saliência em todo seu esplendor. Grande.

Tenho irmã endocrinologista; ela disse que é algo tranqüilo, porém, quando perguntei ao cirurgião, ele respondeu que, neste tipo de operação, havia por volta de 2% de chances de o paciente perder os movimentos daquele lado do rosto. Ela confirmou. Não estou apavorado, mas posso dizer que não gostaria de ser conhecido como babão. Ainda mais um babão assimétrico.

O tempo de recuperação é de sete dias e não sei em que condições estarei durante este período. Gostaria de, no mínimo, ouvir muita música. Minha última cirurgia ocorreu quando tinha 5 anos de idade e não imagino como vá me comportar. Deixei pronto o post de sábado – mais uma bela foto de atriz -, porém, depois, não sei quando volto a publicar. Para que vocês, meus sete fiéis leitores, possam avaliar o grau de tranqüilidade (ou negação do fato, isto é, loucura), vou hoje à noite – já dentro do período de jejum – ao Beira-rio assistir meu time tentar uma vaga nas semi-finais da Libertadores contra a LDU.

O motivo de eu estar visitando tão pouco os blogs amigos e de não ir conhecer os que aqui se apresentam comentando, está nos preparativos para este descanso forçado. A correria para deixar tudo organizado e para que minha ausência não seja sentida profissionalmente é grande. Mas é estranho, quanto mais a gente apressa as coisas, mais a demanda nos solicita. Simplesmente não há momento adequado para tirar sete dias em pleno mês de julho.

Até a volta.

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Uma perguntinha sobre aposentadoria…

Publicado em 27 de dezembro de 2006

A pergunta: nas propostas brasileiras para a elevação da idade mínima necessária para a aposentadoria, sempre as mulheres trabalham menos do que os homens. Por quê? Penso que isto sejam sobras de um mal disfarçado machismo, ainda mais se pensarmos que elas vivem, em média, 7 anos a mais que os homens. Por exemplo, se o limite é 65 anos para homens e 60 para mulheres, elas ficarão aposentadas, sempre em média, 12 anos a mais… Por exemplo, se eu me aposentar aos 65 anos e morrer aos 70 anos, que é a média brasileira, receberei o benefício por 5 anos; já minha vizinha, que trabalhou até os 60 e viverá até os 77, ganhará o mísero salário da providência por longos 17 anos.

A propósito, vejamos como funciona nos outros países. Atualmente, quase todos exigem idade mínima para aposentadoria. O que fazem os nossos vizinhos? A Argentina (los machos) exige 65 anos dos homens e 60 das mulheres. O Uruguai exige 60, tanto de homens quanto de mulheres (avançadinhos não?). Na Europa, a Alemanha, pede limites de 63 e 60, respectivamente. Nos Estados Unidos, 62 para ambos os sexos. França, Inglaterra, Canadá, Espanha, Suécia, Holanda e Bélgica exigem no mínimo 60 anos, também sem distinção de sexo.

P.S.- O comentário do meu cunhado, Natal Antonini, é uma obra:

Caro Milton

Realmente isso é uma discriminação. Entendo que é fruto de um pensamento retrógrado de quem acha que as mulheres ainda cumprem dupla jornada pq. teriam que cuidar da casa e dos filhos enquanto nós ficaríamos tomando cerveja e coçando o saco na frente da TV. Isso nós sabemos não ser verdade. Além disso, como elas vivem mais e trabalham menos, acabam tendo mais tempo para se dedicar aos prazeres da vida e a novos relacionamentos quando se livram da gente. Mas nós que somos pessoas modernas e cultas não podemos deixar isso acontecer sem reagir. Proponho que a partir de hoje, pelo menos em nossas casas, estejamos desobrigados das tarefas domésticas, para compensar o tempo de aposentadoria, e que tenhamos também o direito a ter amantes por um tempo equivalente a diferença entre a nossa expectativa de vida e a expectativa de vida delas, para compensar que morreremos muito antes. Proponho ainda que o tempo dedicado as amantes seja o mesmo que elas estarão usando para as tarefas domésticas assim não seremos constrangidos a prejudicar o sagrado tempo que dedicamos aa nossas amadas famílias e nem atrapalharemos nos afazeres domésticos.

Abraços,
Natal.

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Algumas mulheres – tão jovens e lindas – fazem com que eu me sinta assim…


Woody Allen e Scarlett Johansson

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A maioria dos humoristas é triste, já alguns atores…

Publicado em 7 de dezembro de 2006

A atriz Karina Bacchi, estrela deste mês da revista Playboy, surpreendeu ao mostrar um piercing no clitóris. Quando soube da existência do brinquinho, sua mãe levou um susto e pediu à filha que o mostrasse imediatamente, no que foi atendida.

A mãe, Nadia Bacchi, que é presidente da ONG Florescer, sugeriu à direção da Playboy que a peça fosse leiloada a benefício de sua organização. A revista aceitou a proposta.

– Ela fez um ensaio bem ousado, mas ficou bonito. Só espero que as pessoas não deixem de vê-la como a menina linda que é por dentro. Minha filha sonha em apresentar algo para o público infantil – comentou a mãe.

Para averiguar se a menina é mesmo linda por dentro, este blogueiro acredita que só há uma maneira: efetuando a penetração.

Karina agora dá conselhos. Diz que não dói para fazer. Diz que, aliás, dói menos que fazer um furo na orelha ou no umbigo.

— Não muda o prazer na relação. O que muda é a sexualidade feminina. Eu me senti muito mais sexy depois do piercing.

Ela não comentou sobre o leilão do objeto, nem sobre os programas infantis com que sonha.

Obs.: os negritos são responsabilidade deste, agora, mero adaptador de notícias (ou piadas) prontas.

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10 coisas que TENHO que fazer (Simples plano de intenções para 2011 e depois)

Coisas para 2011

1. Emagrecer e voltar a acompanhar meu colesterol. Visitar o cardiologista.
2. Manter as finanças equilibradas como estiveram no segundo semestre de 2010.
3. Arrumar a blibioteca e a discoteca de casa (estantes e organização).
4. Fazer uma visita ao oftalmologista, estou meio cego de novo.
5. Ir a Portugal.

Coisas para depois

1. Morrer antes de meus filhos e amigos.
2. Ter mais tempo para mim.
3. Comprar um Karmann-Ghia.
4. Trabalhar minha vida financeira de forma a que sobre alguma coisa.
5. Trabalhar — sendo útil — até o último dia.

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O Amor em Tempos de Copa (com exclusivo final feliz!)

Publicado em 19 de junho de 2006

Ana Cristtina fazia aniversário em 12 de junho, Dia dos Namorados. É claro que isto apenas a prejudicava. Ganhava menos presentes, ora! Seus namorados, pensava, aproveitavam-se do fato e davam-lhe somente um presente. Mais: tornava-se hiper-sensível neste dia e nos precedentes. Tanto que, no dia anterior, um domingo, mandara seu namorado passear ao ser trocada por Portugal x Angola. Se ainda fosse um jogo do Brasil ou da Argentina, tudo bem, mas Portugal x Angola era demais.

Ramiro respirou aliviado. Estava sem grana e agora mesmo é que não lhe daria presente algum, quem manda ser histérica. Depois, passado o dia 12, tentaria reatar. Afinal, Ana Cristtina valia a pena. Era bonita e boa de cama. Seu único problema era aquela eterna mania de querer discutir a relação aos prantos e tarde da noite, quando ele estava louco para dormir e já pensando na encheção de saco do dia seguinte. Era motoboy por influência de Ana, que fazia o mesmo serviço.

Ana passou o dia 12 recebendo ligações de seus clientes e, cada vez que desligava o celular, dizia em voz alta:

– Puta que o pariu. De novo, não era o filho da puta.

Durante a tarde, chegava e saía dos clientes com os olhos marejados. Alguns, que lhe conheciam há mais tempo, cumprimentavam Ana pelo Dia dos Namorados e faziam seus cumprimentos extensivos a Ramiro. Perguntavam se onde eles iriam à noite, um jantarzinho íntimo, um motel? Ela sorria e não respondia nada. Depois, na moto, mais lágrimas. Ao final da tarde, mais nervosa, passou a acelerar mais e a fazer suas freadas bem próxima aos automóveis. Pensou que um pequeno acidente seria uma boa. Neste momento, como por mágica, uma carro à sua frente deu engatou a ré acertando-lhe em cheio o joelho. Ana deu um grito, descarregando todo o seu ódio naquela má motorista que certamente comprara sua carteira. Mas a mulher que batera em Ana parecia preocupada, saiu do carro pedindo-lhe desculpas, dizendo que iria levá-la imediatamente a um hospital e que aquele estava sendo um dia terrível para ela. Não parecia grave, mas Ana não estava conseguindo apoiar o pé no chão sem dor.

Estacionaram a moto e foram ao hospital. No carro, ambas pegaram seus celulares:

– Ramiro, me acidentei com a moto. Não queria te ligar, mas a quem poderia pedir ajuda?
– Ronaldo, meu amor, aconteceu algo horrível.
– Um carro deu ré bem na minha frente e…
– Sei que não devia te ligar, mas és homem e talvez…
– … acertou o meu joelho. Estou sendo levada para o hospital…
– … saibas a burocracia que envolve um acidente. Tenho…
– … com muita dor… Não, a própria mulher que bateu em mim. Tu poderia vir aqui?
– … seguro e tudo, mas sei lá. Isto é coisa de homem.

Na sala de espera, dois homens esperavam vendo Itália x Gana. Um estava vestido como um executivo, o outro de calças jeans e capacete no colo. Trocavam observações sobre o jogo. O pênalti não marcado por Carlos Simon a favor dos ganeses foi recebido com compreensão. Afinal, todos os gaúchos sabem que Simon é um dos piores árbitros brasileiros, mas que deve ter amigos importantes. Deram risada. Quando ele não deu o segundo pênalti, riram mais ainda. Quando a Itália fez o segundo gol, ambos ficaram vacilantes entre ver o gol e receber Ana e Mônica que apareram no corredor. Ana vinha claudicante, apoiando-se a Mônica.

Os dois homens notaram a simetria da situação e, já sérios, encaminharam-se para suas mulheres.

– Ai, tá doendo, me fizeram uma atadura e me mandaram ficar em casa à noite.
– Eu estava nervosa com nossa discussão, Ronaldo. Imagina que engatei a ré em vez da primeira.
– Tu podes me levar para casa? Putz, logo no meu aniversário…
– Poderia ter matado a menina. Sou uma idiota.
– Obrigado. Mas, acho que não dá para deixar a moto onde ela está estacionada.
– Só quero ir para casa tomar um banho e que este dia passe.

Quando atravessaram a sala de espera, os dois viraram-se para a TV a fim de ver que o jogo tinha terminado 2 x 0. Ronaldo piscou o olho para o amigo.

Ramiro passou a noite com Ana Cristtina. Deu-lhe os parabéns repetidas vezes pela dupla data e, se não houve presentes, não faltaram beijos e suspiros no pequeno apartamento dela. No lugar de discutirem até altas horas, a única provocação que houve foi a de Ramiro dizer que os dois tês do nome de Cristtina significavam “tesão” e “TPM”. Riram. Do outro lado, Ronaldo, o cidadão um pouco gordo que namora Mônica, fez o mesmo, dormindo fora de casa.

Por serem pessoas normais, não viveram felizes para sempre, mas garanto-lhes que, naquela noite, tiveram a ilusão de que isto seria possível.

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Copa do Mundo (Maitena)

Publicado durante a Copa do Mundo de 2006…

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O calor que atrapalha tudo

Ontem, às 19h30, corri 5 Km em 33min.

Hoje, às 9h, conrri 5 Km em 28min14.

Não sei a diferença de temperatura, mas era algo como de 33°C ontem e de 27°C hoje.

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O Salário Moral de um Dia Triste

Publicado em 1º de junho de 2006

Comecei o dia lendo no jornal a pior das notícias. Morrera o pai do melhor amigo de meu filho. Acordei-o e dei-lhe a notícia quando saía do banheiro. Fora uma uma longa doença, o fato era esperado, mas ficamos muito tristes, é claro. Daniel Herz era um jornalista e intelectual, mas antes disso era alguém doce, que gostava de conversar e que tinha recebido o Bernardo em sua casa por centenas de vezes, assim como recebemos o Guilherme. Gostava de conversar com ele. Era alguém inteiro.

Macambúzios, descemos antes das sete da manhã para que eu levasse os meninos à escola. Nosso carro, pela primeira vez em anos, não ligou. Bateria, motor de arranque, alternador? Não sei. Fomos de táxi até a casa de minha santa sogra – santa mesmo! – para pegar seu carro emprestado. Os guris chegaram atrasados na aula.

Depois de um compromisso que me tomou metade da manhã, voltei para devolver o carro e fui em casa ver o que tinha acontecido com o nosso. Com meus inexistentes olhos de mecânico, achei tudo normal. Chamei o seguro e fui ver meus e-mails. Havia este:

(Para tudo! Antes tenho que contextualizar meus sete leitores para que compreendam o e-mail:

Um dia, pelo MSN, Paulo José Miranda, escritor português e meu amigo, contou a história de uma pequena grande livraria da cidade de Aveiro, em Portugal. Esta livraria, chamada O Navio de Espelhos não é um estabelecimento comercial trivial. Ela tem como donos pessoas que conhecem livros e que, além de promover encontros entre leitores e escritores em ambiente agradável, patrocinam uma programação diária de serões de narração, noites de poesia, serões de contos, debates, comunidades de leitores, etc., tudo entre chás e bolos. Até aí tudo muito civilizado. O incivilizado começa agora. Ao lado da livraria, foi inaugurado um shopping e, no shopping, uma destas megalivrarias onde não há espaço para nada disso e muito menos para livreiros cultos. Então, Paulo propôs uma reação ainda mais civilizada. Sugeriu que fossem distribuídos aos leitores contos inéditos de escritores amigos da Navio de Espelhos. Aí entrei eu. Completo dizendo que Aveiro – cidade que não conheço – é a cidade onde nasceram meus avós paternos.)

Agora o e-mail que li:

—————————-
Caríssimo Milton,

Antes de mais, muito obrigada por nos ter enviado um inédito seu.

Nós imprimimos numa edição caseira, que temos a “petulância” de achar muito bonita. Imprimimos 50 exemplares à vez aqui na nossa “oficina”. Depois vestimos, cantamos, dizemos, pintamos o seu texto e os demais. Fizemos “quase” tudo. Na prática esta ideia do Paulo fez-se gente e está a crescer devagarinho mas de forma preciosa. É uma história dos afectos.

Esta ideia dos inéditos é uma história de amor. Do que se pode fazer quando se quer lutar por alguma coisa incondicionalmente.

Obrigada por participar.

Envie-nos, por favor, a sua morada e nós enviamos o seu inédito impresso por nós e também os outros inéditos, a fazer de conta que nos veio visitar.

Mais uma vez,

Obrigada.
—————————-

Fiquei absolutamente feliz, mas não pude responder porque tinha que tratar do carro – que foi rapidamente consertado – e de buscar meu filho a fim de levá-lo ao velório. Foi com um misto de pressa e cuidado que respondi quando cheguei ao escritório.

—————————-
Querida Sónia.

Talvez seja difícil imaginar o que esta proposta do Paulo teve de “afetos” também deste lado do mundo. Nunca fui à Portugal, mas meus avós vieram de Aveiro. Tua cidade é a única de Portugal com a qual tenho ligações afetivas. Sempre penso: “E Aveiro? Quando?”.

Quando o Paulo me falou sobre a idéia dos inéditos e tua livraria, aderi imediatamente ao plano e o farei sempre que desejares. Podes (e deves) usar e abusar daquilo de bom (ou ruim…) que eu venha a produzir. Nunca senti tão fortemente aquilo que Borges chamava de “a nostalgia do desconhecido”. Anteontem, o Paulo avisou-me que nossos livros estavam na vitrine (montra) de tua livraria. Logo pensei: puxa, estou em Aveiro. Adoraria – e como! – receber o exemplar de minha modesta farsa de tuas mãos, dentro da tua livraria, mas… Já que não é possível, vamos a meu endereço:

Outra coisa: muitas vezes escrevi – e até comentei certa vez com o Luís Graça – sobre as grandes livrarias sem personalidade, com caras de shopping e com atendentes que parecem nunca ter aberto um livro. São uma praga. Nego-me a fazer compras nestes lugares da pressa e da falta de contato humano.

E mais: se considerares que tens poucos exemplares dos outros inéditos, por favor, não os envie. De forma alguma gostaria de deixar um de teus clientes a ver, por assim dizer, navios. Mas faço questão de ter o meu! Afinal, quero a minha parte nesta história de amor….

Um beijo carinhoso e muito obrigado.
—————————-

A expressão “salário moral” do título me foi trazida por outro escritor amigo, o pernambucano Fernando Monteiro. Significa aquilo que ganhamos em centímetros quando um fato nos envaidece. Creio que ele poderia nos explicar melhor nos comentários.

Observações Finais:
1. Não dei o nome da livraria porque ainda não pedi autorização a seus donos para contar esta história.

Up-date das 9h: Recebo outro e-mail de Aveiro:

Milton, venho secretamente trabalhar nos papeis quando o resto da cidade ainda tem a cara encostada ao lençol. É nesse instante que abro o seu e-mail. Bela maneira de começar o dia.

Autorização concedida.

Muito obrigada.
Sónia.

2. O conto que está sendo publicado é uma versão corrigida e ampliada deste aqui. Minha mulher e a revisora não gostam dele. Eu o acho divertido. Aqui no blog está sua primeira versão.

3. Além do site cujo link coloquei acima, a livraria O Navio de Espelhos – nome mais português impossível! – ainda tem um blog aqui.

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Grenaica

Publicado em 12 de abril de 2006

A Idelber Avelar

Minha filha foi comigo ao Grenal de domingo. Ela tem 11 anos e aquele era o quinto – segundo ela, pois para mim é o terceiro – jogo a que assistia em estádio. Estava encantada com tudo. Lia as faixas, ria dos palavrões, juntava-se aos coros altamente ofensivos ao adversário, falava muito e transpirava certezas. Para mim, a experiência de ir a campo com ela foi a de travar contato com a mais escabelada passionalidade. As faltas cometidas em nossos jogadores eram agressões dignas de dar cadeia, o juiz era um imbecil e os gremistas, idiotas. Se um dia fui assim, esqueci. Talvez eu vá ao estádio pela beleza plástica do jogo e de sua tática (na TV não é tão bonito, nem tão interessante) ou por simples amor ao Inter, mas acredito que a verdadeira razão é a de que o futebol é um gênero de espetáculo que pode ser visto com maior variação de humores e participação do que qualquer outro disponível por perto. Por exemplo, se você for a um concerto, provavelmente não poderá ofender o artista. Vou a muitos concertos; sei que escolho bem e, quase sempre, saio feliz. Às vezes, ele é apenas aceitável. Há possibilidades bem piores, é claro, porém elas raramente incluem a vaia, chamar o artista de filha-da-puta ou a disposição de odiar-se a ponto de desejar a própria derrota – em outras palavras, de desejar o próprio fracasso.

Estou enrolando para dizer isso: um concerto ou qualquer outro espetáculo que aconteça dentro de um teatro são representações mais incompletas da vida do que um jogo de futebol. Pronto, disse! Talvez não consiga dormir hoje. Os fantasmas de Shakespeare, Pirandello, Tchekhov, Bergman, Sófocles e de tantos outros me perturbarão a noite. Sei que os aspectos culturais envolvidos fariam o futebol perder de goleada nos primeiros minutos de uma discussão, mas experimente olhar de frente para uma torcida de futebol com o jogo se desenvolvendo à nossas costas. O sofrimento, a alegria, a expectativa, a frustração e quase todos os sentimentos são coisas presentes, visíveis a ponto de serem quase fenômenos físicos. Talvez até o amor romântico tenha representação no futebol… No teatro elisabetano – época de Shakespeare -, os assistentes manifestavam-se, podiam gritar e fazer piadas sobre Otelo, Iago e Desdêmona, mas, hoje, fazer isto seria uma tremenda falta de educação e até eu concordo. Pô, já imaginaram um cara berrando ao nosso lado, fazendo-nos perder as falas?

A possibilidade de amar, de ser indiferente ou de detestar o próprio time, de ridicularizar ou sentir medo do adversário, de aplaudir ou desejar a própria derrota é exercida plenamente apenas quando estamos no estádio. Acho ridículo sentir tanta coisa na frente da TV. Aparentemente, a Bárbara concorda, pois nunca vê jogos de futebol em casa, não vê emoção naquilo; intuitivamente, sabe que a maravilha está no campo de batalha e no leque de opções por ele oferecidas. Na proximidade do fato e no oscilar entre o píncaro da glória e o possível funeral está o fascínio da coisa.

No caso do jogo de domingo, fomos enterrados. Faltando cinco minutos para o final do jogo, todos estavam em pé e meu filho sentou. Ele não queria seguir assistindo aquela tremenda exposição de incompetência de nosso técnico. Eu e a Bárbara ficamos aguardando o momento mágico e improvável da sorte. Com o jogo terminado, ficamos todos paralisados, sem nos movermos do estádio. Bernardo me perguntou sobre o que estava acontecendo. Disse-lhe que o jogo acabara e que tínhamos perdido o campeonato mais fácil dos últimos dez anos, que eles eram os campeões. Quando olhei para a Bárbara, ela chorava.

Já no papel de pai, fiz com que ela sentasse sobre minha perna e expliquei-lhe que aquilo era uma diversão, que mesmo para mim o futebol era a mais importante das coisas desimportantes e que, enfim, aquele fato não era digno do choro dela. Fomos embora passando entre torcedores boquiabertos, que pareciam hipnotizados vendo a pequena torcida do Grêmio comemorar. Eu falava sem parar. Não queria que ela visse tantos adultos chorando, contradizendo minha argumentação.

Obs. 1: tenho a leve impressão de ter roubado o título deste post de alguém. Se tivesse que chutar, diria que o furto foi feito ao Tiago. Mas é muito tarde para averiguar. Vou dormir. Update matinal: foi sim, foi tirado daqui.

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O que eu ia publicar anteontem

Publicado em 21 de agosto de 2005

Observação importante: Este é o texto que ia publicar no dia de meu aniversário (19/08), mas houve a invasão do post abaixo e, agora que timidamente retomo o controle de meu blog, posso finalmente publicá-lo. Achei simpático o post de livres-associações que escrevi e, por isso, sigo falando um pouco mais em aniversário. Agradeço comovido às felicitações e manifestações de carinho de todos os que comentaram, escreveram e-mails e telefonaram.

Abro minha agenda e vejo que não falam em mim. Leio que hoje é o Dia Internacional da Fotografia, o Dia da Aviação Agrícola e o dia em nasceram Bill Clinton, Aracy de Almeida, Francisco Alves e Marcos Palmeira. Fotografia? Nunca seria um grande fotógrafo, meu daltonismo impediria. Aviação Agrícola? Sou inteiramente urbano e concordo com Cortázar quando ele diz que o campo é o lugar onde os bois passeiam crus. Clinton? Até simpatizo com ele, mas nunca fui criativo com charutos. Aracy? Como ela, adoro Noel Rosa, mas não faria aquele lamentável papel de jurada de programas de televisão que ela fez no final de sua vida. O cantor das multidões? Mal conheço, mal ouvi. Marcos Palmeira? Um ator bonito que fez um péssimo Villa-Lobos e um bom Bentinho no cinema.

Informam-me que 1957 foi o ano em que o primeiro ser vivo foi lançado ao espaço sideral. Foi um cão ou, mais exatamente, a cadela Laika, uma vira-latas soviética.

Depois de Laika, veio o primeiro ser humano. Um cara bem pequeno (tinha 1,58m) e gordinho (69 Kg) chamado Yuri Gagarin, que viajou apertadíssimo por 1h48min pelo espaço numa mini-nave, a Vostok I. Quando retornou, depois de uma queda livre a uma velocidade de 30.000 Km/h, estava perturbado e disse aquela frase infeliz que deixa os gremistas felizes até hoje: A Terra é Azul. Ora, não poderia ter dito outra coisa qualquer?

Mas isto já foi em 1961. Em 68, o simpaticíssimo Gagarin foi para a segunda divisão, digo, morreu, num desastre aéreo. Laika tornou-se selo.

Gagarin também.

Minha mãe era ainda menor que Gagarin, tinha 1,55m e hoje tem menos. Talvez tenha dançado, abraçadinha com meu pai, o grande sucesso de 57 — Love Me Tender, com Elvis Presley — que, dizem, ainda está vivo, apesar de também já ter virado selo.

Naquele ano, aconteceram coisas lamentáveis. Os negros lutavam contra o racismo nos Estados Unidos e tinham iniciado um forte protesto contra o governo do estado de Arkansas. Acontece que a Suprema Corte mandara abrir aos negros as escolas antes freqüentadas exclusivamente por brancos em todo o país. A revolta começou quando o fabuloso governador Orval Faubus contrariou a ordem federal e usou tropas militares para impedir a entrada dos negros. Com o clima de violência instalado, a Casa Branca ordenou que mil pára-quedistas saltassem sobre a cidade de Little Rock para restabelecer a ordem. Paradoxalmente, este débil metal, Faubus, acabou imortalizado por um negro, Charlie Mingus,

que compôs uma obra-prima em sua “homenagem”. A música chama-se Fables of Faubus e você deveria conhecê-la. Se não conhece, faz-lhe falta, estou certo disso. Faubus não virou selo e nem terá sua cara estampada em meu blog (ele é muito inferior a Laika, por exemplo), Mingus sim.

Nasci em 19 de agosto de 1957 e, para facilitar seus cálculos, vou logo dizendo que completo hoje 48 anos. No final dos anos 50, tinha esta cara aí.

E hoje tenho esta aqui.

E sou feliz, vivendo ao lado desta gente e de um grande (e crescente, muito crescente) grupo de amigos.

Bom, por hoje era apenas isto.

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Feliz aniversário

Publicado em 19 de agosto de 2005, com minha irmã entrando em contato com os administradores da Verbeat. Eles “invadiram” e publicaram no meu blog sem eu saber

Por Iracema Gonçalves

Querido irmão!

Desculpe-me a intromissão, mas não resisti. Desde o momento em que teu álbum de fotografias de infância pousou em minhas mãos, pensei em fazer uma surpresa. Aliás, imaginavas perdido, não é?

Quero partilhar com teus amigos alguns momentos de tua/nossa meninice.

No dia 19 de agosto de um já distante ano de 1957, a menina da boneca ganhou um irmãozinho. Lembro-me bem do dia em que te conheci. Engomada, usei minha melhor roupa para ir ao Hospital Beneficiência Portuguesa. Só não esperava que tu estivesses tão “amassadinho”. Apesar disso, contextos como esse sempre sugerem uma dose de encantamento. Fazer o quê?

Com o tempo, tu te tornaste um lindo menininho. Parafraseando nossa mãe, “eras impossível”!

Certo dia, contrariando ordens superiores, fui até o centro da cidade depositar um rótulo de achocolatado para concorreres a um uniforme dos Patrulheiros Kresto. Qual não foi a surpresa? Acabaste ganhando. E eu tive que explicar direitinho como teu nome apareceu na urna. A partir daquele dia, o Edifício Paraíba passou a ter um xerife… e eu fiquei pra lá de orgulhosa com o feito!

Com o desenrolar da vida, as traquinagens deram lugar as tuas paixões – livros, música e o Internacional. Entre uma lida e outra, lembro das noites em que tu e o pai disputavam o espaço sonoro da casa, sem falar daquelas em que narravas futebol dormindo, com direito a gols, xingamentos, etc. Nossa mãe ficava apavorada… “Teria ele um parafuso a menos”?

Lá em casa, uma coisa que nunca faltava era rádio ligado, inclusive em cima de carros como este Skoda. Isso era mais evidente ainda nos dias de jogos do glorioso Internacional. Os comentários esportivos faziam parte de todos almoços e jantas e as bandeiras coloradas iam até para as areias de Tramandaí. Que honra para essa praia, hein?

A clássica posição de leitura – deitado – é a que sempre me vem à memória. A paixão pelos livros manifestou-se bastante cedo e lembro que, muitas vezes, a mãe reclamava, cheia de orgulho, de que a culpa era dela. Dizia que havia exigido muito de ti e que agora tu tinhas te viciado em literatura.

Na verdade, acho que sempre fomos uma família muito unida e as poucas brigas ocorridas eram disputas de espaço para ficarmos cada vez mais juntos. Indignada, eu costumava reclamar dos rádios e toca-discos que ocupavam a atenção dos homens da casa, bem como do enorme Correio do Povo – naquela época, tipo “Folha de São Paulo”.

Sempre foste um cara mais caseiro em relação ao nosso pai. Tínhamos que dividi-lo com o Jockey Club e com os jogos de damas. Neste último, ele era um craque e costumava fotografar-se com suas medalhas, o que pode ser conferido nesta foto. Já com os cavalos…

O tempo foi passando e o menininho, meu companheiro, deu um jeito de multiplicar-se. Os resultados foram estes sobrinhos maravilhosos, bonitos, inteligentes, carinhosos e cheios de vida! E, como se não bastasse, tu és um pai exemplar! Para quem não entendia como uma pessoa pode ficar tão boba com seu filho recém-nascido, eis o tira-teima.

A seguir, estamos nós no Natal de 2004! Confesso que já estávamos meio “altos”, mas lembro que foi na casa dos pais da Claudia… Ops! Ainda não falei dela. Esta é a mais nova integrante do clã. Foi uma “aquisição” e tanto, meu caro irmão. Ela é simpática, alegre, agregadora, está sempre disposta a ajudar e tem calor humano para dar e vender. Sem ela, esta invasão virtual não teria sido possível. Além disso, costuma deixar muito gourmet de queixo caído. Por favor, cuida bem da minha cunhada!

A pedido, destaco também teu querido sobrinho, que também tem em ti um grande amigo e companheiro.

Milton, um grande abraço de aniversário e votos de muiiiiiitos anos de vida!

Beijos da irmã que te adora!

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Aforismos e Minicontos de Primeira Linha

Publicado em 23 de março de 2006

Marcelo Backes acaba de lançar, pela Editora Record, o surpreendente e inclassificável volume Estilhaços. No livro, pertinho do impagável Pequeno Dicionário Nostálgico de Meu Futebol Missioneiro, há, exatamente na página 89, o que segue:

A inteligência vem do berço?

Bernardo, filho do meu amigo Milton Ribeiro
– o melhor leitor não-profissional do Brasil -,
gosta de documentários.
Aos cinco anos de idade,
ao ver três funcionários
do departamento municipal de limpeza urbana
inspecionando as canalizações de esgoto em
Porto Alegre
perguntou:
“Pai,
São paleontólogos?”.

O resto livro também vale a pena. Juro que não há mais elogios a mim… A amizade cria exageros. Uma prova? Bem, na contracapa do livro há isto, simplesmente:

Princípio

Viver
é escrever
para não
matar…

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Novo Referendo

Publicado em 30 de outubro de 2005

Você é a favor da proibição da comercialização de campeonatos de futebol no Brasil?

1- NÃO
2- SIM

Será que desta vez o SIM vence? Vote nos comentários abaixo.

Obs.: Post inspirado em e-mail escrito por Elias Dill (Maurício).

Acrescentado às 9h40 do mesmo dia:

A colorada Elenara Iabel Cariboni nos envia uma importante e curiosa contribuição ao debate: uma crônica escrita por Graciliano Ramos em 1921, sob o pseudônimo de J. Calisto, na qual ele defende a tese de que o Brasil não tinha vocação para o esporte, e sim para a rasteira. A rasteira? Sim, a mesma que levamos do Dr. (?) Luiz Zveiter, 84 anos depois, ao acordarmos, num domingo, manhã de jogo importantíssimo, sem a liderança do campeonato. Se hoje os comentários sobre esportes e outras previsões de Graciliano só nos provocam riso, ele acerta em cheio ao escrever que “desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, (…) todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.”

TRAÇOS A ESMO
GRACILIANO RAMOS – Publicado pela primeira vez em “O Índio”, em Palmeira dos Índios (AL), em 1921, sob o pseudônimo de J. Calisto.

Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a idéia fixa de muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês.

Pois quê! A cultura física é coisa que está entre nós inteiramente descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça estão abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável.

A parte de nosso organismo que mais se desenvolve é a orelha, graças aos puxões maternos, mas não está provado que isto seja um desenvolvimento de utilidade. Para que serve ser a gente orelhuda? O burro também possui consideráveis apêndices auriculares, o que não impede que o considerem, injustamente, o mais estúpido dos bichos. (…) Fisicamente falando, somos uma verdadeira miséria. Moles, bambos, murchos, tristes – uma lástima! Pálpebras caídas, beiços caídos, braços caídos, um caimento generalizado que faz de nós um ser desengonçado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase pulha que se tornou popular: “Me deixa…” Precisamos fortalecer a carne, que a inação tornou flácida, os nervos, que excitantes estragaram, os ossos que o mercúrio escangalhou.

Consolidar o cérebro é bom, embora isto seja um órgão a que, de ordinário, não temos necessidade de recorrer. Consolidar o muque é ótimo. Convencer um adversário com argumentos de substância não é mau. Poder convencê-lo com um grosso punho cerrado diante do nariz, cabeludo e ameaçador, é magnífico. (…)

Para chegar ao soberto resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o futebol.

Mas por que o futebol?

Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não.

No caso afirmativo, seja muito bem vinda a instituição alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo, resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos. Ora, parece-nos que o futebol não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É roupa de empréstimo, que não nos serve.

Para que um costume intruso possa estabelecer-se definitivamente em um país é necessário, não só que se harmonize com a índole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar não esteja tomado por outro mais antigo, de cunho indígena. É preciso, pois, que vá preencher uma lacuna, como diz o chavão.

O do futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído. (…)

Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras? O futebol não pega, tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos.

As grandes cidades estão no litoral; isto aqui é diferente, é sertão. As cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras raças; não somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou galego.

Nas cidades os viciados elegantes absorvem o ópio, a cocaína, a morfina; por aqui há pessoas que ainda fumam liamba. (…)

Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega.

Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar.

Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira.

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!

Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro – e a rasteira nos salva.

Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.

Cultivem a rasteira, amigos!

E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.

Muito útil, sim senhor.

Dediquem-se à rasteira, rapazes.

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Robert Wise (1914-2005)

Publicado em setembro de 2005

Foi uma enorme honra receber hoje um e-mail do escritor Fernando Monteiro, acompanhado da seguinte mensagem: “Escrevi o texto abaixo especialmente para teu blog (se vosmicê generosamente quiser divulgá-lo).” Imagina se não! Além de publicar em primeira mão um artigo do Monteiro em meu blog, ele ainda vem bem ao encontro disto aqui.

Um cineasta americano acaba de falecer, em Los Angeles. Robert Wise, que parecia já ter morrido — há cinco, dez anos? — “disse adeus ao mundo” (na linguagem-clichê dos jornais), ontem, aos 91 anos.

A notícia vem em fôrma burocrática, e alguns textos destacam, desenxabidamente, que “Wise foi amigo de Orson Welles”. (E daí? Não entendi.) Robert Wise assinou a montagem de Cidadão Kane e, sem seu trabalho, o mais célebre filme de Welles seria outra coisa, bem menor (detalhe: em muitas ocasiões, ele esteve manipulando o material sozinho, sem a presença do diretor ainda dormindo ou dedicado a alguma outra tarefa, dentre as dezenas que Orson tocava, ao mesmo tempo, como um chinês rolando vinte pratos, simultaneamente, com uma varinha). Enquanto Wise se encontrava sempre enfurnado na sala da moviola, desde cedo, criando lá a sintaxe perfeita para as cenas do Kane, genialmente fotografadas por Greg Tolland seguindo o muito inspirado roteiro de Herman Mankiewicz etc. Bem, o filme revolucionário (de quem?) ficou para trás, incrustrado para sempre na história das revoluções da linguagem do cinema, e Robert Wise seguiu criando, na condição de diretor, filmes seminais como The Set-up (“Punhos de Campeão”), westerns psicológicos como “Honra a um homem mau” (1955), musicais da grandeza artística de “Amor, Sublime Amor”, e mais 36 filmes perfilando quase todos os gêneros praticados na Hollywood da idade de ouro hoje soterrada.

Esse diretor americano foi — como o inglês David Lean — uma espécie de “Mister Cinema”, para quem nada do que dizia respeito a filmes lhe era estranho. Os jornais brasileiros não parecem saber disso, e apelam até para lembrar o dispensável A noviça rebelde, por ele produzido e dirigido quase no final da carreira (e como se o musical com Julie Andrews pudesse ser um cartão de apresentação do diretor do realmente belo O canhoneiro do Yang-Tse)…

Morreu um grande cineasta. Um autor de notável modéstia e encanto pessoal, que sabia dirigir atores como ninguém. Desapareceu um mestre do cinema que não recebe, mesmo na morte, nenhum dos elogios espargidos sobre a cabeça do rasteiro imitador Spielberg et caterva. Coisas do nosso tempo de incultura gritante, grosseria triunfante e burrice espetacular.

FERNANDO MONTEIRO

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