Meus livros (Mis libros), de Jorge Luis Borges

Meus livros (Mis libros), de Jorge Luis Borges

Mis libros (que no saben que yo existo)
son tan parte de mí como este rostro
de sienes grises y de grises ojos
que vanamente busco en los cristales
y que recorro con la mano cóncava.
No sin alguna lógica amargura
pienso que las palabras esenciales
que me expresan están en esas hojas
que no saben quién soy, no en las que he escrito.
Mejor así. Las voces de los muertos
me dirán para siempre.

.oOo.

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes desses mortos
Me falarão para sempre.

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A estranha abordagem de Knausgård a Hitler

A estranha abordagem de Knausgård a Hitler

A tradução deste artigo parte mais de minha curiosidade do que pela necessidade de enquadrar Knausgård num escaninho de incorreção política. Tinha curiosidade pela origem do título da série “Minha Luta” e fui procurar textos a respeito. Como a autora do artigo — bastante equilibrado, apesar de perplexo –, eu absolutamente não recuo em minha admiração pelo autor. 

Por Maja Hagerman, no NordEuropa em 22 de maio de 2017.

Esta semana, a parte final da autobiografia de Karl Ove Knausgård, Min Kamp VI, será publicada em alemão como Kämpfen. Neste romance, há um longo ensaio sobre Hitler e o nazismo. Foi criticado na Escandinávia, por mim e por outros, porque Knausgård deseja retratar Hitler como um homem comum, ao mesmo tempo omitindo fatos importantes.

Deixe-me começar dizendo o quanto gosto de ler Knausgård quando ele descreve sua própria vida. Há uma presença nervosa e enérgica mesmo nos dias mais cinzentos e comuns, quando ele escreve sobre suas atividades diárias em Malmö, na Suécia, nos anos de 2009 a 2011, como pai de três filhos pequenos e com companheira: é uma leitura tremenda. Mas eu realmente não gosto da maneira como ele escreve sobre Hitler e o nazismo no ensaio de mais de 400 páginas, inserido no meio do romance.

Obviamente, não se trata apenas de história. Muitas coisas acontecendo em nossos dias ressoam assustadoramente nos escritos de Knausgård.

Quando Panfletos de Violência se Tornam Realidade

No exato momento em que o romance se passa em Malmö, há — na própria cidade não ficcional — um assassino em série nas ruas. Mas isso nem é mencionado no livro, pelo que posso ver. Quando Karl Ove no romance vai para o parquinho com seus filhos, existe — na vida real de Malmö — um homem limpando suas armas não muito longe. Ele mira em completos desconhecidos em qualquer lugar e atira para matar. Mas ele apenas direciona sua visão a laser para aqueles que parecem estranhos a seus olhos. O assassino em Malmö é um nazista e, para ele, a guerra racial tem um significado mais profundo; é uma espécie de cruzada. Ninguém sabe quantas pessoas ele tentou matar entre 2003 (época do primeiro assassinato conhecido) e novembro de 2010, quando foi finalmente preso pela polícia. Ele foi condenado por dois assassinatos e pela tentativa de assassinato de outras oito pessoas. A Filosofia Teutônica estava em seu computador no momento de sua prisão. [i]

O título da autobiografia de Knausgård é Min kamp em norueguês e sueco; uma tradução literal em alemão seria Mein Kampf. Knausgård está brincando de forma sofisticada com espelhos e identidades na sexta e última parte de sua obra. Seu personagem principal no romance é Karl Ove Knausgård, que está escrevendo um livro com o mesmo título daquele que o leitor está segurando. Neste livro, há uma longa sequência de não ficção de várias centenas de páginas sobre Hitler e o nazismo. Mas é o verdadeiro autor ou o personagem autor do romance que é o seu escritor? Isso é ficção ou realidade? Não importa qual seja, o texto está lá. O texto existe na realidade — e afeta a realidade.

No romance, lemos sobre como os primeiros escritos de Knausgård — sobre ele mesmo e outras pessoas — começam a influenciar sua vida e a vida de outras pessoas, quando os textos são publicados como autobiografia. Isso também afeta a percepção do texto. O personagem do autor — Knausgård no romance — observa cuidadosamente todos esses reflexos no corredor de espelhos que ele mesmo criou com seu texto.

E ele faz uma comparação com o Mein Kampf de Hitler. Ele discute como a percepção daquele texto mudou após o Holocausto e a guerra, uma vez que sua mensagem monstruosa se tornou realidade. Knausgård pergunta: mas quem era Hitler quando escreveu o livro quinze anos antes? Ele encontra um jovem sério e idealista, pronto para ir a extremos na defesa de suas ideias, um jovem com forte apego à mãe, mas com medo das mulheres e do contato humano mais próximo, o que leva o autor a pensar que Hitler era na verdade, um pouco como o próprio Karl Ove quando jovem.

Knausgård tem um sentimento de fascínio, um sentimento que deseja examinar. O nazismo também está presente na história de sua família; ele encontra um distintivo de lapela nazista entre as coisas deixadas após a morte de seu pai e descobre que a avó tinha uma cópia antiga do Mein Kampf em um baú na sala de estar. Ela não se livrou dele depois da guerra.

Knausgård explica (no jornal norueguês Dagsavisen, 10 de maio de 2016) que deseja compreender o nazismo examinando-o com sua própria empatia e sentimentos. Assim, ele se deixa seduzir pelos ambientes e explosões emocionais fundamentais para o nazismo.

Uma história sobre um homem comum?

Há uma passagem importante no livro em que ele permite que seu próprio texto se confunda com o de Hitler. Aqui, os leitores finalmente obtêm uma explicação de sua surpreendente escolha de nome para o ciclo autobiográfico de romances. Knausgård escreve: “Adolf Hitler era um homem comum; quando o escreveu, não matou ninguém, não ordenou a ninguém que matasse, não roubou nem incendiou nada ”. [ii]

Isso é uma coisa estranha para Knausgård escrever. Hitler era um criminoso quando escreveu a primeira e mais conhecida parte de Mein Kampf. Enquanto redigia seu trabalho, ele estava cumprindo pena em uma prisão por um crime muito grave; ele havia sido condenado por alta traição e uma tentativa de golpe de estado. Em 8 de novembro de 1923, quando milhares de pessoas se reuniram em um bierkeller de Munique para ouvir o governo bávaro falar sobre a situação política, Hitler deixou 600 de seus homens da SA cercarem o bierkeller e bloquearem a entrada enquanto ele disparava sua arma, atirando no teto e gritando: “A revolução nacional estourou!”. Sob a mira de uma arma, os membros do governo bávaro foram forçados a deixar o palco e foram feitos reféns. Mas no dia seguinte o “Beer Hall Putsch” foi derrotado pela polícia em uma batalha que deixou 19 mortos. Não sei por que Knausgård escreveu que o líder desse partido violento e antidemocrático que liderou o golpe era um homem inocente. Mas o texto esta aí.

Knausgård está principalmente interessado no jovem Hitler. Ele lida longamente com eventos que ocorreram mais de dez anos antes de Hitler escrever Mein Kampf. Mas ele tem muito pouco a dizer sobre as ações de Hitler um ano antes. Ele discute o sucesso de Hitler como orador público e se pergunta qual pode ser o segredo de um orador que pode hipnotizar as massas. Mas ele não tem muito a dizer sobre o fato de que esse envolvimento político e agitação também incluíram violência. O tempo de Hitler com o “Kampfbund” quase não é mencionado, embora ele tenha sido nomeado líder de todos os corpos armados privados que marchavam nas ruas de Munique, demonstrando sua força e sua capacidade de introduzir violência na política, no outono de 1923. Milhares de combatentes organizados, não apenas as SA, mas uma coalizão de vários “Kampfbünde” nacionalistas diferentes, estavam treinando suas habilidades de combate e organizando manifestações armadas nas ruas e nos parques de Munique, para assustar e provocar o governo da Baviera. Isso não é explicado adequadamente na obra de Knausgård.

Knausgård quer que entendamos que o nazismo não se destacou como obviamente monstruoso ou maligno no início. Esta é uma abordagem perigosa, pois abre o caminho para uma espécie de cegueira para o que a ideologia racial realmente é e que efeito pode ter na mente das pessoas. A violência organizada fez parte do movimento nazista desde o início. A violência foi fundamental, e a ideologia, em seu cerne, uma explicação da legitimidade da guerra racial. Isso significava que você tinha que se livrar dos velhos padrões éticos e impor novos – com base na suposição explícita de que as vidas humanas têm valores diferentes .

Knausgård escreve que os alemães abraçaram o nazismo como se o amassem, e que Hitler acendeu o fogo em todos que o ouviram falar. Mas isso não é verdade: muitas pessoas achavam o nazismo repelente na década de 1920. Omitir-se de mencionar isso equivale, de certa forma, a “elevá-lo”, transformá-lo em algo sedutor. A verdade é que Hitler, após sete anos como líder do partido e orador público, não acendeu o fogo em mais do que uma mera fração dos que o ouviram. Na eleição geral de maio de 1928, o NSDAP obteve apenas 2,6% dos votos. E, até a quebra do mercado de ações em 1929, a passagem dos nazistas ao poder não era de forma alguma evidente. No entanto, acontecimentos dramáticos em todo o mundo assustaram as pessoas e isso levou ao sucesso do NSDAP nas eleições. Hitler obteve 30% dos votos na primeira eleição presidencial em 1932, e no segundo e último segundo turno, entre apenas dois candidatos, obteve 36%. Isso é menos da metade dos votos.

Fascinado, Knausgård descreve um entendimento profundo e misterioso entre as massas e Hitler. Mas minha impressão é que ele reproduz algo que viu em imagens de propaganda nazista de comícios partidários, etc., produzidas depois que os nazistas chegaram ao poder em 1933, quando a democracia foi abolida e os oponentes políticos foram colocados atrás das grades, assassinados ou assustados silêncio.

Ao descrever Hitler como um homem comum, Knausgård deseja desafiar o leitor. No entanto, ele também contribui para minar os limites e tabus que cercam essas ideias perigosas. A escrita afeta a realidade; texto e vida estão interligados. Um dos autores mais apreciados da Escandinávia opta por ter uma atitude estranha em relação à verdade sobre Hitler — ao mesmo tempo em que o nazismo, como ideologia por trás da guerra racial, encontra novos seguidores na Europa.

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Este texto de Maja Hagerman é uma versão editada de um artigo escrito para o jornal norueguês Klassekampen e reflete a visão do autor sobre o livro de Karl Ove Knausgård.

Maja Hagerman é uma autora, historiadora, jornalista e produtora de TV sueca que vive em Estocolmo (www.majahagerman.se).

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[i] Um livro sobre o serial killer Peter Mangs em Malmö, Suécia, é Raskrigaren (2015) de Mattias Gardell.

[ii] “[…] Adolf Hitler, quando o escreveu, era um homem comum, não havia assassinado ninguém, não havia ordenado o assassinato de ninguém, não havia roubado nada nem incendiado nada.” Página 481 na edição norueguesa do Min kamp 6, página 480 na edição sueca.

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A Descoberta da Escrita (Minha Luta 5), de Karl Ove Knausgård

A Descoberta da Escrita (Minha Luta 5), de Karl Ove Knausgård

A Descoberta da Escrita é o quinto volume da série autobiográfica Minha Luta, de Karl Ove Knausgård.

(A propósito, a Companhia das Letras acaba de anunciar a publicação do sexto e último volume, chamado O Fim, para a segunda metade deste mês. O novo livro tem mais de mil páginas, enquanto que este que acabo de ler tem 628… Sim, os livros foram crescendo).

A Descoberta da Escrita é o melhor que li até agora. Com texto permanentemente intenso e envolvente, Knausgård conta ao mesmo tempo a história de sua luta para tornar-se escritor, sua vida amorosa e familiar e as tentativas de livrar-se de certas tendências absolutamente delinquentes e autodestrutivas que se manifestavam cada vez que bebia demais, o que ocorria com frequência.

Sem spoilers, digo que aos 20 anos Knausgård ingressou numa oficina literária como o mais jovem membro. Seus textos era rejeitados ou ignorados. A bebida e suas atitudes não melhoravam muito as coisas. Participar daquele grupo era uma grande honra para um jovem ambicioso. Ele se juntava a um grupo de escritores mais velhos, alguns já publicados, em uma classe de elite, mas… A ideia de uma luta travada internamente ganha corpo neste romance. É um aprendizado angustiante e tenso, cheio de leituras e tentativas a maioria das vezes fracassadas. Todos os escritores em algum momento pensam que são uma fraude, que o talento que pensam possuir é apenas uma ilusão — provavelmente porque, para a maioria, é a realidade. É raro um jovem escritor não se perguntar se o inferno da mediocridade tomará conta de sua vida definitivamente.

Este volume nos leva dos 19 anos até a dissolução de seu primeiro casamento, 14 anos depois. Trata de bebedeiras, constrangimento social, das bandas de rock das quais participou e do bloqueio criativo do escritor, sua única, constante e real ambição.

Ao mesmo tempo em que procura sua voz, temos toda a vida amorosa de Karl Ove. Bastante movimentado é seu amor por Tonje, uma doce figura pela qual ele é apaixonado. Como disse, ele absolutamente ama Tonje, mesmo de seu modo egoísta que deixa tudo de lado para tentar escrever. Aliás, Knausgård é o escritor que fez o egoísmo trabalhar a seu favor.

O limbo que A Descoberta da Escrita nos demonstra não é uma exclusividade de Karl Ove, ele é familiar para todos nós. É aquele período da juventude em que tudo parece uma questão de vida ou morte, e um enorme período de tempo é gasto querendo, planejando e esperando sexo, sensações ou inspiração literária.

Como sempre, temos as melhores descrições da natureza — efetivamente lindas — e as narrativas impecáveis de casos amorosos que dão mais ou menos certo, mais ou menos errado. E que nos encantam.

Um grande livro!

Recomendo!

Tonje e Karl Ove

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Poème symphonique for 100 metronomes, de György Ligeti

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100 Livros Essenciais da Literatura Mundial

100 Livros Essenciais da Literatura Mundial

Há algumas semanas, li a lista da extinta revista Bravo sobre os 100 livros essenciais da literatura mundial. A edição vendeu muito, disse o dono da banca de revistas meu vizinho. No final da revista, há uma página de Referências Bibliográficas de razoável tamanho, mas o editor esclarece que a maior influência veio dos trabalhos de Harold Bloom.

Vamos à lista? Depois farei alguns comentários a ela.

A lista é a seguinte (talvez haja erros de digitação, talvez não):

1. Ilíada, Homero
2. Odisseia, Homero
3. Hamlet, William Shakespeare
4. Dom Quixote, Miguel de Cervantes
5. A Divina Comédia, Dante Alighieri
6. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
7. Ulysses, James Joyce
8. Guerra e Paz, Leon Tolstói
9. Crime e Castigo, Dostoiévski
10. Ensaios, Michel de Montaigne
11. Édipo Rei, Sófocles
12. Otelo, William Shakespeare
13. Madame Bovary, Gustave Flaubert
14. Fausto, Goethe
15. O Processo, Franz Kafka
16. Doutor Fausto, Thomas Mann
17. As Flores do Mal, Charles Baldelaire
18. Som e a Fúria, William Faulkner
19. A Terra Desolada, T.S. Eliot
20. Teogonia, Hesíodo
21. As Metamorfoses, Ovídio
22. O Vermelho e o Negro, Stendhal
23. O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald
24. Uma Estação No Inferno,Arthur Rimbaud
25. Os Miseráveis, Victor Hugo
26. O Estrangeiro, Albert Camus
27. Medéia, Eurípedes
28. A Eneida, Virgilio
29. Noite de Reis, William Shakespeare
30. Adeus às Armas, Ernest Hemingway
31. Coração das Trevas, Joseph Conrad
32. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
33. Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf
34. Moby Dick, Herman Melville
35. Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe
36. A Comédia Humana, Balzac
37. Grandes Esperanças, Charles Dickens
38. O Homem sem Qualidades, Robert Musil
39. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
40. Finnegans Wake, James Joyce
41. Os Lusíadas, Luís de Camões
42. Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas
43. Retrato de uma Senhora, Henry James
44. Decameron, Boccaccio
45. Esperando Godot, Samuel Beckett
46. 1984, George Orwell
47. Galileu Galilei, Bertold Brecht
48. Os Cantos de Maldoror, Lautréamont
49. A Tarde de um Fauno, Mallarmé
50. Lolita, Vladimir Nabokov
51. Tartufo, Molière
52. As Três Irmãs, Anton Tchekov
53. O Livro das Mil e uma Noites
54. Don Juan, Tirso de Molina
55. Mensagem, Fernando Pessoa
56. Paraíso Perdido, John Milton
57. Robinson Crusoé, Daniel Defoe
58. Os Moedeiros Falsos, André Gide
59. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
60. Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
61. Seis Personagens em Busca de um Autor, Luigi Pirandello
62. Alice no País das Maravilhas, Lewis Caroll
63. A Náusea, Jean-Paul Sartre
64. A Consciência de Zeno, Italo Svevo
65. A Longa Jornada Adentro, Eugene O’Neill
66. A Condição Humana, André Malraux
67. Os Cantos, Ezra Pound
68. Canções da Inocência/ Canções do Exílio, William Blake
69. Um Bonde Chamado Desejo, Teneessee Williams
70. Ficções, Jorge Luis Borges
71. O Rinoceronte, Eugène Ionesco
72. A Morte de Virgilio, Herman Broch
73. As Folhas da Relva, Walt Whitman
74. Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati
75. Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez
76. Viagem ao Fim da Noite, Louis-Ferdinand Céline
77. A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós
78. Jogo da Amarelinha, Julio Cortazar
79. As Vinhas da Ira, John Steinbeck
80. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar
81. O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger
82. Huckleberry Finn, Mark Twain
83. Contos de Hans Christian Andersen
84. O Leopardo, Tomaso di Lampedusa
85. Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy, Laurence Sterne
86. Passagem para a Índia, E.M. Forster
87. Orgulho e Preconceito, Jane Austen
88. Trópico de Câncer, Henry Miller
89. Pais e Filhos, Ivan Turgueniev
90. O Náufrago, Thomas Bernhard
91. A Epopéia de Gilgamesh
92. O Mahabharata
93. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino
94. On the Road, Jack Kerouac
95. O Lobo da Estepe, Hermann Hesse
96. Complexo de Portnoy, Philip Roth
97. Reparação, Ian McEwan
98. Desonra, J.M. Coetzee
99. As Irmãs Makioka, Junichiro Tanizaki
100 Pedro Páramo, Juan Rulfo

A lista é ótima, mas há critérios bastante estranhos.

Se não me engano, só três semideuses têm mais de um livro na lista: Homero, Shakespeare e Joyce. OK, está justo.

No restante, é uma lista mais de autores do que de livros e muitas vezes são escolhidos os livros mais famosos do autor e dane-se a qualidade da obra. Se a revista faz um gol ao escolher Doutor Fausto como o melhor Thomas Mann, erra ao escolher Crime e Castigo dentro da obra de Dostoiévski – Os Irmãos Karamázovi e O Idiota são melhores; ao escolher Guerra e Paz de Tolstói – por que não Ana Karênina? -; na escolha de O Complexo de Portnoy, de Philip Roth; que tem cinco romances muito superiores, iniciando por O Avesso da Vida (Counterlife) e ainda ao eleger Retrato de Uma Senhora na obra luminosa de Henry James. Li por aí reclamações análogas sobre as escolhas de Brás Cubas e não de Dom Casmurro, de Cem Anos de Solidão ao invés de O Amor nos Tempos do Cólera e de As Cidades Invisíveis de Calvino, mas acho que é uma questão de gosto pessoal e não de mérito. Ah, e é absurda a presença do bom O Náufrago e não dos imensos e perfeitos Extinção, Árvores Abatidas e O Sobrinho de Wittgenstein na obra de Thomas Bernhard.

Saúdo a presença de grandes livros pouco citados como Tristram Shandy, obra-prima de Sterne muito querida deste que vos escreve, de Viagem ao Fim da Noite, de Céline, de A Consciência de Zeno, genial livro de Ítalo Svevo, de O Deserto dos Tártaros (Buzzati) e do incompreendido e brilhante Grandes Esperanças, de Charles Dickens, de longe seu melhor romance.

Porém é estranha a escolha de A Comédia Humana, de Balzac. Ora, a Comédia são 88 romances! Não vale! Estranho ainda mais a presença de autores menores como Kerouac e Malraux, além do romance que não é romance — ou do romance que só é romance em 100 de suas 1200 páginas: O Homem sem Qualidades, de Robert Musil.

Também acho que presença de McEwan e de Coetzee prescindem do julgamento do tempo, o que não é o caso de alguns ausentes, como Lazarillo de Tormes, de Chamisso com seu Peter Schlemihl, de George Eliot com Middlemarch, de Homo Faber de Max Frisch e de O Anão, de Pär Lagerkvist, só para citar os primeiros que me vêm à mente. E, se McEwan e Coetzee esttão presentes, por que não Roberto Bolaño?

E Oblómov??? Não poderia ficar de fora!

(O Bender escreve um comentário reclamando a ausência de Grande Sertão, Veredas, de Guimarães Rosa. É claro que ele tem razão! Esqueci. Coisas da idade.)

Com satisfação pessoal, digo que este não-especialista não leu apenas Os Miseráveis, o livro de Blake e os de Lautréamond, Mallarmé, Ovídio e Hesíodo. Isto é, seis dos cem. Tá bom.

P.S.- Milton mentiroso! Não li Finnegans também!

Este post foi publicado em 13 de dezembro de 2007, mas quase nada mudou.

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Processo mundial de enlouquecimento

O mundo começou a enlouquecer em grande escala quando Bob Dylan ganhou o Nobel (de Literatura) em outubro de 2016. Três semanas depois, Trump foi eleito presidente trazendo uma onda planetária de loucura. Depois vieram uns golpes, uma eleições estranhas no leste europeu, Bolsonaro, a invasão evangélica, a pandemia e, quando parecia que íamos começar a reverter a coisa, bammmm, Trump está quase reeleito. Podiam dar um Nobel pro Roberto Carlos (de Química, talvez) e fechar o ciclo, né?

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Bilhete

Meus queridos. Papai saiu cedo para trabalhar e deixou vocês dormindo. Vocês estavam tão lindos e tranquilos nas camas que achei sacanagem acordar. Volto ao meio-dia e trinta para buscá-los. Enquanto isso, espero que vocês sobrevivam. Sofia, sei que vais acordar primeiro, ali pelas 8h30. Olha para o relógio e confere. Guria, olha agora! Teus iogurtinhos estão na geladeira, à altura da tua cabeça, do lado esquerdo. Bebe no mínimo dois. Tenta também COMER alguma coisa, dizem que é importante. Há pães de ontem à noite sobre a mesa da cozinha e outros novinhos no freezer, é só deixar um deles por 30 segundos no microondas e estará perfeito para receber e desmanchar a manteiga. Hummm. A geleia de morango está também na geladeira, pega a que não for light. Se tiveres tema para fazer, por favor, faze-o. Não deixa a TV com o som muito alto para não acordar teu irmão e, quando ele acordar, não briga com ele. Lembra-te de que ele é maior e que eu não estarei aí para te defender. O melhor mesmo é que fiques brincando com o pensamento ou no computador. Poderias também aproveitar o tempo e o silêncio da casa para ler um pouquinho, não, dona Sofia? Quando eu era pequeno, adorava acordar para acompanhar o movimento do sol. O sol entrava por minha janela de manhã. Eu colocava um lápis no chão, exatamente sobre a fronteira entre sol e sombra. E lia; lia umas dez páginas e depois conferia quantos centímetros a luz do sol tinha caminhado em seu percurso para fora. Eu estudava no turno da tarde e ficava no quarto até que o sol o abandonasse inteiramente. Aí sim, podia fazer outra coisa. Não sei se isso acontece aqui em casa, não lembro, não faço mais isso e que sei eu da orientação solar? Coisa nenhuma. Sou um adulto chato. No máximo, sei que nosso apartamento tem boa orientação, pois ainda não morremos assados nem congelados em nossa cidade maluca. Quando o teu irmão acordar, mostra este recado a ele, ele é muito desatento. Felipe, teus toddynhos estão ao lado dos iogurtes da Sofia na geladeira. Não precisas comer todo o conteúdo da geladeira e não mates tua irmã sem eu estar aí para te matar junto. Deixa o computador para ela, porque ontem tu já ficaste demais nele. Sei que tu tens de ler O Visconde Partido ao Meio para o colégio, então manda bala. Se quiseres sair, há uns trocados no balcão da cozinha; acho que falaste em ir ao Centro comprar uns CDs usados com um amigo teu, do inglês. O dinheiro que está ali dá para ir e vir de lotação. Usa o teu para as compras. Só não te atrases, pois eu chego ao meio-dia e trinta. Marca o encontro no centro do Mercado Público que é um lugar bom para esperar alguém. Tem sempre brigadianos por ali. Cuida, pois há assaltos e ladrões e as pessoas somem, mesmo sendo tu um adulto de 14 anos… O cara vai e não volta. Volatiliza-se. Porto Alegre é perigosa e não quero a tua mãe no meu pé. Já pensou eu falando pra ela? Olha, ele foi fazer umas compras nuns sebos de CDs e não voltou mais. Imagina, somem tantas pessoas anualmente numa cidade como Porto Alegre que talvez jamais sejas encontrado. Uma vez, em 2004, ou 5, sumiu o próprio chefe de polícia que saíra à tarde para uma volta no Parque da Redenção e até hoje nada. Minha mãe leu no Correio do Povo, ficou com o jornal embrulhado na memória. Mas vá. Lembra que o “pãe” te ama e que as ruas não mudarão seus traçados para que demores além da conta. Se sobrar algum dinheiro, pergunta pra mim sobre um CD que procuro há anos, tá? É aquele em que Carlos Drummond de Andrade recita Desaparecimento de Luísa Porto. Mas, se ficares em casa, não te esqueças do Calvino e trata tua irmã com calma, senão te acuso de pedofilia e te mando para a FEBEM, ou FASE. Hoje tem jogo à noite, queres ir ao estádio? Então faça tudo direitinho, senão não te levo. Hoje de manhã tenho que fazer um monte de coisas, algumas para vocês. O pessoal do colégio me chamou para conversar porque tu, Felipe, inventaste de chamar uma menina de lobisomem e agora ela não quer ir mais à aula. Tá certo que ela é peludinha nos braços, mas – caramba – chamá-la de lobisomem! Há que ser mais delicado. Por falar em delicadeza, no final de semana vou apresentar a Mônica para vocês. Chega de adiamentos, né? Sofia, não é preciso ter ciúmes, ela não me tirará de ti e nem eu vou descuidar de vocês só porque estou namorando. São necessidades adultas. Vocês têm as de vocês, nós temos as minhas as nossas. A Mônica também não será outra mãe, será mais uma amiga para conviver conosco. Ela não é chata e gosta de crianças, mas é claro que ela vai se embananar com vocês, pois não tem filhos e, de repente, estará recebendo um kit completo de namorado, dois filhos, duas calopsitas e uma cachorra. Não é fácil para nenhum de nós, então tolerância, educação e delicadeza são as palavras. Como digo sempre: “Nada de flatulências ou eructações!”. Eu mato vocês. Putz, são sete e meia. Estou atrasado. Beijos do pai.

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Apetite por destruição

Apetite por destruição

Eu acabo de dizer a frase “Então o Império Romano acabou e começaram as férias de julho”. A Elena ficou me olhando. E eu só tinha bebido duas taças de vinho.

O que eu queria dizer é que sempre tive apetite por destruição. No Colégio, ao final de um semestre, tínhamos acabado de estudar o Império Romano no Júlio de Castilhos. Ô coisa chata.

Aí, num chuvoso dia das férias de julho, abri o livro de História para ver o que vinha depois. Nossa, eram As Invasões Bárbaras!!! Que legal, que felicidade ler aquilo!

Até hoje amo os Hunos, os Godos, Visigodos, Vândalos, etc. Adorava suas movimentações malucas e muitas vezes destrutivas pela Europa.

Só que a frase com que introduzi o tema para a Elena ficou meio estranha….

P. S. — Acabo de me dar conta de que o nome da minha filha é Bárbara…

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Esse aí é para ser Átila, o Rei dos Hunos. Os hunos, primeiro, empurraram outros povos bárbaros para dentro do Império Romano, depois eles mesmos partiram em direção a Roma / Crédito: Héctor Goméz

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Boa tarde, Coudet (com os lances de Atlético-GO 1 x 2 Inter)

Boa tarde, Coudet (com os lances de Atlético-GO 1 x 2 Inter)

Atualmente, o Inter é um time bem treinado. O fato de ter deixado Galhardo em Porto Alegre e jogado com um time misto não atrapalhou a vitória de ontem à noite, pela primeira perna das oitavas da Copa do Brasil 2020. O time foi misto, em vista do jogo do próximo sábado contra o Corinthians em São Paulo, às 19h. Pior, desde o início o time teve Pottker, mas mandamos no jogo até fazermos 1 x 0 em cabeçada de Leandro Fernandéz após cruzamento de Marcos Guilherme.

Gol de Leandro Fernández | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

Aí deixamos o adversário jogar, mas sem corrermos muitos riscos. Como no começo do segundo tempo a coisa complicou, Coudet botou alguns titulares, como Patrick e Edenilson. E Moisés, em bela tabela com Fernández, fez 2 x 0. Perdemos alguns gols — um com Pottker após lindo passe de Fernández, o nome do jogo –, só que um pênalti no fim acabou permitindo o 2 x 1.

No final, Coudet voltou a falar que precisa de reforços. E que no hay plata. Há que ser criativo, coisa que não parece ser a especialidade do presidente Marcelo Medeiros, ainda mais em final de mandato. Aliás, adiante devo falar um pouco sobre as eleições que ocorrerão em novembro e sobre a necessidade de retirar a Confraria do MIG (Movimento Inter Grande) do clube. São 20 anos e só os primeiros foram bons.

Por enquanto, sou Chapa 5 com Alessandro Barcellos para presidente.

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Keith Jarrett e The Köln Concert

Keith Jarrett e The Köln Concert

Com inteira justiça, o pianista, cravista e organista Keith Jarrett é conhecidíssimo e famosíssimo. Este The Köln Concert é um de seus grandes momentos — talvez o maior deles. Jarrett começou sua carreira no jazz com Art Blakey e Miles Davis. Depois foi contratado como grande estrela da ECM, criou dois quartetos, um americano e outro escandinavo, gravou montes de concertos solo, criou um trio com Gary Peacock e Jack DeJohnette, fez esplêndidas duplas com meio mundo, virou pianista e cravista erudito, gravou O Cravo Bem Temperado, os 24 Prelúdios e Fugas de Shostakovich e também Mozart, Barber, Handel, Pärt, etc., sempre com notáveis resultados artísticos. Creio ter intuído a futura carreira erudita do moço quando ouvi um solo dilacerante de Nude Ants (1979) e vaticinei que ele queria mesmo era tocar Bach. Bem, sei lá se ele já estava tocando clássicos em 79. Bom, mas o que interessa é que The Köln Concert é um trabalho fundamental, principalmente o solo inicial de 26 minutos que contém uma súmula do que é capaz Mr. Jarrett.

Detalhando, The Köln Concert é uma gravação de um concerto ao vivo com improvisações para solo de piano executadas por Keith Jarrett na Ópera de Colônia no dia 24 de janeiro de 1975. O álbum em vinil duplo foi lançado em 1975 pela ECM e tornou-se o álbum solo mais vendido da história do jazz e o álbum de piano mais vendido, com mais de 3,5 milhões cópias comercializadas. Não pouca coisa e é justo que assim tenha sido.

O show foi organizado por Vera Brandes, de 17 anos, então a mais jovem promotora de shows da Alemanha. A pedido de Jarrett, Brandes selecionou um piano de cauda Bösendorfer 290 Imperial. No entanto, houve uma confusão por parte da equipe da Ópera e, em vez disso, eles pegaram outro Bösendorfer nos bastidores — um muito menor — e, presumindo que este fosse o solicitado, colocaram-no no palco. O erro foi descoberto tarde demais para que o Bösendorfer correto fosse colocado no local do show a tempo do concerto da noite. O piano que eles trouxeram era destinado apenas para ensaios e estava em más condições e exigia várias horas de afinação e ajuste para torná-lo tocável. O instrumento era pequeno e pouco agudo nos registros superiores e fraco nos registros graves. Os pedais também não funcionavam bem. Consequentemente, Jarrett frequentemente usou ostinatos e figuras rítmicas da mão esquerda durante sua apresentação para dar o efeito de notas de baixo mais fortes e concentrou sua execução na parte central do teclado. O produtor da ECM Records, Manfred Eicher, disse mais tarde: “Provavelmente Jarrett tocou do jeito que tocou porque não era um bom piano. Como ele não conseguia se apaixonar por seu som, ele encontrou outra maneira de tirar o máximo proveito isto.”

Jarrett chegou à Ópera no final da tarde, cansado após uma longa viagem exaustiva desde Zurique, na Suíça, onde havia se apresentado alguns dias antes. Ele não dormia bem havia várias noites, sentia dores nas costas e precisava de um aparelho ortodôntico. Depois de experimentar o piano e saber que o instrumento substituto não estava disponível, Jarrett quase se recusou a tocar e Brandes teve que convencê-lo a tocar, pois o show estava programado para começar em apenas algumas horas. Além disso, Brandes tinha reservado uma mesa em um restaurante italiano local para Jarrett jantar, mas uma confusão da equipe causou um atraso na refeição que estava sendo servida e ele só conseguiu beber alguns goles de água antes de ir para o concerto. Parecia que tudo ia dar errado e, no final das contas, Jarrett decidiu tocar principalmente porque o equipamento de gravação já estava configurado.

O concerto começou às 23h30. O horário tardio era o único que a administração colocara à disposição da jovem Brandes para um concerto de jazz — o primeiro na Ópera de Köln. O show lotou, com mais de 1.400 pessoas pagaram 4 marcos por cada ingresso. E vocês sabem o que é aquilo que ele faz com a mão esquerda logo no começo da música? Aqueles 4 toques meio solenes? Pois é, ele inicia imitando as badaladas do sino que abre a cortina da Oper Haus em Köln, que são inspiradas no toque dos sinos da Catedral de Colônia. Digo a vocês que, apesar dos obstáculos, a atuação de Jarrett foi… Bem, ouçam: É OBRIGATÓRIO.

Jarrett trouxe calma e lirismo à improvisação livre. Nada neste programa foi preparado antes que ele se sentasse para tocar. Todos os gestos e harmonias intrincadas, as linhas melódicas, os gritos e suspiros do homem, tudo é espontâneo. Embora tenha sido um concerto contínuo, a peça foi dividida em quatro seções porque teve que ser dividida para formar os quatro lados um LP duplo.

Pois bem, a partir do momento em que Jarrett dá seus acordes iniciais e começa a meditar sobre as harmonias, construindo figuras melódicas, combinações de glissandos e temas em ostinato, a música mudou. Para alguns ouvintes, mudou para sempre naquele momento. O som íntimo de Jarrett envolveu os ouvintes em sua busca por beleza e significado.

A genialidade de Keith Jarrett é demonstrada não apenas por seu claro domínio da tradição do jazz, mas também em como ele se desvia dela. A gravação de The Köln Concert demonstra a indefinição de fronteiras de gênero usando temas hipnóticos e improvisações sem fim, criando uma experiência quase religiosa para o ouvinte. Apesar de receber críticas desfavoráveis de alguns fãs de jazz mais conservadores, este álbum é certamente um testemunho do notável senso de improvisação, composição e espontaneidade de Jarrett.

Ainda me lembro do meu primeiro encontro com The Köln Concert. Eu tinha uns 20 anos e estava vasculhando as caixas de jazz e eruditos da extinta King`s Discos aqui em Porto Alegre. O Júlio, lendário atendente da loja, colocou um disco para tocar. Quando as notas de abertura começaram a serem ouvidas, pude sentir imediatamente a mudança no ambiente da loja. Os clientes ergueram os olhos e gradualmente concentraram sua atenção na música que saía dos alto-falantes. Então, algo inesperado aconteceu. Um cliente foi até o Júlio para perguntar o que era aquilo. E adquiriu o vinil duplo. Logo um segundo cliente fez o mesmo. O terceiro fui eu. Imaginem meu desespero se acabasse!

Eu ouvia muito jazz, mas o verdadeiro mistério era o motivo pelo qual os outros clientes, que estavam olhando discos de rock e pop, estavam comprando Jarrett. Uma coisa ficou logo muito clara: aquilo não soava como qualquer outra coisa no mundo da música dos meados dos anos 70. Mesmo quando comparado aos álbuns de jazz, o novo som de Jarrett era diferente. Nos anos 70, o jazz estava fazendo coisas pouco acústicas. Chick Corea e Herbie Hancock, por exemplo, estavam com os dois pés no piano elétrico e as bandas fusion pululavam.

The Köln Concert era o oposto. Jarrett não apenas tocava um piano de cauda (cada vez mais conhecido como piano acústico, naquela conjuntura, para diferenciá-lo dos teclados elétricos), mas também com um grau de sensibilidade e nuance que você não encontraria em outro lugar na música comercial. Ele até arrisca certo sentimentalismo, uma franqueza emocional que muitos artistas de jazz teriam se envergonhado de imitar — especialmente em meados dos anos 70, quando a ironia estava em ascensão como atitude cultural.

No entanto, nos meses seguintes, assisti com espanto ao The Köln Concert entrar na cultura mainstream, alcançando um público que eu poderia ter considerado imune ao apelo de um piano.

E Jarrett fez isso violando quase todas as regras da música comercial. As faixas do The Köln Concert eram longas improvisações de fluxo livre gravadas ao vivo em um recital na Alemanha. Elas careciam de estrutura. Pior ainda, eles eram longas demais para serem tocadas nas rádios. A abertura tinha 26 minutos de duração, e as próximas duas faixas tinham 15 e 18 minutos de duração. Apenas o bis de 7 minutos seguiu algo semelhante a uma forma de música divulgável, mas mesmo isso parecia um mundo à parte dos singles de sucesso do dia. Como tornou-se um tremendo sucesso?

Você pode pensar que os amantes do jazz aceitariam facilmente a música. Mas mesmo eles ficaram céticos. The Köln Concert evitava as síncopes e os sotaques familiares que permeavam os outros álbuns de jazz. Muita gente dizia que o disco não soava muito a jazz.

No entanto, de alguma forma Jarrett contornou tudo isso e conseguiu se tornar um sucesso através do método mais antigo de todos, o boca a boca, o contato pessoal com amigos que possuíam o disco. As vendas enormes nem sempre são recebidas com entusiasmo na comunidade do jazz e uma reação foi inevitável. A franqueza emocional da música e seu melodismo descarado deixaram o álbum especialmente exposto à crítica daqueles que sentiam que a forma de arte do jazz exigia algo mais abrasivo. Quando a horrorosa New Age floresceu alguns anos depois, houve inúmeros imitadores de menor talento imitando (e diluindo) a visão estética das improvisações de Köln e talvez até o próprio Jarrett se perguntasse “o que fiz?”.

Eu entendo as críticas dos jazzistas conservadores, mas não concordo com elas. Jarrett fez algo novo (e honesto) naquela noite. Ele criou um trabalho visionário que ainda chama a atenção dos ouvintes de primeira viagem hoje — da mesma forma do que naquele dia em meados dos anos 70, quando o ouvi pela primeira vez em uma loja de discos. A música se manteve, era na verdade muito melhor do que muitos dos projetos carregados de pose e que pareciam muito mais progressivos na época.

Claro, a maioria do público que descobriu Keith Jarrett com The Köln Concert nunca abraçou o resto de sua obra. Eu teria ficado encantado em ver Facing You ou o Concerto de Bremen ou os álbuns dos quartetos de Jarrett do período — e os de outros artistas de jazz merecedores — também encontrarem o grande público. Dessa perspectiva, a promessa de Köln nunca foi cumprida. Mas não podemos culpar Jarrett por isto. E ele certamente também não pode ser culpado por seus imitadores banais, ou repreendido por suas vendas. De sua parte, ele não almejava um disco de sucesso e, ao contrário de muitos de seus contemporâneos na cena do jazz, nunca fez a menor tentativa de impor uma tendência ou mesmo abraçar as fórmulas aceitas de discos comerciais. Além disso, nunca tentou recriar o ambiente especial daquela apresentação. Ele viu aquele dia como um evento único. Simplesmente confiou em sua música, em seu talento, e corajosamente se lançou. E, afinal, não é disso que trata o jazz?

.oOo.

Este texto estava há certo tempo no meu micro. Não sei exatamente o que é meu, o que é traduzido e o que é copiado. Simplesmente fui juntando e agora tratei de costurar tudo mal e porcamente. Há muita coisa minha, claro, mas peço desculpas antecipadas aos autores originais.

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A BBC elegeu as dez melhores orquestras do mundo atualmente

A BBC elegeu as dez melhores orquestras do mundo atualmente

Uma delas eu vi em fevereiro. Não me arrependi.

Orquestra Sinfônica da Rádio de Baviera (Munique)
Orquestra Filarmônica de Berlim
Orquestra do Festival de Budapest
Orquestra Hallé (Manchester)
Orquestra do Gewandhaus de Leipzig
Orquestra Sinfônica de Londres
Orquestra Filarmônica de Los Angeles
Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecilia (Roma)
Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam
Orquestra Filarmônica de Viena

Assisti 4 delas — Berlim, Londres, Concertgebouw — e a de Santa Cecilia este ano em Roma, tocando a 5ª de Mahler e outras cositas. Para quem, como eu, é apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, nem parentes importantes, está bom.

Orquestra da Academia Nacional de Santa Cecilia | Fonte: Wikipedia

 

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A vida pela frente, de Émile Ajar (Romain Gary)

A vida pela frente, de Émile Ajar (Romain Gary)

Do Resenha de Bolso.

Lançado na França em 1975, A vida pela frente é um romance ácido sobre temas contemporâneos e ainda necessários, como eutanásia e a disputa entre judeus e árabes. Escrito por Romain Gary sob o pseudônimo Émile Ajar, a história de um garoto muçulmano criado por uma senhora judia é um espelho partido da Paris pós-1968.

Vivendo em um prédio sem muitos franceses, rodeado de africanos, Mohammed precisa cuidar de Madame Rosa, a prostituta que o criou junto a outros meninos. Sobrevivente dos campos de concentração, ela tem pavor de ser diagnosticada com câncer. Entretanto, está com uma doença misteriosa que vai lhe deixando cada vez mais prostrada. Mas não é câncer, isso o doutor Katz, preocupadíssimo, garante. Sempre aplicando pequenos golpes e se refugiando nas zonas cinzentas da cidade, que chama de “aquilo ali” como se coubesse na palma da mão, o garoto não gosta de “causar pena nas pessoas”, já que é “um filósofo”, mas ainda assim nos conta suas misérias. E se a linguagem de Ajar/Gary é límpida, o mesmo não pode ser dito sobre as peripécias enfrentadas por seus personagens. Tipos verdadeiramente autênticos, quase saltando diante do leitor, eles parecem lutar para não serem apagados e sucumbir diante do pão que os diabos de todas as religiões amassaram.

É dessa fragilidade social, que transforma todos os homens em bichos e os obriga a se tornarem o que precisam ser, não o que estão destinados a ser, que nasce o nervo principal deste romance singular. Ao conseguirmos, concomitantemente, embarcar nos delírios de Madame Rosa e entender a interpretação absurda que Momo faz da realidade, cumpre-se o objetivo do livro: indagar no que a espécie humana se transformou.

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Boa tarde, Coudet (com os gols de Inter 2 x 2 Flamengo)

Boa tarde, Coudet (com os gols de Inter 2 x 2 Flamengo)

Paulo Cobos escreveu:

Escrevo esse texto minutos depois de Internacional e Flamengo fazerem o jogo do ano. E faço isso sem olhar as estatísticas. Não importa posse de bola, finalizações, etc. Elas podem até traduzir o que aconteceu no Beira Rio (ou não).

Mas o que importa é a aula de futebol que dois técnicos estrangeiros deram para seus colegas brasileiros.

Aleluia! Marcos Guilherme jogou bem! | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

O VT do empate de 2 a 2 deveria ser aula obrigatória para todos os treinadores nacionais. Se pelo menos um terço de todos os jogos realizados no Brasil fossem como este muito mais gente gostaria de futebol.

E não é por que foi um jogo em que todo mundo atacou. Coudet, com um elenco muito mais modesto, mostrou que é muito mais completo que Jorge Sampaoli. Seu Internacional sabe atacar, e defender (nesse ponto o Atlético-MG é bem fraco).

O espanhol Domènec Torrent mostrou de novo que tem personalidade. Não faz mal que ele herdou a máquina mais azeitada do futebol brasileiro. Seu Flamengo promete ser tão bom quanto o de Jorge Jesus.

Que sonho se todo domingo de futebol brasileiro fosse assim.

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Pois é. E a gente reclama das entradas de Pottker, Musto e Moisés… E talvez tenhamos razão, pois são umas nabas. Só que Rodrigo Caetano afirmou ontem, com ar de defunto, que é quase certo que o Inter atrasará os salários de outubro. Nas trocas, tínhamos que colocar Johnny, Leo Borges, Praxedes, Nonato, Peglow… Nunca os coitados que entraram ontem. E mais, hoje não era jogo para D’Alessandro entrar. A partida necessitava de força e nosso velhinho não conseguiu acompanhar.

Bem, quanto mais leio críticas a jogadores do Inter mais valorizo o trabalho de Coudet. Quase no final do 1º turno (18 jogos), ainda somos líderes.

Foi um mesmo um jogão. O time titular do Inter realmente sabe o que faz, mas quando entram os reservas escolhidos por Coudet parece o fim do mundo. Jogamos bem e deveríamos contratar, mas não há como. Os jogos da semana são fora de casa e viáveis de vencer. Resta saber como reduzir os danos de tantos jogos com um grupo tão reduzido.

Importante dizer que — além das habituais boas atuações dos conformados — Heitor, Abel e Marcos Guilherme jogaram muito bem, com destaque para o primeiro.

Sempre às 19h e fora de casa, pegaremos o Atlético-GO e o Corinthians — nunca esqueçamos dos árbitros que amam o Coringão — na quarta e sábado. É semana de jogar fora e de ver como Coudet irá usar o pequeno grupo do qual dispõe. Mas o homem é um baita técnico.

Fizemos um grande primeiro tempo. Eles tiveram melhor a bola no segundo. Muitas situações pelos dois lados. Com um rival desta hierarquia, necessitava concretizar as chances. É um rival com muito talento, é um timaço. Tivemos que mudar à medida do jogo. Trocamos a estratégia. Repito: não temos a sorte de contar com jogadores das mesmas características de quem inicia. Sabemos nossas limitações, mas que podemos dar um pouco mais. Temos feito um grande torneio. Não é fácil somar 35 pontos. É difícil falar agora. Estamos com a dor de escapar dois pontos no final, mas reconhecer que o Flamengo tem um grande time, com jogadores de muita qualidade. Quando troca, segue entrando jogadores muito bons. Os dois queriam os três pontos“.

Eduardo Coudet

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Boa tarde, Coudet (com os lances de La U 2 x 1 Inter)

Boa tarde, Coudet (com os lances de La U 2 x 1 Inter)

Após uma classificação sem brilho, jogando fora bisonhamente a possibilidade de um primeiro lugar e com os entregadores Musto e Cuesta mexendo no placar contra nós, pegamos o Boca Juniors nas oitavas. O sorteio foi horrível para nós e muito bom para o Grêmio. Nossa única chance de chegar às quartas-de-final era o sorteio nos brindar com o Nacional de Montevideo, o equatoriano Delfim ou o Guaraní do Paraguai nas oitavas. Veio o Boca, com o segundo jogo em La Bombonera. O Guaraní foi para o Grêmio. Parabéns, Inter. Parabéns, Coudet. Deu tudo errado.

Musto preparando um contra-ataque, contra nós, certamente | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

Ou seja, entrar com Pottker e Musto custou-nos muito caro. Caríssimo. E com isso falo sobre valores financeiros e de continuidade na Covidadores 2020. Se tivéssemos ganho o jogo de ontem, estaríamos no confortável lugar do Grêmio. Mas o Inter é assim mesmo: administra suas coisas burramente e mereceu a derrota de ontem para a fraca La U.

Desta forma, vamos sair logo da Covidadores. Espero que possamos dar uma atenção decente ao Covidão 2020 e a Copa do Brasil. E que Pottker vá para o Cruzeiro. Felipão gosta, nós não.

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Milton Saad e Milton Ribeiro no MSN (um ascendente do WhatsApp, pra quem não sabe)

Milton Saad e Milton Ribeiro no MSN (um ascendente do WhatsApp, pra quem não sabe)

Encontrei este diálogo por aí. É antigo, claro. Nem imagino de quando. Mas foi nos tempos do MSN, que era um ascendente do WhatsApp.

Eu e Milton Saad somos grandes amigos e às vezes tínhamos — digo no passado pois não nos vemos há muito tempo — conversas realmente malucas…

Saad – Apex diz:
MR

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
MS

Saad – Apex diz:
hoje à noite, como sempre, sonhei e adivinha só quem era o protagonista?

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
eu

Saad – Apex diz:
hehehe

Saad – Apex diz:
sim

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
O que fazia? Comia teu cu?

Saad – Apex diz:
não

Saad – Apex diz:
isso seria um pesadelo terrível

Saad – Apex diz:
te tornaste um escritor mundialmente famoso

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
Hã?

Saad – Apex diz:
uma celebridade internacional

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
que bom, agora só falta a obra

Saad – Apex diz:
estavas em todos os canais

Saad – Apex diz:
e eu dizia, “é meu amigo”

Saad – Apex diz:
eu te ligava, para confirmar, mas tu não atendia

Saad – Apex diz:
ninguém acreditava

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
hahahaha Pensando o quê?

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
nem te conheço, meu chapa

Saad – Apex diz:
estavas no programa do Jô. Eu liguei, o telefone tocou no ar, tu olhou e desligou o celular, eu disse: “viram, era eu”. Todos, até minha mãe, disseram: “não era nada, foi acaso”.

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
muito bom, hein? Que sonho.

Saad – Apex diz:
o meu pai dizia: “Não me lembro se algum dia tu falou sobre o Milton Ribeiro, acho que não!”. Bah, eu ficava furioso!

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
Que loucura. E que sacana era eu. Pô, mas eu te ligaria depois do Jô!

Saad – Apex diz:
pois é, sei lá. Liguei várias vezes, tu não retornava, porra

Saad – Apex diz:
tem que retornar

Saad – Apex diz:
é foda mesmo

M i l t o n R i b e i r o [] diz:
Fiquei famoso, sacumé. Devia estar ocupado com a Maria Fernanda Cândido, quem sabe.

Saad – Apex diz:
ahahahahahahahahaha

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Dois pesadelos de minha filha quando ela tinha 13 anos

Dois pesadelos de minha filha quando ela tinha 13 anos

Sonho 1

Ela vai com sua mãe e o irmão para uma realidade paralela. À princípio, ficam deslumbrados com a perfeição e beleza daquele mundo; mas logo notam que tudo ali é falso. O leite é de tinta, as bolachas são de borracha, o telefone é caramelado e comestível. Logo ficam entediados e querem sair.

Só que é complicado. É necessário entrar por um buraco, dar uma cambalhota, entrar por um segundo buraco para afinal cair na cartola que os levará ao mundo real. Eles decidem ir e o irmão gentilmente dá-lhe a chance de ir na frente. Ela vai; porém, no segundo buraco, depois que a cabeça e o tronco já passaram, ela é presa pelas pernas. O buraco fecha mais e mais. Dói. Ela acorda.

Sonho 2

Ela está numa competição de hipismo e dirige-se a um obstáculo. O cavalo salta e, quando cai do outro lado, não há chão. Eles caem longamente e, não suportando mais a angústia, ela solta-se do animal. Então ela vê o chão aproximar-se. Acorda.

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Balthus (1908-2001)

Balthus (1908-2001)

A gravura acima chama-se singelamente Guitar Lesson (1934) e causou certo escândalo ao mostrar uma púbere sendo molestada sexualmente por sua professora. A produção de Balthasar Klossowski de Rola, Balthus, não era nada bissexta, era antes copiosa, cheia de meninas em poses lânguidas. Porém, não se enganem, foi um imenso pintor.

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Atrás do balcão da Bamboletras (XXVIII)

Atrás do balcão da Bamboletras (XXVIII)

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Atrás do balcão da Bamboletras (XXVII)

Atrás do balcão da Bamboletras (XXVII)

— Boa tarde. Tem ‘O inferno somos nós’, do Valter Hugo Mãe?

— Não seria ‘O paraíso são os outros’?

— Ah, é mesmo! Mas é a mesma coisa, né?

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